11.13.2008

5 SENTIDOS

Que expliquem isso tudo como quiserem, mas o fato é que a maioria de nós é sensível à beleza, à lua por trás das nuvens, se entristece quando a chuva fica por tempo demais, toma banho de sol artificial no lado do globo que permanece mais tempo no escuro que no claro.

Cães nos respiram. Por que seus olhos miram fundo nos nossos enquanto isso, ainda que cientistas encontrem razões químicas, magnéticas, biológicas, permanecerá outro fato: cães nos respiram e nos miram no fundo dos nossos olhos.

Melhor ouvir químicos de perfumes. Fundamental será freqüentar floriculturas, perguntar onde colhem suas flores vendidas pelos olhos da cara em suas lojas. Literalmente, porque são eles, os olhos da cara, que se fascinam pelas flores, antes, logo depois ou ao mesmo tempo que nossos olfatos.

As cores.

Leia aí Platão ou Stephen Hawking, pregue o Gênesis na sua mesa de cabeceira, acelere as partículas, beba chá ou vinho. Principalmente, explique o deslumbramento e a afinidade que você tem com o mar.

A lua, o ser que não é, que somente reflete uma explosão que dizem vai durar ainda por algum tempo, está lá, visível, clara, cheia, as nuvens saíram da sua frente e ela se exibe inteira, distante, fria. Fria?

Uma moça toca um trompete. Um idiota está ao lado de outro em um carro em alta velocidade e põe a cara para fora da janela do carro e grita uma imbecilidade qualquer. Uma outra moça raspa uma tigela do chocolate que sobrou do bolo que a mãe fez. Uma velha excita-se, porque amanhã é dia de ir ao centro, centro do quê, alguém saberia dizer? Existe um?

Crimes passionais, armas passionais, jogadores passionais, corretores passionais, investidores frios. Neste momento, em controlado desespero; mas frios. Quentes são os executivos a seu comando, ambiciosos, incestuosos, fazendo-se de frios. Medrosos. Poderosos. Diplomáticos, serão alguns. Outros, não: raivosos. Outros, não: estrategistas. Cartas.

A lua? Apenas o ser que não é, que reflete, é um espelho, uma prisioneira, a girar em torno da outra bola que gira em torno da explosão que perdurará por algum tempo. E as explicações virão da aceleração, da fusão, da fissão, e você não saberá porque ficou excitado com o que viu, cheirou, ouviu, tocou, provou.

Se assim for, parabéns.

11.09.2008

O RATO. E O CURSOR.

O rato eletrônico
Fica à minha espreita.
O teclado à espera
Dos meus dedos.
Dois três deles batem nas teclas
O resto à espreita. Todos tortos.
Tanto os que batem como os que olham. Esperam.
O cursor piscando na tela
Que ele diga o que eu gostaria de dizer
Que outros gostariam de dizer e ler.
As palavras me faltam.
Não é diferente quando leio
Quando um livro uma revista uma bula
De remédio é o que eu escolho
Como não diferente é quando assisto a um filme
Um show humorístico
Um show de música
Uma peça
Um balé
Um jogo de futebol.
Em algum instante minha raiva
Minha ira incontida inconfessa
Meu humor
Meu amor sufocado
Há de respirar.
Miro o cursor piscando
Me falta o ar.
Sede tenho pela água a cerveja o vinho
Pelo corpo da amada
Pela mão da filha
Pela palavra do amigo
Pela baforada do cigarro dele
Pelo bom dia do vizinho
Do porteiro do farmacêutico.
De bairro.
De barro.
De mato.
De chão.
De mar.
Nesses tempos de GPS comprei uma bússola
Como todas
Defeituosa: aponta somente o Norte.
Não é do Norte que preciso nem do Sul
Não quero a latitude longitude.
Cursor! me traga
Meu rumo.
Garçom, por favor:
- Palavras.

10.30.2008

MARIA DO REASSENTAMENTO

Outubro de 2008, viagem ao sul do Brasil, com meu amigo Julio Pavese

Dürrenmatt, que pronúncia tenha seu nome,
Que palavras tenha usado,
Pensando em quem pensa em Deus,
Disse assim:
Tudo o que o homem sabe ouviu de outro homem,
O homem precisa do homem.

Maria concreta
Maria da catequese
Maria que já não é.
Maria do Movimento
Maria que já não se sabe se é.

Que é casada se sabe,
Que é bonita se vê,
Que fala um quase italiano se percebe.

Naquilo em que Maria crê
Só seus olhos dizem,
Mas, o que dizem os olhos de Maria?

Maria chegou da chuva
Descalçou suas botas na varanda – botas de borracha -
Entrou na casa da irmã,
Sentou, cruzou suas pernas nuas, contou:

Minha mãe se matou.
Quando viemos pra cá.
De depressão.

O que Maria não disse
Foi que a depressão tinha nome
O nome do pai de Maria.

Foi à polícia e deu queixa:
Meu pai abusa de mim.

O pai de Maria foi preso.

O pai de Maria está solto,
Longe, distante de Maria,
Longe, da irmã e do irmão de Maria.
Faz 20 anos que eles, irmão e irmã de Maria,
Toda noite, dormindo, sussurram:
Ave.
Maria.

10.28.2008

DEFUNTO, REDIVIVO E FURTADO

Eu já deveria estar na cama, pronto para dormir, mas, como interromper e, depois, deixar de comentar? Camila Pitanga, Deus do céu, o que foi que o Senhor fez, além da Perfeição? Paulo José, quantas profissões e sotaques mais você vai experimentar para se convencer de que você é ator, porque será que você não experimenta essa profissão, fica aí, tentando fabricar beliches? Fernanda Torres e Wagner Moura, por favor, me expliquem, afinal, o que é ficção? Será que o Tonico Pereira algum dia soube? Este Bruno Garcia, que não olha e olha para a câmera nas mãos do Zico do cinema de Bento Gonçalves disfarçado de Lázaro Ramos, vocês querem me fazer o favor de me explicar porque foi que a Janaina (Kremer) saiu do rio e não do mar? Ora, seu Jorge Furtado, você, seu menino com o isqueiro no bolso, a freira que sabe de seios, o papel jogado no chão para a propaganda, a lata, no rio não, mas no mato, sim, o clique, a idéia, o despertar e não a porcaria enlatada em discurso, e tudo isso lá, inclusive o discurso. A iluminada Marina, isto aqui, este fim de mundo vai atrair atenção, investimento, acho que os meninos vão gostar da deusa se parecendo com a Eva (foi o que pensou o Joaquim), a beleza vai salvar a natureza, ou sei lá. Da primeira tentativa, eu estava com sono, desisti de assistir. Meu irmão me perguntou, como, como pode? Agora, não. Sai da tumba, renasci. Saneamento Básico, seu Furtado, o senhor só por favor me devolva o sono, Furtado, o sono, que amanhã é dia de trabalho.

10.25.2008

PROTESTOS

Para começar, este blogue existe há mais de 3 anos. Só eu o visitei muito mais que 3 x 12 x 4 = 144 vezes. Portanto, não posso aceitar que, ao revisitá-lo, encontre: “1 visitas”. Pelo menos o contador poderia ter acertado no erro, informando: “1 visita”. E aí, perguntaríamos, nós, os não contados: - Quem foi?

***

Melhor que sejamos avisados, antes da próxima crise, que o dinheiro sempre esteve, está e estará à nossa disposição nos bancos centrais do mundo. Do contrário todos ficaremos outra vez perdendo o sono, tolamente, sobre nossos colchões recheados de dinheiro.

***

Todas as crises acabam. Graças a Deus, nós, não.

***

No litoral, o verão tem sido fiel: começa e termina regularmente, sempre à segundas-feiras. Já no interior fica o ano inteiro, ora com muita chuva, ora sem nenhuma. Deus é brasileiro; só não faz questão é de ir à praia.

***

Na TV, uma autoridade explicando que, nas eleições de amanhã, daremos mais um passo na consolidação da democracia. Democraticamente, desligamos a TV.

***

A História acabou. A História não acabou. Do Estado, para o Estado, pelo Estado. Do Mercado, pelo Mercado, para o Mercado. A Terceira Via. E você, que não vendeu sequer um único exemplar de livro defendendo qualquer dessas teses, ainda por cima, comprou muitos defendendo todas.

***

Caminhe pensando no futuro, se lembre do passado, analise o presente. Se não conseguir, entupa os ouvidos com fones. Ao olhar para trás para saber se a retaguarda corresponde ao front, não se esqueça dos postes, do tráfego e da vizinhança. Especialmente aquela que vê sem ser vista.

***

Ninguém é mais verdadeiro do que aquele que afirma agir de modo totalmente transparente. Ele – o transparente – é o vidro. De tão transparente, não aparece. Você não o vê, quebra a cara, e ainda pergunta ao porteiro se ele vai bem.

***

1 visitas: mariobenevides.blogspot.com.

10.21.2008

HETERÔNIMOS E INTERVALOS

Intervalo de jogo, intervalo de vida. Segundo Clarisse Lispector, a vida é isto, principalmente: a insatisfação dos intervalos. Não é racional ser torcedor. Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Meu time é bissexto e único - a deter maior história e mais histórias do que títulos. É oportuno dizer seu nome; e inconveniente.

Heterônimos não são um privilégio do Fernando Pessoa – ou dele, a eles, dar vida. Privilégio dele e seus heterônimos é ter definido o que o poeta é.

Por favor, torcedor, complete a frase:

O poeta é um fingidor. Finge...

Segunda questão. O poeta é:

a) Isso mesmo: um fingidor;
b) Um sonhador;
c) Fora da realidade;
d) O albatroz, do Baudelaire (príncipe das alturas, no chão, em meio à corja (!) impura, as asas de gigante impedem-no de andar);
e) Um mercador, em botequins;
f) Aquele que o engenheiro quer ser (todos os direitos reservados: Pablo Neruda);
g) O engenheiro, quando engenhoso;
h) Idem, quando menino de engenho (Viriato Correia, perdão pela metáfora; metáfora?);
i) Um botafoguense;
j) O que faz o laboratório da língua (João Cabral de Melo Neto);
k) Nem alegre, nem triste;
l) Uma parte, linguagem, outra, vertigem;
m) Um heterônimo.

Que o poeta Aldo Votto e seu heterônimo nos expliquem o que é um heterônimo, um poeta, um torcedor, um botafoguense.

E, principalmente, um intervalo.

E que acerte na resposta.

Que – principalmente – erre.

Arre!

mariobenevides.blogspot.com - o pseudônimo de um heterônimo.

10.11.2008

DEPOIS DESTA, EU JURO QUE EU PARO

Só mais uma. Uma só, e vamos embora, eu prometo. Depois desta, a realidade, o dia seguinte, de manhã e de tarde.

O brasileiro não tem memória. Por isso ele confunde nomes como Pelé e Garrincha, Gerson e Jairzinho, Zico e Falcão, Romário e Bebeto, Ronaldo e Ronaldinho. Por isso, confunde faces de Zezé Mota e Dina Sfat, Marília Pera e Fernanda Montenegro, Paulo José e Armando Bogus, Wagner Moura e Natchergale. Confunde Marta Rocha com Gisele Bunchen, Jorge Amado com Dorival Caymi, Chico Buarque com Caetano Veloso, Milton Nascimento com Fernando Brant, Sérgio Buarque de Holanda com Vinicius de Moraes, Tom Jobim com Villa Lobos, Darcy Ribeiro com Josué de Castro.

O brasileiro não tem memória está gravado no consciente coletivo, talvez porque Getúlio Vargas tenha voltado nos braços do povo, eleito em vários lugares ao mesmo tempo, desafiando a física e o razoável. O povo que o trouxe nos braços até o caixão é retratado por Jorge Amado em O país do carnaval, Cacau e Suor, por João Cabral de Melo Neto em Morte e vida Severina, coisa de quem confunde passado e presente, pois, se você, que não tem memória, reparar bem, esse povo continua andando por aí.

Brasileiro não tem memória a ponto de trazer de volta o Collor. Quem o trouxe de volta foi quem votou nele na primeira vez e de algum modo se deu bem, trocou de carro, foi para os Estados Unidos, se vingou intimamente de uns caras que lhe cuspiam na face teoria, cargo comissionado ou arrogância de rico ou pretendente a.

Brasileiro não tem memória a ponto de não se esquecer que o Getúlio foi um ditador, com direito a Polícia Especial, hedionda tanto quanto a tortura do regime militar. Não tem memória porque não esquece que o Collor implantou o regime da arrogância, confiscou depósitos bancários, liquidou com a liquidez e devolveu empregos perdidos em dezoito meses sem juros.

Brasileiro não sabe votar. Como se alguém no mundo soubesse. Imagine se dinamarquês soubesse votar e faria eleição assim mesmo. Imagine se houvesse um único indivíduo no mundo que todos dissessem, este, sim, sabe votar, ora, a ele delegaríamos o poder do voto único e coletivo; diríamos, vá lá, meu bom francês, inglês, americano, venezuelano, japonês ou brasileiro, vote por todos nós, porque só você sabe votar. Porque a democracia é exatamente o regime de quem NÃO sabe votar e, por isso, TODOS votam. Seu contrário - a ditadura - é definitivamente aceitar essa insuportável verdade e entregar os pontos, adorando temer e pendurando na parede um par de botas, coturnos.

Rimando coturnos com soturnos, paro por aqui, meu amor, como prometido; a saideira fica para outro dia, outra noite. Doravante, inventarei histórias ou as roubarei do cotidiano, legitimamente, eu juro. Na despedida, provo não ter exagerado e faço um quatro:

1 - O brasileiro não sabe votar;
2 - O mundo não sabe votar;
3 - Foi por isso que os gregos inventaram a democracia;
4 - O brasileiro TEM memória.

A ênfase, meu amor, fica por conta de, esta, ter sido a última desta noite. A saideira, como prometido, fica para outra. Vamos para casa; ao cotidiano; e tiremos dele o que houver de romântico, irônico, sem valor algum. Assim como essa, a última, que, na verdade, é e será sempre a penúltima.

A saideira fica pra depois.

10.07.2008

MACACOS NA PRAIA

Depoimentos de pessoal de cinema que filmou no Brasil apresentados no documentário "Olhar estrangeiro" incluem algumas pérolas, como a de quem pôs um macaco a passear entre beldades na praia de Ipanema. Questionado, o diretor retrucou: - Não há macacos em no Brasil? - e ouviu o, para nós, óbvio: na praia, não. Mas nenhum se compara ao comentário do ator Michael Cane: "Se vocês querem ser levados a sério, parem de fazer gente bonita e de ser alegres. Meu país faz um monte de gente feia, dificilmente demonstra alegria e sempre é levado muito a sério".

(Enquanto, por exemplo, uma Ana Miranda, para escrever Boca do Inferno, vai às últimas para pesquisar, narrar e recriar, o "olhar estrangeiro" sobre nós chuta, mistura lingua espanhola com a portuguesa, selva com praia, e... ganham mais dinheiro.)

Michael Cane, em seu comentário, foi, mais que qualquer outra coisa, inglês: usou do humor e da gentileza para se expressar e se desculpar por gafes cometidas por colegas seus de arte e profissão, das quais inclusive fez parte. Muito mais do que isso: tocou numa ferida exposta; num recorrente mal genuinamente brasileiro.

Não à toa a associação de alegria e sensualidade com falta de seriedade nas coisas vem de fora e associada ao Brasil - porque ela começa é aqui, no Brasil. A brincadeira do ator inglês mostra que humor pode ser muito bem associado a seriedade e, mais ainda, a deter poder, permanecer no poder, ser visto como civilizado e rico, ainda que os tempos do british empire já se tenham ido, sem sequer deixar, esquecidos, fraques, cartolas e bermudas com meias três quartos na Índia do Ghandi. A falta de seriedade, especialmente na condução da coisa pública, no Brasil, nada tem a ver com humor. Não passa de deboche, e deboche não pode ser confundido nem mesmo com humor ruim. É deboche, nada mais que deboche: desrespeito; sensação de impunidade.

Portanto, que não venham os debochados a nos roubar nosso genuíno e mundo afora admirado humor. Muito menos você, gente instruída, culta, ilustrada, a se deixar levar nessa onda debochada e desrespeitosa. Caso contrário, aguente firme - e pague para ver filme inglês com macaco passeando em Ipanema. Pague por isso mesmo: mico.

9.25.2008

O EXPLICÁVEL, O INEXPLICÁVEL E MINAS GERAIS

Cada vez mais se conhece dos dinossauros e menos de Minas Gerais. As pesquisas e escavações ainda não permitem saber se os dinossauros, seus parentes e contra parentes se reuniam ao redor de um fogão a lenha preparando um feijão e se provavam de uma cachaça do alambique do quintal do vizinho, enquanto as mulheres-dinossauros comentavam que os homens estavam bebendo demais e, por isso, bebiam licor de jenipapo, e se daí é que surgiu o conceito de Estado Nação. Também não se explica porque, no atual Estado Nação conhecido por Brasil, o maior de todos os parentes e contra parentes dos dinossauros nele encontrados o tenha sido em Uberaba, cidade que se encontrou - como se encontra -, não no divã do analista, mas em Minas Gerais.

Tudo tão inexplicável quanto o que ocorre em Varginha, que, apesar de Paris, é a preferida dos discos voadores, desde os mais espetaculares e amedrontadores aos mais carismáticos e aproximadores. É de se presumir que dentro deles também se achem fogões a lenha, meninos sujos de barro entrando de repente, derrubando leme, timão, panela e cachaça, meninas e suas bonecas de pano, senhoras e senhoritas dizendo NÓ!, rapazes e senhores de sobrancelhas juntas jogando sinuca e exclamando SÔ!.

O explicável, o compreendido, o tácita como explicitamente aceito, típico dos Estados Nações, é exibido na incontável série de dias e noites, inimagináveis até pela mais criativa das Sherazades, perdidos com crises e supostas soluções, barbáries expostas ao Estado inoperante, tudo dando a sensação de que melhor seria se o noticiário fosse exibido única e exclusivamente ao Estado; ao Império e seu desgoverno; às fronteiras invisíveis, suas crenças e ambições para e desde sempre incompatíveis; à irresponsabilidade, ora legal, ora à margem da Lei e, portanto, do seu arcabouço, que permite que indivíduos portem armas – e de fogo -, tornando-os capazes de homicídios e suicídios, da Finlândia à Flórida à Rocinha. Passando, aliás, por Paris.

Profissionais da notícia têm o dever, o direito e o ganha-pão de a nós nos denunciar as barbáries e irregularidades, para que todos delas saibamos e o Estado de Direito as coíba e as corrija; porque, se nós delas não soubéssemos, o Estado Nação de Direito não iria cumprir com seu dever, coibindo a barbárie, corrigindo as irregularidades e a ambas punindo. Somos as testemunhas fundamentais, aquelas que a tudo vêem, que a tudo escutam, que com tudo pasmam e sofrem.

Bernard Shaw diria: somos a consciência do Poder, - pois consciência é a sensação de que alguém vê o que estamos fazendo. Um novo Churchill surgiria, e afirmaria, com nova e emblemática frase, com outras palavras – in English, of course - que esta propaganda eleitoral gratuita-imposta-forçada-decorada-boçalizada está mais para anti que democracia.

Hoje, não. Hoje, pelo menos hoje, optemos por testemunhar a réplica montada no Rio de Janeiro do maior dinossauro encontrado aqui, antes que fôssemos Uberaba, Minas, Rio ou Brasil; que fôssemos fogão, barro, feijão, boneca de pano, cachaça; Nação Estado. Optemos hoje pelo próximo pouso em Varginha de uma nave de outra galáxia, carregada de compadres e contra parentes nossos e dos dinossauros; e tentemos, de uma vez por todas, explicar Minas Gerais.

9.22.2008

A CRISE

Do pré-sal ao colapso financeiro mundial, passando por Bolívia e Venezuela aqui ao lado, há um leque de opiniões e manifestações, de sábias a sabidas, sem esquecer a dos sabichões – sempre de grande impacto emocional, revestindo o mesmo conteúdo das mais sábias opiniões sobre a crise e o aquecimento global: ninguém sabe ao certo onde isso tudo vai dar. A não ser as capas de algumas revistas, cujas manchetes garantem que sabem, que mostram caminhos e soluções, a nos deixar perplexos quanto à burrice da maioria, especialmente a sabida, que ou não lê as revistas ou as lê e não as compreende.

O vendaval do crédito era mesmo feito de vento e, afinal de contas, de que são feitos os vendavais? E o que fazem os vendavais, a não ser nos dar a esperança de uma boa transformação e de verdade nos jogar areia e poeira nos olhos?

A crise de 1929 é o fantasma que arrasta suas correntes aos pés das camas dos casais e das mesas dos financistas e investidores, além de levar de roldão cama e mesa dos duros de sempre, Opa, cadê meu prato? Ih, minha casa voltou no mesmo caminhão do prêmio que a trouxe, Querida, aonde vai você, ah, aonde não importa, e sim com quem, tudo bem, mas de algemas, bem?

Somos ou não à prova de crise – é a questão do momento. Onde é que estávamos em 1929, alguém produziu um manual dela, que servisse para outras que viessem depois?

Há. Um romance de William Kennedy que virou um filme de Hector Babenco. Ironweed. No filme, Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais, dramas particulares, antigos, revividos nos anos da terrível depressão, e um magistral Tom Waits, figurante, interpreta um sujeito que, logo no começo, comemora: descobriu que tem um câncer.

A associação do pré-sal brasileiro com o câncer do personagem de Tom Waits seria de todo precipitada, ou pior: rasa - ao contrário das profundezas do óleo, não se sabe ainda se tão promissor quanto, desde já e tanto, festejado.

Mas uma coisa é certa: se as crises são dos bancos, quem sofre de medo, de dor, quem se dobra aos ventos, é arrancado e atirado às pedras pelos vendavais, somos nós.

Alguns, de algemas; outros, sem.

9.17.2008

DUAS MÃOS

Ela saiu poderosa do salão de beleza. De óculos escuros, jogou os cabelos para trás e atravessou a rua. Sem olhar para os lados. O barulho trouxe à janela cães e seus latidos, mulheres e suas rezas, senhores e seus jornais, adolescentes engolindo apressados e gordos sanduíches. Pouco movimento nas calçadas. No asfalto, sinais fechados nas duas transversais que dão início e fim à rua: momentaneamente, nenhum movimento de veículos. O motorista do táxi pôs a mão na cabeça, perguntou a ninguém, O que é que eu faço?

Em frente, um hospital de emergência, suas ambulâncias à porta. Um carro da PM estacionou atrás do carro velho do taxista com o pisca-alerta ligado. Um guarda se aproximou da mulher deitada no asfalto. Um outro dirigiu-se ao hospital. Ventou um pouco, folhas caíram das árvores. Os poucos transeuntes nas calçadas formaram pequenos grupos aqui e ali, à exceção dos que passavam com pressa ou indiferença. Carros que vinham na mão do atropelamento primeiro buzinavam indignados e, depois, ligavam o pisca-alerta e aguardavam a chance de desviar do acidente, lentos e furibundos. Na outra mão, os veículos dobravam a esquina em velocidade e, depois, a diminuíam, espiando detidamente o guarda, o taxista, a mulher no chão.

Enfermeiros portando maca e guarda-paletós metálicos, trazendo, ao invés de roupas vindas do trabalho, tubos com líquidos coloridos e incolores, atravessaram a rua e ajoelharam-se ao lado da mulher. Um deles a pegou no pulso, outros a puseram sobre a maca e a levaram para dentro do hospital. O PM que voltara com os enfermeiros de lá começou a apitar, mandando curiosos de carro ou a pé para onde bem quisessem, desde que longe dali; o outro e o motorista por profissão estacionaram seus automóveis, um à frente do outro, paralelos à calçada. E foram para o hospital.

Seis meses, três hospitais e algumas cirurgias depois, ela voltou ao mesmo salão. De beleza. Adoraram seu nariz novo. Desta vez, ao sair, não atravessou a rua. Seguiu pela calçada até a esquina mais distante e entrou na farmácia, porque estava com um pouco de coriza. De óculos escuros, jogando os cabelos para trás, saiu da drogaria e esperou sua vez de atravessar na faixa. Carros, apressados ou indiferentes, ignoravam sua presença esguia de mulher bonita e poderosa. Nas duas mãos.

9.06.2008

AINDA SOBRE A GUERRA

É gente ilustre que defende que o Brasil só progredirá se aqui houver uma guerra.

Curioso, porque gente ilustre teve – e tem - acesso à escola, à História, Geografia, Matemática...

A guerra uniria. Pense aí em supostas uniões decorrentes das guerras: a soviética; a alemã (isto é, sua desunião, só recuperada mais de 40 anos depois da Segunda Grande Guerra); tente, tente, vá em frente, você, acompanhado dessa porção de gente ilustre que quer – prega - a guerra.

A guerra desenvolveria tecnologia; ocorre que, sua ausência, também. Assim tem sido – ou não?

Mas, vamos ao Brasil, veja se o que falta ao país são mesmo as guerras: à sua história.

Foi guerra entre português e índio, português e francês, português e holandês, branco e preto; índios fuzilados nos anos sessenta e setenta do Século, qual, mesmo?, Vinte (ou agorinha mesmo, no Vinte e Um?); Guerra do Paraguai, Guerra dos Farrapos – com direito a degolas em série -, Guerra de Canudos; Revolta da Armada, Dezoito do Forte, Revolução Constitucionalista; o Brasil foi à Segunda Guerra, você sabia, gente ilustre? Sabia que morreu gente, naquela guerra? E gente brasileira, rapaz! Morre gente em guerra, ih, você nem sabia disso, - e morre violentada, decepada, sem perna, explodida, queimada. Duas ditaduras; guerrilha urbana e rural, repressão, tortura, meninas deitadas em um campo de futebol e soldados fazendo xixi em cima delas. Você sabia, gente ilustre? Se sabia...

Essa “gente ilustre” costuma dizer também que o brasileiro é passivo, que o brasileiro não tem memória; e tome estudantes pernambucanos, Tiradentes aos pedaços pendurados por aí, passeata dos cem mil, porões, edsons, vladimires enforcados, caras pintadas, tudo isso é passivo e sem memória, porque a história oficial a elimina, como elimina autores brasileiros das bibliotecas das escolas; igualmente porque há essa suposta gente ilustre que a tudo ridiculariza - mas, esta, atenção: já está devidamente catalogada nas bancas, livrarias e em laboratórios especialistas em parasitas.

A história acabou coisíssima alguma, porque a do Brasil, pelo menos, continua. Balas perdidas, balas achadas - em corpos infantis, inclusive. A guerra continua, percebe, gente ilustre? Pobreza medida a duzentos e cinqüenta reais por mês: quem ganha isso é pobre; menos que isso, miserável. Seja pobre com duzentos e cinqüenta reais por mês e grite, alto e bom som, Eu quero uma guerra!

O Brasil pode precisar de um monte de coisas para progredir; mas não é de guerra que o Brasil precisa, porque já a teve e a continua tendo. Não é de guerra, nem dessa gente que diz que a deseja, confortavelmente, em seus pufes, frente às câmeras, sorrindo, debochada, balançando-se, como a sofrer de hemorróidas ou a tentar, inutilmente, unir, sem guerra, seus dois únicos e inúteis neurônios. Não, não é de guerra, nem desse tipo de ilustre que o Brasil precisa.

8.31.2008

A GUERRA É NECESSÁRIA

A afirmativa sempre é feita por quem não está de capacete nem na linha de frente.

Pense em um verso de amor e o suponha inspirado pela separação causada pela guerra, ou mesmo com a certeza de que assim o tenha sido. Agora, pense nele novamente, eliminando da sua gênese ou essência a guerra. O verso sobreviveu - e me prenda se assim não tiver sido.

Picasso não deixaria de ser Picasso sem Guernica – nem Guernica y Luno deixaria de existir sem Picasso. Ou Franco. Nem Lorca sem este e nem a Galícia sem eles.

Pense em um ato de tortura e perceba que, da guerra, ele não depende. Em um estupro. Pense nele - você, capaz ou não de o cometer – e verá que a guerra não lhe é ingrediente indispensável.

Em uma invenção. Vale a pena investir um pouco mais, aqui. Reflita: afora tanques, bombardeiros, me responda, sem pressa, se navios, aviões, automóveis, cavalos, camelos, bicicletas, lambretas, pontes, bengalas, chapéus, uniformes, sapatos, botas, computadores, muletas, se da imaginação teriam sido esquecidos se dela a guerra não fizesse parte.

Homens sofrendo de abstenção sexual deixariam de invadir uma casa se não houvesse a guerra? Mulheres precisando de dinheiro e percebendo a chama sem fogo nas entranhas aguardariam a guerra para sua satisfação? Filhos bastardos surgem somente na guerra? O que você vê na tv, longe, bem longe do seu cotidiano, tapas, socos ingleses, cabeças vivas dentro de sacos plásticos asfixiadas até que, delas, indissociáveis bocas balbuciam o que o dono do saco quer ouvir; sacos, seios queimados por cigarros, humilhações as mais imaginosas, algo disso precisava de uma guerra?

Um tarado, um tratado, uma traição, uma conversação, uma fronteira, uma convenção, tal e qual um verso, da guerra não precisam - e me prenda se eu estiver errado (mas me prove).

Uma grande indústria fabrica armas em escala mundial. Evidentemente, não há parasita sem quem o alimente. O que seria da indústria armamentista se não fosse a guerra? Chore você por essa perspectiva, a da morte sem guerra da indústria da guerra – e perceberá que, até mesmo ela e seus produtos, tanques e bombardeiros, seus empregados, sem a guerra, todos sobreviveriam. A maldade sobreviveria, assim sua ameaça. O progresso permaneceria, tal e qual o atraso. O respeito e o desrespeito: tudo resistiria à ausência da guerra.

Quem defende a guerra como algo indispensável – ou pontualmente necessário – precisa fazê-lo com o capacete certo, adequado àquilo que lhe ocupa o cérebro.

Um pinico.

8.21.2008

MADE IN BRAZIL

Meu caro amigo Enrique:

Eu, na praia do Leme, com menos de 15 anos, como se fosse, agora, amigo de escola das nossas filhas, de peito, de cabeça, de letra ou sem querer, colocava na gaveta e afirmaria que, se Nelson Rodrigues houvesse consultado o Sobrenatural de Almeida, não teria afirmado, como afirmou, que Antônio Callado era o único inglês de verdade. Lá, onde a coruja dorme, teria deixado escrito:

- Há um segundo: ele se chama Enrique.

Fato é que você, London, London, no centro do mundo financeiro, comandante de transações transnacionais, sempre correto, sempre rigorosamente observando e respeitando as leis e as leis de mercado, como inglês de verdade e Made in Brazil, não consegue deixar de ser notorious às vistas da Scotland Yard. As a matter of fact, sequer se esforça a escondê-lo.

Você foi flagrado: um raro como legítimo botafoguense.

O agente da Scotland, de súbito revelando o secreto chapéu coco sob o arranjo de jardim que secularmente brotou na cabeça dele, sobrepondo-se ao rubro tórax cheio de dourados botões, guardiões do palácio de Buckingham, brande sobre sua brasileira e botafoguense face o britânico distintivo - que venta terríveis, tamisentos, brumosos ventos. Acintosamente, ele acusa:

- Filipão is ours, thank you very much, sir.

E você, inglês de verdade, segundo e único, altivo, seguro, afirma:

- O Botafogo está no G4 do brasileirão. Ocupa agora o 3° lugar. Hoje, quem perdeu do fogão foi o Cruzeiro; domingo passado, quem, mesmo? I bag your pardon, Mr. Policeman: I do not remember.

Mr. Scotland joga ao chão seu chapéu coco e se retira. Nelson Rodrigues entra em cena trazendo Shakespeare pelo braço, um, em tricolores, outro, em rubro-negras vestes. Uma faixa preta com uma cruz vermelha surge do nada, cheia de bigodes. Baixa o pano e, neste, se lê, preto no branco:

FIM DO PRIMEIRO ATO.

Alvinegros abraços,

Mario.

8.02.2008

SÁBADO, HOJE, AGORINHA MESMO

A previsão era chuva e de fato o dia começou com um vento Sul daqueles, chuva, frio. De repente, o Nordeste – o vento que leva seu nome porque é de lá que ele vem. Mudou tudo: um início de tarde ensolarada, quente, o apartamento se torna opressor, vamos para a rua, caminhar na Beira Mar.

Devagar, por favor. Se a caminhada tem como um dos objetivos queimar gorduras e toxinas, hoje, tudo o que menos se quer é objetivo. É dia de adjetivo, dos mais banais, batidos - lindo dia, lindo mar, puxa, que sol maravilhoso. Uma gaivota tem seus dois pés de gaivota sobre as costas de outra gaivota, um duplex de gaivotas na areia mirando o mar da Baía Norte de Florianópolis. Mais adiante, uma outra sobre a pedra admira a regata, lá fora, perto do continente; estamos na imensa Ilha de Santa Catarina.

De repente, um casal visivelmente humilde, duas crianças, seu cão, que desconhece humildade e soberba, sabe o que é bom: o mar. Poluído? Para ele, não - negro cão, pelo curto, descendente de labradores, invejável vagabundo. O pai de família, seu casaco quadriculado de descendente de lavradores, fora de lugar; a mulher, mestiça, a corrente que serve de guia ao cão quando ele precisa pertencer à outra raça – a humana – brandindo nas mãos. Ele, o pai:

- Um tarado, filho da puta, com o pinto na mão, estava no banco se exibindo para menino pequeno. Um tarado, filho da puta, desrespeitou minha família, tem que prender.

- Onde ele está?

- Foi embora, foi pra lá, tem que prender ele.

A mulher:

- Eu dei com essa corrente nas costas dele, ele saiu correndo.

Vamos embora, vamos em frente, vamos, porque já íamos, na mesma direção do tarado, que já deve ter sumido. Cadeia, para ele, será pena de morte; manicômio judiciário, o que seria? Cortar o pinto dele, seria boa sugestão? Mutilar seu cérebro?

Anos antes, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, um camarada masturbava sobre o banco da bicicleta parada. Uma moça, despachada e revoltada, disse a ele:

- Cara, vai procurar uma mulher de verdade! – e o tal cara pôs seu objeto de prazer solitário e ostensivo, invasivo, para dentro das calças e se foi, pedalando – não se sabe se para, de fato, procurar uma mulher de verdade.

Uma água de coco. Um gaúcho, muito educado, é quem conta que a manhã começou tenebrosa e depois veio o vento Nordeste, mudando sua história. Um policial passa devagar com sua moto na ciclovia; é notificado. Sobre o tarado. Sobre a família ultrajada e ameaçada, seu nobre cão vagabundo e contente, sua mais marcante referência.

É hora do almoço.

7.19.2008

LINGUAGEM CIFRADA

Pode estar certo de uma coisa. Se alguém começar uma conversa com um “Eu sou muito franco”, você não vai gostar do que vai ouvir. O que está a caminho, na seqüência, é maldade. Se o tom for de pergunta – “Posso ser franco?” – você ainda terá a oportunidade de responder: - Não. Gosto mais da sua costumeira hipocrisia.

Outra coisa. Quando você for chamado de “você” por um estranho, estranhará a intimidade. Já se for chamado de “senhor”, pedirá, Por favor, me chame de “você”.

Meu caro: quando você for chamado de “Meu caro” – pessoalmente, cara a cara, na bucha, olho no olho, na lata, ou, mais ainda, quando o olhar de quem dispara o “Meu caro” mirar o infinito ou o esgoto da vida – tenha certeza de que “caro” é o que você não é.

Uma pergunta: algum amigo seu dirigiu-se a você começando a frase com “Meu amigo...”?

“Meu amigo”, muitas vezes, começa com um “Escuta aqui” ou “Olha aqui” – e sua vontade - diga a verdade - é de perguntar, “Aqui, onde? No meu punho fechado?”. Ou não é?

Já viu mulher se dirigindo a outra com “Oi, amiga”? Pode trocar o “amiga” por “querida”, como somar “mm”, “mm”, de uma troca de dois beijos nas bochechas, e continuar à espreita, porque a troca entre elas é de flechas e está só no começo – e arcos femininos podem ter todos os defeitos, mas são os mais bem feitos da natureza.

De modo que... Posso ser franco? “Pois sim” é não e “Pois não” é sim. E você, o senhor, você, tio, que sabe disso desde sempre, ainda acredita que eles serão presos?

Ora, francamente...

7.12.2008

UMA ENTREVISTA

Aos nossos caríssimos amigos de Florianópolis e arredores,

hoje, às 21h30, com repetições tb hoje às 23h30, amanhã, domingo, às 16h15, terça às 17h30 e quinta, 00h30, será exibida uma entrevista minha para o jornalista Fernando Mansur, no programa Momento Temperado, TVCOM, canal 36, sobre meu livro "A revolução do silêncio". Será uma honra tê-los do outro lado da sala. Maiores informações sobre o programa no site www.momentotemperado.com.br.
À Adriana Prates, que me apresentou ao Fernando e agendou a entrevista, mais uma vez, muito obrigado.
Abraços,
Mario.

TRISTE FIM DE QUIDE-QUEDE-O-QUÊ

Quide, um brasileiro,
Partia para o abraço,
Percebeu a chegada aflita
Da comparsa, doce amada.

Metralharam um menino de três anos
- Ela disse a ele.
Ele, que era metáfora,
Virou realidade, assim, súbita, cruelmente.

Encerrou sua jornada,
Voltou com sua cúmplice namorada
Pacífica, estarrecidamente, para casa,

Triste casa,
Pátria
Dos apátridas.

6.17.2008

SONETO NÚMERO TRÊS DE KID, UM BRASILEIRO

(COM DIREITO A PARÊNTESES PARA UMA BREVE INTRODUÇÃO)

(Houve tempo de abandono;
Sua companheira
- Sabe quem? -
Era uma coceira.

Houve também o tempo
Da comparsa pendurada,
Bicho-preguiça
Balançando-se na árvore.

Hoje, sua cúmplice-parceira
É humana e feminina
E - portanto - valente.)

Resoluto, direto ao encontro dos que vêm,
Quide ligeiro se volta à comparsa e responde:
"Farei de tudo para almoçarmos juntos".

6.16.2008

SONETO NÚMERO DOIS DE KID, UM BRASILEIRO

No esconderijo,
Olhando pela brecha,
Enquanto Quide-quede-o-quê
Partiu pro abraço -

Quide está lá, do lado de fora,
No momento em que,
Perigosamente,
Eles se aproximam -,

Ela, sua comparsa,
Coça o ventre,
Toma um banho e se penteia,

Sai pra fora,
Enfrenta vento, calor e chuva
E pergunta, - Quide, almoçamos juntos?

6.04.2008

SONETO NÚMERO UM DE KID, UM BRASILEIRO

No esconderijo,
Olhando pela brecha,
Enquanto a comparsa,
Tranqüila, dormia,

Aflito,
No momento em que,
Perigosamente,
Eles se aproximavam,

Kid, por extenso,
Em Português,
Quide-quede-o-quê,

Saíu pra fora,
Enfrentou vento, calor e chuva
E partiu pro abraço.

5.23.2008

ESQUINAS E BARES, MEU AMIGO JOÃO

Amigo João:
As telecomunicações explodiram-se
Na razão da expansão do universo
Na proporção inversa da razão.
Os botequins e as esquinas
Afastaram-se
Na velocidade do engarrafamento.
Como você fez questão de me ensinar,
Os botequins e as esquinas ainda existem,
Meu amigo João.
A melhor inspiração
Da estátua da liberdade
- alguém erguendo a mão, dedos estrelados, chamando o garçom –
Permanece,
Meu amigo João.
Amigo João:
Da próxima vez
Que eu me aproximar de São Paulo,
Numa nave antiga ou moderna,
Cego que sou,
Necessariamente guiado por um cão,
Farei sinal a um táxi
Irei direto à questão:
Quero beber alguns chopes
Na companhia do meu amigo João.

5.20.2008

CLARICE E VANDERLÉIA



“Mas a vida humana é mais complexa: é a busca do prazer, seus temores, e, principalmente, a insatisfação dos intervalos.”
(Clarice Lispector, "Perto do coração selvagem".)
“Senhor juiz... Pare! Agora...”
(Vanderléia, nos tempos da Jovem Guarda)

Sete e meia da noite. O alarme de um estacionamento dispara. Toca repetidamente seu som insuportável de alarme. Se ladrão houve, já se foi faz tempo.

Sete e quarenta e cinco. Polícia, por favor, pare! Agora. O alarme. Aqui é da Federal, favor ligar para a Civil.

Sete e cinqüenta. Polícia, por favor, pare! Agora. Aqui é da Civil, favor ligar para a Militar.

Sete e cinqüenta e cinco, Aqui é da Militar, senhor, não podemos fazer nada, a não ser uma ronda.

Oito e cinco. Parou o alarme.

Oito e quarenta. Silêncio na casa. Ela chegou e interrompeu.

Dez. O cachorro chegou e fez uma festa danada, pulou no colo e tudo. E voltou para perto dela.

Onze. Um filme na TV, uma entrevista, tudo ao mesmo tempo. A menina com o livro nas mãos diz em voz alta o texto impressionante. Para ela.

Meia-noite é solidão e todo mundo sabe. A tal ponto que gira sozinho em torno do sol que dorme.

Quem quiser que acredite: meia-noite e quinze: o alarme voltou a tocar.

Quem quiser que acredite: no exato instante de nova chamada para a Militar, que promete tomar providências, o alarme volta. A parar.

Se ladrão houve, nos roubou a noite.
Curioso: fechada a janela, abriu-se o amanhã.

5.13.2008

UM BELO FILME

ROMA, um nome de mulher: este, o título do filme no Brasil. Na versão original, ROMA. Roma é portenha, descendente de italianos, mulher de um boêmio, de carne e osso, ela, professora de piano, mãe libertária de um futuro escritor, que se muda para a Espanha nos anos 70, ditaduras militares em curso na América do Sul. O que se conta é o passado, - a parte mais especial da vida do escritor em sua Buenos Aires, quando, já há muito radicado em Madrid, tem mais do que os seus sessenta anos, é homem difícil, rabugento - e bom. Eles existem; como existem belos filmes.

Dizer mais, não digo, porque não quero contar o filme; porque não tenho mais nada a dizer, a não ser que assisti a um belo filme, com excelente elenco, roteiro inteligente, passada sensível, espanhol bem falado, castiço e portenho, diferenças sutilmente sublinhadas.

Em DVD.

Buenas noches.

5.11.2008

DIAS DAS MÃES

Pois é, meu blog amigo,
Meu Rio antigo,
Faz tempo não nos falamos.
Permaneço aqui, nesta ilha imensa,
Onde o mar
Felizmente
Imenso
Permanece.

Anoitece.
Hoje – agora - é noite de domingo.
Por isso,
Rimo;
Remo
Contra a maré
Do frio,
Do inverno.

Quando rima é o que eu quero,
Rima é o que não me vem.

Hoje
É dia das mães.

Almoçamos fora,
Fomos a um restaurante -
Privilégio, blog amigo,
Saudades, Rio antigo.

Rio moderno
Da Rua do Lavradio
Rio
Das soluções
Tardio.
Vencido,
Rio,
Vencido?

Não pode ser,
Hoje
É domingo
É dia das mães,
Rio,
Você, Rio, minha mãe.

E meu pai.

Florianópolis,
Deus te abençoe,
Te faça percorrer caminhos
Que te levem à semelhança com o Rio
Só naquilo
Que o Rio tem de bom.

Fale mal do Rio,
Florianópolis,
Mas nos faça um favor:
Faça diferente.

Não empilhe pobre no morro,
Não seja assim tão brasileira
De mera observação.
Seja brasileira
De criatividade.
Invente-se a si,
Florianópolis,
Reinventando até o Rio,
Reinventando até o Brasil.

Rio,
Florianópolis,
Brasil,

Façam-nos o favor
Do nosso renascimento:
Afinal
Hoje
É dia das mães.

Queremos renascer
No colo amado.
No lugar da rima,
O impensável:

O mar
Moldura
Da dignidade
Individual
E coletiva.

Hoje -
É dia das mães.

5.01.2008

POEMELHO NO ESPELHO

Quem vence a inflação
A recessão
Toda porcaria
Quem fica sem emprego
E vota
Ou não vota
Quem suporta
Quem agüenta
Principalmente a hipocrisia

A demagogia

Quem vai à guerra
Morre por Deus
Ou a Democracia

As estupradas
Os violentados
Os de pernas arrancadas
Os de barriga vazia

Os que assistem à TV

Todos

Que aplaudem
Vitórias suas

Postas

Nas estatísticas,
Nos índices,
Nos discursos,

Pode ser que um dia
Bem cedo acordem
Como fazem todo dia

Se olhem no espelho e digam
- Cada um às suas próprias remelas -

Todas essas vitórias são
Foram

Minhas.

4.27.2008

CRÔNICA DE UM CASAMENTO – E DE PRIVILÉGIOS

Começa que, na casa do Luiz, almocei um estrogonofe preparado pela Beatriz, só comparável ao da Lygia, da Tereza e da Glorinha. Saber quem são essas personagens, como outras aqui citadas, é privilégio de poucos – e os que não o têm, claro que têm o de conhecer outras que nós não conhecemos; portanto, deu empate: vamos em frente. (Algo que anda esquecido por aí: personagem é feminina, como imagem, reportagem...)

A igreja foi a da Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Rio de Janeiro. É mesmo de se lamentar que o descaso das – ditas - autoridades vá a tal ponto de não perceberem que a geografia privilegiada mereça reverência, respeito e cuidado - o exato contrário de pobreza, falta de educação, crime e dengue. Mas nem de estrogonofe nem de dengue, muito menos, de malditas autoridades é do que se fala aqui – e, sim, do casamento da Luciana e do Ricardo. E de certos privilégios. Por exemplo, o da companhia da avó da noiva, Dona Mariana, e seus 80 e alguns e generosos anos - para com os outros, sempre. Na casa dela, há uma varanda onde... Fica pra outra, esta, imensa de histórias, varanda.

Chegando na Glória do Outeiro - moro em Florianópolis -, justifiquei a ausência da minha mulher e da minha filha e comentei que a primeira comprou um CD do Zeca Pagodinho e, ao invés de ouvi-lo alto e bom som no aparelho da sala, preferiu tocá-lo num desses portáteis, só encontráveis atualmente em fundos de armários e feiras suspeitas. Fui mal interpretado e fiz questão de deixar claro: eu e ela gostamos muito do Zeca Pagodinho – e eu, mais ainda do que ela, de torresmo e farofa.

Privilégios.

Antes da noiva chegar, começou aquilo que, se fosse um filme, seria chamado de trilha sonora. Eu estava ao lado do meu irmão – o Luiz – e da Gisele, a mulher do pai da noiva – que disse assim: “É Vivaldi, não?”. Eu respondi: “Sim - as 3 estações”. Meu irmão, prontamente, me corrigiu: “Mario, as estações são 4”. Eu justifiquei: “Os aparelhos lá de casa só pegam 3”.

Chegou a mãe da noiva, bonita, e eu a pensar, mas este meu amigo André, pai da noiva, é mesmo um privilegiado, de ex e atual mulher tão lindas. Não vou citar aqui tantas mais personagens e suas inconfundíveis personalidades, porque não caberiam – na crônica, sim, caberiam, mas, na minha memória, falta um pouquinho mais de espaço (o de uma varanda, mais precisamente).

A noiva chegou. Linda, sim, senhoras e senhores. Seu pai, meu amigo de quase infância, nervoso, deu duas tragadas em um cigarro e o engoliu aceso. Um padre simpático, que, segundo o Luiz me disse, ultimamente vem freqüentando tv e arredores, inclusive encontros onde ninguém entende a língua do outro e, por isso, todos se comunicam em Latim, mencionou a data da fundação da Igreja e comentou que, no apagão energético mais recente – não confundi-lo com o ainda mais recente aéreo, mesmo que este fosse, como se verá, pertinente -, disse que a luz do Redentor, naquele apagão energético, ficou parcialmente acesa por ter a estátua fincada no Corcovado se tornado, já tão cheia de significados, também uma referência para os pilotos de aviões. Depois, desculpou-se: “Eu sei que o departamento, aqui, é outro”.

Explique-se, para quem não estava lá: o noivo, Ricardo, é oficial da Marinha.

E poeta.

Quem pensa que este negócio de engenheiro se meter a escrever poesia tem alguma coisa de interessante, pode embainhar a espada: Ricardo, com seu uniforme azul-marinho, cheio de botões dourados, o sotaque devidamente usurpado da corte portuguesa e melhorado, recitou belo poema de sua autoria para sua amada, enquanto corria solto e bem servido coquetel.

Antes, porém, Billy, cunhado do André, cumprimentou, ainda no pátio da Igreja, o Rubens. Este, ligeiramente indignado, perguntou ao Billy: “Por que você não falou com a Henriette?”. Billy, prontamente, respondeu: “Rapaz, eu pensei que ela fosse uma desconhecida japonesa”. E, pensando bem, Billy estava certo: Henriette, namorada do Rubens, é, de fato, uma gueixa. Naturalmente que Sartre e Simone de Beauvoir estranhariam: “Uma gueixa francesa, como?”. Ocorre que, como bem Simone disse, todos os homens são mortais, - muitos deles, inclusive, flamenguistas - e ele, Sartre, muito gostaria de ter dito, uma gueixa que se chama Henriette é a prova máxima do existencialismo.

Assim partimos, da Igreja para a recepção, na OAB – Ordem dos Advogados do Brasil -, eu, Luiz, Rubens e sua gueixa francesa. Lá chegando, serviço de primeira, Erasmo e Fátima (irmã do André) a me cobrar, “Como você não trouxe a Rosa e a Maria Luiza?”, e eu, de novo, a tentar explicar que somos escravos de agendas, trabalho e milhagens, Luiza, mulher do Antônio Júlio (irmão do André), a fazer campanha para presidente, não me lembro se do Jóquei ou da República e, pensando bem, não faz muita diferença, já que o desta já tem seu terceiro inconstitucional mandato garantido, a depender apenas de uma inconstitucional alteração da Constituição, Lúcia (irmã do André), sem disfarçar sua expressão de mais para Santos Dumont que Congonhas, Marina (irmã – adivinha – do André) e seu marido Billy a dançar – e acho que a música era dos Beatles - Charles Aznavour – que o Billy garante ter encontrado no Rio Sul, e, mais, que não o confundiu com japonês nem japonesa -, André, pai da noiva, aproximou-se de mim, do Murilo e do Rubens, Gisele, mulher do André, nos acompanhando. O filho do Murilo veio com a namorada: ele, surfista, futuro engenheiro de produção, e ela, futura arquiteta, espaço que te quero humano, assim brindei e brinquei com eles.

Murilo bebericava seu uisque, e sua mulher, loura de olhos azuis, Eliana, depois de me dizer que eu ganhei na loteria ao me casar com a Rosa, e eu, como sempre, concordei, apenas ainda não fui buscar meu prêmio na CEF por ser um tanto distraído, Eliana disse ao marido Murilo que moderasse nas doses do Grant’s. Eu disse a ela o que já digo faz tempo à minha loteria, digo, mulher, Rosa: “Beba o necessário para não perceber o que seu marido bebe e o suficiente para depois dirigir nosso automóvel”.

Neste exato instante, Antônio Júlio, o irmão mais velho do André, fez questão de tirar uma foto nossa: de mim, André, Rubens e Murilo, amigos de mais de 40 anos – de amizade: de idade, passamos pouco mais de 10 desse número. Sentindo falta do Venâncio, que mora em São Luiz do Maranhão e não veio, eu disse: “Sou o Dartagnan dos 4 mosqueteiros”. Meu irmão, mais uma vez, me corrigiu: “Mario, os mosqueteiros eram 3”. Eu expliquei: “Lá em casa, os aparelhos pegam 4”.

Quem duvidar de tudo isso, que pergunte ao general Grant’s. Aliás, general, não: almirante. Almirante Grant’s.

Felicidades e agradecimentos por tantos privilégios aos noivos,
Mario.

4.18.2008

A HISTÓRIA DE UM PASSARINHO

Ela gritava demais, interferiu, na hora errada. Nós não estávamos nos entendendo, gritávamos um com o outro, e ela chorava, gritava, berrava. Insuportável. E aí você perdeu a cabeça, o que foi aquilo, você, suas mãos, seus pulsos retesados, sua unhas? Nunca vi você assim. Ela parou de gritar, está esquisita, o que fazer? Agora, ela ficou quietinha, finalmente. Quietinha. Um buraco, vamos, joga ela, joga lá embaixo, alguém jogou ela daqui de cima, foi ela que se jogou. Ela caiu. Alguém entrou aqui quando ninguém estava, foi isso o que aconteceu. O supermercado, alguém fez isso, não fomos nós. A mãe dela, olha a mãe dela, na tv. Um monte de gente, na tv. Não fomos nós. Não fomos. Nós.

4.17.2008

TRINCHEIRA

Quieto.
Fique
Quieto.
Permaneça
Quieto

Absoluto
Silêncio
Absoluta
Inoperância
Quieto.

A vida às vezes é uma trincheira.
O inimigo à espreita
Somente espera
Que você se mexa.

Quieto
Permaneça
Quieto.

Geralmente as granadas
São feitas de merda;

Não vá se sujar à toa.

AGORA, ANTIGAMENTE

E porque somos dois solitários
E nada sabemos um do outro

Porque me dás alívio
Só ao te perceber daqui de longe

Porque não és a lua
E com ela penso rivalizas

Porque te imagino
Imaginando a mim

Tão longe
Tendo o vento noturno como único amigo
Solitário amigo feito nós dois

Fico antigo desse jeito
Moderno tão somente
Porque te vejo de um apartamento
Casa em cima de casa

Vênus planeta feminino
Fingindo-se de estrela
Solitária estrela

Te agradeço e te venero
Boa noite
Solitária amiga
Que se finge de planeta.

4.02.2008

ENTRANDO NA POLÍTICA

Entrar na Política é fácil. Há três portas de entrada: uma à esquerda, outra à direita e uma bem no meio das duas, onde está escrito “CENTRO”.

Escolhida qualquer uma das portas, é acessado um corredor que inevitavelmente leva o ingressante a um salão oval – que não deve ser confundido com aquele que fica em Washington: estamos em Brasília.

No salão oval, há uma porta onde se lê “COZINHA”. O cheiro de pizza é inconfundível. Numa segunda e contígua porta, lê-se “BANHEIRO”. É necessária alguma atenção ao transpô-la, pois só lá dentro é que é feita a tradicional sub-divisão “MASCULINO” e “FEMININO”. Porém, não é este o maior cuidado a ser tomado: é que há uma terceira porta lá dentro, onde o cheiro de certos projetos é, tal e qual o da pizza da cozinha, inconfundível.

Retornando-se ao salão oval, a porta “CPI” apresenta invariavelmente espetáculos de comédia pastelão, onde o palhaço, também invariavelmente, é quem assiste. Ao lado, uma passagem secreta leva a um esconderijo onde somente portadores de um crachá especial podem ter acesso. Ao que tudo indica, dependerá somente de uma e somente uma característica que o pretendente ao acesso a esse ambiente deverá ter - só que esta nunca é explicitamente revelada. Assim, caso o ingressante ainda não tenha obtido antecipadamente de alguns já tradicionais freqüentadores o referido crachá e desejá-lo profundamente, convém que leia o noticiário, assista a algumas das comédias-pastelão na sala “CPI” e procure por um daqueles tradicionais mencionados que freqüentam um e outro desses espaços com bastante freqüência, quase sempre na posição de entrevistado-destaque, apresentando fortes suspeitas de portar o crachá e, principalmente, a característica que a ele dá direito. Mas, cuidado: uma vez dentro, nunca mais fora – embora, suspeite-se, exista uma ligação inevitável do esconderijo com a cozinha e, nela, apesar de algumas frituras, dizem haver uma passarela de onde se vislumbra o cartaz “RIQUEZA E PODER”, logo atrás do forno a lenha.

Onde se lê “PORTA DOS FUNDOS”, só entre se sua pretensão for subalterna, mesmo sabendo que, se quiser, poderá ter direito a um prato cujo nome se parece com um diminutivo de “mensal”. Seu criador foi muito elogiado recentemente.

Existe ainda um outro corredor, no formato de um duto, saindo de um ponto que não se sabe em que porão fica, que liga o salão oval ao Palácio do Planalto - onde, para se ter ingresso, é mais difícil: há que se ter outras habilidades. Por exemplo: falar diversos idiomas, todos em Português; dizer a mesma coisa de maneiras diferentes e coisas contraditórias como se fossem a mesma coisa; divergir como quem converge e convergir como quem diverte.

Voltando ao salão oval: onde se encontrarem 3 ou 4 gatos pingados, não dê importância ao fato de não haver uma placa na porta; fique apenas sabendo que, nela, estava escrito “IDEALISTAS”. Mas, como são só 3 ou 4...

E não desanime não: a alternativa já andou armada – e vivem nos lembrando disso, a torto e a direito.

Ou, melhor dizendo, à esquerda e à direita.

3.31.2008

PAS DE DEUX

Da platéia, o que se vê é a leveza, a destreza, o treino, a habilidade, o talento. A música, o cenário, a iluminação, o figurino, o pano, tudo é o pano de fundo. Inclusive o erro. Ninguém respira o suor, ninguém sente a aflição no ventre, a conta que vence amanhã, uma vontade de ir ao banheiro súbita e autoritária, premente, urgente, a inveja, o ciúme, a carência, a dor do preconceituado, o tersol, a sinusite, a verruga, a rinite, a vagina, o pênis, o saco oprimido, o calo, a ponta mal feita, a roupa apertada, o desejo reprimido. Ninguém na platéia sabe o que é percebê-la na testa de cada espectador, nunca o olhar, porque, no olhar, bate a luz do iluminador. Como saber se o aplauso foi pela descoberta, a técnica, o malabarismo, o sofrimento ou o erro? O salário é bom, o salário é ruim, atrasado ou adiantado, quanto ele importa? Tanto quanto saber que amanhã é outro dia, que virá ou não. O palco vazio, para a platéia, pode ser tão ou mais bonito, instigante, que a nossa presença. Eles olham o relógio, perguntam-se, Quanto tempo falta para acabar? A dor no joelho, a ponta mal feita, o suor, a vagina e o pênis, seus líquidos, a premência, a urgência adiada do banheiro e da pizza, só nós dois, pas de deux, sabemos. Pas de deux. Os aplausos foram ótimos. Sua ausência, também.

3.25.2008

SONETOS CONCORRENTES

(1)

Minha filha fez catorze anos
Concorrendo com a Páscoa.
Aprendi tardiamente:
Páscoa é passagem.

Do que já foi infância
Pelo que agora é dúvida,
Quinta de trevas,
Sexta da paixão,

Sábado, Aleluia,
Grave, profano, inculto, garanto,
Não há só endoenças,

Filha.
Há enremédios;
Há encuras.

(2)

Caminhadas à beira mar,
Pedras,
Areia fofa, areia dura,
Asfalto.

Nuvens no céu ora presentes-ausentes,
Asas de todo jeito, tempestades, vento,
Automóveis, pedestres, cães,
Bicicletas,

Atletas,
Moças bonitas,
Senhoras, senhores,

Onde anda minha cabeça
Que nada percebo, nada disso
Nada?

3.07.2008

NOTÍCIAS DA DINAMARCA

O clima tem andado instável. A bolsa, estável. O dólar, até o fim do ano, estará valendo menos que nossa moeda. Renato Machado continua provando vinho, inclusive pondo o nariz dentro da taça. O programa Saia Justa ainda não passa na estação Maria, Maria, que não vive, apenas agüenta, mas essa é uma canção antiga e, depois, Maria, Maria não mora na Dinamarca. Diogo Maynardi continuará morando na antiga capital da Dinamarca, vai votar no John McCain e lutar no Iraque, morando em Veneza.

O programa Big Brother está novamente no ar e muitos dinamarqueses assistem, com grande preferência pelo paredão. Fidel Castro saiu de cena; por isso, alguns ficaram alegres, outros, tristes. Isso prova que nós, dinamarqueses, somos pessoas com opinião própria, muito embora existam veículos de comunicação que são chamados Formadores de Opinião – e, de fato, necessário admitir que, dentre nós, há os que portem antenas de tv nas respectivas testas, outros, cabos fazendo as vezes de rabos, e outros ainda que, quando abrem suas bocas, nos mostrem, ao invés de dentes e palavras, a capa e a contra-capa de uma revista. Isso sem esquecer os que tomam café com nosso rei-presidente, geralmente em lugares longínquos ou montanhosos dessa nossa imensa Dinamarca.

Os filmes Tropa de Elite e Meu nome não é Johnny contam um monte de mentiras e essa história de bombas em jogos de futebol no sul-maravilha da Dinamarca evidentemente que não é verdadeira. Se nossa tv estatal já estivesse no ar, nada disso seria divulgado, porque, nela, só a verdade será transmitida.

A tv aberta mostra umas barbaridades de vez em quando, mas, logo em seguida, transmite um pronunciamento do nosso rei-presidente nos tranqüilizando, pondo a culpa em quem de fato a tem: a ignorância do povo, a classe média e as elites (não confundir com a da supra referida Tropa) - verdadeiros anacronismos deste nosso país.

Dona Marisa é que está certa: em boca fechada, não entra mosquito – embora, como se saiba, na Dinamarca não haja mosquitos. É que – Dona Marisa sabe muito bem - prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Já o marido dela, nosso rei-presidente, que antes não sabia de nada, agora sabe de tudo e diz com todas as letras que a porrada – sic – come solta nos presídios deste país. Há algo de podre no reino da Dinamarca? É claro que não: Sheakspeare nem dinamarquês era.

Aquele senador continua no Senado, pois lugar de senador é no Senado, embora o padrinho dele, ex-presidente, tenha se retirado para escrever suas memórias, as quais, se a nossa não falhar como de praxe, deverá trazer atos de grandeza - algumas, inflacionárias, outras, inflamatórias; pois, por exemplo, seu genro talvez não se tenha lembrado de esterilizar aquele dinheiro que apareceu dentro de um cofre e que depois desapareceu, já que nossa mídia, competente e dinamarquesa que é, nunca mais falou a respeito.

Na longínqua América do Sul há uma ameaça de guerra, mas nosso rei-presidente – que talvez permaneça no cargo por mais alguns anos, a depender do que for noticiado na tv aberta e na estatal e do que ele disser durante seu café da manhã - intermediou o diálogo entre as nações em conflito; por causa desta intermediação é que já está garantido que não haverá guerra nenhuma. Um pouco de se estranhar é que aquele amigo dele de boina vermelha que fala pelos cotovelos tenha mandado umas tropas para a fronteira daquele outro país, como é mesmo o nome?, que fica tão longe da Dinamarca que a gente nem se lembra. Aquele continente é muito complicado, tem FARCS, traficantes, ih, nem é bom falar. Os indicadores econômicos e o índice de aprovação do nosso rei-presidente bem demonstram: tudo vai bem na nossa Dinamarca. O clima é que tem andado instável.

3.06.2008

EU, JOGADOR

Ao som da Spok Frevo Orquestra, mariobenevides.blogspot.com, 6 de março de 2008.

Eu jogo.
Pelo empate
Pela continuidade
Da ilusão.

Sei lá o que é vitória,
O que é derrotar alguém ou perder,
Nada disso me interessa.

Não me interessa mesmo competir.
Jogo pela existência
Pelo prazer de permanecer
Vivo.

Espero o computador se ajustar
Como esperam ator e platéia pelo terceiro toque.
Admiro
Profundamente
Músicos
De orquestras.
Sua disciplina
Seu prazer
De dividir com tantos
O palco
De não ter um nome
De não mesmo ter
Dinheiro.

Sou um jogador.
Quem joga não o faz pelo dinheiro
O faz pela embriaguez da ilusão
Nem prazer isso é
Somente é um jogo.
O meu, de continuar vivo,
O de deixar lembranças
O de levar lembranças
Para o travesseiro.

E criar novas.
Novas lembranças.

Amanhã
Nem quero saber
Do que vai ser.
Que apenas seja.
Esse é o jogo que eu jogo.
E que compartilho.
Eu jogo
Pelo empate:

Continuar

Vivo.

2.10.2008

ACHADO, ROUBADO E DEVOLVIDO

Foi no sábado. Ela deixou seu telefone celular cair no gramado em frente ao prédio do casal de amigos que visitara e não percebeu. Muito distraída, tinha certeza de que o aparelho estava em casa ou então no carro. Somente na segunda-feira à noite é que se convenceu de tê-lo mesmo perdido e foi na operadora providenciar o bloqueio e a substituição por um novo - mais moderno, até -, que saiu de graça - isto é: pago pelos pontos acumulados pelo uso freqüente da linha. Claro, deveria ter providenciado o bloqueio assim que deu pela falta do aparelho e, se depois o achasse, reabilitaria a linha - o que também não renderia nenhuma história.

Na quarta-feira de manhã, um desconhecido, que sabia seu nome, telefona para seu novo celular, que teve mantido o número do perdido, e informa a ela que este fora achado por ele, no tal gramado. Ela anota o número do sujeito e fica de ligar depois.

No sábado seguinte, ela pede ao marido que ligue para o sujeito - que diz que dentro de meia hora estará em casa, “depois de deixar meu serviço”, e dá seu endereço. O marido vai com ela ao encontro do indivíduo, residente na mesma rua onde fica o prédio que visitaram havia uma semana. Olham bem em volta antes de parar o carro, para ver se não seriam surpreendidos por uma armadilha (“Isto é um assalto!”). Um rapaz sobre uma bicicleta a chama pelo nome.

- Como é que você sabe meu nome?
- Estava na tela do aparelho, junto com tua foto – o rapaz explica. – A memória do telefone celular tem também o número da linha, por isso te liguei. Peço desculpas, mas eu apaguei tua agenda.
- Por quê você apagou minha agenda?
- Porque eu pretendia ficar com o celular para mim. Mas, aí, me arrependi, eu pensei, afinal, o celular é dela, ela vai precisar dele. Peço desculpas também por ter apagado a foto.
- Você usou o celular? Fez alguma ligação?
- Não – ele responde. Depois: - Só duas vezes. No sábado mesmo.
- Você ligou para o exterior? – o marido dela pergunta ao rapaz. Rindo, o rapaz diz que não, claro que não. Foi para aqui mesmo, só duas ligações. Peço desculpas por isso também.

E vai embora, na bicicleta, que se supõe seja dele, que a ele pertença.

Marido e mulher entram no carro e perguntam-se: - Terá sido mesmo arrependimento? Ou o pai ou a mãe dele foi quem ordenou a devolução, com ameaças de polícia e outros castigos? Devolveu só porque - e depois que - percebeu que o aparelho havia sido bloqueado? Mas, se assim tinha sido, devolver porque? Por que não deixá-lo perdido em algum outro lugar, ou mesmo no mesmo gramado onde fora encontrado? Minha foto na tela – ela continuou a conjeturar – era ao seu lado, era uma foto de nós dois, um casal; ele esperava por alguma recompensa, ou uma perspectiva de mais um furto, se dar bem; e – ela constata e conclui - não foi nada disso.

Mas houve uma recompensa – que quase não aconteceu, depois da confissão do roubo e do arrependimento. Se é que um livro (com dedicatória e autógrafo) possa ser considerado uma recompensa. Livro que o rapaz saiu lendo, seguro por uma das mãos; com a outra, manejava a bicicleta.

2.03.2008

CAVALOS

Em Petrópolis, a charrete percorre as ruas entre automóveis esparsos. O condutor também é guia, mostra a casa de Santos Dumont, a do príncipe recém falecido, aquela onde Fernando Henrique se hospedava, “Lula nunca veio aqui”. Mostra a estátua do arquiteto e, atrás, a Catedral. De quando em quando, dá uma chicotada nos cavalos da parelha, que apressam o trote preguiçoso e servil. Submissos, os olhos, tampados nas laterais. Sacos amarrados nos seus lombos recolhem seus rejeitos alimentares transformados nas suas tripas em dejetos. O guia pronuncia “coêler” ao invés de “quéler”. No término do passeio, ele, novamente condutor, puxa as rédeas e pára no sinal fechado. Um dos cavalos torna a cabeça na direção do seu par e parece dizer alguma coisa a ele. Provavelmente, algo como “De noite, a gente pára e descansa”, ou “Um dia, isso acaba”.

Em Florianópolis, chove demais. Uma catástrofe, ruas inundadas, casas inundadas, pessoas jogadas na lama, em abrigos, o aeroporto, fechado. No caminho dessa descoberta, uma pastagem; por trás, a baía. O cavalo, amarrado a um toco no chão, a cabeça baixa, o dorso sob a chuva, debaixo do temporal, a céu aberto, céu cinzento, chuva, chuva, chuva, no lombo do cavalo. “Uma hora, isso passa”.

No apartamento, um vento, para ela, é tufão; uma chuvinha fina, temporal; um espirro do filho, pneumonia. Tudo é pretexto para dar uma desculpa no trabalho e faltar e ficar em casa. A tempestade é tão verdadeira e intensa que dispensa a desculpa. “Uma hora, isso passa”.

1.26.2008

RETRATO 3 POR 4

Reenquadre-se
De corpo inteiro
Dentro de um retrato
3 por 4.

Perceba-se
Tristeza e alegria
Tudo e nada que lhe pertence
Cabe no retrato 3 por 4.

A moldura são os outros
Seu ganha-pão
Seu perde e ganha
Nesta vida 3 por 4.

Dentro da foto
Dentro das paredes
Sob teto e chão
Do retrato 3 por 4

É você.
É aquilo de que você realmente gosta
O que você venera e admira
Quem você realmente quer - e quer bem.

A profundidade -
Suas múltiplas dimensões
Sem frente nem verso
Nem pra frente nem pra trás

O espaço em que você transita
Sem começo nem fim
Sem finalidade
Sem rumo -

É você.
Saindo pra fora da moldura
Que envolve seu corpo
Numa foto 3 por 4.

Reinvente-se
E caia fora
Para frente ou para trás
Do retrato de corpo inteiro

Da moldura
Dos limites
Desta vida 3 por 4.

1.22.2008

O ESCRITOR AMÓS OZ E UMA SÓ PERGUNTA

Parati, julho, 2007,
Programa Roda Viva,
Uma entrevista e suas perguntas.

O escritor israelita Amós Oz
Irresistível
Seu humor irresistível
E suas respostas.

Não gosta de computador
Escreve com duas canetas.
Com a primeira opina
Com a segunda, conta histórias.
Ao contar uma história
Tem mais imaginação que memória
Sem saber quanto desta vem naquela.
Ao opinar
Se dedica à História.
Ao contar histórias
Não é sua vontade que prevalece:
Querem, nelas, perceber fatos.

Caro Amós Oz:

Quando se escreve um romance
- Romance?
Uma novela
- Novela?
O que se conta é lembrança
- Lembrança?
Uma história
- Uma história?
Uma ficção
- Ficção?
Que se distingue da História
- História?
Por não contar fatos?

Não a vontade
Mas é a pergunta
Uma só pergunta
Que permanece:

- O que são fatos?

1.16.2008

AGENDA CARIOCA - UMA ANACRÔNICA

Um camelô vendendo agendas na Rua da Quitanda, Rio de Janeiro, sim, janeiro de 2008. Quem as compraria? Quem precisaria de hora e dia marcados em uma agenda de camelô? Alguém como ele, camelô, certamente que não; seus horários são poucos: o de acordar e o de fugir do rapa. Não difere ele dos outros comerciantes, que não consomem aquilo que vendem. Donos de bares não são bebedores, os de papelaria, se viciados em lapiseiras, a quem as venderia?, um hipocondríaco farmacêutico, ora, falência seria sua morte e não a anorexia. Comprará uma agenda do camelô não alguém igual a ele, mas alguém tão marginal quanto ele, especialmente nos horários, marcados na margem da agenda e não nos impressos – porque, nestes, apenas registrará aquilo que nada descreverá da sua vida: o crediário, o dia do salário, o aniversário, o nome do credor e do devedor, além do próprio, de esperto, de otário. Seu endereço e o tipo sanguíneo que mereceu e merece de nascença constarão, para que, no caso de perda da agenda – sua própria vida –, esta possa lhe ser devolvida; e no da súbita e sempre inesperada fuga daquela que corre debaixo do relógio de pulso - comprado de um camelô – sua própria vida -, para que apareça um outro portador de agenda comprada de um camelô, que se torne, da noite para o dia, da vida, um doador.

Eu comprei uma; você não compraria?

1.01.2008

ÁRVORES

Árvores. Há uma, no quintal do prédio onde mora meu irmão
Que parece um bicho esticando o pescoço,
O tronco, inclinado,
Duas raízes que são como pernas,

A cabeça – o cabelo revolto de uma árvore –
Procurando, lutando para encontrar
O sol. Ou a chuva. O céu.
Seu chapéu.

Árvores perdidas nas calçadas do Rio de Janeiro,
Ruas, suas ruas são indiscutivelmente arborizadas,
Suas ruas são metralhadas,

Em algum momento era tudo óbvio e não quiseram perceber.
Uma árvore permaneceu árvore.
Árvore de Natal.