4.02.2008

ENTRANDO NA POLÍTICA

Entrar na Política é fácil. Há três portas de entrada: uma à esquerda, outra à direita e uma bem no meio das duas, onde está escrito “CENTRO”.

Escolhida qualquer uma das portas, é acessado um corredor que inevitavelmente leva o ingressante a um salão oval – que não deve ser confundido com aquele que fica em Washington: estamos em Brasília.

No salão oval, há uma porta onde se lê “COZINHA”. O cheiro de pizza é inconfundível. Numa segunda e contígua porta, lê-se “BANHEIRO”. É necessária alguma atenção ao transpô-la, pois só lá dentro é que é feita a tradicional sub-divisão “MASCULINO” e “FEMININO”. Porém, não é este o maior cuidado a ser tomado: é que há uma terceira porta lá dentro, onde o cheiro de certos projetos é, tal e qual o da pizza da cozinha, inconfundível.

Retornando-se ao salão oval, a porta “CPI” apresenta invariavelmente espetáculos de comédia pastelão, onde o palhaço, também invariavelmente, é quem assiste. Ao lado, uma passagem secreta leva a um esconderijo onde somente portadores de um crachá especial podem ter acesso. Ao que tudo indica, dependerá somente de uma e somente uma característica que o pretendente ao acesso a esse ambiente deverá ter - só que esta nunca é explicitamente revelada. Assim, caso o ingressante ainda não tenha obtido antecipadamente de alguns já tradicionais freqüentadores o referido crachá e desejá-lo profundamente, convém que leia o noticiário, assista a algumas das comédias-pastelão na sala “CPI” e procure por um daqueles tradicionais mencionados que freqüentam um e outro desses espaços com bastante freqüência, quase sempre na posição de entrevistado-destaque, apresentando fortes suspeitas de portar o crachá e, principalmente, a característica que a ele dá direito. Mas, cuidado: uma vez dentro, nunca mais fora – embora, suspeite-se, exista uma ligação inevitável do esconderijo com a cozinha e, nela, apesar de algumas frituras, dizem haver uma passarela de onde se vislumbra o cartaz “RIQUEZA E PODER”, logo atrás do forno a lenha.

Onde se lê “PORTA DOS FUNDOS”, só entre se sua pretensão for subalterna, mesmo sabendo que, se quiser, poderá ter direito a um prato cujo nome se parece com um diminutivo de “mensal”. Seu criador foi muito elogiado recentemente.

Existe ainda um outro corredor, no formato de um duto, saindo de um ponto que não se sabe em que porão fica, que liga o salão oval ao Palácio do Planalto - onde, para se ter ingresso, é mais difícil: há que se ter outras habilidades. Por exemplo: falar diversos idiomas, todos em Português; dizer a mesma coisa de maneiras diferentes e coisas contraditórias como se fossem a mesma coisa; divergir como quem converge e convergir como quem diverte.

Voltando ao salão oval: onde se encontrarem 3 ou 4 gatos pingados, não dê importância ao fato de não haver uma placa na porta; fique apenas sabendo que, nela, estava escrito “IDEALISTAS”. Mas, como são só 3 ou 4...

E não desanime não: a alternativa já andou armada – e vivem nos lembrando disso, a torto e a direito.

Ou, melhor dizendo, à esquerda e à direita.

Um comentário:

regina disse...

Puxa!
Perfeito!
parabéns, Mário!
bj