9.19.2017

AINDA AS MESMAS CORTINAS

Minha publicação de 8 deste mês - "EM UM PAÍS IMPROVÁVEL, DE DIFERENTES DESNÍVEIS ALÉM DOS GEOGRÁFICOS, UM POSSÍVEL DIÁLOGO" -, recebeu de dois advogados amigos meus, Norberto Mühle e meu irmão Luiz Benevides, um simples e fundamental esclarecimento: o país é laico, mas não ateu. Eles estão certos. Errado está desenterrarem no congresso temas como a cura gay, como se orientação sexual fosse doença, reforma constitucional obrigando a mulheres gerarem filhos produto de estupro e/ou descerebrados, e calar sobre o vandalismo contra centros de Umbanda e Candomblé. A lei garante a liberdade de religiões, não a supremacia de uma em relação às outras, bem como expressa o objetivo de construir uma sociedade sem qualquer tipo de discriminação. Não se trata aqui de ir contra qualquer religião, de quem quer que seja; o ponto é: canastrões que se dizem pastores religiosos estão levando para o congresso imposições hipócritas e perigosas, com reais chances de aprovação por esse congresso, que corresponde à pior safra de políticos da nossa História. Estamos mesmo envoltos por cortinas de fumaça, e fumaça de alta toxidade social. O país permanece improvável. E o diálogo? É possível?

9.09.2017

CORTINAS DE FUMAÇA – 1 - HOMEM E MULHER

            Dizem que religião é um dos assuntos proibidos, mas, se não nos falarmos, aí mesmo é que não vamos nos entender, e dar de bandeja para quem ganha com isso.
Há bons religiosos, que desempenham seu papel com a intenção de fazer o bem, de trazer conforto, esperança, consolo, remédio e comida. Uma coisa é o religioso; outra, o manipulador.
Se tivermos sorte e determinação; se conseguirmos protestar e discordar civilizadamente, mantendo as amizades acima das nossas paixões e supostas verdades em matéria política, teremos eleições em 2018. (Que ninguém se iluda, isso depende de nós.) É bastante provável que alguns candidatos de 2014 o sejam novamente. Lembro-me de mais de um que falava sobre qualquer coisa e depois concluía: “Para mim, casamento é entre homem e mulher”. Pouco importava se a questão era o panorama político, beirando à ruína; o andar para trás da economia; a cruel e burra distribuição de renda – a 76a entre 136 países; a violência a passos largos para a barbárie; ou as hordas de desgraçados vendendo ou se entupindo de drogas, principalmente a mais barata e vil, por absoluta desesperança e falta de oportunidades, a grande maioria desde o nascimento. Nada disso importava, o que realmente importava para aqueles candidatos era o bordão que os conectava: “Para mim, casamento é entre homem e mulher”. Não se elegeram, nem se esperava por isso, mas alcançaram o que queriam: abocanhar mais poder. Seus eleitores não pensam sobre si - suas péssimas condições de vida, seus filhos fora da escola ou a frequentando sem condições de aprendizagem, podendo ser mortos dentro da escola, enquanto os nossos filhos, tomara – Deus queira - que voltem para casa, sãos e salvos.
Os eleitores dos que levam livros religiosos para o lugar errado, apenas para abocanhar mais e mais poder, mera, covardemente fisiológico, convivem conosco, em nossas casas, em nossos trabalhos, nas lojas, nas ruas. Mas não os vemos, somos de mundos diferentes. Eles nos veem. E nos escutam. Como falar com eles? Ou não tem nada a ver?

9.08.2017

EM UM PAÍS IMPROVÁVEL, DE DIFERENTES DESNÍVEIS ALÉM DOS GEOGRÁFICOS, UM POSSÍVEL DIÁLOGO.

- O Brasil é um Estado laico.
- O Brasil? Um “estado”? O Brasil não é feito de estados?
- Sim. “Estado”, neste caso, significa nação, país.
- Hum.
- O Brasil é um Estado laico.
- O que é “laico”?
- A religião não interfere nas decisões do Estado. Religião é fé, com diversas correntes, mesmo em uma mesma religião. Estado, quando é laico, é lei. Entre as pessoas.
- E daí?
- E daí? Por exemplo, se livros religiosos forem para o Congresso, a Constituição Federal terá que ser levada aos encontros religiosos - de qualquer, de todas as religiões.
- “Constituição Federal”?
- Sim. Este livro aqui.
- Hum. Pode me emprestar um pouco?
- Claro.
- “Nós, representantes do povo brasileiro, ... sob a proteção de Deus...”
- Xi...

9.04.2017

ASSIM CAMINHA A BRASILIDADE

Assim caminha a brasilidade – pelo menos a minha. Aos quase 62, quando finalmente me olhei no espelho e me disse o mesmo que meus amigos trintões dizem para si e todo mundo – “estou ficando velho”-, resolvi mentir pra mim mesmo: ingressei na faculdade de direito. Entre as pesquisas que já fiz por obrigação e gosto, uma chegou a um encontro entre Miguel Reale e Norberto Bobbio, este a convite do primeiro, em Brasília, 1983. Segundo Reale, Bobbio se dizia a favor do socialismo liberal (Bobbio, na juventude, foi marxista). Reale (integralista quando jovem), contando essa história, defende o liberalismo social - e afirma que a solução, superando a disputa ideológica, de toda forma estaria no centro. Eis que, ontem, em O Globo, leio sobre uma segunda bomba do jornalista Lauro Jardim: o DEM vai se chamar Centro. Poucos dias antes, vi Rodrigo Maia dizer que o Democratas era um partido de direita liberal, ou de centro-direita. Por essa linha, eleitores de direita liberal vão declarar seu voto no Centro – e como hoje, literalmente, falamos pelos dedos, eleitores de centro dirão que votarão no centro, mas não no Centro. Para acabar com a discussão, dois novos partidos serão inventados: Esquerda e Direita. Repetindo a história, virá a Revolução Francesa. Ou então, a saída é que será à francesa.

MARIO BENEVIDES / FACEBOOK.

8.07.2017

DEZ PASSOS PARA CONSTRUIR UMA POTÊNCIA ECONÔMICA DESIGUAL, VIOLENTA, GOVERNADA POR INCONSEQUENTES



1.     Deus é brasileiro. E Deus disse: Vocês vão ver o povo que eu vou por aí.
2.     A culpa é dos portugueses e suas capitanias hereditárias.
3.     A culpa é do imperialismo, do comunismo, do catolicismo.
4.     Quem sabe faz, quem não sabe ensina.
5.     O problema é a classe média.
6.     O problema é a classe dominante.
7.     O problema é o Zé Povinho.
8.     O brasileiro não sabe votar.
9.     O brasileiro não tem memória.
10.  Repetir de 1 a 9 de geração em geração.
***

Sempre quis saber quem é o “outro” na expressão “Como diz o outro”. Desnecessariamente, claro. Basta que seja o outro.

5.20.2017

Poderes

Ilusão pensar que temos três poderes. Em pelo menos todo o mundo ocidental, de democracia ocidental, há mais três além dos formais: a mídia, o povo e o dinheiro. Nesses episódios mais recentes, especulações à parte, a mídia fez e faz seu papel: divulga informação e opinião, desde a tradicional, passando pelas que já foram apelidadas de nanicas ou alternativas, até esse fenômeno recente, chamado mídias sociais. O povo, em matéria estritamente política, está como sempre esteve: confuso e dividido, de maneira, pelo menos e por enquanto, sem a agressividade oratória e mesmo física de há muito pouco tempo. O dinheiro, ora, o dinheiro se multiplicou para uns poucos, diminuiu ou desapareceu para outros muitos mais. Digo isso para provocar uma reflexão. Que bom pensarem em reformas, baseadas em um possível maior número de empregos e na necessidade de se contar com uma expectativa de vida maior. Que lástima não se pensar que essa expectativa é sujeita a, mais que pontos, consideráveis porções fora da curva, por exemplo por mortes entre jovens por causa de um aparelho celular ou equivalente coisa. Que espantoso se esqueça que tipo de vida terá a gente que viverá mais tempo, tantos, a tirar por hoje, heroicos idosos vivendo de um salário mínimo, ou, pasmem, isso é possível, menos do que isso. Errei quando disse que os poderes sejam seis. Faltou um, chamado consciência. Que se não vier do povo, ora, de que outro poder virá?

5.06.2017

CIÊNCIA, PRA QUE TE QUERO


Quanto mais convivo, quanto mais estudo Filosofia, Ciência Política e suas célebres frases – o homem é um ser racional, o homem é um ser gregário, o homem é um ser político, o homem é o lobo do homem -, mais percebo o óbvio. O homem é um ser emocional. Emotivo. Ou artistas não seriam desprezados, execrados, idolatrados. Um deles disse: Seja feliz e faça os outros felizes. Bom fim de semana.