5.05.2018

REALEZA E REALIDADE

Passei alguns dias no Rio em boa companhia. Revi meu irmão, amigos, um primo,  e tive bons encontros a trabalho. Rosa voltou para Florianópolis na terça. Como eu tinha compromissos ainda no Rio na quinta de manhã, fiquei por lá e, na quarta, resolvi dormir cedo. Não sem antes flanar, não mais que flanar. Numa rua de Copacabana, passei por um acolhedor autodenominado café-bistrô. Vazio. Além de varanda, lá dentro, livros. Fui até a Avenida Atlântica e voltei devagar, na esperança de ver gente no café-bistrô. Dei sorte. Na varanda, um autêntico rei zulu, com roupa de academia de ginástica, conversava com uma rainha, que Cony teria reconhecido como sua alemã de coxas teutônicas. Pois eu as vi tectônicas. Entrei e pedi uma mesa de canto, com vista para a varanda. Dentro, na minha frente, mais alemães. O homem usava uma camisa-polo verde, mostrando por baixo da gola em V uma camiseta branca. Gosto de usar camisetas por baixo: o ar condicionado me incomoda menos e, sob o sol, no sentido literal, não suo a camisa. O alemão tomava uma cerveja e, ao seu lado, uma mulher bebia vinho. Junto com eles e de costas para mim, uma senhora magra, elegante, de cabelos longos e grisalhos, tomava um chá. Pedi ao garçom uma Serra Malte e uma porção de presunto de Parma. Fui à estante, peguei um exemplar de Júlio César, de Shakespeare, em tradução de Carlos Lacerda. Personagem e tradutor me lembraram (ou inspiraram?) um poema que escrevi faz tempo, mais ou menos assim: Atropelamentos, estupros, assassinatos, cidades são contos de fadas comparadas ao Poder. Cenários, é o que são. Nas páginas do livro, anotações a lápis, típicas de alguém que pretendia montar a peça. Terá conseguido? Três casais brasileiros de idades variando entre vinte e poucos e setenta anos ocuparam suas diferentes mesas. A última disponível do lado de dentro, ao lado da minha, deu lugar a um jovem casal de ingleses. Pelo celular, ele disse a alguém estar interessado em alugar uma casa na Paqueta, tinha gostado muito da Paqueta. Achou o preço caro e agradeceu, enquanto eu pensava, puxa, nunca fui a Paquetá. Na varanda, mais alemães: dois casais, ao lado da conterrânea de coxas tectônicas, que, diga-se, fumava muito. Já fui fumante, sei como é. Perguntei ao garçom se eu poderia comprar o livro que, buscando a luz e olhando em volta, meio que relia. Ele me disse que o levasse de graça, que o trouxesse de volta ou mesmo outro, que eu quisesse deixar por lá. Depois de um honesto escondidinho de camarões e mais uma Serra Malte, pedi a conta e, sem perceber, deixei a paz lá dentro. Na calçada, um sujeito veio ao meu encontro abruptamente em diagonal; eu me esquivei, ele postou-se encostado junto à porta de uma loja fechada, acho que procurando alguém mais desatento. Claro, pode ter sido coisa da minha cabeça. Mais adiante, duas potenciais princesas zulus, pobres moças esquálidas, miseráveis, riam a risada que a desgraça ri. Agora era real. Tudo era real. Enquanto eu esperava para atravessar a rua, outro sujeito, portando um porrete com uma corrente, veio ao meu encontro gritando palavrões. Era da minha altura. Os olhos mais azuis que já vi olharam dentro dos meus, me demonstrando revolta, ameaça, não. Seu dono me perguntou: Eu tinha ou não tinha que dar nele? O cara estava batendo na mulher, grávida, eu tinha ou não tinha que bater nele? Eu respondi. Sim. Quem quiser que me julgue. Ele foi embora, na direção oposta à minha. Não tinha percebido, os casais de alemães da varanda do café-bistrô já haviam me passado, e caminhavam calmamente à minha frente. A sorte estava com eles. E comigo. A paz não. Em seu lugar, uma risada. Só me falta cumprir a promessa e devolver o livro, pessoalmente ou pelo correio, ou mandar outro em seu lugar.

TÚNEL DO TEMPO

No túnel do tempo, o general Figueiredo comia um churrasco com outros generais, e um repórter lhe perguntou: Quando o senhor vai fazer a abertura política? Quando eu quiser, respondeu o general. E quando o senhor vai querer?, insistiu o repórter. Figueiredo encerrou o assunto respondendo, Quando eu quiser querer. Seus convivas deram uma sonora gargalhada. Já nesses tempos de minha casa, minha vida, ontem, sim, parece que foi ontem, um outro repórter perguntou ao atual presidente sobre o inquérito na Polícia Federal da filha dele, sobre quem teria pago a reforma da casa dela. Temer respondeu: registre meu sorriso. Seus correligionários lembraram aqueles de Figueiredo, com mais uma sonora gargalhada. Mais um sinal de que vivemos outro fim de ciclo. Só não seja quando o Temer quiser querer.

2.04.2018

Caros Amigos - De poetas e política








Vendo a foto, Rosa comprovou uma vez mais a infalibilidade da intuição feminina: Esses seus amigos parecem educados e gentis, ela me disse. É o que são: Fulgêncio Duarte, a quem chamamos Fuja, é o de bigode; Aldo Votto, o que agora usa barba, com direito a bigode também. Faltou nosso mestre Julio Pavese, codinome (mais que apelido) Tucha – um permanente viajante em todo tipo de meio de transporte, de motocicleta a carro e avião, sempre com a máquina fotográfica, e duvidamos que de vez em quando um jegue não se interponha e se acrescente aos seus percursos.  Já o título desta crônica remete a uma revista, que tem como slogan “a primeira à esquerda”. Assim são esses meus amigos: de esquerda. Idealistas, acreditam que seja possível a convivência pacífica e camarada entre homens e mulheres em sociedade, trabalhando para o Estado, em prol da vida societária não-competitiva, solidária e feliz. Nesse encontro, fui menos evasivo que das outras vezes. Usei uma expressão idiota de um período idiota da história política mais ou menos recente: me defini como um radical de centro. A expressão surgiu meio como gozação aos que não queriam se declarar como nem de esquerda nem de direita. Intuitivamente, ainda muito moço, foi assim que me situei, menos por convicção que desilusão. Mais informado, fui percebendo que não acreditava na mão mágica do mercado resolvendo todos os nossos problemas sociais, econômicos e correlatos, nem no Estado perfeito, empregador de todos e em prol de todos, igualmente magnânimo em soluções. Tudo muito teórico, esquecendo-se de que mercado e Estado são ocupados por gente, com diferentes aptidões, interesses e ganâncias de poder e riqueza. Pior de tudo é que o posicionamento de centro, em dado momento definido pelo ex marxista Norberto Bobbio como socialismo liberal, e pelo ex integralista Miguel Reale como liberalismo social, no Brasil, descambou para algo puramente fisiológico, apelidado de centrão. Começou no governo Sarney e se mantém até agora, em tempos de Temer, como fiel da balança das decisões do legislativo em conexão com o executivo, em mero jogo de interesses declarados ou escusos. Fato é que não sou radical de coisa alguma. Sou verdadeiramente utópico, imaginando que um dia teremos abnegados amadores, sem remuneração, decidindo em condomínio o que de fato poderia ser melhor para a sociedade – assim está registrado em meu romance de 2007 “A revolução do silêncio”. Indo além, sou um anarquista, imaginando uma sociedade evoluída, capaz da autogestão. Comunidades e bairros com poder e orçamento para suas questões, cidades, estados e união com menos poder que hoje possuem: uma república realmente federativa, decomposta em células cada vez menores e mais autônomas, economicamente e em matéria legal. Isso é o que sou no mundo da lua; voltando à Terra, em busca de uma conciliação, líderes moderados e diplomáticos, lidando com gente com escola pública em tempo integral até a universidade, saúde, saneamento, segurança, moradia, preparada para competir (palavra proibida em certos entendimentos marxistas) com o mundo privado, com mais recursos. Isso nada mais é do que o Estado do Bem-Estar Social, que nossa Constituição Federal defende, ou delineia. Não acontece porque quem tem o dever de defendê-la a desrespeita; quem pode ter conhecimento dela, minimamente dos seus princípios e valores, a ignora; e quem é iletrado talvez nem saiba da sua existência.

Fato é que, na noite da foto, falamos de história, romances de ficção e, sim, política. Com nossas sutis diferenças do modo de pensar, chegamos ao consenso de que o Brasil se encontra ameaçado pelo fascismo; há muitos jovens desmotivados em relação à política, certos de que direita e esquerda no Brasil são farinha do mesmo saco; os partidos estão desacreditados; a agressividade vem cedendo a um silêncio de distância e desconsideração entre pontos de vista diferentes; tudo isso a nos dar a sensação de que, sim, o fascismo está latente em nosso país.

Nós os três presentes e nosso mestre Tucha trabalhamos em diferentes momentos com questões socioambientais relacionadas a empreendimentos – o que significa a exata convivência do capital com o meio ambiente e suas comunidades periféricas. Essa prática é que nos traz a um ponto de entendimento que transcende os conceitos clássicos de esquerda e direita, porque é a essência do convívio de estranhos que se tornam vizinhos, das relações de poder entre o comunitário e o empresarial, reivindicações e negativas, até o enfrentamento e o entendimento. Cada passo, cada avanço nessa área é uma vitória compartilhada. Transcende-se Estado, empresa, diferenças: o microssistema sociológico e socioeconômico é o que está em jogo, no tabuleiro balouçante, de pernas bambas. Precisa funcionar. E às vezes funciona, e assim nos faz pensar, por que não no resto, no macrossistema?

Começamos nossa noite no bar Alma Celta, que fica numa travessa no Centro Histórico de Florianópolis. Dois ou três chopes acompanhados de Fish and Chips, e fomos para a Avenida Hercílio Luz, até pararmos no Bar do Gringo, anexo ao hotel Oscar, para fugir do vento que desafiava os frequentadores dos barezinhos de cadeiras e mesas de plástico na calçada central da avenida, espécie de modesta, mas simpática rambla de Floripa. Mais uns dois chopes, saímos de lá, eu, com um livro que o poeta Aldo me deu de presente, com uma dedicatória que me comove a cada vez que a leio. Fui para casa lembrando de outros dois poetas: Vinicius, que, em uma crônica, se dirige à poesia e se declara sóbrio dentro da noite sem destino; e Borges, ao dizer “Felizes os que não querem ter razão. A razão é de todos ou não é de ninguém”. Borges disse mais: Felizes os felizes. Assim fomos embora naquela noite sem destino - ela, a noite, porque cada um de nós tinha o seu destino: sua casa. E nenhum querendo ter razão, por isso felizes porque felizes.
mariobenevides.blogspot.com.


1.25.2018

LUTAS DE BOXE


Esta noite eu tive um sonho. Lutas de boxe. Primeira luta, três nocauteados pelas suas estratégias, demasiado agressivas, antiéticas, erráticas: Lula, Bolsonaro e Ciro Gomes. Segunda luta: à esquerda, Frei Beto; à direita, Pedro Parente; ao centro, Cristovam Buarque. Era um sonho. Acordei.

12.20.2017

MEU CARO ALBERT - 2

Caro Albert:

Neste momento, chove muito na Ilha de Santa Catarina. Já no continental Brasil, juizes interpretam as leis e julgam de acordo com sua consciência e convicções. E daí, Mario?, não é isso que se deve esperar de juizes?, você me pergunta. Claro que sim, nosso admirado reinventor da relatividade. Mais óbvio ainda, há uma exceção a confirmar a regra, a, entre um julgamento e outro, usar do deboche. Imagine você que o tal, faz pouco tempo, fez troça do trabalho escravo no Brasil. "Meu trabalho é exaustivo mas não escravo", ele disse. Absolutamente desnecessário seria lembrar a você de que país estamos falando, de que mundo e atualidade estamos falando. E aí me pergunto: e nós, aqui da Terra e do País? Que pagamos o salário do citado, nós, os que temos como viver e os que não têm? E nossas instituições? Ei! Ô OAB! Cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!
Com minhas desculpas pelo desabafo,
Mario.

12.16.2017

MEU CARO ALBERT

Meu caro Albert:

Como combinado, não vou divulgar seu número de WhatsApp. Mas, que bom que essa modernidade toda tenha me permitido me conectar com você, para propor aquela modesta equação. Fosse quem fosse, Maria Luiza teria um amor incondicional e imenso. Sendo quem ela é, que tamanho esse amor tem? Você me respondeu com sua tradicional foto com a língua de fora. Deduzi então que você, mestre da relatividade, estaria desistindo desse tipo de cálculo. Mais ainda, sem necessariamente incluir você, que nosso amor por Maria Luiza não tem tamanho, e, portanto, deixa de ser relativo, absoluto que é.

Agora me conte: como é falar com Jesus Cristo em alemão? Ah. É em aramaico que vocês falam. Não fosse você quem é. Ao Pai, àquele que não joga dados, diga por favor que compreendemos a falta de intromissões que aqui entendemos como imprescindíveis. Afinal, mesmo com você de assessor, deve ser mesmo difícil manejar os astros e suas explosões. Nem por isso deixo de recomendar a você umas rodadas com Tom, Vinicius, Pixinguinha e Cartola. Convide também o Louis Armstrong. Não me venha com essa inoportuna e descabida modéstia. Eles dominam duas línguas que são fáceis a você e também a nós: música e poesia.

Meu caro Albert: que a alegria da comemoração da formatura da Maria Luiza em medicina, com as medalhas pelo primeiro lugar na universidade que cursou, se espalhe por aí e por cá, e que coisas boas e leves sempre nos espantem, a nós e a você, todos com a língua de fora a debochar da maldade, ainda que tristes por causa dela. Assim iremos derrotá-la, relativa e passageira que é.

Do seu absoluto admirador,

Mario.


mariobenevides.blogspot.com