2.13.2017

Bom Dia

Uma voz amada me deseja bom dia.
Outra a ela se junta e me diz Bom dia.
As duas conversam e dizem
Uma à outra
Bom dia.
Todo barulho urbano
Será somente percussão
Ora afinada ora desastrada
Dessa melodia.
Que vozes amigas
Amadas sempre nos digam
Bom dia.

2.08.2017

O LADRÃO DE AMIGOS

Eu tenho um amigo que rouba amigos. Ele não rouba nada dos amigos, mas os propriamente ditos. Qualquer amigo que eu apresente a ele passa a vê-lo mais que a mim, e tenho certeza de que isso acontece com todo mundo que é amigo dele. Acontece que um ladrão de amigos, que rouba amizades, é alguém generoso: compartilha as amizades roubadas. Quando estamos perto, nos convida a estar com elas. Estando longe, manda fotos, mensagens, telefona. Daí me ter ocorrido uma ideia: mandar esse meu amigo pra Brasília. Lá, ele reuniria os corruptos dos três poderes e, de olhos vendados, os levaria a um lugar onde eles continuassem exercitando o que gostam: roubar, não amigos, mas dinheiro, qualquer bem material, seja de amigos, inimigos, desconhecidos, de quem tem e de quem não tem. Só que agora somente entre eles, roubando uns aos outros, em um lugar só conhecido por eles. Não existem os primos entre si? Corruptos passariam a ser os ladrões entre si. Os honestos, meu amigo manteria em Brasília. Quando esses tivessem uma vontade danada de roubar, por certo herdada do convívio com aquela outra rede social, já teriam aprendido com meu amigo a roubar somente amigos – amizades -, incluindo o compartilhamento, entre eles e, até, quem sabe, conosco. Não mereço o Nobel pela ideia? Claro que não. O Nobel é do Rubens.

1.14.2017

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - CINCO

ASSASSINAS

Da casa no sul da ilha

Aqui muito já se falou, muito já se viu, muito já se ouviu.

Quando a faca rasgou seu nariz, sua mão esquerda em concha jogou para longe o sangue que escorria; a direita afastou o agressor com um jab e a esquerda disparou um direto no queixo dele, que desabou de costas no chão de terra, a faca, largada no chão. Como se a perna fosse uma estaca e o homem caído um vampiro, pisou-lhe entre as pernas com o salto da bota do pé esquerdo. O homem no chão urrou de dor, pediu socorro, implorou perdão. Quem estava em volta e assistira à briga não fez nenhuma questão de intervir. Um homem velho sacou do bolso interno do paletó surrado uma pistola e meteu uma bala na testa do que já não tinha mais a faca. Os que assistiam deram um ou dois passos para trás, incluindo o rapaz do nariz cortado.

Que foi isso, pai? Tu tá maluco? Não precisava matar!
Teu nariz tá sangrando muito e os grito dele tava muito alto. Vambora que eu te faço um curativo em casa.

Um dos presentes disse, Tá certo, seu Raimundo, nóis some com ele, ninguém fica sabendo. Um outro puxou um aplauso, seguido pelos demais com moderação e medo.

O sotaque do velho é típico daquela região de Bagé, que às vezes se mistura ao espanhol. Gente acostumada a mugido, temporal e estiagem. O filho, nascido no sul da Ilha de Santa Catarina, absorveu o mesmo sotaque. Ser chamado de gaúcho em sua terra natal, como às vezes ocorre, costuma deixá-lo, mais que confuso, em crise de identidade, principalmente se levado em conta certo bairrismo entre alguns locais e imigrantes do estado vizinho ao sul. O tiro que há poucas madrugadas disparou na têmpora do advogado lembrou aquele outro, o do pai, na testa do homem já indefeso que lhe arrancara do rosto sangue e pele. Não foi um assoar de nariz o gesto que Flávia assistiu da janela do apartamento na Beira Mar onde  mora, e sim um atirar para longe um sangue há muito escorrido, seco e limpo. O velho está apenas mais velho, mas é como se sempre tivesse sido assim, velho, o velho Raimundo, que se casou depois de viúvo de um primeiro casamento. Aos quarenta e cinco anos, com Dorinha, que na época tinha dezoito. Foi pai aos quarenta e seis; chifrado - expressão que ele mesmo usa para o ocorrido - aos quarenta e nove. Dorinha apaixonou-se por João Bebé, pescador de braços fortes como os do velho, o mesmo vigor do velho, mas o velho era o velho. João Bebé era o moço do sorriso largo, envolvente, sedutor. Raimundo sempre foi sisudo demais, rígido demais. Características que a principio transmitiam segurança à órfã desde menina, que depois enjoaram, perderam qualquer graça, que ela só reencontrou em João Bebé. Raimundo vingou-se vendendo tudo o que tinha em Florianópolis, deixando Dorinha para trás, que nunca mais veria o filho. Antônio. “O misterioso assassino da Beira Mar”, como tem sido chamado na mídia. Nada ainda se sabe dele e possíveis motivos para o crime, nem mesmo Flávia, testemunha do alto de um prédio, quieta e amedrontada a respeito. A última vez que Dorinha o viu foi quando contou pro velho o que tinha acontecido, pedindo perdão, mas que o que estava sentindo era mais forte que ela, que não queria nada, somente ir embora e de vez em quando ver o filho, cuidar do filho, era só isso o que Dorinha pedia. João Bebé estava junto, por causa da fama de violento do velho. Foram na hora que sabiam que ia ser difícil para ele pegar a pistola, guardada na gaveta da mesa de cabeceira no quarto no andar de cima, e foram em companhia do Beto, amigo do João Bebé, com sua farda da Polícia Militar. Dorinha disse aquilo tudo e saiu, deixando o filho de três anos brincando no chão, depois de pegá-lo no colo e dar-lhe um beijo no rosto, de mãos dadas com Bebé, Beto um pouco atrás, a mão no cabo da sua arma de PM. Se Raimundo não podia matar os dois, como era o que achava que deveria fazer, sua vingança seria esta: iria embora com o filho, desapareceria dali. Marcenaria e emprestar dinheiro a juros têm serventia em qualquer lugar e dólar é dinheiro em qualquer lugar. Foi com o filho primeiro para o Uruguai. Ficaram três anos por lá; depois, quatro no Chile, a convite de um fabricante de adegas artesanais, cujo artesão falecera e o velho Raimundo mostrou-se exímio substituto; e muitos outros anos em Bagé, para matar saudades de Raimundo da região onde nasceu. Só voltaram para Florianópolis quando um outro velho, de nome Cristóvão, amigo de Raimundo, contou a ele em uma carta mais uma tragédia: numa tarde de domingo, o mar virou de repente, Dorinha e João Bebé desapareceram para sempre dentro do mar. Já fazia duas semanas e as buscas haviam sido suspensas; não havia mais esperança de encontrá-los com vida e nem mesmo sem ela. Afastaram-se demais da costa, o barco de João Bebé não era para tanto, muito menos com o mar virado, grosso, bravio, sôfrego, voraz. Voltar para Florianópolis foi como um pedido de desculpas ao filho. Se o tirara de perto e para sempre da mãe, queria devolver a ele pelo menos o lugar de nascimento. 

Raimundo está com setenta e seis anos. A marcenaria ainda o mantém forte e lúcido, já não é mais agiota. Antônio, seu filho de nariz cortado, trinta.

11.13.2016

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - QUATRO

SÓCIAS

Do azul

O motorista avisa à moça que sobe pelos degraus metálicos que alguma coisa caiu no asfalto. Ela estranha, passa as mãos nos lóbulos das orelhas e diz, Meu brinco! O motorista responde apontando, Está ali, ó. Quando ela paga a passagem e passa pela roleta um pouco atrapalhada, está sem graça por ter feito que a esperassem para descer, sair, pegar o brinco no chão e voltar. Mas sabe que os olhares distantes, alguns, tristes, e as feições fechadas não são por sua causa. Há uma crise, e a pobreza ficou maior e mais pobre. Flávia consegue um lugar ao lado de uma senhora gorda, que percebe que ela, olhando a paisagem pela janela, sem gesticular, fala sozinha mexendo um pouco os lábios, sorrindo e com as pálpebras sobre os olhos azuis meio que acompanhando o movimento da boca. Ou estaria cantando sem emitir sons? Flávia arruma os cabelos negros e acompanha com o corpo a curva que fazemos para a esquerda, no acesso ao Córrego Grande.

Do amarelo

Rita sente frio, acha que o ar condicionado está gelado demais, mas nada diz, apenas passa as mãos pelos braços depois de por o livro no colo. O motorista nos conduz devagar. Estamos com poucos passageiros.

Do Chevrolet Corsa

Ela se deu conta de que o ônibus não iria deixá-la próxima da casa de Renata. Já o motorista não gostou de ter que fazer um percurso, para ele, curto. Flávia tentou desesperadamente encaixar o cinto de segurança no engate do banco traseiro, sem sucesso. Salta ligeiramente enjoada e tonta.

Da Harley Davidson

Dimple, como é chamado pelos amigos por causa do formato do corpo e de sua origem escocesa, pilota a motocicleta com prudência. Cláudia, a paulista com quem se casou quando os dois moravam em Londres, segue no banco de trás abraçada a ele, até que chegam ao seu destino.

Da casa no Jardim Anchieta, Florianópolis

A família de Renata é considerada tradicional na cidade, mas o sobrenome é alemão. Florianópolis foi primeiro colonizada por açorianos enviados para cá a mando do rei, quando foi chamada Desterro. Agora mantém o nome em homenagem ao Marechal de Ferro que recebeu por medida conciliatória nos tempos de Hercílio Luz, cujo nome batizou a ponte pênsil já há alguns anos sem uso, em infinito projeto de reforma. Há gente que ganha dinheiro para que certas coisas não aconteçam, vive dizendo o pai de Renata, que herdou esta casa do pai dele. Durante a obra da piscina no quintal, alugaram um apartamento na Beira Mar, e voltaram felizes, por causa do barulho constante dos automóveis por lá. Os negócios do pai de Renata foram prosperando, e ele comprou uma outra casa em Jurerê Internacional. No verão, alguns dos restaurantes daquela praia famosa têm uma estratégia peculiar de formar e atrair sua clientela, que costuma ser aceita pelos ocupantes das casas (todas muito caras, algumas de altíssimo padrão) e tolerada pelas autoridades: tocam músicas em volume altíssimo, geralmente do gênero lounge, que, na opinião do pai de Renata, quer dizer vazio. Já a mãe acha repetitivo e chato. Segundo comentam aqui, outro fenômeno de Jurerê no verão tem sido certo tipo de turista que se senta em uma cadeira de praia colocada na calçada ou mesmo no asfalto para ouvir música vinda do rádio do carro, geralmente uma camionete, com o porta-malas aberto, de outros variados gêneros mas sempre competindo em volume com o ritmo lounge dos restaurantes. Foram principalmente esses dois fenômenos sonoros que acarretaram um terceiro. Quem paga fortunas por uma casa de praia em Jurerê Internacional costuma alugá-la no verão. Renata continua indo à praia em Jurerê Internacional, perto da casa da família que foi alugada, que fica próxima a um dos restaurantes com som lounge, que Renata acha relaxante.
O que trouxe Flávia para Florianópolis foi um projeto de bar-livraria vinte e quatro horas, que desenvolveu com a paulista que era dona de um restaurante no Rio, Cláudia, que por sua vez conhecera Renata em um congresso de gastronomia aqui mesmo, em Florianópolis. Uma ideia arriscada, muito arriscada, mas que acham que vai dar certo por combinar bar, restaurante, tabacaria e livraria em um só lugar, como alguns que as três conhecem em outras cidades no Brasil e exterior. Já o funcionamento 24 horas é uma aposta no crescimento da cidade e do número de notívagos e insones. Faltava alguém com experiência prática em livrarias, já que gastronomia e restaurante pelo menos Cláudia, a mais velha, conhece bem. Risco, é algo conhecido também por Flávia, que já teve outros negócios, ora com sucesso, ora tendo prejuízo. Foi conversando com uma vendedora da loja do Beira Mar Shopping das Livrarias Catarinense que Flávia sugeriu às suas então duas sócias que a mesma vendedora, uma gaúcha, ingressasse no time. Rita. A única das quatro a não ter ainda concluído faculdade nem ter qualquer dinheiro para investir. A mais moça das sócias conhece como funciona o negócio de livros, revistas e papelaria, e lê mais que as outras três juntas. Aqui, hoje, terão mais uma reunião, agora tendo o espaço acertado – um casarão tombado na Avenida Beira Mar – e o financiamento pré-aprovado pelo banco que administra boa parte das aplicações do pai de Renata. Flávia é a primeira a chegar. Sente dor de barriga ao ouvir exatamente o pai de Renata comentar com a filha achar estranho chamarem de estoico o homem que foi assassinado em frente ao prédio onde a carioca mora, que, por sua vez, teme por ter que testemunhar à polícia pelo menos descrevendo o tipo do provável assassino.
-       Por que estranho, pai?
-       Era chegado a luxos. Um vaidoso.
Claudia entra, espalhafatosa, e depois chega Rita, que veio a pé desde o ponto onde saltou do ônibus amarelo com ar condicionado até aqui. A conversa sobre estoicos e luxos do assassinado na Beira Mar ainda rende. Rita faz um comentário que parece incomodar.
-       Marco Aurélio colecionava troféus.
-       Que troféus? Renata pergunta.
-       O de suas conquistas.
-       Que não foram poucas – diz o pai de Renata, que se dirige ao segundo andar. – Vou deixar vocês em paz. Boa reunião.
As quatro se olham, Rita bate com o livro que trouxe consigo nas pernas, Claudia tosse por causa de um pigarro, Flávia inspira fundo e Renata faz o convite:

- Vamos sentar, gente?

10.16.2016

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - TRÊS


ESTOICAS

Do apartamento da vítima, em Florianópolis

Livros. E mais livros. Estantes abarrotadas, já sem o devido cuidado. Livros de Direito Administrativo, Econômico, Societário, Internacional. De Sociologia, Filosofia, Psicologia, História. História das nações, guerras, dinastias. Livros em português, inglês, francês, espanhol, italiano e latim. Um em particular chama a atenção da visitante: uma versão bilíngue, russo e francês, de  “Journal d'exil”, de Léon Trotsky. Nosso ex-morador, assassinado perto daqui, era conhecido por suas opiniões contrárias ao comunismo. Os de sua autoria encontram-se reunidos em alguns volumes de capa dura, todas de cor verde, menos ou mais desbotadas a depender do tempo de exposição à claridade. A observadora não se dá ao trabalho de contá-los, nem de ao menos folhear algum. De certo sabe que contêm ensaios, artigos publicados em jornais e alguns dos discursos do falecido jurista e tribuno. Há também romances, poemas e ensaios de variados autores, além de mais de uma edição da Bíblia, e também da Torá, do Corão e do Darmapada.

Arquivos. Armários. Gavetas. Canetas. Cartas, muitas cartas, diários, anotações, escrituras de imóveis. O testamento toma a atenção e alguns minutos da atenta visitante. Ambientes imensos para um solitário, poucos móveis, poucos quadros nas paredes, poucas e desbotadas fotografias - de um avô, duas avós, o filho, a mulher, ele próprio. Agora, todos mortos.

Armários com as roupas da mulher, armários com as roupas do filho, armários com suas roupas: ternos, calças finas, jeans, camisas sociais, muitos cintos, pretos, marrons, brancos. Camisas-polo, camisetas com e sem manga, cuecas, bermudas brancas. Gravatas. Sapatos sociais pretos e marrons, três pares de tênis brancos. Meias finas, pretas, azuis, marrons, brancas; meias de esporte. Quepes brancos. Três. Fotos de barco, uma delas com ele em um veleiro, solitário, de quepe, bermuda, tênis e meias brancos, camisa-polo branca, cinto de couro branco. Dois aparelhos de TV, um no quarto e outro no escritório, ambos de frente para poltronas reclináveis puídas pelo tempo e uso. No quarto, uma estante com filmes, principalmente documentários, sobre guerras, sobre a África, a Europa e o Egito antigo. Nos pisos, tapetes persas envelhecidos. A empregada vinha diariamente, mas já está velha, cansada e preguiçosa; não se esforçava mais como antigamente, quando a família inteira residia aqui, de frente para a Beira Mar, um quarteirão inteiro, área total de 400 metros quadrados, o outro lado de frente para a Bocaiúva. Quatro quartos, um escritório, dependências, três salas. Uma imensa varanda de frente para a baía.

Quem vê isso fotografa com a câmera de um telefone celular, principalmente os livros sobre estoicos e sua escola. A empregada apenas olha, sonolenta; limita-se a responder uma ou outra pergunta.

Não sei quem vai me pagar. Ele não tinha mais ninguém.
Teu nome está no testamento. Vais ficar muito bem de vida. Deves procurar um advogado, alguém de confiança. Talvez o doutor...

A velha empregada olha para a outra mulher com desconfiança.

Pouco antes de ir embora, a visitante mira quase que zombateiramente a quantidade e dimensão dos espelhos em quase todos os ambientes. Entra no lavabo e fecha a porta. Depois de urinar, mais uma vez fotografa o que lhe parece importante. Dessa vez, a capa de um exemplar de uma versão em inglês de “De brevitate vitae”, de Sêneca.

“On the Shortness of Life”. 

9.25.2016

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - DOIS

CÚMPLICES

Do escritório de Maria Eduarda, Av. Almirante Barroso, Rio de Janeiro

Maria Antônia, Maria Elisa, Maria Luíza, Maria Roberta, não há Maria mais bela que você nem nome mais belo que o seu, Maria Eduarda.
Do para sempre e também seu,
Rogério.

Maria Eduarda interrompe o que faz e relê a dedicatória do namorado no último livro dele, publicado há cinco anos, Poemas de terça-feira. Rogério Bravo. Na opinião dela, não poderia haver sobrenome menos apropriado que esse para seu namorado, a quem considera um fraco, por quem ainda assim se sente até hoje apaixonada. Já está com ele faz oito anos. De cinco pra cá, Rogério mal rascunha novos poemas. O último livro ficou entre despercebido e desprezado pela crítica e vendeu muito mal, após bons anos de sucesso na improvável, pouco reconhecida e arriscada carreira de poeta. Rogério fez parte de um grupo de escritores mineiros, poetas como ele, contistas, cronistas e ensaístas que lançaram em Belo Horizonte a revista semanal Licença poética, todos ainda na faculdade de Direito. Enquanto seus pares desistiram das letras e se tornaram advogados, juízes e promotores, Rogério veio para o Rio antes de concluir o curso a convite de outra publicação: Ensaio geral. Quando a revista deixou de existir, Rogério já colaborava com periódicos do Rio e São Paulo, e lançou-se como um dos pioneiros em publicações na internet. Foi lançando seus livros, chegou a ter espaço em programas vespertinos de TV, até que foi, nas palavras do próprio, perdendo o fôlego. Há quatro anos vive de favor de amigos, que dividem entre si uma mesada para ele. Rogério mora no apartamento de um desses amigos, sem pagar aluguel. Ultimamente tem ouvido indiretas deles, e Maria Eduarda entrou em cena pagando a metade das contas. Rogério anda deprimido, mais desligado que nunca. Maria Eduarda, cheia dele, mas ainda assim apaixonada.

Ela é viúva de um professor francês de filosofia da Sorbonne. Morava com ele e o filho do casal em Paris, até a morte do pai dela, depois de alguns meses sofrendo de câncer, quando os três vieram para o enterro. Maria Eduarda disse que precisava permanecer aqui para cuidar do espólio, junto com os irmãos e a mãe. Este lugar que somos, a sala onde mantém seu escritório, foi herança do pai. Foi ficando, telefonava, escrevia, visitava os dois em Paris por uns dias, até que foi a vez do marido falecer, de aneurisma cerebral, durante uma de suas aulas. Explicava a ele, ao filho e a todo mundo que não suportava de saudades do Rio, por mais que gostasse deles e de Paris, onde trabalhava da mesma forma que hoje, como freelancer de moda e figurinos. Com a morte do marido, trouxe o filho para morar com ela e a avó, mãe de Maria Eduarda – a mais velha de dois irmãos, Paulo e Bernardo, e da caçula Flávia, todos herdeiros do pai, não só de bens materiais como de algumas paixões, entre elas a por Billie Holiday.

O telefone toca e Maria Eduarda intui ou deseja que seja Flávia. Acertou: em desespero, a irmã conta o que viu da janela do apartamento de Florianópolis. O conselho de Maria Eduarda é direto:

-       - Não se meta com a polícia. Você não viu nada, não sabe de nada.

Diante da insegurança que percebe em Flávia, Maria Eduarda argumenta e insiste:

-     - Descrever o tipo do sujeito, que você mal viu de madrugada, lá de cima do seu apartamento, não adiantaria de nada, esquece isso, Flávia. Onde você está agora? ... Fica aí, trabalha mais um pouco, anda pela cidade, esquece o assunto, tá? Beijo.

Maria Eduarda faz o mesmo que acaba de aconselhar à irmã: trabalha mais um pouco, telefona para algumas pessoas e termina seus contatos do dia falando com o filho. Sente-se culpada até hoje por tê-lo deixado aos cuidados do pai em Paris, embora o filho a isente de culpas, dizendo sempre que o assunto surge que ela não o abandonou e nem ao pai, apenas morava longe, mas estava sempre presente assim mesmo. Ela vai à geladeira que mantém no escritório, tira de lá e abre uma meia garrafa de vinho tinto, prepara três sanduíches de queijo brie com geleia de pimenta. Come um dos sanduíches, bebe muito pouco do vinho em uma taça, um pouco de água, e sai, com a meia garrafa de vinho quase cheia e os dois sanduíches restantes em uma sacola de papel.

Do lado externo do prédio onde fica o escritório de Maria Eduarda

-       - Bonsoir, mes amis.
-      -  Bonsoir, madame Maria Eduarda.
-       - Bonsoir.
-       - Trouxe pra vocês uns sanduiches e um pouco de vinho.
-       - Obrigado, querida, diz Cleverson.
-      - A senhora não existe, completa Haroldo, ele e Cleverson um casal de andarilhos, que de segunda à sexta passam por aqui neste horário de fim de tarde.


9.18.2016

EM TEMPO REAL - PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - UM

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Segredo é pra quatro paredes.
(“Segredo”, canção popular brasileira de Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947.)
O único segredo que as mulheres sabem guardar é aqueles que ignoram.
(Sêneca, Córdoba 4 a.C. - Roma, 65.)
Bonita cidade, quero menos velocidade.
(Frase de uma menina de oito anos.)

TESTEMUNHAS

Do Coliseu, Roma, Itália 
                                                                                                                                                                
A humanidade pensa que conta sua história. Engana-se. Sabemos tudo sobre cada pessoa: pensamentos, memória, descobertas e futilidade; silêncios, palavras, fúrias e baixezas; feitos, medos, desesperos e desilusões. Em um deserto, nas águas, na selva, somos a pedra, somos o chão. A humanidade nos escava, nos aterra, nos corta, nos explode, nos permeia, nos constrói e destrói, mas quem conta sua história somos nós. Aqui, no passado, imponentes, assistíamos a espetáculos sangrentos. Agora, em ruínas, nos visitam turistas e batedores de carteiras. Algumas de nós assumem outros nomes e formas, como nos veículos que as pessoas usam para se locomover. Nós, as paredes, contamos a história. Esta, em tempo real. 

Do apartamento de Flávia, Avenida Beira Mar Norte, Florianópolis, Brasil

A carioca de 30 anos dorme nua. Sempre dorme nua, mesmo no inverno. Sonha com uma figura de bata e capuz brancos, que pensa ser a morte. Sem palavras, pergunta à figura encapuzada com os olhos atrás de dois rasgos se é ela, Flávia, quem vai morrer. A cabeça de capuz faz que não. Flávia acorda e vai à sala. Nunca foi mística ou religiosa, nunca acreditou em premonições, mas está assustada com o sonho. Se dá conta de que a figura estava mais para um canalha da Klu Klux Klan que propriamente a morte, popularmente imaginada de preto, embora um e outra sejam afinal a mesma coisa. Da janela aberta da varanda olha para o mar, que reflete a luz da lua. Volta a passar pela momentânea confusão de quando caminha e corre na calçada junto à baía. Na direção norte, o mar fica à sua esquerda; na volta, na direção sul, à direita. Flávia  não tem carro e evita sempre que pode os aviões. Nas vezes em que viaja de ônibus para o Rio, com o litoral à sua direita, é como se recuperasse uma bússola que tivesse perdido. Ela mora na parte da cidade que fica na ilha, que tem o mesmo nome do Estado, de Santa Catarina. Agora o que chama sua atenção é um homem de cabelos negros encaracolados, vestindo uma jaqueta de couro preta. Ele atravessa a avenida na direção da baía como se os carros não existissem, ou como se os desafiasse. Um som de buzina, e o homem chega ao canteiro central da avenida e ali permanece, parado, de pé, olhando para o movimento de carros na direção das pontes, que dividem a baía em sul e norte. O sujeito faz um gesto que para ela sempre foi nojento e grosseiro, o de quem assoa o nariz sem lenço com o dedo indicador – ela notou, da mão esquerda - pressionando uma das narinas, a cabeça inclinada em diagonal. Um sedã de luxo para na pista junto ao canteiro, como se tivesse vindo buscar o indivíduo. Depois de alguns instantes, o homem de cabelos encaracolados entra no automóvel pela porta do motorista. O carro permanece parado com o pisca-alerta aceso, enquanto outros passam em disparada nos dois sentidos. Um ou outro motorista buzina, expressando indignação por causa do carro parado. O sujeito da jaqueta salta do carro, bate a porta, atravessa a pista em direção à baía e caminha pela calçada tendo o mar à sua direita. O sedã permanece parado, com o pisca-alerta ligado. Flávia percebe que já está amanhecendo e resolve tomar um banho. Depois volta à varanda e vê um carro de polícia e uma ambulância junto ao mesmo sedã. Uma fila de carros está formada, o trânsito parado nas duas vias. Há um tumulto de pessoas à volta do sedã e dos outros dois veículos. Um corpo é retirado do carro, posto sobre uma padiola no chão, é coberto com um lençol e levado sobre a maca para dentro da ambulância. Flávia se lembra do seu sonho, não sabe o que fazer. Ouve o interfone da cozinha tocar. Hesita, põe o rosto nas mãos, corre para o quarto, põe um travesseiro sobre a cabeça. O interfone cessa de tocar na cozinha e agora outro soa mais distante, o do vizinho do lado. Flávia corre para debaixo do chuveiro novamente. Com a água molhando seu corpo, canta uma canção de Billie Holiday.