O DIÁRIO DE UM MARIO

11.04.2009

X TUDO

Esse é o nome abrasileirado de um sanduiche que leva de tudo: da maionese à rúcula, passando pelo bife de carne muída prensada e queijo mussarela. Aceita tudo. Foi assistindo na tv a cenas deprimentes da política japonesa, nas quais congressistas se esbofeteiam e vão ao chão de terno e gravata, causando inveja aos lutadores de sumô, que mais uma vez me convenci do óbvio: não só o brasileiro não sabe votar: ninguém no mundo sabe votar, pois, se um e somente um o soubesse, todos diriam a ele - ou ela -: "Vá e vote por todos nós". Como ninguém sabe votar, todos votam; esse, o elementar princípio das eleições - ou mesmo dela: da democracia.
E o X Tudo com isso? Quem aceita tudo e leva de tudo é o nosso popular eXcluído de Tudo - o X Tudo. Se eleitores majoritariamente esclarecidos - caso presumível dos japoneses - se miram em seus representantes democraticamente eleitos reduzindo aos tapas seus supostos, esperados, talvez inexistentes argumentos, nossa imensa maioria de X Tudos, aceitando desde café da manhã requentado com o prefeito até vale-combustível em troca de voto, naturalmente que não espera por argumentos, mas comida, escola, emprego, etc. - dando margem a toda espécie de canalha, que quer é ver a conta de X - vezes - se tornar exponenciação de X Tudos, carentes a ponto de suportar sua canalhice e inutilidade e de multiplicá-los, a eles, os vis, os abutres, os que se distinguem de todo e qualquer corrupto, porque roubam de quem não tem e, por causa deles, os vermes, não terá.
Ultimamente, não raramente tenho sido convidado a palestrar por aí. X Tudo é a imagem que tenho usado nessas oportunidades. X Tudo, na esperança de que nosso gosto se modifique, nossa vontade de aceitar qualquer coisa se apague, nossa exigência tome o lugar da mistura sem gosto e indigesta de tudo que junto não combina, de tudo que é tão diferente de quem gosta de eleição, democracia, respeito; de inclusão e multiplicação de oportunidades e perspectivas, incluindo a de escolha, ao invés de exclusão de gente e sua dignidade.
X Tudo, nem light.

9.20.2009

EM NOME DA DÚVIDA

Curiosa gente
Que se pensa mais inteligente
Por crente
Por descrente.

Esta, que desfralda bandeiras
Despreza vendavais
Oferece-nos mamadeiras
Seus desrítmicos ruidosos anticarnavais.

Inoportuno é o pregador
Inoportuno é o negador.

Pregadores
Negadores
Deixem-nos a nós
Com nossos nós

Aos ventos
Aos mares
A sós.

9.13.2009

GUARACIABA, UM ESTADO E SEUS MUNICÍPIOS

Nós não existimos. Se você quiser continuar a nos ler assim mesmo, para nós, os inexistentes, será um prazer. Bem vindo ao Estado de Guaraciaba, cuja capital também se chama Guaraciaba. Alguns dos nossos demais municípios são o Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis. Se você duvida, basta lembrar de uma coisa: nós não existimos.

Morávamos no Rio, chamado de cidade maravilhosa porque, de qualquer lugar, se não for o mar ou a montanha, é o céu que se vê, quase sempre azul e, talvez por isso, o povo de lá é alegre até quando tem motivos para ficar triste. Lá, quando chovia muito, quando nossa casa deslizava morro abaixo, a culpa era nossa. Costumavam dizer que nós não sabíamos o que fazer do lixo e que o espalhávamos por toda parte e, por isso, nossa casa desabava. Se isso era verdade ou não, pouco importa, porque o que a gente diz não tem a menor importância – pois não existimos. Naquele tempo, nós éramos pretos e diziam que ser preto não era bom. Hoje em dia, sabemos de gente que passa por preto ou negro para entrar na faculdade. Como não sabíamos que um dia seríamos valorizados por ser pretos, viramos nordestinos e nos mudamos para São Paulo.

Em São Paulo, cada vez que chovia muito, alagava tudo e nossa casa ficava inundada até o teto e nós aparecíamos na televisão, andando com a água pela cintura, remando um barco improvisado ou chorando pelos cantos. (Nós, os inexistentes, desde quando nosso barraco lá no Rio deslizava morro abaixo, vira e mexe aparecemos na TV.) Começamos a perceber que São Paulo é um município sem limites, que se espalha para todas as direções: para os lados, para cima e também para baixo – quando é para debaixo d’água que São Paulo vai. Todo mundo um dia acaba se mudando para São Paulo porque lá é onde há muitas oportunidades, quando poucas são as que existem em outros lugares - por exemplo na parte do Nordeste onde costuma não chover, mas, quando chove, chove muito. Prova disso é que existe uma música chamada Súplica Cearense, na qual o cantor pede perdão a Deus porque reza errado e de tanto rezar errado para que chovesse, Deus entendeu que era para mandar todas as águas do céu em cima do Ceará. Os autores da música se chamam Gordurinha e Nelinho e não sabemos se eles existem, mas a canção foi gravada pelo Fagner, e o Fagner existe, embora ele também apareça na televisão. Nós éramos retirantes nordestinos sempre crescendo pro lado debaixo da água de São Paulo e por isso resolvemos nos mudar para Florianópolis.

Agora, somos descendentes de italianos, alemães, açorianos, pretos e índios; alguns de nós são chamados de bugres, outros, de manezinhos. Florianópolis é uma gracinha, de tão delicada que é, com suas montanhas, o mar por toda parte, a ponte pênsil e as outras duas de concreto, cheias de automóveis parados em cima delas. A cidade quer atrair turistas, mas não prepara para isso as pessoas que trabalham como garçons, motoristas de táxi, serventes em hotéis e outras atividades; pessoas que, como nós, não existem – portanto, se elas não existem, porque prepará-las? Percebemos também que não só as pontes começaram a ficar cheias de automóveis parados em cima: todas as ruas foram ficando assim, não sem antes os automóveis passarem a toda velocidade e se baterem uns nos outros, principalmente quando chovia e em Florianópolis também chove, parece que é assim por toda parte, e percebemos que em Florianópolis, quando chove muito, é uma mistura de Rio com São Paulo: alaga tudo e algumas casas desabam. Foi quando viramos somente descendentes de alemães e italianos e nos mudamos para a capital do nosso Estado, que, como já dissemos, tem o mesmo nome que ele: Guaraciaba.

Pois na capital Guaraciaba também chove e, por aqui, os ventos às vezes são tão fortes que se chamam tornados. Este último arrancou os telhados das casas dos ricos, arrancou do chão as casas dos pobres e arrancou dos ginásios seus telhados - os quais, por sua vez, arrastados pelo tornado, arrancaram os telhados das outras casas que ainda tinham telhados em cima delas. Aí nos mudamos para dentro de um ônibus, que está e vai continuar parado por algum tempo: ele virou a nossa casa e também a casa de muitas outras pessoas, algumas brancas como agora somos e outras bugres, manezinhas, cariocas, paulistas, nordestinas, pretas, cafuzas, mamelucas, negras, como já fomos antigamente, nós, os inexistentes do Estado e agora da cidade de Guaraciaba, que acabamos de aparecer na TV, deitados em nossos colchões, dentro do ônibus.

Depois, vimos uma porção de acontecimentos no país vizinho, o Brasil: os Jogos Panamericanos, a promessa das Olimpíadas e a Copa do Mundo que vai ter por lá e os governadores e os presidentes e... Foi na TV que também assistimos sobre vários pactos, sendo que alguns os representantes oficiais do vizinho do Estado de Guaraciaba, o Brasil, assinaram: pacto do G20, protocolo de Kyoto, Princípios do Equador, Rodada do Uruguai, Fórum Mundial de Davos, Rodada de Doha, Objetivos do Milênio...

Nós, que aparecemos toda hora na TV porque não existimos; que não somos representantes de povo nenhum, porque somos o próprio povo de Guaraciaba, sua capital e seus municípios, Rio, São Paulo, Florianópolis e outros; que não somos os que se perderam e que aparecem na TV com suas cabeças baixas e as mãos algemadas ou com os olhos vendados ou ainda dentro de um caixão pequenininho; que somos os pretos, os brancos, os cafuzos, os mamelucos, os índios e os loucos; que somos os despreparados e os doutores; nós e nossos diferentes sotaques, vistos na TV quando nossas casas desaparecem, após assistirmos sobre tantos pactos e nós mesmos deitados dentro do ônibus, pensamos o seguinte.

Por que não fazer um pacto de Guaraciaba? Do nosso Estado, o Estado de Guaraciaba, que vai lá no Rio de Janeiro, se estende ao Nordeste até o Maranhão, passa por Manaus e por Belém e por Brasília e pela Belém-Brasília, passa pelo Acre e pelo Goiás e pelo Espírito Santo e por Campos e pelo Pré-Sal, passa por Minas e inclui São Paulo, atravessa Curitiba, vai até Porto Alegre e se muda para Florianópolis e culmina pela nossa capital, a capital do Estado de Guaraciaba, tão parecido com o país vizinho, o Brasil? Por que não um protocolo onde nossos representantes oficiais e seus partidos, os de situação e oposição, assumissem compromissos igualmente oficiais de planejamento das cidades, suas moradas e moradias, suas pontes, seus morros, suas drenagens, seus automóveis, seu transporte coletivo, suas fontes de renda, seu preparo para receber turistas e novos moradores e suas defesas contra aquilo tão longe, tão acima de nós, mas que tantas vezes se repete, como os ventos, as chuvas e os tornados? Se os representantes do Brasil assinam tantos pactos internacionais, porque nós, os do Estado de Guaraciaba, não fazemos nossos governantes e candidatos firmarem, sob pena da perda do mandato se não cumprirem suas metas, compromissos para conosco, que não existimos? (Não sabemos como é no Brasil, mas, em Guaraciaba, compreendidos o Estado e seus municípios, nós, os inexistentes, é que pagamos os salários dos políticos - às vezes com nossos impostos, outras, com nossa credulidade.)
Mas, que ninguém leve nada disso a sério: afinal, somos aqueles que não existem; somos apenas e tão somente o povo do Estado de Guaraciaba.

8.07.2009

ELIANA DINIZ

Não tenho propriamente uma fé. Tive um catecismo católico muito agradável, menino de Laranjeiras, Rio de Janeiro, em um convento, com árvores, tamarindo, passarinhos e, naturalmente, freiras. Minha primeira comunhão foi franciscana, diferente das usuais naqueles anos, os mesmos quando vi, trazido pelas mãos de pai e mãe, soldados fardados e armados e os dois me dizendo, O Jango caiu e vai sair do Brasil. Meus pais não eram religiosos. Ela, de um internato de um rigor absurdo e crenças assustadoras, a ponto de ser obrigada a tomar banho vestida e dormir com a certeza de que o diabo estava embaixo da cama; ele, do Colégio Zacarias, no Catete, ao qual ia a pé, desde a Rua Umari, nas proximidades do Convento onde fui catequizado, já por falta de dinheiro – meu avô era um aristocrata, de família tradicional, talvez fino, seguramente falido – e saiu sem completar o curso, exatamente por esse motivo. Seguiram suas vidas, tinham curiosidade, liam tudo, os tempos eram outros, de uma forma um pouco diferente da de hoje, não era o diploma que fazia a diferença, a não ser para a tríade medicina-engenharia-direito. Foi assim que fui crescendo, indo às vezes à missa, já no Leme, começo de Copacabana, levando na gozação o “coração ao alto”, sentindo certo alívio quando percebia que a missa ia chegando ao fim. Depois, fui conhecendo a história, preceitos, preconceitos, dogmas, cheguei ao ponto de me sentir espécie de paria no mundo dos crentes, dos que tinham fé. Li Morris West, Nelson Rodrigues e Graham Greene, católicos de diferentes gradações, seus profundos encantamentos e desencantamentos, questionamentos, particularizações. Disso tudo, o que me restou foi uma sensação de ilógica e semelhança entre o Gênesis e o Big Bang e a esperança, mais do que crença, na transformação pós-morte, igualmente ilógica e semelhante às possíveis sucessivas transformações de ameba em quadrúpede, bípede implume, hominídeo, até o homo sapiens. Com relação à Igreja Católica, uma desconexão, uma não-aceitação de certas inflexibilidades, imposições, e a leitura de Em que crêem os que não crêem, troca de correspondências de Humberto Eco – mais um ilustre desiludido e desgarrado - com um cardeal. Ficou-me a mesma admiração dos escritores que citei, mais – muito mais - pelo humano que a instituição; mais por conhecer de perto alguns sacerdotes, sinceros, devotos, convictos e ao mesmo tempo conscientes de tanta incoerência, da defesa do tantas vezes indefensável, do distanciamento do poder do Vaticano corporativo e a dura realidade de crentes e descrentes, a maioria dos habitantes do planeta ainda excluídos, desgraçados, desesperados.

Em que crêem os que não crêem? – permanece a pergunta-título do livro já citado.

Da minha parte, passei a crer na perseverança de Eliana Diniz.

Ela cuida de um lugar que não existe, a não ser em certo gênero de filme americano. Em uma sala de mesas coloridas, há estantes, crianças lendo livros, querendo contar histórias. Noutra, meninos – meninos – tecem colchas, tapetes, panos de prato. Na terceira, meninas e meninos reaproveitam jornais velhos, lidos ou não, e fazem cestos e porta-retratos. Na quarta sala do lugar inexistente, só imaginado em filme americano sobre escolas de música, dança e teatro, três teclados, em cujas teclas se encontram escritas as notas, dó, ré, mi... abrindo o caminho para mais uma sala, onde oito jovens, de todas as misturas étnicas possíveis e sua beleza espontânea, bruta e ingênua, dos dois sexos, aprendem a tocar violino. Sete violinos para oito jovens, fazendo com que um deles fique esperando, olhando para o chão, pensando no que não queria, no mundo que deixou e o espera lá fora. Melhor esperar a vez do violino.

O maestro-professor, como os alunos, tem vida dupla. Os alunos e alunas da casa inexistente estudam em um turno e, no contra-turno, freqüentam o lugar imaginário. O maestro-professor, quando não está lá, conserta relógios.

Meninas e meninos, dos que querem ler e contar histórias aos que aprendem teclado, tecelagem, reciclagem e violino, se dividem entre os que costumam dormir debaixo da mesa da sala das casas onde moram e os que dormiam na rua e hoje vão para o abrigo municipal tentar dormir e sonhar com seus instrumentos, livros e agulhas.

Às vezes, quero desistir, diz Eliana Diniz, é miséria demais, é cada coisa que a gente vê... E dizemos a ela, mas aqui se conseguem resultados tão bons, esses meninos, essas mocinhas, estão encontrando seus caminhos, sonham, aprendem, vão querer se desenvolver, se encontrar em suas vidas, têm sua auto-estima recuperada...

Mas querem que eu tire o almoço deles, ela nos conta, tinha uma verba estadual que acabou e aí eles me disseram que eu tirasse o almoço e continuasse o projeto. Mas como eu vou tirar a refeição deles? Eles comem direitinho, todos em fila, depois eles mesmos tiram e lavam os pratos.

Este lugar de mentirinha fica em Quedas do Iguaçu, interior do Paraná. Só quem vai lá percebe que isso, o lugar que não existe, guarda ilógica e semelhança com o Gênesis, o Big Bang, Adão, Eva e o primata-ameba hermafrodita, o desaparecimento absoluto e a alma, ou seu equivalente, o espírito, partindo para outra, quiçá um paraíso.

Esta a minha falta de fé. Esta a minha crença. A insistência, a perseverança, crer no que não é crível, esperar o que não deve nem pode ser esperado. Mais que qualquer coisa espiritual, lógica ou ilógica, cética ou crédula, sábia ou pseudo-intelectual.

Eu tenho a mais absoluta certeza de que esta mulher, Eliana Diniz, a irmã Eliana, existe.

7.23.2009

UM HOMEM E SEUS CAPÍTULOS

O que há de mais interessante na vida não é a compreensão, mas o seu exato contrário. A esperança persiste porque o contrário não consegue ser tão exato quanto se esperava dele. A célebre foto do menino africano à beira da morte à beira do lixo enquanto um urubu observa a cena, que rendeu um prêmio e um suicídio ao fotógrafo, a tudo resume e explica e confunde. Há quem interprete a cena, se esquecendo de que não é uma cena e sim um fato que já deixou de ser e virou passado. Há quem use a foto, há quem explique a posição de espera do urubu, quem se prenda à engenhoca chamada urubu. Há finalmente quem sofra pelo menino. Entendimento houvesse e conversa não haveria. Engenho seria palavra jamais pronunciada. Arte é que nem o lixo entre o menino e o urubu, se revela no espaço da incompreensão, da multiplicidade de impercepções, do raso ao supostamente profundo, aquilo que poderia ser abrangente e não passa de espaçoso, que se torna sensibilidade porque esta não se manifesta. Quem levanta e anda muito provavelmente está mesmo morto. Vivo é o estático: perplexo, menino, lixo, urubu.

7.16.2009

DA ARTE POR PROFISSÃO E DE TANTAS OUTRAS COISAS

Cronistas profissionais, por exemplo. Famoso colunista afirma ter conversado com escritora irlandesa que por sua vez diz ter conversado com dois escritores brasileiros e se ter espantado com o desconhecimento deles sobre escritores. O famoso colunista citado conta que mencionada escritora disse que um dos dois escritores com quem conversou é uma fraude. Nesse quem é quem mais para fofoca que página policial fica público e notório quem de fato é fraude. Assim eu diria se colunista social fosse de modo que o leitor supusesse – não me deixei trair por ignorante perigosa rima – que de algum modo estivesse querendo me favorecer escondendo nomes extorquindo vantagens. Igualmente escondi vírgulas por profissional não ser.

Poucos dias depois, chefe da receita federal é demitida com subsequentes eloquentes desmentidos de que suposições de manipulações contábeis da estatal mor tivessem de fato provocado sua demissão e graças ao diabo há uma crise a justificar a demissão e graças a leis há leis que dizem que a receita é órgão técnico impermeável a pressões políticas profissionalismo é isso aí.

De tantas outras coisas, pelo consagrado argumento de que a medicina não é ciência exata é que fazemos exames científicos à exaustão cujos laudos são escritos por técnicos a debochar de outros técnicos autores daqueles que deram origem ao n elevado a n mais 1 somado a mais 1 exame que nada conclui e ao mesmo tempo e paradoxalmente tem definitivo laudo que é ridicularizado pelo médico que o lê enquanto examina o negativo à luz fluorescente e interpreta aquilo tudo laudo e imagem e condena o paciente à morte ou às vezes pior à vida como se poderoso fosse profissional que é.

Mais que tudo isso, acima de qualquer coisa ou laudo, vírgulas ora direis, não se chega em casa e sim a casa. E sem crase. Em casa é que se fica amador amadora assim não for meu amigo minha amiga a história acabou seu sorriso se foi sua oportunidade de afagar o cão e chutar o bidê e gritar isso doeu e o vizinho ouvir e a vizinha reclamar acaba por acabar com a carreira do síndico da síndica profissional.

Assim foi que hoje cheguei, que amanhã me vou, que um dia irei, amador sou rei.

7.08.2009

CARAS

Não no referimos à revista, mas aos rostos humanos, vulgarmente chamados de caras. Há matrizes – e isso Darwin, seus seguidores e também seus detratores poderiam afirmar com propriedade; mas, dessa verdade, sejamos apenas passageiros inquilinos.

Um rosto de uma menina atravessando uma rua de Santo Amaro da Imperatriz é o mesmo de uma outra avistada em Florianópolis, em tempo decorrido que não permitiria que ambas fossem uma só e com diferenças o bastante para sabermos que não são gêmeas e sequer foram geradas pelos mesmos pai e mãe. O mesmo ocorrerá com meninos, senhoras, homens e mulheres de meia idade e, pior, de meias puídas ou – mais grave - de meias verdades.

Claro, você já se lembrou dos sósias. Há um maestro em Florianópolis a quem só não chamamos de Getulio Vargas por óbvias razões, sendo a principal o fato de ser ele um maestro, regente de orquestras, pouco afeito a movimentações que não as das cordas e notas musicais, que transmite a meninos e meninas de pais e mães que lhes são próprios, com traços, prognatismos, sorrisos, olhares vesgos, sobrancelhas juntas, olhos separados, queixos, lóbulos e narinas que nos fazem lembrar de pessoas distantes, até de outras gerações, de Darwinianas ou Divinas originais fôrmas (o acento, neste caso, mesmo que abolido ou proscrito, é fundamental).

Agora, sim, falando de uma revista, quem folhear uma Veja de alguns meses atrás encontrará uma reportagem sobre Darwin e suas explicações, até, para o soluço – e como ele e seus estudos encontram até hoje fortes resistências. Diz o artigo que há duas correntes: a que acredita que sejamos todos tailor-made, feitos um a um, sob medida; e a Darwiniana, das tantas transformações e gerações ao passar dos milênios, séculos, dias. Esta segunda, de acordo com o artigo lido às pressas e tardiamente, acreditaria ser tudo obra do acaso.

A questão, de fato, não é como nem quando, e - ousa-se aqui afirmar – nem mesmo quem, mas... Por que?

Por que pertencemos a matrizes e, mais, muito mais, gostamos do cheiro da rosa e desgostamos de outros tantos? Este encantamento pelo mar, o vento, a escalada e a visão da montanha, se tudo isso nos veio atavicamente através de múltiplas transformações e numerosas gerações, muito bem, Darwin; se não foi assim, se de fato somos, cada um, encomenda, feitura, experimento e refeitura de Deus – que diferença isso faz, se o motivo continua escondido por trás de uma nuvem que não se vê?

Pois se soubéssemos o motivo dessa confusão toda, dessa coincidência, dessa falta de acordo e, admitamos, de assunto, ora, sem querer ofender a ninguém, poderíamos louvar a Deus ou ao Santo Acaso, sem culpa nenhuma nem a necessidade de desferir truculentos e orgulhosos socos em nossos próprios peludos ancestrais peitos.

Meninas de Santo Amaro da Imperatriz e Florianópolis, ainda se eu fosse outro Mário, o Quintana - mas não. A verdade é que seus rostos, suas caras, sua matriz amada e desconhecida causaram essa enorme confusão nesta minha cabeça, tão saudosa de cabelos, de poesia, de certezas.