8.07.2017

DEZ PASSOS PARA CONSTRUIR UMA POTÊNCIA ECONÔMICA DESIGUAL, VIOLENTA, GOVERNADA POR INCONSEQUENTES



1.     Deus é brasileiro. E Deus disse: Vocês vão ver o povo que eu vou por aí.
2.     A culpa é dos portugueses e suas capitanias hereditárias.
3.     A culpa é do imperialismo, do comunismo, do catolicismo.
4.     Quem sabe faz, quem não sabe ensina.
5.     O problema é a classe média.
6.     O problema é a classe dominante.
7.     O problema é o Zé Povinho.
8.     O brasileiro não sabe votar.
9.     O brasileiro não tem memória.
10.  Repetir de 1 a 9 de geração em geração.
***

Sempre quis saber quem é o “outro” na expressão “Como diz o outro”. Desnecessariamente, claro. Basta que seja o outro.

5.20.2017

Poderes

Ilusão pensar que temos três poderes. Em pelo menos todo o mundo ocidental, de democracia ocidental, há mais três além dos formais: a mídia, o povo e o dinheiro. Nesses episódios mais recentes, especulações à parte, a mídia fez e faz seu papel: divulga informação e opinião, desde a tradicional, passando pelas que já foram apelidadas de nanicas ou alternativas, até esse fenômeno recente, chamado mídias sociais. O povo, em matéria estritamente política, está como sempre esteve: confuso e dividido, de maneira, pelo menos e por enquanto, sem a agressividade oratória e mesmo física de há muito pouco tempo. O dinheiro, ora, o dinheiro se multiplicou para uns poucos, diminuiu ou desapareceu para outros muitos mais. Digo isso para provocar uma reflexão. Que bom pensarem em reformas, baseadas em um possível maior número de empregos e na necessidade de se contar com uma expectativa de vida maior. Que lástima não se pensar que essa expectativa é sujeita a, mais que pontos, consideráveis porções fora da curva, por exemplo por mortes entre jovens por causa de um aparelho celular ou equivalente coisa. Que espantoso se esqueça que tipo de vida terá a gente que viverá mais tempo, tantos, a tirar por hoje, heroicos idosos vivendo de um salário mínimo, ou, pasmem, isso é possível, menos do que isso. Errei quando disse que os poderes sejam seis. Faltou um, chamado consciência. Que se não vier do povo, ora, de que outro poder virá?

5.06.2017

CIÊNCIA, PRA QUE TE QUERO


Quanto mais convivo, quanto mais estudo Filosofia, Ciência Política e suas célebres frases – o homem é um ser racional, o homem é um ser gregário, o homem é um ser político, o homem é o lobo do homem -, mais percebo o óbvio. O homem é um ser emocional. Emotivo. Ou artistas não seriam desprezados, execrados, idolatrados. Um deles disse: Seja feliz e faça os outros felizes. Bom fim de semana.

2.13.2017

Bom Dia

Uma voz amada me deseja bom dia.
Outra a ela se junta e me diz Bom dia.
As duas conversam e dizem
Uma à outra
Bom dia.
Todo barulho urbano
Será somente percussão
Ora afinada ora desastrada
Dessa melodia.
Que vozes amigas
Amadas sempre nos digam
Bom dia.

2.08.2017

O LADRÃO DE AMIGOS

Eu tenho um amigo que rouba amigos. Ele não rouba nada dos amigos, mas os propriamente ditos. Qualquer amigo que eu apresente a ele passa a vê-lo mais que a mim, e tenho certeza de que isso acontece com todo mundo que é amigo dele. Acontece que um ladrão de amigos, que rouba amizades, é alguém generoso: compartilha as amizades roubadas. Quando estamos perto, nos convida a estar com elas. Estando longe, manda fotos, mensagens, telefona. Daí me ter ocorrido uma ideia: mandar esse meu amigo pra Brasília. Lá, ele reuniria os corruptos dos três poderes e, de olhos vendados, os levaria a um lugar onde eles continuassem exercitando o que gostam: roubar, não amigos, mas dinheiro, qualquer bem material, seja de amigos, inimigos, desconhecidos, de quem tem e de quem não tem. Só que agora somente entre eles, roubando uns aos outros, em um lugar só conhecido por eles. Não existem os primos entre si? Corruptos passariam a ser os ladrões entre si. Os honestos, meu amigo manteria em Brasília. Quando esses tivessem uma vontade danada de roubar, por certo herdada do convívio com aquela outra rede social, já teriam aprendido com meu amigo a roubar somente amigos – amizades -, incluindo o compartilhamento, entre eles e, até, quem sabe, conosco. Não mereço o Nobel pela ideia? Claro que não. O Nobel é do Rubens.

1.14.2017

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - CINCO

ASSASSINAS

Da casa no sul da ilha

Aqui muito já se falou, muito já se viu, muito já se ouviu.

Quando a faca rasgou seu nariz, sua mão esquerda em concha jogou para longe o sangue que escorria; a direita afastou o agressor com um jab e a esquerda disparou um direto no queixo dele, que desabou de costas no chão de terra, a faca, largada no chão. Como se a perna fosse uma estaca e o homem caído um vampiro, pisou-lhe entre as pernas com o salto da bota do pé esquerdo. O homem no chão urrou de dor, pediu socorro, implorou perdão. Quem estava em volta e assistira à briga não fez nenhuma questão de intervir. Um homem velho sacou do bolso interno do paletó surrado uma pistola e meteu uma bala na testa do que já não tinha mais a faca. Os que assistiam deram um ou dois passos para trás, incluindo o rapaz do nariz cortado.

Que foi isso, pai? Tu tá maluco? Não precisava matar!
Teu nariz tá sangrando muito e os grito dele tava muito alto. Vambora que eu te faço um curativo em casa.

Um dos presentes disse, Tá certo, seu Raimundo, nóis some com ele, ninguém fica sabendo. Um outro puxou um aplauso, seguido pelos demais com moderação e medo.

O sotaque do velho é típico daquela região de Bagé, que às vezes se mistura ao espanhol. Gente acostumada a mugido, temporal e estiagem. O filho, nascido no sul da Ilha de Santa Catarina, absorveu o mesmo sotaque. Ser chamado de gaúcho em sua terra natal, como às vezes ocorre, costuma deixá-lo, mais que confuso, em crise de identidade, principalmente se levado em conta certo bairrismo entre alguns locais e imigrantes do estado vizinho ao sul. O tiro que há poucas madrugadas disparou na têmpora do advogado lembrou aquele outro, o do pai, na testa do homem já indefeso que lhe arrancara do rosto sangue e pele. Não foi um assoar de nariz o gesto que Flávia assistiu da janela do apartamento na Beira Mar onde  mora, e sim um atirar para longe um sangue há muito escorrido, seco e limpo. O velho está apenas mais velho, mas é como se sempre tivesse sido assim, velho, o velho Raimundo, que se casou depois de viúvo de um primeiro casamento. Aos quarenta e cinco anos, com Dorinha, que na época tinha dezoito. Foi pai aos quarenta e seis; chifrado - expressão que ele mesmo usa para o ocorrido - aos quarenta e nove. Dorinha apaixonou-se por João Bebé, pescador de braços fortes como os do velho, o mesmo vigor do velho, mas o velho era o velho. João Bebé era o moço do sorriso largo, envolvente, sedutor. Raimundo sempre foi sisudo demais, rígido demais. Características que a principio transmitiam segurança à órfã desde menina, que depois enjoaram, perderam qualquer graça, que ela só reencontrou em João Bebé. Raimundo vingou-se vendendo tudo o que tinha em Florianópolis, deixando Dorinha para trás, que nunca mais veria o filho. Antônio. “O misterioso assassino da Beira Mar”, como tem sido chamado na mídia. Nada ainda se sabe dele e possíveis motivos para o crime, nem mesmo Flávia, testemunha do alto de um prédio, quieta e amedrontada a respeito. A última vez que Dorinha o viu foi quando contou pro velho o que tinha acontecido, pedindo perdão, mas que o que estava sentindo era mais forte que ela, que não queria nada, somente ir embora e de vez em quando ver o filho, cuidar do filho, era só isso o que Dorinha pedia. João Bebé estava junto, por causa da fama de violento do velho. Foram na hora que sabiam que ia ser difícil para ele pegar a pistola, guardada na gaveta da mesa de cabeceira no quarto no andar de cima, e foram em companhia do Beto, amigo do João Bebé, com sua farda da Polícia Militar. Dorinha disse aquilo tudo e saiu, deixando o filho de três anos brincando no chão, depois de pegá-lo no colo e dar-lhe um beijo no rosto, de mãos dadas com Bebé, Beto um pouco atrás, a mão no cabo da sua arma de PM. Se Raimundo não podia matar os dois, como era o que achava que deveria fazer, sua vingança seria esta: iria embora com o filho, desapareceria dali. Marcenaria e emprestar dinheiro a juros têm serventia em qualquer lugar e dólar é dinheiro em qualquer lugar. Foi com o filho primeiro para o Uruguai. Ficaram três anos por lá; depois, quatro no Chile, a convite de um fabricante de adegas artesanais, cujo artesão falecera e o velho Raimundo mostrou-se exímio substituto; e muitos outros anos em Bagé, para matar saudades de Raimundo da região onde nasceu. Só voltaram para Florianópolis quando um outro velho, de nome Cristóvão, amigo de Raimundo, contou a ele em uma carta mais uma tragédia: numa tarde de domingo, o mar virou de repente, Dorinha e João Bebé desapareceram para sempre dentro do mar. Já fazia duas semanas e as buscas haviam sido suspensas; não havia mais esperança de encontrá-los com vida e nem mesmo sem ela. Afastaram-se demais da costa, o barco de João Bebé não era para tanto, muito menos com o mar virado, grosso, bravio, sôfrego, voraz. Voltar para Florianópolis foi como um pedido de desculpas ao filho. Se o tirara de perto e para sempre da mãe, queria devolver a ele pelo menos o lugar de nascimento. 

Raimundo está com setenta e seis anos. A marcenaria ainda o mantém forte e lúcido, já não é mais agiota. Antônio, seu filho de nariz cortado, trinta.