9.21.2011

SUA SOMBRA

Se você mora em uma casa com quintal, pode ter um ou mais cães de guarda, com a certeza de que todos protegerão você, sua família e seu patrimônio contra esses terríveis potenciais agressores: as plantas. Depois de muito adestramento, que incluirá um investimento em cercas, as plantas não mais serão protegidas – isto é, agredidas - pelos seus cães adestrados, os quais, por terem sido tornados destros, forçados, portanto, a deixar seus hábitos de animais canhotos, desenvolverão tiques e passarão por isso a enfeitar seu quintal com belas esculturas – ou, a depender do estilo, instalações. (Lembre-se: o contrário de destro, o vulgar canhoto, é sinistro.) Como já dizia Oscar Wilde, toda arte é inútil: suas novas obras de arte não servirão como adubo, somente como campo minado exclusivo para você, especialmente quando chegar apertado para ir ao banheiro.

Mudando-se para um apartamento, sofrendo de remorsos, você já terá doado seus pastores alemães-belgas-rottweilers e terá adquirido um poodle. Quando você chegar esbaforido, ele reagirá em seu favor, latindo esbaforido; se deprimido for o seu estado, ele murmurará Freud; se alegre se encontrar sua alma, pedindo por uma cerveja gelada, o xixi já estará à sua espera no sofá. Cães se cumprimentam pelos fundos e é com eles que deixam suas marcas; portanto, entre sempre pelos fundos do apartamento, sabendo que instalações estarão esculpidas à espera do seu caminho até a área de serviço, local onde deixar seu guarda-chuva, que pretensamente nos protege daquilo que não nos ataca, somente nos molha: a chuva, que, mesmo ácida, é melhor que o guarda-chuva, principalmente se você tiver um poodle em seu apartamento.

Você pode optar por gatos, mas sempre no plural, porque gatos de pardos não têm nada, são tigrados, brancos, pretos e marrons, e muito dóceis, desde que você goste de colecionar testículos felinos. Prefira os incertos, os fugidios, os rebeldes, que saem de noite para brigar com cães. Pode ser que assim o vitorioso seja você.

Em qualquer situação, cuide bem da sua sombra: é ela que estará pairando no piso do quintal e da área de serviço, no assento do sofá, no choramingar e no latido do cão, no ronronar e no miar do gato, no silêncio da madrugada interrompido pelo triturador do caminhão de lixo, pela campainha do despertador, ou por um interminável e invisível chiclete mascado pelo poodle - que, agora, você leva para o seu quarto, para que ele pare de latir para a sombra alheia. Admita: a sua é uma sombra egoísta.

Palavra de canhoto.

9.12.2011

VARANDAS

Eu preciso roubar alguma coisa de você, não porque não goste de você, pelo contrário, por gostar demais. Com seu consentimento, já invadi seu corpo e sua vida, e será consentido que vou roubar seu relógio e só usá-lo quando estivermos juntos. Na cozinha, percebi que sou capaz de enxergar com seus óculos. Não me caem bem, não me ficam bem, mas me cabem no bolso. Mesmo assim, melhor que eu continue usando os que são meus e carregue comigo seu olhar, seu modo de ver o mundo, as pessoas, de perceber a si. Levo seu olhar emprestado por saber que ele continuará em seus olhos. Com o relógio que roubei de você no pulso, eu só vou se você me levar pela mão.

A bailarina agora tem namorado, desejo, continua dançando quando pode e estudando muito. Pensou em mudar de rumo, engenharia química, não mais medicina. O que ela mais quer para o futuro dela, que dela é próprio, é pesquisa. Pensou, repensou, tornou a querer medicina. Dezessete anos e já é necessário tomar uma decisão do tamanho da sobrevivência e do sonho. Foi fotografada por você em um momento de dançarina, esguia, atenta, questionadora, tudo ao mesmo tempo e do tamanho do sonho, esperando por uma nova instrução da coreógrafa, com a meia rasgada na altura da coxa. A foto em preto e branco mostra o que sabemos dela, que continua cristalina, verdadeira, olhos nos olhos, com a vontade que dela é própria, com a leveza que só as bailarinas têm.

Vamos lá fora, onde bate o sol em varandas que veremos da calçada e que estarão vazias, porque frequentadas por quem estará por perto, enquanto eu falarei de outras, outras varandas.

Uma já faz um tempão que estive lá. Três semanas. Bar Urca, no Rio. Em cima, um restaurante, embaixo, um botequim, em frente, a baía de Guanabara. É preciso começar por baixo, onde o mundo é caótico, todos pedem cerveja, empadas e pastéis gritando junto o próprio nome ou o de alguém que tenha autorizado outros a fazê-lo. Meus outros são amigos de muito tempo, André e Gyzelle, Rubens e Henriette, Ramon e nosso Botafogo, Sandra e Murilo Haydt. Como o Botafogo não nos passou procuração para pedir cervejas em seu glorioso nome e sempre imprevisível campanha, que ganharia mais tarde do Atlético Mineiro e que ontem (hoje já é segunda-feira) perdeu de goleada, em terras cariocas, entre Haydts, Henriettes e Gyzelles com sobrenome húngaro, melhor que o meu fosse o nome a ser gritado, em total confiança aos muitos desconhecidos presentes. A mesa é a mureta que nos separa do mar, onde os barcos são generosos conosco: mesmo ancorados, balançam por nós, que bebemos de pé, continentes e emocionados. Fechamos sem questionamentos a primeira conta da tarde no bar e subimos. Quando subimos, sentados, comemos pescados. A imensa baía, com seus morros felinos, femininos, de lá de fora da janela, nos espiando, cuidando de nós. Quando veio a segunda conta e o Ramon estranhou a quantidade de cervejas, o garçom nos disse, Vocês beberam bem. Nada como um elogio para terminar uma tarde em uma varanda assim.

Outra parece que foi ontem. Ficava entre Araruama e Cabo Frio, onde aportamos, eu e o mesmo Rubens que estava comigo no Bar Urca há três semanas, primeiro na calçada, onde eu dormi com a cabeça sobre minha sacola de viagem e o Rubens passou a noite em claro, esperando que nossos amigos, que não sabiam que viríamos, voltassem para a casa em que estavam hospedados. Outro Murilo e que conheço há mais tempo ainda, o Drummond, e o Venâncio, que hoje mora em São Luís do Maranhão, já tinham feito dezoito anos, ao contrário de mim e do mesmo André, que estávamos com dezessete, ao contrário do Rubens, que já tinha chegado na frente de todo mundo aos dezoito e nunca quis saber de carro (aliás, nem de bicicleta). Pois o André recentemente achou uma foto dessa varanda, onde eu e Murilo estamos sentados em um barco de pescadores na areia da praia. Porque era um dia de tempo instável, ora chovia, ora era friozinho, eu e Murilo estávamos de camisas, sapatos e calças compridas, em plena praia. Por que minha filha, quando viu a foto, disse, Que horror, papai, só porque as calças eram de boca de sino, é um mistério insolúvel, que apenas se repete a cada geração, como as calças com bocas de sino se repetem a cada duas.

Outra faz um mês que visitamos. Era 13 de agosto. Nesta, você estava comigo. A bailarina e o namorado dela também. Fica numa ilha cercada de Lagoa Rodrigo de Freitas, Copacabana e Ipanema por todos os lados, onde meu irmão fez uma festa que será para sempre inesquecível. O apartamento onde ele mora, com livros e antepassados nos livros e nas fotos por todos os lados, foi tomado de parentes e amigos por todos os lados. Porque fazemos parte deles e porque somos pais da bailarina, dancei com você a noite inteira, com meus sapatos de Fred Astaire que ganhei do meu irmão, quando o aniversário era o dele, o dos cinquenta anos dele.

Outras ficam no verso de uma canção: tios na varanda. Tios do Cosme Velho, de Petrópolis, de Laranjeiras.

E toda essa história de varandas veio por causa de uma que, de tão especial, deixei no ar em um texto de quando a filha do André se casou e o irmão mais velho dele, Antônio Julio, recentemente achou esse texto e me perguntou, Quando é que você vai falar dessa varanda? (E perguntou por escrito.) Pois era uma varanda onde todo fim de Natal uma turma de loucos se reunia e cantava e conversava, enquanto Dr. André e Dona Mariana, os donos daquela varanda, nos olhavam, ora de perto, ora de longe. Os dois sabiam da nossa loucura; e gostavam dela. Gostavam tanto, tanto da nossa loucura, que fizemos como fazemos questão de continuar assim, loucos, flanando de varanda em varanda. Por isso é que assim prossigo, uma ilha cercada de livros a me proteger de mim, nossos amigos a me proteger de mim, enquanto a bailarina estuda e fala com o namorado, o Antônio Julio brinca com a neta, o André espera que a dele nasça da filha Luciana, o Murilo Drummond veio nos visitar com suas bailarinas Eliana e a filha deles Alessandra, Julio, André e Venâncio permanecem tricolores, o Rubens e o Murilo Drummond flamenguistas, o Haydt, vascaíno, eu, meu irmão e o Ramon insistentes, você, Sandra, Henriette, Eliana, Gyzelle... nos guiando em segurança.

Por isso eu permaneço com o relógio de pulso que roubei de você, esperando que você me leve pela mão até a próxima varanda.

Desde já, esteja avisada: irei com meus sapatos de Fred Astaire.

8.05.2011

VISITAS

Quem pouco abre a porta e se mostra
Quem não anda pelas ruas cumprimentando gente
Nem entra na padaria
Nem toma chope nem café

Quem não anda de ônibus
E não vê de manhã rostos esperançosos e sonolentos
E à tarde-noite não os vê exaustos e desesperados

Quem não escreve poemas
Não se expõe ao frio gelado da varanda de um bar
Quem não recebe amigos em casa
E quando os tem não os percebe
Não espia nem expia pela janela seus medos,

Não recebe visitas
Por exemplo, da Maria Beatriz
De nove anos, que faz dia 17 e quer ser médica e atriz,

Não conversa longamente com uma professora
Sobre filmes, séries, livros, aos chopes e relentos
Enquanto, lá dentro, gritos
Entusiasmados
Por um jogo de futebol,

Não recebe visitas inesperadas distantes
no tempo.

É preciso se expor
Mostrar a cara e os dentes
Sentir frio e correr outros riscos
Sentir frio

Até que depois ela chegue
A coriza
Insistindo que veio com o relento
Que melhor teria sido esperar que ela aparecesse
Quando quisesse
Do vento frio de uma fresta de uma janela
Hermeticamente
Fechada.

7.24.2011

DO QUE ELAS QUERIAM FALAR

De olhos fechados, vejo rostos que não conheço.
Como não conheço a imensa maioria das pessoas, não deveria me assustar com isso.
Mas me assusto.
Com meus olhos fechados, vejo pessoas que me mostram seus olhos, sorrisos, expressões, perfis.
Há uma negra que chora, deve ser pela morte de Amy Winehouse.
No rádio, só pelo primeiro acorde, já reconheço o toque, já adivinho a voz.
Buddy Guy.
Depois dele, Paulinho Moska e Kevin Joahnsen,
Waiting for the sun to shine.
Ao saber ontem da notícia, como todo mundo, claro, lembrei de Janis Joplin.
Janis disse uma vez que, com o tempo, queria aprender a cantar em voz baixa, como Ella Fitzgerald e Billie Holiday.
Amy disse uma vez que tinha nascido para ser mãe.
Não era de morte que elas queriam falar, era de vida.
Elas gostavam da vida, só não tinham a medida.
Alguém tem?
Abro os olhos e procuro rostos conhecidos pela casa e os há e se não os houvesse eu iria até a rua e veria rostos parecidos com os que vejo com meus olhos fechados, rostos que não me assustam mais, afinal, continuo não conhecendo a maioria das pessoas, que estão por aí, por perto, seus credos, suas rezas, suas certezas, seus medos, seu palavrório, seus silêncios, cigarros, copos, joggings, automóveis, seringas, latas de lixo, calções de banho, tubos de soro, biquínis, relógios de pulso, carteiras, bolsas, pés descalços, sorrisos com e sem dentes, as mãos estendidas, um assalto, uma esmola, um cumprimento.
Quando tiver vontade de morrer, faça que nem o cara da velha piada, que, quando tem muita vontade de trabalhar, fica quietinho num canto, até a vontade passar.
É de vida que queremos falar.
O tempo todo.

7.17.2011

COMENTÁRIOS E WOODY ALLEN

Um dos textos deste blog se chama "Para Karl Valentim". Já foi escrito há muito tempo, nem me lembro dele (claro que eu poderia ir até lá na gaveta do blog e buscá-lo, mas domingo não é dia de se mexer em gavetas). O que esse texto recebe de comentários é impressionante - apenas todos incompreensíveis, porque spam é algo incompreensível, tanto quanto aquele papel de propaganda que prendem no limpador do para-brisa do automóvel. Será que alguém pensa que de fato vamos comprar alguma coisa anunciada em um papel que se esparrama, se espana molhado, arranhando o para-brisa na hora em que começa a chover e ligamos o limpador, e este e suas borrachas, além de levarem de um lado pro outro o papel que se desfaz em tinta, ficam cantando uma triste canção, borrada, chorosa e irritante? Assim faz o spam, espanando, esparramando bobagem e porcaria na caixa de correio e na gaveta dos outros.

Hoje é domingo, dia de tirar da gaveta e da caixa porcarias e jogá-las fora, no lixo que não se recicla, apenas se renova de bobagens, e sem remexer no que mais estiver lá dentro delas, sem buscar mais nada, deixando lá dentro o que deve haver de bom, uma foto, uma carta, um bilhete, um número de telefone que já não se sabe mais de quem é.

Aqui em Floripa venta cinza, triste e ruidoso, depois de um sábado azul. As temperaturas já são mais amenas e amenas são as canções que tocam agora no rádio. Há um jazz, agora, e há o filme do Woody Allen em cartaz, Meia-noite em Paris, suas viagens geniais, Kathy Bates genial como Gertrude Stein, alguns perdoáveis clichês e estereótipos e a tentativa de explicar a mais inexplicável nostalgia, a de se viver em um tempo que não é o nosso. Há uma melindrosa das mais misteriosas e belas e há um certo sumiço que já valeria o filme. Não sirvo para crítico de cinema, não tenho pretensão maior que não a de ir de vez em quando assistir a um filme. Dessa nostalgia de que fala o filme, não sofro - ao contrário, me lembro de Oscar Niemeyer quando fez 90 anos. Ao ser perguntado pela jornalista algo relacionado à idade e à morte, respondeu: - Ah, ninguém quer deixar o espetáculo.

Nem os caras do spam, Niemeyer. Nem eles. Pena que o vento que sopra hoje seja mais ruidoso que a música suave que tocava há pouco no rádio.

7.03.2011

EU E A CAIXA DE CORREIO

Nem só de contas vive a caixa de correio - a tradicional, que já foi das cartas de amor, quando houve um dia em que “a marquesa saiu às cinco horas”. Domingo passado, eu ia saindo para me encontrar com minha mulher num restaurante, e o porteiro me veio com um envelope parrudo, “Não tinha como deixar na sua caixa de correio, Seu Mario”. Mas era para estar lá aquele envelope, se ele conseguisse passar pela fresta feita somente para os que trazem as contas e traziam as cartas, suas juras e seus ciúmes, assim o envelope queria, assim minha caixa de correio desejava. O porteiro completou, “Pode deixar aqui, o Sr. está saindo, na volta o Sr. pega”, e eu, “Não, meu amigo, isso é coisa muito especial, vou levar comigo”. No restaurante, com minha rima pobre e roubada, mostrei todo prosa à minha morena Rosa o livro que ganhei do Ronaldo Werneck, com suas deliciosas crônicas, “Há controvérsias 2”, com uma dedicatória só pra mim, e uma outra, a impressa, com vinte e dois nomes, dentre eles o do nosso amigo Carlos Sérgio Bittencourt. Outro é o do baterista Afonso Vieira, que, assim como o Ronaldo, conheci no apartamento do Leblon do Carlos Sérgio, os três de Cataguases, que então moravam no Rio. Rosa leu em voz alta o fechamento da dedicatória impressa - “22 amigos do peito, dois times mais-que-perfeitos” - e me disse, “Puxa, que coisa mais delicada”.

Tão delicada, Rosa, que me fez lembrar de quando eu e o Carlos Sérgio dividíamos a autoria de textos de teatro, de quando eu fiz parte de um elenco de uma peça dele, “Os visionários da noite”, encenada no Teatro da Praia, em Copacabana, e não faz tanto tempo assim, era um tempo em que eu trabalhava de dia e de noite em projetos de engenharia e o Carlinhos cismou de me convidar para ensaiar uma vez por semana, às 11 da noite, na Fundição Progresso, no velho centro do Rio, que aos poucos vem sendo remodelado, transformando armazéns e fundições, que estes me perdoem, em aproveitamentos bem mais interessantes, como bares, espaços culturais, antiquários com músicos e seus saxofones, assim é minha lembrança. (Ou minha imaginação?) Nos ensaios, no começo, eu não tinha texto: havia o receio de que, só ensaiando uma vez por semana, eu nunca fosse capaz de gravá-lo; mas, devagarzinho, o texto foi-se mostrando importante, foi sendo inventado, íamos inventando juntos, na hora, com sotaque gaúcho ainda por cima, porque eu contracenava com uma gaúcha, que depois se foi para Israel, e a irmã dela, como costuma fazer a vida em suas idas e vindas, veio morar aqui, em Florianópolis. (Ou eu estou errado, Rubens, André e Carlos Sérgio?)

Depois de inventado e escrito o texto, aconteceu o que se temia: todas as vezes eu o esquecia. Chegamos nos ensaios finais, com figurinos, cenário, no Teatro da Praia, e eu, errando o texto. Era engenharia demais me ocupando a cabeça. Mas... Na hora certa, com plateia no escuro, luz difusa no palco, o texto saiu inteiro, a figurinista, descrente quando me via claudicante nos ensaios, me abraçou depois da peça, o elenco todo se abraçava. Parafraseando Noel, fazer teatro é um privilégio, que não se aprende no colégio.

Ao meu amigo poeta, magistral em seus poemas concretos de “Doris by night”, meu amigo cronista, que ainda vai nos explicar porque a marquesa do Paul Valéry saiu às cinco horas, meu amigo Ronaldo Werneck: muito obrigado por me propiciar, além da leitura das suas crônicas, tantas boas lembranças, das noites no apartamento do Carlos Sérgio onde nos conhecemos e conversávamos até de madrugada, quando uma cadelinha chorava toda vez que ele perguntava, Cadê a Carla?, porque a Carla, filha do Carlinhos, havia saído.

Dona caixa de correio: as contas são suas; o livro do Ronaldo é meu; e as cartas de amor também.

6.18.2011

DIÁRIOS E COMENTÁRIOS

Embora apareça muito pouco por aqui, tenho recebido comentários muito interessantes. Resolvi destacar dois e fazer deles meu assunto:

Tai Tai disse...
“Já que estamos em um diário, podemos dizer..
Querido Mario:
Hoje eu estava divulgando artigos científicos muito interessantes no meu blog e cliquei em "próximo blog" (se é mesmo esse o nome) e dei de cara com você, diário do mario. Pois é. Não me contive. Olhei, revirei e senti inveja. Inveja da Maria Luiza que tem música, da Beatriz que tem poema e das Carolinas que tem os dois. Então, querido diário, pergunto: Porque é que ninguém fez nada com o meu nome? Nem livro, nem poema, nem nome de rua, música, tribo indígena. Nem nome de santo. E pior: não conheço ninguém com meu nome.”

Adriana de Adriano disse...
“Olá, gostei muito do teu blog e estou seguindo ele já, aproveito a ocasião e convido vc a dar uma olhadinha no meu blog, e espero que goste e se quiser seguir será um prazer ter vc me seguindo.. Bjus
http://algumascoisasqueeuescrevo.blogspot.com/”

Agora que eu descobri que há quem me siga, algo inesperado para mim, resolvi me tornar também um seguidor - eu, que nem conselhos consigo seguir. Se eu fosse um detetive e tivesse que seguir alguém pelas ruas, fracassaria na primeira esquina, bastando para isso algo que despertasse minha desatenção, distração que me segue e me desvia nas ruas, seja de carro, bicicleta ou a pé (que é a melhor maneira de se andar, principalmente nestes tempos em que a preferência é ficar preso dentro de um carro parado em um engarrafamento que, ao contrário dos rios, não desaguará no mar, apenas estancará de vez, frente à sua - perplexa - imensidão). Uma livraria, um botequim, uma mulher, especialmente a minha, me tomaria a atenção e eu teria que pedir as contas como seguidor profissional e procurar outra ocupação – por exemplo, a de admirar o mar, sua paz, sua inquietude, sua imprevisibilidade.

Se não consigo seguir ninguém nem conselhos, que dirá uma filosofia, seita ou religião. Só o Marx - e não o Karl, mas o Groucho. Como ele, eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio. No meu caso, nada muito profundo ou ideológico, nem mesmo engraçado, porque a graça é dele, tem seu carimbo e assinatura, seu charme e seu talento; apenas porque, de novo, minha distração se manifestaria, antes mesmo de chegar à porta do clube ou da instituição; se lá chegasse, me fixaria mais em um olhar que numa frase. Uma verdade que fosse revelada, uma nova teoria, tudo ficaria menor diante de um olhar humano, mais ainda se o olhar fosse o de um bicho, de um cão, especialmente o de um cão vadio, expressando o mais sincero dos sentimentos: o da fome. Um rabo canino que abana por fome, lamento se decepciono a quem me segue neste espaço, me impressiona muito mais que qualquer dialética, inclusive a negativa de Adorno.

Contrariando tudo isso, vou-me tornar um seguidor de blogs. E atento - até que uma esquina me distraia, até que uma ladeira surja diante de uma rua plana, até que uma árvore mal podada me arranhe o rosto e me arranque os óculos.

Quanto a você, Tai Tai, me dê uma pista, o endereço do seu blog de artigos científicos, para que eu possa, além de segui-lo, tentar corrigir essa tremenda injustiça da ausência de um poema com seu nome.

5.21.2011

DE LIVROS E DE FILHOS

O sorriso da foto aí ao lado é do lançamento de um livro. O sorriso de quem acaba de ser pai ou mãe é diferente deste da foto, como é diferente o de quem acaba de conhecer o filho ou a filha de alguém próximo. Um livro não é um filho, porque um filho não é um livro.

Tenho uma filha, que ontem voltou para casa com dor de cabeça. Passou com um analgésico, abraços silenciosos, luz apagada e sono. Ontem à noite era sexta-feira, como o título de um dos livros do mineiro Roberto Drummond, que morreu torcendo pelo seu time, do coração, de coração, respectiva, implosivamente. Na quinta, fui buscar minha filha no balé. Vestibulanda de Medicina, faz balé como exercício físico, emocional, Arte Dança se chama a escola. Escrevo porque preciso, ela faz balé porque precisa, e vê-la dançar me faz mais bem ao coração que escrever (que dirá que de não escrever). Fiquei do lado de fora, a alguns metros da sala de dança, sentado em uma cadeira plástica, de jardim, ao relento, sem sereno. E sereno. Era um começo de noite agradável, não ventava, não chovia, frio, um pouquinho só. Via e ouvia tudo pela porta aberta do estúdio. Um, dois, três, quatro... Um, dois, três... Mais rápido agora, meninas. Uma delas passava pela fresta da porta, minha filha passava com seus passos e seu sorriso, passava um rapaz negro e sua altivez de dançarino.

Preciso imensamente lançar um novo livro. Trabalho agora em um que é compartilhado com outros autores e autoras. Um belo projeto, que pretendemos lançar este ano. Alguns amigos, principalmente amigas, me dizem que eu deveria publicar minhas crônicas. Mando meus romances e poemas para concursos. Muitos anos atrás, eu morava no Rio, no Cosme Velho, e uma amiga, Anete, morava em Belo Horizonte. Ela conhecia o Roberto Drummond de uma agência de banco, e deu a ele um original meu, um romance que escrevo e reescrevo deste esse tempo, 1993, ano em que meu pai morreu e Rosa, meses depois, ficou grávida de Maria Luiza, nossa bailarina e futura médica. Tive a honra de conversar com Roberto pelo telefone, que, com tanta atenção e delicadeza, me disse assim, seu livro é bom, é original, lute por ele – e me aconselhou a inscrevê-lo em concursos. Só agora, dezoito anos depois, é que me interesso por eles. E escrevo e reescrevo o mesmo romance lido pelo Roberto Drummond, já tendo escrito e publicado outras coisas enquanto isso, porque esse é como se fosse...

No ano em que nossa Maria Luiza nasceu, Tom Jobim partiu. Quando parte um Tom Jobim, é uma parte do mundo inteiro que se vai, e ninguém de verdade sabe para onde. Ele e Vinicius morreram aos sessenta e sete anos: Vinicius em 1980, e o Tom, 1994. Na TV, um especial e, dentro do especial, algo ainda mais especial: o ator Paulo José disse um poema do Tom, cujo refrão dizia “Maria Luiza acordou sem febre”. Meu amigo Murilo, que também assistia ao programa, me ligou e me perguntou como ia a nossa Maria Luiza. Sem febre, eu respondi. Ele então me disse, é duro, o Tom se foi, mas a Maria Luiza está sem febre.

Hoje, Murilo, Maria Luiza acordou sem dor de cabeça.

Um livro não é um filho, porque um filho não é um livro.

4.03.2011

AÇÃO E REAÇÃO

Ninguém deixa de reagir a um ato de violência de que seja vítima. Apenas a reação poderá ser de um jeito que não o de um outro ato de violência em resposta ao primeiro. Se for impulsiva, terá sido nada mais que isto: impulso, instintivo impulso. Há bons e muitos exemplos de quando não á assim, impulsiva e nada mais, e de ampla gama: reações filosóficas, pragmáticas, racionais... Para começo, dois: Mishkin - "O idiota", de Dostoevsky -, e o pai de Will Eisner em sua (quase) autobiografia em (como sempre, magistrais) quadrinhos, "Ao coração da tempestade" ("To the heart of the storm"). Um terceiro, o mais célebre, o bíblico "Ofereça a outra face", naturalmente guarda infinitas possibilidades de interpretação e uso. Fui vítima de um ato de violência na sexta-feira passada, logo na tradicional data das pequenas mentiras, pegadinhas: 1° de abril. Este meu 1° de abril teve uma literal pegada - e deixo para contar a história em uma outra oportunidade. Fato é que minha reação pode ter sido parecida com qualquer uma das três citadas; garanto, porém, que o que mais teve de característico foi a racionalidade; a razão. Eu estava em uma audiência pública, com promotores, procuradores, advogados, líderes políticos e comunitários e muita, muita gente, em um auditório fechado, com mais gente ainda do lado de fora, e, dentre essas pessoas, alguém sabidamente violento, egoísta, imediatista, destemperado. No inesperado, poderia haver algo de esperado; e de premeditado. Minha razão, com toda calma, se traduzida em palavras, o que me disse foi: preserve-se. e aos outros. Depois, vá à Justiça. Fui agredido de surpresa e sem possibilidade de reação. Por que minha lembrança não é racional, por que ela se afasta da minha razão e mesmo do meu sentimento, é algo que acaba por desaguar em outra pergunta: quanto tempo e quantas vezes podemos suportar a diferentes agressões, quando todas têm uma mesma origem? Quem puder, que responda, filosófica, pragmática, racional ou, quem sabe, a melhor de todas as maneiras, impulsivamente.

2.27.2011

DE PASSAGEM, DE REPENTE

Os ventos mudam mais rapidamente em uma ilha, muito mais que no continente, muito mais que nossas convenções. Agora é noite de domingo, aqui nesta ilha é noite de domingo, em algum lugar já é segunda-feira, dia da lua, lá, hoje era ontem, domingo, dia do sol. Aqui na ilha e hoje, durante o dia, o sol ficou encoberto, os ventos é que mudaram o tempo todo, rapidamente, quase que furiosamente. Muita coisa tem mudado furiosamente, sempre menos que os ventos. Isso tudo ventado, carregado por aí, calma ou nervosamente, o que paira, mesmo, é a dúvida. Enquanto for assim, que bom, porque, quando ela se for, quando a dúvida se for, restará uma imbecil certeza. Aquela que nem de si mesma sabe. Aquela que não quer saber.

2.17.2011

BIA, MARIA BEATRIZ

Bia, Maria Beatriz,
nome tão bom e bonito,
convite para uma rima,
que eu não caia na tentação
de rimar seu nome em vão.

Bia, Maria Beatriz,
pega onda, surfa onde há espaço,
risca o desenho mais bonito no traço
do passo da ginga do berimbau.
(No ônibus, toca violão.)

Bia, Maria Beatriz,
é valente e sincera.
Tão suave e à vera
caminha, que deixa mais leve
a paisagem.

Bia, Maria Beatriz,
faz de si personagem
(se quiser, é atriz),
mas é na tela, na tinta,
na ponta do lápis de giz

Que deixa gravado seu nome,

Bia,
Maria
Beatriz.

Bia, Maria Beatriz,
nome tão bom e bonito,
convite para uma rima,
que eu não caia na tentação
de rimar seu nome em vão.

A PABLO NERUDA

“el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca”
(Pablo Neruda, em Oda al gato:
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca)

Ontem, no fim da tarde, vi um sujeito andando na calçada, um pouco à minha frente. Seu cabelo era todo branco, vestia uma camisa-pólo verde e uma calça jeans, seus sapatos eram pretos e de cadarço, trazia nos ombros uma bolsa a tiracolo, cansada, de couro marrom, e um assobio. Eu sempre tive muito mais sorte no amor do que no jogo, mas aposto assim mesmo que esse sujeito, se não for engenheiro, é poeta. Se fosse como eu, querendo ser poeta e tratando de imitar a mosca, traria nos ombros um peso que não se descreve, que não precisa de bolsa para se manifestar, que, para ir embora, só precisa de assobio. Pode ser o da andorinha; pode ser o do andarilho.

1.30.2011

MEU PRIMO CACÁ E O VISCONDE DE SABUGOSA

Florianópolis, 30 de janeiro de 2010.

Meu caro João Marcelo:

Vários passarinhos continuaram se reproduzindo graças a mim e ao seu pai, João Carlos Benevides e Maia, o Cacá. Quando eu e ele éramos garotos, ainda não havia o espírito de preservação de hoje em dia. Todos tínhamos um negócio que, dependendo do lugar, se chamava bodoque, estilingue ou atiradeira. Era uma forquilha, um Y de madeira, com um elástico de borracha, e a meninada punha uma pedra no elástico, puxava e atirava a pedra contra um passarinho. Graças à nossa imbatível falta de mira, eu e seu pai nunca matamos um único passarinho. Eu me lembro de uma vez que subimos o morro atrás da casa onde ele morava com os seus avós e tios, e nem chegamos a perder muito tempo com aquela maravilha da engenharia da caça aos inocentes: fomos convidados a almoçar na casa de um amigo dele, lá no morro, e eu, que era tido como um chato para comer, comi muito bem, obrigado. Tinha um camarada que morava lá que bebia água da chuva depositada em poças. Nós dizíamos a ele: “Rapaz, água parada é suja, faz mal pra saúde!” - e ele respondia, “Que nada, eu estou acostumado.”. Esse garoto jogava futebol tão bem que, adivinha qual era o seu apelido? Pelé, é claro. (Da minha parte, modestamente, sempre fui um perna de pau.)

Outra história era a bola de gude. Como a gente gostava de bola de gude! Eu ganhei uma faz uns dez anos da minha filha e minha mulher já quis me internar em um hospício umas quatro vezes, só porque eu ando com ela na minha pasta (a bola de gude, não a minha mulher). Na época do estilingue, morávamos em Laranjeiras. Eu, na rua Umari; seu pai, na Pereira da Silva, que começa no nível do mar, embora um pouco longe dele, e vai virando uma ladeira que, em algum lugar misterioso, pelo menos para mim, se une ao Parque Guinle. A rua Umari era de paralelepípedo e, mesmo assim, jogávamos bola de gude na rua. O jogo começava com a seguinte pergunta: “Bola ou búlica?”. Como eu nunca soube o que quer dizer “búlica”, sempre escolhi a bola. Uma vez eu dei um teco tão bem dado que quebrei a bola de gude do Cacá. Sabe o que ele fez? Deu uma gargalhada e me declarou campeão. Sinceramente, não me lembro de outro título mais importante que este na minha vida.

Cacá e eu tínhamos uma amigo em comum: o Alberto. Eu e minha família mudamos para o Leme e minha mãe fez uma festa para o meu aniversário de doze anos. O Cacá e o Alberto chegaram lá de terno e gravata! Uma covardia, João Marcelo. Os dois levaram todas. Pensando bem, acho que isso foi um revide à tal bola de gude que eu quebrei.

Outro tempo é o de agora, quando meu irmão faz o almoço de Natal e em todos eles o Cacá me chamava de Mariola. Ele é o único que sempre fez isso, acho que por outorga do Visconde de Sabugosa. Cacá sempre tinha histórias pra contar e perguntava, Cadê o James? O tal do James era o garçom; não importa com que cara o garçom viesse, o seu nome era sempre o mesmo: James. Quem tem outorga dada por um Visconde é assim, possui uma intimidade com súditos da rainha que nós plebeus sequer desconfiamos.

Na festa dos meus doze anos, a mesma em que seu pai e o Alberto vieram de terno, meu irmão estava com seis anos e dançou o tempo todo com uma amiga dele, a Teteca. Teve um dia em que a Teteca atravessou a rua distraída, foi atropelada por um ônibus, levantou-se, foi andando para casa e, à noite, partiu, para onde todos partem um dia, um lugar mais distante que, por exemplo, o Leme de Laranjeiras. Maria Lina, que partiu um pouco antes do seu pai, de vez em quando me escrevia, dizendo que tinha visitado o meu blog. Espero que você também me dê a honra da sua visita e não se surpreenda: esta carta estará no blog, porque quero que quem passe por ele passe também por Florianópolis, Leme, Laranjeiras...

A vida se parece um pouco com esses teatros onde se lê na entrada: “Aqui, o show começa quando você chega e termina quando você vai embora”. Se você aceitar sugestões de quem leva na pasta uma bola de gude, viva seu show retribuindo o amor que você receber e, quando ele estiver escasso, tome a iniciativa, escolha bola em vez de búlica e abra esse seu sorriso largo, que é mais do que suficiente. Se quebrarem sua bola de gude, faça como seu pai: dê uma gargalhada, declare campeão o dono do teco e depois apareça de terno na festa dele. Estude o que você puder estudar, porque estudar abre nossos horizontes, embora alguns mistérios permaneçam para sempre. Por exemplo, não se sabe se foi a Terra que não conseguiu imitar a bola de gude em sua perfeição esférica ou se foi a bola de gude que se tornou imperfeita, perfeitamente redonda, ao tentar imitar a Terra - Terra que um dia levou um teco de um meteoro para que os dinossauros cedessem o lugar para a gente. Já pensou o tamanho da mão que deu esse teco na Terra? É, meu amigo: o dono dela é que é o verdadeiro campeão.

Um grande abraço,
Do seu primo (ou tio, se você preferir),

Mario Benevides (mariobenevides.blogspot.com.)

1.11.2011

DIAGONAIS E PARALELAS

Passamos a primeira parte das férias de verão no Rio e a segunda já vamos ficando por aqui, em Florianópolis. Tem sido assim já há vários anos. A exceção foi ano passado, quando fomos à Europa com meu irmão (nos últimos anos, portanto, as nossas primeiras férias de inverno). E é na casa dele que ficamos no Rio. É sempre bom. Por exemplo, a maior parte do tempo andamos a pé, por Copacabana e Ipanema. Tudo demora demais, menos as férias: agora, o Rio está mais calmo. Nascemos lá, não vivemos diretamente nenhum trauma de violência, o Rio para nós é especialíssimo e assim sempre será. Viemos para Florianópolis por uma questão de carreira profissional minha; Florianópolis veio de brinde. Experimentamos, lá e cá, a mesma língua e o mesmo oceano, com poucas diferenças (como disse Guimarães Rosa, viver é muito perigoso, e, lá como cá, nenhum trauma direto de violência: muita sorte). Por exemplo, no Rio, caímos no mar; aqui, mergulhamos. Lá, o mar vem em ondas diagonais. Em Ipanema, caímos no Arpoador e saímos no Jardim de Alá. Entramos no mar por debaixo de cada uma das ondas e vamos entrando e entrando debaixo das ondas e acompanhando a correnteza, até sair onde der, onde for possível, felizes e saudáveis, mergulhadores, nadadores e vencedores. Se alguém é hóspede do Fasano, que fica no Arpoador, vai se apresentar no Ceasar Park, quase no Jardim de Alá, e será muito bem aceito, convidado inclusive a experimentar o teorema de Pitágoras e voltar pelo cateto de areia, que ampara as ondas diagonais da hipotenusa aquática e salgada, até chegar no seu front-desk certeiro, hospedeiro e caro. Aqui, Florianópolis, Jurerê, praticamente não temos ondas: nadamos eternamente e paralelamente à praia, até sairmos onde der, até nos vermos perdidos e disfarçando que não. Como se estivéssemos em Ipanema. Aqui como lá, sairemos andando pela areia fingindo que sabemos onde estamos ancorados - onde fica, no Rio, nossa barraca; em Florianópolis, nosso guarda-sol. Jamais saberemos, e sempre chegará uma alma salvadora a nos dizer, esqueceu? Estamos em frente ao posto salva-vidas, ora! Qual deles é que ninguém nunca nos informa, ninguém nos pendura uma placa no peito a dizer, eis aqui um ser de férias a se perguntar, Por que as férias são tão curtas e as soluções demoram tanto, tanto que levam anos, que levam tiros, que levam vidas? Uma argentina perguntou faz pouco, La sombrita, quanto custa? Cinco reales, respondeu o barraqueiro, senhor dos guarda-sóis, certeiro, hospedeiro e caro.

Em 2011, para todos nós, muita sorte.

11.13.2010

TIRIRICA E TRÊS QUESTÕES DE PROVA

Ele foi o recordista nacional de votos para a Câmara Federal. Durante sua campanha, ensaístas de peso alertavam que, eleito com expressiva soma de votos, por causa do voto proporcional de legenda, Tiririca levaria consigo muitos presumíveis, conhecidos ou potenciais picaretas para lhe fazer companhia no Congresso.

A primeira questão de prova é: aqueles que os ensaístas de peso gostariam de alertar não sabem que eles, ensaístas, existem, muito menos o que seja ou faça um ensaísta. É possível que os ensaístas quisessem que nós, que lemos seus embasados ensaios, fôssemos formadores de opinião, multiplicadores dos seus conceitos, impedindo assim que Tiririca o fosse de votos.

É quando passamos para a segunda questão.

Existe um senso comum no Brasil de que há uma grande massa de gente que precisa ser orientada, ensinada, doutrinada. Este, por exemplo, é o pensamento de quem acha que os meios de comunicação devam ser regulamentados e regulados – para que a informação chegue de forma adequada à massa de gente que precisa ser adequadamente informada. Uma boa fonte de consulta para se conhecer a arte de fazer a informação chegar de forma adequada seria a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985 - a não ser que se prefiram soluções importadas; se assim for, a Venezuela de Chaves poderá ser a fonte.

Tirirca eleito, o fizeram passar por um teste do seu grau de alfabetização. Analfabeto pode votar, mas não exercer um mandato, segundo consideram alguns – sim, há discordâncias entre magistrados a esse respeito. Se pode ou não um analfabeto votar ou exercer mandato popular, seria a verdadeira questão?

Terceira questão: pode haver analfabetos no Brasil? É admissível que os haja neste século?

Eleitores votam em candidatos com os quais se identificam. Os ensaístas costumam ter seus candidatos preferidos, assim como os magistrados, os católicos e os evangélicos. O que foi constatado é que há muitas pessoas que se identificam com alguém que diz que, segundo ele, como elas, não sabe o que acontece no Congresso, mas que, chegando lá, se compromete a contar, e que “pior do que está não pode ficar”.

Muita pretensão querer ensinar alguém a votar ou a ler notícias. Mais razoável seria que quisessem que se ensinasse a todos a ler e escrever, duas únicas ferramentas das quais precisa, por exemplo, um ensaísta. Quem sabe - de fato - ler e escrever, sabe discernir; quem discerne, se for de boa fé, sentirá nojo só de pensar na hipótese de que alguém se proponha a regulamentar e regular o que todos leremos ou assistiremos daqui em diante.

Não é o Tiririca que precisa melhorar. O que precisa melhorar é o Brasil - sua torpe mentalidade de canastrões fantasiados de sábios, a olhar os simples como inferiores, a serviço dos abutres de plantão, que se refestelam da simplicidade naquilo que ela tem de ignorante, a querer e fazer que a ignorância se perpetue e se multiplique.

10.26.2010

GOOGLE-ME

Se me perguntaram se eu queria nascer, evidentemente esqueci.
Quis ser criança e fui.
Quis escrever, escrevi.
Quis calcular, calculei.
Quis amar, amei.
Quis casar, casei.
Quis separar, separei.
Quis namorar, namorei,
Quis pagar, paguei,
Quis me embriagar, me embriaguei.
Quis beber, bebi, quis ter fome, comi, quis comer, comi mal,
Comi bem, comi.
Quis dormir, dormi.
Quis amar de novo, amei.
Quis não dormir, tive insônia,
Quis acordar, não consegui.
Quis achar graça, desgracei,
Quis fazer graça, consegui,
Quando fiquei sem graça,
Todo mundo vi.
Quis ser pai, sou.
Quis amar e amar, sou.
Irmão quando fui amigo sou.
Não quis desgraça, vivo
A própria
Dos outros
Portanto minha
Quis poesia, fiz,
Quis a morte, a minha
Foi outra que presenciei
A vida, só a minha quis
A fome, privilégio, não foi,
Ainda não é minha
A pobreza não é minha
É minha sim tudo isso
A riqueza também não.
A inutilidade
O vazio
Negado
No elevador
Oi, querido.
Fico aqui
Exposto
Quem quiser
Google-me.

10.20.2010

CÉU E INFERNO, MINEIROS E JANTARES

As imagens da TV mostraram o que havia para ser mostrado e todas as metáforas possíveis foram feitas. Eles provaram que o inferno existe, fica nas profundezas da Terra e que é possível sobreviver a ele. Provaram que andar na superfície da Terra pode ser mais emocionante até que pisar na Lua, que olhar para ela de longe dizendo sonetos à pessoa amada ainda vale a pena. Provaram e provarão da fama e seus desdobramentos, provaram que estrelas sempre usam óculos escuros e experimentaram ver as verdadeiras novamente à noite. Provaram do inferno e do renascimento a fórceps disfarçado de sonda. Provaram que, na língua de Lima Barreto, mais do que um quarto de hora, mais do que quinze minutos na de Andy Warhol, é mais do que as eleições brasileiras podem esperar. O que esperar dessas eleições, da diferença da mudança de faixa de FHC para Lula, com direito a jantar dos casais na residência oficial, para o que se acompanha agora, do que se desenrola nesses dias e do que ainda virá, só o tempo dirá. Que não será de quinze minutos digitalmente cronometrados, como não equivalerá ao quarto de hora girado no relógio de bolso de Lima Barreto. Superará aos sessenta e oito dias a setecentos metros da superfície da Terra, no inferno, longe do céu e das estrelas, vivenciados e sobrevividos pelos mineiros chilenos. Jamais em matéria de grandeza de alma e de espírito. Neste quesito, perderá até para o mais banal jantarzinho entre casais.

9.21.2010

FELICIDADE

É quando a melancolia fica doente e não vem.
Quando a tristeza levanta
De saia curta e belas pernas
Entrega a prova antes da hora
E vai embora.
Tudo tem gosto de uva no ar
Um cheiro de chuva.
Quando a janela é grande e lá fora faz sol.
Quando a gente vai quando venta,
Quando a gente entra em casa e chove,
Quando tem goteira e é assunto.
É quando a melancolia ficou na esquina.
Quando a curva deixou a tristeza no cruzamento
Da estrada de barro esquina do asfalto.
Quando é quase noite e toca o telefone
Era ela não era
Era o amigo era ele era sexta era sábado.
Quando era de manhã parecia sábado
E era sábado.
Era domingo de manhã e fazia sol e depois choveu e a cama
Virou com a gente para o outro lado e ainda era
Ainda era sábado.
Quando toda noite era véspera
Quando toda noite era beijo
Quando a notícia não veio
Quando o vento parece que arrasta que transforma
Tanto assim que nem tem carro nem freada nem buzina
Tem uma riqueza diferente e a riqueza é o mar.
É quando
Não é como
Não tem motivo
Não é conjunto
Estatística
País.
Felicidade é quando.

Momentinho caipira
Bom pra daná.

8.04.2010

BOM HUMOR, MAU HUMOR

O Freud foi antes de tudo um libertador. Gente que era isolada pela família, trancada e amarrada, passou a ser compreendida por suas neuroses, psicoses, traumas, e conquistou o direito pelo menos a um divã. Passaram-se os tempos e a humanidade chegou ao auge da autocompreensão: passamos por bons e maus momentos. Temos dois humores: o bom humor; e o mau humor. Não estamos aqui a desprezar miséria, preconceitos, rejeições, discriminações, guerras, invejas, ciúmes, complexos, túneis, medos do escuro e de baratas, doenças, campos de concentração, ignorância e a sua manipulação, a opção pela burrice, tudo de terrível que há nesta convivência entre semelhantes, dessemelhantes e para sempre diferentes. Tudo principalmente que há nesta vivência, no ato de estar vivo, especialmente a morte e o desconhecimento que dela guardamos e guardaremos sempre, por mais estudos, por mais fé que tenhamos, incluindo a combinação dos dois, nada disso aqui se esquece ou é desprezado. Mas o auge da percepção humana foi este: cada indivíduo perceber-se de bom humor ou de mau humor. De lá pra cá, a decadência. De lá pra cá, elas e a TPM; de lá pra cá, elas e nós somos bipolares, eufóricos, deprimidos, psicóticos, neuróticos, sonolentos, hiperativos, insones. Somos não mais que um diagnóstico, não mais que uma combinação de pílulas alo / homeopáticas, auto-ajuda, consultórios, igrejas, partidos, quadrilhas, grupinhos e grupões, ambições, ideologias, gurus, pilhas de livros e não mais os livros, mundos e profissionais da e de explicações, I pode e I não pode, ah, o divã, ah, o bar, ah, a TV, o ansiolítico, o antidepressivo, o anti DDA, o anti...
O Freud foi antes de tudo um libertador. Há que aparecer agora um simplificador. Bem me quer, mal me quer. Bom humor, mau humor.

8.01.2010

EU E DEGAS

(Para que não restem dúvidas, “Degá”, o artista plástico)

Eu e Degas
Nós e as bailarinas.

Ninguém jamais as perceberá
Como ele, Degas.

A mim, faltam me restam palavras.
É com elas que comemoro.

Eu e Degas
Nós e as bailarinas.

Joinville, Festival da Dança, 2010.

7.21.2010

MELHOR IDADE

Do alto deste edifício, 54 anos vos contemplam. Os meus. Pela legislação, seis me separam do estatuto do idoso e uns 112 da aposentadoria. Ainda não atingi a melhor idade, não sei se vou chegar lá e já me antecipo: melhor porque? Não questiono se de fato a chamada terceira idade é ou não a melhor, mas a forma como a retratam. A La Paralamas do Sucesso, pare e repare. Não faz muito tempo, um anúncio de seguros mostrava senhoras e senhores idosos: eles lutando espadas de madeira e elas jogando amarelinha. O anúncio saiu do ar e sorte do Gérson que desta vez não foi o locutor de uma mensagem tão ruim quanto injusta e infeliz. Claro que ninguém deve matar a criança que traz dentro de si pela vida inteira; é ela que nos mantém vivos, mas fazer idosos de idiotas não parece a melhor estratégia para vender seguros. Pare e repare mais. Vá a um aeroporto e escute a moça que trabalha na chamada de voos – que, pelo emprego que tem, conquistará estatuto e aposentadoria aos 25 anos – dizendo que pessoas da melhor idade terão preferência. No mesmo aeroporto, ao fazer o check-in você reparou: o símbolo do idoso é um corcunda de bengala. Melhor idade é isto: a mais clara demonstração de um certo talento para se desrespeitar a quem se finge conhecer. Talento que pode até existir mundo afora; mas que aqui se manifesta como um produto genuinamente nacional.

7.10.2010

NOSSO QUASE SEMPRE EQUILIBRADO MARIO

Recebi uma mensagem do meu amigo de infância Murilo, com a seguinte introdução:
“Muita injusta a eliminação da nossa seleção. Um time vencedor, com craques indiscutíveis. São coisas de uma verdadeira ‘caixinha de surpresas’. Vamos receber a nossa equipe como verdadeiros heróis, com aplausos para a seleção dos sonhos. Aí é que está o problema: estou falando da seleção de 82, comandada pelo nosso Falcão, que custou ao amigo que escrevo uma porta de Blindex quebrada, no momento daquele famigerado gol italiano. Nosso quase sempre equilibrado Mario deu um ‘bico’ em alguma coisa e acertou nada menos que a porta da sua própria varanda...”
Murilo, o referido “bico” foi de canhota em um copo de base indiscutivelmente sólida, pois o copo, ao contrário da porta, resistiu, e chutei-o e foi de canhota na hora em que o Falcão fez o segundo gol contra a Itália com a respectiva canhota, Falcão que é uma exceção a canhotos do meu naipe e merecia ser por mim especialmente homenageado, pois canhotos do meu naipe não conseguem atingir o estágio de quase sempre equilibrados e disso tenho provas, a começar pela Copa de 70, quando eu tinha 14 anos e quebrei a cama do meu irmão comemorando aos pulos sobre ela o gol de empate contra o Uruguai e por sorte meu irmão não estava deitado, senão teríamos tido grave caso de agressão familiar, absolutamente inaceitável entre irmãos que inclusive são amigos e torcem para o mesmo time, que perdeu recentemente um tetra-vice-campeonato para o Flamengo, e lembro e compartilho que em 1981 eu assistia a um jogo do Botafogo contra o São Paulo em uma casa em Poços de Caldas e no gol do Perivaldo o meu sapato foi na parede que era branca e ficou preta e nem por isso o dono da casa comemorou, acho que ele era São Paulo ou Flamengo, e contra este o Botafogo se sagrou campeão em 1989 e eu abracei e caí junto com meu já mencionado único irmão na arquibancada, e uma vez eu ganhei uma garrafa de vinho e um saca-rolhas e quando sozinho resolvi beber o vinho, o cabo do saca-rolhas saiu e a broca ficou presa na rolha e esta no gargalo e eu tinha ganho também duas chaves de fenda e um martelo e primeiro tentei com uma chave de fenda puxar a rolha e esta ficou presa na rolha, depois tentei com a outra a mesma coisa porque a primeira ficou presa e depois tentei empurrar a rolha para dentro batendo o martelo no cabo de uma das chaves de fenda na rolha e ela teimosa não entrou e eu fiquei com duas chaves de fenda e a broca tudo preso na rolha e esta ainda dentro do gargalo e aí eu fui para o banho de sandálias havaianas por precaução para quebrar e quebrei a garrafa para recuperar minhas chaves de fenda e a garrafa quebrou embaixo do gargalo e eu tive que desistir e jogar fora os restos da garrafa e o gargalo com rolha, broca e duas chaves de fenda, tudo preso, tudo junto, sem ter bebido um só gole do vinho, e na semana passada eu estava em uma usina hidrelétrica com 3 amigas especialistas em saúde e segurança que foram comigo às 2 horas da tarde a um lugar onde o rio desaparece debaixo de uma ponte de pedra para só aparecer alguns quilômetros depois e eu caí nas pedras da ponte e me levantei poucos metros depois e fui socorrido às gargalhadas por uma delas e aí voltamos para a usina e quando eu, que dirigia o carro desde a vinda, me aproximava da cancela da usina, como poucos minutos antes eu tinha perguntado ao guarda por ela responsável onde ficava a tal ponte de pedra, naturalmente que inconscientemente devo ter pensado que o guarda era bom de matemática e física e ele aliás comprovou que era e é, pois eu passei direto pela cancela e o guarda pimba, saiu da guarita e comandou a cancela com uma rapidez de Falcão e uma precisão de Einstein e estamos todos vivos e o automóvel e a cancela intactos. Murilo, de futebol não entendo nada, mas achei prudente contar essas coisas, porque, se me convidarem para futebol, copos sobre a mesa, se o jogo for de vôlei, por favor, longe de mim e, se tiver cancela, gritem, Mario, olha a cancela.

5.16.2010

O FINAL DE UM ROMANCE E A FÁBRICA DE SINCEROS

Acabo de terminar de escrever um novo romance. Nem o título vou contar aqui, embora ele já tenha estado alguns meses pairando neste espaço cibernético. Vamos à luta, agora, atrás de uma publicação; e vamos retomar outros projetos, incluindo o de, de vez em quando, deixar algo registrado por aqui.

Por aqui acho que estamos todos. Começou a temporada de criação de seres sinceros, simpáticos, educados, gentis, honestos, competentes, sorridentes, enérgicos, ternos, terninhos e gravatas: eleições, especialmente a presidencial. A "festa da democracia". Pena que o convite não nos permita ingressar nos salões de bailes e estratagemas e que frequentemente dancemos de tolos e sejamos pegos de surpresa com os tais estratagemas, sempre pagando a conta, de baile e estratagema. Claro, Churchill estava coberto de razão:a democracia é o pior regime político, à exceção de todos os outros. Só podiam parar um pouco era com esta fábrica de perfeitos que nos querem fazer engolir e fazer com que o respeito - e tudo o que ele significa - passasse a prevalecer.

Admitamos: já foi bem pior.

Sigamos. A Inglaterra voltará a ser conservadora - isto é: mais conservadora. A Grécia, bem, a Grécia e a Espanha e Portugal... De vez em quando o virtual se mostra concreto, real, assustador; aí, é hora de rearrumar a casa, fazendo a população pagar pelo que não fez, como sempre, através da história. Se não der em guerra, já será um avanço - e, por enquanto, não há indícios de que uma esteja a caminho, a não ser as terrivelmente ininterruptas, incessantes, massacrantes. Seremos os apaziiguadores do oriente médio e pediremos que o oriente médio apazigue nossas cidades; está me parecendo ser esta, a lógica do momento. Ou estou enganado e vivemos em clima de paz permanente?

Prosperamos. Temos dinheiro em caixa. Corruptos são punidos. Décadas de covardia, prepotência, sacrifício, desemprego, salários aviltados, a troca da inflação por juros cavalares é que nos fizeram chegar a este novo panorama brasileiro. Bacana. Vale a pena esperar para ver o quanto de concreto e virtual há nisso; esperemos, sim, mas atentos, olho no lance, mais no que ocorre na política e na economia do que o que acontece na Copa. Difícil, não? De 4 em 4 anos, Copa e eleições. Eis aí um dos estratagemas; eis aí um dos bailes a que fomos convidados.

Quem for vivo irá - e à vera; a rigor.

5.05.2010

GRÉCIA: 2010?

Olá, meu blogue amigo,
A Grécia, outra vez, a navegar,
Dorso estátua Vênus derramada
Sem rumo
Com ela o mundo inteiro -
Viria junto
Desta vez
Roma
Desta vez
Junto viria a Itália?
Olá, meu blogue abandonado,
Caderno virtual, exposto e escondido,
Afundaremos - ou navegaremos - neste mar
De petróleo derramado
Neste golfo México?
Não foi ele um dia pérsico?
Olá, meu blogue de poucos
Incontáveis visitantes,
Podemos fazer o seguinte:
Da terra, do horizonte, amantes;
Da história, sempre, um pouco
Antes?

2.28.2010

FUNDAÇÃO, TERREMOTO, PALAFITA

Você pode ser desses que pensam tudo ser acaso, explosão da casca de ovo, universo, viver e fazer a opção de fazê-lo com ou sem ética por viver, apenas porque nasceu e é preciso sobreviver, e vive sem qualquer pretensão a conexões com algo que não seja visível, sem prece, ideia ou crença ou necessidade de uma continuidade, nada, e quando se depara com um terremoto e faz parte dele, não reza, apenas diz, pronto, agora, acaba tudo para mim ou consigo passar por mais esta.

Ou você pode ser desses que pensam tudo ser obra Divina, explosão da casca de ovo, universo, viver e fazer a opção de fazê-lo com ou sem ética por viver o sonho do Criador, porque nasceu e é preciso sobreviver, e vive sem qualquer pretensão a perfeições mas com a esperança – fé - de conexões com algo que não seja visível; preces, você faz orações, continuidade, sim, você a quer e nela crê e dela precisa, e quando se depara com um terremoto e faz parte dele, reza e apenas diz, pronto, agora, acaba tudo para mim ou consigo passar por mais esta.

A diferença está muito menos na crença do que na opção. Seja por medo do acaso, seja por medo do Divino. Melhor ainda – se não for medo, mas de fato opção. Melhor fundação que palafita. Com ou sem terremoto.

12.12.2009

OS OLHOS DELAS (para Maria Luiza, minha filha)

A atriz sai de cena de cara lavada. Passa por todos apressada, não olha para ninguém, não quer tirar fotos nem autografar nada, quer a solidão ou a companhia de iguais. Seu melhor momento foi há pouco, no palco, uma atriz e seus olhos, uma atriz é seus olhos. E nada mais, se de fato for atriz. O resto, para ela, é acessório.

A bailarina sai de cena toda sorriso, o cabelo preso e os olhos com a mesma pintura que usou no palco. No palco, ninguém conseguia ver seus olhos embora todos os procurassem, admirando nela o mesmo sorriso de agora, seus saltos no ar, seus giros e o rosto fixo, a volta ao chão sempre firme, segura, leve, como leve é nos braços do par. No palco, era um corpo de baile inteiro, uma orquestra embaixo, - onde os olhos da bailarina? Só agora os vemos, pintados, lindos, o cabelo preso, o sorriso, agora, de perto.

Do que precisa um sonhador, um pragmático, um gênio, um rude, um gentil, o mais completo imbecil arrogante, do que precisa a paz, senão dos olhos de uma atriz durante, senão dos olhos de uma bailarina depois?

11.22.2009

OB

Eu sei que você às vezes me visita sem deixar cartão ou comentário. Sei de outros que também passam por aqui, só que por meios sinistros, aracnídeos, troianos e seus tentáculos, deixando comentários ininteligíveis e algum tipo de vírus - como este, de uma ligeira gripe, das tradicionais, da garganta arranhando. Sei muito bem distinguir um dos outros - e é a você, que me visita apenas para ver se há novidades por aqui, que me dirijo. E com muito prazer.

Morreu um corrupto. Pelo menos isto: eles também morrem. Dirá você que mortes não devem ser comemoradas. Aliás, é praxe, no Brasil, canonizar todo e qualquer morto. Este, que morreu ontem, é muito pouco provável que seja canonizado por alguém. Mas faltam muitos e não vamos matá-los nem ficar esperando que eles morram. Falemos da vida - da alheia, naturalmente.

Hoje é domingo e de vez em quando chove, mais pra chuva do Tom Jobim, "prazenteira", e não dessas que, ultimamente, têm causado tantos terríveis estragos. Já no sábado passado, do fim de semana passado, um dia de quase-sol, fomos à praia, em um ponto badalado de Jurerê, Florianópolis. Uma moça parecia ter cola nas mãos: uma delas trazia colada uma garrafa long-neck de cerveja; a outra, um cigarro. Do seu biquini, saía o rabinho de um OB, só que este não estava grudado: ele tremulava ao sabor do vento. Senti saudades da personagem da Camila Pitanga e sua "catigoria", como senti saudades da mulher de classe - que não necessariamente é a classuda. Uma classuda pode até ter classe, mas vive em uma atmosfera de ex-modelo - e modelos, como se sabe, podem ou não ter classe, ainda que sejam classudas, do mesmo modo que saudade nada tem a ver com saudosismo.

Saudades desta expressão - "modelo" - que deu lugar à de "top model". Saudades do Tom Jobim e saudades - eu era um garoto - de quando a Leila Diniz exibiu sua barriga de grávida, tão natural quanto a menstruação da moça do OB e seu rabinho esvoaçante.

Saudades de você, que me visita com ou sem comentários.

Se você é a moça da praia do sábado passado, do fim de semana passado, algumas sugestões: largue o cigarro; de vez em quando, deixe a long-neck dentro do isopor ou jogue-a fora no lixo, assim que a cerveja acabar ou ficar em temperatura desagradável; vá até o mar, dê um belo de um mergulho, nade um pouco e ponha o rabinho do OB pra dentro do biquini, porque ele não combina, assim, com esta postura de rabinho tremulante ao sabor do vento; e, mais importante, mantenha este seu sorriso, genuíno como barriga de grávida, genuíno como sua menstruação, genuíno como genuína é esta sua alegria, que me deixou aqui, neste domingo de chuva prazenteira, cheio de saudades.

11.04.2009

X TUDO

Esse é o nome abrasileirado de um sanduiche que leva de tudo: da maionese à rúcula, passando pelo bife de carne muída prensada e queijo mussarela. Aceita tudo. Foi assistindo na tv a cenas deprimentes da política japonesa, nas quais congressistas se esbofeteiam e vão ao chão de terno e gravata, causando inveja aos lutadores de sumô, que mais uma vez me convenci do óbvio: não só o brasileiro não sabe votar: ninguém no mundo sabe votar, pois, se um e somente um o soubesse, todos diriam a ele - ou ela -: "Vá e vote por todos nós". Como ninguém sabe votar, todos votam; esse, o elementar princípio das eleições - ou mesmo dela: da democracia.
E o X Tudo com isso? Quem aceita tudo e leva de tudo é o nosso popular eXcluído de Tudo - o X Tudo. Se eleitores majoritariamente esclarecidos - caso presumível dos japoneses - se miram em seus representantes democraticamente eleitos reduzindo aos tapas seus supostos, esperados, talvez inexistentes argumentos, nossa imensa maioria de X Tudos, aceitando desde café da manhã requentado com o prefeito até vale-combustível em troca de voto, naturalmente que não espera por argumentos, mas comida, escola, emprego, etc. - dando margem a toda espécie de canalha, que quer é ver a conta de X - vezes - se tornar exponenciação de X Tudos, carentes a ponto de suportar sua canalhice e inutilidade e de multiplicá-los, a eles, os vis, os abutres, os que se distinguem de todo e qualquer corrupto, porque roubam de quem não tem e, por causa deles, os vermes, não terá.
Ultimamente, não raramente tenho sido convidado a palestrar por aí. X Tudo é a imagem que tenho usado nessas oportunidades. X Tudo, na esperança de que nosso gosto se modifique, nossa vontade de aceitar qualquer coisa se apague, nossa exigência tome o lugar da mistura sem gosto e indigesta de tudo que junto não combina, de tudo que é tão diferente de quem gosta de eleição, democracia, respeito; de inclusão e multiplicação de oportunidades e perspectivas, incluindo a de escolha, ao invés de exclusão de gente e sua dignidade.
X Tudo, nem light.

9.20.2009

EM NOME DA DÚVIDA

Curiosa gente
Que se pensa mais inteligente
Por crente
Por descrente.

Esta, que desfralda bandeiras
Despreza vendavais
Oferece-nos mamadeiras
Seus desrítmicos ruidosos anticarnavais.

Inoportuno é o pregador
Inoportuno é o negador.

Pregadores
Negadores
Deixem-nos a nós
Com nossos nós

Aos ventos
Aos mares
A sós.

9.13.2009

GUARACIABA, UM ESTADO E SEUS MUNICÍPIOS

Nós não existimos. Se você quiser continuar a nos ler assim mesmo, para nós, os inexistentes, será um prazer. Bem vindo ao Estado de Guaraciaba, cuja capital também se chama Guaraciaba. Alguns dos nossos demais municípios são o Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis. Se você duvida, basta lembrar de uma coisa: nós não existimos.

Morávamos no Rio, chamado de cidade maravilhosa porque, de qualquer lugar, se não for o mar ou a montanha, é o céu que se vê, quase sempre azul e, talvez por isso, o povo de lá é alegre até quando tem motivos para ficar triste. Lá, quando chovia muito, quando nossa casa deslizava morro abaixo, a culpa era nossa. Costumavam dizer que nós não sabíamos o que fazer do lixo e que o espalhávamos por toda parte e, por isso, nossa casa desabava. Se isso era verdade ou não, pouco importa, porque o que a gente diz não tem a menor importância – pois não existimos. Naquele tempo, nós éramos pretos e diziam que ser preto não era bom. Hoje em dia, sabemos de gente que passa por preto ou negro para entrar na faculdade. Como não sabíamos que um dia seríamos valorizados por ser pretos, viramos nordestinos e nos mudamos para São Paulo.

Em São Paulo, cada vez que chovia muito, alagava tudo e nossa casa ficava inundada até o teto e nós aparecíamos na televisão, andando com a água pela cintura, remando um barco improvisado ou chorando pelos cantos. (Nós, os inexistentes, desde quando nosso barraco lá no Rio deslizava morro abaixo, vira e mexe aparecemos na TV.) Começamos a perceber que São Paulo é um município sem limites, que se espalha para todas as direções: para os lados, para cima e também para baixo – quando é para debaixo d’água que São Paulo vai. Todo mundo um dia acaba se mudando para São Paulo porque lá é onde há muitas oportunidades, quando poucas são as que existem em outros lugares - por exemplo na parte do Nordeste onde costuma não chover, mas, quando chove, chove muito. Prova disso é que existe uma música chamada Súplica Cearense, na qual o cantor pede perdão a Deus porque reza errado e de tanto rezar errado para que chovesse, Deus entendeu que era para mandar todas as águas do céu em cima do Ceará. Os autores da música se chamam Gordurinha e Nelinho e não sabemos se eles existem, mas a canção foi gravada pelo Fagner, e o Fagner existe, embora ele também apareça na televisão. Nós éramos retirantes nordestinos sempre crescendo pro lado debaixo da água de São Paulo e por isso resolvemos nos mudar para Florianópolis.

Agora, somos descendentes de italianos, alemães, açorianos, pretos e índios; alguns de nós são chamados de bugres, outros, de manezinhos. Florianópolis é uma gracinha, de tão delicada que é, com suas montanhas, o mar por toda parte, a ponte pênsil e as outras duas de concreto, cheias de automóveis parados em cima delas. A cidade quer atrair turistas, mas não prepara para isso as pessoas que trabalham como garçons, motoristas de táxi, serventes em hotéis e outras atividades; pessoas que, como nós, não existem – portanto, se elas não existem, porque prepará-las? Percebemos também que não só as pontes começaram a ficar cheias de automóveis parados em cima: todas as ruas foram ficando assim, não sem antes os automóveis passarem a toda velocidade e se baterem uns nos outros, principalmente quando chovia e em Florianópolis também chove, parece que é assim por toda parte, e percebemos que em Florianópolis, quando chove muito, é uma mistura de Rio com São Paulo: alaga tudo e algumas casas desabam. Foi quando viramos somente descendentes de alemães e italianos e nos mudamos para a capital do nosso Estado, que, como já dissemos, tem o mesmo nome que ele: Guaraciaba.

Pois na capital Guaraciaba também chove e, por aqui, os ventos às vezes são tão fortes que se chamam tornados. Este último arrancou os telhados das casas dos ricos, arrancou do chão as casas dos pobres e arrancou dos ginásios seus telhados - os quais, por sua vez, arrastados pelo tornado, arrancaram os telhados das outras casas que ainda tinham telhados em cima delas. Aí nos mudamos para dentro de um ônibus, que está e vai continuar parado por algum tempo: ele virou a nossa casa e também a casa de muitas outras pessoas, algumas brancas como agora somos e outras bugres, manezinhas, cariocas, paulistas, nordestinas, pretas, cafuzas, mamelucas, negras, como já fomos antigamente, nós, os inexistentes do Estado e agora da cidade de Guaraciaba, que acabamos de aparecer na TV, deitados em nossos colchões, dentro do ônibus.

Depois, vimos uma porção de acontecimentos no país vizinho, o Brasil: os Jogos Panamericanos, a promessa das Olimpíadas e a Copa do Mundo que vai ter por lá e os governadores e os presidentes e... Foi na TV que também assistimos sobre vários pactos, sendo que alguns os representantes oficiais do vizinho do Estado de Guaraciaba, o Brasil, assinaram: pacto do G20, protocolo de Kyoto, Princípios do Equador, Rodada do Uruguai, Fórum Mundial de Davos, Rodada de Doha, Objetivos do Milênio...

Nós, que aparecemos toda hora na TV porque não existimos; que não somos representantes de povo nenhum, porque somos o próprio povo de Guaraciaba, sua capital e seus municípios, Rio, São Paulo, Florianópolis e outros; que não somos os que se perderam e que aparecem na TV com suas cabeças baixas e as mãos algemadas ou com os olhos vendados ou ainda dentro de um caixão pequenininho; que somos os pretos, os brancos, os cafuzos, os mamelucos, os índios e os loucos; que somos os despreparados e os doutores; nós e nossos diferentes sotaques, vistos na TV quando nossas casas desaparecem, após assistirmos sobre tantos pactos e nós mesmos deitados dentro do ônibus, pensamos o seguinte.

Por que não fazer um pacto de Guaraciaba? Do nosso Estado, o Estado de Guaraciaba, que vai lá no Rio de Janeiro, se estende ao Nordeste até o Maranhão, passa por Manaus e por Belém e por Brasília e pela Belém-Brasília, passa pelo Acre e pelo Goiás e pelo Espírito Santo e por Campos e pelo Pré-Sal, passa por Minas e inclui São Paulo, atravessa Curitiba, vai até Porto Alegre e se muda para Florianópolis e culmina pela nossa capital, a capital do Estado de Guaraciaba, tão parecido com o país vizinho, o Brasil? Por que não um protocolo onde nossos representantes oficiais e seus partidos, os de situação e oposição, assumissem compromissos igualmente oficiais de planejamento das cidades, suas moradas e moradias, suas pontes, seus morros, suas drenagens, seus automóveis, seu transporte coletivo, suas fontes de renda, seu preparo para receber turistas e novos moradores e suas defesas contra aquilo tão longe, tão acima de nós, mas que tantas vezes se repete, como os ventos, as chuvas e os tornados? Se os representantes do Brasil assinam tantos pactos internacionais, porque nós, os do Estado de Guaraciaba, não fazemos nossos governantes e candidatos firmarem, sob pena da perda do mandato se não cumprirem suas metas, compromissos para conosco, que não existimos? (Não sabemos como é no Brasil, mas, em Guaraciaba, compreendidos o Estado e seus municípios, nós, os inexistentes, é que pagamos os salários dos políticos - às vezes com nossos impostos, outras, com nossa credulidade.)
Mas, que ninguém leve nada disso a sério: afinal, somos aqueles que não existem; somos apenas e tão somente o povo do Estado de Guaraciaba.

8.07.2009

ELIANA DINIZ

Não tenho propriamente uma fé. Tive um catecismo católico muito agradável, menino de Laranjeiras, Rio de Janeiro, em um convento, com árvores, tamarindo, passarinhos e, naturalmente, freiras. Minha primeira comunhão foi franciscana, diferente das usuais naqueles anos, os mesmos quando vi, trazido pelas mãos de pai e mãe, soldados fardados e armados e os dois me dizendo, O Jango caiu e vai sair do Brasil. Meus pais não eram religiosos. Ela, de um internato de um rigor absurdo e crenças assustadoras, a ponto de ser obrigada a tomar banho vestida e dormir com a certeza de que o diabo estava embaixo da cama; ele, do Colégio Zacarias, no Catete, ao qual ia a pé, desde a Rua Umari, nas proximidades do Convento onde fui catequizado, já por falta de dinheiro – meu avô era um aristocrata, de família tradicional, talvez fino, seguramente falido – e saiu sem completar o curso, exatamente por esse motivo. Seguiram suas vidas, tinham curiosidade, liam tudo, os tempos eram outros, de uma forma um pouco diferente da de hoje, não era o diploma que fazia a diferença, a não ser para a tríade medicina-engenharia-direito. Foi assim que fui crescendo, indo às vezes à missa, já no Leme, começo de Copacabana, levando na gozação o “coração ao alto”, sentindo certo alívio quando percebia que a missa ia chegando ao fim. Depois, fui conhecendo a história, preceitos, preconceitos, dogmas, cheguei ao ponto de me sentir espécie de paria no mundo dos crentes, dos que tinham fé. Li Morris West, Nelson Rodrigues e Graham Greene, católicos de diferentes gradações, seus profundos encantamentos e desencantamentos, questionamentos, particularizações. Disso tudo, o que me restou foi uma sensação de ilógica e semelhança entre o Gênesis e o Big Bang e a esperança, mais do que crença, na transformação pós-morte, igualmente ilógica e semelhante às possíveis sucessivas transformações de ameba em quadrúpede, bípede implume, hominídeo, até o homo sapiens. Com relação à Igreja Católica, uma desconexão, uma não-aceitação de certas inflexibilidades, imposições, e a leitura de Em que crêem os que não crêem, troca de correspondências de Humberto Eco – mais um ilustre desiludido e desgarrado - com um cardeal. Ficou-me a mesma admiração dos escritores que citei, mais – muito mais - pelo humano que a instituição; mais por conhecer de perto alguns sacerdotes, sinceros, devotos, convictos e ao mesmo tempo conscientes de tanta incoerência, da defesa do tantas vezes indefensável, do distanciamento do poder do Vaticano corporativo e a dura realidade de crentes e descrentes, a maioria dos habitantes do planeta ainda excluídos, desgraçados, desesperados.

Em que crêem os que não crêem? – permanece a pergunta-título do livro já citado.

Da minha parte, passei a crer na perseverança de Eliana Diniz.

Ela cuida de um lugar que não existe, a não ser em certo gênero de filme americano. Em uma sala de mesas coloridas, há estantes, crianças lendo livros, querendo contar histórias. Noutra, meninos – meninos – tecem colchas, tapetes, panos de prato. Na terceira, meninas e meninos reaproveitam jornais velhos, lidos ou não, e fazem cestos e porta-retratos. Na quarta sala do lugar inexistente, só imaginado em filme americano sobre escolas de música, dança e teatro, três teclados, em cujas teclas se encontram escritas as notas, dó, ré, mi... abrindo o caminho para mais uma sala, onde oito jovens, de todas as misturas étnicas possíveis e sua beleza espontânea, bruta e ingênua, dos dois sexos, aprendem a tocar violino. Sete violinos para oito jovens, fazendo com que um deles fique esperando, olhando para o chão, pensando no que não queria, no mundo que deixou e o espera lá fora. Melhor esperar a vez do violino.

O maestro-professor, como os alunos, tem vida dupla. Os alunos e alunas da casa inexistente estudam em um turno e, no contra-turno, freqüentam o lugar imaginário. O maestro-professor, quando não está lá, conserta relógios.

Meninas e meninos, dos que querem ler e contar histórias aos que aprendem teclado, tecelagem, reciclagem e violino, se dividem entre os que costumam dormir debaixo da mesa da sala das casas onde moram e os que dormiam na rua e hoje vão para o abrigo municipal tentar dormir e sonhar com seus instrumentos, livros e agulhas.

Às vezes, quero desistir, diz Eliana Diniz, é miséria demais, é cada coisa que a gente vê... E dizemos a ela, mas aqui se conseguem resultados tão bons, esses meninos, essas mocinhas, estão encontrando seus caminhos, sonham, aprendem, vão querer se desenvolver, se encontrar em suas vidas, têm sua auto-estima recuperada...

Mas querem que eu tire o almoço deles, ela nos conta, tinha uma verba estadual que acabou e aí eles me disseram que eu tirasse o almoço e continuasse o projeto. Mas como eu vou tirar a refeição deles? Eles comem direitinho, todos em fila, depois eles mesmos tiram e lavam os pratos.

Este lugar de mentirinha fica em Quedas do Iguaçu, interior do Paraná. Só quem vai lá percebe que isso, o lugar que não existe, guarda ilógica e semelhança com o Gênesis, o Big Bang, Adão, Eva e o primata-ameba hermafrodita, o desaparecimento absoluto e a alma, ou seu equivalente, o espírito, partindo para outra, quiçá um paraíso.

Esta a minha falta de fé. Esta a minha crença. A insistência, a perseverança, crer no que não é crível, esperar o que não deve nem pode ser esperado. Mais que qualquer coisa espiritual, lógica ou ilógica, cética ou crédula, sábia ou pseudo-intelectual.

Eu tenho a mais absoluta certeza de que esta mulher, Eliana Diniz, a irmã Eliana, existe.

7.23.2009

UM HOMEM E SEUS CAPÍTULOS

O que há de mais interessante na vida não é a compreensão, mas o seu exato contrário. A esperança persiste porque o contrário não consegue ser tão exato quanto se esperava dele. A célebre foto do menino africano à beira da morte à beira do lixo enquanto um urubu observa a cena, que rendeu um prêmio e um suicídio ao fotógrafo, a tudo resume e explica e confunde. Há quem interprete a cena, se esquecendo de que não é uma cena e sim um fato que já deixou de ser e virou passado. Há quem use a foto, há quem explique a posição de espera do urubu, quem se prenda à engenhoca chamada urubu. Há finalmente quem sofra pelo menino. Entendimento houvesse e conversa não haveria. Engenho seria palavra jamais pronunciada. Arte é que nem o lixo entre o menino e o urubu, se revela no espaço da incompreensão, da multiplicidade de impercepções, do raso ao supostamente profundo, aquilo que poderia ser abrangente e não passa de espaçoso, que se torna sensibilidade porque esta não se manifesta. Quem levanta e anda muito provavelmente está mesmo morto. Vivo é o estático: perplexo, menino, lixo, urubu.

7.16.2009

DA ARTE POR PROFISSÃO E DE TANTAS OUTRAS COISAS

Cronistas profissionais, por exemplo. Famoso colunista afirma ter conversado com escritora irlandesa que por sua vez diz ter conversado com dois escritores brasileiros e se ter espantado com o desconhecimento deles sobre escritores. O famoso colunista citado conta que mencionada escritora disse que um dos dois escritores com quem conversou é uma fraude. Nesse quem é quem mais para fofoca que página policial fica público e notório quem de fato é fraude. Assim eu diria se colunista social fosse de modo que o leitor supusesse – não me deixei trair por ignorante perigosa rima – que de algum modo estivesse querendo me favorecer escondendo nomes extorquindo vantagens. Igualmente escondi vírgulas por profissional não ser.

Poucos dias depois, chefe da receita federal é demitida com subsequentes eloquentes desmentidos de que suposições de manipulações contábeis da estatal mor tivessem de fato provocado sua demissão e graças ao diabo há uma crise a justificar a demissão e graças a leis há leis que dizem que a receita é órgão técnico impermeável a pressões políticas profissionalismo é isso aí.

De tantas outras coisas, pelo consagrado argumento de que a medicina não é ciência exata é que fazemos exames científicos à exaustão cujos laudos são escritos por técnicos a debochar de outros técnicos autores daqueles que deram origem ao n elevado a n mais 1 somado a mais 1 exame que nada conclui e ao mesmo tempo e paradoxalmente tem definitivo laudo que é ridicularizado pelo médico que o lê enquanto examina o negativo à luz fluorescente e interpreta aquilo tudo laudo e imagem e condena o paciente à morte ou às vezes pior à vida como se poderoso fosse profissional que é.

Mais que tudo isso, acima de qualquer coisa ou laudo, vírgulas ora direis, não se chega em casa e sim a casa. E sem crase. Em casa é que se fica amador amadora assim não for meu amigo minha amiga a história acabou seu sorriso se foi sua oportunidade de afagar o cão e chutar o bidê e gritar isso doeu e o vizinho ouvir e a vizinha reclamar acaba por acabar com a carreira do síndico da síndica profissional.

Assim foi que hoje cheguei, que amanhã me vou, que um dia irei, amador sou rei.

7.08.2009

CARAS

Não no referimos à revista, mas aos rostos humanos, vulgarmente chamados de caras. Há matrizes – e isso Darwin, seus seguidores e também seus detratores poderiam afirmar com propriedade; mas, dessa verdade, sejamos apenas passageiros inquilinos.

Um rosto de uma menina atravessando uma rua de Santo Amaro da Imperatriz é o mesmo de uma outra avistada em Florianópolis, em tempo decorrido que não permitiria que ambas fossem uma só e com diferenças o bastante para sabermos que não são gêmeas e sequer foram geradas pelos mesmos pai e mãe. O mesmo ocorrerá com meninos, senhoras, homens e mulheres de meia idade e, pior, de meias puídas ou – mais grave - de meias verdades.

Claro, você já se lembrou dos sósias. Há um maestro em Florianópolis a quem só não chamamos de Getulio Vargas por óbvias razões, sendo a principal o fato de ser ele um maestro, regente de orquestras, pouco afeito a movimentações que não as das cordas e notas musicais, que transmite a meninos e meninas de pais e mães que lhes são próprios, com traços, prognatismos, sorrisos, olhares vesgos, sobrancelhas juntas, olhos separados, queixos, lóbulos e narinas que nos fazem lembrar de pessoas distantes, até de outras gerações, de Darwinianas ou Divinas originais fôrmas (o acento, neste caso, mesmo que abolido ou proscrito, é fundamental).

Agora, sim, falando de uma revista, quem folhear uma Veja de alguns meses atrás encontrará uma reportagem sobre Darwin e suas explicações, até, para o soluço – e como ele e seus estudos encontram até hoje fortes resistências. Diz o artigo que há duas correntes: a que acredita que sejamos todos tailor-made, feitos um a um, sob medida; e a Darwiniana, das tantas transformações e gerações ao passar dos milênios, séculos, dias. Esta segunda, de acordo com o artigo lido às pressas e tardiamente, acreditaria ser tudo obra do acaso.

A questão, de fato, não é como nem quando, e - ousa-se aqui afirmar – nem mesmo quem, mas... Por que?

Por que pertencemos a matrizes e, mais, muito mais, gostamos do cheiro da rosa e desgostamos de outros tantos? Este encantamento pelo mar, o vento, a escalada e a visão da montanha, se tudo isso nos veio atavicamente através de múltiplas transformações e numerosas gerações, muito bem, Darwin; se não foi assim, se de fato somos, cada um, encomenda, feitura, experimento e refeitura de Deus – que diferença isso faz, se o motivo continua escondido por trás de uma nuvem que não se vê?

Pois se soubéssemos o motivo dessa confusão toda, dessa coincidência, dessa falta de acordo e, admitamos, de assunto, ora, sem querer ofender a ninguém, poderíamos louvar a Deus ou ao Santo Acaso, sem culpa nenhuma nem a necessidade de desferir truculentos e orgulhosos socos em nossos próprios peludos ancestrais peitos.

Meninas de Santo Amaro da Imperatriz e Florianópolis, ainda se eu fosse outro Mário, o Quintana - mas não. A verdade é que seus rostos, suas caras, sua matriz amada e desconhecida causaram essa enorme confusão nesta minha cabeça, tão saudosa de cabelos, de poesia, de certezas.

6.21.2009

LEIS

Há as fáceis e as difíceis
De entender e de cumprir
Aquelas que o Poder ignora
Se esquece
Apenas impõe
Aos de fora da sua esfera.

Leis do trânsito
As do tráfego
Há
As leis do tráfico

E as da razão.

As que não pegam.

Lei a mais difícil
Nos tira objetos das mãos
Nos atira na cabeça no chão
Pedaços de marquise
Pesados frascos
De esmalte de espuma de xampu.

Lei da gravidade
Que tu nada mais severo
Nada mais grave

A nos manter presos
À prisioneira do sol
À nossa nave esfera.

Pior que os canalhas
Mesmo que a permanente ameaça da substituição destes
Por outros constitucionalmente armados

Só mesmo tu
Amada poderosa invencível gravidade
A nos derrubar na calçada
Embrulhos sacos de compras nas mãos
Agendas impossíveis na cabeça
A bunda
Humilhada
No chão.

6.12.2009

JABS À PARTE

O poeta Aldo Votto lê meus textos sobre políticos, às vezes concorda, outras, discorda, e termina dizendo:

- Jab neles.

O jab geralmente é o preparo para um direto, desse de fazer cair o queixo do adversário. Peço desculpas ao poeta, porque, hoje, não quero deixar ninguém de queixo caído.

(Poderia continuar falando de boxe, que, durante um ano e meio, treinei – meu adversário, literalmente, era um saco -, mas só poderia falar de um e somente um boxeador: Cassius Muhammad Ali Clay, que, na célebre luta contra George Foreman na África, como armas usou jabs, esquivas e o próprio rosto, até levar o Foreman à exaustão física, mental e principalmente de nervos; e, aí, jab seguido de direto na velocidade da luz, fim da luta, Muhammad Ali campeão do mundo. Mas, hoje, falemos de outro assunto, em moderadas e comportadas doses.)

Não beba vinho como se fosse cerveja nem cerveja como se fosse água.

Uísque, só se um dos três estiver de smoking: você, o garçom ou o uísque – afinal, se o melhor amigo do homem é o uísque, teu nome é Vinicius de Moraes, primeiro e único.

A reta é o menor caminho entre dois pontos. Explique isso a um bêbado.

A vodka é a bebida invisível. Explique isso à sua mulher.

O melhor amigo do homem é a mulher: o olfato feminino supera o do cão.

Se você chegar em casa cedo (de manhã) e sua empregada chegar à sua casa tarde (de manhã), um é a consciência do outro.

Melhor que Ivete Sangalo, Ronaldo e Cafu fazendo anúncio de cerveja, só o Zeca Pagodinho dançando Axé de chuteiras.

Se for se embriagar, não saia: saia justa, com Mônica Waldvogel, ou sem saia, com Luciana Gimenez.

Escrever é trabalho – para o escritor e, a depender deste, para o leitor. Seja escrevendo ou não, se for beber, não trabalhe. Se for trabalhar, não beba. Ou, pelo menos, faça uma revisão quando estiver a seco, sem ressaca e sóbrio, capaz de um belo pedido de desculpas sem usar uma só palavra. A não ser por escrito.

Encerrando este sóbrio e comportado decálogo, lembre-se: o único caipira que se deu bem de verdade é do sexo feminino - a caipirinha. Assim sendo, Garçom! Uma cerveja, por favor. E não nos deixe aqui de mãos levantadas, imitando a estátua da liberdade.

5.30.2009

AS RESPOSTAS E SEUS SILÊNCIOS

Escreva cartas
Mande e-mails
Torpedos.

Exprima-se
Expresse-se
Manifeste-se.

Quando a favor
Repercutirão.
Quando contra

À voz corrente
À linha traçada
Definida

Sempre nítida
Óbvia
Dominante

O silêncio se fará presente
Conquistado
Não portanto se frustre.

Senão a vida
Senão a morte
A arte

Muito de silêncio tem.
Mande e-mails
Torpedos

Cartas
Repostas
Perceba

Algumas
Se respondem
Silenciosamente.

5.19.2009

3 PENSADAS MAIS QUE SÚBITAS REAÇÕES

(1) À VEJA, SOBRE A ENTREVISTA DO PREFEITO DO RIO DE JANEIRO

O JEITO CARIOCA

VEJA, no último domingo, perguntou ao prefeito do Rio de Janeiro: “Esse ‘tudo pode’ é determinado também pelo jeito de ser do carioca?” Eduardo Paes respondeu: “Sem dúvida. Essa coisa do carioca, do seu jeito de ser, da malandragem cantada em prosa e verso, também acaba servindo ao ‘tudo pode’. Em nome de um certo carioquismo, cometeram-se equívocos e abusos. A cidade está maltratada tanto pelo romantismo social das autoridades como pelo que se convencionou chamar de ‘jeitão do carioca’.” [...] “Adoro samba, toco na bateria da Portela, gosto de chope, de boteco, de praia. Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem e sem perder a alegria típica da nossa cidade”. Ora. Esse tipo de consideração é o que transforma qualidade em defeito. O característico bom humor carioca – por extensão, brasileiro – não traz em si o gosto pela demagogia nem pelo que o prefeito chamou de “romantismo social”. Aliás, que romantismo é este - o da exclusão, do medo e das balas de fuzil? Curiosamente, o prefeito dá a entender que é dotado do mesmo “jeitão carioca”, pois afirma gostar de chope, de praia e batucada, mas se considera superior ao resto da população, quando faz a ressalva: “Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem...”. Caro prefeito: com ou sem jeitão carioca, a população do Rio já enfrentou de tudo e poderia parecer ufanismo tolo citar alguns nomes e feitos da sua história. Fato é que, sim, a demagogia de vários da classe que o senhor representa tem causado danos a esta cidade e ao país como um todo de difícil reversão. Entretanto, o senhor não é pago para cunhar jargões como o tal “jeitão”, perigosos a ponto de se ter até hoje o nome de um jogador de futebol para sempre associado a atitudes incorretas, por ele ter gravado há muitos anos um anúncio com um texto medíocre – o qual, evidentemente, não foi escrito por ele. Transformar bom humor em defeito é o mesmo que assistir aos filmes com Al Pacino e comentar: “Mas ele tem tanto talento para gangster, porque resolveu ser ator?”. E para que o senhor não pense ser o único capaz de ter alegria e preocupação social, sem mergulhar na desordem; se o senhor afirma que nasceu em uma cidade que não já era mais maravilhosa, ao invés de se achar melhor que o resto da população, faça parte dela, faça jus a ela e à cidade maravilhosa. É para isso que o senhor foi eleito; e é para isso que o senhor é pago.

(2) À FOLHA DE SÃO PAULO, SOBRE, ACIMA DE TUDO, PORTAS

QUANDO VAGABUNDAGEM SE TORNOU PROFISSÃO


É com estarrecimento que se lê, na FOLHA DE SÃO PAULO de domingo, 17/05/2009, que o governo federal vai passar a distribuir cestas básicas para acampados do MST. Aliás, como um representante do governo explica, ao invés das cestas básicas, existirá um cartão de compras, de modo que a economia local, isto é, próxima aos inscritos no “Bolsa Família”, deste também se beneficie. Explica a reportagem que o mesmo governo fará um mapeamento desses acampados, de modo a incluí-los dentre os que já recebiam as cestas e passarão também a receber os cartões de compra.

Quem reagiu antes de qualquer outro foi um coordenador do MST, que avistou o óbvio: esta medida não vai resolver o problema dos sem-terra.

É de se lembrar também que, no momento em que sua reeleição estava garantida, Lula, entrevistado pelo Fantástico, a respeito do “Bolsa Família”, disse que era preciso achar a porta de saída para o assistencialismo.

Ora. Se ao invés de fazer a mais que atrasada reforma agrária de maneira clara, competente e justa, o governo Lula vai ampliar o assistencialismo a acampados – os quais o que pretendem, ou deveriam pretender, é terra – e é de também se supor e desejar que seu real intento seja terra para trabalhar e, desse trabalho, sobreviver e, porque não, progredir -, esse mesmo governo não está achando, nem querendo achar, nenhuma porta de saída. Mas de entrada.

A agir dessa maneira, ainda que sofisticando a forma, o governo Lula estará criando uma nova e confortável carreira: a de vagabundagem, mantida pela parcela da população que paga impostos. Isso mesmo: uma parcela dos impostos que pagamos serve para viciar cidadãos a buscar a maneira mais fácil de ganhar o necessário e suficiente para um vida medíocre. Basta ter filhos na escola ou demonstrar que eles a freqüentam e pronto: ganha-se um cartão de crédito, que permite morar em um acampamento ou barraco ou de favor na casa de alguém e (sub-) viver sem trabalhar.

Que nenhum demagogo de plantão venha a nos lembrar que poder pagar impostos no Brasil é um privilégio. Claro que é. Em um país em que o desrespeito, a demagogia e a burrice conseguem superar históricas injustiças, nada mais conforme que aqueles que conseguiram emergir desse pântano – a maioria deles, trabalhando, e muito - sustentem vagabundos, além de alguns políticos, principalmente os que não estão nem aí para nossa opinião.

Aliás e para encerrar, sabe porque eles não estão nem aí?

Porque a maioria de nós, que paga impostos, parece demonstrar que também não está.

Mas isso é outra cesta básica.

(3) A QUEM NÃO ESTÁ NEM AÍ PARA A OPINIÃO PÚBLICA

A NOSSA E O DELES

Ser ou não ser ou estar ou não estar, na língua do Sheakspeare, são ditos (e escritos) do mesmo jeito. Na língua falada no Brasil, ainda que agora mais próxima da que se fala em Portugal e suas outras ex-colônias, os sentidos são cada vez mais distintos.

Já houve um ministro que dizia estar – e não ser – ministro. Para dizer isso em Inglês, não seria tão simples assim. Anos depois, um presidente da nossa república (nossa?) viria a dizer mais ou menos a mesma coisa, um tanto blasé, às margens do rio Sena.

Mais recentemente, certo congressista disse que não está nem aí para a opinião pública.

O que me ocorreu foi o seguinte. Quando eu encontrar com gente como ele, que não está nem aí para quem votou neles e paga os salários deles; que descaradamente se apodera do que não lhe pertence; que se aproveita da carência quase que absoluta da maioria, o que resulta em despreparo, tornando-a presa fácil desses asquerosos, já sei o que vou fazer. Vou tacar-lhe nas fuças um livro bem pesado, que não será do Sheakspeare, não: será do (deles) acadêmico José Sarney.

Quero ver se ele vai ter a coragem de revidar.

E ler.

4.29.2009

AGORA, FALANDO SÉRIO

Bandalheiras à parte - sem perdoá-las ou esquecê-las jamais -, alguns momentos da História recente não são de se jogar fora. O primeiro deles foi ter à frente da Economia um político: FHC. Depois, à frente do Banco Central, um e depois outro banqueiro. A falsa impressão de que o brasileiro não tem memória, que pode ter sido reforçada pela reaparição de indigestas figuras cheias de poder novamente, claro que acontece pela manipulação covarde da turma da bandalha, que dela se beneficia e se locupleta e se vomita. Um faminto de tudo - da comida à instrução, à mais rudimentar capacidade de discernir - acreditará em qualquer hipócrita que se apresente oferecendo migalhas, trazendo consigo santinhos com o retrato de si próprio, de seus padrinhos - as referidas indigestas figuras - e, destas, seus mais recentes pares, a permanentemente renovar o que há de pútrido na pátria amada. No meio disso tudo, dois políticos que sabem disso tudo e - impossível não reconhecer - se saem muito bem disso - e nisso - tudo: o já citado FHC e, evidentemente, Lula. Pouco provável que o próximo seja alguém capaz de destruir o que foi conseguido a duras penas pela brava gente. De resto, é fortalecer o faminto de saber e comida, para que ele saiba distinguir retrato de canalha de rosto de gente de alma grande, gente que lava o rosto na pia e faz cocô na privada. E não o contrário.

4.28.2009

LUNETAS POUCO PRECISAS PORQUE ANTIGAS

As DIRETAS JÁ ficaram nos comícios, o Tancredo, no hospital, o Collor, no impeachment, a inflação, muito acima da capacidade do estádio. Por isso é que foi substituída por juros muito acima da capacidade do estádio. Depois que fomos a pique, descobriram a pólvora e puseram um banqueiro à frente do Banco - o Central - que, depois, foi substituído por outro banqueiro. Privatizaram, não privatizaram, privatizaram de novo e estamos aí. Aqui. Firmes. Nós e o cara. A cara. E os outros. A abundância, a falta, o pingo, a torneira, a lata. Assim funcionamos: quando abundantes queremos abundar mais, quando temos falta nos viramos para matar a sede, transbordamos de vez em quando, nos vendemos por um pingo, na cabeça, a cabaça. Não foi terra o que avistaste, Cabral. Foi água.

4.19.2009

MUROS

Segundo o livro CIDADE PARTIDA, de Zuenir Ventura, do início do século XX até o seu final, a quantidade de favelas no Rio passou de uma para 500. Há que diga que, hoje, são 700 ou quase 1.000 - e que, por exemplo, em Florianópolis, com seus cerca de 400 mil habitantes, já são dezenas.

O governo do estado do Rio de Janeiro começou a construir muros nas favelas cariocas - em 13 delas -, totalizando 14,6 km lineares e o custo de 40 milhões de reais.

Há algumas questões que se levantam por si:

1. Se o número é de 500, 700 ou 1.000 favelas, enquanto construírem muros em 13 restarão 487, 687 ou 987 sem muros;
2. Mesmo quem defende a construção – por exemplo, a revista VEJA – afirma que os muros por si, sem fiscalização, serão incapazes de impedir a expansão das favelas;
3. Morros sempre são acessíveis por mais de um caminho - e o projeto não prevê, como chegaram a pensar – e temer - alguns daqui e de fora, muros poligonais coibindo ou dificultando todo e qualquer acesso às favelas;
4. A um custo unitário que, segundo especialistas, seria viável, de 20 mil reais, a quantia que dizem que custarão os 14,6 km de muros em 13 das 500, 700 ou 1.000 favelas cariocas seria a mesma para construir 2.000 (duas mil) casas populares.

Portanto, antes de qualquer juízo ético, é fácil de ser percebido que a construção desses muros é injustificável por qualquer rudimentar e simplista raciocínio prático, econômico, ou mera, pobre, tosca, minimamente lógico.

Saindo do terreno pragmático e adentrando em outro cuja subjetividade é quase nula, a dedicação brasileira à persistência e à manutenção de construções feitas pelo poder público é igualmente quase nula; é de se apostar que esses muros, se sua construção chegar ou não ao final, muito em breve serão ruínas.

Agora vamos deixar de vez a obviedade e pular o muro brasileiro da hipocrisia.

Em um país cuja sociedade achou prático e natural que em um século fossem construídas 500 ou mais favelas na cidade que, durante cerca de 60 anos do mesmo século, foi sua capital; que considerou igualmente prático e natural que em outras cidades de perfil montanhoso fossem construídos barracos e mais barracos em seus morros e, nas planas, que parte da população se espremesse em caixotes de madeira ou papelão montados à beira de estradas; que se comporta como o paciente de psicanálise que inicia seu tratamento falando da mãe e acaba por tratar da, às vezes, já falecida mãe e não de si, como aqui se faz, culpando eternamente os portugueses e suas capitanias hereditárias; que em grande parte acha bonito e natural entupir as narinas de pó e empinar as mesmas narinas a exigir segurança e direitos; que sabe que os políticos são de baixo nível porque a população em sua maior parte é facilmente manipulável, porque desesperada, encantada pelo primeiro santinho acompanhado de cesta básica, vale-combustível, torneira, escada ou proximidade à corja pútrida, - em um país assim, com uma sociedade assim, nada mais natural que se prefira construir muros à volta de pobres ao invés de pensar em alternativa que, mesmo e ainda que minimamente, se baseasse em orientação, educação, diálogo, leis, inclusão. À brasileira, é melhor construir, justificar, pichar e deixar ruir um muro.

Principalmente, ficar em cima dele. E – prático e natural - atrás da moita.

4.12.2009

CARTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Caro Senhor Presidente da República:

Talvez o Sr. não se lembre. Raymundo Faoro foi contrário ao projeto da reeleição assim que iniciada sua defesa, quando o reeleito viria a ser o seu antecessor, Sr. Fernando Henrique Cardoso. Como em tantas outras vezes, o saudoso jurista e historiador estava com a razão.

Sem recorrer aos argumentos dele, é de impressionar o quanto o Poder é mesmo capaz de transformar indivíduos e quanto maior é a transformação à medida em que o tempo passa. Difícil imaginar o corajoso líder sindical de outrora, que conduziu uma greve em plena ditadura militar, comparando obras da envergadura das do "PAC" com o corte das suas unhas ou o batom da sua candidata e ministra.

Quanto a ser ou não chique emprestar dinheiro ao FMI, duas afirmações podem ser feitas, Sr. Presidente: (1) o dinheiro não lhe pertence; e (2) não há nada que seja ou possa vir a ser chique nesta crise. Quanto a esta ser espécie de marolinha, pergunte a alguém que esteja desempregado se pensa assim - é o que se lhe pode sugerir, Sr. Presidente.

Ainda sobre o empréstimo ao FMI, adicionalmente, é de se arriscar duas suposições. A primeira: como o Brasil é membro do Fundo e, este, um órgão destinado a emprestar a países-membros em risco de insolvência, deve, sim, ter havido uma proposição de que fosse feito o empréstimo, e não, deste, uma oferta expontânea por parte dos nossos representantes. A segunda: por várias razões que poderiam ser supostas em extensão, é bem pouco provável que a proposição pudesse ser recusada pelos mesmos mencionados nossos representantes.

Voltando agora um pouco no tempo - porque é do tempo, no Poder, que se tem aqui como tema -, quando os aeroportos e vôos comerciais se tornaram um caos, é de se esclarecer, Sr. Presidente, que se a classe média nunca tomou banho frio, tampouco quente era a ela possível tomar - posto que não há chuveiros nos aeroportos, nem mesmo naquele em que o personagem do Tom Hanks fica detido. A classe que viajava, média ou não, incluía empresários, trabalhadores da iniciativa privada e estatais, religiosos, artistas, políticos, ministros...

Sr. Presidente, quando o Sr. fala da Petrobrás ou do Banco do Brasil, essas empresas têm como acionistas (a) investidores em ações da Bolsa de Valores e (b) esse conjunto difuso, pouco visível de longe, o povo.

Suas palavras são sempre poderosas, dado ao cargo que o Sr. ocupa, Sr. Presidente da República.

Sr. Presidente, o que também é certo é que o Sr. sabe disso tudo; apenas e lamentavelmente, o tempo no Poder tornou distante a imagem de bravura e coragem do líder sindical, trocada, como se fosse figurinha de álbum de criança,
pela de alguém que já não sabe mais distinguir que papel de fato desempenha, onde e quando. Principalmente quando. Raymundo Faoro estava com a razão.

4.02.2009

ORIGEM - E EVOLUÇÃO

Do mar à praia
Até as estepes

Pela relva
Até a montanha

A casa.

Depois
O cerco.