PAREDES QUE FALAM
NOVELA DE MARIO BENEVIDES
1 – O APARTAMENTO DE FLÁVIA HOLIDAY
Quando se vê o mar à esquerda, é para o norte que se vai. Isto, é claro, só se o continente também estiver à esquerda. Para quem sempre viveu no continente, longe da ilha, esta simples e óbvia constatação pode ser uma enorme novidade, a causar momentânea mas recorrente confusão, principalmente quando se vai mais para o norte costeando a baía, que se vai alargando até que o continente já não é mais visível e o mar continua lá, desafiante, do lado esquerdo, nesta ilha brasileira.
Para quem é do Rio, nova também é a sensação de, ao mesmo tempo, estar e não estar no Leblon. Anda-se pela ilha vendo-se meninas lindas de umbigo de fora, o sol e a paisagem deslumbrantes, um cheiro de maresia no ar, mas não se passa pelo Garcia & Rodrigues, nem Álvaro’s, nem Antiquarius – o que não quer dizer que faltem bares, mercearias, padarias e restaurantes, na ilha: há vários, e dos bons, como a Cachaçaria, o Pão Italiano, o Armazém Vieira, o Café das Artes, o Empório, o Toca da Garoupa... Cinemas é que são poucos, mas andam dizendo que serão mais, em breve. E os teatros?
Os automóveis passam em disparada na Avenida Beira Mar, o que contrasta com a brisa fresca e o marulhar a transparecer tranqüilidade. De repente, a brisa se transforma em vento, que pode ser Nordeste, com direito a assobio, ou Sul, quando, mais que direito, o casaco é obrigação, a menos que se queira ficar espirrando por uns três dias seguidos.
Aqui se deve andar de ônibus, nos quais a porta da lateral da frente é a de entrada. Salta-se deles pela outra, da lateral traseira - a não ser nos chamados executivos, os amarelinhos, menores, refrigerados e com tv, com porta única, na lateral direita dianteira.
É de manhã, não há vento nem chuva, faz sol e o marcador digital reveza o horário – 8:15 – com a temperatura: 20 graus centígrados.
A carioca magra e bonita, de cabelos negros e lisos sobre a pele muito branca, morando há pouco tempo na cidade, no ponto em frente ao Shopping Beira Mar, na Rua Bocaiúva, que é paralela à Avenida Beira Mar, tendo atrás de si o pátio de venda de automóveis novos e seminovos, entra no ônibus – um dos comuns, grandes e azuis -, que começa a se mover - e ouve o motorista lhe perguntar:
- Caiu alguma coisa?
- Não – ela responde.
- Caiu sim, ele insiste. Fez barulho de metal caindo no chão.
- Meu brinco!, ela exclama, passando a mão no lóbulo da orelha direita. O motorista engata a marcha a ré e desloca vagarosamente o ônibus para trás, junto ao meio-fio, quando ela vê seu brinco metálico brilhar na calçada e ouve o motorista dizer: - Está ali, ó. Ela salta, pega o brinco e retorna ao ônibus, pela mesma porta da frente, agradecida e pasma com a gentileza do motorista e dos passageiros: ninguém reclamou da manobra nem da espera.
Ela passa pela roleta depois de pagar a passagem e um rapaz lhe cede o lugar. Óbvio como tantos outros, procurará no decote do paletó do conjunto branco que ela veste uma nesga dos seus seios, pequenos e lindos. Um pouco menos óbvio, mas não muito, ficará apaixonado por ela, porque ela se expressa para ninguém com seus olhos azuis, em sintonia com a boca, mas sem dizer palavra. Ele não sabe, mas ela veio para a ilha e abriu em sociedade uma livraria vinte-e-quatro-horas, inexistente até então na cidade, que mistura literatura, teatro, música e boemia. Não é para a livraria que está indo, que fica na mesma Beira Mar, muito perto de onde está morando.
Na volta para casa, faz sinal para um amarelinho, que vem pela Avenida Beira Mar, onde ela alugou o apartamento de três quartos com garagem, embora não tenha um carro, por um preço, para ela, acessível. São sete horas da noite e o mês é maio; o veranico de Florianópolis. Sopra somente a brisa mais costumeira e o tráfego é intenso, mas sem longas paradas, filas, engarrafamentos. Vê um sujeito atravessando a avenida, vestindo um casaco de couro preto, com cabelos da mesma cor, longos, sobre os ombros, mas, ao contrário dos seus, encaracolados, principalmente nas pontas. Percebe, não sem um certo nojo, o sujeito, com andar desafiante, atravessando a avenida, sem se importar com os automóveis, os braços artificialmente para trás, como que para exibir o tórax, assoar uma das narinas sem lenço, com os dedos, em direção ao asfalto.
Mais tarde, depois de ler e escrever, de assistir a um filme que pegou na locadora vinte-e-quatro horas próxima ao seu prédio, vai para o quarto, tentar dormir. Sonha que está em um jardim florido e vê uma figura encapuzada, toda de branco, movimentando uma foice com a mão. É a morte, vestida de branco - é o que pensa, sonhando. Aponta para si em seu sonho, perguntando a quem imagina a morte: - Sou eu? A morte faz que não, com a cabeça encapuzada. Acorda do sonho, mais intrigada que assustada, vai ao banheiro e, depois, volta à sala.
Incomoda-se com o assobio do vento na janela da varanda, que fica de frente para o mar da Baía Norte. Vai até a varanda, diminui a fresta da janela por onde está entrando o vento Nordeste e olha sem muita curiosidade para baixo, para a avenida, cujo tráfego, neste horário, duas da manhã, é de esparsos mas ainda ruidosos automóveis e motocicletas. Espanta-se: o mesmo indivíduo alto, com cabelos negros cacheados e casaco de couro preto, está atravessando as pistas em direção à calçada junto ao mar e repete a cena do início da noite, assoando uma das narinas sem lenço, para o chão da avenida, a qual atravessa, outra vez, tolo, desafiando sabe-se lá o que.
Um carro de luxo, grande, com quatro portas, cor escura, para, irregularmente, rente ao meio-fio, ao sinal da mão do sinistro e, ao mesmo tempo, interessante indivíduo. Ela, que mora no décimo andar, o vê curvar o tronco como quem não pretende entrar no automóvel do lado do passageiro da frente, mas somente cumprimentar ou entregar alguma coisa ao motorista. Pouco depois, ele se afasta do carro, ergue o tronco, vira-se, guarda alguma coisa no bolso do paletó de couro e sai caminhando na calçada junto à baía, na direção sul, o mar à sua direita. O automóvel fica parado onde estava, com os faróis e lanternas acesos, o pisca-alerta em funcionamento.
Desinteressa-se e vai para o quarto, onde dorme mal - ainda estranha o barulho dos carros na avenida, que é quase permanente. Há um falatório incomum. Vai à janela do quarto onde dorme, que também é de frente para a baía, e se assusta com um carro de polícia e uma ambulância parados na pista da direção sul, junto ao mesmo automóvel de luxo, com lanternas, faróis e pisca-alerta acesos, que vira parar para o sujeito do casaco preto, cerca de duas horas antes, da janela da sala. Um corpo é retirado do carro e depois deitado sobre uma padiola, coberto por um lençol branco. O coração dela dispara. Ela sua, sente frio e desconforto. Não sabe se fica onde está, se volta para a cama, ou se desce, para contar o que viu mais cedo, naquela madrugada.
O nome dela é Flávia. Seu sonho sempre foi o de ser cantora. Anda pela sala nervosamente. Pensa em telefonar, tira o fone com teclado digital da base e o deixa no lugar, novamente. Deita no sofá. Entra em um estado de semi-inconsciência. Depois, vai ao banheiro, tira a calcinha e a camiseta que usava. Entra no chuveiro, passa as mãos no corpo lindo e canta, imitando Billie Holiday. É tímida e tem medo de acordar a vizinhança e tomar uma vaia ou reclamação, mas canta assim mesmo, em voz alta. Gesticula, já não imita mais Billie Holiday - agora é ela mesma, que mexe os olhos na sintonia espontânea que esses sempre têm com a boca bonita de dentes tão brancos e corretos. Mira-se no espelho, sensualíssima, e enxuga-se, finalmente. Envergonha-se. Veste-se. Bebe um copo de leite e engole um biscoito sem gosto. Escova os dentes andando pela sala. Desce pelo elevador aliviada, por não encontrar ninguém. São sete e meia da manhã. Dá bom dia ao porteiro, esperando uma reclamação pela cantoria. Ele comenta:
- Um homem muito rico foi assassinado aqui em frente, hoje de madrugada.
Para ela, a frase, desconexa com seus culpados pensamentos, soou como um aplauso, que, sem se dar conta, chegou a agradecer, curvando ligeiramente o belo tronco, para depois deixar a portaria, sorridente, cantando outra vez, a caminho da sua livraria.
Billie Holiday.
Flávia Holiday.
Flávia.

