1.07.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006

SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017

- ENTREATOS –

(1)

- Você fica dizendo “naquele tempo”, mas, hoje em dia, não morre gente do coração?

- Morre. Principalmente entre os pobres.

- Tem muito pobre no Brasil?

- Tem. Miseráveis, inclusive. Gente que não tem o que comer.

Depois da resposta do pai, Ricardo VI ficou por alguns instantes em silêncio. Então perguntou:

- Como foi que vovó Sérgia participou da revolução?

- Contra. Participou contra ao que os militares chamaram de “revolução” e a reação chamou de “golpe”. Golpe de Estado. Os militares tomaram o poder, depuseram Jango, João Goulart, que era o presidente da República. Tudo complicado demais pra sua idade, eu acho.

- Não importa. Eu estou gravando.

- Ah, você veio armado de um gravador pra nossa conversa, é?

- Vim.

Sim, era ainda a mesma tarde-noite de 2010, em Minaçu.

(2)

O General gostava de andar nu pela casa, o que irritava um pouco à empregada, uma senhora que trabalhava pra ele desde quando ela estava com quarenta e, ele, vinte e nove. Agora (em 2017), ela estava com setenta; ele, cinqüenta e nove. Essa mania de andar pelado era recente. Solteiro, jamais se soubera de um caso dele que fosse. Espartano – era o que, dele, diziam seus amigos.

Acessava a rede (a dez a doze) pelado, sentado sobre uma toalha. Sentiu uma súbita dor na lombar; deitou-se de costas no chão frio do apartamento da Avenida Atlântica, decadente, Copacabana, a vista para o mar era o que ainda resistia e dava forças. Deitar de costas no chão gelado, também. Fez exercícios para a lombar, esticou-se todo, virou-se de bruços, ficou assim por alguns instantes. Depois, em posição islâmica, não para Meca, apenas para alongar-se mais, um pouco mais, até aliviar-se da dor nas costas.

De pé, telefonou para Almir, seu melhor amigo.

- Almir? Fernando. ‘ce tá bom, meu amigo? (Uma pausa.) Não senhor, estou é muito do preocupado. Tem coisa no ar. (Pausa.) Camarada, onde é que já se viu esse silêncio todo, parece que o tempo parou. Que tecnologia que nada, não é de veículos que estou falando, nem da mídia – essa continua a mesma de sempre, dando a impressão que transmite notícias de outra galáxia, de um universo azul e plácido. Refiro-me ao povo, Almir, ao povo. Tá muito calado, Almir.Vem coisa aí, me escute, Seu General de Pijamas, aí vem coisa. E da grossa.

Despediu-se, desligou e disse - para ninguém, embora a empregada o tenha escutado:

- Esse Almir, coitado, é uma besta. Bom sujeito, mas não enxerga dois palmos na frente. Vem coisa aí, Seu Almir, acredite no Fernando velho de guerra.

Olhou finalmente para a empregada, que baixou os olhos, envergonhada:

- Aí vem coisa – ele disse a ela. E retirou-se para o quarto de dormir. Vestiu-se e saiu para a rua.

Um comentário:

Kely C. G. Starosky disse...

Olá Mário, lembra de mim? A Consultora de Joinville, da CC&G, dei uma passada na sua página, muito legal!
Parabéns!
Kely C.G. Starosky