26 - O DPF, DO LADO DE FORA E DE DENTRO
Fábio e seus cabelos pintados de amarelo se voltam lá debaixo para nós como se fôssemos de outra galáxia. De repente, a chuva. Nada melhor que uma chuvarada em Brasília, depois de tanta secura. Nada como um belo de um toró tropical para reanimar almas das mais variadas espécies. A água bate nos cabelos amarelos de Fábio com a mesma intensidade ruidosa com que se faz nos pára-brisas e latarias dos automóveis e nas nossas fachadas, calçadas e janelas. Fábio se faz passar debaixo da marquise do saguão da entrada sem ter mais como evitar que os cabelos tenham ficado desmilinguidos, e crispa nas mãos a angústia de que a tintura não resista e seu rosto fique amarelo e seus cabelos, brancos. Nada disso acontece - mas é inevitável, tanto quanto sua aflição, que largas avenidas calvas se mostrem, desguarnecidas dos chumaços cuidadosamente montados sobre elas, no tampo da sua cabeça de policial federal de Santa Catarina, em missão no DPF aqui em Brasília. Não fosse o engarrafamento no eixão, por conta de uma passeata de demitidos do Congresso, e sua conseqüente impaciência, largando o táxi e fazendo parte do trajeto até aqui a pé, e ele teria entrado com os cabelos secos e arrumados. Anuncia-se constrangido à recepcionista, dizendo ter hora marcada com Bernardo. Quando adentra nosso hall depois das catracas de segurança, dispara até o banheiro. Quase chora, rearranjando seus chumaços amarelos. Saca do bolso um pequeno vidro com gel fixador, que passa nervosamente nos cabelos, lava e enxuga o rosto, ajeita o desajeitado paletó, re-arruma o laço da gravata roxa e vai aos elevadores.
Quando chega ao andar de Bernardo vai ao banheiro outra vez. Dá de frente com Bernardo de cuecas e meias e sem sapatos, as calças nas mãos. Bernardo se dirige a ele:
- Tudo bom, Fábio? Vê que porcaria: estou usando estas calças pela segunda vez e já arrebentou a costura. Bastou eu me abaixar pra pegar minha caneta no chão e raaaaaaaaaap. Agora estou às voltas com linha e agulha emprestadas pela Dalva, nossa copeira, dando um jeito. Fez boa viagem?
- Fiz - Fábio responde, mais calmo, agora.
Depois – Bernardo, vestido, Fábio, aliviado, após demorado xixi - vão-se os dois à sala de Bernardo e trocam seus avanços na investigação que conduzem em conjunto e com o auxílio de Nildo, cedido pela Polícia Civil de SC para se dedicar integralmente ao caso do advogado, em situação inédita e irregular: Nildo está, neste momento, em Bagé, tomando e passando informações para os dois “federais”; Nildo, policial civil de Santa Catarina, agindo em sigilo no Rio Grande do Sul.
- O Nildo tem talento – Bernardo afirma e Fábio concorda.
Fábio conta que Nildo levou consigo montagens de computador de algumas das combinações possíveis de cabelos e nariz do assassino: os primeiros, longos, curtos e raspados; pretos, pintados de louro, tingidos de castanho; ondulados e alisados. O nariz, aquilino em umas; arrebitado nas demais. Lembra que Bagé surgiu como possível ponto da rota de fuga do criminoso porque o policial-pastor, que Nildo garante que é corrupto, descobriu, por meio de um sujeito em estado avançado de gangrena por conta de diabetes, que apareceu no necrotério levado em cadeira de rodas por um sobrinho para saber de um amigo seu que sumira de repente, que o velho encontrado morto com as calças arriadas era pai do desaparecido e que o velho era nascido nas redondezas de Bagé e que o filho lutava boxe e tinha tomado um soco no nariz e feito uma plástica, que deixara o nariz dele meio esquisito, apontando pra cima em vez de apontar pra baixo.
Dalva aparece com o carrinho de café e dispensa a Bernardo tratamento visivelmente diferenciado: café com leite e pão-canoa repleto de manteiga, copinho d’água bem gelada, tudo bisado, por conta do visitante de cabelos excêntricos. Bernardo agradece e devolve linha e agulha e comenta que a costura vai arrebentar de novo, terá que trocar de calça na hora do almoço, mas Dalva não se oferece para costurar outra vez as calças dele, não, como Fábio chegou a pensar que fosse acontecer.
Fábio, entre uma mordida e outra no pão quentinho, uma golada no café com leite e uma ajeitada no topete, desanda a falar da sobrinha da Doutora Telma, Sílvia, que está furibunda com o namorado fugido, Isso não é papel de homem, ela disse a ele, Fábio – que muda de assunto e diz que teve a oportunidade de conhecer uma outra moça, Flávia, por acaso, em uma livraria misturada com bares que abriram faz uns meses em Florianópolis, quando buscava encontrar um livro com expressões típicas dos gaúchos de Bagé, pensando com isso que iría ajudar Nildo em sua busca pelo assassino – ou suspeito -, embora Nildo tivesse debochado dele, Me desculpa, hein, ô Doutor Fábio, mas manezinho nenhum precisa de estudar sotaque nem palavreado de gaúcho, é o que mais aparece por aqui, né, querido. Bernardo nem precisaria ter sido avisado de que era de Flávia que Fábio falava, pela expressão de encantamento e quase espanto que ele faz quando fala sobre ela - que, segundo Fábio, acabou por convidá-lo a tomar um café em um dos bares do lugar, deixando Bernardo com indisfarçável ciúme. Flávia acabou por contar a Fábio uma história complicada, misturando uma irmã que mora no Rio de Janeiro, um casal de homossexuais que se conheceram em Salvador e um ex-namorado, viciado em heroína, que acabou se matando e que, por isso, ela procurou por uma cidade que não conhecesse e foi parar em Florianópolis e abriu com umas amigas aquela livraria imensa; nunca ninguém tinha visto nada parecido em Florianópolis, e o lugar vive cheio, segundo Fábio e sem a menor surpresa para Bernardo. É quando este tira da gaveta um gravador-cassete portátil, e põe para ouvirem uma gravação com uma voz de homem, fazendo pausas típicas de quem está ao telefone com alguém que, do outro lado da linha, prefere permanecer em silêncio:
“Olha, eu sou a favor de concessões público-privadas, todas as empresas estatais deveriam passar por concessões temporárias a empresas privadas, que seriam encarregadas da sua administração, seus custos, investimentos e lucros durante o período da concessão. Privatizações, sou contra. Mas não é mais possível deixar o Estado embarafustar-se nas próprias pernas, pernas que nada, verdadeiros tentáculos de polvo, isso sim, um polvo desajeitado e tosco, entravando o desenvolvimento, desviando recursos que poderiam ser aplicados na educação, na saúde, na segurança. Me chamam de neo-liberal por desconhecimento, ignorância, essas idéias são da social-democracia; no neo-liberalismo o mercado se auto-regula. Projeto parecido com este e que não foi adiante com o Fernando Henrique Cardoso, com suas agências reguladoras, era igualmente social-democrata; e o Governo Lula também, social-democracia, só que por outros vieses. Social-democracia sempre foi um arremedo de socialismo querendo ser capitalista, ora querendo aperfeiçoar o capitalismo, ora o comunismo ou o socialismo - coisa híbrida, difícil de entender e praticar e, aí, a tendência vai para um lado ou para o outro. Mas a verdade é que o poder é mais importante, os fins justificam os meios e os meios são imundos, principalmente no Brasil. Descarados, demagógicos, torpes em todas as suas vertentes. Verdade é que essa Direita é muito burra, passou anos governando arrogantemente, agora está colhendo o que plantou. Agora só dá Esquerda, e Esquerda arrogante, claro, ação e reação Newtonianas. Dia desses, eu almoçava em restaurante de cadeiras na calçada em cidade do interior e fui abordado por uma senhora, razoavelmente vestida, educada, a me pedir dinheiro para remédios. Ora, um Estado eficiente pouparia pedintes e suas vítimas do constrangimento mútuo; agentes das prefeituras estariam por toda parte, encaminhando essa gente para órgãos eficientes e dedicados à finalidade do re-enquadramento social. Voto distrital, polícia bem preparada, professores bem pagos e preparados, polícia e escola bem aparelhadas, funcionalismo público bem pago e treinado, empresas funcionando livremente mas fiscalizadas e regulamentadas por agências do Estado e não de governos. Sistema judiciário ágil, livre, firme, o fim da impunidade. Sobre a liberação da maconha - da qual não sou usuário, esclareça-se – concordo. Me é duro concordar, mas concordo - porque poderia servir como a parte pacífica da solução da chaga do tráfico, contra o qual seria declarada uma guerra investigativa, armada, severamente punitiva. Maconha, ao que me consta, não mata ninguém de overdose, o que a distingue das drogas pesadas; essa história de que uma droga sirva de trampolim para outras, ora, assim fosse, todo e qualquer tabagista seria alcoólatra e este, por sua vez, cocainômano, que por fim não abriria mão do vício da morfina, do êxtase, da heroína – e esse tipo de escalada só acontece com uma minoria, compulsiva e insaciável; mas minoria. Não sei se é verdade que a maconha causa depressão e reações violentas no intervalo do seu uso, a verdade é que esse assunto não é só policial tampouco exclusivamente social ou sociológico nem psicológico: é assunto de saúde pública. O Estado brasileiro e a sociedade como um todo são de uma hipocrisia sem fim, somos um bando de avestruzes, com nossas carnes gordas e caras emburradas enfiadas no chão.”.
Uma pausa maior e, depois, a continuação:
“Quanto a me juntar a essa organização para-governamental, este para-Estado que vocês estão montando, nunca! Essa subversãozinha de meia pataca de vocês acabará em breve, pelo amadorismo que a caracteriza, pelo mesmo amadorismo e a mesma arrogância travestida de romantismo de tantos outros movimentos da história.”.
Neste ponto a pausa é ainda maior, como se quem estivesse do outro lado da ligação – há ruídos característicos de uma ligação telefônica – tivesse feito algum comentário, inaudível na gravação. Ouve-se então novamente a mesma voz, agora com menos empolgação, sem o tom de discurso muitas vezes ouvido e repetido e complementado da primeira parte, agora demonstrando mais uma certa vaidade:
“Olha, é verdade: a advocacia já me rendeu dinheiro suficiente, não tenho a menor paciência para a política convencional, de tapas e facadas nas costas. Mas daí a me juntar a vocês...”.
E conclui-se assim:
“Adeusinho, hein? Boa sorte para vocês. Mas não tenho interesse não, viu? Até mais.”.