O DIÁRIO DE UM MARIO

10.30.2006

UMA ESTRANHA FREQÜÊNCIA

Silêncio. Parece que os automóveis perderam suas buzinas. A festa da democracia é um tanto barulhenta. A festa acabou e que alguém faça o favor de lembrar o poema do Drummond.

Silêncio. Possivelmente será feito silêncio das investigações em curso: já não interessam a mais ninguém.

Silêncio. Governo e Oposição começaram a tramar ruidosamente contra nós.

Silêncio. A bomba norte-coreana começou a explodir. Silenciosamente.

Silêncio. Do lado de cá do planeta, tão somente se contam as mortes e explosões que acontecem do outro lado; por aqui, são silenciosas.

Silêncio. No morro e no apartamento. Jamais a bala perdida foi tão silenciosa.

Silêncio. Muito silêncio, porque a briga da família vizinha é como punhais cortando a nossa carne e, nos nossos ouvidos, o som da nossa morte.

Silêncio. Faz-se necessário um minuto de silêncio para que você possa ouvir o zumbido insuportável que não lhe deixa os tímpanos – que, bom, Drummond, se o zumbido fosse a falsa vienense.

Silêncio. Uma rosa nasceu – faz tempo que ela nasceu num verso do Chico Buarque, mas rosas são como estrelas: somente percebemos seus sons e luzes quando já não mais existem.

O que ainda nos faz lembrar Cartola e Olavo Bilac.

Para quê tanta ciência?

Silêncio.

10.28.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

27 – TÚNEL DO TEMPO

Quem já matou alguém e viu o pai matar alguém e já se acostumou a mudar de um lugar para outro desde a infância está preparado para se mudar de novo e mudar de novo suas feições.

Logo depois da briga com Sílvia na praia, Antônio foi para casa, pegou o essencial, incluindo suas economias, em dinheiro vivo, sacado ao longo da semana anterior.

A morte do pai, da forma que acontecera, lhe traria problemas – essa impressão é que o fizera deixar tudo para trás. Pretendia despedir-se de Sílvia sem brigas, mas ela dificultara as coisas.

Quem já matou alguém e viu o pai matar alguém sabe muito bem fugir. Não iria novamente para o sul; nada de Bagé, Uruguai, Chile; nada de passado.

Passou aquela noite e a manhã e a tarde que lhe seguiram em um motel no continente. Quando eram quatro horas da tarde deixou o motel e, com parte do seu dinheiro, comprou à vista um carro de segunda mão em uma agência na Ilha. Assistiu a um filme com Bruce Willis no Shopping Beira Mar. Tomou um café e comeu um pão de queijo em um quiosque do shopping e partiu. Às nove da noite.

Veloz, passou ao largo de Curitiba, ignorou São Paulo e, às nove da manhã, dormiu em um hotel vagabundo na Baixada Fluminense. Uma hora da tarde, comeu um sanduíche de beira de estrada com a barba por fazer. Comprou, em Nova Iguaçu, roupas de estilo totalmente diferente das que costumava usar: roupas de verão – camisetas, calças largas e leves, bermudas, tênis. Dormiu em um segundo hotel até as nove da noite. Meia hora depois, já estava na estrada com seu carro. Assim foi sumindo, sua cara se modificando, a barba crescendo, o cabelo também. Tocou fogo no carro e nas roupas que usava no sul numa viela muito escura de Ilhéus - onde comprou outro, mais veloz que o primeiro. Ao todo, percorreu mais de 5.000 quilômetros, só viajando à noite, pouco pelo litoral, mais pelo interior, passando a maior parte dos dias dentro de quartos de hotel de péssima categoria. Em espeluncas de beira de estrada, chegou a passar até quatro dias enfurnado no quarto, lendo e, às vezes, atento a uma TV, para ver se seu rosto aparecia como o pertencente ao assassino do advogado catarinense. Quando isto aconteceu, já estava em São Luiz do Maranhão, cabelos e barba jovialmente aparados, mas grisalhos – cuidado que teve comprando uma tintura importada em Brasília e aplicando-a aqui e ali, nas têmporas, nas mechas sobre a testa, na barba. Os retratos exibidos na TV - com as combinações computadorizadas produzidas na Superintendência Regional de Santa Catarina do DPF - mostravam indivíduos nada parecidos com aquele sisudo professor de literatura (esta fora a profissão que preencheu como sendo a sua, na ficha de cadastro do hotel de luxo) - um professor gaúcho, educado, usando óculos de armação pesada e cinza.

Chegou de táxi; foi duro ter que se desfazer de um segundo automóvel e de mais roupas, tocando fogo em tudo, de madrugada, nas proximidades de Filadélfia, divisa entre Tocantins e Maranhão. As roupas, doravante, eram despojadas como as que usara a partir de Nova Iguaçu, no Rio – porém, de um estilo que copiou de uma personagem de uma telenovela da qual assistira um capítulo, totalmente por acaso: um professor grisalho, vestindo camisa pólo e calças caqui e calçando sapatos de couro em estilo tênis. Sobre o nariz, óculos de armação pesada e cinza – provavelmente sem grau, como os que Antônio comprara em Alexânia, Goiás.

Suas novas roupas, não: foram adquiridas no mesmo Brasília Shopping onde encontrara a tintura importada para tornar seus cabelos e barba grisalhos.

10.24.2006

PARA KARL VALENTIN - UMA SALA DE ESPERA

Era uma casa de consultórios de psicólogos. O sujeito apertou a campainha e apareceu uma moça bonita, do outro lado do portão, a quem ele anunciou: - Tenho hora marcada com a psicóloga Doutora Fulana de Tal. Aí a moça respondeu: - Ela está atendendo; o senhor prefere esperar aqui dentro?

Uma boa pergunta, aquela – assim pensou o paciente da psicóloga Doutora Fulana de Tal. Ele estava do lado de fora; um portão o separava da moça bonita que atendeu ao seu tocar da campainha. Ela – a moça bonita - estava “Aqui dentro” – dentro da casa, dentro da clínica; dentro. Ele, não: fora. E com a opção ao seu dispor. A pergunta era, de fato, a seguinte: - O senhor prefere ficar dentro? Ou fora?

“Aqui dentro” era uma sala de espera: uma sala feita para esperar. “Aqui dentro” foi projetado para que ele e qualquer outro paciente da psicóloga Doutora de Tal se pusesse a esperar por ela - e não só: “Aqui dentro” foi feito para que qualquer paciente pudesse esperar pelo doutor ou doutora do qual fosse cliente. Mais ainda: “Aqui dentro” fora feito até para que o padeiro e o contador esperassem para entregar seus pães e livro-caixa de cada dia a quem de direito – naturalmente, desde que não tivessem qualquer dúvida de quem fosse o seu quem de direito.

Não estava chovendo. Ele podia perfeitamente aguardar do lado de fora da casa. Aliás, ele podia esperar até na rua paralela. Ou na transversal. Podia mesmo chamar com um assobio o táxi que o deixara ali e avisar ao motorista: - Vou esperar aqui dentro – e “Aqui dentro”, agora, seria o interior do táxi, e ele poderia ficar sentado no banco da frente ou no de trás, bastando que pagasse pelo tempo em que o motorista ficasse com seu carro parado, à disposição do passageiro, que, por sua vez, estaria à espera da sua consulta com sua psicóloga.

Podia sair cantando o hino nacional pela rua e voltar alguns minutos depois e tocar novamente a campainha e perguntar à moça bonita: - Doutora Fulana de Tal já encerrou sua consulta com o outro ou a outra paciente? Chegou a minha vez? Posso passar para “Aqui dentro”? Ao que ela responderia: - O senhor podia ter feito esta opção desde a primeira vez. O senhor é que preferiu sair cantando e assobiando aí fora, ao invés de ficar “Aqui dentro”.

Desandou a pensar porque diabos a moça nem tão bonita assim oferecera a opção. Ora, ficar “Aqui dentro”, na sala de espera do consultório, era direito dele. Qual era o problema, afinal? Um encontro com outros pacientes da Doutora Fulana de Tal ou de seus colegas de clínica em condomínio? “Ô, você por aqui? Cliente de quem, hein?”. Ou, - Êpa! Esse aí tem cara de maluco, afinal, o que é que ele está fazendo em uma clínica de psicólogas e psicólogos?

Antes que conseguisse responder à moça, a Doutora Fulana de Tal apareceu e o convidou a entrar. E ele entrou. Passou batido pela sala de espera e foi direto para a da sua psicóloga. Mais tarde, assistiu ao debate dos candidatos à presidência da República.

10.21.2006

PAREDES QUE FALAM - CAPÍTULO 26

26 - O DPF, DO LADO DE FORA E DE DENTRO

Fábio e seus cabelos pintados de amarelo se voltam lá debaixo para nós como se fôssemos de outra galáxia. De repente, a chuva. Nada melhor que uma chuvarada em Brasília, depois de tanta secura. Nada como um belo de um toró tropical para reanimar almas das mais variadas espécies. A água bate nos cabelos amarelos de Fábio com a mesma intensidade ruidosa com que se faz nos pára-brisas e latarias dos automóveis e nas nossas fachadas, calçadas e janelas. Fábio se faz passar debaixo da marquise do saguão da entrada sem ter mais como evitar que os cabelos tenham ficado desmilinguidos, e crispa nas mãos a angústia de que a tintura não resista e seu rosto fique amarelo e seus cabelos, brancos. Nada disso acontece - mas é inevitável, tanto quanto sua aflição, que largas avenidas calvas se mostrem, desguarnecidas dos chumaços cuidadosamente montados sobre elas, no tampo da sua cabeça de policial federal de Santa Catarina, em missão no DPF aqui em Brasília. Não fosse o engarrafamento no eixão, por conta de uma passeata de demitidos do Congresso, e sua conseqüente impaciência, largando o táxi e fazendo parte do trajeto até aqui a pé, e ele teria entrado com os cabelos secos e arrumados. Anuncia-se constrangido à recepcionista, dizendo ter hora marcada com Bernardo. Quando adentra nosso hall depois das catracas de segurança, dispara até o banheiro. Quase chora, rearranjando seus chumaços amarelos. Saca do bolso um pequeno vidro com gel fixador, que passa nervosamente nos cabelos, lava e enxuga o rosto, ajeita o desajeitado paletó, re-arruma o laço da gravata roxa e vai aos elevadores.

Quando chega ao andar de Bernardo vai ao banheiro outra vez. Dá de frente com Bernardo de cuecas e meias e sem sapatos, as calças nas mãos. Bernardo se dirige a ele:

- Tudo bom, Fábio? Vê que porcaria: estou usando estas calças pela segunda vez e já arrebentou a costura. Bastou eu me abaixar pra pegar minha caneta no chão e raaaaaaaaaap. Agora estou às voltas com linha e agulha emprestadas pela Dalva, nossa copeira, dando um jeito. Fez boa viagem?

- Fiz - Fábio responde, mais calmo, agora.

Depois – Bernardo, vestido, Fábio, aliviado, após demorado xixi - vão-se os dois à sala de Bernardo e trocam seus avanços na investigação que conduzem em conjunto e com o auxílio de Nildo, cedido pela Polícia Civil de SC para se dedicar integralmente ao caso do advogado, em situação inédita e irregular: Nildo está, neste momento, em Bagé, tomando e passando informações para os dois “federais”; Nildo, policial civil de Santa Catarina, agindo em sigilo no Rio Grande do Sul.

- O Nildo tem talento – Bernardo afirma e Fábio concorda.

Fábio conta que Nildo levou consigo montagens de computador de algumas das combinações possíveis de cabelos e nariz do assassino: os primeiros, longos, curtos e raspados; pretos, pintados de louro, tingidos de castanho; ondulados e alisados. O nariz, aquilino em umas; arrebitado nas demais. Lembra que Bagé surgiu como possível ponto da rota de fuga do criminoso porque o policial-pastor, que Nildo garante que é corrupto, descobriu, por meio de um sujeito em estado avançado de gangrena por conta de diabetes, que apareceu no necrotério levado em cadeira de rodas por um sobrinho para saber de um amigo seu que sumira de repente, que o velho encontrado morto com as calças arriadas era pai do desaparecido e que o velho era nascido nas redondezas de Bagé e que o filho lutava boxe e tinha tomado um soco no nariz e feito uma plástica, que deixara o nariz dele meio esquisito, apontando pra cima em vez de apontar pra baixo.

Dalva aparece com o carrinho de café e dispensa a Bernardo tratamento visivelmente diferenciado: café com leite e pão-canoa repleto de manteiga, copinho d’água bem gelada, tudo bisado, por conta do visitante de cabelos excêntricos. Bernardo agradece e devolve linha e agulha e comenta que a costura vai arrebentar de novo, terá que trocar de calça na hora do almoço, mas Dalva não se oferece para costurar outra vez as calças dele, não, como Fábio chegou a pensar que fosse acontecer.

Fábio, entre uma mordida e outra no pão quentinho, uma golada no café com leite e uma ajeitada no topete, desanda a falar da sobrinha da Doutora Telma, Sílvia, que está furibunda com o namorado fugido, Isso não é papel de homem, ela disse a ele, Fábio – que muda de assunto e diz que teve a oportunidade de conhecer uma outra moça, Flávia, por acaso, em uma livraria misturada com bares que abriram faz uns meses em Florianópolis, quando buscava encontrar um livro com expressões típicas dos gaúchos de Bagé, pensando com isso que iría ajudar Nildo em sua busca pelo assassino – ou suspeito -, embora Nildo tivesse debochado dele, Me desculpa, hein, ô Doutor Fábio, mas manezinho nenhum precisa de estudar sotaque nem palavreado de gaúcho, é o que mais aparece por aqui, né, querido. Bernardo nem precisaria ter sido avisado de que era de Flávia que Fábio falava, pela expressão de encantamento e quase espanto que ele faz quando fala sobre ela - que, segundo Fábio, acabou por convidá-lo a tomar um café em um dos bares do lugar, deixando Bernardo com indisfarçável ciúme. Flávia acabou por contar a Fábio uma história complicada, misturando uma irmã que mora no Rio de Janeiro, um casal de homossexuais que se conheceram em Salvador e um ex-namorado, viciado em heroína, que acabou se matando e que, por isso, ela procurou por uma cidade que não conhecesse e foi parar em Florianópolis e abriu com umas amigas aquela livraria imensa; nunca ninguém tinha visto nada parecido em Florianópolis, e o lugar vive cheio, segundo Fábio e sem a menor surpresa para Bernardo. É quando este tira da gaveta um gravador-cassete portátil, e põe para ouvirem uma gravação com uma voz de homem, fazendo pausas típicas de quem está ao telefone com alguém que, do outro lado da linha, prefere permanecer em silêncio:

“Olha, eu sou a favor de concessões público-privadas, todas as empresas estatais deveriam passar por concessões temporárias a empresas privadas, que seriam encarregadas da sua administração, seus custos, investimentos e lucros durante o período da concessão. Privatizações, sou contra. Mas não é mais possível deixar o Estado embarafustar-se nas próprias pernas, pernas que nada, verdadeiros tentáculos de polvo, isso sim, um polvo desajeitado e tosco, entravando o desenvolvimento, desviando recursos que poderiam ser aplicados na educação, na saúde, na segurança. Me chamam de neo-liberal por desconhecimento, ignorância, essas idéias são da social-democracia; no neo-liberalismo o mercado se auto-regula. Projeto parecido com este e que não foi adiante com o Fernando Henrique Cardoso, com suas agências reguladoras, era igualmente social-democrata; e o Governo Lula também, social-democracia, só que por outros vieses. Social-democracia sempre foi um arremedo de socialismo querendo ser capitalista, ora querendo aperfeiçoar o capitalismo, ora o comunismo ou o socialismo - coisa híbrida, difícil de entender e praticar e, aí, a tendência vai para um lado ou para o outro. Mas a verdade é que o poder é mais importante, os fins justificam os meios e os meios são imundos, principalmente no Brasil. Descarados, demagógicos, torpes em todas as suas vertentes. Verdade é que essa Direita é muito burra, passou anos governando arrogantemente, agora está colhendo o que plantou. Agora só dá Esquerda, e Esquerda arrogante, claro, ação e reação Newtonianas. Dia desses, eu almoçava em restaurante de cadeiras na calçada em cidade do interior e fui abordado por uma senhora, razoavelmente vestida, educada, a me pedir dinheiro para remédios. Ora, um Estado eficiente pouparia pedintes e suas vítimas do constrangimento mútuo; agentes das prefeituras estariam por toda parte, encaminhando essa gente para órgãos eficientes e dedicados à finalidade do re-enquadramento social. Voto distrital, polícia bem preparada, professores bem pagos e preparados, polícia e escola bem aparelhadas, funcionalismo público bem pago e treinado, empresas funcionando livremente mas fiscalizadas e regulamentadas por agências do Estado e não de governos. Sistema judiciário ágil, livre, firme, o fim da impunidade. Sobre a liberação da maconha - da qual não sou usuário, esclareça-se – concordo. Me é duro concordar, mas concordo - porque poderia servir como a parte pacífica da solução da chaga do tráfico, contra o qual seria declarada uma guerra investigativa, armada, severamente punitiva. Maconha, ao que me consta, não mata ninguém de overdose, o que a distingue das drogas pesadas; essa história de que uma droga sirva de trampolim para outras, ora, assim fosse, todo e qualquer tabagista seria alcoólatra e este, por sua vez, cocainômano, que por fim não abriria mão do vício da morfina, do êxtase, da heroína – e esse tipo de escalada só acontece com uma minoria, compulsiva e insaciável; mas minoria. Não sei se é verdade que a maconha causa depressão e reações violentas no intervalo do seu uso, a verdade é que esse assunto não é só policial tampouco exclusivamente social ou sociológico nem psicológico: é assunto de saúde pública. O Estado brasileiro e a sociedade como um todo são de uma hipocrisia sem fim, somos um bando de avestruzes, com nossas carnes gordas e caras emburradas enfiadas no chão.”.

Uma pausa maior e, depois, a continuação:

“Quanto a me juntar a essa organização para-governamental, este para-Estado que vocês estão montando, nunca! Essa subversãozinha de meia pataca de vocês acabará em breve, pelo amadorismo que a caracteriza, pelo mesmo amadorismo e a mesma arrogância travestida de romantismo de tantos outros movimentos da história.”.

Neste ponto a pausa é ainda maior, como se quem estivesse do outro lado da ligação – há ruídos característicos de uma ligação telefônica – tivesse feito algum comentário, inaudível na gravação. Ouve-se então novamente a mesma voz, agora com menos empolgação, sem o tom de discurso muitas vezes ouvido e repetido e complementado da primeira parte, agora demonstrando mais uma certa vaidade:

“Olha, é verdade: a advocacia já me rendeu dinheiro suficiente, não tenho a menor paciência para a política convencional, de tapas e facadas nas costas. Mas daí a me juntar a vocês...”.

E conclui-se assim:

“Adeusinho, hein? Boa sorte para vocês. Mas não tenho interesse não, viu? Até mais.”.

10.16.2006

MARGINAIS

Poeta e poesia
São marginais sempre
Ainda que raramente cometam crimes
E quando os cometem
Geralmente é contra a língua
E dificilmente contra o beijo.
Gente de teatro quando mata
No mais das vezes é de rir.
Médicos, generais e engenheiros
- uns quando erram, outros quando acertam –
Podem matar de verdade.
Já entre poeta e poesia
Quem morre é sempre o poeta
E nem sempre no final:
Há poetas apressados
Que apressam seu final.
Tudo assim impreciso
Porque poeta e poesia não combinam muito
Com precisão
A não ser de dinheiro.
Se poesia é palavra gasta
Rima fácil de samba-enredo
Poeta é pejorativo.
Pois mesmo sendo assim
E quase sempre sendo poesia verso
Todo poeta vira prosa
Quando revela sua condição marginal:
- Prazer. Poeta.

10.13.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

25 – MERCADO MODELO E BECO DA SARDINHA

Euclides gosta de vir aqui olhar os barcos desta distância, bebendo cerveja. Os turistas infestam o salão de baixo e os comerciantes jogam os preços nas nuvens. Previsíveis negociações, os preços descem até esta varanda, onde Euclides bebe cerveja olhando os barcos e o lusco-fusco do entardecer, tendo à sua volta vários turistas fazendo o mesmo que ele, como vários outros nativos ou não e que trabalham à nossa volta, como ele. Afrouxa a gravata, passa a mão na face, a queria mais lisa. Acabou de se aborrecer com Maura, uma das garçonetes. Não admite nada que não seja cortesia, quando bebe sua cerveja de final de expediente. Ocorre que Maura nunca foi educada, muito menos cortês, e hoje foi um dia que já começou atravessado pra ela. Vá Euclides saber disso. Euclides acha que será bom negócio ser substituído por um caixa eletrônico, um terminal de saques, extratos, a bosta que for e que ele faz por obrigação, pouquíssimo prazer no que faz pelo seu sustento. Euclides pede uma pinga, outra cerveja, uma lambreta, e pensa em freqüentar os AA.

Nivaldo mastiga a sardinha frita na farinha, “à milanesa”. Bebe uma golada generosa do chope, passa a mão no beiço, prazerosamente. Jorgete, com o vestido acima do meio das coxas, um rabo de cavalo oleoso como a pele depois de um dia inteiro com o ar condicionado enguiçado, é sua amiga e companheira de chopinho e sardinha frita toda sexta-feira. Hoje à tarde, na papelaria da Marechal Floriano, o português deu de novo em cima dela, Gostosinha de uma figa, ainda te como, safadinha. Nivaldo quis dar na cara dele, mas se perder o emprego de caixa na papelaria, que tem a Light como cliente preferencial, vai viver do quê? Vai ter que procurar outro emprego, mais um que permita alguns chopes de fim de sexta-feira, um concerto na Sala Cecília Meireles, uma ópera no Teatro Municipal de vez em quando. Quando o camarada que está querendo chamar atenção se exibindo pros amigos idiotas como ele diz que vai se dar bem com a gostosinha de rabo de cavalo, ora, sua amiga Jorgete, Olha que gostosa, o camarada diz pros idiotas que estão com ele, Nivaldo põe o dedo na cara da amiga Jorgete e ameaça, Reza pra esse merda calar a boca, vou meter a porrada na cara dele. A gargalhada do interessado em Jorgete lhe dá a impressão de deboche; Nivaldo não sabe se fica ou se vai ou se procura um grupo de ajuda mútua, psicoterapia de grupo, qualquer coisa assim, grupal, a sensação de poder ocupar o palco por instantes, dividi-lo com outras pessoas, uma relação mais democrática, detesta a relação patronal, odeia o patrão português. Jorgete adora o amigo Nivaldo, queria inclusive dar pra ele, mas ele nunca se insinua, não dá oportunidade para o oferecimento erótico e generoso. Tem um sonho, fácil de realizar, que propõe ao amigo e colega de papelaria:

- Vamos pra Salvador nas férias?

Euclides aparece mais cedo, hoje. Aparenta já ter tomado algumas. O céu está nublado, parece que são seis da tarde, mas são duas da tarde, a temperatura não deixa a menor dúvida disso. Os barcos permanecem lá, como se nunca saíssem do cais. Euclides pergunta, Quede Maura?, e Lorena responde, Depois da tua alteração, da tua queixa, o patrão e a patroa despediram ela. Euclides tem um remorso visível, pede pinga, cerveja, nada quer comer, e confessa, Acabo de ser demitido e por justa causa. Lorena pergunta, Tu roubou, foi? Que nada, Euclides explica, Dei foi uma porrada numa cliente, num sabe?, deu até delegacia, começou às dez, acabou agorinha, deu “BO” e tudo, num sabe? Tou na rua, filha, que nem Maurinha. E Euclides dá de chorar de fazer dó pra quem vê.

Aparece um casal de turistas. Ela, morena de rosto marcado de cicatrizes de acne, despachada, corpo bem feito, belas coxas; ele, jeito de gente polida, só que vestido de vitrine de liquidação. Querem chope, Chope tem não, tem é cerveja, Lorena esclarece. Nivaldo se emociona com a tristeza de Euclides e diz pra Lorena, Convida aquele moço pra sentar aqui com a gente. Euclides aceita e se junta a eles.

10.09.2006

TÁXI

Poderíamos falar de...
Política?
Melhor não.
Futebol, então...
Nem pensar.
Melhor não falar do tempo
Que é sobre ele que todo mundo fala
É banal.
Um samba,
Minha vida por um samba,
Um reggae,
Uma opereta
Mas nada disso toca em rádio de táxi.
O motorista cheira mal
E o carro cheira ao motorista.
O cinto de segurança do banco traseiro
Se achado foi roubado.
Se você tivesse um carro, hein?
Mas você não viria com seu carro a Amsterdã
Você mora longe
Você fica lá do outro lado
Só que veio parar aqui.
Parar, nada: andar de táxi
Neste lugar
Que nada tem de Amsterdã.
Ela bem que podia facilitar as coisas
Puxar assunto
Mas parece que a ponta do cabelo dela
Tem muito mais assunto que você.
O motorista não fala nem ouve
Fede.
A palavra já é horrível
E não traduz exatamente o cheiro
De quem dorme e acorda e se droga dentro desse carro
Ele mora no carro,
Percebeu?
Tudo parado e é noite
Atenção todos os carros
Fiquem parados –
A ordem veio de Marte.
Um disco voador! –
Você quis e não viu
E não disse.
Você está prestes a explodir de tristeza
Tem um sonho acordado
Está numa tribo pelado
Dança com eles
Você que detesta índio
Transporta-se
Respira fundo
(O carro todo cheira ao motorista que não dorme)
Vira-se pra ela
Consegue que ela deixe a ponta do cabelo
Por um instante infinito
Solto e sem a mão dela.
Você toma dessa mão
Que é da freira
Da sua mãe
Da sua irmã
Da sua moribunda avó
Quem sabe da sua mulher
Da sua tia de Guaratinguetá
Sua namorada
Sua empregada
A namorada do melhor amigo
A mulher grávida do motorista
Você é o motorista.
Quem é ela?
Sua catinga.

10.07.2006

24 – CAVERN CLUB

“RITMOS DE BOATE” e “CAVERN CLUB” foram dois programas de rádio no Rio de Janeiro, com o “DJ” Big Boy, nos anos setenta do século passado – conta Maria Eduarda à irmã caçula, por telefone. “Big Boy rides again” – era assim que ele abria seus programas. Flávia está aflita: ninguém gosta do nome “Lennon e Vinicius” nem aceita que exista uma canção do brasileiro cuja letra se assemelhe em utopia a “Imagine” – sendo que seria de todo absurda qualquer hipótese de um ter influenciado o outro, fosse na ordem que fosse, tal a distância de ritmos, trajetória e linguagem dos dois, ainda que tenham sido contemporâneos e que coincidências, determinações divinas ou sincronismos lhes tenham tirado as vidas no mesmo ano: 1980. Maria Eduarda sugere à irmã que Vinicius se junte a Louis Armstrong e Pixinguinha no atual Satchmo e Pixinguinha e que o “Lennon e Vinicius” passe a se chamar “Cavern Club”, nome do lugar onde os Beatles se apresentavam na sua distante Liverpool em seu início de carreira e que batizou um dos programas do “DJ”, um dia encontrado morto em um quarto de hotel no Rio.

- Isso dará identidade ao bar que está fracassando e um “gancho” para um relançamento do complexo como um todo – é o que opina Maria Eduarda, e Flávia admite que a irmã mais velha teve uma boa idéia.

- Qual passará a ser o nome do “Satchmo e Pixinguinha”? – querem saber as sócias de Flávia: Rita, Renata e Cláudia. Flávia, que viveu alguns namoros, tendo sido um deles desses que deixam marcas de difícil cicatrização; Rita, que foi estuprada e quem morreu foi o estuprador – de parada cardíaca; e ninguém apareceu para reclamar o sumiço dele, como contou a Renata o policial que investiga a morte do velho cujo cadáver foi encontrado de calças arriadas, perto de uma etiqueta deste complexo onde estamos inseridos, NOITE E DIA, LIVRO E FANTASIA; Renata, que, como Flávia, conhece características físicas do assassino do advogado, crime que vem sendo há alguns meses investigado pela Polícia Federal e também pela Civil (Renata chegou a conhecer-lhe a voz e a proximidade); e Cláudia, que tem ciúmes permanentes do marido Angus, indivíduo de características físicas nada ou pouco atraentes para a maioria das mulheres e que foi capaz de atrair – momentaneamente – a amiga e sócia Rita - sem que Cláudia e o escocês descendente de celtas sequer tenham desconfiado disso.

(Como de todo e presumivelmente, nenhum celta deve ter desconfiado – a não ser que um de seus druidas seja capaz de não só desconfiar como tramar e provocar esse tipo de situação.)

Flávia pensa em criar mais um bar, dividindo o “Satchmo e Pixinguinha” em dois; Renata e Rita são contra - este vem fazendo sucesso e se mantendo cheio com o tamanho que tem – e propõem que o “Lennon e Vinicius” é que seja dividido em dois; Cláudia reage, De jeito nenhum, a ilha é um santuário de “covers” dos Beatles, vai encher sempre e exatamente no seu atual tamanho, especialmente com a nova personalidade - ela argumenta, enfaticamente.

Depois de fumaçadas do cigarro de Cláudia e correspondentes abanares das demais, as quatro decidem que o “Satchmo e Pixinguinha” vai continuar se chamando assim; e que aqui, doravante, vamos nos chamar “Cavern Club”. Agora é reformar e divulgar e assunto encerrado – Cláudia diz e se levanta, esmagando o que sobrou de um cigarro no cinzeiro.

É quando Flávia mergulha em profundos pensamentos e sai daqui sem mesmo se despedir das amigas, como se estivesse em uma espécie de transe, triste da saudade e dos traumas do amor fracassado, confusa com o rumo da sua vida, que vem sendo rondada de perto por duas mortes, uma presenciada por ela, a outra, vivenciada por Rita.

10.02.2006

REFLEXOS

O mar hoje reflete um céu cinzento.
Pensando bem
O céu nem tem tanta culpa assim
Nem o mar é tão reflexivo assim
Tanto que o céu está se azulando
E o mar vai se acinzentando por conta própria.

Não me resta saída
Senão associar idéias
Evidentemente estapafúrdias:

Serão os votos reflexo do país
Ou terão os votos vida própria?