O DIÁRIO DE UM MARIO

6.27.2006

INDECISÕES

Sejamos francos: quando era para se aproximar, você se afastou; quando você me pediu socorro, eu não vi. Tive que sair correndo para desfazer a encrenca que acabei criando, por causa da indecisão.

Na hora de resolver e agir, não resolvemos e não agimos – ao contrário, reagimos - e tudo foi mais difícil.

Repare que conversamos a respeito antes, combinamos tudo direitinho, mas, pra valer, não nos entendemos. E olha que nos gostamos e nos respeitamos e somos gostados e respeitados, hein?

A indecisão é que atrapalha. Parece que vai, mas demora a ir. Fica a impressão de que foi bom, pra você e pra mim, inclusive, mas poderia ter sido melhor – aliás, a impressão que fica é que poderia ter sido pior - e que poderá, mesmo, ser pior.

É perigoso. Ninguém gosta de não saber o que fazer no momento da tomada de decisão - e sair fazendo de qualquer jeito é correr um risco muito alto.

O que era para ser prazer vira dor, ou, no mínimo, aborrecimento. Quando acaba, é mais alívio que alegria. Mas pode até dar certo, não é? Vamos continuar tentando. Despediram-se assim, para começar mais um destreino, antes de um novo desjogo, a dizerem, Assim é que o Parreira quer, a nos contar na véspera o que foi que indecidiu.

6.24.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

9 – DUAS CIDADES ÀS VEZES SE FALAM

I – O VELHO SOBRADO

Esse tal de Deus é danado de inteligente. O cabra fica aflito pra fazer xixi, chega a doer, depois se alivia – e diz, Obrigado, Deus, ai, coisa boa da peste essa mijada. Deus dá a dor pra gente ter alívio e gostar dele, esse Deus é danado de inteligente. Assim conjectura, neste instante, Deposinho, no banheiro deste lugar, que já foi moradia de gente trabalhadora, bar de nome, casa de má fama, cassino clandestino e hoje se encontra sem dono e sem função e por isso é ocupado todas as noites por Punzinho, Deposinho e seus amigos, após um dia inteiro e um começo de noite na labuta da esmolação. Nosso endereço fica próximo à Sala Cecília Meireles, na Lapa, Rio de Janeiro, o que desperta em Deposinho o seguinte comentário, ao retornar à sala, onde se encontram dois colchões juntos um do lado do outro, dois colchonetes, um cobertor surrado, uma cama de papelão, um sofá velho, garrafas de cachaça e, com Deposinho, mais sete pessoas e uma TV com antena de bombril:

- Hoje tem um dueto de violoncelo e violão de sete cordas.

Afora seu par, Punzinho, a frase não faz qualquer sentido para nenhum dos presentes. A resposta vem mesmo é de seu par:

- Tu tá a fim de tentar entrar?

- Sei não, tô com preguiça.

- Sai da frente aí, ô bichona – grita, embriagada, Maria Nêga, para Deposinho, que está de pé, bem na frente da mini-série das dez e meia.

- Bichona é tua mãe; eu sou é homossexual.

Só Maria Nêga ri com escárnio; os outros – os mulatos Valdir e Zé Barbeiro, a loura Mariposa, o negro Tonho e também Punzinho – dão uma risada de bom humor. Tonho e Mariposa estão de caso; Maria Nêga faz um muxoxo, bebe da garrafa, se concentra na mini-série e se morre de ciúme.

Mariposa tira a roupagem que lhe veste o corpo e se deita e se oferece para Tonho, loura, nua, suja e sensual. Tonho não perde tempo para ficar igualmente sem roupa, a não ser para uma golada rápida de uma outra garrafa de branquinha. Valdir acende uma guimba de baseado e a passa para Zé Barbeiro. Como diria Fellini, E la nave va.

II – A LIVRARIA

Antônio folheia um verdadeiro achado por aquelas bandas: Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo. Passa o dedo levemente pela cicatriz, enquanto é observado por Renata.

- Queres alguma ajuda? – ela, depois de se aproximar, pergunta a ele.

- Quanto custa este Pedro Páramo em Espanhol?

Renata sorri simpática e explica, confessando pequena irregularidade fiscal, antes de dizer o preço:

- Temos somente três exemplares e todos sem tradução, eu trouxe do México, pra ver se teria boa aceitação.

- Quanto custa? – Antônio insiste, o sotaque adquirido em Bagé escondendo sua origem manezinha como a dela. Ela diz o preço, ele deixa o livro na prateleira, abre a carteira, conta as notas e as entrega a Renata. Ela registra a compra, dá o troco a ele.

- Obrigado – ele diz, já com o livro na mão, ignorando o oferecimento da pequena sacola plástica para embalar seu Juan Rulfo, e vai embora. Renata fica pensando, Ele não pode ser um assassino, deve ser coincidência, vai ver que o assassino que Flávia viu assuou mesmo o nariz, não era esse da cicatriz, esse... Ai, meu Deus, que alívio bom, ainda bem que ele foi embora. Tu estavas com medo, percebes, Renata?, medo. Me-do. Mas eu queira tanto que ele voltasse, que ele fosse mais... simpático. Eu ainda... Hum. Me aguarda, Gaúcho-cicatriz, me aguarda, que Renatinha Vasconcelos ainda te pega na curva. E de jeito.

6.20.2006

A GRAVATA E SEUS ACESSÓRIOS

No princípio era a gravata.

Ginástica & Fisioterapia
Andar depressa depressa depressa
E de-va-gar.

Caixão de defunto.

Tempo para viajar
Tempo
Como se sabe
É dinheiro.

Dois litros de uisque
Um enfarte
Um transplante
Uma dieta
Um spa.

Vinhos.

Livros dos super
Dos que superaram
Dos que saíram vivos sorridentes
Da vida estratégica competitiva
Ricos vencedores
Segundo eles
É preciso comprá-los
Lê-los.

Jesus Cristo era Deus
Agora é psicólogo.

Um charuto
Uma vodka
Uma cerveja
Pelo amor de Deus
Sem mencionar o colarinho.

Buda
Agora executivo
Era Buda.

Um psiquiatra.
(No princípio era a psicoterapeuta.)

O proibido
Para quem o tem como permitido.

O adeus à barriga
Ela volta
Estufada e depressiva
Como é que pode?

Imediatamente faça amor
Diga alguma coisa inteligente
DesconTraia
Se.

HomeoApatia.
FAlopatia.

O psicopata é o piloto que vence
Passando por cima de todo mundo
Palmas para ele
Sorrindo
Aperte o nó
Dentro de você.

E pensar
No princípio
Era só afrouxar o nó.

6.17.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

8 - ALGUNS LUGARES DISTANTES E DO PASSADO

(i) La Hacienda de Don Gaspar

Sentado no banco rústico, o menino adolescente olha o touro cobrindo a vaca e reproduz a situação com seu canivete em uma tora de madeira sobre as pernas. Gosta – goza - da idéia de fazer um touro montando uma vaca e assim os deixar a ambos, a vaca e o touro, mugindo e gozando eternamente.

Há um vento frio que balança e deixa finos seus cabelos cacheados.

Há um prazer em seu rosto, mistura de paz e vingança (o canivete e sua obra): o velho não está por perto e nem estará tão cedo, foi à cidade, ele está só, sem ter que aturar os grunhidos do velho, perguntando - para não ter resposta alguma - porque não tem mãe, como foi que ela morreu. Se é que ela morreu, ele não se lembra, o velho não responde. Há uma vaga sensação de conforto, de peitos grandes, macios e firmes, arfando e fazendo ir e vir seu corpo de criança, conforto quente e ao mesmo tempo um conflito no ar, sua mãe – era ela, aquela mulher com ele no colo, era ela a sua mãe, a minha mãe, não era? -, aflita.

Don Gaspar também não está, deve ter ido com o velho; ele não quer nem saber.

Erythrina falcata. Quando cresce só, cresce pouco; se no meio de outras árvores, vai se esgueirar entre elas, se espichar, ficar imensa, mais alta que todas, apenas para ver o sol. Cresce porque precisa da luz; se a tem com facilidade, sua altura é modesta, não mais que suficiente; se a fazem difícil, ela abre espaço - e cresce o necessário. Ele saberá mais tarde que, no sul do Brasil, seu nome é Corticeira da Serra. Por enquanto, a conhece e a tem como íntima pelo seu nome universal, ensinado pelo dono da hacienda, Dom Gaspar: Erythrina falcata.

Outra história é a poncã. Diferentemente dele num futuro próximo, quem desconhece certas sutilezas pensa que poncã, vergamota, mimosa, mexerica e tangerina são a mesma fruta, com diferentes nomes a depender do país e da região do país, da casca que se tira com os dedos, de gomos doce-azedos, caroços cuspidos no chão verde. No tapete verde - que percebe quando está só, sem o velho, que provavelmente nasceu velho, não com a sabedoria da velhice, mas com a ranzinzinice típica de quem chegou à velhice sem ter vivido, somente ruminando amargura.

Ainda não tem nenhum corte, nenhuma cicatriz; não viu a morte de outro de perto e com o pé fincado no meio das pernas do morto.

Ainda não foi ele mesmo a própria morte de um outro.

E ama desde sempre as palavras.

(ii) A casa no alto Leblon

- Seu pai é um estóico.

Estóico? Será essa palavra o mesmo que longe? Meu pai é longe, está sempre longe, ou viajando ou mesmo em casa, lá em cima, no quarto dele, parece que lendo um livro ou trabalhando, não sei, ninguém me diz. Minha mãe diz que ele é estóico; e daí? O que é ser estóico? Chato? E minha mãe é o quê?

- Artista – a mãe responde.

(iii) O apartamento que um dia foi a casa

- Menina, larga esse pincel, eu preciso dele, faço minhas pinturas com ele, não é brinquedo seu.

A menina larga o pincel e vai até um lugar onde há uma coisa que toca música e que sua mãe chama de vitrola. Sua mãe tem cabelos brancos, não gosta de pintá-los, embora pinte rostos de outras pessoas, algumas inclusive de cabelo pintado. (Tem uma amiga da mãe que o cabelo é azul.) Sua mãe também pinta paisagens, praias e montanhas, e pinta umas frutas sobre uma mesa escura e pinta umas coisas que ela não entende de jeito nenhum. Só não pinta os cabelos dela. (Tem um homem na parede que parece que passou graxa de sapato no cabelo dele.) E nem penteia eles, só quando chega visita ou então aluna de pintura ou então alguém pra ser pintado por ela. O resto do tempo é aquele cabelo todo despenteado e branco, caindo no rosto dela e ela soprando o cabelo, fu... fu.... fu...

Vê um álbum grande com um rosto de mulher nele, o rosto mais escuro que o seu e o da mãe, um rosto que lhe dá a sensação de antigo, a boca, pintada de vermelho e aberta, os dentes brancos, lábios grossos, cabelos negros; serão pintados?

- Quem é essa?

A mãe responde sorrindo:

- Uma cantora. Billie Holiday.

(iii) A casa do velho, sua infância

- Cala a boca, imbecil. Arreia as calças!

6.13.2006

EU USO ÓCULOS

Eu uso óculos – já diziam os Paralamas do Sucesso.

Duvido que alguém o diga com orgulho – ou mesmo prazer.

Há quem chame o par de lentes apoiado no nariz de prótese; e não está errado, não.

Óculos pesam. O nariz de quem os usa fica marcado pelas borboletas que servem de contato entre o nariz e eles – os óculos. E se sua namorada usa lentes de contato, termine o namoro - ou nunca vá à piscina, praia nem cinema com ela. Namorar no carro, nem pensar.

Tenha sempre uma pia por perto. Óculos sujam. Flanelinhas só arranham os óculos – e não me refiro aos malas ou pobres diabos ou diabos mesmo que ficam passando pano sujo no carro da gente e a gente ainda paga por isso. Pronto: os desafetos Paralamas e Lobão já podem me processar, por tê-los deixado distantes entre si não mais que uns poucos parágrafos.

Óculos ficam tortos, arranham, empenam. Quebram - quando caem no chão e são pisados por quem os usa e abruptamente acorda depois de dormir assistindo a um chato - de óculos - na TV.

Ninguém fica mais intelectual por causa deles. Fica mais burro, porque, de tempos em tempos, briga com o grau das lentes – e sempre perde, ganhando mais graus.

Óculos sempre deixam quem os usa embaraçado, porque nunca sabe se deve perguntar cadê o MEU ou cadê os MEUS óculos. Esteja certo de duas coisas: eles cismam de desaparecer sempre que você os põe por instantes sobre qualquer prateleira, mesa, pia de banheiro público ou balcão de oficina mecânica; e são dois – no mínimo. São sempre plurais. Mais: eles são muitos e SABEM voar. Pronto: entre os já citados roqueiros, o cearense Ednardo há de apartá-los, me livrando de um processo criminal por abuso de aproximação.

Óculos: ame-os e não os deixe - a não ser que você goste da idéia de entregar seus olhos nas mãos de um sujeito que a vida inteira receitou óculos pra você.

Eu uso óculos. Apenas sem o orgulho característico de quem diz “Sou tijucano, com muito orgulho”.

Aí também seria demais.

6.10.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

7 – A CASA DE MARIA EDUARDA

Em cima daquele morro, passa boi, passa boiada. Tremenda de uma mentira; o morro é o Dois Irmãos, dentro do qual passa um túnel escuro, muito escuro, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo. Do outro lado, a Rocinha.

Maria Eduarda só consegue dormir, até hoje, ninando a si mesma com canções que ouvia na infância, cantadas pela mãe. Do pai tinha um pouco de medo, um general estóico, em um tempo em que ela não sabia o que queria dizer aquilo, estóico, devia ser algo muito mau, era o que ela achava. Quando era criança, aqui era uma casa, e continua sendo, mas só na lembrança dela; agora é edifício e esta cobertura é a casa de Maria Eduarda.

De repente sente saudades de Rogério, seu namorado, o poeta em ocaso, Rogério Bravo. Olha o relógio, são duas da manhã. Teve insônia outra vez, não teve sucesso com o indutor de sono, melhor voltar para o ansiolítico. Está tarde para telefonar para Rogério, tem receio de tomar outro remédio. Boi, boi, boi... Boi da cara preta...

Pensa no filho, quando ele ainda era criança, e adormece. Sonha um sonho horrível: Marcos, seu único filho, está com seis anos (idade que tinha quando o pai dele e marido de Maria Eduarda, Maurício, faleceu) e, de repente, morre. Cai no chão, como quem perde os sentidos, ela o pega no colo, ele não acorda, nunca mais. Quem vem para lhe dar conforto é Maurício – mas não: Maurício está vestido como se vestia quando era vivo, só que o rosto é de Marcos, o mesmo rosto do menino morto em seu colo. Ela vê a si própria no sonho também com o rosto que tinha quando era menina, inclinado para a direita com o olhar de quem não entende o que vê, o mesmo que um dia viu nos olhos de Marcos quando ela e Maurício faziam sexo na manhã de um Sábado. O sonho acaba assim, ela e o filho meninos, em corpos e roupas de adultos, e ela passa a dormir de um sono profundo; só lembrará do sonho estranho, em que o filho morreu e o marido ressuscitou com o rosto do filho, lá pelo fim da tarde.

O interfone toca; são oito da manhã – e hoje é Sábado outra vez. Custa a tirar a cabeça de sobre o travesseiro, quando se lembra da insensatez da véspera: dera seu endereço a Punzinho e Deposinho, o casal gay de mendigos da Rua Almirante Barroso, onde fica o escritório dela, convidando-os para tomar café – isso depois de beber sozinha, no escritório, uma meia garrafa inteira de um Cabernet Sauvignon chileno de boa cepa, acompanhada de uns queijinhos (brigara com Rogério, agora ela lembra) -, não sem depois recomendar a eles, De banho tomado, hein?

Depois de atender o interfone e ir ao banheiro, vai até a porta, um roupão mal lhe escondendo o corpo de mulher nua e desejada por qualquer homem que esteja vivo e a conheça, - bem vivida, bem tratada e bem amada, salve, salve - e dá com os dois, não só de banho tomado, mas de barba feita e descentemente vestidos.

Ainda se sente uma louca e irresponsável, convidando mendigos a tomar café com ela e dentro de casa, mas percebe que sua íntima intenção de ter uma prova de que aqueles dois eram bons, pessoas comuns que um infortúnio qualquer – que queria descobrir qual fora – atirara na rua.

- Entrem, vamos – e eles entram.
- Puxa, que casa bonita, Dona Eduarda – é Punzinho quem diz.
- Bonita é pouco, é linda, isso sim – corrige Deposinho, com seu sotaque baiano.

Maria Eduarda apanha a meia dúzia de rosas que os dois lhe trouxeram, deixa-os esperando alguns minutos na sala de jantar com um resto de torta de morango e vai tomar uma rápida chuveirada. Volta à sala, de banho tomado como eles e sem ter que fazer a barba, o que lhe provoca um sorriso de superioridade quando os reencontra, ainda no sofá atrás da mesa de tampo de mármore, da mãe dela, do tempo em que aqui ainda era casa e não apartamento, os dois olhando deslumbrados para tudo em volta, o teto, o candelabro, as paredes, os quadros, a mistura de clássico e moderno, a bonita vista para o mar do Leblon e do morro Dois Irmãos, a claridade tranqüila e boa que existe aqui dentro, deixando esquecer que lá fora anda um tanto complicada a vida. Do outro lado, a Rocinha.

Sobem à cobertura. Maria Eduarda prepara tudo ajudada pelos dois, um café da manhã que mendigo nenhum tem a oportunidade de compartilhar, muito menos de ter só para si: cinco tipos de pães, sendo dois próprios para torrar, queijos Brie, Camembert e Minas, diferentes geléias, cream cheese, leite, café, chocolate, suco de uva, suco de laranja, mamão, melão com presunto, uma festança.

- Que vista, hein, Dona Eduarda?
- Hum, hum. Agora, me conta uma coisa: como foi que vocês foram morar na rua?
- Direta, hein, Dona Eduarda?
- Bota direta nisso...
- Me desculpem, mas eu vejo vocês dois todos os dias, todas as noites, e percebo que vocês são... Educados, falam direito, têm bons modos – bons DENTES -, vocês são tão diferentes dos outros mendigos, das mendigas, onde foi que vocês tomaram banho, hein?

Um certo e desagradável silêncio toma conta do encontro, embora o dia seja de sol, está lindo, lá fora, o céu, azul, azul.

- Gente, me perdoa a indiscrição, é que eu ADORO vocês, vocês são boa gente, me protegem, me dão conforto quando saio toda noite do escritório.
- A senhora sai muito tarde.
- Muito tarde.
- Pois é, eu quero fazer alguma coisa por vocês e minha curiosidade é de jornalista, ué.
- De jornalista, nada.
- De mulher. Com m maiúsculo.

Ela ri e se dá conta que a única coisa que parece diferençar os dois são seus sotaques, um carioca e o outro, baiano.

- Vocês não brigam, não?

6.06.2006

IDÉIAS, MELHOR NÃO TÊ-LAS?

O que não pode é a pessoa ter uma idéia e depois esquecê-la. Daquelas que não é a ficha que cai; quem cai é o próprio orelhão.

Andar com agenda de bolso pode ser uma boa idéia, desde que seja lembrado de que ela – a agenda - está no bolso.

No fim de semana, umas boas idéias passam pela cabeça da pessoa, mas dá uma certa preguiça, logo quando era possível até mesmo começar a por em pé o projeto que se desenhou mentalmente tão perfeito e bem acabado. Amanhã eu desenvolvo isso, tenho boa memória – o pensador de idéias pensa. E aí, quando chega a Segunda-feira, cadê a idéia?

Porque esse negócio de ficar ouvindo discurso cretino e imbecil, assistindo troca de insultos, chorando mais uma morte por tentativa de reação a tentativa de assalto ou de garoto vendendo ou comprando porcaria, entristece e embota o pensamento; é preciso ter idéias.

E namorar é preciso; viver não é preciso. Melhor fará quem tiver idéias no momento em que estiver namorando que instantaneamente as guarde em recanto cerebral reservado para boas e inoportunas idéias – pois não é recomendável pedir um instante, meu bem, vou anotar uma idéia e já volto.

Uma boa idéia pode, até, surgir durante uma boa conversa para, imediatamente, ser anotada na agenda de bolso. Pode-se inclusive ser generoso com o interlocutor e dizer que ele é que deu uma idéia tão boa que você resolveu anotá-la. Na verdade a idéia anotada será a sua, a que você teve, muito melhor que a dele, mas ele não precisa saber disso – a menos que quem esteja nessa conversa com você seja dado a cobrar direitos autorais por qualquer idéia que ele tenha, principalmente as ruins, más, péssimas idéias. Nesse caso, utilize-se do já citado RCRBII - Recanto Cerebral Reservado às Boas Idéias Inoportunas. E fique com a agenda coçando no seu bolso.

Mas, atenção: o RCRBII não abre nos fins de semana.

E que a idéia era boa, era.

6.03.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEV IDES

6 – A CASA NO SUL DA ILHA

Quando a faca lhe cortou o nariz, o reflexo da mão esquerda foi o de jogar para longe o sangue que lhe escorria, como se fosse possível, desse jeito, estancá-lo. Depois, com a direita, afastar o agressor com um jab e, de novo com a esquerda, disparar o direto no queixo do agressor, que foi com as costas ao chão de terra, estatelado, deixando cair a cabeça e os braços para trás, a faca, largada no chão, atrás dele. Como se sua perna fosse uma estaca e o homem caído no chão um vampiro, pisou-lhe entre as pernas e deixou ali cravado o salto da sua bota, enquanto seu inimigo urrava, pedindo ora socorro, ora perdão, desculpa, tá doendo muito, não me mata. Quem estava em volta e assistira à briga desde o começo não fez nenhuma questão de intervir. Até que um homem velho sacou do bolso interno do paletó surrado uma pistola; e meteu uma bala na testa do que já não tinha mais a faca, enquanto os outros afastaram-se depressa, nervosamente, e o homem do nariz cortado quase caiu para trás, de susto.

- Que foi isso, pai? Tu tá maluco? Não precisava matar.
- Teu nariz tá sangrando muito e os grito dele tava muito alto. Vambora, que eu te faço um curativo em casa.

O povo em volta se afastou, reverenciando o velho, Tá certo, Seu Raimundo, nóis some com ele, ninguém fica sabendo.

O sotaque do velho é típico daquela região de Bagé. Gente acostumada a mugido, temporal e estiagem. O do filho absorveu o sotaque de lá, misturando-o com espanhol, às vezes; no entanto, de nascença, é um manezinho, nascido na Ilha de Santa Catarina, mais especificamente no sul da ilha, cidade de Florianópolis. Levando-se em conta a rixa e o bairrismo dos nascidos em Florianópolis com os “invasores” gaúchos, ser chamado de gaúcho em sua terra natal o deixava, mais que confuso, quase que em crise de identidade. O tiro que disparou no peito do advogado há poucas madrugadas lembrou aquele outro, o do pai, na testa do homem já indefeso, que lhe arrancara sangue e pele da cara. Não foi um assoar de nariz o gesto que Flávia assistiu da sua janela; mas um atirar para longe um sangue há muito extinto.

O velho, agora, está apenas mais velho. Mas é como se sempre tivesse sido assim, velho, o velho Raimundo, que casou-se viúvo de um primeiro casamento aos quarenta e cinco anos com Dorinha, que tinha dezoito. Foi pai aos quarenta e seis; chifrado - expressão que ele mesmo sempre usou para o ocorrido - aos quarenta e nove. Dorinha apaixonou-se por João Bebé, pescador de braços fortes como os do velho, o mesmo vigor do velho, mas o velho era o velho; ele, João Bebé, era o moço do sorriso largo, envolvente, simpático. Seu Raimundo sempre foi sisudo demais, rígido demais - características que, a principio, transmitiam segurança a ela, órfã de pai e mãe desde menina, criada por uma tia -, mas depois enjoaram, perderam qualquer graça, que ela só reencontrou em João Bebé.

Seu Raimundo vingou-se vendendo tudo o que tinham em Florianópolis, deixando Dorinha para trás, sem nunca mais ver o filho. A última vez que o viu foi quando contou pro velho o que tinha acontecido, pedindo perdão, mas que era mais forte que ela o que estava sentindo, que não queria nada, que só queria era ir embora e de vez em quando ver o filho, cuidar do filho, só isso era o que Dorinha pedia. João Bebé foi junto, porque sabia da fama de violento do velho Raimundo, e foram os dois na hora que sabiam que ia ser difícil pra ele pegar a pistola, guardada na gaveta da mesa de cabeceira, no quarto no segundo andar da casa, e foram em companhia do Beto, amigo do João Bebé, com sua farda da Polícia Militar. Dorinha disse aquilo tudo e saiu, deixando o filho de três anos brincando no chão, depois de pegá-lo no colo e dar-lhe um beijo no rosto.

Se Raimundo não podia matar os dois, como era o que achava que deveria fazer, sua vingança seria esta: ir embora com o filho, desaparecer dali. Marcenaria, carpintaria e emprestar dinheiro a juros têm serventia em qualquer lugar; e dólar é dinheiro em qualquer lugar. Foi com o filho primeiro para o Uruguai, para bem longe da fronteira. Ficaram três anos por lá; depois, quatro no Chile, a convite de um fabricante de adegas artesanais, cujo artesão falecera – e Seu Raimundo mostrou-se exímio substituto; e muitos outros em Bagé, para matar saudades de Seu Raimundo da região onde nasceu.

Só voltaram para Florianópolis quando um outro velho – Cristóvão, amigo de Seu Raimundo desde que ele perdoou uma dívida quando soube que Cristóvão ia ter que amputar um pé por causa da diabetes, e por isso ficou de informante do que acontecia no sul da ilha e à volta de Dorinha – escreveu para Seu Raimundo, contando mais uma tragédia: numa tarde de Domingo, o mar virou de repente, Dorinha e João Bebé desapareceram para sempre dentro dele. Já fazia duas semanas e as buscas foram suspensas; não havia mais esperança de encontrá-los com vida, haviam se afastado demais da costa, o barco de João Bebé não era para tanto, muito menos com o mar virado, bravio, sôfrego, voraz.

Voltar para Florianópolis foi como um pedido de desculpas ao filho. Se o tirara de perto e para sempre da mãe, queria devolver a ele, pelo menos, seu lugar de nascimento.

Seu Raimundo está com setenta e seis anos. A marcenaria e a carpintaria o mantêm ainda forte; ainda lúcido; já não agiota mais.

Antônio, seu filho de nariz cortado, está com trinta. E nenhum casamento.