7 – A CASA DE MARIA EDUARDA
Em cima daquele morro, passa boi, passa boiada. Tremenda de uma mentira; o morro é o Dois Irmãos, dentro do qual passa um túnel escuro, muito escuro, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo. Do outro lado, a Rocinha.
Maria Eduarda só consegue dormir, até hoje, ninando a si mesma com canções que ouvia na infância, cantadas pela mãe. Do pai tinha um pouco de medo, um general estóico, em um tempo em que ela não sabia o que queria dizer aquilo, estóico, devia ser algo muito mau, era o que ela achava. Quando era criança, aqui era uma casa, e continua sendo, mas só na lembrança dela; agora é edifício e esta cobertura é a casa de Maria Eduarda.
De repente sente saudades de Rogério, seu namorado, o poeta em ocaso, Rogério Bravo. Olha o relógio, são duas da manhã. Teve insônia outra vez, não teve sucesso com o indutor de sono, melhor voltar para o ansiolítico. Está tarde para telefonar para Rogério, tem receio de tomar outro remédio. Boi, boi, boi... Boi da cara preta...
Pensa no filho, quando ele ainda era criança, e adormece. Sonha um sonho horrível: Marcos, seu único filho, está com seis anos (idade que tinha quando o pai dele e marido de Maria Eduarda, Maurício, faleceu) e, de repente, morre. Cai no chão, como quem perde os sentidos, ela o pega no colo, ele não acorda, nunca mais. Quem vem para lhe dar conforto é Maurício – mas não: Maurício está vestido como se vestia quando era vivo, só que o rosto é de Marcos, o mesmo rosto do menino morto em seu colo. Ela vê a si própria no sonho também com o rosto que tinha quando era menina, inclinado para a direita com o olhar de quem não entende o que vê, o mesmo que um dia viu nos olhos de Marcos quando ela e Maurício faziam sexo na manhã de um Sábado. O sonho acaba assim, ela e o filho meninos, em corpos e roupas de adultos, e ela passa a dormir de um sono profundo; só lembrará do sonho estranho, em que o filho morreu e o marido ressuscitou com o rosto do filho, lá pelo fim da tarde.
O interfone toca; são oito da manhã – e hoje é Sábado outra vez. Custa a tirar a cabeça de sobre o travesseiro, quando se lembra da insensatez da véspera: dera seu endereço a Punzinho e Deposinho, o casal gay de mendigos da Rua Almirante Barroso, onde fica o escritório dela, convidando-os para tomar café – isso depois de beber sozinha, no escritório, uma meia garrafa inteira de um Cabernet Sauvignon chileno de boa cepa, acompanhada de uns queijinhos (brigara com Rogério, agora ela lembra) -, não sem depois recomendar a eles, De banho tomado, hein?
Depois de atender o interfone e ir ao banheiro, vai até a porta, um roupão mal lhe escondendo o corpo de mulher nua e desejada por qualquer homem que esteja vivo e a conheça, - bem vivida, bem tratada e bem amada, salve, salve - e dá com os dois, não só de banho tomado, mas de barba feita e descentemente vestidos.
Ainda se sente uma louca e irresponsável, convidando mendigos a tomar café com ela e dentro de casa, mas percebe que sua íntima intenção de ter uma prova de que aqueles dois eram bons, pessoas comuns que um infortúnio qualquer – que queria descobrir qual fora – atirara na rua.
- Entrem, vamos – e eles entram.
- Puxa, que casa bonita, Dona Eduarda – é Punzinho quem diz.
- Bonita é pouco, é linda, isso sim – corrige Deposinho, com seu sotaque baiano.
Maria Eduarda apanha a meia dúzia de rosas que os dois lhe trouxeram, deixa-os esperando alguns minutos na sala de jantar com um resto de torta de morango e vai tomar uma rápida chuveirada. Volta à sala, de banho tomado como eles e sem ter que fazer a barba, o que lhe provoca um sorriso de superioridade quando os reencontra, ainda no sofá atrás da mesa de tampo de mármore, da mãe dela, do tempo em que aqui ainda era casa e não apartamento, os dois olhando deslumbrados para tudo em volta, o teto, o candelabro, as paredes, os quadros, a mistura de clássico e moderno, a bonita vista para o mar do Leblon e do morro Dois Irmãos, a claridade tranqüila e boa que existe aqui dentro, deixando esquecer que lá fora anda um tanto complicada a vida. Do outro lado, a Rocinha.
Sobem à cobertura. Maria Eduarda prepara tudo ajudada pelos dois, um café da manhã que mendigo nenhum tem a oportunidade de compartilhar, muito menos de ter só para si: cinco tipos de pães, sendo dois próprios para torrar, queijos Brie, Camembert e Minas, diferentes geléias, cream cheese, leite, café, chocolate, suco de uva, suco de laranja, mamão, melão com presunto, uma festança.
- Que vista, hein, Dona Eduarda?
- Hum, hum. Agora, me conta uma coisa: como foi que vocês foram morar na rua?
- Direta, hein, Dona Eduarda?
- Bota direta nisso...
- Me desculpem, mas eu vejo vocês dois todos os dias, todas as noites, e percebo que vocês são... Educados, falam direito, têm bons modos – bons DENTES -, vocês são tão diferentes dos outros mendigos, das mendigas, onde foi que vocês tomaram banho, hein?
Um certo e desagradável silêncio toma conta do encontro, embora o dia seja de sol, está lindo, lá fora, o céu, azul, azul.
- Gente, me perdoa a indiscrição, é que eu ADORO vocês, vocês são boa gente, me protegem, me dão conforto quando saio toda noite do escritório.
- A senhora sai muito tarde.
- Muito tarde.
- Pois é, eu quero fazer alguma coisa por vocês e minha curiosidade é de jornalista, ué.
- De jornalista, nada.
- De mulher. Com m maiúsculo.
Ela ri e se dá conta que a única coisa que parece diferençar os dois são seus sotaques, um carioca e o outro, baiano.
- Vocês não brigam, não?