5.15.2006

UM, DOIS, FEIJÃO COM ARROZ; E UM ESQUELETO

Um homem dentro de casa mexendo em seus canivetes, malas, recolhendo o lixo, olhando-se no espelho, levando a bicicleta ao médico ou o cachorro a fazer xixi e cocô, um filme. Uma canção antiga, um pai que sabia limpar canivetes, pintar paredes, lixar, envernizar, passar o Sábado. Eu nunca soube.

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Fumar é inspirar a morte, profundamente; e expirar a vida, lentamente. Inspirar a morte é aspirar a vida. Palavra de ex-fumante.

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Ninguém entende mais de gente que tapete. Aos gênios, serve-se a voar; aos medíocres, pisar; aos sonhadores, escorregar.

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Limítrofes:

Atores; boêmios; poetas; cantoras de boate; freqüentadores de bingo; Bolívia.

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Quando se anda por aí, tolamente, a olhar o mar, paralelamente aos automóveis e seus autômatos a dirigi-los, quando se vai à farmácia ou à padaria, quando se é gente de bairro, atenção: é um raro momento em que uma bomba deixou de explodir ao seu lado.

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Mulheres e suas bundas: nada de novo no front.

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O Word é um software puritano. Assinala bundas em vermelho e depois não deixa que elas sejam adicionadas ao dicionário. Também não permite que se as ignore.

Um puritano incorrigível.

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Depois não me diga que eu não telefonei, que eu não escrevi, não lhe pisquei o olho, não me atrevi, não me arrisquei, não contei piada nem me zanguei. Apenas eu não era quem você queria. O que me aborrece é que isso me poderia ter sido dito na primeira vez em que eu telefonei, que eu escrevi, lhe pisquei o olho, me atrevi, me arrisquei, contei piada e me zanguei. Exatamente quando eu era quem você queria.

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O poeta Aldo Votto me deu de presente um livro de sua autoria, com direito a dedicatória. De repente me saiu de dentro do livro algo que dizem às vezes sair de dentro do armário, mas que concluo ter saído na verdade de dentro do universo, quando ele era ainda uma casca de ovo. Seu poema ESQUELETO diz assim:

Mais triste
Que o prédio abandonado
É o que foi deixado
Em construção

Em que o musgo
Tomou o lugar da cal
E a sombra,
O lugar do reflexo.

Desfaz-se a obra
Que ainda não se fizera
E os tijolos viram tigelas
Para algum pombo citadino.

A altura, em vez de imponência,
É ameaça de acidente.
Mais que tudo,
O prédio inacabado
É oco de gente;

Espaço semi-construído,
Sequer meio vivido.

O que me fez concluir o seguinte:

Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto,
Não tem recheio de carne
Tampouco é feito de osso.

Mas, por ser esqueleto de todo jeito,
Permite imaginarem-se ossos nele
E aí é que se percebe,
Entre cada par de vértebras,
Entre cada duas costelas,
Nas juntas, falanges, rótulas
Uma alma.
E, como alma gosta muito
De habitar gente
E gente que tem esqueleto,
Essas almas vão-se multiplicando
Infinitamente.

Herman Hesse
Em O lobo da estepe
Prova
Germanicamente
Que homens e mulheres são feitos de infinitas
Almas.
Tivesse lido o poema do poeta Aldo Votto,
Teria dito uma só frase
Feita de dois versos
Tão somente.

Leiam Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto.

***

Ou
Como diria
Vinicius
De Moraes
Na agenda
De janeiro
Mês de férias
É preciso
Deixar todas as datas vazias
Para que haja espaço
Para o súbito
O não dito

A súbita
Poesia.

***

Muito obrigado, Aldo.

Um comentário:

Ema disse...

Esqueleto:linda réplica para um lindo poema...