3.26.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

No futuro, todo mundo será famoso por quinze minutos.
Andy Warhol, 1969.
Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade.
Lima Barreto, 1915.
(Em “Triste fim de Policarpo Quaresma”.)

- CAPÍTULO UM –

“... Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhes a iniciativa e a independência, abatendo-as e desmoralizando-as”.
Lima Barreto, em “Triste fim de Policarpo Quaresma”.

Como contado por Lima Barreto, biógrafo de Policarpo Quaresma, Ricardo Coração dos Outros, tal como Policarpo, foi contemporâneo de Floriano Peixoto, segundo presidente do Brasil. Tanto para quem leu como para quem não leu a citada biografia, conta-se aqui que Olga, afilhada de Policarpo, assim que desistiu de salvá-lo do seu triste fim, com o nobre intuito de que ele mantivesse “inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a mácula de um empenho...”, veio ao encontro de Ricardo Coração dos Outros, amigo de Policarpo e de Olga - que era casada com outro. Ricardo era solteiro, mulato e violonista, no tempo em que tocar violão nem sempre era bem visto.

O que Lima Barreto não teve tempo de contar foi que Olga não só veio ao encontro de Ricardo, como, no exato instante em que o reencontrou, resolveu separar-se do marido (Armando) – no tempo em que isso nunca era bem visto. Ao chegar ao encontro de Ricardo, a ele propôs:

- Pega teu violão e vamos fugir por aí.

Ricardo, estupefato, contrapôs:

- Mas és casada!

- Pouco me importa; sou, para Armando, não mais que um bilboquê. Quanto a mim, não tenho a mínima admiração por ele.

- Mas... O que vamos dizer aos outros? A teu pai, a todo mundo?

- A meu pai, direi adeus; aos outros, daremos as costas. O que me dizes, Senhor Ricardo Coração dos Outros?

- Nunca tivemos nada entre nós que não...

- Nossa amizade – ela concluiu. E acrescentou: - O tempo nos dirá se devemos ou não passar disso.

Ricardo pensou um pouco, foi deixando abandonar seu rosto aquele ar de espanto e incredulidade, para perceber que sua vida jamais lhe dera nenhuma emoção comparável àquela, nem mesmo a da fama suburbana como compositor de modinhas. Nenhum risco fora igual ao que Olga lhe propunha - nem mesmo os das balas de canhão, revolver e espingarda, que enfrentara por conta da “Revolta”, episódio de que fizera parte do lado governista, do lado de Floriano, nem um pouco por vontade própria.

Assim foi que Ricardo respondeu a Olga, como quem renasce de uma morte em vida:

- Vamos por aí, desfraldar bandeiras, arrancar mato do chão com a foice, descobrir lugares onde não tenhamos que dar satisfação e nem temer a ninguém. Nem a Floriano!

E foram. Para a Província de Goiás. E o tempo mostrou que deveriam ir além da amizade. E é da prole da sua prole que aqui se conta. Mais precisamente, de Ricardo Coração dos Outros V, nascido em 1982 no mesmo Rio de Janeiro daquele seu antepassado, de quem herdou o nome; e do filho dele, Ricardo VI, que nasceu em Minaçu, no norte de Goiás, em 2003, quando Lula era o presidente do Brasil – país que, em 2020, é bem diferente do imaginado por Lima Barreto, desde quando – e porque - a política passou a ser coisa de amador. Graças a Ricardo V; e graças a seu filho, Ricardo Coração dos Outros VI – como aqui ficará provado.

2 comentários:

Luiz Mauro disse...

Depois de finalmente conferir as barquinhas de salmão do Bracarense (ainda prefiro os pastéis do Le Coin), vim conferir se o Mario iria honrar sua contribuição sabática ao Blog. Pelo jeito, não acordou cedo. Mas não falhou. E doravante cá estarei acompanhando a dinastia de Ricardo Coração dos Outros desfraldando bandeiras e arrancando mato do chão.

Diario de Bicicleta disse...

Que final interessante, não pude imaginar um final outro que não TRISTE como no título da obra, portanto essa proposta "feliz" é bem alternativa e interessante...