11.13.2016

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - QUATRO

SÓCIAS

Do azul

O motorista avisa à moça que sobe pelos degraus metálicos que alguma coisa caiu no asfalto. Ela estranha, passa as mãos nos lóbulos das orelhas e diz, Meu brinco! O motorista responde apontando, Está ali, ó. Quando ela paga a passagem e passa pela roleta um pouco atrapalhada, está sem graça por ter feito que a esperassem para descer, sair, pegar o brinco no chão e voltar. Mas sabe que os olhares distantes, alguns, tristes, e as feições fechadas não são por sua causa. Há uma crise, e a pobreza ficou maior e mais pobre. Flávia consegue um lugar ao lado de uma senhora gorda, que percebe que ela, olhando a paisagem pela janela, sem gesticular, fala sozinha mexendo um pouco os lábios, sorrindo e com as pálpebras sobre os olhos azuis meio que acompanhando o movimento da boca. Ou estaria cantando sem emitir sons? Flávia arruma os cabelos negros e acompanha com o corpo a curva que fazemos para a esquerda, no acesso ao Córrego Grande.

Do amarelo

Rita sente frio, acha que o ar condicionado está gelado demais, mas nada diz, apenas passa as mãos pelos braços depois de por o livro no colo. O motorista nos conduz devagar. Estamos com poucos passageiros.

Do Chevrolet Corsa

Ela se deu conta de que o ônibus não iria deixá-la próxima da casa de Renata. Já o motorista não gostou de ter que fazer um percurso, para ele, curto. Flávia tentou desesperadamente encaixar o cinto de segurança no engate do banco traseiro, sem sucesso. Salta ligeiramente enjoada e tonta.

Da Harley Davidson

Dimple, como é chamado pelos amigos por causa do formato do corpo e de sua origem escocesa, pilota a motocicleta com prudência. Cláudia, a paulista com quem se casou quando os dois moravam em Londres, segue no banco de trás abraçada a ele, até que chegam ao seu destino.

Da casa no Jardim Anchieta, Florianópolis

A família de Renata é considerada tradicional na cidade, mas o sobrenome é alemão. Florianópolis foi primeiro colonizada por açorianos enviados para cá a mando do rei, quando foi chamada Desterro. Agora mantém o nome em homenagem ao Marechal de Ferro que recebeu por medida conciliatória nos tempos de Hercílio Luz, cujo nome batizou a ponte pênsil já há alguns anos sem uso, em infinito projeto de reforma. Há gente que ganha dinheiro para que certas coisas não aconteçam, vive dizendo o pai de Renata, que herdou esta casa do pai dele. Durante a obra da piscina no quintal, alugaram um apartamento na Beira Mar, e voltaram felizes, por causa do barulho constante dos automóveis por lá. Os negócios do pai de Renata foram prosperando, e ele comprou uma outra casa em Jurerê Internacional. No verão, alguns dos restaurantes daquela praia famosa têm uma estratégia peculiar de formar e atrair sua clientela, que costuma ser aceita pelos ocupantes das casas (todas muito caras, algumas de altíssimo padrão) e tolerada pelas autoridades: tocam músicas em volume altíssimo, geralmente do gênero lounge, que, na opinião do pai de Renata, quer dizer vazio. Já a mãe acha repetitivo e chato. Segundo comentam aqui, outro fenômeno de Jurerê no verão tem sido certo tipo de turista que se senta em uma cadeira de praia colocada na calçada ou mesmo no asfalto para ouvir música vinda do rádio do carro, geralmente uma camionete, com o porta-malas aberto, de outros variados gêneros mas sempre competindo em volume com o ritmo lounge dos restaurantes. Foram principalmente esses dois fenômenos sonoros que acarretaram um terceiro. Quem paga fortunas por uma casa de praia em Jurerê Internacional costuma alugá-la no verão. Renata continua indo à praia em Jurerê Internacional, perto da casa da família que foi alugada, que fica próxima a um dos restaurantes com som lounge, que Renata acha relaxante.
O que trouxe Flávia para Florianópolis foi um projeto de bar-livraria vinte e quatro horas, que desenvolveu com a paulista que era dona de um restaurante no Rio, Cláudia, que por sua vez conhecera Renata em um congresso de gastronomia aqui mesmo, em Florianópolis. Uma ideia arriscada, muito arriscada, mas que acham que vai dar certo por combinar bar, restaurante, tabacaria e livraria em um só lugar, como alguns que as três conhecem em outras cidades no Brasil e exterior. Já o funcionamento 24 horas é uma aposta no crescimento da cidade e do número de notívagos e insones. Faltava alguém com experiência prática em livrarias, já que gastronomia e restaurante pelo menos Cláudia, a mais velha, conhece bem. Risco, é algo conhecido também por Flávia, que já teve outros negócios, ora com sucesso, ora tendo prejuízo. Foi conversando com uma vendedora da loja do Beira Mar Shopping das Livrarias Catarinense que Flávia sugeriu às suas então duas sócias que a mesma vendedora, uma gaúcha, ingressasse no time. Rita. A única das quatro a não ter ainda concluído faculdade nem ter qualquer dinheiro para investir. A mais moça das sócias conhece como funciona o negócio de livros, revistas e papelaria, e lê mais que as outras três juntas. Aqui, hoje, terão mais uma reunião, agora tendo o espaço acertado – um casarão tombado na Avenida Beira Mar – e o financiamento pré-aprovado pelo banco que administra boa parte das aplicações do pai de Renata. Flávia é a primeira a chegar. Sente dor de barriga ao ouvir exatamente o pai de Renata comentar com a filha achar estranho chamarem de estoico o homem que foi assassinado em frente ao prédio onde a carioca mora, que, por sua vez, teme por ter que testemunhar à polícia pelo menos descrevendo o tipo do provável assassino.
-       Por que estranho, pai?
-       Era chegado a luxos. Um vaidoso.
Claudia entra, espalhafatosa, e depois chega Rita, que veio a pé desde o ponto onde saltou do ônibus amarelo com ar condicionado até aqui. A conversa sobre estoicos e luxos do assassinado na Beira Mar ainda rende. Rita faz um comentário que parece incomodar.
-       Marco Aurélio colecionava troféus.
-       Que troféus? Renata pergunta.
-       O de suas conquistas.
-       Que não foram poucas – diz o pai de Renata, que se dirige ao segundo andar. – Vou deixar vocês em paz. Boa reunião.
As quatro se olham, Rita bate com o livro que trouxe consigo nas pernas, Claudia tosse por causa de um pigarro, Flávia inspira fundo e Renata faz o convite:

- Vamos sentar, gente?