9.25.2016

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - DOIS

CÚMPLICES

Do escritório de Maria Eduarda, Av. Almirante Barroso, Rio de Janeiro

Maria Antônia, Maria Elisa, Maria Luíza, Maria Roberta, não há Maria mais bela que você nem nome mais belo que o seu, Maria Eduarda.
Do para sempre e também seu,
Rogério.

Maria Eduarda interrompe o que faz e relê a dedicatória do namorado no último livro dele, publicado há cinco anos, Poemas de terça-feira. Rogério Bravo. Na opinião dela, não poderia haver sobrenome menos apropriado que esse para seu namorado, a quem considera um fraco, por quem ainda assim se sente até hoje apaixonada. Já está com ele faz oito anos. De cinco pra cá, Rogério mal rascunha novos poemas. O último livro ficou entre despercebido e desprezado pela crítica e vendeu muito mal, após bons anos de sucesso na improvável, pouco reconhecida e arriscada carreira de poeta. Rogério fez parte de um grupo de escritores mineiros, poetas como ele, contistas, cronistas e ensaístas que lançaram em Belo Horizonte a revista semanal Licença poética, todos ainda na faculdade de Direito. Enquanto seus pares desistiram das letras e se tornaram advogados, juízes e promotores, Rogério veio para o Rio antes de concluir o curso a convite de outra publicação: Ensaio geral. Quando a revista deixou de existir, Rogério já colaborava com periódicos do Rio e São Paulo, e lançou-se como um dos pioneiros em publicações na internet. Foi lançando seus livros, chegou a ter espaço em programas vespertinos de TV, até que foi, nas palavras do próprio, perdendo o fôlego. Há quatro anos vive de favor de amigos, que dividem entre si uma mesada para ele. Rogério mora no apartamento de um desses amigos, sem pagar aluguel. Ultimamente tem ouvido indiretas deles, e Maria Eduarda entrou em cena pagando a metade das contas. Rogério anda deprimido, mais desligado que nunca. Maria Eduarda, cheia dele, mas ainda assim apaixonada.

Ela é viúva de um professor francês de filosofia da Sorbonne. Morava com ele e o filho do casal em Paris, até a morte do pai dela, depois de alguns meses sofrendo de câncer, quando os três vieram para o enterro. Maria Eduarda disse que precisava permanecer aqui para cuidar do espólio, junto com os irmãos e a mãe. Este lugar que somos, a sala onde mantém seu escritório, foi herança do pai. Foi ficando, telefonava, escrevia, visitava os dois em Paris por uns dias, até que foi a vez do marido falecer, de aneurisma cerebral, durante uma de suas aulas. Explicava a ele, ao filho e a todo mundo que não suportava de saudades do Rio, por mais que gostasse deles e de Paris, onde trabalhava da mesma forma que hoje, como freelancer de moda e figurinos. Com a morte do marido, trouxe o filho para morar com ela e a avó, mãe de Maria Eduarda – a mais velha de dois irmãos, Paulo e Bernardo, e da caçula Flávia, todos herdeiros do pai, não só de bens materiais como de algumas paixões, entre elas a por Billie Holiday.

O telefone toca e Maria Eduarda intui ou deseja que seja Flávia. Acertou: em desespero, a irmã conta o que viu da janela do apartamento de Florianópolis. O conselho de Maria Eduarda é direto:

-       - Não se meta com a polícia. Você não viu nada, não sabe de nada.

Diante da insegurança que percebe em Flávia, Maria Eduarda argumenta e insiste:

-     - Descrever o tipo do sujeito, que você mal viu de madrugada, lá de cima do seu apartamento, não adiantaria de nada, esquece isso, Flávia. Onde você está agora? ... Fica aí, trabalha mais um pouco, anda pela cidade, esquece o assunto, tá? Beijo.

Maria Eduarda faz o mesmo que acaba de aconselhar à irmã: trabalha mais um pouco, telefona para algumas pessoas e termina seus contatos do dia falando com o filho. Sente-se culpada até hoje por tê-lo deixado aos cuidados do pai em Paris, embora o filho a isente de culpas, dizendo sempre que o assunto surge que ela não o abandonou e nem ao pai, apenas morava longe, mas estava sempre presente assim mesmo. Ela vai à geladeira que mantém no escritório, tira de lá e abre uma meia garrafa de vinho tinto, prepara três sanduíches de queijo brie com geleia de pimenta. Come um dos sanduíches, bebe muito pouco do vinho em uma taça, um pouco de água, e sai, com a meia garrafa de vinho quase cheia e os dois sanduíches restantes em uma sacola de papel.

Do lado externo do prédio onde fica o escritório de Maria Eduarda

-       - Bonsoir, mes amis.
-      -  Bonsoir, madame Maria Eduarda.
-       - Bonsoir.
-       - Trouxe pra vocês uns sanduiches e um pouco de vinho.
-       - Obrigado, querida, diz Cleverson.
-      - A senhora não existe, completa Haroldo, ele e Cleverson um casal de andarilhos, que de segunda à sexta passam por aqui neste horário de fim de tarde.


9.18.2016

EM TEMPO REAL - PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - UM

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Segredo é pra quatro paredes.
(“Segredo”, canção popular brasileira de Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947.)
O único segredo que as mulheres sabem guardar é aqueles que ignoram.
(Sêneca, Córdoba 4 a.C. - Roma, 65.)
Bonita cidade, quero menos velocidade.
(Frase de uma menina de oito anos.)

TESTEMUNHAS

Do Coliseu, Roma, Itália 
                                                                                                                                                                
A humanidade pensa que conta sua história. Engana-se. Sabemos tudo sobre cada pessoa: pensamentos, memória, descobertas e futilidade; silêncios, palavras, fúrias e baixezas; feitos, medos, desesperos e desilusões. Em um deserto, nas águas, na selva, somos a pedra, somos o chão. A humanidade nos escava, nos aterra, nos corta, nos explode, nos permeia, nos constrói e destrói, mas quem conta sua história somos nós. Aqui, no passado, imponentes, assistíamos a espetáculos sangrentos. Agora, em ruínas, nos visitam turistas e batedores de carteiras. Algumas de nós assumem outros nomes e formas, como nos veículos que as pessoas usam para se locomover. Nós, as paredes, contamos a história. Esta, em tempo real. 

Do apartamento de Flávia, Avenida Beira Mar Norte, Florianópolis, Brasil

A carioca de 30 anos dorme nua. Sempre dorme nua, mesmo no inverno. Sonha com uma figura de bata e capuz brancos, que pensa ser a morte. Sem palavras, pergunta à figura encapuzada com os olhos atrás de dois rasgos se é ela, Flávia, quem vai morrer. A cabeça de capuz faz que não. Flávia acorda e vai à sala. Nunca foi mística ou religiosa, nunca acreditou em premonições, mas está assustada com o sonho. Se dá conta de que a figura estava mais para um canalha da Klu Klux Klan que propriamente a morte, popularmente imaginada de preto, embora um e outra sejam afinal a mesma coisa. Da janela aberta da varanda olha para o mar, que reflete a luz da lua. Volta a passar pela momentânea confusão de quando caminha e corre na calçada junto à baía. Na direção norte, o mar fica à sua esquerda; na volta, na direção sul, à direita. Flávia  não tem carro e evita sempre que pode os aviões. Nas vezes em que viaja de ônibus para o Rio, com o litoral à sua direita, é como se recuperasse uma bússola que tivesse perdido. Ela mora na parte da cidade que fica na ilha, que tem o mesmo nome do Estado, de Santa Catarina. Agora o que chama sua atenção é um homem de cabelos negros encaracolados, vestindo uma jaqueta de couro preta. Ele atravessa a avenida na direção da baía como se os carros não existissem, ou como se os desafiasse. Um som de buzina, e o homem chega ao canteiro central da avenida e ali permanece, parado, de pé, olhando para o movimento de carros na direção das pontes, que dividem a baía em sul e norte. O sujeito faz um gesto que para ela sempre foi nojento e grosseiro, o de quem assoa o nariz sem lenço com o dedo indicador – ela notou, da mão esquerda - pressionando uma das narinas, a cabeça inclinada em diagonal. Um sedã de luxo para na pista junto ao canteiro, como se tivesse vindo buscar o indivíduo. Depois de alguns instantes, o homem de cabelos encaracolados entra no automóvel pela porta do motorista. O carro permanece parado com o pisca-alerta aceso, enquanto outros passam em disparada nos dois sentidos. Um ou outro motorista buzina, expressando indignação por causa do carro parado. O sujeito da jaqueta salta do carro, bate a porta, atravessa a pista em direção à baía e caminha pela calçada tendo o mar à sua direita. O sedã permanece parado, com o pisca-alerta ligado. Flávia percebe que já está amanhecendo e resolve tomar um banho. Depois volta à varanda e vê um carro de polícia e uma ambulância junto ao mesmo sedã. Uma fila de carros está formada, o trânsito parado nas duas vias. Há um tumulto de pessoas à volta do sedã e dos outros dois veículos. Um corpo é retirado do carro, posto sobre uma padiola no chão, é coberto com um lençol e levado sobre a maca para dentro da ambulância. Flávia se lembra do seu sonho, não sabe o que fazer. Ouve o interfone da cozinha tocar. Hesita, põe o rosto nas mãos, corre para o quarto, põe um travesseiro sobre a cabeça. O interfone cessa de tocar na cozinha e agora outro soa mais distante, o do vizinho do lado. Flávia corre para debaixo do chuveiro novamente. Com a água molhando seu corpo, canta uma canção de Billie Holiday.