9.12.2015

REALIDADE, SONHOS, VIAGENS

Nesses tempos de governo, para dizer o mínimo, irresponsável, perdido e negligente, com nosso tão duramente conquistado real perdendo valor, para não se ensimesmar em turvos pensamentos é preciso perder o juízo, sonhar e viajar. Foi o que Rosa e eu fizemos, em rápidos e inesquecíveis dez dias.

Nelson Rodrigues dizia que o único inglês de verdade era o Antônio Callado. Quase conheci um segundo no ano passado em Londres, mas, por um detalhe, deu pra ver que Nelson como sempre estava certo: o sósia de John Hurt – que tampouco é de verdade, porque só faz personagens e sempre brilhantemente – lia, mas em um tablet. Há reis e rainhas, mas são realeza, não realidade. Desta vez, tomamos café da manhã em um lugar que também não existe, chamado Café Mignon, na City of Westminster, perto da Victoria Station. Lá tem um jardim interno onde chove enquanto lá fora faz sol, uma inglesa que fala alemão, mas que pode ser uma alemã que fala inglês, um libanês, e uma provavelmente inglesa a quase contrariar Nelson. No Convent Garden, uma banda de violinos e violoncelos tocava e cantava e dançava, enquanto bebíamos vinho branco. Perto do Café Mignon, jantamos pizza servidos por uma furiosa jovem italiana, enquanto outra, não sei de que nacionalidade, me olhou de cara feia porque espirrei. Claro: Antônio Callado jamais espirrou.

Fomos de trem a Manchester, onde apresentei um segundo trabalho em coautoria com meus amigos Baltazar Guerra, PhD nascido em Portugal radicado no Brasil, e Alek Suni, economista americano descendente de finlandeses, no Simpósio Internacional de Adaptação às Mudanças Climáticas, na Manchester Metropolitan University. Como era tudo um sonho, erramos de vagão no trem, mas ninguém nos expulsou. Fomos de ônibus a Notting Hill, escrito errado por eles de propósito, porque o certo seria Nothing Hill, pois é lá que fica Portobello Road, que só existe em canções. Em outro trem, fomos a Chester, que também não existe, já que é medieval e tem uma loja de City Tan, de bronzeamento artificial, que confundi com City Tour, para desespero das atendentes e da Rosa. Em Chester foi que aprendi que Manchester é pró e paroxítona: se pronuncia MAN-Chés-ter. Na França, seria oxítona; mas era Paris, outro lugar inexistente.

Hemingway a chamou de festa móvel, e quem se atreveria a dizer que ele estava errado? Lá, passeamos de dia e com sol e de noite e com sol. Visitamos jardins, andamos a pé e de barco e de triciclo, nos perdemos e nos achamos. Em um show de Gospel na igreja de Saint Julien le Pauvre, um casal muito jovem ficou noivo no final do espetáculo, e Rosa tirou nossas alianças da bolsa. Disse a ela que as guardasse, porque nossa festa seria somente nossa, assim como aquela seria somente dos dois no altar, tendo os músicos ao seu redor. E assim foi: no Closeries des Lilas, restaurante que era frequentado pelo mesmo Hemingway, pedi ao pianista que tocasse Tom e Vinicius. Em frente ao piano, ao som de Eu sei que vou te amar, trocamos nossas alianças, e o emocionado pianista me disse ter sido a primeira vez em sua experiente carreira que isso acontecia. Sem nunca termos nos separado, vamos nos casar outra vez, agora com direito a juiz de paz.

Termino voltando ao mundo real e parafraseando Fernando Pessoa. Na Europa, a tão duramente conquistada paz se funde com o drama dos imigrantes. No Brasil, o Governo mente. Mente tão descaradamente, que finge ser mentira a mentira que deveras mente.


Sigamos, enfrentando a realidade, sonhando, viajando. Bons sonhos, boas viagens, bom sábado.

8.22.2015

7.05.2015

DEZ ANOS DE O DIÁRIO DE UM MARIO

O nome, claro, é uma brincadeira com o livro do Paulo Coelho. O blog O Diário de um Mario nasceu com dois propósitos: divulgar meus textos e criar uma disciplina para minha atividade de escritor. No começo, funcionou: todos os capítulos de A Revolução do Silêncio nasceram no blog, quando o romance ainda se chamava A Dinastia de Ricardo Coração dos Outros; e toda terça-feira eu publicava uma crônica ou um poema. Com o tempo, a disciplina desapareceu, e os livros e o Face Book foram tomando espaço do blog. Mas hoje, não: este texto foi criado para o blog e depois copiado para o FB.

O tema do Terceiro Sarau do Mario, ainda sem local, mas com data – 22 de agosto -, será exatamente este: Dez anos de O Diário de um Mario. A ideia surgiu de um comentário de Luiza Kons, que me entrevistou em seu programa Conversa de Lado, da Rádio UFSC.
Eu e minha garage band - Carine Bergmann, seu marido Ramon e Lucas Ferreira -, fazemos nosso planejamento quinzenal no pub Blue Bird, na Rua Mauro Ramos, em Florianópolis. É o mais inusitado pub que conheço: só abre para almoço; à noite, só para nós. O dono, Nicolai, dorme lá e é poeta. Nas paredes, poemas de Paulo Leminski, José Régio e, a pedido do Nicolai, passou a ter um trecho do meu Os Olhos Delas, que deu título ao livro que publiquei ano passado. Lá, no mesmo Blue Bird, foi ensaiada, por Cassiano e Dilmara, uma canção minha - Cervantes, o Bar, que fiz quando ainda morava no Rio e frequentava o Bar Cervantes na esquina de Prado Junior com Barata Ribeiro, lá pelo final dos anos oitenta. Observar alguns frequentadores e a redondeza inspirou o refrão: “olhando no fundo do copo”.

Dia desses, comecei a ler algumas das crônicas da coletânea As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada em 2007. Uma delas se chama Morreu o Valete de Copas, de um certo João Antônio, segundo o qual Esdra Passaes, o valete falecido, "dizia que a verdade, se existe uma, mora nos olhos das mulheres e no fundo dos copos".

Inspiração é isso: uma nuvem passando ao alcance das mãos de quem tiver a curiosidade de saber que textura e gosto uma nuvem tem.

Minhas boas vindas às comemorações dos dez anos de O Diário de um Mario.

Bom domingo. Boa semana.

4.18.2015

A QUE TRABALHAVA FORA

Nasceu em um meio e tempo em que mulher trabalhar fora era feio,
Sinal de que o marido não tinha ou não ganhava o bastante.
Cedo ficou órfã de pai e mãe, e foi trabalhar - trabalhar fora.
Trabalhou em rádio, foi chefe de seção no Ministério.
Pelo Ministério, foi trabalhar fora - Nova Iorque.

Cartas
apaixonadas bem escritas cartas
a trouxeram de volta ao Brasil.


Casou-se, criou os filhos. De dia, trabalhava no Ministério.
À noite, traduzia livros
de mistério.
Já doente, me disse uma vez,

Eu sou uma mulher medíocre.

A mim coube a benção de dizer a ela o óbvio.

Muitas mulheres do seu meio e tempo poderiam se achar medíocres.
Não você.

(Os olhos delas, Bênçãos)


Livrarias Catarinense, 16 de abril de 2015 - roda de poetas e autógrafos do livro Os olhos delas.

3.15.2015

Ter estado lá


Estive no comício das Diretas Já. Depois – santa ingenuidade -, estava na orla de Ipanema participando da campanha do Lula contra o Collor. Não estive entre os Caras Pintadas – hoje, gostaria de ter estado. Hoje, estive, estava, estou. De corpo, cara e alma lavados.
 

3.01.2015

ALIENAÇÕES


Há gente importando carne maturada em cerveja do Japão. Japonês quando vem a uma churrascaria brasileira tira fotos das peças de carne. Todo mundo sabe que o Brasil é exportador de carne. Quem importa carne do Japão provavelmente está importando carne brasileira. Quem faz esse tipo de coisa vive em outro planeta e faz questão de mostrar que seu planeta é outro; um caso típico de alienação.

Há pessoas alienadas porque alijadas da informação e educação, como há quem se aliene lendo e ouvindo exclusivamente aquilo que pertença a uma única doutrina, e a tudo defende com base nos mantras que ouve e repete, às vezes com ares de superioridade, não raro com grosseria. Esses, em breve, estarão mais que alienados: isolados, porque ninguém aguenta chatos por muito tempo.

No governo, há vários ministros alienados dos seus ministérios, e três com destaque: o dos esportes, o da educação e o da ciência e tecnologia. Já a presidente é alienada do país que pretensamente governa e isolada do ministério, do congresso e da população; até de seus eleitores se isolou.

Serão os que querem o impeachment alienados?

Quais são os maiores interessados no impeachment? No exclusivamente da presidente, Michel Temer; no de ambos, uma extensa lista, que começa com Lula, passa por Aécio e Marina e vai até Bolsonaro. Os provisórios – presidente da câmara, do senado e do STF – são também interessados, especialmente em recursos capazes de tornar provisoriedade permanência.

O que se podia querer é um governo que se interessasse e tivesse respeito pelo país. Por exemplo, um ministério com 2/3 dos 39 ministros que o compõem facilitaria um bocado a tarefa do Mãos de Tesoura. Ministros afinados com seus ministérios trariam credibilidade e fariam jus ao dinheiro que investimos nos seus salários e suas funções. Aqui no Brasil, vira e mexe se esquece de que eles que governam são pagos por nós, e não o contrário. Se não estamos satisfeitos, mandar embora, pedir a troca, é nosso direito. A presidente deve ter notado que sua maldita base já deixou de ser base há tempos; então porque não despacha logo os incompetentes, canastrões e vis? Se ela for refém de alguma coisa, que acuse a condição e peça socorro. Se for cúmplice, aí a história é outra; se assim for provado, e a depender do quê, vamos, sim, querer mandá-la embora, e nos restará escolher entre os que se apresentarem. Sempre bom lembrar que na democracia os patrões somos nós. Sempre bom não esquecer que intervenção militar são fuzis apontados para dentro de casa, para nossas caras, nossos narizes.

 

2.22.2015

ALMADA


O momento é de tristeza, mas ele não iria gostar disso. Nós nos conhecemos na Internacional de Engenharia, em 1984, ambos vindos de casamentos desfeitos. Após uma aula de um curso no centro do Rio, ele me convidou para um chope. Foi o primeiro de muitos, em muitas ocasiões. Uma vez, saiu para comprar cigarro e trocou de carro. Em outra, recebeu um telefonema, demitiu-se e foi morar e trabalhar em São Paulo. Depois, por causa de um projeto em Angra I, foi morar lá, em uma casa muito simples, à qual acrescentou uma enorme varanda com piscina e vista para o mar, e eu dizia que era o primeiro barracão com varandão e piscina que eu conhecia. Casou-se com Ângela, e os dois se mudaram para Cabo Frio. Eu já estava com a Rosa; numa das vezes em que fomos visitá-los, o pneu do meu carro furou; Anete, uma mulher de verdade, percebendo minha falta de jeito, trocou o pneu. Chegamos exaustos, mas qualquer cansaço desaparecia na companhia deles. Mais ou menos na mesma época, meu namoro com Rosa fazia um mês, e ele me chamou para um chope no Belmonte do Flamengo; depois, fomos à casa dos pais do André assistir ao jogo de despedida da seleção do Lazaroni. Acabamos a noite no Zepelim, que nessa época ficava em São Conrado. Inspirado por aquele sujeito de rompantes geniais, avisei à Rosa que me casaria com ela. No dia seguinte, telefonei a ela, e disse, Não se assuste, não estou pedindo você em casamento, apenas avisando que vamos nos casar. Fomos ao casamento de Almada e Ângela em São João Nepomuceno. Os dois foram morar em Juiz de Fora, nós, em Florianópolis. Falávamo-nos pouco por telefone, até que ele virou o furacão do Facebook, criando um grupo próprio, sempre publicando coisas interessantes. Faz uns dias, me ligou para saber de amigos dos tempos da Internacional de Engenharia. Falei da Sandra, no Facebook, e ele me disse que viria nos visitar, aqui, em Floripa. Ângela virá, espero que em breve. Ele fica na nossa memória, para sempre, nosso querido Almada.

2.14.2015

SER BOTAFOGUENSE

SER BOTAFOGUENSE
Gostamos de títulos, claro, e temos poucos, todos sabem. Poucos e bons. Sim, somos bissextos, o que não deixa de ser especial. Mais que títulos, nos agradam a arte e a história.

Heleno de Freitas, sua elegância, sua fúria e loucura.

Uma cortina que foi esquecida aberta, alguém que corre para fechá-la; um cachorro chamado Biriba.

Um drible de Garrincha em Newton Santos no treino em que o anjo das pernas tortas – assim o chamava o botafoguense Vinicius – se tornou titular da camisa sete com a estrela solitária, astro das seleções pioneiras de títulos mundiais e da bela biografia que mereceu, de quem, além de flamengo, era Garrincha, ele mesmo, Ruy Castro.

Um passe de Gerson e um gol de placa de Jairzinho, único a fazer gol em todas as partidas de setenta. Há ou houve outro na história do futebol que tenha feito isso? Que me digam os estudiosos.
Um gol e uma saudável presepada de Túlio Maravilha.

Um drible de Seedorf, uma defesa de Jéferson.

Não nos importam segunda nem terceira (que, ao contrário de alguns, ainda não frequentamos – e teremos a sorte de não frequentar). Não há divisões para nós, somos que nem nossa estrela: viajamos no tempo, meteóricos e atemporais, visitando a arte, contando a história.

O resto é tabela. O resto é calendário.

2.06.2015

PEQUENOS DETALHES DE NÓS TODOS

O ex-ministro estava certo, eu é que não tinha percebido a sutileza. O PT não dá luz aos fatos. O PT dá à luz os fatos.
 
O Brasil é um avião com rota incerta, sobrecarregado, com pouco combustível, mal pilotado, mal tripulado. Só nos resta alertar aos que estão dormindo: apertem os cintos, que o piloto não sumiu.
 
Estamos todos sofrendo billing. E bullying.
 
Não por falta de aviso.

1.26.2015

LONGAS E CURTAS


Longas e curtas

Agradáveis e competentes: A família Bélier e Belle. Gostei mais do primeiro, mas o segundo também vale. De dez anos atrás, nem sempre agradável, mas da categoria filmaço, Apocalypto do Mel Gibson, falado em maia. Assisti com legendas.

***

Chegando de Cancun antes da tragédia com o brasileiro de Jaraguá do Sul, hora e pouco antes de o avião chegar ao Galeão, uma moça atrás de mim disse que o piloto tinha mudado de rota. Ela e a Rosa foram à cabine, e em poucos minutos o comandante avisou que não havia combustível suficiente para chegar, por causa do peso e dos ventos. Antes de decolar, ofereceram 400 dólares para quem não tivesse bagagem e se dispusesse a sair do avião e viajar mais tarde. Copa Airlines. O avião pousou em Campinas para abastecer e depois seguiu para o Rio. Na parada em Viracopos, avisaram para desligar os celulares e deixar o corredor livre enquanto abasteciam. Um bacana carioca ficou plantado atrás de outros e outras bacanas de diversas partes da bacanidade (assim diria Sérgio Porto). O bonitão me puxa o celular dele do bolso e taca a dedilhar. Pedi que ele respeitasse as recomendações de segurança. Ele me disse que não iria desligar e que eu fosse de poltrona em poltrona falando pra todos desligarem seus aparelhos. Não é minha função, eu respondi. Então, porque me abordou? - perguntou. Porque estou preocupado com a segurança dela (minha filha), dele (alguém da frente), etc. Mas eu não vou desligar não - ele, taxativo. Que cidadão exemplar! - exclamei. Ele me disse que não estava preocupado com meu juízo a respeito dele. Claro - argumentei -, você não está preocupado nem com a própria segurança! E aí o cara ensaiou me ofender e a tal moça de trás interveio e eu dei uma gargalhada. Pouco depois, a comissária repetiu o aviso, e o que fez bacana? Dirigiu-se à poltrona que ocupava, sentou-se, desligou o celular e olhou para a janela, com - suponho -íum tremendo ar de bacana.

***

O entregador do sanduíche me pergunta por que o nome do cadastro é Maria. Minha filha, respondo. Pensei que fosse sua esposa. Ela se chama Rosamaria, eu esclareço.  E o senhor? Mario. Ah, então aqui é tudo na base do M. Na minha casa, por causa do meu pai, é tudo com W. Aí eu pergunto, Ah, e qual é o seu nome?

André.

***

Globo News Painel. Alguém diz que há muito tempo na Europa limpam, convertem e aproveitam água de esgoto para uso industrial. Por que não aqui? Chama o Aldo, ora.

***

Meu irmão postou reportagem do Pedro Dória – o mesmo autor de 1565, enquanto o Brasil nascia -, reportagem e livro sobre nossos antepassados Sás. Sugiro ao Luiz que convide o Dória para fazer parte do clã, como Sá honorário. Desde que não em substituição a mim. Nem em troca de um honorário Dória.
Ou chamo o Groucho.
***

Boa semana.

 

1.07.2015

ALUSÕES, CITAÇÕES E CONSIDERAÇÕES, SUPOSTO POEMA EM PROSA, QUEM DERA ALUCINAÇÃO, MUITO ESPECIALMENTE PARA FERREIRA GULLAR

De um guia de turismo no México: Mas, afinal, o que são 39 dólares para brasileiros? Petrobrás, mais quatro anos de Dilma...

Nunca vou deixar de admirar o talento de Chico Buarque, sua sensibilidade, seu humor, sua persistente, poética e musical crítica à ditadura. O que dói não é vê-lo defender o que sempre defendeu – uma ideologia. Que se foi com estátuas e muros derrubados, que se despede com a mão fantasma estendida ao suposto contrário, tosco espalmado sonho de liberdade fincado em outra ilha. Dói é não haver um único Renato, Cazuza ou Chico que cante contra a volta da piada no exterior, do puteiro para se ganhar dinheiro, das tenebrosas transações.

Sempre fui de esquerda sem nunca ter sido marxista. Se você acha isso impossível, não leu ou viveu o bastante. Muita vida, muita leitura pra você.

Sim, somos o outro lado. Nem Machado nem Sartre. Somos o inferno; somos os outros. Do mesmo lado que você, que pensa ter vencido e levou para casa as batatas.

Se eles montassem a estratégia de poder eterno comprando votos para sempre com o dinheiro deles já seria uma ofensa. Com o nosso e além de tudo, falta de educação.

Esporte é arte, é educação. Educação é...

Senhores desejosos do controle do que pensamos, constatamos e dizemos, será vosso ídolo o que prendia e arrebentava os que não fossem democratas como ele?

Amigos petistas, continuem nos atirando suas pedras: elas não nos atingem: as que nos ferem são feitas de um ouro escuro, roubado de quem nunca o teve. Nem nunca terá. Ou a ficha ainda não caiu?

Eu não dou uma esmola a um pobre que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. Aos que pensamos assim – não é, Gonzaguinha? -, que nos chamem de imbecis: sempre tivemos um fraco por elogios. Que Manoel de Barros nos abençoe.

Ao invés de 39 ministérios e seus ministros, 39 ministros e seus ministérios.

Nunca na história deste país um eleitorado foi tão bem enganado como o deste do PT, tanto dos desinformados quanto dos informados. Não por falta de aviso, mas por excesso de paixão, cartilha gasta e tantas vezes sequer lida, berros roucos tanto quanto falsos, scripts mal lidos, mal decorados, tudo disfarçado de argumento; de razão.

A razão é de todos ou não é de ninguém, Jorge Luís Borges.

Mais importante que a razão é a felicidade, Ferreira Gullar.

Borges, Felizes os felizes.

E O prazer do poema, tal como pesquisado, colecionado e reproduzido no livro de Ferreira Gullar.

O resto é o resto, quem dera alucinação.

11.27.2014

ADÉLIA

Meu pai disse a ela que a seleção do Brasil ia jogar contra a de Portugal.
- Ora, Seu Benevides, como vão jogar uns cá e outros lá?
Hoje, Cruzeiro e Atlético jogaram uns cá e outros lá. A partida foi no estádio do Cruzeiro, cá, com parte da torcida no estádio do Atlético, lá.
Adélia, não sei onde você está. Só sei que continuamos assim: no mesmo jogo, do mesmo lado, uns cá e outros lá.

11.02.2014

MEU AMIGO RUBENS FEZ 60 ANOS


Conheci o Rubens quando eu tinha uns dezesseis anos, e ele, acho que já tinha chegado aos dezessete. Estávamos em uma festa, eu fui dançar com uma garota, e o Rubens ficou fazendo caretas e sinais pra mim. Claro, perdi a garota, mas ganhei um amigo de uma vida inteira.

Rubens ontem fez 60 anos. Como em todos os aniversários, já teve umas três comemorações e terá outras tantas nos próximos dias, nos mais variados bairros do Rio de Janeiro. Continua o mesmo que eu conheci, com as mesmas feições, o mesmo físico, o mesmo bom humor quando tem razões para isso e, quando há motivos para ficar mais quieto e calado, é assim que ele fica, desde que nos conhecemos. E conhecendo o Rubens como conheço é que vivo me perguntando por que falam tão mal da dita terceira idade. A começar que essa é uma conta das mais estranhas. Tudo leva a crer que a primeira se encerre aos 40. Ora, do nascimento aos 40, quantas vidas em uma só se tem, não é? Aos três, aos sete, aos quinze, aos vinte e cinco, aos trinta... Difícil encontrar semelhanças no que vivemos entre idades tão próximas ou um pouco mais distantes umas das outras, nessa que deve ser a primeira idade.

A segunda é mais curta – pelo que posso depreender, vai dos 40 aos 59. Com mais precisão, até os 59 anos, 364 dias, 23 horas, 59 minutos e 59 segundos (espero não ter errado na conta: não fica bem para um engenheiro; mas que seja perdoável a um poeta). Aí, quando chega o primeiro segundo seguinte, a pessoa ingressa na terceira idade. Uau! O mundo acabou. Você pode até malhar e fazer Pilates, mas inevitavelmente passa a ser aquele velho encurvado sobre uma bengala, carregando o mundo nas costas a quem dão prioridade no check-in, ainda que no embarque convidem você com prioridade para a (sua) melhor idade – outra idiotice dos nossos tempos.

Até que não inventem a quarta, a terceira idade vai até a morte - que poderia, aliás, ter acontecido antes, e esse é o primeiro motivo para uma boa risada do e com o Rubens. Outra coisa: não moramos na faixa de Gaza, o que por si já é uma baita de uma sorte. Por que, então, lembrando Fernando Sabino, sair por aí caçando angústia? Por causa da idade? Ora.

Nascemos com a vocação para a exceção. Não se tem uma impressão digital única impunemente. Outra coisa. Devemos mirar nas exceções ou na mediocridade? Em uma época de roqueiros setentões na estrada cantando suas músicas, por que ficar por aí, já aos 50, dizendo que está ficando velho? Se há um Leonard Cohen elegantérrimo aos 80, compondo e cantando blues com o mesmo talento e a voz rouca de sempre, que história é essa de se aborrecer porque alguém ofereceu o lugar a você? Agradeça, ora. Se preferir, fique de pé e, a seu gosto, modesto ou altivo, diga, Não obrigado, estou bem assim.

Tenho outro amigo que conheço faz poucos anos, que já se aproxima dos 70 de idade: Júlio Pavese. Lê mais livros do que eu consigo comprar e enfileirar na estante, viaja, filma e fotografa mundo afora, tem uma vivacidade mental astronômica - um dos melhores papos que já conheci.

É em gente assim que eu me inspiro. Quando eu crescer, quero ser que nem eles.

Parabéns meu irmão Rubens, o mais novo sexigenário da praça. Muitas felicidades pra você.

 

10.29.2014

PREVISÕES

A postura autoritária dará lugar à negociação. A cada rodada, as partes dirão que sim, cada parte fará uma parte do combinado e ambas se dirão plenamente satisfeitas com o resultado.

Haverá uma denúncia, um espanto, uma investigação.

Um doleiro será ressuscitado e outro será criado, não se sabe ainda se no laboratório ou na mídia comprada.

O PRONATEC distribuirá mais médicos, o Mais Médicos, mais bolsas famílias, finalmente integrando os programas sociais.

Mais creches e escolas serão criadas em locais estrategicamente subterrâneos, e novos leitos hospitalares serão inaugurados nos corredores dos hospitais.

Um ministro será bem recebido pelo mercado e outro, nem tanto. O Banco Central será declarado Tombini, o que não alterará a constituição.

A escassez e os preços da energia pressionarão a inflação, que estará controlada por decreto.

Faltará água nos estados governados pela oposição. Nos da situação, o problema será a seca.

Um plebiscito dará lugar a um referendo que dará lugar a uma reforma que dará lugar a uma CPI.

Manifestações correrão o país e uma constituinte específica será criada acerca do direito das manifestações se manifestarem sempre que quiserem, mas com regras mais rígidas para o tempo na TV dos cientistas políticos.

As olimpíadas serão um sucesso e o desempenho do país nos jogos será ufanisticamente decepcionante.

As eleições municipais trarão surpresas, como prefeitos reeleitos e outros não reeleitos. Vereadores finalmente votarão pelo fim do FMI.

Serão 39, 38, 37, 40 ministérios, sendo que um para Assuntos Estratégicos.

A oposição interporá, embargará, questionará, pressionará, tudo resultando em uma emenda constitucional, seguida de um decreto revogando todas as disposições em contrário.

O mandato será de cinco anos, sem direito à reeleição, condicionada à aprovação de um novo mandato após o da reeleição, a não ser que o candidato da situação seja ele.

Obama virá ao Brasil e os apertos de mão serão dezesseis, com um soquinho no final. Dilma depois manifestará na ONU sua indignação: a aliança do presidente norte-americano era um captador de pensamentos. Obama se dirá impressionado com o que se passa na cabeça da presidenta, e um acordo será selado para que os pensamentos captados só sejam revelados 100 anos após a morte do que morrer por último, porque quem morre por último morre melhor.

E, para que não restem dúvidas quanto à precisão dessas previsões, daqui a quatro anos todos estarão quatro anos mais velhos. E experientes.

10.12.2014

DIA DAS CRIANÇAS


Hoje é dia das crianças e você dorme como se fosse criança

porque você é uma criança

porque eu gostaria de ser

assim como você.

É como se hoje eu começasse meu dever de casa:

mandar o chato do adulto que eu sou embora

todos os dias

só pelo privilégio de ter você ao meu lado

todos os dias.

Feliz dia das crianças

pra você e todo mundo

todos os dias.

10.11.2014

DIMINUIR AS DESIGUALDADES


À exceção de quem quer ficar em cima de um trono, carregado e adorado por uma multidão faminta, diminuir as desigualdades sociais é um desejo coletivo. É bom para o capitalismo como igualmente bom para o socialismo e também para o comunismo. Mais mercados para o capitalismo, mais serviços para o socialismo e mais trabalho para a ditadura do proletariado; menores discursos e raras interrupções da nossa programação normal. Desde que estejam na pauta, e que a pauta seja de muitos e para muitos, mais segurança, mais educação, mais saúde. Maior a sensação de plenitude tanto para religiosos quanto para céticos; e raros, curtos sermões (talvez, quem dera, sem decapitações).

Condição necessária para a distribuição de renda é a própria: a renda. Não há como se distribuir o que não há. Mas não suficiente: basta lembrar de quem deseja ser adorado em cima do trono. O capitalismo é capaz de distribuir renda, como o socialismo de estimular mercados. Para os dois, a condição que falta à suficiência da primeira – a renda - é a mesma: descer do trono. Já para o comunismo, é possível distribuir tudo o que existir enquanto existir.

Voltando à nossa programação normal, pensemos no que tem acontecido na história recente do Brasil. DE FHC a Dilma, viramos da centro-direita para a centro-esquerda. Mais liberalismo econômico no período de FHC até meados do segundo de Lula e, de lá para cá, mais centralização, intervenção e interferência. Maior arroxo quando era preciso atrair investimentos e destronar a inflação; mais recursos quando estes eram mais fartos, mantidos os fundamentos do crescimento sustentado e, com isso, crescimento e inflação com fome e sem trono. Quando este – o trono - retornou à cena...

Será o tesouro nacional infinito? Será propriedade de alguém, que não da população nacional? Será que não estamos perdendo tempo com umbigos alheios e rivalidades alheias? Afinal, o que de fato nos interessa? Melhor distribuição de algo que exista ou desvio de algo que é finito? Melhor investimento do que é finito para que se multiplique e possa ser mais bem distribuído, ou desrespeito ao capital que produz e multiplica? Melhor gestão do que há de mais parecido com o socialismo – o social -, ou a pauta de uma só para cada vez menos – menos escolas, menos segurança, menos hospitais, menos qualificação?

É indispensável sonhar, acreditar e exigir, mas é preciso, lamentavelmente preciso ser adulto.

Não estamos discutindo esquerda ou direita. Estamos discutindo centro-razoável-competência contra centro-indecente-irresponsabilidade.

Entre a porca corrupção pontual e a grotesca corrupção sistêmica, sim, queremos as duas atrás das grades. Mas é preciso, lamentavelmente preciso distinguir uma da outra.

É preciso, lamentavelmente preciso ser adulto. E decidir.

 

10.05.2014

POR QUE AÉCIO


Porque em dois debates Aécio foi vencedor.

Porque eleitor apartidário e sem fanatismo tem o privilégio da escolha.

Sim: porque é preciso derrotar o governo que implodiu a Eletrobras, explodiu a Petrobras e paralisou a Economia.

Sim: porque trocar ministros não fez como não fará diferença, porque é preciso mudar a cabeça, porque a cabeça é autoritária, dona da verdade.

Sim: porque a opção Aécio é o voto útil – para o Brasil.

Sim: porque endosso ao erro e omissão precisam dar lugar à esperança; ao voto.

Em Aécio.

Florianópolis, 5 de outubro de 2014, mariobenevides.blogspot.com.

7.13.2014

Diana e os Quartetos de Domingo (para meu xará e amigo Mario Robson Costa e todos os demais)


O dia é sábado. Amanhã não quer ver ninguém bem.
(Vinicius de Moraes, o Dia da Criação.) 

Diana sonha com o avô.

No coreto da praça
o negro de smoking toca trompete (sax? trombone?)
com o quarteto de que é parte.
Na praça

outros homens de smoking
mulheres de longo
andam perdidos.
Um louco maltrapilho

sobe os degraus do coreto
pede ao quarteto que interrompa a marcha
limpa a garganta e passa a falar
em voz alta.

Porque hoje é domingo
aqui faz sol
neva em algum lugar
em outros chove.

Porque hoje é domingo
algo se fechou para sempre.
Todos vão dançar a música do coreto
sozinhos aos pares aos trios em quarteto.

Porque hoje é domingo
de música de coreto de praça
amanhã será sábado
e vai querer ver todos bem.

Porque hoje é domingo
que alguns chamam de dia do sol
outros de Deus
é aos perversos que vou me dirigir.

Perversos: a vida se faz de estilhaços
onde o sol reflete o baile
segue o baile 
tudo começa outra vez.

Perversos.
Vocês só sabem do mal que fazem;
perversos: vocês não sabem
o que estão perdendo.

Foi quando Diana acordou.

5.01.2014

VOTA, LULA


Caro Lula:

Sou um desses idiotas que mais que respeitam que desrespeitam. A maioria é assim, porque ainda não percebeu que o bom mesmo é não respeitar. Nem a si mesmo. Respeito, mais que é bom e eu gosto, é uma das poucas atitudes que se pode tomar unilateralmente: “Vou respeitar mesmo sendo desrespeitado.” Coisa de idiota.

Há quem se sinta idiota por ter um dia votado em você, pensando que votava contra o Collor, o Sarney e o Maluf. Você, não: você sabia muito bem que o Centrão – espécie ou o mesmo PMDBão de hoje – garantiu cinco anos ao Sarney quando este distribuiu aos amigos estações de rádio por todo Norte e Nordeste, provavelmente também pelas outras regiões do País. Sabia como sabe que rádio chega aonde a TV não chega, a High Lux não chega, nem o satélite chega. Que pelo rádio se pode inundar de esperança a alma dos que só vivem dela. Que as estações distribuídas pelo Sarney garantiriam a ele e a quem estivesse com ele o Poder Eterno - especialmente nos lugares em que o prefeito emprega todo mundo na prefeitura.

Há quem viva de ilusão e há quem viva de alusão. Você trouxe o Collor para o seu lado e, tão logo a candidatura do Eduardo foi lançada, aludiu ao seu atual aliado, ele mesmo, o mesmo Collor: “Esse negócio de eleger quem ninguém conhece já não deu certo uma vez”. E como deu certo pedir voto ao Maluf, Lula! Parabéns!

Já para a TV portuguesa, você disse que o julgamento do mensalão foi 80% político e só 20% jurídico. Você, que um dia disse ao Pedro Bial que o PT precisava pagar pelo que fez e que depois disse que o mensalão não passava de uma farsa. Que no mesmo programa – o Fantástico - tornou ainda mais célebre a frase de que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe. Ora, na origem, você já sabia que isso não passava de uma frase. Ou de uma farsa. À TV portuguesa você disse também que os presos na Papuda não eram da sua confiança - e já tem na ponta da língua a resposta: eles eram, mas deixaram de ser, por causa do mensalão. Se este foi uma farsa, se será um dia recontado, se o julgamento foi mais político que jurídico, - quem, afinal, assiste à TV portuguesa? E quem ouve o que você e os amigos do Sarney dizem ou dirão pelo rádio?

O problema da dobradinha – você de vice e Dilma de Rousseff – é que os mesmos amigos do Sarney não vão gostar, e esse negócio de ir mesmo sem base, você sabe muito bem, não dá. Ir no lugar dela trará a você a obrigação de desfazer o que ela fez, de admitir que o Tesouro Nacional não pertence ao Governo, é finito e não deve ser objeto de piratas - nem mesmo dos da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau -, o que será de uma antipatia imensa – e você, Lula, é simpático demais. Muito melhor que voltar é votar: o voto é secreto; você pode dizer que vai votar em uma pessoa e votar em outra, como pode declarar que votou em quem confia, mas que nunca foi da sua confiança.

Com a admiração de um idiota que tenta mais respeitar que desrespeitar, com o respeito de quem admira quem é capaz de rasgar a própria biografia e colá-la quantas vezes quiser com fita durex:

Vota, Lula. Vota.

4.26.2014

PIRATA DA PERNA DE PAU

PIRATA DA PERNA DE PAU


Saudosismos da Kombi têm sido a tônica. Atualmente o Brasil é uma Kombi na contramão, de marcha à ré, batendo na esquerda e na direita.


À esquerda, estatais como Petrobrás e Eletrobrás foram abalroadas pelos motoristas da Kombi, ambas perdendo valor de mercado e credibilidade - a segunda, ainda por cima, impedida de investir e dar retorno aos investidores: os que compraram suas ações espontaneamente e os que o fizeram e o fazem à revelia, na condição de cidadãos. Majoritariamente, Petrobrás e Eletrobrás pertencem ao Estado Brasileiro; aos seus cidadãos. Menos produtividade, preço do produto forçado para baixo, menor credibilidade, menor capacidade de investimento, de produção, de benefícios indiretos, menor capacidade de financiamento, menor pagamento de impostos - diretamente proporcionais ao menor lucro e inversa e perversamente proporcionais ao prejuízo; logo, menos saúde, menos educação, muito especialmente para quem não paga impostos por não ganhar o suficiente. Uma conta doente, matematicamente negativa.


À direita, quem vem dirigindo a Kombi bate nas empresas privadas, que pagam mais caro pela energia que consomem, quando tolamente foram iludidas de que seria o contrário disso; diminui seus lucros, logo diminui sua capacidade de contratação de empregos e serviços; diminui os impostos que pagam. Menor arrecadação para os suicidas motoristas da saudosa Kombi e o povo a quem deveriam representar, que também vem sendo abalroado, atingido, amassado, enganado de que um pouco de inflação aqueceria a economia, como se um pouco de fogo na cortina pudesse aquecer seu quarto de dormir - ou de tentar dormir.


O programa Educação sem Fronteiras é uma bela iniciativa, com perna de pau: economia ruim, sem perspectiva de empregar aqui o que se aprende lá fora, vontade de voltar... nenhuma: é melhor ficar por lá, longe da nossa fronteira, longe da educação que não existe.


Bolsa família e cotas sem investimento paralelo, concreto e verdadeiro na educação? Dinheiro sem volta; vidas sem explicação ou sentido; olho de vidro.


Mexer na cereja do bolo, no setor elétrico; fazer escalas em viagens oficiais sem aviso ou motivo compartilhado com a população; parcerias com quem faz implante de cabelo (e não de vergonha na cara) na FAB: a cara de mau.


O pirata da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau existe e governa o Brasil como se fosse uma Kombi, em marcha a ré e na contramão.


Saudades da Kombi; saudades do Brasil.


Outubro vem aí. Seja o que a maioria quiser.

11.30.2013

ALGUÉM JÁ DEVE TER DITO ISSO, INCLUSIVE EU


Há canções do Caetano Veloso que vão ficar para sempre, mas uma recente foi como um tiro de espingarda com dois canos em duas coisas que a gente gosta: a Bossa Nova e a outra.

Um grande amigo meu quer desenvolver uma tese sobre o amor do brasileiro pelo lixo. De fato, é algo assombroso ver um indivíduo despejar lixo na água do mar onde ele se banha e na areia da praia em que se deita.

Dizer que tudo de ruim que acontece no Brasil é herança dos portugueses – “ah, as capitanias hereditárias...” - é o mesmo que faz um indivíduo que, na milésima sessão de psicanálise, ainda quer matar papai e namorar mamãe.

Só há um motivo para os portugueses terem colonizado o Brasil e por tanto tempo. Em matéria de navegação e expansão territorial, eles eram no mínimo tão bons quanto os melhores daquele tempo.

Quem era contra a privatização privatiza, quem era a favor da liberdade quer proibir, quem desfazia da mão de ferro na economia usa pés de ferro e com o mesmo guru: Delfim Neto. Pois é, Cazuza: Vemos o futuro repetir o passado, vemos um museu de grandes novidades.

Olha o arrastão entrando no mar sem fim.

Por ter lido há alguns anos a biografia de Simón Bolivar escrita por Moacir Werneck de Castro, respeitável jornalista e estudioso com nítida postura de esquerda, jamais engoli o título de bolivariano com que Hugo Chaves batizou seu regime de governo, que vai além-túmulo com Maduro. Eis que leio na epígrafe do livro de Enrique Krauze, respeitável jornalista, estudioso e defensor da democracia, o seguinte pensamento de Bolivar: “A continuação da autoridade num mesmo indivíduo com frequência tem marcado o fim dos governos democráticos.”

Enquanto os físicos definem que a frequência é o inverso do período, o Ministério do Bom Senso adverte: na tomada como na política, a melhor corrente é a alternada.


 

 

 

 

 

11.07.2013

E AÍ ELA CHOROU

Rosa organizou um seminário para alunos da Odontologia da UFSC. Fui convidado para ser o primeiro palestrante. Dei o título à minha palestra de “Mercado de Trabalho - Anseios, Expectativas e Realidade”. Especialistas em Marketing e Psicologia, entre outras áreas, farão outras palestras hoje e amanhã. A proposta do seminário partiu da Rosa; surgiu de um pedido de ajuda de uma aluna, que comentou que havia alunos receosos do que vão encontrar pela frente em suas carreiras, incluindo casos de depressão. O auditório deve ter uns 80 lugares e estava lotado, principalmente por jovens estudantes, além de alguns outros professores mais ou menos da minha geração. Juntei na minha memória tudo o que consegui sobre as mudanças no Brasil e no mundo desde o tempo dos Beatles até hoje e os impactos disso nas vidas, profissões e mercados de trabalho; perguntei a eles se o país e o mundo haviam melhorado, piorado ou permanecido a mesma coisa, até tratar do tema propriamente dito, fazendo idas e vindas, provocações, sugestões e constatações – por exemplo, a de que o país hoje vive uma democracia e tem uma moeda com nome e valor conhecidos; que a odontologia, especialmente no Brasil, teve progressos extraordinários; que o mundo é mais perto do que já foi e o interior do Brasil permanece pedindo para ser desbravado e desenvolvido; do surgimento nos anos setenta e oitenta do século passado do conceito do desenvolvimento sustentável e da sustentabilidade, que considero um marco na história, por trazer a constatação de que, sim, somos bichos que pensamos em desenvolvimento econômico, mas que podemos fazê-lo sem culpa, desde que pensando também nas futuras gerações, tratando os outros com respeito, pensando nos benefícios da inclusão social e na necessidade de conservar os recursos naturais. Mencionei o óbvio: as escolhas são sempre difíceis, mas são escolhas, próprias; e que cada pessoa é uma entre sete bilhões de uma espécie entre outras sete bilhões de espécies - e que cada um de nós é único, não há ninguém igual a ninguém; não há réplicas nem das nossas impressões digitais nem das que temos do mundo e do universo. Também falei da dificuldade do que parece fácil e não é: o autoconhecimento, lembrando a célebre frase inscrita em uma pirâmide egípcia: Conhece-te a ti mesmo. Comentei que não conhecia o Egito e que, infelizmente, neste momento, não tenho muita vontade de fazer turismo por lá.

Terminada a palestra, uma moça linda, muito loura e de olhos muito azuis, veio a mim e me perguntou se de fato eu tinha dito que não tinha vontade de fazer turismo no Egito. Eu disse que sim, por medo da guerra. “Pois eu passei dois meses lá e a realidade é outra, diferente do que a mídia mostra, eles são um povo extraordinário, eu deixava minha bolsa largada em qualquer e canto e ninguém mexia, e se as pessoas continuarem a ter esse preconceito, a situação deles só vai piorar, eles precisam de turistas para que possam sair da crise em que estão.” Eu pedi desculpas e agradeci a ela ter-me dito isso, e que ela deveria dizer isso à plateia, logo antes da próxima palestra. Ela me disse que tinha vergonha; eu propus que a Rosa dissesse, então, incluindo meu agradecimento por ela me ter aberto os olhos e destruído mais um medo e um preconceito dentro de mim. “O senhor falou na possibilidade de se ir para o interior se essa for nossa escolha, e eu quero ir para a Índia, e as pessoas me perguntam por que, e eu digo que lá eu vou ter mais chances de ajudar as pessoas do que se eu for para os Estados Unidos.”

E aí ela chorou. Seus lindos olhos azuis se encheram de lágrimas. Eu dei uma beijo em sua testa e disse, Daqui a pouco, serão dois chorando. É o que faço, agora.

Obrigado, Professor Ricardo, Professora Joeci, Rosa, minha mulher. Muito especialmente, obrigado a você, linda lourinha chamada Mariane, seus lindos olhos azuis cheios de vida, ideal e lágrimas que, sem querer e tão tolamente, causei.

9.19.2013

Rimas Infringentes

Aos infratores importantes
Idealistas? Ideólogos? Indecentes? Todos gananciosos prepotentes,
Infringentes.
Aos reles,
Correntes. Estes,
quando libertos ou fugidos,
Dementes, incendeiam
O transporte dos inocentes.
Nos dois casos, o risco
Do circo do eternamente.
Nem por isso
nos tornaremos
de todo descrentes.
Depois do voto vil e absurdo, sinalizam com sua extinção - e completamente.
Se nos confundem, vilipendiam, exaurem,
não é a esperança que é nossa persistente.
Nossa indignação,
mais que latente,
nos é

Imanente.

8.24.2013

SENTIDO


SENTIDO

A casa em ruínas da esquina onde à porta moravam mendigos foi demolida, mantendo-os em sua condição de moradores de rua, apenas sem ter uma porta e um muro como referência. Agora se sabe que a casa servia de insuspeito depósito de uma fast food, e é de se observar que não há nada cientificamente comprovado quanto a possíveis benefícios do armazenamento de fast food em uma casa em ruínas, ainda que com mendigos de guarda à porta.

Em outra esquina, junto ao muro de um supermercado, um jovem estirado lembra uma canção de João Bosco e Aldir Blanc. Pessoas rondam, especulam, acham que ele está morto. Aparece um amigo meu, que faz o que eu não tive coragem de fazer: aproxima os dedos do nariz do homem deitado na calçada, não se dá por convencido e os encosta na testa dele, para depois dizer:

- Ele está quente. Se está quente, está vivo.

Alguém comenta:

- Ele sempre se deita aí.

E assim voltamos à normalidade: mendigos drogados nas calçadas, fast food à procura de casa em ruínas para servir de depósito, nós, quentes, logo vivos.

7.20.2013

A FÁBULA DO DISTRAÍDO


 

 
Era uma vez um palestrante de sistemas de auditoria que disse que há um estudo muito sério que concluiu que, independentemente do sexo, lugar, grupo, instituição, grau de instrução, país ou continente, o percentual de pessoas absolutamente éticas é de 10%, enquanto que o das absolutamente antiéticas é também de 10%. Não conheci o estudo citado, mas posso afirmar que o palestrante era muito sério. E não sei se ele não disse ou se disse e eu me distraí; sendo assim, digo eu: a relativização – o Aí depende - porque passam as outras 80 em cada 100 não necessariamente é uma questão de preço; pode ficar em searas como a do Se não está escrito que não pode, então pode; ou, Se está escrito, pode ser interpretado. E pode não haver o escrito, mas, em seu lugar, o dito - quando o que prevalecerá, para as mesmas 80 de cada 100 pessoas que têm lá suas dúvidas, será, Se ele não disse que não pode, então pode; ou, Ele disse que não pode, mas não é bem assim, ou não tanto assim. Há cada vez mais coisa escrita e mais coisa dita, e vai ficando cada vez mais difícil ler, ouvir, compreender e interpretar. Mas há períodos da vida de qualquer pessoa que não pertença à classe das 10% absolutamente antiéticas em que nada disso é necessário - independentemente do sexo, lugar, grupo, instituição, grau de instrução, país ou continente -, quando acaba por prevalecer algo que foi intuído ou aprendido logo na primeira infância: o seu direito acaba onde o do outro começa. Por isso que fico por aqui.

7.14.2013

O TÍTULO

Meu primeiro grande título, como o de muitos brasileiros, não foi da seleção nem do time de coração na infância, ainda que estes tenham acontecido primeiro. Escolher entre MDB e ARENA, sim, foi modesta, tolhida e ao mesmo tempo imensa conquista para mim e outros da minha geração. Nosso primeiro grande título foi o de eleitor.
Partidários defendem seus partidos e há os que prefiram ideologias, como a do Estado perfeito ou a do Mercado perfeito. Alguns querem a volta dos militares ao Poder, outros, que o protesto se torne regra, palavra de ordem, aclamação. Modesto ou pretensioso, o eleitor prefere escolher; votar; e poder defender seus direitos.
Também não foi no Fantástico que conheci a professora chegando na escola improvisada montada no lombo de um burro, mas pessoalmente, por força da profissão de engenheiro. Posso dizer sem orgulho e muito menos preconceito que conheço bem muitas das cidades do interior do Brasil, como quase todas as capitais dos seus estados. É um erro pensar que alguém sem instrução e com poucos recursos vote mal, da mesma proporção que acreditar que quem sabe votar é o instruído e com recursos, desta ou daquela cidade ou região. Pelé não estava totalmente errado quando disse (em péssima hora, não se discute) que o brasileiro não sabe votar. Ninguém sabe votar e, por isso e em aparente paradoxo, existe a democracia. Se não se sabe a verdade, que seja feita a vontade: a da maioria e não a de uma classe, região ou de um só.
Tanto há políticos quanto ditadores que se mostram (sabendo que não são) donos da verdade. Há quem acredite que eles sejam e goste de repetir o que eles dizem, por paixão ou preguiça de pensar. Tomemos o passado recente como exemplo. Partidários de Lula afirmam que FHC destruiu estatais para depois vendê-las, quando o que de fato ocorreu é que o Estado empreendedor tinha virado propriedade de uns poucos e o dinheiro do Estado empreendedor havia acabado antes do seu governo - e não restava alternativa ao País, que não a de convidar a iniciativa privada para investir. FHC, que nos deixou de herança a maldição da reeleição, tampouco propriamente deu dinheiro do Estado aos bancos, mas sim a quem tinha contas nos bancos – claro que, direta e necessariamente, favorecendo também aos banqueiros, mas, se assim não fosse, o que nos restaria? Um curralito? Esses que jogam pedra no FHC costumam endeusar Lula, esquecendo ou negando coisas que são inesquecíveis e inegáveis do governo dele. Os do lado oposto esquecem que o governo Lula manteve a fórmula aprendida por FHC depois de gravíssima crise de escalar um banqueiro à frente do Banco Central (dando a este independência), a economia (na maior parte do tempo) regulada pela razoabilidade e - sim, por um cenário favorável (na maior parte do tempo) na economia mundial, mas também por inegável competência de equipe –, o País com bons níveis de credibilidade, crescimento e baixa inflação.
E porque isso não acontece agora? Porque agora, no governo, temos alguém que não só se mostra como acredita que é dona da verdade; que pensa que entende melhor do que ninguém de economia e Banco Central. E até de medicina.
Mas não só. Todos, partidários, ideólogos ou eleitores, de esquerda, direita ou centro, caímos na desgraça do poder pelo poder. Do continuísmo. Da falta de alternância. Do desaparecimento da oposição. Em uma palavra, fisiologismo.
Sem abrir parênteses, me parece pertinente lembrar que esquerda não é monopólio do marxismo – a expressão é anterior a Marx e suas teorias, como (e mais ainda) anterior a Lênin, Trotsky, Stalin, Fidel, etc. –, como direita não é monopólio de Hitler, Mussolini e tantos outros ditadores do século passado (que bom lembrar que isso é coisa antiga, de outro século!). Tampouco centro é ficar em cima do muro. Centro é ser eleitor, o que de trás pra frente não é verdadeiro, porque esquerda e direita – evidentemente - são muito, mas muito majoritariamente feitas de eleitores. Estes, sejam de esquerda, centro ou direita, na hora de votar vão pensar em seus interesses – o que é lícito – e nos do País – o que é muito maior que qualquer ideologia: é ideal.
Ideal talvez agora fossem novos comandos no Senado, na Fazenda e no Banco Central; que na economia fossem tomadas medidas supostamente impopulares, mas capazes de recuperar a credibilidade do País e este voltar a atrair e fazer investimentos, para o que também contribuiria uma drástica e racional redução da fisiológica e perniciosa quantidade de ministérios; que médicos e estudantes de medicina fossem consultados sobre as condições em que trabalham e fazem suas residências e não obrigados a engolir o que um governo pensa; e que o ministro da educação pudesse arregaçar as mangas e se dedicar de corpo, alma e ouvidos à sua pasta e não ficar pousando de porta-voz de plantão, explicando o inexplicável.
Ideal será que a Presidente perceba que não é (e ninguém mais acredita que seja) dona da verdade; e que sua base fisiológica seja capaz de pensar pelo menos em seu próprio interesse de ter a política como profissão, para que não caia em trágico e unânime descrédito.
Ideal será que o mandato da Presidente termine bem. Se assim não for, com o País em situação ruim, não será de reeleição ou de alternância que falaremos. Com ou sem título, apenas e tão somente trataremos do fracasso dos interesses e ideais da maioria.
Do nosso fracasso.

6.29.2013

O MOVIMENTO



Há fascistas no movimento. E neonazistas. E vândalos. Sou capaz de apostar que há marxistas e até estalinistas. Houve quem dissesse que há belgas, mas indianos não - paradoxalmente com insinuações de que somente determinadas castas e etnias estariam presentes.

Algo que não se discute: há apartidários e partidários.

Curioso é que não costumam falar de proporções e ninguém comenta que pelo menos um gênio esteve presente: aquele que disse a quem estava ao seu lado depredando uma placa, Maluco, essa placa é tua.

Era uma vez 1978, eu tinha 22 anos, era recém-formado em engenharia e havia uma ditadura. Um colega de faculdade e trabalho me perguntou se eu preferia o capitalismo ou o comunismo. Eu respondi, A democracia. Ele debochou de mim e me explicou que uma coisa era o regime político e outra o econômico.

Perdoem se insisto na minha redundantemente teimosa burrice: até hoje, entre o capitalismo e o comunismo, continuo preferindo a democracia.

Tão patético quanto propor uma constituinte específica, a ponto de ter que desistir dela no dia seguinte, é querer o impeachment de quem a propôs apenas por não aprovar seu governo. Eu não votei nela nem me tornei fã e talvez além de burro eu seja ignorante, mas me parece que não foi essa senhora que inventou a corrupção, como até o momento não houve indícios de que desta fosse cúmplice. Pelo contrário: com presteza, destituiu aqueles sobre os quais pesavam graves suspeitas e sobre seus cargos tinha o poder de fazê-lo. Há quem se esqueça de que, no Brasil, a democracia tem três poderes.

Outra passagem que acho pertinente é o comentário de um amigo meu, que, sabendo que há saudosos da ditadura, me disse, Eu sempre quis ser rei. Ora, digo eu, até para ser súdito a democracia é melhor.

Há quem exalte esse movimento como inédito, se esquecendo de que a história recente como a nem tão recente (1968) teve semelhantes, aqui e no mundo inteiro, inclusive com a percepção de mais de uma causa ao mesmo tempo. Nem a novidade da rapidez da comunicação deveria ser tida como aquilo de mais especial que ele trouxe, porque esse lugar está para sempre guardado para a acachapante desaprovação da (provavelmente) mais calhorda proposta de emenda constitucional surgida depois de 1988, ano em que o Brasil festejou a redescoberta do quanto é bom possuir uma constituição democraticamente construída.

Li no jornal que a senhora presidente pretende conversar com os estudantes pelas redes sociais. Melhor assim, presidente: conversar é melhor que pensar que se entende de tudo, porque também patética é a prepotência. E tão certo quanto eu jamais vá me dirigir à senhora como presidenta é que jamais vou chamá-la de prepotenta.

A causa sempre foi uma só.

Democracia, um beijo pra você.

6.19.2013

A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO – ROMANCE DE 2007 (MARIO BENEVIDES) – TRECHOS:

“Nada mais chamava a atenção de ninguém. Era normal a sucessão de guerras, desgraças, vilezas, grosserias explícitas e outras disfarçadas. Movimentos, protestos, marchas, armas de todo tipo, tudo (...) somente imagens coloridas. (...) O que fazer para chamar a atenção dos outros, ainda mais a ponto de provocar uma revolução? (...) Seria pacífica, sem tiros ou golpes de estado: uma revolução de mentalidade.”


“As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. (...) [A política] caíra em terreno ainda mais árido de interesse do que o experimentado pelas comunicações. (...) Nada mais parecia despertar o mais vago patriotismo – nem mesmo o velho futebol.”

“A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso. (...) Lá fora, indigentes, estudantes, burocratas, sobreviventes da vida nas ruas, atores e atrizes do Cerrado e arredores, índios e suas vestimentas características, índias inteiramente nuas, padres, freiras, estrangeiros radicados no país, profissionais de comunicação do mundo todo, militares, prostitutas, travestis, mulheres-crentes e suas tranças desalinhadas até a cintura, mulheres de pano na cabeça e no rosto, mulheres de tailleur e de minissaias e de calças despojadas e homens de terno e gravata e de bermuda, tipos os mais variados, alguns andando de um lado para o outro, enquanto outros preferiam sentar-se no chão e outros, ainda, deitaram-se. Todos em silêncio.”

(...)

“Desânimo nunca mais; imposições nunca mais; demagogia nunca mais; corporativismo nunca mais; inclusão, progresso econômico, financeiro e humano, sempre. Democracia sempre. Esclarecimento sempre. Cultura, educação, capacitação; respeito; ética - sempre. Punição por meio de prisão e/ou prestação de serviços comunitários, banimento e constrangimento por meio do mais absoluto ostracismo aos corruptos e corruptores. Assim foi.”

5.04.2013

UM APERTO


Eram nove e meia da noite de terça-feira, véspera do feriado do Dia do Trabalho. Eu esperava um taxi em uma rua erma, escura, onde se encontram modernos prédios de escritórios. O final da rua dá acesso a uma comunidade de pessoas pobres e suas casas pobres. Eu estava contente, havia acabado de cumprir uma tarefa difícil, dentro do prazo. O taxi demorava a chegar. Um sujeito de uns trinta anos, alto e magro, passando pela calçada do outro lado, me disse assim:

- Aí só trabalha gente rica, não é doutor? Só vejo entrar e sair carrão daí.

Ele atravessou, mas não inteiramente, parando no meio da rua sem movimento de carros.

- Deve ter gente de muito talento aí, não é, doutor?

Eu respondi que sim.

- O senhor sabia que tem pobre com talento, doutor?

Eu respondi que claro que sim, que eu sabia muito bem disso.

- Aqui perto, não sei se o senhor sabe, logo ali, virando a rua, tem uma comunidade. Nessa comunidade mesmo, doutor, tem muita gente de talento, que podia ter mais oportunidades.

- Eu sei disso – eu falei, não sem certo incômodo, mas pensei que, se ele quisesse algum ato violento, já o teria feito. Ele queira era conversa. Queria a oportunidade de dizer o que estava me dizendo.

- Posso me aproximar do senhor?

Eu disse que claro que sim. Ele chegou bem perto de mim. Vi que ele estava de camisa esporte, paletó e calça beges, calçando tênis. Ele passou a me falar me olhando nos olhos.

- Doutor. Já quiseram comprar a comunidade. Mas as pessoas não querem sair daí. Já moram faz muito tempo, querem...

- Que melhorem as condições de vocês e que deem mais oportunidades a vocês.

- Doutor, só tem gente boa aí.

Uma mulher bem humilde passou por mim e me cumprimentou, com o olhar baixo. Boa noite, doutor, ela me disse.

- Boa noite, eu respondi. O homem de paletó e calça beges me disse, em voz baixa e respeitosa:

- Não falei? Só gente boa, doutor. Depois:

- Não sei o que tem nesses prédios, se é hotel, shopping, não sei. Acho que as pessoas que trabalham aí também não sabem da nossa comunidade e que tem gente de talento bem aqui, bem ao lado desses prédios. Mas elas sabem, sim. Elas nos veem das janelas delas, devem ver.

Enquanto me fazia um convite para que eu um dia viesse visitar a comunidade, me assegurando de que eu seria muito bem recebido, o sujeito, me consultando antes se podia e depois de eu ter aceitado, me deu um firme, educado, caloroso aperto de mão.

Ele foi para a sua comunidade; eu continuei esperando o taxi.

3.30.2013

O PRIVILÉGIO

Quem me indicou o filme tem entre vinte e vinte cinco anos, mas as personagens são homens e mulheres aposentados, todos ingleses – aliás, bem ingleses, desses que até hoje ainda não entenderam como o império britânico ficou sem colônias. Uma viúva, que descobre que o falecido deixou dívidas; um marido e uma mulher frustrados (principalmente ela), porque, depois de uma vida dedicada ao serviço público, ficaram sem dinheiro para luxos; um juiz solteiro; outro solteiro que, com seus sessenta ou mais anos, marca encontros dizendo que tem menos de quarenta; uma solteira que se considera nobre; e outra, mais velha, que precisa fazer uma cirurgia na bacia e se acha ainda mais importante que a primeira. Todos vão parar no Hotel Marigold, “para idosos e bonitos”, que fica em uma das ex-colônias britânicas: a Índia. O dono, administrador, marqueteiro e faz-tudo do hotel é um bem-humorado indiano de uns vinte anos. Sua bela namorada não é a nora que a mãe dele gostaria de ter e tem um irmão que é metido a tomar conta dela. Se você ainda não assistiu a O Exótico Hotel Marigold, seja qual for a sua idade, fica a sugestão. Além da boa história e do elenco - por exemplo, quem faz a viúva é Judi Dench, a M do 007 na Operação Skyfall -, o filme traz uma preciosa observação: para os indianos, a vida é um privilégio, e não um direito.

Qualquer um de nós é um ser entre sete bilhões de outros seres de uma espécie entre sete bilhões de outras espécies. Um privilégio. A maior parte de nós não tem a maior parte do que os poucos de nós temos: onde morar, comida, roupa, medicina, estudo, liberdade de ir e vir, cultura, laser, trabalho. Estudar não é um saco – é privilégio. Trabalhar não é obrigação – é privilégio.

Provavelmente, a única coisa que não é privilégio é ter um governo, mas isso é um pensamento Marxista. Groucho Marxista: do Groucho Marx, que nos deixou pérolas como “Não entraria para um clube que me aceitasse como sócio”, ou “A humanidade, partindo do nada e com seu próprio esforço, alcançou as mais altas cotas de miséria". (É dele também a que diz “Esses são os meus princípios; se você não gostar, tenho outros”. A liberdade de associação de ideias é sua, não vou eu me meter a besta de tirar de você esse privilégio.)

A vida é um privilégio e assistir a filmes como os do Groucho Marx e os aqui citados é outro, que faz parte do primeiro. Boa vida pra você. E bons filmes.

3.23.2013

NO ANIVERSÁRIO DE 19 ANOS DE MARIA LUIZA

Hoje, Maria Luiza faz 19 anos. Assim que ela nasceu, fiz uma canção com um amigo meu, o engenheiro, violonista e compositor Sebastião Coelho. Faz tempo que não vejo o Tião. Ele deve continuar lá no Rio, mais precisamente na sua Maricá, enquanto que eu, em 2000, me mudei com a família para Florianópolis, onde moro até hoje. Os primeiros versos que fiz para a nossa Sonata de Maria Luiza dizem assim:

Quando a bruxa, no alçapão,
Traiçoeira me calar e me prender,
Minha voz, nessa canção,
Dirá bem mais do que eu tinha a dizer.

Enquanto Dona Bruxa não vem, eu e Maria Luiza temos compartilhado muita coisa. Acho que um ano depois que chegamos a Florianópolis, ela, com seus oito anos, escreveu uma frase que deverá ser a epígrafe do romance que pretendo lançar este ano, e que saiu num mural do Colégio Catarinense:

Bonita cidade, quero menos velocidade.

Tenho certeza de que vários desejos de Maria Luiza foram atendidos, mas esse, particularmente, não: os carros aqui estão cada vez mais velozes, a não ser quando parados em engarrafamentos, que vão se tornando uma triste constante nessa ilha tão bonita.

Outro desejo não atendido da Maria Luiza foi montarmos a peça que eu escrevi quando ela estava com os mesmos oito anos, chamada “Oh! Cacatua!”. Na peça, a cacatua do título chega a Florianópolis trazida da Austrália por fortes ventos: ventosamente. Não tive medida no número de personagens e o resultado é que a peça nem chegou a ser ensaiada. Mas deixamos gravado um trecho, onde eu imito as vozes de outros personagens e Maria Luiza diz as falas da cacatua com grande convicção e ótima entonação. É só uma questão de acharmos a fita gravada e o texto, que começamos tudo outra vez – mas só se Maria Luiza quiser.

Um pouco depois, foi ela que escreveu um livro infantil, que temos até hoje em casa e que um dia, se Maria Luiza quiser, publicaremos, com os mesmos desenhos feitos por ela para ilustrar o texto.
Já no ano retrasado, quando estava se preparando para o vestibular, Maria Luiza escreveu um conto, que publiquei no mariobenevides.blogspot.com e foi bastante elogiado, inclusive por profissionais das letras.
Podemos não ter montado até hoje “Oh! Cacatua!”, mas vivemos um monte de coisa juntos. Assistimos a seriados americanos de comédia, retratados por ela em caprichados desenhos em mais de um Dia dos Pais ou de meus aniversários. Quando ela estava ainda com dois anos, passeamos de mãos dadas pelo acostamento da estrada para São Lourenço, enquanto Rosa, minha mulher e mãe dela, descansava um pouco da bela mas tortuosa sucessão de curvas da estrada.

Dividimos, eu e Maria Luiza, muitos e cabeludos exercícios de matemática e português. Houve um certo binômio de Newton que não quis se revelar na noite dos estudos, mas, na manhã seguinte, indo para o aeroporto, eu consegui passar a solução para ela, que me disse, eu achei o mesmo resultado, papai.

Houve uma época em que eu viajava tanto, que Maria Luiza me desenhou em um avião da TAM com um telefone e um fio espiral saindo da janela do avião até chegar a ela na terra.
Na viagem que os três fizemos juntos no começo deste ano, Rosa nos fotografou de costas, caminhando por uma rua de Paris, eu com minha mão esquerda no ombro esquerdo da minha filha. Não fosse a foto feita por Rosa, jamais me seria possível ver essa cena, que tanto diz dessa nossa relação de pai e filha.

Hoje Maria Luiza faz 19 anos. Está cursando o segundo ano de medicina, faz balé na Escola Arte-Dança trabalho voluntário em uma clínica. Tem um namorado que é gentil com ela, o que nos deixa muito felizes, porque gentileza é algo muito precioso. Que o namoro deles dure o que durar, sempre com essa gentileza que percebemos entre os dois.

A última estrofe da minha sonata com Tião Coelho, feita para Maria Luiza assim que ela nasceu, se parece com a primeira, mas com uma pequena diferença:

Quando a bruxa, no alçapão,
Traiçoeira me fizer de seu refém,
Minha voz, nessa canção,
Dirá do tanto que eu te quero bem.

Enquanto Dona Bruxa não vem, digo eu mesmo: minha amada filha Maria Luiza, teu pai te quer muito, muito bem. Todo o que houver no mundo, todo o que for de todo mundo, todo o que for merecidamente somente teu.

3.06.2013

HERÓIS



Uma volta em um quarteirão de São Paulo.
Indignados sacos de lixo esperam o caminhão que os carregue
Dali.
Entre duas esquinas,
Um restaurante italiano e um botequim
Me lembram Adoniran Barbosa.
Outro Barbosa, Joaquim,
Não sem depois se desculpar,
Me lembrou (não Carlitos) Carvana.
Vai chafurdar, vagabundo.
Não posso. Não podemos, Senhor Ministro.
Assim como Vossa Excelência,
Vamos todos trabalhar.

12.08.2012

NIEMEYER, JOBIM, NELSON RODRIGUES... E UM PEQUENO TRATADO SOBRE A BURRICE


Em meu poema “O Burro”, expresso minha opinião de que a burrice humana se difere da do animal propriamente dito, por ser este uma espécie de José Régio em seu “Cântico negro”: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. Acontece que ambas têm este ponto em comum: a vontade.  O burro empaca por vontade, a digna vontade de não ser montado ou carregar coisas para ele inúteis. Pessoas, geralmente sem passar nem perto de alguma expressão da dignidade, optam pela burrice – aquela que é exclusivamente humana.

Quando eu era professor particular de Matemática e Física, mais de uma vez tive alunos cujos pais me diziam para que eu não perdesse meu tempo, porque o aluno ou a aluna – a filha ou o filho deles – era uma pessoa burra. Aqueles pais escolheram que seus filhos fossem burros. Nesses casos, meu trabalho não era exatamente ensinar Matemática ou Física, mas convencer aquele ou aquela adolescente (será que eu deveria dizer adolescenta?) de que ele ou ela não sofria de modo algum de burrice. Modestamente, ajudei-os a passar de ano e também a que fizessem a opção certa: a de não imitar seus pais, já que seus pais, por opção deles, pai e mãe, eram os verdadeiros burros, humanamente burros.

Uma das célebres frases do amigo do Oscar Niemeyer Tom Jobim é: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Pela vontade de alguns, Oscar Niemeyer seria condenado à forca depois de morto, porque era comunista. Pior ainda: Niemeyer era comunista e rico – coisa que não pode ser admitida pelos idiotas da objetividade. (Sua benção, Nelson.) Eu nunca fui comunista, por pensar que Marx e Engels, em seu Manifesto, acertaram no diagnóstico mas erraram na receita. Porém sou capaz de adivinhar que o igualitarismo sonhado por Oscar não era o da mediocridade. Li numa das mensagens que recebi que ele teria mamado nas tetas do poder público. Funcionários, empregados, profissionais autônomos, empresários, uni-vos! Ser pago pelo trabalho que se faz é mamar nas tetas de outrem! Outra pérola: alguém que não conheço, cuja mensagem me foi repassada por um amigo de quem costumo discordar e por isso sempre me faz lembrar Voltaire, disse que não podia opinar sobre a obra de Niemeyer por não ser arquiteto. Atenção. Se você estiver ouvindo Mozart ou Beatles neste momento, se não for músico, desligue o som. Se não é jogador de futebol, quem é você, que não sabe o que diz, alô Noel, para chamar Pelé e Messi de craques? E não venha me dizer que gosta da Maia Desnuda, a não ser sem roupa e com óleo e pincel no bolso.

Pior do que a clara opção pela burrice de não sentir o prazer de ter nascido no mesmo país do Niemeyer – que equivaleria a de um argentino de debochar de Jorge Luís Borges – é a covardia. Esperaram o ancião morrer para cuspir e espalhar uma medíocre, típica inveja do sucesso. Tom Jobim neles.

Claro: desde que sejam músicos. O que, convenhamos, é pouco provável.