3.15.2015

Ter estado lá


Estive no comício das Diretas Já. Depois – santa ingenuidade -, estava na orla de Ipanema participando da campanha do Lula contra o Collor. Não estive entre os Caras Pintadas – hoje, gostaria de ter estado. Hoje, estive, estava, estou. De corpo, cara e alma lavados.
 

3.01.2015

ALIENAÇÕES


Há gente importando carne maturada em cerveja do Japão. Japonês quando vem a uma churrascaria brasileira tira fotos das peças de carne. Todo mundo sabe que o Brasil é exportador de carne. Quem importa carne do Japão provavelmente está importando carne brasileira. Quem faz esse tipo de coisa vive em outro planeta e faz questão de mostrar que seu planeta é outro; um caso típico de alienação.

Há pessoas alienadas porque alijadas da informação e educação, como há quem se aliene lendo e ouvindo exclusivamente aquilo que pertença a uma única doutrina, e a tudo defende com base nos mantras que ouve e repete, às vezes com ares de superioridade, não raro com grosseria. Esses, em breve, estarão mais que alienados: isolados, porque ninguém aguenta chatos por muito tempo.

No governo, há vários ministros alienados dos seus ministérios, e três com destaque: o dos esportes, o da educação e o da ciência e tecnologia. Já a presidente é alienada do país que pretensamente governa e isolada do ministério, do congresso e da população; até de seus eleitores se isolou.

Serão os que querem o impeachment alienados?

Quais são os maiores interessados no impeachment? No exclusivamente da presidente, Michel Temer; no de ambos, uma extensa lista, que começa com Lula, passa por Aécio e Marina e vai até Bolsonaro. Os provisórios – presidente da câmara, do senado e do STF – são também interessados, especialmente em recursos capazes de tornar provisoriedade permanência.

O que se podia querer é um governo que se interessasse e tivesse respeito pelo país. Por exemplo, um ministério com 2/3 dos 39 ministros que o compõem facilitaria um bocado a tarefa do Mãos de Tesoura. Ministros afinados com seus ministérios trariam credibilidade e fariam jus ao dinheiro que investimos nos seus salários e suas funções. Aqui no Brasil, vira e mexe se esquece de que eles que governam são pagos por nós, e não o contrário. Se não estamos satisfeitos, mandar embora, pedir a troca, é nosso direito. A presidente deve ter notado que sua maldita base já deixou de ser base há tempos; então porque não despacha logo os incompetentes, canastrões e vis? Se ela for refém de alguma coisa, que acuse a condição e peça socorro. Se for cúmplice, aí a história é outra; se assim for provado, e a depender do quê, vamos, sim, querer mandá-la embora, e nos restará escolher entre os que se apresentarem. Sempre bom lembrar que na democracia os patrões somos nós. Sempre bom não esquecer que intervenção militar são fuzis apontados para dentro de casa, para nossas caras, nossos narizes.

 

2.22.2015

ALMADA


O momento é de tristeza, mas ele não iria gostar disso. Nós nos conhecemos na Internacional de Engenharia, em 1984, ambos vindos de casamentos desfeitos. Após uma aula de um curso no centro do Rio, ele me convidou para um chope. Foi o primeiro de muitos, em muitas ocasiões. Uma vez, saiu para comprar cigarro e trocou de carro. Em outra, recebeu um telefonema, demitiu-se e foi morar e trabalhar em São Paulo. Depois, por causa de um projeto em Angra I, foi morar lá, em uma casa muito simples, à qual acrescentou uma enorme varanda com piscina e vista para o mar, e eu dizia que era o primeiro barracão com varandão e piscina que eu conhecia. Casou-se com Ângela, e os dois se mudaram para Cabo Frio. Eu já estava com a Rosa; numa das vezes em que fomos visitá-los, o pneu do meu carro furou; Anete, uma mulher de verdade, percebendo minha falta de jeito, trocou o pneu. Chegamos exaustos, mas qualquer cansaço desaparecia na companhia deles. Mais ou menos na mesma época, meu namoro com Rosa fazia um mês, e ele me chamou para um chope no Belmonte do Flamengo; depois, fomos à casa dos pais do André assistir ao jogo de despedida da seleção do Lazaroni. Acabamos a noite no Zepelim, que nessa época ficava em São Conrado. Inspirado por aquele sujeito de rompantes geniais, avisei à Rosa que me casaria com ela. No dia seguinte, telefonei a ela, e disse, Não se assuste, não estou pedindo você em casamento, apenas avisando que vamos nos casar. Fomos ao casamento de Almada e Ângela em São João Nepomuceno. Os dois foram morar em Juiz de Fora, nós, em Florianópolis. Falávamo-nos pouco por telefone, até que ele virou o furacão do Facebook, criando um grupo próprio, sempre publicando coisas interessantes. Faz uns dias, me ligou para saber de amigos dos tempos da Internacional de Engenharia. Falei da Sandra, no Facebook, e ele me disse que viria nos visitar, aqui, em Floripa. Ângela virá, espero que em breve. Ele fica na nossa memória, para sempre, nosso querido Almada.

2.14.2015

SER BOTAFOGUENSE

SER BOTAFOGUENSE
Gostamos de títulos, claro, e temos poucos, todos sabem. Poucos e bons. Sim, somos bissextos, o que não deixa de ser especial. Mais que títulos, nos agradam a arte e a história.

Heleno de Freitas, sua elegância, sua fúria e loucura.

Uma cortina que foi esquecida aberta, alguém que corre para fechá-la; um cachorro chamado Biriba.

Um drible de Garrincha em Newton Santos no treino em que o anjo das pernas tortas – assim o chamava o botafoguense Vinicius – se tornou titular da camisa sete com a estrela solitária, astro das seleções pioneiras de títulos mundiais e da bela biografia que mereceu, de quem, além de flamengo, era Garrincha, ele mesmo, Ruy Castro.

Um passe de Gerson e um gol de placa de Jairzinho, único a fazer gol em todas as partidas de setenta. Há ou houve outro na história do futebol que tenha feito isso? Que me digam os estudiosos.
Um gol e uma saudável presepada de Túlio Maravilha.

Um drible de Seedorf, uma defesa de Jéferson.

Não nos importam segunda nem terceira (que, ao contrário de alguns, ainda não frequentamos – e teremos a sorte de não frequentar). Não há divisões para nós, somos que nem nossa estrela: viajamos no tempo, meteóricos e atemporais, visitando a arte, contando a história.

O resto é tabela. O resto é calendário.

2.06.2015

PEQUENOS DETALHES DE NÓS TODOS

O ex-ministro estava certo, eu é que não tinha percebido a sutileza. O PT não dá luz aos fatos. O PT dá à luz os fatos.
 
O Brasil é um avião com rota incerta, sobrecarregado, com pouco combustível, mal pilotado, mal tripulado. Só nos resta alertar aos que estão dormindo: apertem os cintos, que o piloto não sumiu.
 
Estamos todos sofrendo billing. E bullying.
 
Não por falta de aviso.

1.26.2015

LONGAS E CURTAS


Longas e curtas

Agradáveis e competentes: A família Bélier e Belle. Gostei mais do primeiro, mas o segundo também vale. De dez anos atrás, nem sempre agradável, mas da categoria filmaço, Apocalypto do Mel Gibson, falado em maia. Assisti com legendas.

***

Chegando de Cancun antes da tragédia com o brasileiro de Jaraguá do Sul, hora e pouco antes de o avião chegar ao Galeão, uma moça atrás de mim disse que o piloto tinha mudado de rota. Ela e a Rosa foram à cabine, e em poucos minutos o comandante avisou que não havia combustível suficiente para chegar, por causa do peso e dos ventos. Antes de decolar, ofereceram 400 dólares para quem não tivesse bagagem e se dispusesse a sair do avião e viajar mais tarde. Copa Airlines. O avião pousou em Campinas para abastecer e depois seguiu para o Rio. Na parada em Viracopos, avisaram para desligar os celulares e deixar o corredor livre enquanto abasteciam. Um bacana carioca ficou plantado atrás de outros e outras bacanas de diversas partes da bacanidade (assim diria Sérgio Porto). O bonitão me puxa o celular dele do bolso e taca a dedilhar. Pedi que ele respeitasse as recomendações de segurança. Ele me disse que não iria desligar e que eu fosse de poltrona em poltrona falando pra todos desligarem seus aparelhos. Não é minha função, eu respondi. Então, porque me abordou? - perguntou. Porque estou preocupado com a segurança dela (minha filha), dele (alguém da frente), etc. Mas eu não vou desligar não - ele, taxativo. Que cidadão exemplar! - exclamei. Ele me disse que não estava preocupado com meu juízo a respeito dele. Claro - argumentei -, você não está preocupado nem com a própria segurança! E aí o cara ensaiou me ofender e a tal moça de trás interveio e eu dei uma gargalhada. Pouco depois, a comissária repetiu o aviso, e o que fez bacana? Dirigiu-se à poltrona que ocupava, sentou-se, desligou o celular e olhou para a janela, com - suponho -íum tremendo ar de bacana.

***

O entregador do sanduíche me pergunta por que o nome do cadastro é Maria. Minha filha, respondo. Pensei que fosse sua esposa. Ela se chama Rosamaria, eu esclareço.  E o senhor? Mario. Ah, então aqui é tudo na base do M. Na minha casa, por causa do meu pai, é tudo com W. Aí eu pergunto, Ah, e qual é o seu nome?

André.

***

Globo News Painel. Alguém diz que há muito tempo na Europa limpam, convertem e aproveitam água de esgoto para uso industrial. Por que não aqui? Chama o Aldo, ora.

***

Meu irmão postou reportagem do Pedro Dória – o mesmo autor de 1565, enquanto o Brasil nascia -, reportagem e livro sobre nossos antepassados Sás. Sugiro ao Luiz que convide o Dória para fazer parte do clã, como Sá honorário. Desde que não em substituição a mim. Nem em troca de um honorário Dória.
Ou chamo o Groucho.
***

Boa semana.

 

1.07.2015

ALUSÕES, CITAÇÕES E CONSIDERAÇÕES, SUPOSTO POEMA EM PROSA, QUEM DERA ALUCINAÇÃO, MUITO ESPECIALMENTE PARA FERREIRA GULLAR

De um guia de turismo no México: Mas, afinal, o que são 39 dólares para brasileiros? Petrobrás, mais quatro anos de Dilma...

Nunca vou deixar de admirar o talento de Chico Buarque, sua sensibilidade, seu humor, sua persistente, poética e musical crítica à ditadura. O que dói não é vê-lo defender o que sempre defendeu – uma ideologia. Que se foi com estátuas e muros derrubados, que se despede com a mão fantasma estendida ao suposto contrário, tosco espalmado sonho de liberdade fincado em outra ilha. Dói é não haver um único Renato, Cazuza ou Chico que cante contra a volta da piada no exterior, do puteiro para se ganhar dinheiro, das tenebrosas transações.

Sempre fui de esquerda sem nunca ter sido marxista. Se você acha isso impossível, não leu ou viveu o bastante. Muita vida, muita leitura pra você.

Sim, somos o outro lado. Nem Machado nem Sartre. Somos o inferno; somos os outros. Do mesmo lado que você, que pensa ter vencido e levou para casa as batatas.

Se eles montassem a estratégia de poder eterno comprando votos para sempre com o dinheiro deles já seria uma ofensa. Com o nosso e além de tudo, falta de educação.

Esporte é arte, é educação. Educação é...

Senhores desejosos do controle do que pensamos, constatamos e dizemos, será vosso ídolo o que prendia e arrebentava os que não fossem democratas como ele?

Amigos petistas, continuem nos atirando suas pedras: elas não nos atingem: as que nos ferem são feitas de um ouro escuro, roubado de quem nunca o teve. Nem nunca terá. Ou a ficha ainda não caiu?

Eu não dou uma esmola a um pobre que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. Aos que pensamos assim – não é, Gonzaguinha? -, que nos chamem de imbecis: sempre tivemos um fraco por elogios. Que Manoel de Barros nos abençoe.

Ao invés de 39 ministérios e seus ministros, 39 ministros e seus ministérios.

Nunca na história deste país um eleitorado foi tão bem enganado como o deste do PT, tanto dos desinformados quanto dos informados. Não por falta de aviso, mas por excesso de paixão, cartilha gasta e tantas vezes sequer lida, berros roucos tanto quanto falsos, scripts mal lidos, mal decorados, tudo disfarçado de argumento; de razão.

A razão é de todos ou não é de ninguém, Jorge Luís Borges.

Mais importante que a razão é a felicidade, Ferreira Gullar.

Borges, Felizes os felizes.

E O prazer do poema, tal como pesquisado, colecionado e reproduzido no livro de Ferreira Gullar.

O resto é o resto, quem dera alucinação.

11.27.2014

ADÉLIA

Meu pai disse a ela que a seleção do Brasil ia jogar contra a de Portugal.
- Ora, Seu Benevides, como vão jogar uns cá e outros lá?
Hoje, Cruzeiro e Atlético jogaram uns cá e outros lá. A partida foi no estádio do Cruzeiro, cá, com parte da torcida no estádio do Atlético, lá.
Adélia, não sei onde você está. Só sei que continuamos assim: no mesmo jogo, do mesmo lado, uns cá e outros lá.

11.02.2014

MEU AMIGO RUBENS FEZ 60 ANOS


Conheci o Rubens quando eu tinha uns dezesseis anos, e ele, acho que já tinha chegado aos dezessete. Estávamos em uma festa, eu fui dançar com uma garota, e o Rubens ficou fazendo caretas e sinais pra mim. Claro, perdi a garota, mas ganhei um amigo de uma vida inteira.

Rubens ontem fez 60 anos. Como em todos os aniversários, já teve umas três comemorações e terá outras tantas nos próximos dias, nos mais variados bairros do Rio de Janeiro. Continua o mesmo que eu conheci, com as mesmas feições, o mesmo físico, o mesmo bom humor quando tem razões para isso e, quando há motivos para ficar mais quieto e calado, é assim que ele fica, desde que nos conhecemos. E conhecendo o Rubens como conheço é que vivo me perguntando por que falam tão mal da dita terceira idade. A começar que essa é uma conta das mais estranhas. Tudo leva a crer que a primeira se encerre aos 40. Ora, do nascimento aos 40, quantas vidas em uma só se tem, não é? Aos três, aos sete, aos quinze, aos vinte e cinco, aos trinta... Difícil encontrar semelhanças no que vivemos entre idades tão próximas ou um pouco mais distantes umas das outras, nessa que deve ser a primeira idade.

A segunda é mais curta – pelo que posso depreender, vai dos 40 aos 59. Com mais precisão, até os 59 anos, 364 dias, 23 horas, 59 minutos e 59 segundos (espero não ter errado na conta: não fica bem para um engenheiro; mas que seja perdoável a um poeta). Aí, quando chega o primeiro segundo seguinte, a pessoa ingressa na terceira idade. Uau! O mundo acabou. Você pode até malhar e fazer Pilates, mas inevitavelmente passa a ser aquele velho encurvado sobre uma bengala, carregando o mundo nas costas a quem dão prioridade no check-in, ainda que no embarque convidem você com prioridade para a (sua) melhor idade – outra idiotice dos nossos tempos.

Até que não inventem a quarta, a terceira idade vai até a morte - que poderia, aliás, ter acontecido antes, e esse é o primeiro motivo para uma boa risada do e com o Rubens. Outra coisa: não moramos na faixa de Gaza, o que por si já é uma baita de uma sorte. Por que, então, lembrando Fernando Sabino, sair por aí caçando angústia? Por causa da idade? Ora.

Nascemos com a vocação para a exceção. Não se tem uma impressão digital única impunemente. Outra coisa. Devemos mirar nas exceções ou na mediocridade? Em uma época de roqueiros setentões na estrada cantando suas músicas, por que ficar por aí, já aos 50, dizendo que está ficando velho? Se há um Leonard Cohen elegantérrimo aos 80, compondo e cantando blues com o mesmo talento e a voz rouca de sempre, que história é essa de se aborrecer porque alguém ofereceu o lugar a você? Agradeça, ora. Se preferir, fique de pé e, a seu gosto, modesto ou altivo, diga, Não obrigado, estou bem assim.

Tenho outro amigo que conheço faz poucos anos, que já se aproxima dos 70 de idade: Júlio Pavese. Lê mais livros do que eu consigo comprar e enfileirar na estante, viaja, filma e fotografa mundo afora, tem uma vivacidade mental astronômica - um dos melhores papos que já conheci.

É em gente assim que eu me inspiro. Quando eu crescer, quero ser que nem eles.

Parabéns meu irmão Rubens, o mais novo sexigenário da praça. Muitas felicidades pra você.

 

10.29.2014

PREVISÕES

A postura autoritária dará lugar à negociação. A cada rodada, as partes dirão que sim, cada parte fará uma parte do combinado e ambas se dirão plenamente satisfeitas com o resultado.

Haverá uma denúncia, um espanto, uma investigação.

Um doleiro será ressuscitado e outro será criado, não se sabe ainda se no laboratório ou na mídia comprada.

O PRONATEC distribuirá mais médicos, o Mais Médicos, mais bolsas famílias, finalmente integrando os programas sociais.

Mais creches e escolas serão criadas em locais estrategicamente subterrâneos, e novos leitos hospitalares serão inaugurados nos corredores dos hospitais.

Um ministro será bem recebido pelo mercado e outro, nem tanto. O Banco Central será declarado Tombini, o que não alterará a constituição.

A escassez e os preços da energia pressionarão a inflação, que estará controlada por decreto.

Faltará água nos estados governados pela oposição. Nos da situação, o problema será a seca.

Um plebiscito dará lugar a um referendo que dará lugar a uma reforma que dará lugar a uma CPI.

Manifestações correrão o país e uma constituinte específica será criada acerca do direito das manifestações se manifestarem sempre que quiserem, mas com regras mais rígidas para o tempo na TV dos cientistas políticos.

As olimpíadas serão um sucesso e o desempenho do país nos jogos será ufanisticamente decepcionante.

As eleições municipais trarão surpresas, como prefeitos reeleitos e outros não reeleitos. Vereadores finalmente votarão pelo fim do FMI.

Serão 39, 38, 37, 40 ministérios, sendo que um para Assuntos Estratégicos.

A oposição interporá, embargará, questionará, pressionará, tudo resultando em uma emenda constitucional, seguida de um decreto revogando todas as disposições em contrário.

O mandato será de cinco anos, sem direito à reeleição, condicionada à aprovação de um novo mandato após o da reeleição, a não ser que o candidato da situação seja ele.

Obama virá ao Brasil e os apertos de mão serão dezesseis, com um soquinho no final. Dilma depois manifestará na ONU sua indignação: a aliança do presidente norte-americano era um captador de pensamentos. Obama se dirá impressionado com o que se passa na cabeça da presidenta, e um acordo será selado para que os pensamentos captados só sejam revelados 100 anos após a morte do que morrer por último, porque quem morre por último morre melhor.

E, para que não restem dúvidas quanto à precisão dessas previsões, daqui a quatro anos todos estarão quatro anos mais velhos. E experientes.

10.12.2014

DIA DAS CRIANÇAS


Hoje é dia das crianças e você dorme como se fosse criança

porque você é uma criança

porque eu gostaria de ser

assim como você.

É como se hoje eu começasse meu dever de casa:

mandar o chato do adulto que eu sou embora

todos os dias

só pelo privilégio de ter você ao meu lado

todos os dias.

Feliz dia das crianças

pra você e todo mundo

todos os dias.

10.11.2014

DIMINUIR AS DESIGUALDADES


À exceção de quem quer ficar em cima de um trono, carregado e adorado por uma multidão faminta, diminuir as desigualdades sociais é um desejo coletivo. É bom para o capitalismo como igualmente bom para o socialismo e também para o comunismo. Mais mercados para o capitalismo, mais serviços para o socialismo e mais trabalho para a ditadura do proletariado; menores discursos e raras interrupções da nossa programação normal. Desde que estejam na pauta, e que a pauta seja de muitos e para muitos, mais segurança, mais educação, mais saúde. Maior a sensação de plenitude tanto para religiosos quanto para céticos; e raros, curtos sermões (talvez, quem dera, sem decapitações).

Condição necessária para a distribuição de renda é a própria: a renda. Não há como se distribuir o que não há. Mas não suficiente: basta lembrar de quem deseja ser adorado em cima do trono. O capitalismo é capaz de distribuir renda, como o socialismo de estimular mercados. Para os dois, a condição que falta à suficiência da primeira – a renda - é a mesma: descer do trono. Já para o comunismo, é possível distribuir tudo o que existir enquanto existir.

Voltando à nossa programação normal, pensemos no que tem acontecido na história recente do Brasil. DE FHC a Dilma, viramos da centro-direita para a centro-esquerda. Mais liberalismo econômico no período de FHC até meados do segundo de Lula e, de lá para cá, mais centralização, intervenção e interferência. Maior arroxo quando era preciso atrair investimentos e destronar a inflação; mais recursos quando estes eram mais fartos, mantidos os fundamentos do crescimento sustentado e, com isso, crescimento e inflação com fome e sem trono. Quando este – o trono - retornou à cena...

Será o tesouro nacional infinito? Será propriedade de alguém, que não da população nacional? Será que não estamos perdendo tempo com umbigos alheios e rivalidades alheias? Afinal, o que de fato nos interessa? Melhor distribuição de algo que exista ou desvio de algo que é finito? Melhor investimento do que é finito para que se multiplique e possa ser mais bem distribuído, ou desrespeito ao capital que produz e multiplica? Melhor gestão do que há de mais parecido com o socialismo – o social -, ou a pauta de uma só para cada vez menos – menos escolas, menos segurança, menos hospitais, menos qualificação?

É indispensável sonhar, acreditar e exigir, mas é preciso, lamentavelmente preciso ser adulto.

Não estamos discutindo esquerda ou direita. Estamos discutindo centro-razoável-competência contra centro-indecente-irresponsabilidade.

Entre a porca corrupção pontual e a grotesca corrupção sistêmica, sim, queremos as duas atrás das grades. Mas é preciso, lamentavelmente preciso distinguir uma da outra.

É preciso, lamentavelmente preciso ser adulto. E decidir.

 

10.05.2014

POR QUE AÉCIO


Porque em dois debates Aécio foi vencedor.

Porque eleitor apartidário e sem fanatismo tem o privilégio da escolha.

Sim: porque é preciso derrotar o governo que implodiu a Eletrobras, explodiu a Petrobras e paralisou a Economia.

Sim: porque trocar ministros não fez como não fará diferença, porque é preciso mudar a cabeça, porque a cabeça é autoritária, dona da verdade.

Sim: porque a opção Aécio é o voto útil – para o Brasil.

Sim: porque endosso ao erro e omissão precisam dar lugar à esperança; ao voto.

Em Aécio.

Florianópolis, 5 de outubro de 2014, mariobenevides.blogspot.com.

7.13.2014

Diana e os Quartetos de Domingo (para meu xará e amigo Mario Robson Costa e todos os demais)


O dia é sábado. Amanhã não quer ver ninguém bem.
(Vinicius de Moraes, o Dia da Criação.) 

Diana sonha com o avô.

No coreto da praça
o negro de smoking toca trompete (sax? trombone?)
com o quarteto de que é parte.
Na praça

outros homens de smoking
mulheres de longo
andam perdidos.
Um louco maltrapilho

sobe os degraus do coreto
pede ao quarteto que interrompa a marcha
limpa a garganta e passa a falar
em voz alta.

Porque hoje é domingo
aqui faz sol
neva em algum lugar
em outros chove.

Porque hoje é domingo
algo se fechou para sempre.
Todos vão dançar a música do coreto
sozinhos aos pares aos trios em quarteto.

Porque hoje é domingo
de música de coreto de praça
amanhã será sábado
e vai querer ver todos bem.

Porque hoje é domingo
que alguns chamam de dia do sol
outros de Deus
é aos perversos que vou me dirigir.

Perversos: a vida se faz de estilhaços
onde o sol reflete o baile
segue o baile 
tudo começa outra vez.

Perversos.
Vocês só sabem do mal que fazem;
perversos: vocês não sabem
o que estão perdendo.

Foi quando Diana acordou.

5.01.2014

VOTA, LULA


Caro Lula:

Sou um desses idiotas que mais que respeitam que desrespeitam. A maioria é assim, porque ainda não percebeu que o bom mesmo é não respeitar. Nem a si mesmo. Respeito, mais que é bom e eu gosto, é uma das poucas atitudes que se pode tomar unilateralmente: “Vou respeitar mesmo sendo desrespeitado.” Coisa de idiota.

Há quem se sinta idiota por ter um dia votado em você, pensando que votava contra o Collor, o Sarney e o Maluf. Você, não: você sabia muito bem que o Centrão – espécie ou o mesmo PMDBão de hoje – garantiu cinco anos ao Sarney quando este distribuiu aos amigos estações de rádio por todo Norte e Nordeste, provavelmente também pelas outras regiões do País. Sabia como sabe que rádio chega aonde a TV não chega, a High Lux não chega, nem o satélite chega. Que pelo rádio se pode inundar de esperança a alma dos que só vivem dela. Que as estações distribuídas pelo Sarney garantiriam a ele e a quem estivesse com ele o Poder Eterno - especialmente nos lugares em que o prefeito emprega todo mundo na prefeitura.

Há quem viva de ilusão e há quem viva de alusão. Você trouxe o Collor para o seu lado e, tão logo a candidatura do Eduardo foi lançada, aludiu ao seu atual aliado, ele mesmo, o mesmo Collor: “Esse negócio de eleger quem ninguém conhece já não deu certo uma vez”. E como deu certo pedir voto ao Maluf, Lula! Parabéns!

Já para a TV portuguesa, você disse que o julgamento do mensalão foi 80% político e só 20% jurídico. Você, que um dia disse ao Pedro Bial que o PT precisava pagar pelo que fez e que depois disse que o mensalão não passava de uma farsa. Que no mesmo programa – o Fantástico - tornou ainda mais célebre a frase de que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe. Ora, na origem, você já sabia que isso não passava de uma frase. Ou de uma farsa. À TV portuguesa você disse também que os presos na Papuda não eram da sua confiança - e já tem na ponta da língua a resposta: eles eram, mas deixaram de ser, por causa do mensalão. Se este foi uma farsa, se será um dia recontado, se o julgamento foi mais político que jurídico, - quem, afinal, assiste à TV portuguesa? E quem ouve o que você e os amigos do Sarney dizem ou dirão pelo rádio?

O problema da dobradinha – você de vice e Dilma de Rousseff – é que os mesmos amigos do Sarney não vão gostar, e esse negócio de ir mesmo sem base, você sabe muito bem, não dá. Ir no lugar dela trará a você a obrigação de desfazer o que ela fez, de admitir que o Tesouro Nacional não pertence ao Governo, é finito e não deve ser objeto de piratas - nem mesmo dos da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau -, o que será de uma antipatia imensa – e você, Lula, é simpático demais. Muito melhor que voltar é votar: o voto é secreto; você pode dizer que vai votar em uma pessoa e votar em outra, como pode declarar que votou em quem confia, mas que nunca foi da sua confiança.

Com a admiração de um idiota que tenta mais respeitar que desrespeitar, com o respeito de quem admira quem é capaz de rasgar a própria biografia e colá-la quantas vezes quiser com fita durex:

Vota, Lula. Vota.

4.26.2014

PIRATA DA PERNA DE PAU

PIRATA DA PERNA DE PAU


Saudosismos da Kombi têm sido a tônica. Atualmente o Brasil é uma Kombi na contramão, de marcha à ré, batendo na esquerda e na direita.


À esquerda, estatais como Petrobrás e Eletrobrás foram abalroadas pelos motoristas da Kombi, ambas perdendo valor de mercado e credibilidade - a segunda, ainda por cima, impedida de investir e dar retorno aos investidores: os que compraram suas ações espontaneamente e os que o fizeram e o fazem à revelia, na condição de cidadãos. Majoritariamente, Petrobrás e Eletrobrás pertencem ao Estado Brasileiro; aos seus cidadãos. Menos produtividade, preço do produto forçado para baixo, menor credibilidade, menor capacidade de investimento, de produção, de benefícios indiretos, menor capacidade de financiamento, menor pagamento de impostos - diretamente proporcionais ao menor lucro e inversa e perversamente proporcionais ao prejuízo; logo, menos saúde, menos educação, muito especialmente para quem não paga impostos por não ganhar o suficiente. Uma conta doente, matematicamente negativa.


À direita, quem vem dirigindo a Kombi bate nas empresas privadas, que pagam mais caro pela energia que consomem, quando tolamente foram iludidas de que seria o contrário disso; diminui seus lucros, logo diminui sua capacidade de contratação de empregos e serviços; diminui os impostos que pagam. Menor arrecadação para os suicidas motoristas da saudosa Kombi e o povo a quem deveriam representar, que também vem sendo abalroado, atingido, amassado, enganado de que um pouco de inflação aqueceria a economia, como se um pouco de fogo na cortina pudesse aquecer seu quarto de dormir - ou de tentar dormir.


O programa Educação sem Fronteiras é uma bela iniciativa, com perna de pau: economia ruim, sem perspectiva de empregar aqui o que se aprende lá fora, vontade de voltar... nenhuma: é melhor ficar por lá, longe da nossa fronteira, longe da educação que não existe.


Bolsa família e cotas sem investimento paralelo, concreto e verdadeiro na educação? Dinheiro sem volta; vidas sem explicação ou sentido; olho de vidro.


Mexer na cereja do bolo, no setor elétrico; fazer escalas em viagens oficiais sem aviso ou motivo compartilhado com a população; parcerias com quem faz implante de cabelo (e não de vergonha na cara) na FAB: a cara de mau.


O pirata da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau existe e governa o Brasil como se fosse uma Kombi, em marcha a ré e na contramão.


Saudades da Kombi; saudades do Brasil.


Outubro vem aí. Seja o que a maioria quiser.

11.30.2013

ALGUÉM JÁ DEVE TER DITO ISSO, INCLUSIVE EU


Há canções do Caetano Veloso que vão ficar para sempre, mas uma recente foi como um tiro de espingarda com dois canos em duas coisas que a gente gosta: a Bossa Nova e a outra.

Um grande amigo meu quer desenvolver uma tese sobre o amor do brasileiro pelo lixo. De fato, é algo assombroso ver um indivíduo despejar lixo na água do mar onde ele se banha e na areia da praia em que se deita.

Dizer que tudo de ruim que acontece no Brasil é herança dos portugueses – “ah, as capitanias hereditárias...” - é o mesmo que faz um indivíduo que, na milésima sessão de psicanálise, ainda quer matar papai e namorar mamãe.

Só há um motivo para os portugueses terem colonizado o Brasil e por tanto tempo. Em matéria de navegação e expansão territorial, eles eram no mínimo tão bons quanto os melhores daquele tempo.

Quem era contra a privatização privatiza, quem era a favor da liberdade quer proibir, quem desfazia da mão de ferro na economia usa pés de ferro e com o mesmo guru: Delfim Neto. Pois é, Cazuza: Vemos o futuro repetir o passado, vemos um museu de grandes novidades.

Olha o arrastão entrando no mar sem fim.

Por ter lido há alguns anos a biografia de Simón Bolivar escrita por Moacir Werneck de Castro, respeitável jornalista e estudioso com nítida postura de esquerda, jamais engoli o título de bolivariano com que Hugo Chaves batizou seu regime de governo, que vai além-túmulo com Maduro. Eis que leio na epígrafe do livro de Enrique Krauze, respeitável jornalista, estudioso e defensor da democracia, o seguinte pensamento de Bolivar: “A continuação da autoridade num mesmo indivíduo com frequência tem marcado o fim dos governos democráticos.”

Enquanto os físicos definem que a frequência é o inverso do período, o Ministério do Bom Senso adverte: na tomada como na política, a melhor corrente é a alternada.


 

 

 

 

 

11.07.2013

E AÍ ELA CHOROU

Rosa organizou um seminário para alunos da Odontologia da UFSC. Fui convidado para ser o primeiro palestrante. Dei o título à minha palestra de “Mercado de Trabalho - Anseios, Expectativas e Realidade”. Especialistas em Marketing e Psicologia, entre outras áreas, farão outras palestras hoje e amanhã. A proposta do seminário partiu da Rosa; surgiu de um pedido de ajuda de uma aluna, que comentou que havia alunos receosos do que vão encontrar pela frente em suas carreiras, incluindo casos de depressão. O auditório deve ter uns 80 lugares e estava lotado, principalmente por jovens estudantes, além de alguns outros professores mais ou menos da minha geração. Juntei na minha memória tudo o que consegui sobre as mudanças no Brasil e no mundo desde o tempo dos Beatles até hoje e os impactos disso nas vidas, profissões e mercados de trabalho; perguntei a eles se o país e o mundo haviam melhorado, piorado ou permanecido a mesma coisa, até tratar do tema propriamente dito, fazendo idas e vindas, provocações, sugestões e constatações – por exemplo, a de que o país hoje vive uma democracia e tem uma moeda com nome e valor conhecidos; que a odontologia, especialmente no Brasil, teve progressos extraordinários; que o mundo é mais perto do que já foi e o interior do Brasil permanece pedindo para ser desbravado e desenvolvido; do surgimento nos anos setenta e oitenta do século passado do conceito do desenvolvimento sustentável e da sustentabilidade, que considero um marco na história, por trazer a constatação de que, sim, somos bichos que pensamos em desenvolvimento econômico, mas que podemos fazê-lo sem culpa, desde que pensando também nas futuras gerações, tratando os outros com respeito, pensando nos benefícios da inclusão social e na necessidade de conservar os recursos naturais. Mencionei o óbvio: as escolhas são sempre difíceis, mas são escolhas, próprias; e que cada pessoa é uma entre sete bilhões de uma espécie entre outras sete bilhões de espécies - e que cada um de nós é único, não há ninguém igual a ninguém; não há réplicas nem das nossas impressões digitais nem das que temos do mundo e do universo. Também falei da dificuldade do que parece fácil e não é: o autoconhecimento, lembrando a célebre frase inscrita em uma pirâmide egípcia: Conhece-te a ti mesmo. Comentei que não conhecia o Egito e que, infelizmente, neste momento, não tenho muita vontade de fazer turismo por lá.

Terminada a palestra, uma moça linda, muito loura e de olhos muito azuis, veio a mim e me perguntou se de fato eu tinha dito que não tinha vontade de fazer turismo no Egito. Eu disse que sim, por medo da guerra. “Pois eu passei dois meses lá e a realidade é outra, diferente do que a mídia mostra, eles são um povo extraordinário, eu deixava minha bolsa largada em qualquer e canto e ninguém mexia, e se as pessoas continuarem a ter esse preconceito, a situação deles só vai piorar, eles precisam de turistas para que possam sair da crise em que estão.” Eu pedi desculpas e agradeci a ela ter-me dito isso, e que ela deveria dizer isso à plateia, logo antes da próxima palestra. Ela me disse que tinha vergonha; eu propus que a Rosa dissesse, então, incluindo meu agradecimento por ela me ter aberto os olhos e destruído mais um medo e um preconceito dentro de mim. “O senhor falou na possibilidade de se ir para o interior se essa for nossa escolha, e eu quero ir para a Índia, e as pessoas me perguntam por que, e eu digo que lá eu vou ter mais chances de ajudar as pessoas do que se eu for para os Estados Unidos.”

E aí ela chorou. Seus lindos olhos azuis se encheram de lágrimas. Eu dei uma beijo em sua testa e disse, Daqui a pouco, serão dois chorando. É o que faço, agora.

Obrigado, Professor Ricardo, Professora Joeci, Rosa, minha mulher. Muito especialmente, obrigado a você, linda lourinha chamada Mariane, seus lindos olhos azuis cheios de vida, ideal e lágrimas que, sem querer e tão tolamente, causei.

9.19.2013

Rimas Infringentes

Aos infratores importantes
Idealistas? Ideólogos? Indecentes? Todos gananciosos prepotentes,
Infringentes.
Aos reles,
Correntes. Estes,
quando libertos ou fugidos,
Dementes, incendeiam
O transporte dos inocentes.
Nos dois casos, o risco
Do circo do eternamente.
Nem por isso
nos tornaremos
de todo descrentes.
Depois do voto vil e absurdo, sinalizam com sua extinção - e completamente.
Se nos confundem, vilipendiam, exaurem,
não é a esperança que é nossa persistente.
Nossa indignação,
mais que latente,
nos é

Imanente.