10.20.2020

A ONU E OS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

A ONU e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

 

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade. Estes são os objetivos para os quais as Nações Unidas estão contribuindo a fim de que possamos atingir a Agenda 2030 no Brasil.

Do website da ONU.

 

A Organização das Nações Unidas foi fundada em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Atualmente é composta por 193 Estados Membros. O preâmbulo da Carta da sua criação, disponível em seu website[1], afirma:

Nós, os povos das nações unidas, determinamos salvar as gerações seguintes do flagelo da guerra, que duas vezes em nossas vidas trouxe tristeza incalculável para a humanidade, e reafirmar a fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos de homens e mulheres e de nações grandes e pequenas, estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito pelas obrigações decorrentes dos tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e promover o progresso social e melhores padrões de vida em maior liberdade.

 

Foi com esse espírito que em 2015 foram lançados pela ONU os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Também conhecidos como Agenda 2030, sucederam os Objetivos do Milênio (ODM), que tiveram como prazo o ano de 2015.

Enquanto os ODM eram oito, os ODS são 17. Mais específicos que os seus antecessores, cada um possui metas, com respectivos indicadores para que possam ser alcançadas em todo o mundo. Vale a pena listá-los aqui: ODS 1 - Erradicação da Pobreza; 2 - Fome Zero e Agricultura Sustentável; 3 - Saúde e Bem Estar; 4 - Educação de Qualidade; 5 - Igualdade de Gênero; 6 - Água Potável e Saneamento; 7 - Energia Limpa e Acessível; 8 - Trabalho Descente e Crescimento Econômico; 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura; 10 - Redução das Desigualdades; 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis; 12 – Consumo e Produção Responsáveis; 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima; 14 - Vida na Água; 15 – Vida Terrestre; 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes; e 17 – Parcerias e Meios de Implantação.

Embora a prioridade seja a ação de governos, os ODS também têm servido para pautar uma agenda de desenvolvimento sustentável para o mundo empresarial. Como divulgado no website da Bolsa de Valores – a B3 -, o “Raio X” da carteira de ações componentes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) de 2020 da Bolsa aponta que 98% das companhias, segundo suas próprias declarações, usam a Agenda 2030 e os ODS como referências para a sustentabilidade em seus negócios; e 93% declaram ter realizado uma análise de materialidade para identificar os ODS prioritários para suas atividades[2].

O conceito de desenvolvimento sustentável foi lançado oficialmente em 1987, no relatório da ONU chamado “Nosso futuro comum”, após muitos anos de discussões entre desenvolvimentistas e ecologistas, que, como se sabe, ainda perduram: desenvolvimento sustentável é o capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de suprir as necessidades das futuras gerações. Logo, o desenvolvimento sustentável é o que não esgota os recursos para o futuro, aquele em que se busca harmonizar o desenvolvimento econômico com a conservação ambiental, como se lê no website da WWF[3].

Infelizmente, em que pesem esforços de líderes de nações e compromissos firmados nas Conferências das Partes, como a de 2015 em Paris – a COP 21 -, há quem não os respeite e até desdenhe deles.

Aqui no Brasil, neste ano de 2020, em meio a uma pandemia que tem como sua mais comum e grave consequência problemas respiratórios, houve recorde de queimadas. Não deixa de ser curioso que a preocupação mais repetida seja a de que países estrangeiros poderão diminuir ou mesmo evitar investimentos em nosso país por causa do descaso com o Meio Ambiente. Muito mais do que isso, esse descaso, mentirosamente negado, vai na contramão do desenvolvimento sustentável, justamente comprometendo a disponibilidade de recursos já no presente. Basta ver o que diz a Embrapa[4]:

Sabe-se que a queimada altera, direta ou indiretamente, as características físicas, químicas, morfológicas e biológicas dos solos, como o pH, teor de nutrientes e carbono, biodiversidade da micro, meso e macrofauna, temperatura, porosidade e densidade. Sem falar no aumento do efeito estufa, na redução da qualidade do ar e da água, e da saúde.

 

Ainda segundo a Embrapa, “as queimadas podem ser abolidas pelo uso de tecnologias como práticas conservacionistas de solo e água e sistemas de produção sustentada”.

Sejamos otimistas. É de se esperar que em breve voltemos à civilização adequada ao século XXI. Voltando aos ODS, em sua opinião, qual ou quais deveriam ser priorizados no Brasil?

 

Sua opinião é muito importante. Sempre.

 

Um abraço,

 

Cidadão Mario.



[1]https://www.un.org/en/about-un/index.html.

[2][2][2] Fonte: http://www.b3.com.br/pt_br/noticias/b3-divulga-a-15-carteira-do.htm.

[3]https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/desenvolvimento_sustentavel/..

[4]Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Publicação de 2012, em https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/956695/impactos-das-queimadas-na-qualidade-do-solo---degradacao-ambiental-e-manejo-e-conservacao-do-solo-e-agua.

Todos os websites acessados em 19.10.2020.

 

9.11.2020

O MITO

 I – A operação Lava Jato

Mito é o primo rico da mentira e fato o primo pobre da verdade. Mito é fábula: a mentira criativa. Verdade cada um pode ter a sua, e o fato é a constatação.

Nada do que se fala aqui serve de consolo, nem de longe tem essa intenção, que é apenas mostrar como frequentemente mitos se passam por fatos.

O fato de que existe corrupção no Brasil há muitos anos criou uma série de mitos. Seria um traço cultural do Brasil, decorrente da colonização portuguesa. Há pesquisas que evidenciam fatos a desfazer esse mito. Em vez de lançar mão de algumas delas, vamos buscar o caminho da arte, que, mito ou fato, ora imita a vida e ora é por ela imitada. Erêndira, personagem de Gabriel Garcia Márquez, é obrigada por uma tia a se prostituir, e Tereza Batista, de Jorge Amado, é vendida por uma tia para satisfazer os ímpetos e crueldades sexuais de um homem. Dois exemplos a nos deixar, como em vários outros, presos ao dilema de quem imita quem. Voltando ao mito do ha ha hu hu, a corrupção é nossa, assista-se por exemplo à série e/ou ao filme SUBURRA, para conhecer um pouco da corrupção italiana contada por meio da ficção, mas com fatos de sobra, históricos e atuais, a embasá-la. Alguém será capaz de dizer, ora, italianos são latinos como nós, e por isso são corruptos. Assista-se então ao filme norte-americano A LAVANDERIA, com Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Bandeiras, baseado em fatos reais, que conta a história feita de muitas outras de corrupção, todas reais, fáticas, de empresas não só dos Estados Unidos da América como de uma, sim, brasileira. Ah, então a corrupção é do Novo Mundo e/ou latina. Uma das pedras que teimam em não sair desse sapato é o caso Lockheed, nome de uma empresa, sim, norte-americana, que nos anos 70 do século passado corrompeu poderosos alemães, holandeses e japoneses. A corrupção não tem pátria nem etnia, não faz parte de uma cultura, embora seja ela mesma, a corrupção, uma cultura.

Cuidado é preciso também quando se diz “somos corruptos”, a não ser nos casos de confissão disfarçada de justificativa.

A corrupção nunca tinha sido sistêmica. Fato ou mito, como saber? Ficamos sabendo da  sistemática da corrupção por meio da combinação de alguns fatores, alguns deles recentes em nosso país. No mundo inteiro, a investigação de práticas criminosas se torna a cada minuto mais dotada de ciência e tecnologia; no Brasil, a liberdade de comunicação e o jornalismo investigativo só foram ressuscitados entre 1985 e 1988, anos que ficaram marcados pelo fim do regime militar e ditatorial iniciado em 1964 e pela promulgação da atual Constituição da República Federativa do Brasil; e foi em 2013, há poucos sete anos, que entrou em vigor a Lei  nº 12.850, que define organização criminosa, e enuncia, em seu artigo 3º, que, em qualquer fase da persecução penal, serão permitidos, sem prejuízo de outros já previstos em lei, determinados meios de obtenção da prova - entre eles o da colaboração premiada (sim, colaboração e não propriamente delação, que deve ser compreendida como uma das espécies da primeira). Tecnologia, liberdade e método de investigação permitiram que conhecêssemos tamanho, abrangência e profundidade da corrupção em nosso país. A operação Lava Jato fez uso intensivo e extensivo dessa combinação.

O mérito da Lava Jato, uma operação policial, foi desbaratar esquemas e permitir à Justiça investigar, julgar e  - finalmente, e com base na Lei, algo próprio da democracia - punir corruptos. Infelizmente, esse mérito teve a empaná-lo o sensacionalismo, a vaidade e a falta de limites de alguns, a generalização conceitual em relação à política e a necessidade de muitos de acreditar em mitos. Promotores, procuradores e juízes não se confundem com heróis, e via de regra, heróis são mitos.

Agora, o gosto amargo da desilusão e decepção com respeito à Lava Jato bate na boca dos que acreditaram na mitologia que se criou em torno dela, que foi e é nada mais, nada menos que uma operação policial de investigação de suspeitos de corrupção.

II – O “Mito”

A disputa entre razão e emoção tem um dos seus momentos mais acirrados e perigosos nas eleições. A avaliação de riscos e oportunidades se fragiliza diante de verdades daquelas que cada um tem a sua, de raivas, medos e preconceitos, dos truques do marketing político e do estresse de um noticiário que se vale disso tudo, desde o racionalismo da avaliação até a exaustão da emoção, que também invade corações e mentes de quem dá as notícias.

Um dos mitos fabricados para nos diminuir como povo e enfraquecer nossa democracia é: o brasileiro não sabe votar. Ora. O mundo não sabe votar e por isso todo mundo vota, essa é a lógica da escolha, que se baseia como sempre na humana mistura de razão e emoção, a mesma lógica da democracia e do voto. Assim não se deve julgar o voto de ninguém. Nem por isso devemos deixar de analisá-lo, pelo menos para tentar evitar repetições muito perigosas.

As eleições de 2018 no Brasil foram mitológicas. A começar pelo “mito”. Mito é aquilo ou aquele que não existe, mas que se materializa na mente de algumas e às vezes de muitas pessoas. Há os que se identifiquem com o presidente eleito, mas mostram as pesquisas que não são a maioria. A bem da verdade, a com V maiúsculo, a omissão e mesmo a pusilanimidade de algumas lideranças políticas foram a causa mais importante e revoltante do que aconteceu em outubro de 2018. Mas outra de decisiva importância foi uma série de mitos capazes de iludir a maioria.

Meu partido é o Brasil, como se o Brasil fosse um único ser, de pensamento uníssono. Quem pautou sua vida pelo desrespeito seria o bastião da ética. Um expulso do Exército por indisciplina seria um disciplinado. Um evangélico que prega matai-vos uns aos outros e ama o torturador como a ti mesmo. Existiria uma nova política. Os militares seriam mais capacitados que as outras classes  – sim, para a defesa, mas para governos, que se visite a história, daqui e do mundo. Todo político é corrupto, todos os partidos são corruptos, habitados cem por cento por corruptos. Um partido que tenha membros corruptos é e será um partido corrupto. Houve aparelhamento do Estado – como se houvesse alguma agremiação política que ao chegar ao poder não fizesse isso. Um outsider, com sete mandatos de deputado. Um economista de quem nunca se tinha ouvido falar seria um gênio, um superministro. Militares seriam partidários do liberalismo econômico. O liberalismo e o Estado mínimo seriam a solução para o Brasil - mito morto infelizmente junto com mais de uma centena de milhares de pessoas, até o momento (e o presidente diz, E daí?). O defensor e enaltecedor de ditaduras, ditadores, tortura e torturadores não traria nenhum risco à democracia (e não diria “E daí?”), ou a ditadura seria melhor que a democracia, exceto a cubana e a venezuelana – pois veja-se o que está acontecendo aqui e agora: há suspeitas de cooptação de membros da justiça e do judiciário, exatamente como aconteceu na Venezuela. A ditadura foi boa para o Brasil – logo ela, que, entre outras sequelas, deixou uma colossal dívida externa e inflação sem controle, só derrotadas, a duras penas, pela democracia. O patriotismo, liderado, desde a campanha, por um fiel seguidor do presidente dos Estados Unidos.

Mito é o primo rico da mentira e fato o primo pobre da verdade. Nas próximas eleições, optemos todos pelos fatos, ainda que a fúria das nossas emoções se esforce a nos fazer perdê-los de vista.

8.25.2020

DILEMAS

 

Quando não cai a ficha, é o orelhão que cai (principalmente quando o orelhão nem existe mais). O Brasil é um país pobre. Não adianta ter o oitavo produto interno bruto do mundo com metade da população vivendo com menos da metade do salário mínimo (não se sabe como). Essa constatação poderia sugerir que políticas estruturantes associadas a outras assistencialistas por tempo determinado seriam capazes de aumentar o PIB e diminuir a pobreza. O atual governo optou por outra combinação: privatizar, deixar o mercado trabalhar e, por si, resolver; e destruir – respeito, ambiente, educação, saúde, cultura, inteligência, livro, diplomacia, instituições, democracia, laicidade... Agora, vive o impasse. Para conseguir a reeleição, terá que combinar assistencialismo com algo que não conhece, mas que guarda em sua composição quem pense que conhece: construir. Para essa nova combinação, terá que aumentar a dívida com dinheiro de quem foi convencido por ele, governo, de que a outra combinação é que estava certa (pensar em pedir dinheiro a quem se acusou de destruir florestas, por quem alegou que isso autorizaria a destruir a nossa, nem pensar, ainda mais quando todos estão mergulhados em resolver seus próprios problemas e dilemas - diria Sherlock Holmes, saudoso do sagaz Watson, a esses superintelectos governamentais). O “e agora, José” do nosso gauche Drummond, o ser ou não ser shakespeariano, tudo fichinha perto do que se vive hoje, nessa terra em que se plantando tudo dava. Do lado de cá, do povo, o dilema é: acorda, Rodrigo, ou empurra com a barriga, Rodrigo. Saudades do orelhão.

Mario Benevides, 25/8/2020. @cidadãomario, mariobenevides.blogspot.com / facebook.

8.15.2020

O VEEMENTE

 

A infância é mesmo para se ter saudade. Na minha, por exemplo, Gilmar era goleiro da seleção.

Deve ter sido alegado que o Queiroz é mesmo do grupo de risco. Mas vários outros são, a diferença é que ele é amigo do rei. Sim, não estamos em Pasárgada, mas ele sim. O Brasil deixou de ser império para continuar sendo.

Ah, você queria fechar o STF, não é? Nesse caso, a mídia, já ou ao mesmo tempo, teria sido calada, e nem saberíamos de mais esse episódio, não é? Um conforto só.

Nada como um dia depois do outro, nada como uma menção ao genocídio depois de um outro seja-o-que-for. Um Queiroz, por exemplo. Serei preso por isso?

Quando William Waack disse que a buzina insistente que o incomodava antes de entrar no ar era coisa de preto, postei uma foto de Pixinguinha com Louis Armstrong, e achei que não era necessário dizer: Sim, WW, esses pretos e suas buzinas. Como as notícias insistem em teimar, era sim.

Mas tudo faz sentido, juízas e juízes têm sempre razão. Pior seria sem. A humanidade é mesmo errática, sempre haverá um erro a corrigir outro. Um dia, pode ser que a justiça seja para todos, a começar pela oportunidade de estudar e trabalhar. Pois ora dirão que isso seria um erro, não é mesmo?

Jerônimo, que já foi herói do sertão, hoje é um cachorro. Se houvesse sindicato de cachorros, ele seria o presidente. Ontem à noite, esse cão alado voou do sofá à poltrona e latiu aos seus dezoito pulmões contra um estrondoso trovão. Jerônimo, que inveja da tua veemência.

5.23.2020

APENAS MAIS UM 22 DE ABRIL


Eles sabiam que estavam sendo gravados e por isso cada um deu o melhor de si, ao seu jeito. De um, o clamor pela liberdade de não ter que respeitar leis e magistrados. Melhor prendê-los. Ódio. Muito ódio. Outro convida aos demais para que compartilhem da sua esperteza. É hora de aproveitar a tragédia para que tudo passe sem que se perceba, como se fosse uma boiada. A bajulação quase unânime ao que vocifera para mostrar que é macho e que fala do povo para mostrar que é bom e que deixa claras suas intenções de armá-lo. Ao seu lado, um silêncio que não esconde o sorriso de quem somente espera sua vez, quem sabe, para um sonhado autogolpe. Apenas uma surpresa, não com o alinhamento moral (ou amoral), que já era notório, com o que fez questão de dizer que leu Keynes três vezes e que demonstra com toda clareza que não entendeu nada do que leu. Finalmente uma surpresa. Afinal, era 22 de abril, 520 anos depois da descoberta pelos portugueses dessa terra, em que se plantando, tudo dá.

4.13.2020

CIDADÃO KEYNES


Cidadão Kane foi criado e vivido por Orson Welles. Espécie de precursor no século XX das fake news. O cidadão John Maynard Keynes, se aparecesse hoje no Brasil com superpoderes, juntaria em uma mesma esquina a CEF, o Banco do Brasil e o BNDES. Vindos de uma via secundária, os desenvolvimentistas diriam: melhor poupar para ter quando precisar. Na preferencial estariam os liberais, que diriam: melhor ter para usar quando precisar.

3.23.2020

NOS 26 ANOS DE MARIA LUÍZA


Maria Luiza faz 26 anos hoje. Amanhã é dia de continuar seu terceiro ano de residência atendendo a quem precisar. Que a ciência médica invente um novo complexo B que, em vez de mosquitos, exale um cheiro que afaste vírus. Que a farmacêutica descubra um hidratante que, de tão perfumado e emoliente, mande o vírus tomar banho (bem longe de nós). Que os liberais de plantão compreendam de uma vez por todas que a ação humana movida pelo egoísmo, nada mais que o egoísmo, nada cria, nada transforma, somente afasta. Que os defensores do estado máximo se deem conta de que essa ideia surgiu para justificar monarquias absolutistas, muito mais perversas que paternalistas, de um paternalismo falso quanto falso é todo moralismo. Que em breve cabelereiros voltem a nos cortar os cabelos e os garçons a nos servir cafezinhos quentes e chopes gelados. Que essa pandemia logo se vá, mas deixe a certeza de que a vida pode ser mais convivência e menos campeonato. Que a solidariedade esteja sempre presente e não apenas em salas de espera com flores murchas. Que você, minha filha, continue sendo essa pessoa imensa de alma e de carinho, até mesmo na escolha e no exercício da sua profissão. Um beijo, do papai.

3.19.2020

DÚVIDAS E UMA SÓ CERTEZA



A única certeza é: precisamos de ar, comida, água, álcool, sorrisos, enfermeiros e médicos (e um pouco de vinho, se não for pedir muito).

Algumas dúvidas:

O que representaria maior risco para nossa vã democracia? Manutenção do titular? Substituição pelo seu vice? Ou a reeleição do titular e/ou do seu vice?

No momento, quem dá as cartas e começa a perder o jogo é um vírus. E depois, quem dará as cartas no Brasil? Donald Trump? Edir Macedo? Homo Sapiens? Ou papagaius imbecilis?

Adquirir com poderosos tostões o estoque de produtos nas prateleiras de mercados e farmácias é precaução? Ou egoísmo?

Não fosse a dúvida, ou não a havendo, seria a Terra ainda plana?

A única certeza é: precisamos de ar, comida, água, álcool, sorrisos, enfermeiros e médicos. E um pouco de vinho, se não for pedir muito.

12.06.2019

O POVO RESILIENTE


Uma vez preparei um trabalho a pedido de um executivo sobre a resiliência do Brasil. É o que somos: um povo resiliente, que entorta, mas não quebra, e se reconstitui. Somos quase que um elástico, que se esgarça, mas não rasga. Vivemos em montanha russa, com períodos de prosperidade que até aparenta ser geral, com outros de recessão, depressão, até nova reação. A dependência de comodities é muito grande, ao contrário do investimento em tecnologia própria, ciência, cultura, pesquisa, desenvolvimento e inovação. Em vez de escolas em tempo integral, proporcionando a quem vive no inferno um pouco daquilo que os mais abastados têm, afastando aqueles das drogas e das armas e preparando-os para pôr o país onde poderia estar há muito – no pódio do cenário mundial -, aqui se prefere matar e matar e matar. Que nem barata. (Aliás, é de se perguntar ao autor da expressão se seus vizinhos mais ilustres também serão mortos que nem barata.) No lugar de programas estruturantes, abrangentes e continuados - estatais e privados -, para desenvolvimento e capacitação profissional, prefere-se apostar na gangorra dólar sobe, bolsa cai e vice-versa, e criar, comprar e vender estatais, não sem antes depreciá-las, com duplo sentido. A depender do ciclo, o Estado injeta dinheiro público para aquecer a economia, não sem alguma dose de inconsequência, ou enxuga tudo, aperta tudo, sufoca a quase todos, respectiva e enganosamente como se inspirados em Keynes ou Friedman e seus antecessores. (Segundo par de parênteses: quem pensa que Marx passou por aqui nos últimos anos deveria ler um pouquinho mais, para não dar a impressão de que seus ancestrais tenham sido pássaros de plumagem verde ou azul e vermelha.) Não sem inovar: os 500 reais do FGTS vão salvar o país, já que milhões de nós (que representam metade da população) vivem com 413 reais por mês. Por favor não me pergunte como: felizmente ainda não sei. Em vez de nos vermos como parte de um povo, somos o país do quero o meu, o resto que se dane. E assim permanecemos: resilientes, alçando voos para depois arremeter. Pena que nossos voos vão sendo cada vez mais curtos e as arremetidas cada vez mais bruscas. mariobenevides.blogspot.com (um resiliente).

4.02.2019

ESQUERDA E DIREITA


Como todo mundo dá palpite sobre esse tema, eu também vou dar o meu. A dicotomia Esquerda e Direita com significado político surgiu na época da Revolução Francesa. No Parlamento Francês, à esquerda ficavam os jacobinos, contrários à monarquia e seus privilégios; à direita, os girondinos, afeiçoados à nobreza, logo, conservadores. Deste lado o conservadorismo “de direita” e do outro liberdade, igualdade, fraternidade “de esquerda” – como visto, meras alusões às posições respectivas na Assembleia Nacional da França do século XVIII. Cerca de 80 anos depois, Marx desenvolveu suas teses contra o capitalismo, e capital é algo que os que o têm no mínimo não o querem perder, logo, são conservadores. Dois passos atrás, a Revolução Gloriosa transferiu poderes da monarquia para o Parlamento Inglês, e neste caso saiu vitorioso o liberalismo, que ninguém à época poderia classificar de esquerda ou direita, pois a Revolução Gloriosa na Inglaterra precedeu em 100 anos a Francesa. Como o liberalismo se baseia na ação individual e o comunismo e o socialismo na coletiva, estes se consolidaram como representativos da esquerda, e o liberalismo foi para o lado da direita. Chegamos ao século XX. Gramsci, marxista, é preso pelo fascismo, até morrer. Preso também foi Norberto Bobbio, então simpatizante do marxismo, que escapou com vida por se ter desculpado perante o fascismo. Vários outros episódios ficaram na História a não deixar dúvidas de que o fascismo se contrapôs ao comunismo - e se este está à esquerda, o fascismo está à direita, e direita nacionalista, com grande peso estatal em tudo: nos negócios, no direito, nos costumes. Nem por isso se torna de esquerda, pois que combate o comunismo, sendo que este, naqueles tempos, praticamente eliminava a iniciativa privada, de novo contrapondo-se ao liberalismo e ao capitalismo – este, no caso do fascismo, fortemente estatal. Com o nazismo não foi diferente, acrescentando porém o arianismo, a ideia da supremacia branca alemã. Assim, não me parece difícil percebermos que: (1) nazismo e fascismo foram e são “de direita”; (2) estão mais à direita do que o liberalismo está em relação ao comunismo, e por isso, nazistas e fascistas usualmente se autoproclamam de ultradireita (o atual presidente do Brasil assim se referiu a si e ao seu (ex) partido PSL ao a ele se filiar); (3) como o conceito político de “esquerda” surgiu antes do comunismo, este não pode ser considerado como a única forma de “esquerda”; daí uma das razões de o comunismo totalitário ser considerado de ultraesquerda. Mas, alguém poderia perguntar, não existe vida entre essas posturas e definições? Algo que se possa chamar “Centro”? Voltemos a Norberto Bobbio, que em seus últimos anos se disse a favor do socialismo liberal, como consta da página web do seu contemporâneo, nosso Miguel Reale – que em contraponto disse preferir o liberalismo social, enfatizando porém que seria o Centro o único capaz de apaziguar as disputas ideológicas. Mas no Brasil tudo é diferente. Quem se autoproclama ultradireita defende o liberalismo; o Centro vira “centrão”; uma dada, suposta religião invade o poder, em um país laico; e quem disse o exato oposto ao que dizem historiadores, pesquisadores, testemunhas, e, como eu, amadores, não só foi aprovado pelo Itamarati como ocupa o cargo de chanceler. Poeta Carlos, você foi ser gauche na vida. E nós, poeta? O que seremos e o que será de nós?

3.09.2019

FUTEBOL, UMA DOENÇA INCURÁVEL


Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Não que eu seja nostálgico ou saudosista, mas, como todo mundo, gosto de lembrar de coisas boas. Quando as ruins aparecem, é só levá-las ao encontro do seu bem mais querido: o esquecimento. Se o esquecimento nos lembra que tem memória, trabalhamos, vemos alguém interessante passar, ou então é o cachorro que faz xixi no lugar errado, e tristeza e esquecimento se vão de mãos dadas, aonde, ninguém quer saber.

Eu já morava no Leme, tinha onze-doze anos, e ia, de ônibus, com meus amigos Humberto Rodrigues de Sá e seu primo Luiz Fernando ao Maracanã. Os três sozinhos. Havia menos gente, a ganância de uns e a ignorância de tantos (imposta pelos tais uns) ainda pouco se esbarravam. Fomos, por exemplo, ver a decisão do campeonato carioca entre Botafogo e Bangu. Eram seis times grandes no Rio: os dois citados, mais Flamengo, Fluminense, Vasco e América. No ano anterior, o Bangu fora o campeão, derrotando o Flamengo. Em 67, deu Botafogo. O Campeonato Carioca, a Taça Guanabara e as excursões dos clubes eram os principais assuntos em matéria de futebol. Pelé em plenitude, Garrincha já em fim de carreira, e era outro o timaço do Botafogo, que não vou recitar aqui. Anos depois, li a magistral biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, quando o autor, no prefácio, diz que, na decisão Botafogo e Flamengo de 62, quando o alvinegro venceu de 3 a 0 com três gols do Mané, descobriu que, além de Flamengo, era Garrincha. Poucos anos depois, vi um documentário, no qual ninguém menos que Zico diz: “Não me importava se eu era Flamengo, o que eu queria era ver o Garrincha jogar”.

Pois dia desses, na Barbearia Tradicional de Florianópolis, enquanto esperava minha vez, vi na TV comentaristas de futebol discutindo sobre quem seria o melhor jogador brasileiro depois de Pelé. Nenhum falou em Garrincha. Está certo, sou mais velho que eles, mas, se tanto quanto eles não vi o Garrincha jogar ao vivo, ouvi falar, me interessei, vi documentários, entre eles o filme “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade, como li crônicas de Vinicius de Moraes e Nelson Rodrigues (entre tantos outros) a respeito do Anjo das Pernas Tortas.

Não é curioso? Nada entendo de futebol, me livrei do vexame dos meus passes errados quando entrei na faculdade, sou nada mais que um amador em matéria de futebol. Os tais comentaristas são profissionais disso. Sequer citaram Garrincha – segundo Ruy Castro, o craque responsável pela vitória do Brasil sobre a Áustria na segunda Copa das cinco conquistadas pelo Brasil, no mesmo 1962, em um ano em que o Botafogo representava meio time da seleção - com Pelé contundido logo no começo da Copa e Amarildo jogando em seu lugar, ao lado de Didi, Nilton Santos, Zagalo e, claro, Garrincha.

Pode-se pensar que tudo o que eu disse aqui é saudosismo de botafoguense; pois conto que, em outro dia desses, no Rio, meu amigo, flamenguista roxo, Murilo Drummond recitou o que eu não iria recitar aqui, o timaço do Botafogo campeão da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca em 67 e 68: Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gerson; Zequinha, Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar. (Diga-se de passagem, Jairzinho fez gols em todos os jogos da Copa de 70, a terceira das cinco do Brasil. Nem Pelé...)

A crônica esportiva atual tem momentos que perfeitamente correspondem ao futebol que é jogado no Brasil de hoje. Que isso mude logo, que voltemos a ter seis grandes no Rio, tantos outros em outras cidades do país, e que os responsáveis pela mediocridade que tomou conta do nosso esporte favorito, da crônica aos assim chamados dirigentes, se juntem ao esquecimento, a caminho do onde-ninguém-quer-saber.

Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. A minha se chama Botafogo.

2.08.2019

Para Bob Dylan, Geraldo Vandré e Bakunin

Triste trôpega paródia de Blowing in the wind, para Bob Dylan, Geraldo Vandré, Bakunin, e todos aqueles que vivem dispostos a viver

Quantos meninos do Flamengo vão morrer
Até que possam ser adultos?
Quantos Brumadinhos, Marianas vão sofrer
Até que caçem seus indultos?
E quantos safardanas a Bíblia vão brandir
Até que corajosos ressuscitem?

A resposta, meu amigo,
Não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

E quantos canalhas vão ter nossa atenção
Até que nossos olhos os desprezem?
E quantos fuzis nos amedrontarão
Até que nossos olhos os fuzilem?
E quantos iletrados vão ter que padecer
Até que afortunados se humanizem?

A resposta, meu amigo, não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

E quantos salvadores vão nos iludir
Até não lhes prestarmos atenção?
E quantas moças pobres serão órfãs de seus filhos
Até lhe prestarmos atenção?
E quantas AIDS, sífilis vão reaparecer
Até que a hipocrisia caia ao chão?

A resposta, meu amigo, não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

1.31.2019

DE CICLISTAS, CANHOTOS E OS QUASE SEMELHANTES



O ciclista está sempre no lugar errado. A calçada é do pedestre, o asfalto é do automóvel, a pista de terra é dos off road, o paralllelepppípppeddo é dos off world, a ciclovia é dos velocistas, skatetistas, equilibristas, trapezistas, mamães e papais e seus carrinhos com bebê dentro, patinetes e seus supostamente pilotos. Já o canhoto jamais conseguirá abrir uma lata com algo comestível dentro sem ajuda do corpo de bombeiros. É de se supor que pilotos de sapatos, automóveis on e off road, marcianos, heroicos e habilidosos bombeiros e todos os outros que ocupam as ciclovias em movimento em variadas velocidades, com muito mais direito que os ciclistas, sejam todos destros e assim mesmo tenham lá suas dificuldades, pois, não fosse assim, não reclamariam dos ciclistas, principalmente dos canhotos. Disso tudo se conclui que há somente duas dificuldades na vida: conviver e ficar só. Excluídos, claro, aqueles que de fato precisam dos bombeiros, heroicos bombeiros e seus quase semelhantes.


1.25.2019

MARIANA E BRUMADINHO


Mariana querida:

Há quase quatro anos tentas te recuperar da tragédia que sofreste.

Reuniões, acordos, processos, fato é que tu, tua gente, tua terra e tuas relíquias ainda sofrem,

Como todos nós sofremos, com maior distância e por isso menor intensidade.

Desde que eles descobriram o metal não vivem sem ele.

Sapatos são feitos de ou com metal,

Calças, antes eram armaduras, precisam de teares de metal, assim como as camisas,

Calcinhas e cuecas.

Penteiam os cabelos com pentes fabricados por máquinas ou ferramentas de metal.

Comem com talheres de metal, plantam e colhem com instrumentos e máquinas de metal,

Erguem suas casas com pilares, vigas de ou por meio de metal,

Serram e moldam a madeira com metal,

Do cimento misturado com areia por artefatos de metal, fazem concreto armado com metal,

Tijolos, automóveis, aviões, navios, tudo, literalmente tudo deles tem metal envolvido.

Matam-se com armas de metal.

Plástico, que vem do petróleo que vem do chão da terra e do mar,

Assim como o metal vem do subsolo do planeta,

Para extrair petróleo, refinar, distribuir, transportar,

Dele fazer plástico, usam o metal.

Onde foi que eles erraram, Mariana querida, discutem, provam que não,

Que foi o outro, que foi o projeto, a construção, a manutenção, a fiscalização

Tudo ou algo desse todo mal feito foi culpa de alguém.

Que vão reparar

E errar de novo.

Mariana querida, choro até hoje tua desgraça,

Rezo até hoje por ti.

Do teu

Brumadinho.

12.01.2018

ALGUMAS SUGESTÕES AO NOVO GOVERNO BRASILEIRO, MESMO SABENDO QUE SEQUER SERÃO CONHECIDAS, E SE CONHECIDAS, DESPREZADAS



1.       Religião. O Gênesis Bíblico e o Big Bang. Do vazio, um universo, uma humanidade, uma continuidade. O Divino e a Ciência são a mesma coisa, assim como a Criação e a Inventividade, a Imensidão e a Liberdade, o Todo e a Individualidade. Tolher a Ciência, a Inventividade, a Liberdade e a Individualidade é o mesmo que negar a Divindade.

2.       Cultura. A única coisa capaz de descrever um povo. Deixá-la reduzida a uma caixinha de um organograma corresponde a reduzir o povo a um amontoado de fósforos queimados.

3.       Doutrina. Não há uma só, nenhuma prét-à-porter ou prét-à-manger. Somos todos sob-medida, taylor-made, o Dedo Divino e Suas Impressões Digitais em cada Ser. Isso se aplica à Cultura de um Povo, portanto à sua Educação, à sua Economia.

4.       Armas. Nascemos desarmados e dependentes. Crescemos com fome, desejos, influências, ideias e a convivência. Precisamos de apoio, comida, saciedade, compartilhamento de ideias. Armas, só em casos extremos, quando o respeito à convivência se ausenta. Armas, via de regra, melhor não as termos, contra os outros, contra nós.

5.       Ideologia. Se não queremos uma, tampouco a outra.

6.       Política. Nunca nos alinhamos unilateralmente. Por que agora, a um só indivíduo, de uma só nação, dividida, ansiosa, receosa do mesmo indivíduo, inspiração de outros, danosos, nocivos, destrutivos?

7.       Livro e lugar. Nossa Carta de Princípios e Leis - nossa Constituição - tem seu lugar na Política, com P maiúsculo. Livros religiosos têm seu lugar na Religião, com R maiúsculo. Quando livro e lugar não se correspondem, tudo fica minúsculo, menor, obtuso, sórdida imbecil manipulação de religião, cultura, doutrina, armas, ideologia, política.

Somos únicos, somos um povo, por favor:

Respeito.

mariobenevides.blogspot.com.

10.18.2018

QUEM ME ACORDA


Quem me acorda é um bem-te-vi.
Duvido
Sou bem visto
Logo existo.
Visitei o primeiro veleiro de pesquisa oceânica projetado e fabricado no Brasil. Motor de popa de 200 HP para a partida, calado retrátil, painéis solares para calmarias em dias de sol. Conversei com as jovens estudantes de oceanografia Andreia e Patrícia. Contei-lhes que não mergulho por ser claustrófobo. Patrícia me disse, também tenho medo, mas a cada mergulho mais me apaixono. Parabéns, jovens oceanógrafas, bravas navegantes-mergulhadoras. Parabéns mais uma vez à Universidade Federal de Santa Catarina.
Trabalhar é preciso e viver também. Trabalhar vivendo, ora, basta perceber quem faz trabalhos dificílimos para nós, muito mais que qualquer outra atividade, por mais ciência ou tecnologia que exija, rindo e cantando. Lixeiros, por exemplo.
Às vezes me excedo
Outras me omito.
Saber o tempo certo
É quando não grito.
A quem me conhece e desconhece,
Bons projetos, trabalhos, sonhos.

9.30.2018

DECÁLOGO PARA AS ELEIÇÕES 2018


Cheguei a rascunhar uma pequena paródia de Shakespeare. Cabo Daciolo seria o Clown. Mas mudei a forma para não mais que dez divagações, em poucas linhas.

(1)

Para pensarmos melhor, melhor seria Dirceu, Lula e Bolsonaro pararem de falar.

Para pensarmos melhor, melhor seria Boulos, Marina, Meirelles e Amoêdo (além de Daciolo), sob aplausos de uns, passando por protestos ou a indiferença de outros, saírem de cena.

Para pensarmos melhor, melhor seria Mourão e Haddad entenderem que não é o caso de uma nova constituição, mas apenas de conhecermos, respeitarmos e fazermos respeitar a nossa, sobre a República Federativa do Brasil. Bastam-nos um dos seus princípios fundamentais - valores sociais do trabalho e da livre iniciativa – e um dos seus objetivos fundamentais - promover o bem estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Para finalmente pensarmos melhor, melhor seria que Alckmin e Ciro finalmente dissessem ao que vieram.

(2)

Mulheres de Esparta e Atenas, não deixeis vossa autoestima ser estuprada.

(3)

Há quatro anos, alguns amigos nossos tinham resposta para tudo, cheios de razão.

Hoje, muitos dos que os criticavam fazem exatamente o mesmo.

O que será que houve com os ouvidos?

(4)

De Freixo a todos os outros, deu Crivella. Parece não estar agradando.

(5)

Todo mundo com armas, com registro, identidade e CPF, à disposição de assaltantes, antes somente interessados em celulares. Ou teu nome é Clint Eastwood?

(6)

Família diferente de homem e mulher, cuidado: pode estar cheia de tias e tios, avôs e avós, não necessariamente consanguíneos, já pensou?

(7)

Por que não passar trator onde antes eram reservas indígenas e quilombos? já nem museu nacional temos, ué!

(8)

Bancada da Bala, Bancada Evangélica, Bancada Rural – cara, só dá gente honesta.

(9)

Quem respeita, amigo é.

(10)

Quem respeita amigo, é.



Bom domingo.






9.22.2018

UMA CARTA, NADA MAIS QUE UMA CARTA

Caro amigo. Sonhei que viajávamos de trem para Berlim. Nunca viajamos juntos de trem, muito menos para Berlim. Semana passada, eu e Rosa estivemos na Itália. Fomos e voltamos de avião, e lá andamos a pé, de barco e de carro. Creio que o sonho foi influência de filmes que tenho visto, filmes europeus, desses em que todo mundo anda de trem. Era fácil nos vermos quando morávamos perto, mas, primeiro, você e sua amada se mudaram para Minas; depois, eu minhas duas amadas para o Sul. Muito cedo, você partiu, e entre um momento e outro nos falamos pouco. Você e outros amigos sabem, não sou muito de falar por telefone. Pois hoje tenho saudades de você e do telefone. Agora, tudo flui pelas redes, gravado ou digitado. Outro fenômeno contemporâneo é que todos somos donos da verdade, todos temos razão. Contraditório e ampla defesa são termos restritos ao STF, onde trabalham nossos pop-stars. Surpreso, você? Guitarras e violões deram lugar a togas. No sonho, depois de saltar, como sempre e felizmente, no lugar errado, eu vi por trás de uma divisória uma parede de azulejos nada alemães. Era um bar, e lá (e já) você estava. Sem me queixar e nenhuma pressa de partir, fico por aqui, mais que nunca admirando os doidos que falam sozinhos como eu, com a diferença de que de fato veem alguém ao lado deles. Ter você ao meu lado outra vez, em um trem para Berlim que parou na estação onde o bar é português e fica no Rio, já não tenho mais inveja dos loucos, mais perto fico deles, sem verdade, sem razão.

8.22.2018

Caro Senhor Stephen Kanitz


Caro Senhor Stephen Kanitz,

Com todo o respeito à sua pessoa e ao seu currículo (por isso, inclusive), me causa estranheza que seja por V.Sa. considerado melhor, seja em relação a qualquer outra candidatura, alguém capaz de elogiar um torturador, justificar a execução pelo Estado com um eufemismo e demonstrar desprezo por descendentes de escravos, homossexuais e mulheres, neste caso, a ponto de ofender uma colega de Congresso como se estupro fosse questão de merecimento. Mais ainda me causa espanto que o senhor compare o indivíduo em questão com Eisenhower. Por último, parece-me que deputados não propriamente fazem pedidos. Como bem e certamente o senhor sabe, nem no Brasil nem no país de Eisenhower se imagina a hipótese de um governo desprezar o Congresso, ou a este amedrontar - isso, naturalmente, se estivermos em uma democracia.

Reiterando meu grande respeito à sua pessoa e história de vida,

Atenciosamente,

Mario Corrêa de Sá e Benevides

Florianópolis, SC.

7.09.2018

NEM TANTO NEM TÃO POUCO

O Brasil saiu da copa e pronto. Foi-se o efeito do ópio nacional. Parece que não foi só a copa que acabou para nós: o mundo acabou. Eis que um juiz de direito resolve dar uma mãozinha. O caos é aqui. Nem tanto nem tão pouco. Já faz um tempo que o executivo e o legislativo, em grande parte, invadiram o espaço do crime, e o judiciário ocupou o espaço político, legislando, tomando partido, trazendo à tona disputas, intrigas e reviravoltas típicas do mundo político. Prato cheio para salvadores da pátria, mártires, e o pior, fascistas. O que particularmente me impressiona é que pessoas de gerações que abriram, ajudaram a abrir ou encontraram abertas as portas para o até que o amor nos separe, o sexo sem culpa e com proteção, o convívio e a empatia entre diferentes façam coro ao que de pior o fascismo pátrio e universal já produziu. Provavelmente muitos deles, dos que se dizem eleitores do fascismo, dirão que não são fascistas, e que nem seu candidato o é. Pois nada mais fácil que provar que o citado é fascista, assim como o foram Hitler e Mussolini, do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e do Partido Fascista Nacional italiano. Vamos lá. Tive a oportunidade de conhecer quilombolas no interior de Goiás, da etnia kalunga. O que hoje é um nome comercial, sim, ainda é uma comunidade quilombola, que provavelmente não ganha royalties por isso. Por que me lembrei deles? Porque são trabalhadores. Conheci um, inclusive, que de tanto trabalhar passou a ser dono de terras produtivas. O candidato do fascismo afirma que quilombolas são vagabundos, em clara demonstração de racismo e preconceito, este já manifesto pelo mesmo indivíduo das mais diferentes formas. Fez elogios a um torturador, justifica atos de um regime autoritário, que foi muito além em matéria de arbítrio e crueldade do que poderiam imaginar seus então defensores, agride mulheres a ponto de dar a entender que as que sejam belas ao seu olhar fascista seriam dignas de estupro, e repete a célebre frase bandido bom é bandido morto. Voltemos à Itália. Bandido vem de banido. No Brasil, banimos antes, durante e depois. Dizer a tal frase é se considerar superior. Diga-se, superior à maioria, de banidos. Eis a receita do fascismo com todos os seus ingredientes. Em vez de poderes democráticos e todos os seus defeitos, a perfeição da força e a de quem a tenha e ostente. A supremacia, a eugenia, a xenofobia, a homofobia, o machismo, o racismo, o gosto pelo autoritarismo, o nome disso tudo é, sim, fascismo. Para quem vê comunismo em toda parte, atenção. Este, aliado ao capital, derrotou o fascismo - e não o contrário. O que o fascismo fez foi destruir gerações. Agora, uma pergunta a quem pensa em votar no candidato do fascismo. Se você fosse obrigado a comer do lixo alheio e dormir na rua, roubaria? Mataria? Se drogaria? Traficaria? Claro que não: você é correto. E superior. Uma segunda pergunta. Se estivesse passando por aquele tipo de necessidade, com fome, ao relento, se estivesse ao lado de alguém com características entre as que você considera inaceitáveis, deitado sobre o último papelão da rua, você pediria um pedacinho do papelão para dormir? Ou chutaria o outro desgraçado dali? E quem seria o bandido desta vez? Há candidatas e candidatos para as mais diversas correntes econômicas e políticas. Escolha. Menos o fascismo. Derrote o que você quiser com seu voto, seu grito, sua revolta, mas não com o fascismo, entre outras coisas já historicamente derrotado. Não seja fascista, porque, mais cedo ou mais tarde, necessariamente, a vítima será você.