3.23.2020

NOS 26 ANOS DE MARIA LUÍZA


Maria Luiza faz 26 anos hoje. Amanhã é dia de continuar seu terceiro ano de residência atendendo a quem precisar. Que a ciência médica invente um novo complexo B que, em vez de mosquitos, exale um cheiro que afaste vírus. Que a farmacêutica descubra um hidratante que, de tão perfumado e emoliente, mande o vírus tomar banho (bem longe de nós). Que os liberais de plantão compreendam de uma vez por todas que a ação humana movida pelo egoísmo, nada mais que o egoísmo, nada cria, nada transforma, somente afasta. Que os defensores do estado máximo se deem conta de que essa ideia surgiu para justificar monarquias absolutistas, muito mais perversas que paternalistas, de um paternalismo falso quanto falso é todo moralismo. Que em breve cabelereiros voltem a nos cortar os cabelos e os garçons a nos servir cafezinhos quentes e chopes gelados. Que essa pandemia logo se vá, mas deixe a certeza de que a vida pode ser mais convivência e menos campeonato. Que a solidariedade esteja sempre presente e não apenas em salas de espera com flores murchas. Que você, minha filha, continue sendo essa pessoa imensa de alma e de carinho, até mesmo na escolha e no exercício da sua profissão. Um beijo, do papai.

3.19.2020

DÚVIDAS E UMA SÓ CERTEZA



A única certeza é: precisamos de ar, comida, água, álcool, sorrisos, enfermeiros e médicos (e um pouco de vinho, se não for pedir muito).

Algumas dúvidas:

O que representaria maior risco para nossa vã democracia? Manutenção do titular? Substituição pelo seu vice? Ou a reeleição do titular e/ou do seu vice?

No momento, quem dá as cartas e começa a perder o jogo é um vírus. E depois, quem dará as cartas no Brasil? Donald Trump? Edir Macedo? Homo Sapiens? Ou papagaius imbecilis?

Adquirir com poderosos tostões o estoque de produtos nas prateleiras de mercados e farmácias é precaução? Ou egoísmo?

Não fosse a dúvida, ou não a havendo, seria a Terra ainda plana?

A única certeza é: precisamos de ar, comida, água, álcool, sorrisos, enfermeiros e médicos. E um pouco de vinho, se não for pedir muito.

12.06.2019

O POVO RESILIENTE


Uma vez preparei um trabalho a pedido de um executivo sobre a resiliência do Brasil. É o que somos: um povo resiliente, que entorta, mas não quebra, e se reconstitui. Somos quase que um elástico, que se esgarça, mas não rasga. Vivemos em montanha russa, com períodos de prosperidade que até aparenta ser geral, com outros de recessão, depressão, até nova reação. A dependência de comodities é muito grande, ao contrário do investimento em tecnologia própria, ciência, cultura, pesquisa, desenvolvimento e inovação. Em vez de escolas em tempo integral, proporcionando a quem vive no inferno um pouco daquilo que os mais abastados têm, afastando aqueles das drogas e das armas e preparando-os para pôr o país onde poderia estar há muito – no pódio do cenário mundial -, aqui se prefere matar e matar e matar. Que nem barata. (Aliás, é de se perguntar ao autor da expressão se seus vizinhos mais ilustres também serão mortos que nem barata.) No lugar de programas estruturantes, abrangentes e continuados - estatais e privados -, para desenvolvimento e capacitação profissional, prefere-se apostar na gangorra dólar sobe, bolsa cai e vice-versa, e criar, comprar e vender estatais, não sem antes depreciá-las, com duplo sentido. A depender do ciclo, o Estado injeta dinheiro público para aquecer a economia, não sem alguma dose de inconsequência, ou enxuga tudo, aperta tudo, sufoca a quase todos, respectiva e enganosamente como se inspirados em Keynes ou Friedman e seus antecessores. (Segundo par de parênteses: quem pensa que Marx passou por aqui nos últimos anos deveria ler um pouquinho mais, para não dar a impressão de que seus ancestrais tenham sido pássaros de plumagem verde ou azul e vermelha.) Não sem inovar: os 500 reais do FGTS vão salvar o país, já que milhões de nós (que representam metade da população) vivem com 413 reais por mês. Por favor não me pergunte como: felizmente ainda não sei. Em vez de nos vermos como parte de um povo, somos o país do quero o meu, o resto que se dane. E assim permanecemos: resilientes, alçando voos para depois arremeter. Pena que nossos voos vão sendo cada vez mais curtos e as arremetidas cada vez mais bruscas. mariobenevides.blogspot.com (um resiliente).

4.02.2019

ESQUERDA E DIREITA


Como todo mundo dá palpite sobre esse tema, eu também vou dar o meu. A dicotomia Esquerda e Direita com significado político surgiu na época da Revolução Francesa. No Parlamento Francês, à esquerda ficavam os jacobinos, contrários à monarquia e seus privilégios; à direita, os girondinos, afeiçoados à nobreza, logo, conservadores. Deste lado o conservadorismo “de direita” e do outro liberdade, igualdade, fraternidade “de esquerda” – como visto, meras alusões às posições respectivas na Assembleia Nacional da França do século XVIII. Cerca de 80 anos depois, Marx desenvolveu suas teses contra o capitalismo, e capital é algo que os que o têm no mínimo não o querem perder, logo, são conservadores. Dois passos atrás, a Revolução Gloriosa transferiu poderes da monarquia para o Parlamento Inglês, e neste caso saiu vitorioso o liberalismo, que ninguém à época poderia classificar de esquerda ou direita, pois a Revolução Gloriosa na Inglaterra precedeu em 100 anos a Francesa. Como o liberalismo se baseia na ação individual e o comunismo e o socialismo na coletiva, estes se consolidaram como representativos da esquerda, e o liberalismo foi para o lado da direita. Chegamos ao século XX. Gramsci, marxista, é preso pelo fascismo, até morrer. Preso também foi Norberto Bobbio, então simpatizante do marxismo, que escapou com vida por se ter desculpado perante o fascismo. Vários outros episódios ficaram na História a não deixar dúvidas de que o fascismo se contrapôs ao comunismo - e se este está à esquerda, o fascismo está à direita, e direita nacionalista, com grande peso estatal em tudo: nos negócios, no direito, nos costumes. Nem por isso se torna de esquerda, pois que combate o comunismo, sendo que este, naqueles tempos, praticamente eliminava a iniciativa privada, de novo contrapondo-se ao liberalismo e ao capitalismo – este, no caso do fascismo, fortemente estatal. Com o nazismo não foi diferente, acrescentando porém o arianismo, a ideia da supremacia branca alemã. Assim, não me parece difícil percebermos que: (1) nazismo e fascismo foram e são “de direita”; (2) estão mais à direita do que o liberalismo está em relação ao comunismo, e por isso, nazistas e fascistas usualmente se autoproclamam de ultradireita (o atual presidente do Brasil assim se referiu a si e ao seu (ex) partido PSL ao a ele se filiar); (3) como o conceito político de “esquerda” surgiu antes do comunismo, este não pode ser considerado como a única forma de “esquerda”; daí uma das razões de o comunismo totalitário ser considerado de ultraesquerda. Mas, alguém poderia perguntar, não existe vida entre essas posturas e definições? Algo que se possa chamar “Centro”? Voltemos a Norberto Bobbio, que em seus últimos anos se disse a favor do socialismo liberal, como consta da página web do seu contemporâneo, nosso Miguel Reale – que em contraponto disse preferir o liberalismo social, enfatizando porém que seria o Centro o único capaz de apaziguar as disputas ideológicas. Mas no Brasil tudo é diferente. Quem se autoproclama ultradireita defende o liberalismo; o Centro vira “centrão”; uma dada, suposta religião invade o poder, em um país laico; e quem disse o exato oposto ao que dizem historiadores, pesquisadores, testemunhas, e, como eu, amadores, não só foi aprovado pelo Itamarati como ocupa o cargo de chanceler. Poeta Carlos, você foi ser gauche na vida. E nós, poeta? O que seremos e o que será de nós?

3.09.2019

FUTEBOL, UMA DOENÇA INCURÁVEL


Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Não que eu seja nostálgico ou saudosista, mas, como todo mundo, gosto de lembrar de coisas boas. Quando as ruins aparecem, é só levá-las ao encontro do seu bem mais querido: o esquecimento. Se o esquecimento nos lembra que tem memória, trabalhamos, vemos alguém interessante passar, ou então é o cachorro que faz xixi no lugar errado, e tristeza e esquecimento se vão de mãos dadas, aonde, ninguém quer saber.

Eu já morava no Leme, tinha onze-doze anos, e ia, de ônibus, com meus amigos Humberto Rodrigues de Sá e seu primo Luiz Fernando ao Maracanã. Os três sozinhos. Havia menos gente, a ganância de uns e a ignorância de tantos (imposta pelos tais uns) ainda pouco se esbarravam. Fomos, por exemplo, ver a decisão do campeonato carioca entre Botafogo e Bangu. Eram seis times grandes no Rio: os dois citados, mais Flamengo, Fluminense, Vasco e América. No ano anterior, o Bangu fora o campeão, derrotando o Flamengo. Em 67, deu Botafogo. O Campeonato Carioca, a Taça Guanabara e as excursões dos clubes eram os principais assuntos em matéria de futebol. Pelé em plenitude, Garrincha já em fim de carreira, e era outro o timaço do Botafogo, que não vou recitar aqui. Anos depois, li a magistral biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, quando o autor, no prefácio, diz que, na decisão Botafogo e Flamengo de 62, quando o alvinegro venceu de 3 a 0 com três gols do Mané, descobriu que, além de Flamengo, era Garrincha. Poucos anos depois, vi um documentário, no qual ninguém menos que Zico diz: “Não me importava se eu era Flamengo, o que eu queria era ver o Garrincha jogar”.

Pois dia desses, na Barbearia Tradicional de Florianópolis, enquanto esperava minha vez, vi na TV comentaristas de futebol discutindo sobre quem seria o melhor jogador brasileiro depois de Pelé. Nenhum falou em Garrincha. Está certo, sou mais velho que eles, mas, se tanto quanto eles não vi o Garrincha jogar ao vivo, ouvi falar, me interessei, vi documentários, entre eles o filme “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade, como li crônicas de Vinicius de Moraes e Nelson Rodrigues (entre tantos outros) a respeito do Anjo das Pernas Tortas.

Não é curioso? Nada entendo de futebol, me livrei do vexame dos meus passes errados quando entrei na faculdade, sou nada mais que um amador em matéria de futebol. Os tais comentaristas são profissionais disso. Sequer citaram Garrincha – segundo Ruy Castro, o craque responsável pela vitória do Brasil sobre a Áustria na segunda Copa das cinco conquistadas pelo Brasil, no mesmo 1962, em um ano em que o Botafogo representava meio time da seleção - com Pelé contundido logo no começo da Copa e Amarildo jogando em seu lugar, ao lado de Didi, Nilton Santos, Zagalo e, claro, Garrincha.

Pode-se pensar que tudo o que eu disse aqui é saudosismo de botafoguense; pois conto que, em outro dia desses, no Rio, meu amigo, flamenguista roxo, Murilo Drummond recitou o que eu não iria recitar aqui, o timaço do Botafogo campeão da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca em 67 e 68: Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gerson; Zequinha, Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar. (Diga-se de passagem, Jairzinho fez gols em todos os jogos da Copa de 70, a terceira das cinco do Brasil. Nem Pelé...)

A crônica esportiva atual tem momentos que perfeitamente correspondem ao futebol que é jogado no Brasil de hoje. Que isso mude logo, que voltemos a ter seis grandes no Rio, tantos outros em outras cidades do país, e que os responsáveis pela mediocridade que tomou conta do nosso esporte favorito, da crônica aos assim chamados dirigentes, se juntem ao esquecimento, a caminho do onde-ninguém-quer-saber.

Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. A minha se chama Botafogo.

2.08.2019

Para Bob Dylan, Geraldo Vandré e Bakunin

Triste trôpega paródia de Blowing in the wind, para Bob Dylan, Geraldo Vandré, Bakunin, e todos aqueles que vivem dispostos a viver

Quantos meninos do Flamengo vão morrer
Até que possam ser adultos?
Quantos Brumadinhos, Marianas vão sofrer
Até que caçem seus indultos?
E quantos safardanas a Bíblia vão brandir
Até que corajosos ressuscitem?

A resposta, meu amigo,
Não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

E quantos canalhas vão ter nossa atenção
Até que nossos olhos os desprezem?
E quantos fuzis nos amedrontarão
Até que nossos olhos os fuzilem?
E quantos iletrados vão ter que padecer
Até que afortunados se humanizem?

A resposta, meu amigo, não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

E quantos salvadores vão nos iludir
Até não lhes prestarmos atenção?
E quantas moças pobres serão órfãs de seus filhos
Até lhe prestarmos atenção?
E quantas AIDS, sífilis vão reaparecer
Até que a hipocrisia caia ao chão?

A resposta, meu amigo, não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

1.31.2019

DE CICLISTAS, CANHOTOS E OS QUASE SEMELHANTES



O ciclista está sempre no lugar errado. A calçada é do pedestre, o asfalto é do automóvel, a pista de terra é dos off road, o paralllelepppípppeddo é dos off world, a ciclovia é dos velocistas, skatetistas, equilibristas, trapezistas, mamães e papais e seus carrinhos com bebê dentro, patinetes e seus supostamente pilotos. Já o canhoto jamais conseguirá abrir uma lata com algo comestível dentro sem ajuda do corpo de bombeiros. É de se supor que pilotos de sapatos, automóveis on e off road, marcianos, heroicos e habilidosos bombeiros e todos os outros que ocupam as ciclovias em movimento em variadas velocidades, com muito mais direito que os ciclistas, sejam todos destros e assim mesmo tenham lá suas dificuldades, pois, não fosse assim, não reclamariam dos ciclistas, principalmente dos canhotos. Disso tudo se conclui que há somente duas dificuldades na vida: conviver e ficar só. Excluídos, claro, aqueles que de fato precisam dos bombeiros, heroicos bombeiros e seus quase semelhantes.


1.25.2019

MARIANA E BRUMADINHO


Mariana querida:

Há quase quatro anos tentas te recuperar da tragédia que sofreste.

Reuniões, acordos, processos, fato é que tu, tua gente, tua terra e tuas relíquias ainda sofrem,

Como todos nós sofremos, com maior distância e por isso menor intensidade.

Desde que eles descobriram o metal não vivem sem ele.

Sapatos são feitos de ou com metal,

Calças, antes eram armaduras, precisam de teares de metal, assim como as camisas,

Calcinhas e cuecas.

Penteiam os cabelos com pentes fabricados por máquinas ou ferramentas de metal.

Comem com talheres de metal, plantam e colhem com instrumentos e máquinas de metal,

Erguem suas casas com pilares, vigas de ou por meio de metal,

Serram e moldam a madeira com metal,

Do cimento misturado com areia por artefatos de metal, fazem concreto armado com metal,

Tijolos, automóveis, aviões, navios, tudo, literalmente tudo deles tem metal envolvido.

Matam-se com armas de metal.

Plástico, que vem do petróleo que vem do chão da terra e do mar,

Assim como o metal vem do subsolo do planeta,

Para extrair petróleo, refinar, distribuir, transportar,

Dele fazer plástico, usam o metal.

Onde foi que eles erraram, Mariana querida, discutem, provam que não,

Que foi o outro, que foi o projeto, a construção, a manutenção, a fiscalização

Tudo ou algo desse todo mal feito foi culpa de alguém.

Que vão reparar

E errar de novo.

Mariana querida, choro até hoje tua desgraça,

Rezo até hoje por ti.

Do teu

Brumadinho.

12.01.2018

ALGUMAS SUGESTÕES AO NOVO GOVERNO BRASILEIRO, MESMO SABENDO QUE SEQUER SERÃO CONHECIDAS, E SE CONHECIDAS, DESPREZADAS



1.       Religião. O Gênesis Bíblico e o Big Bang. Do vazio, um universo, uma humanidade, uma continuidade. O Divino e a Ciência são a mesma coisa, assim como a Criação e a Inventividade, a Imensidão e a Liberdade, o Todo e a Individualidade. Tolher a Ciência, a Inventividade, a Liberdade e a Individualidade é o mesmo que negar a Divindade.

2.       Cultura. A única coisa capaz de descrever um povo. Deixá-la reduzida a uma caixinha de um organograma corresponde a reduzir o povo a um amontoado de fósforos queimados.

3.       Doutrina. Não há uma só, nenhuma prét-à-porter ou prét-à-manger. Somos todos sob-medida, taylor-made, o Dedo Divino e Suas Impressões Digitais em cada Ser. Isso se aplica à Cultura de um Povo, portanto à sua Educação, à sua Economia.

4.       Armas. Nascemos desarmados e dependentes. Crescemos com fome, desejos, influências, ideias e a convivência. Precisamos de apoio, comida, saciedade, compartilhamento de ideias. Armas, só em casos extremos, quando o respeito à convivência se ausenta. Armas, via de regra, melhor não as termos, contra os outros, contra nós.

5.       Ideologia. Se não queremos uma, tampouco a outra.

6.       Política. Nunca nos alinhamos unilateralmente. Por que agora, a um só indivíduo, de uma só nação, dividida, ansiosa, receosa do mesmo indivíduo, inspiração de outros, danosos, nocivos, destrutivos?

7.       Livro e lugar. Nossa Carta de Princípios e Leis - nossa Constituição - tem seu lugar na Política, com P maiúsculo. Livros religiosos têm seu lugar na Religião, com R maiúsculo. Quando livro e lugar não se correspondem, tudo fica minúsculo, menor, obtuso, sórdida imbecil manipulação de religião, cultura, doutrina, armas, ideologia, política.

Somos únicos, somos um povo, por favor:

Respeito.

mariobenevides.blogspot.com.

10.18.2018

QUEM ME ACORDA


Quem me acorda é um bem-te-vi.
Duvido
Sou bem visto
Logo existo.
Visitei o primeiro veleiro de pesquisa oceânica projetado e fabricado no Brasil. Motor de popa de 200 HP para a partida, calado retrátil, painéis solares para calmarias em dias de sol. Conversei com as jovens estudantes de oceanografia Andreia e Patrícia. Contei-lhes que não mergulho por ser claustrófobo. Patrícia me disse, também tenho medo, mas a cada mergulho mais me apaixono. Parabéns, jovens oceanógrafas, bravas navegantes-mergulhadoras. Parabéns mais uma vez à Universidade Federal de Santa Catarina.
Trabalhar é preciso e viver também. Trabalhar vivendo, ora, basta perceber quem faz trabalhos dificílimos para nós, muito mais que qualquer outra atividade, por mais ciência ou tecnologia que exija, rindo e cantando. Lixeiros, por exemplo.
Às vezes me excedo
Outras me omito.
Saber o tempo certo
É quando não grito.
A quem me conhece e desconhece,
Bons projetos, trabalhos, sonhos.

9.30.2018

DECÁLOGO PARA AS ELEIÇÕES 2018


Cheguei a rascunhar uma pequena paródia de Shakespeare. Cabo Daciolo seria o Clown. Mas mudei a forma para não mais que dez divagações, em poucas linhas.

(1)

Para pensarmos melhor, melhor seria Dirceu, Lula e Bolsonaro pararem de falar.

Para pensarmos melhor, melhor seria Boulos, Marina, Meirelles e Amoêdo (além de Daciolo), sob aplausos de uns, passando por protestos ou a indiferença de outros, saírem de cena.

Para pensarmos melhor, melhor seria Mourão e Haddad entenderem que não é o caso de uma nova constituição, mas apenas de conhecermos, respeitarmos e fazermos respeitar a nossa, sobre a República Federativa do Brasil. Bastam-nos um dos seus princípios fundamentais - valores sociais do trabalho e da livre iniciativa – e um dos seus objetivos fundamentais - promover o bem estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Para finalmente pensarmos melhor, melhor seria que Alckmin e Ciro finalmente dissessem ao que vieram.

(2)

Mulheres de Esparta e Atenas, não deixeis vossa autoestima ser estuprada.

(3)

Há quatro anos, alguns amigos nossos tinham resposta para tudo, cheios de razão.

Hoje, muitos dos que os criticavam fazem exatamente o mesmo.

O que será que houve com os ouvidos?

(4)

De Freixo a todos os outros, deu Crivella. Parece não estar agradando.

(5)

Todo mundo com armas, com registro, identidade e CPF, à disposição de assaltantes, antes somente interessados em celulares. Ou teu nome é Clint Eastwood?

(6)

Família diferente de homem e mulher, cuidado: pode estar cheia de tias e tios, avôs e avós, não necessariamente consanguíneos, já pensou?

(7)

Por que não passar trator onde antes eram reservas indígenas e quilombos? já nem museu nacional temos, ué!

(8)

Bancada da Bala, Bancada Evangélica, Bancada Rural – cara, só dá gente honesta.

(9)

Quem respeita, amigo é.

(10)

Quem respeita amigo, é.



Bom domingo.






9.22.2018

UMA CARTA, NADA MAIS QUE UMA CARTA

Caro amigo. Sonhei que viajávamos de trem para Berlim. Nunca viajamos juntos de trem, muito menos para Berlim. Semana passada, eu e Rosa estivemos na Itália. Fomos e voltamos de avião, e lá andamos a pé, de barco e de carro. Creio que o sonho foi influência de filmes que tenho visto, filmes europeus, desses em que todo mundo anda de trem. Era fácil nos vermos quando morávamos perto, mas, primeiro, você e sua amada se mudaram para Minas; depois, eu minhas duas amadas para o Sul. Muito cedo, você partiu, e entre um momento e outro nos falamos pouco. Você e outros amigos sabem, não sou muito de falar por telefone. Pois hoje tenho saudades de você e do telefone. Agora, tudo flui pelas redes, gravado ou digitado. Outro fenômeno contemporâneo é que todos somos donos da verdade, todos temos razão. Contraditório e ampla defesa são termos restritos ao STF, onde trabalham nossos pop-stars. Surpreso, você? Guitarras e violões deram lugar a togas. No sonho, depois de saltar, como sempre e felizmente, no lugar errado, eu vi por trás de uma divisória uma parede de azulejos nada alemães. Era um bar, e lá (e já) você estava. Sem me queixar e nenhuma pressa de partir, fico por aqui, mais que nunca admirando os doidos que falam sozinhos como eu, com a diferença de que de fato veem alguém ao lado deles. Ter você ao meu lado outra vez, em um trem para Berlim que parou na estação onde o bar é português e fica no Rio, já não tenho mais inveja dos loucos, mais perto fico deles, sem verdade, sem razão.

8.22.2018

Caro Senhor Stephen Kanitz


Caro Senhor Stephen Kanitz,

Com todo o respeito à sua pessoa e ao seu currículo (por isso, inclusive), me causa estranheza que seja por V.Sa. considerado melhor, seja em relação a qualquer outra candidatura, alguém capaz de elogiar um torturador, justificar a execução pelo Estado com um eufemismo e demonstrar desprezo por descendentes de escravos, homossexuais e mulheres, neste caso, a ponto de ofender uma colega de Congresso como se estupro fosse questão de merecimento. Mais ainda me causa espanto que o senhor compare o indivíduo em questão com Eisenhower. Por último, parece-me que deputados não propriamente fazem pedidos. Como bem e certamente o senhor sabe, nem no Brasil nem no país de Eisenhower se imagina a hipótese de um governo desprezar o Congresso, ou a este amedrontar - isso, naturalmente, se estivermos em uma democracia.

Reiterando meu grande respeito à sua pessoa e história de vida,

Atenciosamente,

Mario Corrêa de Sá e Benevides

Florianópolis, SC.

7.09.2018

NEM TANTO NEM TÃO POUCO

O Brasil saiu da copa e pronto. Foi-se o efeito do ópio nacional. Parece que não foi só a copa que acabou para nós: o mundo acabou. Eis que um juiz de direito resolve dar uma mãozinha. O caos é aqui. Nem tanto nem tão pouco. Já faz um tempo que o executivo e o legislativo, em grande parte, invadiram o espaço do crime, e o judiciário ocupou o espaço político, legislando, tomando partido, trazendo à tona disputas, intrigas e reviravoltas típicas do mundo político. Prato cheio para salvadores da pátria, mártires, e o pior, fascistas. O que particularmente me impressiona é que pessoas de gerações que abriram, ajudaram a abrir ou encontraram abertas as portas para o até que o amor nos separe, o sexo sem culpa e com proteção, o convívio e a empatia entre diferentes façam coro ao que de pior o fascismo pátrio e universal já produziu. Provavelmente muitos deles, dos que se dizem eleitores do fascismo, dirão que não são fascistas, e que nem seu candidato o é. Pois nada mais fácil que provar que o citado é fascista, assim como o foram Hitler e Mussolini, do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e do Partido Fascista Nacional italiano. Vamos lá. Tive a oportunidade de conhecer quilombolas no interior de Goiás, da etnia kalunga. O que hoje é um nome comercial, sim, ainda é uma comunidade quilombola, que provavelmente não ganha royalties por isso. Por que me lembrei deles? Porque são trabalhadores. Conheci um, inclusive, que de tanto trabalhar passou a ser dono de terras produtivas. O candidato do fascismo afirma que quilombolas são vagabundos, em clara demonstração de racismo e preconceito, este já manifesto pelo mesmo indivíduo das mais diferentes formas. Fez elogios a um torturador, justifica atos de um regime autoritário, que foi muito além em matéria de arbítrio e crueldade do que poderiam imaginar seus então defensores, agride mulheres a ponto de dar a entender que as que sejam belas ao seu olhar fascista seriam dignas de estupro, e repete a célebre frase bandido bom é bandido morto. Voltemos à Itália. Bandido vem de banido. No Brasil, banimos antes, durante e depois. Dizer a tal frase é se considerar superior. Diga-se, superior à maioria, de banidos. Eis a receita do fascismo com todos os seus ingredientes. Em vez de poderes democráticos e todos os seus defeitos, a perfeição da força e a de quem a tenha e ostente. A supremacia, a eugenia, a xenofobia, a homofobia, o machismo, o racismo, o gosto pelo autoritarismo, o nome disso tudo é, sim, fascismo. Para quem vê comunismo em toda parte, atenção. Este, aliado ao capital, derrotou o fascismo - e não o contrário. O que o fascismo fez foi destruir gerações. Agora, uma pergunta a quem pensa em votar no candidato do fascismo. Se você fosse obrigado a comer do lixo alheio e dormir na rua, roubaria? Mataria? Se drogaria? Traficaria? Claro que não: você é correto. E superior. Uma segunda pergunta. Se estivesse passando por aquele tipo de necessidade, com fome, ao relento, se estivesse ao lado de alguém com características entre as que você considera inaceitáveis, deitado sobre o último papelão da rua, você pediria um pedacinho do papelão para dormir? Ou chutaria o outro desgraçado dali? E quem seria o bandido desta vez? Há candidatas e candidatos para as mais diversas correntes econômicas e políticas. Escolha. Menos o fascismo. Derrote o que você quiser com seu voto, seu grito, sua revolta, mas não com o fascismo, entre outras coisas já historicamente derrotado. Não seja fascista, porque, mais cedo ou mais tarde, necessariamente, a vítima será você.

5.28.2018

DA GREVE E OUTRAS COISAS MAIS


O Brasil tem um privilégio chamado matriz energética. Água, sol, vento, biomassa, carvão, óleo. De repente, percebemos que já tivemos ônibus elétrico, trem, que poderíamos continuar a ter e tendo mais e mais e melhor transporte público e de cargas. Não temos, como não temos diversas outras coisas, porque, no Brasil, há quem ganhe muito dinheiro e poder para que as coisas deixem de existir, não existam, ou só existam quando alguém decida que o que todos querem atingiu o preço que o tal alguém queria. Outra discussão que surgiu possa, talvez, ser simplificada. Ou, ao contrário, sofisticada. Uma administração supostamente inspirada em Keynes deixou prejuízos, e a resposta foi provavelmente inspirada em Friedman, ou Mises. Usar a Petrobras para, segundo quem o fez, segurar a inflação nos recolocou de súbito como proprietários que sempre fomos da empresa, do mais miserável ao mais rico de nós. No momento em que nos é exposta nossa fragilidade em matéria de energia e logística, em paradoxo com a matriz de fontes energéticas de que dispomos, nos recolocamos na posição que nos é mais perceptível – a de consumidores da Petrobras. O que faremos? Outubro neles. Mas, e depois? Voltaremos a criticar, a nos paparicar ou a nos odiar nas redes, e ponto? Ou tuitar? é manifestação política? Para que serve? A quem serve? Ao Trump? Ah.  Empresários têm suas federações, os empregados, os sindicatos, lojistas, suas câmaras, há as ONGs e as associações de bairros... Por que não voltar a acreditar em maior grau, nessas representações e na força que podem ter? Por que não fazer por onde, para que elas possam ter ou voltar a ter credibilidade e representatividade? Se nos colocarmos em um terceiro papel que exercemos e do qual raramente nos lembramos - o de patrocinadores, pagadores, para não dizer patrões, dos nossos representantes - nas prefeituras e câmaras de vereadores, no legislativo e no executivo -, talvez finalmente nos caia a ficha, nesses tempos em que já não existem orelhões. Assim como trens, ônibus elétricos...

Boa semana.

5.05.2018

REALEZA E REALIDADE

Passei alguns dias no Rio em boa companhia. Revi meu irmão, amigos, um primo,  e tive bons encontros a trabalho. Rosa voltou para Florianópolis na terça. Como eu tinha compromissos ainda no Rio na quinta de manhã, fiquei por lá e, na quarta, resolvi dormir cedo. Não sem antes flanar, não mais que flanar. Numa rua de Copacabana, passei por um acolhedor autodenominado café-bistrô. Vazio. Além de varanda, lá dentro, livros. Fui até a Avenida Atlântica e voltei devagar, na esperança de ver gente no café-bistrô. Dei sorte. Na varanda, um autêntico rei zulu, com roupa de academia de ginástica, conversava com uma rainha, que Cony teria reconhecido como sua alemã de coxas teutônicas. Pois eu as vi tectônicas. Entrei e pedi uma mesa de canto, com vista para a varanda. Dentro, na minha frente, mais alemães. O homem usava uma camisa-polo verde, mostrando por baixo da gola em V uma camiseta branca. Gosto de usar camisetas por baixo: o ar condicionado me incomoda menos e, sob o sol, no sentido literal, não suo a camisa. O alemão tomava uma cerveja e, ao seu lado, uma mulher bebia vinho. Junto com eles e de costas para mim, uma senhora magra, elegante, de cabelos longos e grisalhos, tomava um chá. Pedi ao garçom uma Serra Malte e uma porção de presunto de Parma. Fui à estante, peguei um exemplar de Júlio César, de Shakespeare, em tradução de Carlos Lacerda. Personagem e tradutor me lembraram (ou inspiraram?) um poema que escrevi faz tempo, mais ou menos assim: Atropelamentos, estupros, assassinatos, cidades são contos de fadas comparadas ao Poder. Cenários, é o que são. Nas páginas do livro, anotações a lápis, típicas de alguém que pretendia montar a peça. Terá conseguido? Três casais brasileiros de idades variando entre vinte e poucos e setenta anos ocuparam suas diferentes mesas. A última disponível do lado de dentro, ao lado da minha, deu lugar a um jovem casal de ingleses. Pelo celular, ele disse a alguém estar interessado em alugar uma casa na Paqueta, tinha gostado muito da Paqueta. Achou o preço caro e agradeceu, enquanto eu pensava, puxa, nunca fui a Paquetá. Na varanda, mais alemães: dois casais, ao lado da conterrânea de coxas tectônicas, que, diga-se, fumava muito. Já fui fumante, sei como é. Perguntei ao garçom se eu poderia comprar o livro que, buscando a luz e olhando em volta, meio que relia. Ele me disse que o levasse de graça, que o trouxesse de volta ou mesmo outro, que eu quisesse deixar por lá. Depois de um honesto escondidinho de camarões e mais uma Serra Malte, pedi a conta e, sem perceber, deixei a paz lá dentro. Na calçada, um sujeito veio ao meu encontro abruptamente em diagonal; eu me esquivei, ele postou-se encostado junto à porta de uma loja fechada, acho que procurando alguém mais desatento. Claro, pode ter sido coisa da minha cabeça. Mais adiante, duas potenciais princesas zulus, pobres moças esquálidas, miseráveis, riam a risada que a desgraça ri. Agora era real. Tudo era real. Enquanto eu esperava para atravessar a rua, outro sujeito, portando um porrete com uma corrente, veio ao meu encontro gritando palavrões. Era da minha altura. Os olhos mais azuis que já vi olharam dentro dos meus, me demonstrando revolta, ameaça, não. Seu dono me perguntou: Eu tinha ou não tinha que dar nele? O cara estava batendo na mulher, grávida, eu tinha ou não tinha que bater nele? Eu respondi. Sim. Quem quiser que me julgue. Ele foi embora, na direção oposta à minha. Não tinha percebido, os casais de alemães da varanda do café-bistrô já haviam me passado, e caminhavam calmamente à minha frente. A sorte estava com eles. E comigo. A paz não. Em seu lugar, uma risada. Só me falta cumprir a promessa e devolver o livro, pessoalmente ou pelo correio, ou mandar outro em seu lugar.

TÚNEL DO TEMPO

No túnel do tempo, o general Figueiredo comia um churrasco com outros generais, e um repórter lhe perguntou: Quando o senhor vai fazer a abertura política? Quando eu quiser, respondeu o general. E quando o senhor vai querer?, insistiu o repórter. Figueiredo encerrou o assunto respondendo, Quando eu quiser querer. Seus convivas deram uma sonora gargalhada. Já nesses tempos de minha casa, minha vida, ontem, sim, parece que foi ontem, um outro repórter perguntou ao atual presidente sobre o inquérito na Polícia Federal da filha dele, sobre quem teria pago a reforma da casa dela. Temer respondeu: registre meu sorriso. Seus correligionários lembraram aqueles de Figueiredo, com mais uma sonora gargalhada. Mais um sinal de que vivemos outro fim de ciclo. Só não seja quando o Temer quiser querer.

2.04.2018

Caros Amigos - De poetas e política








Vendo a foto, Rosa comprovou uma vez mais a infalibilidade da intuição feminina: Esses seus amigos parecem educados e gentis, ela me disse. É o que são: Fulgêncio Duarte, a quem chamamos Fuja, é o de bigode; Aldo Votto, o que agora usa barba, com direito a bigode também. Faltou nosso mestre Julio Pavese, codinome (mais que apelido) Tucha – um permanente viajante em todo tipo de meio de transporte, de motocicleta a carro e avião, sempre com a máquina fotográfica, e duvidamos que de vez em quando um jegue não se interponha e se acrescente aos seus percursos.  Já o título desta crônica remete a uma revista, que tem como slogan “a primeira à esquerda”. Assim são esses meus amigos: de esquerda. Idealistas, acreditam que seja possível a convivência pacífica e camarada entre homens e mulheres em sociedade, trabalhando para o Estado, em prol da vida societária não-competitiva, solidária e feliz. Nesse encontro, fui menos evasivo que das outras vezes. Usei uma expressão idiota de um período idiota da história política mais ou menos recente: me defini como um radical de centro. A expressão surgiu meio como gozação aos que não queriam se declarar como nem de esquerda nem de direita. Intuitivamente, ainda muito moço, foi assim que me situei, menos por convicção que desilusão. Mais informado, fui percebendo que não acreditava na mão mágica do mercado resolvendo todos os nossos problemas sociais, econômicos e correlatos, nem no Estado perfeito, empregador de todos e em prol de todos, igualmente magnânimo em soluções. Tudo muito teórico, esquecendo-se de que mercado e Estado são ocupados por gente, com diferentes aptidões, interesses e ganâncias de poder e riqueza. Pior de tudo é que o posicionamento de centro, em dado momento definido pelo ex marxista Norberto Bobbio como socialismo liberal, e pelo ex integralista Miguel Reale como liberalismo social, no Brasil, descambou para algo puramente fisiológico, apelidado de centrão. Começou no governo Sarney e se mantém até agora, em tempos de Temer, como fiel da balança das decisões do legislativo em conexão com o executivo, em mero jogo de interesses declarados ou escusos. Fato é que não sou radical de coisa alguma. Sou verdadeiramente utópico, imaginando que um dia teremos abnegados amadores, sem remuneração, decidindo em condomínio o que de fato poderia ser melhor para a sociedade – assim está registrado em meu romance de 2007 “A revolução do silêncio”. Indo além, sou um anarquista, imaginando uma sociedade evoluída, capaz da autogestão. Comunidades e bairros com poder e orçamento para suas questões, cidades, estados e união com menos poder que hoje possuem: uma república realmente federativa, decomposta em células cada vez menores e mais autônomas, economicamente e em matéria legal. Isso é o que sou no mundo da lua; voltando à Terra, em busca de uma conciliação, líderes moderados e diplomáticos, lidando com gente com escola pública em tempo integral até a universidade, saúde, saneamento, segurança, moradia, preparada para competir (palavra proibida em certos entendimentos marxistas) com o mundo privado, com mais recursos. Isso nada mais é do que o Estado do Bem-Estar Social, que nossa Constituição Federal defende, ou delineia. Não acontece porque quem tem o dever de defendê-la a desrespeita; quem pode ter conhecimento dela, minimamente dos seus princípios e valores, a ignora; e quem é iletrado talvez nem saiba da sua existência.

Fato é que, na noite da foto, falamos de história, romances de ficção e, sim, política. Com nossas sutis diferenças do modo de pensar, chegamos ao consenso de que o Brasil se encontra ameaçado pelo fascismo; há muitos jovens desmotivados em relação à política, certos de que direita e esquerda no Brasil são farinha do mesmo saco; os partidos estão desacreditados; a agressividade vem cedendo a um silêncio de distância e desconsideração entre pontos de vista diferentes; tudo isso a nos dar a sensação de que, sim, o fascismo está latente em nosso país.

Nós os três presentes e nosso mestre Tucha trabalhamos em diferentes momentos com questões socioambientais relacionadas a empreendimentos – o que significa a exata convivência do capital com o meio ambiente e suas comunidades periféricas. Essa prática é que nos traz a um ponto de entendimento que transcende os conceitos clássicos de esquerda e direita, porque é a essência do convívio de estranhos que se tornam vizinhos, das relações de poder entre o comunitário e o empresarial, reivindicações e negativas, até o enfrentamento e o entendimento. Cada passo, cada avanço nessa área é uma vitória compartilhada. Transcende-se Estado, empresa, diferenças: o microssistema sociológico e socioeconômico é o que está em jogo, no tabuleiro balouçante, de pernas bambas. Precisa funcionar. E às vezes funciona, e assim nos faz pensar, por que não no resto, no macrossistema?

Começamos nossa noite no bar Alma Celta, que fica numa travessa no Centro Histórico de Florianópolis. Dois ou três chopes acompanhados de Fish and Chips, e fomos para a Avenida Hercílio Luz, até pararmos no Bar do Gringo, anexo ao hotel Oscar, para fugir do vento que desafiava os frequentadores dos barezinhos de cadeiras e mesas de plástico na calçada central da avenida, espécie de modesta, mas simpática rambla de Floripa. Mais uns dois chopes, saímos de lá, eu, com um livro que o poeta Aldo me deu de presente, com uma dedicatória que me comove a cada vez que a leio. Fui para casa lembrando de outros dois poetas: Vinicius, que, em uma crônica, se dirige à poesia e se declara sóbrio dentro da noite sem destino; e Borges, ao dizer “Felizes os que não querem ter razão. A razão é de todos ou não é de ninguém”. Borges disse mais: Felizes os felizes. Assim fomos embora naquela noite sem destino - ela, a noite, porque cada um de nós tinha o seu destino: sua casa. E nenhum querendo ter razão, por isso felizes porque felizes.
mariobenevides.blogspot.com.


1.25.2018

LUTAS DE BOXE


Esta noite eu tive um sonho. Lutas de boxe. Primeira luta, três nocauteados pelas suas estratégias, demasiado agressivas, antiéticas, erráticas: Lula, Bolsonaro e Ciro Gomes. Segunda luta: à esquerda, Frei Beto; à direita, Pedro Parente; ao centro, Cristovam Buarque. Era um sonho. Acordei.