2.25.2021

DE COMO SER PAI – I – EU E O DIABO NA TERRA DO SOL

 

A sugestão para o tema foi da psicóloga Rosamaria Areal, minha namorada desde 1990, com quem me casei duas vezes sem nenhuma separação (mas isso é outra história). Logo se verá por que a alusão ao filme do Glauber Rocha neste primeiro capítulo de uma série, que não se sabe ainda quantos capítulos terá, apesar da vontade de concorrer com a Netflix.

Sem qualquer rigor científico, em dias de céu aberto e muito sol, pode-se afirmar que Bangu é um dos lugares mais quentes do mundo. Mas nem só de calor e penitenciárias vive o bairro. Por exemplo, lá morava (e talvez ainda more) meu amigo Paulo Barba. Fui à casa dele quando seu primeiro filho nasceu, lá no século passado, uns nove anos antes de eu conhecer a Rosa. Paulo, com sua barba cerrada que lhe rebatizou e o sorriso mais para uma boa risada, me recebeu e me chamou para ver o bebê, que estava no quarto, no colo da avó, sogra do meu amigo. Fiz uma graça qualquer para o neném e ele chorou. A explicação veio da vovó:

- Recém-nascidos percebem o diabo atrás de quem chega perto.

 O genro ficou sem graça e me puxou pelo braço. De volta à sala, me consolou:

 - Liga não, a velha é maluca mas gente boa.

Incorporando Adoniran Barbosa, logo em cima eu falei:

- Eu não tenho habilidade com crianças.

Pouco depois fui pra casa, dirigindo de volta calorentos quilômetros no meu Fusca até Botafogo, onde eu morava.

A sensação de não me entender com crianças e bebês dissipou-se quando recebi de presente um manual feito sob medida para mim. No dia 23 de março de 1994 nasceu nossa filha, única em vários aspectos, Maria Luiza. Acho que ela não vai se aborrecer por eu compartilhar tudo que ela me ensinou para que eu me tornasse seu pai desde quando ela estava na barriga da mãe. 

Por causa de uma endometriose, para engravidar, Rosa teve que tomar um remédio, desses em que a bula deveria dizer: Não leia a bula. Mas o remédio funcionou, e até o nascimento tivemos alguns momentos marcantes. O primeiro de que me lembro foi a ultrassonografia que revelou o sexo do bebê que nasceria alguns meses depois. Saindo da clínica, fomos direto a um orelhão para que Rosa desse a notícia à mãe dela. Se a sogra do Paulo Barba queria ter um neto ou uma neta eu não sei; mas a minha, ao saber que teríamos uma menina, demonstrou que sogras tudo sabem de Deus e do diabo, e que, também por isso, devem ser sempre bem tratadas.

- Louvado seja a Deus – dona Olga proclamou.

Outro momento foi quando dissemos ao meu irmão, Luiz, igualmente único em muitos aspectos, também todos positivos, que seria feito um exame do líquido amniótico. Esse exame serve para que se saiba se há alguma alteração genética no bebê ou complicações por causa de alguma infecção adquirida pela mãe durante a gravidez. Provavelmente preocupado com o que faríamos se alguma coisa fosse detectada naquele exame, meu irmão trouxe para casa um videocassete com o filme Óleo de Lorenzo. (Se você não sabe o que é orelhão e videocassete, isso não tem nada de divindade ou malignidade: apenas você nasceu bem depois de mim.) O filme conta a história verídica de um casal que resolve travar uma luta incessante contra uma doença rara, degenerativa e incurável que acomete seu filho, Lorenzo, de seis anos. Em meio a consultas a médicos e pesquisas desenvolvidas por conta própria, o pai e a mãe do menino acabam desenvolvendo um óleo, batizado com o nome do filho, à base de extrato de ácidos de azeites de oliva e de colza - que não era a cura, mas atrasava a evolução da doença.

O exame do líquido amniótico, que acomoda o bebê e o nutre do que precisa para nascer, no caso da gravidez da Maria Luiza, nada acusou. O nome dela foi dado na porta da garagem da casa onde morávamos no Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Quando eu me preparava para sair do carro e abrir a porta com cuidado para que pai e filho pastores alemães não saíssem rua afora, assim Rosa decidiu e me participou:

- Ela vai se chamar Maria Luiza. Você é Mario, seu irmão Luiz, e esse é também o nome da sua tia.

- Tem também a outra Maria Luiza, neta da minha tia, filha da Ana Luiza – eu fiz questão de lembrar. Rosa foi novamente resoluta:

- Melhor ainda.

Naquela mesma casa, houve uma noite em que Rosa, já bem grávida, implicou comigo de tal maneira que eu fui para o andar debaixo convencido de que a menina nasceria de pais separados. Se eu respirava, menos oxigênio para a bebê; se eu expirava, poluía o quarto. Na manhã seguinte, enquanto eu estava tomando banho, Rosa bateu na porta do banheiro, e eu pensei, o que virá agora? Ela esclareceu:

- Mario, a bolsa estourou.

Quando a bolsa estoura não faz barulho, mas o líquido amniótico escorre pelas pernas da mãe, avisando que o neném vai nascer. A outra bolsa com tudo que deveria ser levado para a maternidade já estava pronta. Ao chegarmos lá, o ginecologista e obstetra veio falar comigo com ar de preocupado:

- O parto será de cesariana, porque o bebê já pode estar em sofrimento.

- E o bebê, vai ser normal? – eu perguntei.

- Não – doutor Napoleão respondeu.

- O bebê não vai ser normal? – eu, assustado, quis confirmar negando.

- O bebê vai, o parto é que não – respondeu doutor Napoleão e partiu célere para mais uma batalha.

Fui convidado a participar dela. Me vestiram numa roupa de astronauta e me sentaram em um canto na sala cirúrgica, não sem antes terem que trocar tudo de novo, do lençol à minha roupa de astronauta, todos os apetrechos do cirurgião, porque eu tinha esbarrado na maca onde Rosa seria deitada.

Maria Luiza nasceu, chorou e parou de chorar, quando, nos braços da enfermeira, me viu.

Ali começava minha leitura daquele adorável manual vivo, de como ser pai, chamado Maria Luiza. Se o Paulo Barba tiver conhecimento de ter participado do seu preâmbulo, que me dê o prazer de uma visita em Florianópolis, ou então seu endereço, para que eu vá até lá, revê-lo, agora com minha filha e o filho dele já adultos. Por causa da Maria Luiza, garanto que irei sem o diabo.

1.24.2021

NÃO SE PODE FALAR EM POLÍTICA: COMO ASSIM?

 O que dizer, o que calar, a quem querer, assim falou Gilberto Gil. Redes sociais viraram clubes de concordância. Discordar é brigar. Briga-se no Face Book, no Instagram e no clube mais fechado de todos: o WhatsApp. Grupos familiares brigam, se ofendem, porque todos têm que pensar igual. Não se pode falar em política. Como assim? Política se faz todos os dias, dentro e fora de casa. Política é negociação, debate, quem não negocia e não debate o que faz? A política de Estado incomoda e nesse caso os que não se incomodam que se mudem. Que se calem. Ou que fiquem aplaudindo para sempre os erros e canalhices de quem teve seu voto. Fui criado em um ambiente em que se falava de política o tempo todo. À moda brasileira, defendiam-se nomes e não ideias, programas, partidos, o que era e continua sendo muito ruim. Juscelinistas, Brizolistas, Lacerdistas, Janguistas, todos conversavam entre si, com suas paixões e crenças e decepções expostas, mas nunca se deixava de falar de política em família ou entre amigos. Não se brigava propriamente, se discordava, mas se lia, se debatia. Sim, nas ruas era, como é e será, diferente. Ninguém é ingênuo aqui. Nas ruas primeiro se discursa, depois se marcha, depois se luta. Voltando aos anos pré e durante os de chumbo, era comum as famílias compartilharem quatro, cinco jornais, de linhas políticas divergentes, e se falava. Inclusive durante a ditadura, quando apenas a conversa era mais reservada por causa da truculência e da prepotência, mas nem por isso se deixava de falar em política dentro de casa, no trabalho, nos botecos. E aí chegamos ao século XXI. Cansei de criticar o PT e nenhum amigo petista meu deixou de ser meu amigo. Ninguém me mandou calar a boca, ninguém me disse para que eu não falasse em política. Houve desconfortos, silêncios, mas fomos em frente e continuamos amigos. Debatemos, e devo dizer que eles foram muito mais elegantes que eu. Ninguém tinha razão propriamente, mas me deixei levar pela histeria coletiva que tomou conta do país. Quando eu era garoto, havia um personagem chamado O Abominável Homem da Neve. Pois fui tolo a ponto de defender a candidatura do Inominável Aécio das Neves. Em dado momento fui mal interpretado, quando me referi ao projeto de poder pelo voto comprado como um projeto de ditadura. Eu não me referia a um projeto bolchevique, mas sim à ditadura do voto comprado, que começou no governo FHC. Quando se discutia sobre a reeleição, li um artigo do Raymundo Faoro em que ele repetia o bíblico “Pai, perdoai-vos, eles não sabem o que fazem”. Ler nos abre os olhos. Caí fora daquela tramoia, fiquei do lado dos vencidos. Agora o próprio FHC se queixa da praga que nos deixou. É o caso de perguntar a ele: Foi bom pra você? Se a maioria que seguiu o que há de pior na sociedade tivesse lido “Como as democracias morrem” não teria votado em Bolsonaro. Antes que alguém me pergunte, eu NÃO votei nele e além de textos postados nas redes gravei um depoimento tentando abrir os olhos de quem declarava aquele voto. Defendi a candidatura de um bacharel em direito, mestre, doutor, professor, oito anos ministro da educação e ex prefeito de São Paulo. Em vão. Outro erro: aderi ao impeachment da Dilma, ainda que por causa do Dr. Hélio Bicudo, fundador do PT junto com Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, três Admiráveis Homens do Pensamento. Se um dos mais ilustres fundadores do PT se voltava contra quem dirigia seu partido eu deveria aderir, foi o que pensei e fiz. “Nunca ceder ao arrependimento, e sim dizer imediatamente a si próprio: ‘isto significa juntar uma segunda estupidez à primeira’. Tendo-se feito um mal, cuide-se para fazer um bem”, assim falou Nietzsche. Pois me arrepender de ter aderido ao impeachment da Dilma faz bem pelo menos a mim, um arrependimento decorrente de grave erro de avaliação. Eu sabia que havia fascistas ao meu lado, mas achei que eram poucos. Eram e são muitos, e ainda que fossem poucos, um único fascista pode destruir minimamente uma convivência. Eles estão aí. Pois agora não se pode criticar o mais fascista, corrosivo e destrutivo governo da história do Brasil. Ou nos dizem que não se pode falar em política ou que a esquerda destruiu a Venezuela e a Argentina (que não está destruída e novamente optou pela esquerda, diga-se de passagem). Esquerda e direita são capazes de boas ideias e de bons e maus governos. Não são esquerda e direita que destroem países. O que destrói países é a mitologia, a idolatria. O que destrói países é o cala a boca, a apatia. O que destrói países é a letargia. O não reconhecer o erro. O não dizer, o calar, o não querer.

Obrigado, Gil, você é sempre inspirador.

 

 

1.18.2021

MATAI-VOS UNS AOS OUTROS

"Quem decide se o povo vai ter uma democracia ou ditadura são as forças armadas". "Quero a população armada para se voltar contra prefeitos e governadores". Voltar as armas da República,  pagas pela população, contra ela, é coisa de covardes e canalhas. Ameaçar com elas é típico de acuados que desprezam a Constituição e a Democracia. Incitar revolta contra poderes legalmente constituídos é característica de bandidos. Ponha isso tudo num liquidificador, tempere com desprezo pela vida alheia e deboche sobre vacinas. Adicione incompetência a gosto. Pronto. Esse é o seu presidente.  Quem prega matai-vos uns aos outros e ama o torturador como a ti mesmo não pode ser presidente. Não pode ser deputado. Não pode ser candidato.

12.10.2020

DUAS CARTAS NUMA SÓ

 Caro Papai Noel,

Caro Papai do Céu,

Que vocês caprichem no Natal, a começar pela véspera da véspera da véspera. Estamos exaustos do vírus e da maldade dos malas. Pode ser que um dia até eles percebam que não há nada mais divino do que a ciência, o respeito e a paz. Mas não dá para esperar muito por esse dia não, tá? Vocês bem que podiam dar uma forcinha.

Com essa cartinha, nós, do Cidadão Mario, nos despedimos de 2020. Voltaremos em 25 de janeiro de 2021. Deixamos aqui abraços largos e apertados a todas as pessoas que sabem da nossa existência e nos prestigiam, e também a todas as demais que se importem com a vida.

Acima de tudo,

A vida.

Ah. Aproveitamos para endereçar outra carta.

 

Caro 2021,

Convenhamos que seus antecessores não foram lá essas coisas. Seu avô 2019 começou com Brumadinho destroçado, dirigindo-se em súplicas à irmã e vizinha Mariana. Já seu pai 2020 escancarou de vez a fragilidade humana, a começar pelos descaminhos que a própria humanidade traçou para si, muito mais destruindo que construindo. Aqui no Brasil, convivemos com a agravante do desdém absoluto pela vida, seja ela qual for, vegetal, animal ou humana, perdoe as repetições e rimas incidentais. Mas o que nos mantém como espécie, e como povo, acima de tudo, é nossa capacidade de indignação. Ao nos indignarmos com o que nos enfraquece, questionamos, até decidirmos enfrentar quem nos subjuga, seja nossa ignorância, nossa preguiça mais mental do que física, ou ainda a canalhice de uns poucos a afrontar a maioria. Mas é preciso, 2021, que você nos traga ventos de poeira solar e chuvas benfazejas de outras galáxias, a nos afastar o desânimo, a nos ressuscitar a esperança, a nos brindar a alegria de viver em sociedade, a nos aplacar a raiva, para que possamos outra vez nos indignar e reagir, com toda a elegância que seus ventos e chuvas nos puderem trazer. Que no mundo se repense nosso modo de viver, que no Brasil se repense o modo de fazer política. Que o povo daqui e de qualquer lugar perceba que a história está nas suas mãos. Que não se aceitem mais a acomodação e infundadas certezas a cederem espaço à vileza, à apatia e à idiotia. Que a certeza dê lugar à dúvida e à inquietude, a nos fazer partir para a descoberta e à reinvenção da humanidade.

Se isso for pedir demais, 2021, que pelo menos uma brisa e uma orvalhada você nos ofereça, a nos abençoar e esperançar.

Esperar, caro 2021, é que já não pode ser, e sim, sabemos que isso não depende de você.

Um abraço e até breve,

Cidadão Mario.   

11.25.2020

BEM VINDO, MARADONA

 Da próxima, que me convidem para o nascimento do Maradona, não para o velório. Que me arrastem a brindar um gol dele, não a acompanhar seu velório. Que a vida seja sempre festejada e a morte adiada. Mais que o sofrimento, a fraqueza, a queda, muito mais dói o velório. Da próxima vez, me convidem para o nascimento, o gol, a glória. Que o velório fique para quem propague e idolatre a morte, a quem a ela dê de ombros. Fico do lado de quem nasce, do lado de quem sobrevive. De quem vai, a saudade é tanta que é como se não tivesse ido. Bem vindo, Maradona. Bem vindo.

O SERMÃO DO ASFALTO

 

Em verdade vos digo, em economia, Deus não há.

Naquele tempo, Smith, Marx, Mises, Keynes, Hayek criaram teorias baseadas em determinados contextos, e as discutiram, às vezes entre si, outras com outros teóricos, e, mais frequentemente, sós.

Irmãs e irmãos, não deis ouvidos nem tempo àquele que oferece teorias como roupas a vestir territórios de regiões e tamanhos distintos, a agasalhar povos de origens, histórias e culturas diferentes.

Em verdade vos digo, prêt-à-porter, prontas para usar, em qualquer tempo e lugar, somente roupas de estação e moda feitas em série, a um preço para quem possa pagar.

Viremos agora a página.

Naquele tempo, Conrado Gini criou um coeficiente, um índice para medir a concentração de renda. Gini então disse: quanto mais vizinho de zero for esse índice, menor a concentração; quanto mais perto de um, ou de cem ou de mil se por cem ou mil for multiplicado, maior ela é.

E a que explicava explicou: quando e onde o coeficiente de Gini é baixo e a renda média por cidadão é alta; quando e onde a concentração de renda é baixa e o PIB per capita é alto, e há educação para compreender o que são essas coisas, se está perto da civilização.

E o que citava e dava exemplos exemplificou e citou: por exemplo, Holanda; para citar, Noruega.

E a que explicava explicou: quando e onde o coeficiente de Gini é alto e a renda média por cidadão é baixa; quando e onde a concentração de renda é alta e o PIB per capita é baixo, e não há educação para compreender o que são essas coisas, se está perto da barbárie.

E o que citava e dava exemplos exemplificou e citou: o Brasil.

Em verdade vos digo, a discussão entre Estado Mínimo e Estado Máximo é um barco afundado no oceano da realidade. Holanda e Noruega têm participações do Estado na economia totalmente desproporcionais entre si, e assim o é nas duas maiores economias do mundo.

Em verdade vos digo, cada povo, mais do que deve, tem que encontrar soluções próprias para suas próprias e únicas realidades.

Viremos a página mais uma vez.

Naquele tempo, a Constituição da República Federativa do Brasil era do Estado do Bem Estar Social. O Estado, por meio de Governos, garantiria direitos, como à vida, à educação e à saúde, e teria como três dos seus cinco fundamentos a cidadania; a dignidade; e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.

Em verdade vos digo, em vez de se discutir em Bizâncio teorias que geralmente sequer são conhecidas por quem as professa; ao invés de proferi-las no deserto para seres soterrados pelo egoísmo dos imbecis,

Praticar os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa bem poderia pôr o Brasil no Mundo.

Palavra da reflexão.

 

11.17.2020

RELIGIÃO

 

A começar que sou herege, porque sou grego. Politeísta. Acho muita responsabilidade deixar tudo nas costas de um só. Ou de uma só. Nascemos de mulheres, deus é deusa. Zeus é Afrodite, acredite se quiser.

A continuar que sou hebreu expurgado sem nunca ter sido. Panteísta. Como Baruch Spinoza. Deus está, em toda parte, não propriamente é. Vá dizer isso em inglês ou francês e depois fale mal da nossa língua.

A permanecer que sou africano. Há espíritos do bem e do mal. Incorporam na gente sem que a gente perceba.

A enlouquecer todos os dias que sou católico luterano. Peço desculpas e que Jesus leve consigo minha culpa. E que Maomé só expresse o que for amor e paz.

A ficar que sou budista, desapegado de quase tudo, menos das gentes.

A ilustrar que sem ter nenhuma tenho infinitas religiões indianas que sequer conheço.

A confundir que sou kardecista, com a diferença de que reencarno todos os dias em outro planeta, cheio de sol, de lua, de mar e montanha, de canções, de vinhos e de mulheres-deusas interessantes e inteligentes, todas minhas amigas. Uma será minha amante, que dará luz à nossa filha. Haverá homens, somente aqueles que me são amigos.

A terminar que não haverá um final.

11.06.2020

HOMEM E MULHER

O texto a seguir foi postado em 9 de setembro de 2017. O atual título era subtítulo de "Cortinas de fumaça". À exceção de ter sido retirada a última frase - Ou não tem nada a ver? (que não tem nada a ver) -, tudo permanece igual, pois parece que foi hoje.

Dizem que religião é um dos assuntos proibidos, mas, se não nos falarmos, aí mesmo é que não vamos nos entender, e dar de bandeja para quem ganha com isso.

Há bons religiosos, que desempenham seu papel com a intenção de fazer o bem, de trazer conforto, esperança, consolo, remédio e comida. Uma coisa é o religioso; outra, o manipulador.
Se tivermos sorte e determinação; se conseguirmos protestar e discordar civilizadamente, mantendo as amizades acima das nossas paixões e supostas verdades em matéria política, teremos eleições em 2018. (Que ninguém se iluda, isso depende de nós.) É bastante provável que alguns candidatos de 2014 o sejam novamente. Lembro-me de mais de um que falava sobre qualquer coisa e depois concluía: “Para mim, casamento é entre homem e mulher”. Pouco importava se a questão era o panorama político, beirando à ruína; o andar para trás da economia; a cruel e burra distribuição de renda – a 76a entre 136 países; a violência a passos largos para a barbárie; ou as hordas de desgraçados vendendo ou se entupindo de drogas, principalmente a mais barata e vil, por absoluta desesperança e falta de oportunidades, a grande maioria desde o nascimento. Nada disso importava, o que realmente importava para aqueles candidatos era o bordão que os conectava: “Para mim, casamento é entre homem e mulher”. Não se elegeram, nem se esperava por isso, mas alcançaram o que queriam: abocanhar mais poder. Seus eleitores não pensam sobre si - suas péssimas condições de vida, seus filhos fora da escola ou a frequentando sem condições de aprendizagem, podendo ser mortos dentro da escola, enquanto os nossos filhos, tomara – Deus queira - que voltem para casa, sãos e salvos.
Os eleitores dos que levam livros religiosos para o lugar errado, apenas para abocanhar mais e mais poder, mera, covardemente fisiológico, convivem conosco, em nossas casas, em nossos trabalhos, nas lojas, nas ruas. Mas não os vemos, somos de mundos diferentes. Eles nos veem. E nos escutam. Como falar com eles? 

10.20.2020

A ONU E OS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

A ONU e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

 

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade. Estes são os objetivos para os quais as Nações Unidas estão contribuindo a fim de que possamos atingir a Agenda 2030 no Brasil.

Do website da ONU.

 

A Organização das Nações Unidas foi fundada em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Atualmente é composta por 193 Estados Membros. O preâmbulo da Carta da sua criação, disponível em seu website[1], afirma:

Nós, os povos das nações unidas, determinamos salvar as gerações seguintes do flagelo da guerra, que duas vezes em nossas vidas trouxe tristeza incalculável para a humanidade, e reafirmar a fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos de homens e mulheres e de nações grandes e pequenas, estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito pelas obrigações decorrentes dos tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e promover o progresso social e melhores padrões de vida em maior liberdade.

 

Foi com esse espírito que em 2015 foram lançados pela ONU os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Também conhecidos como Agenda 2030, sucederam os Objetivos do Milênio (ODM), que tiveram como prazo o ano de 2015.

Enquanto os ODM eram oito, os ODS são 17. Mais específicos que os seus antecessores, cada um possui metas, com respectivos indicadores para que possam ser alcançadas em todo o mundo. Vale a pena listá-los aqui: ODS 1 - Erradicação da Pobreza; 2 - Fome Zero e Agricultura Sustentável; 3 - Saúde e Bem Estar; 4 - Educação de Qualidade; 5 - Igualdade de Gênero; 6 - Água Potável e Saneamento; 7 - Energia Limpa e Acessível; 8 - Trabalho Descente e Crescimento Econômico; 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura; 10 - Redução das Desigualdades; 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis; 12 – Consumo e Produção Responsáveis; 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima; 14 - Vida na Água; 15 – Vida Terrestre; 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes; e 17 – Parcerias e Meios de Implantação.

Embora a prioridade seja a ação de governos, os ODS também têm servido para pautar uma agenda de desenvolvimento sustentável para o mundo empresarial. Como divulgado no website da Bolsa de Valores – a B3 -, o “Raio X” da carteira de ações componentes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) de 2020 da Bolsa aponta que 98% das companhias, segundo suas próprias declarações, usam a Agenda 2030 e os ODS como referências para a sustentabilidade em seus negócios; e 93% declaram ter realizado uma análise de materialidade para identificar os ODS prioritários para suas atividades[2].

O conceito de desenvolvimento sustentável foi lançado oficialmente em 1987, no relatório da ONU chamado “Nosso futuro comum”, após muitos anos de discussões entre desenvolvimentistas e ecologistas, que, como se sabe, ainda perduram: desenvolvimento sustentável é o capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de suprir as necessidades das futuras gerações. Logo, o desenvolvimento sustentável é o que não esgota os recursos para o futuro, aquele em que se busca harmonizar o desenvolvimento econômico com a conservação ambiental, como se lê no website da WWF[3].

Infelizmente, em que pesem esforços de líderes de nações e compromissos firmados nas Conferências das Partes, como a de 2015 em Paris – a COP 21 -, há quem não os respeite e até desdenhe deles.

Aqui no Brasil, neste ano de 2020, em meio a uma pandemia que tem como sua mais comum e grave consequência problemas respiratórios, houve recorde de queimadas. Não deixa de ser curioso que a preocupação mais repetida seja a de que países estrangeiros poderão diminuir ou mesmo evitar investimentos em nosso país por causa do descaso com o Meio Ambiente. Muito mais do que isso, esse descaso, mentirosamente negado, vai na contramão do desenvolvimento sustentável, justamente comprometendo a disponibilidade de recursos já no presente. Basta ver o que diz a Embrapa[4]:

Sabe-se que a queimada altera, direta ou indiretamente, as características físicas, químicas, morfológicas e biológicas dos solos, como o pH, teor de nutrientes e carbono, biodiversidade da micro, meso e macrofauna, temperatura, porosidade e densidade. Sem falar no aumento do efeito estufa, na redução da qualidade do ar e da água, e da saúde.

 

Ainda segundo a Embrapa, “as queimadas podem ser abolidas pelo uso de tecnologias como práticas conservacionistas de solo e água e sistemas de produção sustentada”.

Sejamos otimistas. É de se esperar que em breve voltemos à civilização adequada ao século XXI. Voltando aos ODS, em sua opinião, qual ou quais deveriam ser priorizados no Brasil?

 

Sua opinião é muito importante. Sempre.

 

Um abraço,

 

Cidadão Mario.



[1]https://www.un.org/en/about-un/index.html.

[2][2][2] Fonte: http://www.b3.com.br/pt_br/noticias/b3-divulga-a-15-carteira-do.htm.

[3]https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/desenvolvimento_sustentavel/..

[4]Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Publicação de 2012, em https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/956695/impactos-das-queimadas-na-qualidade-do-solo---degradacao-ambiental-e-manejo-e-conservacao-do-solo-e-agua.

Todos os websites acessados em 19.10.2020.

 

9.11.2020

O MITO

 I – A operação Lava Jato

Mito é o primo rico da mentira e fato o primo pobre da verdade. Mito é fábula: a mentira criativa. Verdade cada um pode ter a sua, e o fato é a constatação.

Nada do que se fala aqui serve de consolo, nem de longe tem essa intenção, que é apenas mostrar como frequentemente mitos se passam por fatos.

O fato de que existe corrupção no Brasil há muitos anos criou uma série de mitos. Seria um traço cultural do Brasil, decorrente da colonização portuguesa. Há pesquisas que evidenciam fatos a desfazer esse mito. Em vez de lançar mão de algumas delas, vamos buscar o caminho da arte, que, mito ou fato, ora imita a vida e ora é por ela imitada. Erêndira, personagem de Gabriel Garcia Márquez, é obrigada por uma tia a se prostituir, e Tereza Batista, de Jorge Amado, é vendida por uma tia para satisfazer os ímpetos e crueldades sexuais de um homem. Dois exemplos a nos deixar, como em vários outros, presos ao dilema de quem imita quem. Voltando ao mito do ha ha hu hu, a corrupção é nossa, assista-se por exemplo à série e/ou ao filme SUBURRA, para conhecer um pouco da corrupção italiana contada por meio da ficção, mas com fatos de sobra, históricos e atuais, a embasá-la. Alguém será capaz de dizer, ora, italianos são latinos como nós, e por isso são corruptos. Assista-se então ao filme norte-americano A LAVANDERIA, com Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Bandeiras, baseado em fatos reais, que conta a história feita de muitas outras de corrupção, todas reais, fáticas, de empresas não só dos Estados Unidos da América como de uma, sim, brasileira. Ah, então a corrupção é do Novo Mundo e/ou latina. Uma das pedras que teimam em não sair desse sapato é o caso Lockheed, nome de uma empresa, sim, norte-americana, que nos anos 70 do século passado corrompeu poderosos alemães, holandeses e japoneses. A corrupção não tem pátria nem etnia, não faz parte de uma cultura, embora seja ela mesma, a corrupção, uma cultura.

Cuidado é preciso também quando se diz “somos corruptos”, a não ser nos casos de confissão disfarçada de justificativa.

A corrupção nunca tinha sido sistêmica. Fato ou mito, como saber? Ficamos sabendo da  sistemática da corrupção por meio da combinação de alguns fatores, alguns deles recentes em nosso país. No mundo inteiro, a investigação de práticas criminosas se torna a cada minuto mais dotada de ciência e tecnologia; no Brasil, a liberdade de comunicação e o jornalismo investigativo só foram ressuscitados entre 1985 e 1988, anos que ficaram marcados pelo fim do regime militar e ditatorial iniciado em 1964 e pela promulgação da atual Constituição da República Federativa do Brasil; e foi em 2013, há poucos sete anos, que entrou em vigor a Lei  nº 12.850, que define organização criminosa, e enuncia, em seu artigo 3º, que, em qualquer fase da persecução penal, serão permitidos, sem prejuízo de outros já previstos em lei, determinados meios de obtenção da prova - entre eles o da colaboração premiada (sim, colaboração e não propriamente delação, que deve ser compreendida como uma das espécies da primeira). Tecnologia, liberdade e método de investigação permitiram que conhecêssemos tamanho, abrangência e profundidade da corrupção em nosso país. A operação Lava Jato fez uso intensivo e extensivo dessa combinação.

O mérito da Lava Jato, uma operação policial, foi desbaratar esquemas e permitir à Justiça investigar, julgar e  - finalmente, e com base na Lei, algo próprio da democracia - punir corruptos. Infelizmente, esse mérito teve a empaná-lo o sensacionalismo, a vaidade e a falta de limites de alguns, a generalização conceitual em relação à política e a necessidade de muitos de acreditar em mitos. Promotores, procuradores e juízes não se confundem com heróis, e via de regra, heróis são mitos.

Agora, o gosto amargo da desilusão e decepção com respeito à Lava Jato bate na boca dos que acreditaram na mitologia que se criou em torno dela, que foi e é nada mais, nada menos que uma operação policial de investigação de suspeitos de corrupção.

II – O “Mito”

A disputa entre razão e emoção tem um dos seus momentos mais acirrados e perigosos nas eleições. A avaliação de riscos e oportunidades se fragiliza diante de verdades daquelas que cada um tem a sua, de raivas, medos e preconceitos, dos truques do marketing político e do estresse de um noticiário que se vale disso tudo, desde o racionalismo da avaliação até a exaustão da emoção, que também invade corações e mentes de quem dá as notícias.

Um dos mitos fabricados para nos diminuir como povo e enfraquecer nossa democracia é: o brasileiro não sabe votar. Ora. O mundo não sabe votar e por isso todo mundo vota, essa é a lógica da escolha, que se baseia como sempre na humana mistura de razão e emoção, a mesma lógica da democracia e do voto. Assim não se deve julgar o voto de ninguém. Nem por isso devemos deixar de analisá-lo, pelo menos para tentar evitar repetições muito perigosas.

As eleições de 2018 no Brasil foram mitológicas. A começar pelo “mito”. Mito é aquilo ou aquele que não existe, mas que se materializa na mente de algumas e às vezes de muitas pessoas. Há os que se identifiquem com o presidente eleito, mas mostram as pesquisas que não são a maioria. A bem da verdade, a com V maiúsculo, a omissão e mesmo a pusilanimidade de algumas lideranças políticas foram a causa mais importante e revoltante do que aconteceu em outubro de 2018. Mas outra de decisiva importância foi uma série de mitos capazes de iludir a maioria.

Meu partido é o Brasil, como se o Brasil fosse um único ser, de pensamento uníssono. Quem pautou sua vida pelo desrespeito seria o bastião da ética. Um expulso do Exército por indisciplina seria um disciplinado. Um evangélico que prega matai-vos uns aos outros e ama o torturador como a ti mesmo. Existiria uma nova política. Os militares seriam mais capacitados que as outras classes  – sim, para a defesa, mas para governos, que se visite a história, daqui e do mundo. Todo político é corrupto, todos os partidos são corruptos, habitados cem por cento por corruptos. Um partido que tenha membros corruptos é e será um partido corrupto. Houve aparelhamento do Estado – como se houvesse alguma agremiação política que ao chegar ao poder não fizesse isso. Um outsider, com sete mandatos de deputado. Um economista de quem nunca se tinha ouvido falar seria um gênio, um superministro. Militares seriam partidários do liberalismo econômico. O liberalismo e o Estado mínimo seriam a solução para o Brasil - mito morto infelizmente junto com mais de uma centena de milhares de pessoas, até o momento (e o presidente diz, E daí?). O defensor e enaltecedor de ditaduras, ditadores, tortura e torturadores não traria nenhum risco à democracia (e não diria “E daí?”), ou a ditadura seria melhor que a democracia, exceto a cubana e a venezuelana – pois veja-se o que está acontecendo aqui e agora: há suspeitas de cooptação de membros da justiça e do judiciário, exatamente como aconteceu na Venezuela. A ditadura foi boa para o Brasil – logo ela, que, entre outras sequelas, deixou uma colossal dívida externa e inflação sem controle, só derrotadas, a duras penas, pela democracia. O patriotismo, liderado, desde a campanha, por um fiel seguidor do presidente dos Estados Unidos.

Mito é o primo rico da mentira e fato o primo pobre da verdade. Nas próximas eleições, optemos todos pelos fatos, ainda que a fúria das nossas emoções se esforce a nos fazer perdê-los de vista.

8.25.2020

DILEMAS

 

Quando não cai a ficha, é o orelhão que cai (principalmente quando o orelhão nem existe mais). O Brasil é um país pobre. Não adianta ter o oitavo produto interno bruto do mundo com metade da população vivendo com menos da metade do salário mínimo (não se sabe como). Essa constatação poderia sugerir que políticas estruturantes associadas a outras assistencialistas por tempo determinado seriam capazes de aumentar o PIB e diminuir a pobreza. O atual governo optou por outra combinação: privatizar, deixar o mercado trabalhar e, por si, resolver; e destruir – respeito, ambiente, educação, saúde, cultura, inteligência, livro, diplomacia, instituições, democracia, laicidade... Agora, vive o impasse. Para conseguir a reeleição, terá que combinar assistencialismo com algo que não conhece, mas que guarda em sua composição quem pense que conhece: construir. Para essa nova combinação, terá que aumentar a dívida com dinheiro de quem foi convencido por ele, governo, de que a outra combinação é que estava certa (pensar em pedir dinheiro a quem se acusou de destruir florestas, por quem alegou que isso autorizaria a destruir a nossa, nem pensar, ainda mais quando todos estão mergulhados em resolver seus próprios problemas e dilemas - diria Sherlock Holmes, saudoso do sagaz Watson, a esses superintelectos governamentais). O “e agora, José” do nosso gauche Drummond, o ser ou não ser shakespeariano, tudo fichinha perto do que se vive hoje, nessa terra em que se plantando tudo dava. Do lado de cá, do povo, o dilema é: acorda, Rodrigo, ou empurra com a barriga, Rodrigo. Saudades do orelhão.

Mario Benevides, 25/8/2020. @cidadãomario, mariobenevides.blogspot.com / facebook.

8.15.2020

O VEEMENTE

 

A infância é mesmo para se ter saudade. Na minha, por exemplo, Gilmar era goleiro da seleção.

Deve ter sido alegado que o Queiroz é mesmo do grupo de risco. Mas vários outros são, a diferença é que ele é amigo do rei. Sim, não estamos em Pasárgada, mas ele sim. O Brasil deixou de ser império para continuar sendo.

Ah, você queria fechar o STF, não é? Nesse caso, a mídia, já ou ao mesmo tempo, teria sido calada, e nem saberíamos de mais esse episódio, não é? Um conforto só.

Nada como um dia depois do outro, nada como uma menção ao genocídio depois de um outro seja-o-que-for. Um Queiroz, por exemplo. Serei preso por isso?

Quando William Waack disse que a buzina insistente que o incomodava antes de entrar no ar era coisa de preto, postei uma foto de Pixinguinha com Louis Armstrong, e achei que não era necessário dizer: Sim, WW, esses pretos e suas buzinas. Como as notícias insistem em teimar, era sim.

Mas tudo faz sentido, juízas e juízes têm sempre razão. Pior seria sem. A humanidade é mesmo errática, sempre haverá um erro a corrigir outro. Um dia, pode ser que a justiça seja para todos, a começar pela oportunidade de estudar e trabalhar. Pois ora dirão que isso seria um erro, não é mesmo?

Jerônimo, que já foi herói do sertão, hoje é um cachorro. Se houvesse sindicato de cachorros, ele seria o presidente. Ontem à noite, esse cão alado voou do sofá à poltrona e latiu aos seus dezoito pulmões contra um estrondoso trovão. Jerônimo, que inveja da tua veemência.

5.23.2020

APENAS MAIS UM 22 DE ABRIL


Eles sabiam que estavam sendo gravados e por isso cada um deu o melhor de si, ao seu jeito. De um, o clamor pela liberdade de não ter que respeitar leis e magistrados. Melhor prendê-los. Ódio. Muito ódio. Outro convida aos demais para que compartilhem da sua esperteza. É hora de aproveitar a tragédia para que tudo passe sem que se perceba, como se fosse uma boiada. A bajulação quase unânime ao que vocifera para mostrar que é macho e que fala do povo para mostrar que é bom e que deixa claras suas intenções de armá-lo. Ao seu lado, um silêncio que não esconde o sorriso de quem somente espera sua vez, quem sabe, para um sonhado autogolpe. Apenas uma surpresa, não com o alinhamento moral (ou amoral), que já era notório, com o que fez questão de dizer que leu Keynes três vezes e que demonstra com toda clareza que não entendeu nada do que leu. Finalmente uma surpresa. Afinal, era 22 de abril, 520 anos depois da descoberta pelos portugueses dessa terra, em que se plantando, tudo dá.

4.13.2020

CIDADÃO KEYNES


Cidadão Kane foi criado e vivido por Orson Welles. Espécie de precursor no século XX das fake news. O cidadão John Maynard Keynes, se aparecesse hoje no Brasil com superpoderes, juntaria em uma mesma esquina a CEF, o Banco do Brasil e o BNDES. Vindos de uma via secundária, os desenvolvimentistas diriam: melhor poupar para ter quando precisar. Na preferencial estariam os liberais, que diriam: melhor ter para usar quando precisar.

3.23.2020

NOS 26 ANOS DE MARIA LUÍZA


Maria Luiza faz 26 anos hoje. Amanhã é dia de continuar seu terceiro ano de residência atendendo a quem precisar. Que a ciência médica invente um novo complexo B que, em vez de mosquitos, exale um cheiro que afaste vírus. Que a farmacêutica descubra um hidratante que, de tão perfumado e emoliente, mande o vírus tomar banho (bem longe de nós). Que os liberais de plantão compreendam de uma vez por todas que a ação humana movida pelo egoísmo, nada mais que o egoísmo, nada cria, nada transforma, somente afasta. Que os defensores do estado máximo se deem conta de que essa ideia surgiu para justificar monarquias absolutistas, muito mais perversas que paternalistas, de um paternalismo falso quanto falso é todo moralismo. Que em breve cabelereiros voltem a nos cortar os cabelos e os garçons a nos servir cafezinhos quentes e chopes gelados. Que essa pandemia logo se vá, mas deixe a certeza de que a vida pode ser mais convivência e menos campeonato. Que a solidariedade esteja sempre presente e não apenas em salas de espera com flores murchas. Que você, minha filha, continue sendo essa pessoa imensa de alma e de carinho, até mesmo na escolha e no exercício da sua profissão. Um beijo, do papai.

3.19.2020

DÚVIDAS E UMA SÓ CERTEZA



A única certeza é: precisamos de ar, comida, água, álcool, sorrisos, enfermeiros e médicos (e um pouco de vinho, se não for pedir muito).

Algumas dúvidas:

O que representaria maior risco para nossa vã democracia? Manutenção do titular? Substituição pelo seu vice? Ou a reeleição do titular e/ou do seu vice?

No momento, quem dá as cartas e começa a perder o jogo é um vírus. E depois, quem dará as cartas no Brasil? Donald Trump? Edir Macedo? Homo Sapiens? Ou papagaius imbecilis?

Adquirir com poderosos tostões o estoque de produtos nas prateleiras de mercados e farmácias é precaução? Ou egoísmo?

Não fosse a dúvida, ou não a havendo, seria a Terra ainda plana?

A única certeza é: precisamos de ar, comida, água, álcool, sorrisos, enfermeiros e médicos. E um pouco de vinho, se não for pedir muito.

12.06.2019

O POVO RESILIENTE


Uma vez preparei um trabalho a pedido de um executivo sobre a resiliência do Brasil. É o que somos: um povo resiliente, que entorta, mas não quebra, e se reconstitui. Somos quase que um elástico, que se esgarça, mas não rasga. Vivemos em montanha russa, com períodos de prosperidade que até aparenta ser geral, com outros de recessão, depressão, até nova reação. A dependência de comodities é muito grande, ao contrário do investimento em tecnologia própria, ciência, cultura, pesquisa, desenvolvimento e inovação. Em vez de escolas em tempo integral, proporcionando a quem vive no inferno um pouco daquilo que os mais abastados têm, afastando aqueles das drogas e das armas e preparando-os para pôr o país onde poderia estar há muito – no pódio do cenário mundial -, aqui se prefere matar e matar e matar. Que nem barata. (Aliás, é de se perguntar ao autor da expressão se seus vizinhos mais ilustres também serão mortos que nem barata.) No lugar de programas estruturantes, abrangentes e continuados - estatais e privados -, para desenvolvimento e capacitação profissional, prefere-se apostar na gangorra dólar sobe, bolsa cai e vice-versa, e criar, comprar e vender estatais, não sem antes depreciá-las, com duplo sentido. A depender do ciclo, o Estado injeta dinheiro público para aquecer a economia, não sem alguma dose de inconsequência, ou enxuga tudo, aperta tudo, sufoca a quase todos, respectiva e enganosamente como se inspirados em Keynes ou Friedman e seus antecessores. (Segundo par de parênteses: quem pensa que Marx passou por aqui nos últimos anos deveria ler um pouquinho mais, para não dar a impressão de que seus ancestrais tenham sido pássaros de plumagem verde ou azul e vermelha.) Não sem inovar: os 500 reais do FGTS vão salvar o país, já que milhões de nós (que representam metade da população) vivem com 413 reais por mês. Por favor não me pergunte como: felizmente ainda não sei. Em vez de nos vermos como parte de um povo, somos o país do quero o meu, o resto que se dane. E assim permanecemos: resilientes, alçando voos para depois arremeter. Pena que nossos voos vão sendo cada vez mais curtos e as arremetidas cada vez mais bruscas. mariobenevides.blogspot.com (um resiliente).

4.02.2019

ESQUERDA E DIREITA


Como todo mundo dá palpite sobre esse tema, eu também vou dar o meu. A dicotomia Esquerda e Direita com significado político surgiu na época da Revolução Francesa. No Parlamento Francês, à esquerda ficavam os jacobinos, contrários à monarquia e seus privilégios; à direita, os girondinos, afeiçoados à nobreza, logo, conservadores. Deste lado o conservadorismo “de direita” e do outro liberdade, igualdade, fraternidade “de esquerda” – como visto, meras alusões às posições respectivas na Assembleia Nacional da França do século XVIII. Cerca de 80 anos depois, Marx desenvolveu suas teses contra o capitalismo, e capital é algo que os que o têm no mínimo não o querem perder, logo, são conservadores. Dois passos atrás, a Revolução Gloriosa transferiu poderes da monarquia para o Parlamento Inglês, e neste caso saiu vitorioso o liberalismo, que ninguém à época poderia classificar de esquerda ou direita, pois a Revolução Gloriosa na Inglaterra precedeu em 100 anos a Francesa. Como o liberalismo se baseia na ação individual e o comunismo e o socialismo na coletiva, estes se consolidaram como representativos da esquerda, e o liberalismo foi para o lado da direita. Chegamos ao século XX. Gramsci, marxista, é preso pelo fascismo, até morrer. Preso também foi Norberto Bobbio, então simpatizante do marxismo, que escapou com vida por se ter desculpado perante o fascismo. Vários outros episódios ficaram na História a não deixar dúvidas de que o fascismo se contrapôs ao comunismo - e se este está à esquerda, o fascismo está à direita, e direita nacionalista, com grande peso estatal em tudo: nos negócios, no direito, nos costumes. Nem por isso se torna de esquerda, pois que combate o comunismo, sendo que este, naqueles tempos, praticamente eliminava a iniciativa privada, de novo contrapondo-se ao liberalismo e ao capitalismo – este, no caso do fascismo, fortemente estatal. Com o nazismo não foi diferente, acrescentando porém o arianismo, a ideia da supremacia branca alemã. Assim, não me parece difícil percebermos que: (1) nazismo e fascismo foram e são “de direita”; (2) estão mais à direita do que o liberalismo está em relação ao comunismo, e por isso, nazistas e fascistas usualmente se autoproclamam de ultradireita (o atual presidente do Brasil assim se referiu a si e ao seu (ex) partido PSL ao a ele se filiar); (3) como o conceito político de “esquerda” surgiu antes do comunismo, este não pode ser considerado como a única forma de “esquerda”; daí uma das razões de o comunismo totalitário ser considerado de ultraesquerda. Mas, alguém poderia perguntar, não existe vida entre essas posturas e definições? Algo que se possa chamar “Centro”? Voltemos a Norberto Bobbio, que em seus últimos anos se disse a favor do socialismo liberal, como consta da página web do seu contemporâneo, nosso Miguel Reale – que em contraponto disse preferir o liberalismo social, enfatizando porém que seria o Centro o único capaz de apaziguar as disputas ideológicas. Mas no Brasil tudo é diferente. Quem se autoproclama ultradireita defende o liberalismo; o Centro vira “centrão”; uma dada, suposta religião invade o poder, em um país laico; e quem disse o exato oposto ao que dizem historiadores, pesquisadores, testemunhas, e, como eu, amadores, não só foi aprovado pelo Itamarati como ocupa o cargo de chanceler. Poeta Carlos, você foi ser gauche na vida. E nós, poeta? O que seremos e o que será de nós?

3.09.2019

FUTEBOL, UMA DOENÇA INCURÁVEL


Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Não que eu seja nostálgico ou saudosista, mas, como todo mundo, gosto de lembrar de coisas boas. Quando as ruins aparecem, é só levá-las ao encontro do seu bem mais querido: o esquecimento. Se o esquecimento nos lembra que tem memória, trabalhamos, vemos alguém interessante passar, ou então é o cachorro que faz xixi no lugar errado, e tristeza e esquecimento se vão de mãos dadas, aonde, ninguém quer saber.

Eu já morava no Leme, tinha onze-doze anos, e ia, de ônibus, com meus amigos Humberto Rodrigues de Sá e seu primo Luiz Fernando ao Maracanã. Os três sozinhos. Havia menos gente, a ganância de uns e a ignorância de tantos (imposta pelos tais uns) ainda pouco se esbarravam. Fomos, por exemplo, ver a decisão do campeonato carioca entre Botafogo e Bangu. Eram seis times grandes no Rio: os dois citados, mais Flamengo, Fluminense, Vasco e América. No ano anterior, o Bangu fora o campeão, derrotando o Flamengo. Em 67, deu Botafogo. O Campeonato Carioca, a Taça Guanabara e as excursões dos clubes eram os principais assuntos em matéria de futebol. Pelé em plenitude, Garrincha já em fim de carreira, e era outro o timaço do Botafogo, que não vou recitar aqui. Anos depois, li a magistral biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, quando o autor, no prefácio, diz que, na decisão Botafogo e Flamengo de 62, quando o alvinegro venceu de 3 a 0 com três gols do Mané, descobriu que, além de Flamengo, era Garrincha. Poucos anos depois, vi um documentário, no qual ninguém menos que Zico diz: “Não me importava se eu era Flamengo, o que eu queria era ver o Garrincha jogar”.

Pois dia desses, na Barbearia Tradicional de Florianópolis, enquanto esperava minha vez, vi na TV comentaristas de futebol discutindo sobre quem seria o melhor jogador brasileiro depois de Pelé. Nenhum falou em Garrincha. Está certo, sou mais velho que eles, mas, se tanto quanto eles não vi o Garrincha jogar ao vivo, ouvi falar, me interessei, vi documentários, entre eles o filme “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade, como li crônicas de Vinicius de Moraes e Nelson Rodrigues (entre tantos outros) a respeito do Anjo das Pernas Tortas.

Não é curioso? Nada entendo de futebol, me livrei do vexame dos meus passes errados quando entrei na faculdade, sou nada mais que um amador em matéria de futebol. Os tais comentaristas são profissionais disso. Sequer citaram Garrincha – segundo Ruy Castro, o craque responsável pela vitória do Brasil sobre a Áustria na segunda Copa das cinco conquistadas pelo Brasil, no mesmo 1962, em um ano em que o Botafogo representava meio time da seleção - com Pelé contundido logo no começo da Copa e Amarildo jogando em seu lugar, ao lado de Didi, Nilton Santos, Zagalo e, claro, Garrincha.

Pode-se pensar que tudo o que eu disse aqui é saudosismo de botafoguense; pois conto que, em outro dia desses, no Rio, meu amigo, flamenguista roxo, Murilo Drummond recitou o que eu não iria recitar aqui, o timaço do Botafogo campeão da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca em 67 e 68: Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gerson; Zequinha, Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar. (Diga-se de passagem, Jairzinho fez gols em todos os jogos da Copa de 70, a terceira das cinco do Brasil. Nem Pelé...)

A crônica esportiva atual tem momentos que perfeitamente correspondem ao futebol que é jogado no Brasil de hoje. Que isso mude logo, que voltemos a ter seis grandes no Rio, tantos outros em outras cidades do país, e que os responsáveis pela mediocridade que tomou conta do nosso esporte favorito, da crônica aos assim chamados dirigentes, se juntem ao esquecimento, a caminho do onde-ninguém-quer-saber.

Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. A minha se chama Botafogo.

2.08.2019

Para Bob Dylan, Geraldo Vandré e Bakunin

Triste trôpega paródia de Blowing in the wind, para Bob Dylan, Geraldo Vandré, Bakunin, e todos aqueles que vivem dispostos a viver

Quantos meninos do Flamengo vão morrer
Até que possam ser adultos?
Quantos Brumadinhos, Marianas vão sofrer
Até que caçem seus indultos?
E quantos safardanas a Bíblia vão brandir
Até que corajosos ressuscitem?

A resposta, meu amigo,
Não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

E quantos canalhas vão ter nossa atenção
Até que nossos olhos os desprezem?
E quantos fuzis nos amedrontarão
Até que nossos olhos os fuzilem?
E quantos iletrados vão ter que padecer
Até que afortunados se humanizem?

A resposta, meu amigo, não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.

E quantos salvadores vão nos iludir
Até não lhes prestarmos atenção?
E quantas moças pobres serão órfãs de seus filhos
Até lhe prestarmos atenção?
E quantas AIDS, sífilis vão reaparecer
Até que a hipocrisia caia ao chão?

A resposta, meu amigo, não sopra ao vento não.
A história se faz com nossas mãos.