2.13.2017

Bom Dia

Uma voz amada me deseja bom dia.
Outra a ela se junta e me diz Bom dia.
As duas conversam e dizem
Uma à outra
Bom dia.
Todo barulho urbano
Será somente percussão
Ora afinada ora desastrada
Dessa melodia.
Que vozes amigas
Amadas sempre nos digam
Bom dia.

2.08.2017

O LADRÃO DE AMIGOS

Eu tenho um amigo que rouba amigos. Ele não rouba nada dos amigos, mas os propriamente ditos. Qualquer amigo que eu apresente a ele passa a vê-lo mais que a mim, e tenho certeza de que isso acontece com todo mundo que é amigo dele. Acontece que um ladrão de amigos, que rouba amizades, é alguém generoso: compartilha as amizades roubadas. Quando estamos perto, nos convida a estar com elas. Estando longe, manda fotos, mensagens, telefona. Daí me ter ocorrido uma ideia: mandar esse meu amigo pra Brasília. Lá, ele reuniria os corruptos dos três poderes e, de olhos vendados, os levaria a um lugar onde eles continuassem exercitando o que gostam: roubar, não amigos, mas dinheiro, qualquer bem material, seja de amigos, inimigos, desconhecidos, de quem tem e de quem não tem. Só que agora somente entre eles, roubando uns aos outros, em um lugar só conhecido por eles. Não existem os primos entre si? Corruptos passariam a ser os ladrões entre si. Os honestos, meu amigo manteria em Brasília. Quando esses tivessem uma vontade danada de roubar, por certo herdada do convívio com aquela outra rede social, já teriam aprendido com meu amigo a roubar somente amigos – amizades -, incluindo o compartilhamento, entre eles e, até, quem sabe, conosco. Não mereço o Nobel pela ideia? Claro que não. O Nobel é do Rubens.

6.26.2016

Desconhecidas Bocas

Aos catorze quinze anos teria dito
Janis Joplin não se drogue fique
Aqui conosco.
E teria lhe beijado a boca
Se ela quisesse.
Muitos o teríamos feito
Carinhosamente.
Amy Winehouse filha
De outra Janis
A ela teria dito
Me irrita seu suicídio
Tão anunciado
Óbvio.
A ponto de desgostar
Do que de fato eu gostava,
Da sua voz
Canção.
E teria lhe beijado a boca
Se ela quisesse.
Muitos o teríamos feito
Carinhosamente.
Não necessariamente conhecemos
Quem nos lê.
Não há como conhecer beijar
Tantas desconhecidas bocas.
Não afaste ou despreze as nossas
Principalmente não nos irrite
Com a obviedade.
Experimente o prazer
A onda
Do elevador prédio ônibus errado
Para o bairro longe
Dos óbvios e também
Da sua casa
Possivelmente chata.
Peça-nos exija nossas
Bocas.
A sua
Se você quiser beijaremos
Carinhosamente.

Bela e querida Inglaterra

"A União Europeia, uma instituição que ajudou a manter a paz na Europa por meio século, sofreu um duro golpe" - The Economist - A tragic split - 24/6/2016.
Bela e querida Inglaterra,
Como no título brasileiro
de England made me,
de Graham Greene,
Te separaste da Europa
Levando contigo teu reino
(até quando?) unido.
Uma mulher perdeu a vida por isso
Porque era contrária à tua separação
Como contrário era The Economist.
Parece ter pesado mais
que a Economia
A imigração.
(Às favas séculos de domínio.)
Bela e querida Inglaterra,
Uma Europa desunida tantas vezes
Tanto sofrimento
Que desta vez
Pelo menos
Assim não seja.
Bela e querida Inglaterra,
Deste distante
Muito mais que crítico
Teu admirador,
Minha tristeza
Pela tua
Se
Pa
Ra
Ção.

3.09.2016

CANÇÃO DE NANÁ

Nane Naná
Vasconcelos
Nane Naná
Vá com os celos
De George Martin.


2.21.2016

Livre tradução de termos usuais em 2016 no Brasil



Golpe: mensalão.
Golpismo: petrolão.
Desrespeito ao voto: fazer o  diabo para ganhar a eleição, mentir deslavadamente para o eleitorado, amedrontá-lo; propaganda enganosa.
Ilibada: palavra exclusivamente utilizada por quem desconhece seu significado.
Base jurídica: algo que um juris`ta fundador do PT tenta demonstrar que existe para o impeachment do governo do PT.
Pedalada fiscal: algo que, por unanimidade, oito juízes do Tribunal de Contas da União afirmam ter ocorrido.
Congresso: minha cara é do Eduardo, minha cara é do Calheiros, minha cara é?...
Aliado: Renan Calheiros.
Base governista: Renan, Collor, Picciani.
Picciani: deputado que afirma que o governo não interviu (não viu entre) na sua eleição na Câmara como líder.
Marcelo Castro: espécie de 007: com licença para intervir; o que interveio.
Direita conservadora: quem pensa diferente do governo do PT. O mesmo que coxinha; imbecil; elites brancas.
Barbosa, Nelson: está contudo prosa.
Stédile: quem?
Lula: qual?
FHC: coordenador do Plano Real; em matéria de amante, dedo podre; generoso com o filho que não teve; de quem são esperadas explicações.
Marina Silva: extraordinária auto-explicação para uma incógnita.
Temer: decifro-me ou me devoras.
Aécio: até aqui, morreu Neves.
STF: onde estou, quem sou, aonde vou?

13 de março: um grito de esperança. De mais exercício da democracia. Sempre.

12.13.2015

O encontro de Don Manolo com Cervantes (na morte do meu sogro)

O encontro de Don Manolo com Cervantes (na morte do meu sogro)

Don Manolo, hombre de pocas palabras y plácido sonriso
Amante de las motos
Profundo conocedor de los vehículos y mucho más
De las gentes
Saudoso de su Galicia y toda su España
En sueño profundo se fue al encuentro de Cervantes
Para decirle, Miguel, los molinos de vientos se quedan
Como Don Quijote los encontró
Las gentes permanecen olvidadas de las palabras y mucho más
De los silencios.
Cervantes acarició sus propias barbas y bigotes
Salió a caminar como se fuera un loco
Miró Don Manolo profundamente dentro de sus ojos
Suspiró y finalmente respondió al recen llegado.
Manuel, dejemos las personas con sus molinos de viento
Vamos nosotros al encuentro del propio viento.
Al comando de Cervantes
Los dos inspiraran y después soplaran todo el galáctico viento.
Fue cuando las gentes si sorprendieron con la lluvia
De meteoritos. 


 





9.12.2015

REALIDADE, SONHOS, VIAGENS

Nesses tempos de governo, para dizer o mínimo, irresponsável, perdido e negligente, com nosso tão duramente conquistado real perdendo valor, para não se ensimesmar em turvos pensamentos é preciso perder o juízo, sonhar e viajar. Foi o que Rosa e eu fizemos, em rápidos e inesquecíveis dez dias.

Nelson Rodrigues dizia que o único inglês de verdade era o Antônio Callado. Quase conheci um segundo no ano passado em Londres, mas, por um detalhe, deu pra ver que Nelson como sempre estava certo: o sósia de John Hurt – que tampouco é de verdade, porque só faz personagens e sempre brilhantemente – lia, mas em um tablet. Há reis e rainhas, mas são realeza, não realidade. Desta vez, tomamos café da manhã em um lugar que também não existe, chamado Café Mignon, na City of Westminster, perto da Victoria Station. Lá tem um jardim interno onde chove enquanto lá fora faz sol, uma inglesa que fala alemão, mas que pode ser uma alemã que fala inglês, um libanês, e uma provavelmente inglesa a quase contrariar Nelson. No Convent Garden, uma banda de violinos e violoncelos tocava e cantava e dançava, enquanto bebíamos vinho branco. Perto do Café Mignon, jantamos pizza servidos por uma furiosa jovem italiana, enquanto outra, não sei de que nacionalidade, me olhou de cara feia porque espirrei. Claro: Antônio Callado jamais espirrou.

Fomos de trem a Manchester, onde apresentei um segundo trabalho em coautoria com meus amigos Baltazar Guerra, PhD nascido em Portugal radicado no Brasil, e Alek Suni, economista americano descendente de finlandeses, no Simpósio Internacional de Adaptação às Mudanças Climáticas, na Manchester Metropolitan University. Como era tudo um sonho, erramos de vagão no trem, mas ninguém nos expulsou. Fomos de ônibus a Notting Hill, escrito errado por eles de propósito, porque o certo seria Nothing Hill, pois é lá que fica Portobello Road, que só existe em canções. Em outro trem, fomos a Chester, que também não existe, já que é medieval e tem uma loja de City Tan, de bronzeamento artificial, que confundi com City Tour, para desespero das atendentes e da Rosa. Em Chester foi que aprendi que Manchester é pró e paroxítona: se pronuncia MAN-Chés-ter. Na França, seria oxítona; mas era Paris, outro lugar inexistente.

Hemingway a chamou de festa móvel, e quem se atreveria a dizer que ele estava errado? Lá, passeamos de dia e com sol e de noite e com sol. Visitamos jardins, andamos a pé e de barco e de triciclo, nos perdemos e nos achamos. Em um show de Gospel na igreja de Saint Julien le Pauvre, um casal muito jovem ficou noivo no final do espetáculo, e Rosa tirou nossas alianças da bolsa. Disse a ela que as guardasse, porque nossa festa seria somente nossa, assim como aquela seria somente dos dois no altar, tendo os músicos ao seu redor. E assim foi: no Closeries des Lilas, restaurante que era frequentado pelo mesmo Hemingway, pedi ao pianista que tocasse Tom e Vinicius. Em frente ao piano, ao som de Eu sei que vou te amar, trocamos nossas alianças, e o emocionado pianista me disse ter sido a primeira vez em sua experiente carreira que isso acontecia. Sem nunca termos nos separado, vamos nos casar outra vez, agora com direito a juiz de paz.

Termino voltando ao mundo real e parafraseando Fernando Pessoa. Na Europa, a tão duramente conquistada paz se funde com o drama dos imigrantes. No Brasil, o Governo mente. Mente tão descaradamente, que finge ser mentira a mentira que deveras mente.


Sigamos, enfrentando a realidade, sonhando, viajando. Bons sonhos, boas viagens, bom sábado.

8.22.2015

7.05.2015

DEZ ANOS DE O DIÁRIO DE UM MARIO

O nome, claro, é uma brincadeira com o livro do Paulo Coelho. O blog O Diário de um Mario nasceu com dois propósitos: divulgar meus textos e criar uma disciplina para minha atividade de escritor. No começo, funcionou: todos os capítulos de A Revolução do Silêncio nasceram no blog, quando o romance ainda se chamava A Dinastia de Ricardo Coração dos Outros; e toda terça-feira eu publicava uma crônica ou um poema. Com o tempo, a disciplina desapareceu, e os livros e o Face Book foram tomando espaço do blog. Mas hoje, não: este texto foi criado para o blog e depois copiado para o FB.

O tema do Terceiro Sarau do Mario, ainda sem local, mas com data – 22 de agosto -, será exatamente este: Dez anos de O Diário de um Mario. A ideia surgiu de um comentário de Luiza Kons, que me entrevistou em seu programa Conversa de Lado, da Rádio UFSC.
Eu e minha garage band - Carine Bergmann, seu marido Ramon e Lucas Ferreira -, fazemos nosso planejamento quinzenal no pub Blue Bird, na Rua Mauro Ramos, em Florianópolis. É o mais inusitado pub que conheço: só abre para almoço; à noite, só para nós. O dono, Nicolai, dorme lá e é poeta. Nas paredes, poemas de Paulo Leminski, José Régio e, a pedido do Nicolai, passou a ter um trecho do meu Os Olhos Delas, que deu título ao livro que publiquei ano passado. Lá, no mesmo Blue Bird, foi ensaiada, por Cassiano e Dilmara, uma canção minha - Cervantes, o Bar, que fiz quando ainda morava no Rio e frequentava o Bar Cervantes na esquina de Prado Junior com Barata Ribeiro, lá pelo final dos anos oitenta. Observar alguns frequentadores e a redondeza inspirou o refrão: “olhando no fundo do copo”.

Dia desses, comecei a ler algumas das crônicas da coletânea As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada em 2007. Uma delas se chama Morreu o Valete de Copas, de um certo João Antônio, segundo o qual Esdra Passaes, o valete falecido, "dizia que a verdade, se existe uma, mora nos olhos das mulheres e no fundo dos copos".

Inspiração é isso: uma nuvem passando ao alcance das mãos de quem tiver a curiosidade de saber que textura e gosto uma nuvem tem.

Minhas boas vindas às comemorações dos dez anos de O Diário de um Mario.

Bom domingo. Boa semana.

4.18.2015

A QUE TRABALHAVA FORA

Nasceu em um meio e tempo em que mulher trabalhar fora era feio,
Sinal de que o marido não tinha ou não ganhava o bastante.
Cedo ficou órfã de pai e mãe, e foi trabalhar - trabalhar fora.
Trabalhou em rádio, foi chefe de seção no Ministério.
Pelo Ministério, foi trabalhar fora - Nova Iorque.

Cartas
apaixonadas bem escritas cartas
a trouxeram de volta ao Brasil.


Casou-se, criou os filhos. De dia, trabalhava no Ministério.
À noite, traduzia livros
de mistério.
Já doente, me disse uma vez,

Eu sou uma mulher medíocre.

A mim coube a benção de dizer a ela o óbvio.

Muitas mulheres do seu meio e tempo poderiam se achar medíocres.
Não você.

(Os olhos delas, Bênçãos)


Livrarias Catarinense, 16 de abril de 2015 - roda de poetas e autógrafos do livro Os olhos delas.

3.15.2015

Ter estado lá


Estive no comício das Diretas Já. Depois – santa ingenuidade -, estava na orla de Ipanema participando da campanha do Lula contra o Collor. Não estive entre os Caras Pintadas – hoje, gostaria de ter estado. Hoje, estive, estava, estou. De corpo, cara e alma lavados.
 

3.01.2015

ALIENAÇÕES


Há gente importando carne maturada em cerveja do Japão. Japonês quando vem a uma churrascaria brasileira tira fotos das peças de carne. Todo mundo sabe que o Brasil é exportador de carne. Quem importa carne do Japão provavelmente está importando carne brasileira. Quem faz esse tipo de coisa vive em outro planeta e faz questão de mostrar que seu planeta é outro; um caso típico de alienação.

Há pessoas alienadas porque alijadas da informação e educação, como há quem se aliene lendo e ouvindo exclusivamente aquilo que pertença a uma única doutrina, e a tudo defende com base nos mantras que ouve e repete, às vezes com ares de superioridade, não raro com grosseria. Esses, em breve, estarão mais que alienados: isolados, porque ninguém aguenta chatos por muito tempo.

No governo, há vários ministros alienados dos seus ministérios, e três com destaque: o dos esportes, o da educação e o da ciência e tecnologia. Já a presidente é alienada do país que pretensamente governa e isolada do ministério, do congresso e da população; até de seus eleitores se isolou.

Serão os que querem o impeachment alienados?

Quais são os maiores interessados no impeachment? No exclusivamente da presidente, Michel Temer; no de ambos, uma extensa lista, que começa com Lula, passa por Aécio e Marina e vai até Bolsonaro. Os provisórios – presidente da câmara, do senado e do STF – são também interessados, especialmente em recursos capazes de tornar provisoriedade permanência.

O que se podia querer é um governo que se interessasse e tivesse respeito pelo país. Por exemplo, um ministério com 2/3 dos 39 ministros que o compõem facilitaria um bocado a tarefa do Mãos de Tesoura. Ministros afinados com seus ministérios trariam credibilidade e fariam jus ao dinheiro que investimos nos seus salários e suas funções. Aqui no Brasil, vira e mexe se esquece de que eles que governam são pagos por nós, e não o contrário. Se não estamos satisfeitos, mandar embora, pedir a troca, é nosso direito. A presidente deve ter notado que sua maldita base já deixou de ser base há tempos; então porque não despacha logo os incompetentes, canastrões e vis? Se ela for refém de alguma coisa, que acuse a condição e peça socorro. Se for cúmplice, aí a história é outra; se assim for provado, e a depender do quê, vamos, sim, querer mandá-la embora, e nos restará escolher entre os que se apresentarem. Sempre bom lembrar que na democracia os patrões somos nós. Sempre bom não esquecer que intervenção militar são fuzis apontados para dentro de casa, para nossas caras, nossos narizes.