2.10.2008

ACHADO, ROUBADO E DEVOLVIDO

Foi no sábado. Ela deixou seu telefone celular cair no gramado em frente ao prédio do casal de amigos que visitara e não percebeu. Muito distraída, tinha certeza de que o aparelho estava em casa ou então no carro. Somente na segunda-feira à noite é que se convenceu de tê-lo mesmo perdido e foi na operadora providenciar o bloqueio e a substituição por um novo - mais moderno, até -, que saiu de graça - isto é: pago pelos pontos acumulados pelo uso freqüente da linha. Claro, deveria ter providenciado o bloqueio assim que deu pela falta do aparelho e, se depois o achasse, reabilitaria a linha - o que também não renderia nenhuma história.

Na quarta-feira de manhã, um desconhecido, que sabia seu nome, telefona para seu novo celular, que teve mantido o número do perdido, e informa a ela que este fora achado por ele, no tal gramado. Ela anota o número do sujeito e fica de ligar depois.

No sábado seguinte, ela pede ao marido que ligue para o sujeito - que diz que dentro de meia hora estará em casa, “depois de deixar meu serviço”, e dá seu endereço. O marido vai com ela ao encontro do indivíduo, residente na mesma rua onde fica o prédio que visitaram havia uma semana. Olham bem em volta antes de parar o carro, para ver se não seriam surpreendidos por uma armadilha (“Isto é um assalto!”). Um rapaz sobre uma bicicleta a chama pelo nome.

- Como é que você sabe meu nome?
- Estava na tela do aparelho, junto com tua foto – o rapaz explica. – A memória do telefone celular tem também o número da linha, por isso te liguei. Peço desculpas, mas eu apaguei tua agenda.
- Por quê você apagou minha agenda?
- Porque eu pretendia ficar com o celular para mim. Mas, aí, me arrependi, eu pensei, afinal, o celular é dela, ela vai precisar dele. Peço desculpas também por ter apagado a foto.
- Você usou o celular? Fez alguma ligação?
- Não – ele responde. Depois: - Só duas vezes. No sábado mesmo.
- Você ligou para o exterior? – o marido dela pergunta ao rapaz. Rindo, o rapaz diz que não, claro que não. Foi para aqui mesmo, só duas ligações. Peço desculpas por isso também.

E vai embora, na bicicleta, que se supõe seja dele, que a ele pertença.

Marido e mulher entram no carro e perguntam-se: - Terá sido mesmo arrependimento? Ou o pai ou a mãe dele foi quem ordenou a devolução, com ameaças de polícia e outros castigos? Devolveu só porque - e depois que - percebeu que o aparelho havia sido bloqueado? Mas, se assim tinha sido, devolver porque? Por que não deixá-lo perdido em algum outro lugar, ou mesmo no mesmo gramado onde fora encontrado? Minha foto na tela – ela continuou a conjeturar – era ao seu lado, era uma foto de nós dois, um casal; ele esperava por alguma recompensa, ou uma perspectiva de mais um furto, se dar bem; e – ela constata e conclui - não foi nada disso.

Mas houve uma recompensa – que quase não aconteceu, depois da confissão do roubo e do arrependimento. Se é que um livro (com dedicatória e autógrafo) possa ser considerado uma recompensa. Livro que o rapaz saiu lendo, seguro por uma das mãos; com a outra, manejava a bicicleta.

2.03.2008

CAVALOS

Em Petrópolis, a charrete percorre as ruas entre automóveis esparsos. O condutor também é guia, mostra a casa de Santos Dumont, a do príncipe recém falecido, aquela onde Fernando Henrique se hospedava, “Lula nunca veio aqui”. Mostra a estátua do arquiteto e, atrás, a Catedral. De quando em quando, dá uma chicotada nos cavalos da parelha, que apressam o trote preguiçoso e servil. Submissos, os olhos, tampados nas laterais. Sacos amarrados nos seus lombos recolhem seus rejeitos alimentares transformados nas suas tripas em dejetos. O guia pronuncia “coêler” ao invés de “quéler”. No término do passeio, ele, novamente condutor, puxa as rédeas e pára no sinal fechado. Um dos cavalos torna a cabeça na direção do seu par e parece dizer alguma coisa a ele. Provavelmente, algo como “De noite, a gente pára e descansa”, ou “Um dia, isso acaba”.

Em Florianópolis, chove demais. Uma catástrofe, ruas inundadas, casas inundadas, pessoas jogadas na lama, em abrigos, o aeroporto, fechado. No caminho dessa descoberta, uma pastagem; por trás, a baía. O cavalo, amarrado a um toco no chão, a cabeça baixa, o dorso sob a chuva, debaixo do temporal, a céu aberto, céu cinzento, chuva, chuva, chuva, no lombo do cavalo. “Uma hora, isso passa”.

No apartamento, um vento, para ela, é tufão; uma chuvinha fina, temporal; um espirro do filho, pneumonia. Tudo é pretexto para dar uma desculpa no trabalho e faltar e ficar em casa. A tempestade é tão verdadeira e intensa que dispensa a desculpa. “Uma hora, isso passa”.

1.26.2008

RETRATO 3 POR 4

Reenquadre-se
De corpo inteiro
Dentro de um retrato
3 por 4.

Perceba-se
Tristeza e alegria
Tudo e nada que lhe pertence
Cabe no retrato 3 por 4.

A moldura são os outros
Seu ganha-pão
Seu perde e ganha
Nesta vida 3 por 4.

Dentro da foto
Dentro das paredes
Sob teto e chão
Do retrato 3 por 4

É você.
É aquilo de que você realmente gosta
O que você venera e admira
Quem você realmente quer - e quer bem.

A profundidade -
Suas múltiplas dimensões
Sem frente nem verso
Nem pra frente nem pra trás

O espaço em que você transita
Sem começo nem fim
Sem finalidade
Sem rumo -

É você.
Saindo pra fora da moldura
Que envolve seu corpo
Numa foto 3 por 4.

Reinvente-se
E caia fora
Para frente ou para trás
Do retrato de corpo inteiro

Da moldura
Dos limites
Desta vida 3 por 4.

1.22.2008

O ESCRITOR AMÓS OZ E UMA SÓ PERGUNTA

Parati, julho, 2007,
Programa Roda Viva,
Uma entrevista e suas perguntas.

O escritor israelita Amós Oz
Irresistível
Seu humor irresistível
E suas respostas.

Não gosta de computador
Escreve com duas canetas.
Com a primeira opina
Com a segunda, conta histórias.
Ao contar uma história
Tem mais imaginação que memória
Sem saber quanto desta vem naquela.
Ao opinar
Se dedica à História.
Ao contar histórias
Não é sua vontade que prevalece:
Querem, nelas, perceber fatos.

Caro Amós Oz:

Quando se escreve um romance
- Romance?
Uma novela
- Novela?
O que se conta é lembrança
- Lembrança?
Uma história
- Uma história?
Uma ficção
- Ficção?
Que se distingue da História
- História?
Por não contar fatos?

Não a vontade
Mas é a pergunta
Uma só pergunta
Que permanece:

- O que são fatos?

1.16.2008

AGENDA CARIOCA - UMA ANACRÔNICA

Um camelô vendendo agendas na Rua da Quitanda, Rio de Janeiro, sim, janeiro de 2008. Quem as compraria? Quem precisaria de hora e dia marcados em uma agenda de camelô? Alguém como ele, camelô, certamente que não; seus horários são poucos: o de acordar e o de fugir do rapa. Não difere ele dos outros comerciantes, que não consomem aquilo que vendem. Donos de bares não são bebedores, os de papelaria, se viciados em lapiseiras, a quem as venderia?, um hipocondríaco farmacêutico, ora, falência seria sua morte e não a anorexia. Comprará uma agenda do camelô não alguém igual a ele, mas alguém tão marginal quanto ele, especialmente nos horários, marcados na margem da agenda e não nos impressos – porque, nestes, apenas registrará aquilo que nada descreverá da sua vida: o crediário, o dia do salário, o aniversário, o nome do credor e do devedor, além do próprio, de esperto, de otário. Seu endereço e o tipo sanguíneo que mereceu e merece de nascença constarão, para que, no caso de perda da agenda – sua própria vida –, esta possa lhe ser devolvida; e no da súbita e sempre inesperada fuga daquela que corre debaixo do relógio de pulso - comprado de um camelô – sua própria vida -, para que apareça um outro portador de agenda comprada de um camelô, que se torne, da noite para o dia, da vida, um doador.

Eu comprei uma; você não compraria?

1.01.2008

ÁRVORES

Árvores. Há uma, no quintal do prédio onde mora meu irmão
Que parece um bicho esticando o pescoço,
O tronco, inclinado,
Duas raízes que são como pernas,

A cabeça – o cabelo revolto de uma árvore –
Procurando, lutando para encontrar
O sol. Ou a chuva. O céu.
Seu chapéu.

Árvores perdidas nas calçadas do Rio de Janeiro,
Ruas, suas ruas são indiscutivelmente arborizadas,
Suas ruas são metralhadas,

Em algum momento era tudo óbvio e não quiseram perceber.
Uma árvore permaneceu árvore.
Árvore de Natal.

12.23.2007

CERVANTES, O BAR, OU LAPAS-BRASIS

No lançamento do meu romance “A revolução do silêncio”, na Livraria Argumento do Leblon, Rio, 20 deste dezembro, ganhei de presente a visita e um livro de autoria do poeta Ronaldo Werneck, carinhosamente autografado por ele. Na orelha, Geraldo Carneiro o chama de poeta do bas fond. Inevitavelmente, me lembrei de uma canção que fiz há uns vinte anos (letra e música), a qual chamei de “Cervantes, o bar” e, alguns anos depois, inseri na peça “Lapas Brasis”, que escrevi a quatro mãos com Carlos Sérgio Bittencourt. Reproduzo a seguir a letra da canção, deixando meu abraço para alguns poetas amigos meus, especialmente o Ronaldo, pela gentileza, pela re-inspiração:

À porta, três atores
Do diretor, dizendo horrores
Balcão, sanduíche, salpicão,
Schmidt, schinit, uisque, Nietzche,
Fredericos no balcão

Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo

Na esquina, moças-vagalumes
Meninas-bolsas com perfumes
Salão, cerveja, salsichão
Magros e godos, visi-gordos
Sincretismos no salão

Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo

- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz

Todas as tardes, quarto andar
Faço um doente caminhar
Depois, de noite, eu vou dançar
O funk da galeria
C’os negros da galeria
Na boate, finjo alegria
C’os brancos sem companhia

- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz

E de manhã, quantos amores
Quantas saudades de manhã
Jornal, cigarro, macarrão,
Ministro arisco, tão malquisto
Desligo a televisão.

Que o mundo morra sem saber
Que eu fui poeta olhando
Eu
Olhando no fundo do copo
Eu...

12.13.2007

O QUE FICARÁ DE NÓS

(De uma triste constatação de Rosamaria)

Ficarão reportagens sobre gente que a gente detesta
Corruptos, bandidos, prepotentes, mentirosos
Catástrofes
Muito futebol
Alguma coisa parecida com música
Mulheres nuas
Aberrações
Big Brother -

Mas verdadeiramente de nós
Não ficará nada.

Nossas fotos
Nossos textos
Nossas mensagens cifradas
- TXT, ABÇ, BJS -
Tudo será lixo digital.

HDs, será que alguém guarda os seus?,
Disquetes já são coisa do passado
CDs também já são
Nada ficará.

Nem no provedor; nem na CIA.

Nem as florestas
Com as quais nos preocupamos tanto
E por isso deixamos de imprimir
Nossas fotos
Nossos textos
Ficarão: todas serão torradas
Para nos empanturrarmos de carne bovina
Alface e etanol
Enquanto muitos de nós continuarão passando fome
Alguns poucos, andando a pé.

Ficarão fotos esmaecidas
Cartas amareladas
Dos nossos avós.

Nada de nós.

Nada.

11.16.2007

HOJE FOI ASSIM:

Pode não ter feito sol onde você mora e você não foi à praia nem à cachoeira, mas dormiu até o sono acabar. Não tocou o despertador. Bem verdade que o vizinho resolveu recolocar o telhado, arrancado pelo vendaval da noite passada, e você acordou antes e diferente do que gostaria; mas teve um dia inteiro para fazer o que bem quis, a ponto de se esquecer de que, para tudo, há uma moeda – redundante dizer “de troca”.

Você ficou na moita. O tiroteio vai ficar para amanhã – ou, se você não for banqueiro nem bancário, comerciante ou comerciário, para segunda-feira.

Você ficou em casa. Aparou a grama, fez ginástica, amor, alongamento, consertou o encanamento, pegou um filme, uma onda, namorou, telefonou, escreveu, se esqueceu.

Você foi ao cabeleireiro, fez as unhas, pintou-se, acomodou-se, foi ao cinema, inclusive e principalmente se trabalha na bilheteria.

Viu tv. E viu tv. E desligou a tv.

É que hoje é quinta-feira, você mora no Brasil e – em 1889 – um marechal de pijamas foi informado de ter ele mesmo proclamado a República. Um imperador foi embora com sua coroa e sua família e você não compreende porque, afinal, isso, essa partida, causa em você essa tristezazinha. Simpático, aquele sujeito, de barba branca, andam falando muito bem, dele. Do marechal, sabe que nem tanto? Da República, também não, da Monarquia, também não, da Ditadura e da Ditadura, também não.

Fato é que você acordou quase no mesmo momento em que seu sono acordou e virou dia e você se deu conta de que a vida não deve mesmo ser levada muito a sério não. Porque aqui é o Brasil. Mesmo essa tristezazinha - com vários outros maiores motivos que a partida do velhinho de barba branca - não é capaz de desfazer a certeza de que a vida não pode ser levada a sério e a de que o lugar da sua celebração é aqui: o Brasil. E a do privilégio que isso significa.

O que não significa que você esteja realmente convencido de que devesse ter deixado de reclamar com a polícia que seu vizinho desrespeitou a Lei, martelando o telhado neste feriado nacional, interrompendo seu sono de feriado, sono de feriado nacional.

10.27.2007

A MULHER NUA QUE EU VI

Ela se apresentou de repente
Imensa de beleza e luz
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.
Continuou me fitando de longe
Nua
Depois cobriu-se de panos
Me dizendo,
Calma, coração,
A vida é um dia de cada vez.
Era uma banal,
Com uma bandeira fincada no colo
Meramente material.
Banal é quem pensa
Que a lua é somente uma banal
Com uma bandeira fincada no colo
Somente
Passivamente
Refletindo a luz do sol.

Ela se apresentou de repente
Imensa em sua beleza e luminosidade
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.

Florianópolis, tarde-noite de sexta-feira, 26/10/2007.

10.24.2007

QUE TÍTULO VOCÊ DARIA?

Uma canção será berço do meu verso. Uma prosa será verso do entendimento. Meu idealismo será dito sem palavras. Rasgos imensos desses desde sempre feitos por mãos e ferramentas calarão vozes milionárias e as parasitas. Rasgos deixarão de ser feridas, deles brotarão botos, peixes, baleias, árvores as mais frondosas, crias - ricas crias. Livros. Será o dia da minha morte, a noite do meu dia. Minha mulher dirá, Que triste!

Eu direi:

- Não, mulher.

Poesia.

BARATAS E LAGARTOS

Houve uma noite em que minha filha estava com amigas lá em casa. Enquanto eu já estava dormindo, todas se preparavam para dormir. De repente, gritos, agudos e carregados de decibéis, muito mais que os usuais dentre as mulheres de 13 a 130 anos, mais ainda que os aceitos pela Organização Mundial de Saúde, Organização das Nações Unidas e a Organização do Tratado do Atlântico Norte - todas organizadas demais para aceitar tudo que não sejam guerras. E não era uma guerra e os gritos não eram nada organizados: eram histéricos. Sonâmbulo como de meu direito, levantei-me da cama preparado para um sermão. Não sou bom de sermões, nunca quis ser padre nem juiz, nem mesmo de futebol; mas fui lá.

Claro: era uma barata – e voadora.

Já morei sozinho e deixei uma barata dormir na minha casa enquanto me dirigi ao hotel mais próximo, para não incomodá-la. No mesmo período, houve uma que chegou pela janela, de asa delta e prancha de surfe debaixo da asa; aniquilei-a a doses cavalares de spray venenoso e, resoluto, dirigi-me, primeiro, ao necrotério, para me certificar da morte da invasora e, depois, ao hospital, para me certificar da minha própria.

Ocorre que pai de adolescente é outra pessoa; cheguei a pensar em mudar de nome, Alfredo, Pessoa, Eustáquio; mas não: uma vez Mario, sempre Mario (e não me perguntem “Que Mario”, por favor). Adentrei o quarto da minha filha munido de vassoura – como já disse, era outra voadora, Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, impressionante – e matei-a. Engano: caída ao chão, ela ressuscitou – e foi batizada, por uma das presentes, de Barata Jesus.

Heresias à parte, eis que uma amiga advogada me conta de seu embate com um lagarto, no morro atrás do quintal da sua casa. Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, é impressionante, praia, morro, só muda de assaltante pra lagarto (pelo menos, por enquanto). Por um lagarto! Aquele ser pré-histórico, jurássico, inspirador do dragão, com suas papas laterais, cor de lagarto quando ataca, língua de sogra, digo, cobra, soltando fogo pelas ventas. Me disse a amiga – minha, não do lagarto – que ele, o lagarto, foi para um lado e, ela, para o outro. A troca de olhares foi tão fulminante que acarretou uma de pernas, e minha amiga rolou morro abaixo, ralando-se como se fosse criança, uma alegria só – para não dizer o contrário, claro. Escoriações na perna, nos braços, no corpo todo – e o lagarto, tranqüilo, na dele, passeando pelo morro da casa dela, até agora. “Lá em casa, a gente não mata nada”. Pois, na minha, eu mato. Desde sempre. Aula, por exemplo; quem nunca matou uma aulinha na vida, hein?

Minha filha não mata aula.

Alfredo, Pessoa, Eustáquio...
Vou pensar.

10.04.2007

CRÔNICA SENTIMENTAL

Na TV
Reportagem
Arquivo N
Pelé.
Copa de 70
Meus pais vivos.
Meu pai assistia comigo Brasil contra Inglaterra
E minha mãe também.
Este o inusitado:
Minha mãe também,
Numa poltrona perto da TV,
Chutando,
Soltando a perna e o pé no tapete da sala,
Querendo acertar o gol que não saía.
Tostão-Pélé-Jairzinho,
Gol do Brasil.
Antes, uma cabeçada do Pelé nas profundezas do Inferno
E Gordon Banks pegou.
Eu tinha 14 para 15 anos.
Meu irmão por perto.
O melhor jogo de futebol a que assisti.
Jamais assistirei a outro tão bom.

Nem minha mãe.

***

Peter O'Toole,
Venus,
A morte chegando,
A delicadeza cúmplice
Do desejo explícito
Impudico
Depravado
Defasado
Anos de diferença
Filme imperdível.

Ela: "Você acredita em alguma coisa?"
Ele: "No prazer.".

***

Pelé a Lucas Mendes
(cheio de cabelos pretos):
No Brasil, o racismo não é racial. É social.
Preto rico entra em qualquer lugar.
Branco pobre não entra em lugar nenhum.
Lucas Mendes: Mohamed Ali,
Há quem cobre de você uma postura equivalente,
Defendendo o negro no Brasil.
Pelé: - Eles devem ter suas razões.
Cassius Clay teve uma infância discriminada,
Preto de um lado, branco de outro.
Eu, não. Vivi minha infância no meio de pretos e brancos.
Minha primeira namorada foi uma japonesa.

Julguem Pelé
Pelos seus atos,
Seu futebol,
Suas palavras.

Julguem Peter O'Toole
Mais ainda, a personagem vivida por ele
Em Venus.

Julguem: sejam juízes.

Sabendo que eles
Continuarão o jogo.

Eles fazem.
Eles são.

O jogo.

9.14.2007

ÀS MÚSICAS E AOS MUSICAIS

Acabo de assistir a um show de Ney Matogrosso e Pedro Luiz e a Parede, com direito a alguns músicos convidados. Na TV. (Canal Brasil, 66, da Net. De vez em quando, Ariano Suassuna e sua amizade com Chico Science.) Percussionistas, um violonista de outro planeta, um guitarrista, um baixista, instrumentistas de sopro, todos verdadeira origem do big-bang são a Parede. Um deles corre o palco devagarzinho, Pedro Luiz toca uma guitarra cortadinha na ponta, uma verdadeira atriz, que só se afina escondida pelo braço da guitarra, seu camarim. Ney Matogrosso e um figurino que não pode ser pirata, porque legítimo, como seu gingado único, sua voz de dezesseis anos, seu dom de descobrir maravilhas, Rafaéis Rabellos, Pedros Luizes e suas Paredes e por aí vai. No intervalo do programa, Zeca Baleiro é a próxima atração.

No rádio do carro, ouço assim: “Tranqüila / eu levo a vida tranqüila / não tenho medo do mundo / não tenho medo do mundo / a inveja que me passe / o olho grande que me passe...” – não consegui saber quem era, na hora; depois, na loja, me disseram Thalma... Thalma de quê? Não baixo músicas da Internet, quero o CD com capa, aquela de plástico, que quebra logo da primeira vez que a gente vai tirar ou guardar o disco. Não tem. Na loja.

Nem só de Chega de Saudade vivemos, como se vê. Ou se ouve. Nem só de Beatles – aliás, ouvir Sergeant Peppers fazendo quarenta anos e prestar atenção em todos seus sons e letras é nascer de novo. Rita Lee cantando I want to hold your hand com uma sanfoninha ao fundo, que bonitinho, que contrário do Renan Calheiros, da Ideli Salvatti, do falso argumento em-cima-do-muro do Mercadante (ou será Mercante?).

Pedro Luiz, Parede e Ney Matogrosso cantam de tudo, de Faca Amolada, passando por Martinho da Vila, chegando à maravilha “O mundo tá muito doente, o homem que mata, o homem que mente”. (Impossível não perceber que a mistura de ritmo brasileiro com guitarra, ora, ora, nasceu foi mesmo com a Tropicália. Ariano Suassuna e sua amizade com Chico Science, também. Nem só de Ministério vive Gilberto Gil nem só de fala empolada ele e Caetano Veloso vivem.)

Jack Johnson. Bom também o anúncio do cara que teve as roupas roubadas por uma garota que usava sandálias havaianas (“Quer uma aguinha coma açúcar?”). O que é que isso tem de música? As garotas – é claro. E o humor – que é musical.

Assim deveriam ser homens e mulheres: eles, musicais; elas, músicas.

O que acaba de acontecer no Senado nada tem nem de homem, nem de mulher.

Por isso é que não temos medo do mundo; durmamos tranqüilos.

9.01.2007

UMA QUESTÃO DE TEMPO

A calçada ou o atropelamento.
O parto interminável ou a cesariana.
As escaras ou a cura.
A janela ou o dia seguinte.
A maca ou o lençol.
O tiro; ou a persuasão.
O insulto e o auto-controle.
O arremeter ou o aterrissar.
O parar na hora certa ou avançar, arriscar, bater. No cruzamento.
Umazinha a mais. Só umazinha. Ou ir embora ou dormir.
Apertar o cinto ou afrouxar a gravata.
Ir de tonta, com. Ou sem. Camisinha.
Remoer uma vingança e alimentar um câncer.
Enfrentar um câncer
Vindo ou não da vingança remoída
Vindo sabe-se lá da pureza
De tão pura que não suporta a si e a si tenta destruir -
Ou se deixar levar.

A morte não é uma questão de tempo.
A morte é escolha.
Apenas nunca somente sua.

8.17.2007

O AEROPORTO NOSSO DE CADA DIA

A INFRAERO informa: cama redonda é boa para quem se movimenta dormindo que nem ponteiro de relógio; no chão do aeroporto, você vira para o lado que quiser e sintoniza na rádio oficial a canção Tô nem aí, tô nem aí.

A INFRAERO informa: seu vôo sairá a qualquer hora ou em edição extraordinária.

A INFRAERO informa: o vencedor da licitação para o trem bala brasileiro foi o modelo AR-15.

A INFRAERO informa: a duplicação do aeroporto de Congonhas duplicará também a marginal Tietê, a marginal Pinheiros, a marginalidade será toda duplicada.

A INFRAERO informa: se acabar a bebida em Cumbica, dirija-se a Viracopos.

A INFRAERO informa: respeito é bom e a gente não gosta.

A INFRAERO informa: não seja comunista, socialista, capitalista nem anarquista: seja um ANAQUISTA, desgraças a Deus.

A INFRAERO informa: o que restava de respeito foi esquecido no Raio X.

A INFRAERO informa: a classe média não sabe o que é tomar banho frio. Nem quente, porque no aeroporto não tem chuveiro.

A INFRAERO informa: Na voz de Tom – desculpem - Nelson Jobim, Dentro de mais umas horas talvez sairemos no Galeão.

A INFRAERO informa: seu vôo está previsto para está previsto para está previsto para...

A INFRAERO informa: é proibido deixar este aeroporto.

7.06.2007

Meu Rio

O Rio que passa na TV é o da bala perdida, do PAN, da bunda, do Cristo Redentor, da Baía de Guanabara, do Pão de Açúcar, da Garota de Ipanema. É Copacabana. É o Funk, o Rap, o Tom Jobim, o Chico Buarque, o Cartola. É a Ana Maria Botafogo de atriz de novela. É um Rio de grã-finos, de novos ricos, de Barra da Tijuca, de pobretões, de uma mulher chorando a filha morta quando ela ia para a escola que fica na favela ou então no sinal, uma bala achada e não perdida, numa cabeça adolescente.

Um dia vou dizer do meu Brasil. Hoje eu quero é dizer do meu Rio, que não é o da TV. Não é o do Vinicius de Moraes nem o do Carlinhos Niemeyer, do Paulo ou do Oscar Niemeyer. Meu Rio é tão pessoal que não é nem Leila Diniz. Não é Fernanda Montenegro nem Banda de Ipanema nem Ponte Rio-Niterói. Não é Zezé Mota, como não é Sérgio Porto nem Nelson Rodrigues. Paulinho da Viola meu Rio não é, do mesmo jeito que não é torcida do Flamengo nem do Botafogo. Nem regata nem camisa de regata. Nem pivete nem garoto lavando o pára-brisa sem a gente pedir, nem sujeito vendendo amendoim de paletó e gravata, nem o rifle apontado para a minha cabeça. Não é Luma de Oliveira, não é Camila Pitanga, não é a sede do Jóquei Clube nem a serra de Petrópolis. A rua do Lavradio fica lá, o beco do Manoel Bandeira é perto, o gasômetro; nada disso é meu Rio.

Porque meu Rio é a cidade onde eu nasci. É um cheiro de peixe misturado com cheiro de asfalto. É um par de pés femininos caminhando à minha frente descalços. É uma areia de praia fazendo um barulhinho que deixou de fazer faz tempo, quando fazia um frio danado às sete da manhã dentro do mar e eu esperando onda pra descer de jacaré para ir pro colégio depois. De noite, uma bola de meia na calçada. Um pedaço de pizza no Beco da Fome, que em tempos que eu não vivi foi o das Garrafas, onde uma nata musical se formou. Lá, só fui capaz de comer pizza e puta. (Graças a Deus e graças às putas.) Meu Rio é meu pai serrando qualquer coisa, minha mãe fazendo sanduíche domingo à noite, uma mulher no prédio em frente trocando a roupa, loura, menos onde ela está sem roupa. Um par de seios e seus bicos. Uma barriga e seu umbigo. Um cão. Um doente que morde minha prancha de isopor e meu pai pergunta a ele, Você gostou? Meu irmão de tênis rasgado no bico; foi tropeção ou porta de elevador?

O câncer da minha mãe é meu Rio. E sua morte. A formatura do meu irmão, o nascimento da minha filha, meus tropeços nos cadarços dos meus sapatos. Escadas de uma casa no Cosme Velho e um sótão na Rua Umari. Bares proibidos, manhãs de dores de cabeça colossais, amigos e sua incomensurável tolerância para com meus vôos sem nave, minhas presenças ausentes. Meus amigos a não me ouvir porque miram uma face, uma bunda, um sorriso, uma possibilidade. Garçom, mais um chope, por favor. Meu primeiro casamento, seu desfecho sem morte, meus namoros. Uma inimaginável Florianópolis. Ou Minaçu. Ou Nova Iorque. São Salvador de El Salvador - ou do Tocantins. Poços de Caldas, Salvador, Bahia.

Minha mulher eterna.

O Rio não passa na televisão e nenhuma cidade passa e nenhuma vida passa. O que passa é o que fica. A cidade onde se nasce. O cheiro, o peixe, o cão, a mulher. A filha, o filho, os filhos. A opção: solidão ou companhia. Deus é a cidade onde se nasce.

6.18.2007

O OUTRO

Nada de teorias psicanalíticas ou filosóficas será abordado aqui. E agora. Porque, agora, o outro é aquele tão popular quanto desconhecido. Aquele que diz tudo, principalmente ditados populares. O popular outro da expressão “É como diz o outro”.

Quem será esse outro, que tanto diz? Vira e mexe e alguém o cita: “É como diz o outro: mais vale um pássaro na mão que um caixa dois voando.”. Geralmente – preste atenção – o outro embaralha ditados, cria novos, um danado de imaginativo – inovador – é esse tal de outro.

Por um tempo acreditou-se que outro era nome próprio: - Prazer; eu sou o Outro. De quê? Ele – que, de tão especial, é o Outro – não responderia; omitiria o sobrenome de família – que é outra família, por ser a família do Outro.

A entrevista com o ser que, de tão espetacular, é Outro, continuaria:

- Outro, o que você diria hoje, hein?

- Sobre o quê?

- Sobre esse – sabe como é, esse que, como diz o outro...

- Outro sou eu.

- Pois é: o que você tem a dizer sobre esse outro, esse aí, que...

Entretanto, lamentamos informar que a identidade do Outro acaba de ser revelada. No interior do Tocantins, existe um indivíduo muito popular, que vamos fingir que se chama Fulano de Tal. Alguém o encontrou e exclamou: - Ah! Então, o senhor é que é o Fulano de Tal! Pois que, para surpresa do alguém citado, Seu Fulano respondeu:

- Eu não sou esse que você está pensando, não: eu sou o outro.

O que dizem é que o espanto do alguém que foi apresentado ao outro - mais famoso até que o tal fulano, o Fulano de Tal -, passou a se apresentar, mais modesto que qualquer outro, da seguinte maneira:

- Muito prazer: Ninguém.

Enfim, para ser ninguém, basta ser alguém. É como diz o outro.

6.04.2007

PAULO JOSÉ, FALCÃO E QUANDO MENOS VALE MAIS: QUANDO?

O ator Paulo José, administrando bem os sobre-movimentos que lhe são exigidos (mal de Parkinson), com a mente e o caráter tão caracteristicamente seus – brilhantes - a lhe saírem pelas palavras e silenciosas e rápidas e fulminantes pausas, com seus jovialíssimos setenta anos de vida, é entrevistado no Programa Roda Viva. Às tantas descreve uma cena do filme adaptado e homônimo do romance de Fernando Sabino, “Faca de dois gumes” - ainda que não exatamente com essas palavras:

“Eu fazia o pai de um jovem seqüestrado que acabava de receber um estojo com o pedaço do dedo do filho dentro. Como reagir? Como fazer a cena?”.

O ator, então, faz umas duas ou três tentativas de uma possível dramatização do choque de um pai vivendo tamanha tragédia, repetindo a mesma frase com diferentes entonações (todas dignas do grande ator que é): “MEU FILHO.”. “MEU FILHO!”. “MEU... FILHO...”.

E conclui por dizer o seguinte:

“Em certas horas, o melhor é não fazer nada.”.

Agora – dirá você, para este narrador de entrevistas alheias -, lá vem você falar de futebol e – pior - de mais de vinte anos atrás.

Brasil contra Rússia, Copa de 1982. Um jogador brasileiro dispara um chutão, da intermediária, de frente para o gol. Falcão está na meia-lua, esperando pela bola. O que ele faz? Não faz; abre as pernas e a bola passa, ligeira, implacável, reta: gol do Brasil.

Na mesma Copa, em um outro fatídico e inesquecível jogo, o Brasil precisa de um empate, contra a Itália. Está 2 a 1 para a que viria se sagrar campeã; só que, naquele momento, ninguém sabe disso (a não ser o Sobrenatural de Almeida - não é, Nelson Rodrigues?). Da mesma meia-lua, o mesmo Falcão dispara, de canhota, um chute mortal: gol do Brasil.

Era hora de fazer - e não de não fazer.

Depois, como se sabe, o time deixou de fazer quando deveria ter feito e Paolo Rossi marcou o terceiro gol da Itália, que tirou o Brasil da Copa, com uma das suas melhores seleções de todos os tempos.

Voltando à entrevista do Paulo José: em outro momento, ele comenta sobre o desejo de muitos da presença de soldados do Exército nas ruas, para combater a violência; e pergunta:

“E se eles gostarem de ficar nas ruas?”.

Pois é, Sheakspeare: há momentos em que ser ou não ser vira fazer ou deixar de fazer. E a questão passa a ser: - Quando?

NU

NU

Era muito especializado

Vivia de bico de boca do que desse e viesse
Namorava quem se desse
Não tinha nome não tinha cara
Nem cara de pau ele tinha
Cara nenhuma
Parecia disfarce topete chapéu capa guarda-chuva

Não era moleque nem bandido
Marginal no sentido literal
Vivendo à margem
Do rio
Da linha do trem
Da sala de visitas
Do anfiteatro
Da pista
De alta velocidade

Ia lento
Ritmo
De quem passa a vida observando e deixando
Não mais que a própria sombra
Na lembrança de quem fosse
Que tivesse encontrado
Beijado
Esbarrado

Ninguém sabe se deixou filhos mulheres amantes viúvas
Diplomas

Deixou sapatos sua capa e o guarda-chuva
Sumiu de repente
Ninguém sabe se morreu
Ou se foi embora nu
Pela porta dos fundos

Da vida.

5.13.2007

O DIÁRIO DE UM MARIO

MEU QUERIDO DIÁRIO,

o pit-bull perdeu: para duas cirurgias, muita paciência da Rosa, fotos da vítima estampadas no chamado papel de parede do computador da Maria Luiza antes da mordida e meu grito de liberdade, ainda que tardia. Bolinha, quatro meses de prótese na mandíbula, abajur no pescoço, papinhas as mais variadas e caixas e mais caixas de lenços de papel, deixado em manhã precoce na clínica e tomado de volta à tardinha do mesmo dia, foi ressuscitado. Recuperou o pelo, o peso, o apetite, o abanar do rabo desproporcional, o latido fora de hora e as necessidades absolutamente desnecessárias, enfim, o canino senso do inoportunismo. É um cachorro, outra vez.

O Botafogo ganhou e perdeu. Tem um bom time, um técnico que pode não ser um mestre mas é Cuca e fala parecido com o Felipão. Ganhou a Taça Rio e foi vice-campeão estadual do Rio de Janeiro. Deixou de ser campeão por conta de um impedimento inexistente, um apito inaudível, uma expulsão associada a um não-acréscimo de tempo e uma recorrente incompetência para bater pênaltis. Segue, porém, candidato a seguir na Copa do Brasil, e ganhou do gaúcho Internacional, na casa do adversário, na sua estréia no Brasileirão. Aventurar-me-ei a assisti-lo quarta-feira que vem contra o Figueirense, no estádio deste, ainda pela Copa do Brasil, sendo que Maria Luiza quer ir junto, junto com seus treze anos. A vida é assim: um mar de intranqüilidade.

Sigo escritor e engenheiro, levando tudo muito a sério – o que é muito sério. E grave.

Continuo tendo amigos que persistem em assim se manterem: meus amigos. E permaneço casado com mulher que persiste em me modificar – o que me faz pensar que meu casamento vai muito bem. Isso também deve ser grave. E é sério.

Maria Luiza e Rosa continuam se amando, em sua condição de, respectivamente, filha e mãe da filha, necessariamente nesta ordem. Amam-se e brigam calorosamente, especialmente frente a frente. Ao computador e a um tal de orkut. Bolinha me pergunta: - Por quê? E eu, categórico, respondo: - Não sei. E ele – só ele – me compreende.

O Brasil vai mal. E vai bem. Como sempre. A questão é saber em que lado você está: no que vai bem, ou...

Mas você é só um diário – o diário de um Mario - e não de um mago. Apenas um Mario a mais, a brincar com palavras, a tentar desvendar a Física e dela um pouco fazer modesta Engenharia. Desta, extrair o que resta de criativo, como pão, como hóstia pagã, como ciência humana – essencialmente, a anti-ciência; o empirismo nosso de cada dia. Lidar com gente e não com a mãe - a Física. Escrever como quem desenha; digitar como quem toca piano.

E é só, meu querido diário.

Florianópolis, Dia das Mães de 2007, Mario Benevides.

3.29.2007

BBB

Eu fico aqui falando de mim, só pra ver se alguém também fala, não de mim, mas de si – e a frase é mal construída e eu bem que podia por a culpa na língua, a portuguesa, que é charmosa, bonita e difícil.

O boxe havia me deixado várias seqüelas. A maior de todas foi a saudade. Foi por isso que voltei, como volto frequentemente à boemia, e é evidente que esse casal, boxe e boemia, não casa muito bem, não.

Ando nadando – não literalmente, claro. Venho praticando natação, esporte que não deixa seqüela alguma, a não ser quando a gente bebe água, cheia de cloro ou de sal.

Faço ginástica, ando de bicicleta, caminho. Tenho sido cada vez mais o contrário de mim mesmo. A mesma alma boêmia ainda mora dentro de mim, mesmo quando nado e bebo água. Mais até quando bebo água.

Já o blogue precisa mudar. Mudar de cara, de assunto, de endereço. Volto a ele para avisar que ele vai mudar, e em breve. Como em breve farei acontecer minha primeira publicação (agora é pra valer). Uma professora da UFSC – lê-se UFSC – leu meu romance “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros”, e quem gostou fui eu. Agora, vai.

O outro, a novela “Paredes que falam”, continua, mas um pouco fora do blogue, porque carece de uma revisão: as paredes andavam falando demais.

E fico por aqui, porque Rio, São Paulo e Minas ficam muito longe; mas estarei em São Paulo de 4 para 5 de abril – semana que vem. Se alguém se animar, não vou quebrar meu tamborim – é claro. Nem tocar tamborim eu vou – que fiquem tranqüilos meus amigos, que não vou perturbar seu sono, muito menos sua conversa.

Para encerrar, esclareço: ainda não sou tão ao contrário de mim, a ponto de assistir ao BBB global, não. No meu caso, BBB é isto: boxe, boemia e blogue. Já que o casamento dos dois primeiros não vai dar certo mesmo, que seja um triângulo amoroso.

Mas que o blogue precisa mudar, precisa.

Por favor: que alguém fale de si.

mariobenevides.blogspot.com, 29 de março de 2007 (hoje, minha mãe faria 86 anos)

3.05.2007

LÁ LONGE

Hoje era segunda-feira
Dia difícil para quem trabalha
Mais ainda para quem não trabalha
E precisa.

Hoje
Era uma favela
Era uma menina preta
Que levou a irmã para a creche.

Na volta
Ela não voltou.
Ela
- a menina preta da favela
que tinha levado a irmã na creche -
Levou um tiro.

O tiro foi da polícia
O tiro foi do tráfico

Ela não voltou.

Ela era preta
Ela morava na favela
Ela morreu.

Quase íamos esquecendo:
Sua idade era 12 anos.

A mãe dela(preta)
Ficou gritando
Quero minha filha
Quero minha filha
Quero minha filha.

Quase íamos esquecendo:
A que morreu tinha 12 anos.

A irmã dela ficou na creche.

2.21.2007

ATOLADOS

Pode até ter sido de cesariana ou parto normal – mas todos já atolaram, pelo menos uma vez na vida.

Atolamento de carro é o mais comum. A sensação de impotência é inversamente proporcional à de vexame. Se houver dois surfistas e um estivador nas proximidades, eles serão potentes por você, minha amiga, meu amigo; em contrapartida, de nada adiantará passar filtro solar, blush ou óleo de peroba. Quando a solidão for total, prepare-se: o buraco é mesmo mais embaixo.

Quero ver é atolar de avião. Dos pequenos, com nome inocente. Xingu, por exemplo - de seis lugares. A você, coube aquele assento bem à direita de quem entra, atrás da porta, onde, a depender da estatura de quem senta, a posição, de cabeça baixa, mais que resignada, é humilhante; e, sob o banco, encontra-se o vaso sanitário – uma privada que, pela ausência de portas que não a que do acesso às nuvens, é pública. Todos rezam, não para que o avião não caia, mas, sim, para que ninguém precise usá-la durante o vôo.

Nas nuvens, a nave não atolará; apenas chacoalhará. Atolado ficará você, tendo nas mãos o terço, a estrela de David, a figa e o patuá.

Chove lá fora, sem que isso seja verso de samba-canção. O comandante está tranqüilo. Brasileiro, sabe que algumas leis pegam e outras, não. As da Física, por exemplo: na opinião dele, mestre dos ares, principalmente dos ares de quem fez ponta em cinema mudo, poucas devem ser levadas a sério. Por isso ele acende um cigarro, e a cinza vai direto no seu olho esquerdo, que está sentado lá mesmo, no banco sobre o vaso, que você se esforça para não utilizar. Você, que está com as mãos ocupadas: agora, com a Bíblia e o Corão. Você – que se dizia ateu.

Dentro de mais uns minutos estaremos no Galeão – grande Tom Jobim, que só aterrissava em aeroporto grande, com pista asfaltada, sem problemas nem de inundação, onde o que balançava era o corpo da morena.

A pista onde o Xingu vai posar é de saibro.

O intrépido e desafiador comandante apaga seu cigarro sobre o vidro do altímetro e pousa. E evolui, sobre a pista, em linha reta. E vai manobrar. E atola. Pouco importa: você e os demais, que entraram tripulantes, deixam a nave incandescente como sobreviventes. Parabéns.

E você trafega agora dentro de uma camionete traçada, quatro por quatro, e observa galinhas de angola no piso do cerrado do estado do Tocantins e é observado pelas vacas do Nelson Rodrigues a repetir o bordão da piada sobre a hiena: “De quê ri este animal?”.

É de alivio, donas vacas.

Quando do seu retorno, a chuva continua, como continuou pelos dias que você lá permaneceu, em São Salvador do Tocantins, junto com seus bravos 1.500 habitantes, excluídas as vacas e as galinhas, de Angola e outras, com pintas ou não.

O comandante, com cara de pinguço, elogia o avião. Estamos em 2007 – e ele afirma, orgulhoso: “Este modelo é de 1989, ou então de 1988; não me lembro.”. Tudo para tranqüilizar você, que entra por ultimo na aeronave e retoma seu nobre assento sobre o equipamento onde covardes e corajosos se igualam. O avião segue até o fim da pista, vagarosamente, para fazer o retorno e decolar. O comandante, com seu cigarro pendurado no canto da boca, chama a manobra de “pião”. E com toda a razão: atolamos de novo, na pista de saibro.

Quem conta essa historia, se conta, foi porque sobreviveu. A tudo: a dois atolamentos, ao desdenhar profundo e filosófico das vacas, à indiferença absoluta das galinhas, aos cigarros do comandante e ao girar com as mãos do super-treinado co-piloto das pás das – ou serão “dos”? – hélices. Sobreviveu como todos os demais passageiros, incluindo os profissionais generosamente não-enterrados, graças à equipe de resgate: um estivador saudoso de um cais já faz tempo, que cavou e cavou e não nos fez o favor de enterrar em vida piloto e seu co, e, por mais correta que tenha sido a cova que cavou para deixar livre a roda dianteira da, por assim dizer, aeronave, não foi possível ao desafiante das leis naturais, dito comandante, desfazer seu atolamento reincidente; e meninos de treze a quinze anos, um deles pilotando um trator. Avião rebocado, decolado antes do tempo para não atolar de novo, pousamos em Brasília, 19 horas.

Ouvir a Hora do Brasil foi reconfortante.

2.13.2007

NÓS

Monstros
Arrastaram um menino
Pelas ruas do Rio de Janeiro.

Entre nós
Sempre foi natural
Emprateleirar pobres
Ou encaixotá-los
Nas periferias.

Trabalhadores
Honestos
Humildes
Resignados

São gerados
Geração a geração
Emprateleirados nos morros
Ou encaixotados nas periferias.

Monstros
Misturaram-se a eles
- honestos trabalhadores sem trabalho -
Nas mesmas prateleiras nos morros
Nas mesmas caixas de papelão
Das periferias.

Nós
Que compramos guardas de trânsito
Desde sempre em cada esquina.

Nós
Que temos uma conhecida
Que é do Ministério
Que arranja uma vaga
Pro nosso filho
Na escola pública.

Nós
Que desprezávamos negros
Até que as cotas passaram a valer
E aí nos tornamos todos parentes.


Nós
Que erguemos grades
Para proteger o sono
Das crianças que dormem na rua.

Nós
Que convivemos bem
Com os que dentre nós
Blindam seus automóveis.

Nós
Que freqüentamos festas
Onde o pó rola solto
E dizemos aos nossos
De olhos vermelhos
Aí, cara, tudo bem?,
Brigado,
Não tou a fim.

Nós
Que ouvimos os gritos dos nossos
Do apartamento ao lado
E continuamos ouvindo.
(Agora, de janela fechada.)

Nós
Que perdemos nossos empregos
Resignadamente
E que não moramos no morro
Ainda.

Nós
Que temos Deus no meio de nós:
O político.

(E ele é um de nós, necessariamente.)

Nós
Pacíficos
Passivos
Décima-qualquer-coisa
Potência-econômica-mundial.

Nós
Centésima-décima-sétima
Pior-distribuição-de-renda
Mundial.

Nós
Criamos monstros

De uma raça
Dentro da raça
Que mora nos morros
Nas periferias.

De uma outra raça
Dentro da raça
Que freqüenta rodas
Do mais alto
Poder-de-compra.

De uma outra ainda raça
Dentro da raça
Que representa a droga
Que representa o crime
Que freqüenta o congresso
Nacional.

De mais uma outra raça
Que quando se refestela
Do dinheiro público
De fato mastiga e cospe
Vidas de talentos natimortos
Pernas mendigas
De vidas-zumbis.

Nós
Criamos raças
Dentro da nossa
Brasileira raça.

Nós
Criamos monstros
Desde sempre
No nosso quintal.

Monstros
Arrastaram um menino
Pelas ruas do Rio de Janeiro.

1.16.2007

MICO

A partir dos 12 anos, atenção: é proibido pagar mico. Por exemplo, andar de mãos dadas com o pai e a mãe. Aqueles beijos e abraços apertados, só em casa. E olhe lá – porque o vizinho pode estar olhando e, se ele tiver 13 anos...

Do lado de cá, de quem carregava o filho ou a filha pela mão – depois de muito tempo no colo -, não se deixe emocionar em comédia romântica na companhia dela. Na dele, sequer proponha uma. Desandar de dar risada e gargalhada em desenho animado, esteja certo: vão chamar a ambulância.

Tio. Esse é o seu nome – a não ser que seu sexo seja o feminino; nesse caso, oi, Tia, muito prazer.

Prazer inclusive de ver sua sala abarrotada deles e delas, sentados no chão, encostados na parede, chão e parede recheados de bolo para todo o sempre. Antes fosse: esse paraíso acabará e você vai se tornar o maior religioso de todos os tempos. Seu colar – você usará um – trará um crucifixo entre a estrela de David e uma figa, assim que o passeio de quem você trocou as fraldas passar a ser com João ou Maria. Maria tem carteira de motorista; João rouba o carro do pai. Há os gêmeos, também: Rafael e Gabriel, cada qual com sua moto. Lucas não tem dinheiro, mas bicicleta, sim. Primeiro, ele tirou a camisa enquanto pedalava e a danada cismou de enrolar na roda dianteira e ele foi de cara no chão; depois, Matheus, que tem menos dinheiro ainda e casa não tem, mas revolver, sim, levou a bicicleta de Lucas – agora, com uma bicicleta e 3 dentes a menos. Onde anda Salomão?

Melhor parar o relógio e perguntar, sem ofender: quem inventou o mico terá sido alguém com inveja de quem anda de mãos dadas com a filha ou o filho?

Pode até ter sido. Mas isso não lhe dava o direito de ter gritado LINDÃOOOOOOO quando ele fez aquele gol de placa. Menos ainda de ter socado o juiz porque o gol de placa foi com a mão e, consequentemente, anulado. Está ouvindo, agora? A sirene é a mesma da ambulância; mudou foi a cor do carro.

Mico.

1.11.2007

O MAIS FORTE

Escondia-se. Exibia-se. Aparecia porque grande era sua cabeleira. Claro, era ela que lhe mantinha protegido; escondido. Veio um corte de cabelo indesejado e o que ele gostava de esconder ficou à mostra; aquilo que exibia fora embora. Veio uma mudança. Era da casa antiga o seu aconchego. Foi ficando triste. Vieram umas férias, uma viagem – ele gostou. Foi quando o mais forte sentiu-se incomodado e partiu pra cima dele e ele quase morreu. Poderia ter acontecido com qualquer um: o mais forte se incomoda e o mais fraco é que se muda – ou morre. Hoje ele anda jururu, mascando seus bigodes, impedido de coçar a mandíbula, temporariamente reforçada por uma prótese, por um anteparo. Espécie de noviço rebelde, assim ficou o poodle depois de atacado pelo pit-bull. Este, por sua vez, ninguém sabe como ficou. Apenas se sabe que continua sendo o mais forte.

1.09.2007

VIVAS E MANIFESTOS

A visita de um poeta é sempre bem vinda. O poeta Aldo Votto ainda nos visita; mais: manifesta-se - a nós. E a nós ultramarinos. Vivas a ele, que, como bom poeta, nos mantêm vivos, interessados, ativos. Em resposta nos manifestamos nós (plural e, portanto, covardemente):

Fui ator não vou ao teatro.
Escrevo poemas não leio poetas.
Que pretensão será esta
Egoísmo será este
Fazer e não querer saber
Do que fazem os outros – os de verdade?
Leio Equador
De autor português contemporâneo
A narrar fios e meadas de dom Carlos
Rei
Que viria a ser morto por revoltosos
Idos de 1905-8
São Tomé e Príncipe
Ilhas
Colônias portuguesas
Equatoriais.
Lá
Descubro-me navegador
Ansioso por aventura
Engenharia e poesia incapazes dela.
Novas e naufragadas Friburgos
Encharcados Rios geralmente praianos
Metralhados e incendiados inocentes
Respondei:
Há lugar
Longe do naufrágio
A salvo do incêndio
Perto da aventura?
Haverá lugar a inda
Para sonhadores
Que sonham tão somente transformar? Sem o saber?
Sigamos.
Vendas nos olhos
Vendavais nos ouvidos
Chuvas torrenciais
Sóis cegadores
Preconceitos e medos e seus desastrosos consertos
Sigamos.
A fazer e pouco ler poesia.
Mais a representar que assistir a intérpretes.
A nos alimentar de manifestos
Mais que nos manifestar.
Vivas a eles manifestos.
Vivamos.

1.05.2007

IRREGULAR

Eis aqui um lugar
Freqüentado por poucos
Todos de idoneidade assegurada
Ainda que freqüentadores
Deste lugar
Que,
De tão pouco freqüentado,
Mal dá o que falar.
Serve este espaço
Muito mais para organizar
Aquilo que não pode:
A obra errática, anti-sistemática
De seu ocupante-anfitrião.
Que não se exija dele portanto nada
Que não a mais completa irregularidade.
Tudo que sai na capa só foi verdade por indeterminado tempo:
Hoje é dia de crônica
Amanhã ou quem sabe quando,
Um capítulo.
Que dia é hoje?
Por aqui, não se sabe.
Se, ainda assim, você, de idoneidade assegurada ou não,
Quiser visitar este lugar,
Será um prazer.
Deixe sua queixa, por favor:
Será sempre bem-vinda.
Queixe-se do assunto e da sua falta; da forma; do des-conteúdo.
Mas venha sempre – até que uma multidão nos separe,
Uma frente fria,
Um crime hediondo,
Uma roubalheira infame
Nos separe.
Ou nos una.
Irregularmente.
Como deve ser.

12.29.2006

VALORES - UMA CRÔNICA INACABADA

A bolsa ou a vida! - ameaçava o assaltante à senhora, que, sem hesitar, entregava a bolsa e ficava com a vida. Trocava seus valores pela manutenção da vida, por mais sem graça que ela fosse. Pouco importava se era uma desprezada e humilhada por se ter desquitado; ou se tinha ou não marido e era uma entre milhares de mal-amadas, salve-salve. Os valores eram aqueles: os da bolsa - que se ía, com os valores dentro. A vida ficava. Enquanto isso, uma outra, morro acima, carregava uma lata d'água na cabeça.
Não muito tempo depois, era engraçadinho dizer-se, Que pena, o Rio, uma cidade tão bonita e... tão violenta. O veneninho corria pelo canto da boca e o carioca se saía com uma resposta, ora irônica, às vezes ressentida.
Depois foi São Paulo, paralizada, atônita, em estado de guerra, nas mãos do crime, do terror sem bandeira nem credo, de dentro, mais que das cadeias, de não se sabe de onde, só se pode imaginar.
No final de 2006, o Rio, de novo: um homem vai dar queixa do vizinho e morre metralhado; uma vendedora ambulante salva a vida do filho de seis anos e morre do mesmo jeito, sem chance de nenhuma queixa; quem viajava de ônibus, adeus: mil queimaduras, morte ou morte em vida.
Cheiramos, nos injetamos, fumamos, ou não: e, em qualquer doas casos, estamos à mercê.
No tempo da bolsa ou a vida, sabíamos onde estavam nossos valores. O problema é que sempre foram poucos: os da bolsa e, para os mais afortunados, os guardados no banco.
Futebol, café, Pelé, samba, chorinho, bossa-nova, religião, exportações, volei, top-models - pense em algo que seja, verdadeiramente, um valor brasileiro: não fica um. E daí? - questionará você, argumentando que os americanos, por exemplo, cheios de moral e nacionalismo, são uma ilha cercada de guerras por todos os lados, e hipocrisias, além de pobrezas e misérias e racismos pornograficamente desnudados, ultimamente por furacões; os europeus, na sua maior parte, encontram-se imersos em um pote até aqui de mágoa de seus ex-colonizados, e tome bombas e incêndios e depredações, pouco importa se sua cultura, latu / strictu sensu, lhes seja um real valor; e que os ultra-religiosos matam-se entre eles, aos outros e a quem estiver por perto, cheios de seus valores históricos e além-túmulo.
Nós não temos valores; e daí? Talvez por isso vivamos placidamente, até que um tiro ou incêndio ou enforcamento num subterrâneo ou numa subida de morro nos alce a um outro tipo de inferno. Talvez daí nos seja natural a combinação explosiva da economia forte e vegetativa com uma das piores distribuições de renda do planeta e suas crias - crianças morrendo e nos matando nos sinais de tráfego, classe média desesperada, gente pobre e gente rica cheirando bosta branca, movimentos supostamente representativos apenas expondo as cáries e a gengivite de nossos campos férteis, a seca, a enriquecer boçais e a matar desgraçados, e, principalmente, a política, sim, verdadeiramente representativa da alma brasileira: eu quero o meu e o resto, ora, que se...
Talvez esteja aí nossa grande possibilidade: nós não temos valor algum.
E quem quiser que acabe a crônica.

12.18.2006

DE VOLTA PRA CASA

De volta ao padrão; à normalidade. Às Terças, um avulso, um texto desconexo do antes e do depois.

Havia uma canção que dizia: Paraíba não é Chicago não. Já uma repórter bem conhecida da TV uma vez disse que Miami parece o Rio, só que no Primeiro Mundo. Se a primeira afirmativa é correta, a segunda parece que não é - e não é mesmo. As praias de Miami começam por uma pista sólida, mal-coberta de areia. Depois, a areia é cheia de cascalho e há tanto cascalho debaixo d’água que é recomendável entrar no mar de sapatas holandesas. As praias do Rio também passaram por aterros, no seu caso, para privilegiar os automóveis, a andar em oitava marcha, característica dos cágados, nas pistas de asfalto duplicadas. No caso de Miami, era tudo pântano; aterro de pântano não pode mesmo dar certo, nem no Primeiro Mundo. Lugar, aliás, onde Miami não fica: seu comércio é legitimamente paraguaio. A repórter só acertou muito indiretamente em aspectos de indiscutível semelhança: o oceano continua sendo, lá e cá, o Atlântico; e a liberdade é atlântica. O comércio é paraguaio, a sandália é havaiana, a Giselle é Büntschen, e os casais se namoram escancaradamente, héteros, homos, bis.

De volta à Pátria, visitei o norte de Goiás rodeado de belgas por todos os lados. A comunicação é mais atlântica que o próprio oceano e nos entendemos em arremedos de Inglês, Francês, Portunhol, fome de comida e de viver, sede de beber o que fosse líquido. Mato pra que te quero, festa pra que te quero, trabalho. O Congo poderia ter sido aqui; e teríamos colonizado a Bélgica.

Deixei de morar com vista para o mar, em Florianópolis. Não ouço mais o vento nordeste implicando com toda razão contra minhas janelas, como não ouço mais os automóveis se espatifando uns contra os outros, na avenida Beira Mar. Minha janela agora é indiscreta e nem precisei quebrar a perna. Minhas mulher e filha foram para o Rio – vou na Sexta que vem, de férias – e o cachorro poodle muito mais delas que meu amigo mudou-se para a casa da nossa empregada de serviços domésticos, de férias – o cachorro, por ora. Grande Bolinha! Bom sujeito, às vezes parecendo Nietzche, mais recentemente grama – segundo sua mais querida, Maria Luiza, depois de uma tosa infeliz. Ela ainda não sabe, mas, na sua colônia de férias, Bolinha foi atacado por um Pit Bull. Patrícia, nossa nobre empregada, contou-me que saiu no jornal a notícia de crianças atacadas por Pit Bulls nas praias catarinenses, no último fim de semana. Bolinha terá que operar o maxilar. Não sei o que foi das crianças, não li o jornal. Impressionante como a técnica do transplante funciona magistralmente: cada vez mais fica provado que transplantar cérebros de Pit Bull para cabeças humanas transforma os possuidores dessas cabeças de cérebros transplantados em Pit Bulls, capazes de adquirir e deixar soltos semelhantes a eles, montados sobre quatro patas. Declarei à nossa empregada, voluntária e provisoriamente tutora do Bolinha, que vou processar o animal responsável pelo animal que agrediu nosso amigo poodle – sem ter a menor idéia de como processar alguém. Muito menos um portador de miolos transplantados de uma raça que se supõe canina.

De volta ao padrão; à normalidade.

11.26.2006

IMPERDOAVEL

Aos meus, mais que raros, cari'ssimos leitores, informo que ate' o pro'ximo dia 6/12/2006 me sera' praticamente impossivel publicar alguma coisa para diverti-los ou entedia'-los (claro que a intencao e' sempre a primeira, mas nao ha' qualquer tipo de garantia para esse tipo de produto). Como pode ser visto, nem acentuar eu posso e escrever em Portugue^s sem acento, mais que desconfortavel, e' perigoso. Por exemplo, se digo que peco, posso estar pecando ou pedindo e, neste caso, nao necessariamente para pecar. Estou fora do ar, fora do clima ameno brasileiro, enfrentando frios feitos com exclusividade para ursos - e ursos polares, naturalmente - e sem acento. E me recuso a escrever "eh" quando quero dizer "e'" e, quando escrevo "e'", fica a pobre da letra em tempo de verbo com duas aspas de um lado e tre^s do outro, em insustentavel assimetria.

Gravi'issimos pedidos de desculpas e at'e breve, com as cro^nicas, os poemas e os capi'tulos de PAREDES QUE FALAM (momentaneamente mudas - mas so' momentaneamente).

Abracos,

Mario.

11.14.2006

MOVIMENTOS

Agenda positiva
Ação afirmativa
Posição assertiva
Palavras expressões contemporâneas
Todas
Querendo dizer não.

Modismos.
Toda hora surge uma bobagem qualquer
Que quando dita pela boca de um dito
Representante
Do povo
Assume seu ar solene
De grossa porcaria.

Protestos.
Nunca se protestou tanto
Inutilmente
Exatamente
Porque nunca se protestou tanto.

Contemporaneamente
O ato de amar
Contra tudo de charlatanismo burrice hipocrisia
Boçalidade
Inclusive o movimento de carros
Transportando vazios
A lugar algum

Plenamente consciente
Da total inutilidade do seu gesto

Permanece protestando.

Assim lhe batizaram sacanagem.

11.08.2006

DE MÉDICOS E MONSTROS

Matemáticos poderão ficar horas discutindo com grande precisão sobre o espaço enésimo. Ficarão aflitos se pelo menos um dos enésimos espaços não servir para que esbocem suas curvas e conforme-queríamos-demonstrar equações. Um deles, só para não ficar de fora, sacará de um computador de bolso a enésima casa decimal de pi.

A Lei das Probabilidades afirma que um físico entrará na roda – que desprezará o espaço onde os matemáticos andaram rabiscando e o próprio planeta Terra surgirá das suas mãos. Em torno dele – é um erro pensar ser correto o contrário – girará todo o infinito espaço, a deixar o enésimo encabulado.

Inevitavelmente invadirá a estratosfera um economista, a desenhar seus gráficos do eixo dos y para o dos x, invertendo tudo – porque foram os ingleses que desenterraram a Economia das valas dos escravos e trabalhadores vinte-e-quatro-horas e, como se sabe, ingleses são canhotos: não à toa, mas solenemente, seus automóveis andam na contra-mão. O recém-chegado recitará debêntures, déficits, superávits e sonetos.

Um contador apresentará a mais perfeita exatidão: aquela onde ativo e passivo se igualam. Na seqüência, um cientista político afirmará: direita e esquerda também.

Quando for a vez das doenças, chegarão os médicos - e muitos: haverá um congresso. Um matemático, após consultar a língua, tornar-se-á sócio do economista, deixando o contador sem palavras: demonstrarão que sintomas multiplicam-se em diagnósticos e estes, em receitas, na razão direta do número de médicos e na inversa do inverso da razão.

Que ninguém queira prever o final – pois, ao invés de advogados, quem chegará serão advogadas.

Exércitos, extra-terrestres, estudantes, desesperados, pacifistas, lixeiros, políticos, aproveitadores e jornalistas vão-se juntar à grande discussão acerca do que seja realmente exato – e apontarão como capazes da resposta os matemáticos, não só por estes dominarem a única ciência humana exata, mas por estarem, desde o princípio – e não era este o verbo – em maior número. Após o incômodo suspense do silêncio que antecede as grandes revelações, aquele do computador de bolso revelará:

- A enésima decimal de pi só é conhecida como enésima. Seu valor não se conhece. A única ciência exata que temos não é exata o bastante para que a última decimal de pi – do velho pi – se revele em seu exato valor, no seu exato e único último lugar.

O silêncio que sucederá o desapontamento será quebrado pela língua, a traduzir-se em infinitos-enésimos idiomas:

- O último não é o primeiro, porque este, dado o generalizado desconhecimento daquele, não se faz conhecido.

Pi.

10.30.2006

UMA ESTRANHA FREQÜÊNCIA

Silêncio. Parece que os automóveis perderam suas buzinas. A festa da democracia é um tanto barulhenta. A festa acabou e que alguém faça o favor de lembrar o poema do Drummond.

Silêncio. Possivelmente será feito silêncio das investigações em curso: já não interessam a mais ninguém.

Silêncio. Governo e Oposição começaram a tramar ruidosamente contra nós.

Silêncio. A bomba norte-coreana começou a explodir. Silenciosamente.

Silêncio. Do lado de cá do planeta, tão somente se contam as mortes e explosões que acontecem do outro lado; por aqui, são silenciosas.

Silêncio. No morro e no apartamento. Jamais a bala perdida foi tão silenciosa.

Silêncio. Muito silêncio, porque a briga da família vizinha é como punhais cortando a nossa carne e, nos nossos ouvidos, o som da nossa morte.

Silêncio. Faz-se necessário um minuto de silêncio para que você possa ouvir o zumbido insuportável que não lhe deixa os tímpanos – que, bom, Drummond, se o zumbido fosse a falsa vienense.

Silêncio. Uma rosa nasceu – faz tempo que ela nasceu num verso do Chico Buarque, mas rosas são como estrelas: somente percebemos seus sons e luzes quando já não mais existem.

O que ainda nos faz lembrar Cartola e Olavo Bilac.

Para quê tanta ciência?

Silêncio.

10.16.2006

MARGINAIS

Poeta e poesia
São marginais sempre
Ainda que raramente cometam crimes
E quando os cometem
Geralmente é contra a língua
E dificilmente contra o beijo.
Gente de teatro quando mata
No mais das vezes é de rir.
Médicos, generais e engenheiros
- uns quando erram, outros quando acertam –
Podem matar de verdade.
Já entre poeta e poesia
Quem morre é sempre o poeta
E nem sempre no final:
Há poetas apressados
Que apressam seu final.
Tudo assim impreciso
Porque poeta e poesia não combinam muito
Com precisão
A não ser de dinheiro.
Se poesia é palavra gasta
Rima fácil de samba-enredo
Poeta é pejorativo.
Pois mesmo sendo assim
E quase sempre sendo poesia verso
Todo poeta vira prosa
Quando revela sua condição marginal:
- Prazer. Poeta.

10.09.2006

TÁXI

Poderíamos falar de...
Política?
Melhor não.
Futebol, então...
Nem pensar.
Melhor não falar do tempo
Que é sobre ele que todo mundo fala
É banal.
Um samba,
Minha vida por um samba,
Um reggae,
Uma opereta
Mas nada disso toca em rádio de táxi.
O motorista cheira mal
E o carro cheira ao motorista.
O cinto de segurança do banco traseiro
Se achado foi roubado.
Se você tivesse um carro, hein?
Mas você não viria com seu carro a Amsterdã
Você mora longe
Você fica lá do outro lado
Só que veio parar aqui.
Parar, nada: andar de táxi
Neste lugar
Que nada tem de Amsterdã.
Ela bem que podia facilitar as coisas
Puxar assunto
Mas parece que a ponta do cabelo dela
Tem muito mais assunto que você.
O motorista não fala nem ouve
Fede.
A palavra já é horrível
E não traduz exatamente o cheiro
De quem dorme e acorda e se droga dentro desse carro
Ele mora no carro,
Percebeu?
Tudo parado e é noite
Atenção todos os carros
Fiquem parados –
A ordem veio de Marte.
Um disco voador! –
Você quis e não viu
E não disse.
Você está prestes a explodir de tristeza
Tem um sonho acordado
Está numa tribo pelado
Dança com eles
Você que detesta índio
Transporta-se
Respira fundo
(O carro todo cheira ao motorista que não dorme)
Vira-se pra ela
Consegue que ela deixe a ponta do cabelo
Por um instante infinito
Solto e sem a mão dela.
Você toma dessa mão
Que é da freira
Da sua mãe
Da sua irmã
Da sua moribunda avó
Quem sabe da sua mulher
Da sua tia de Guaratinguetá
Sua namorada
Sua empregada
A namorada do melhor amigo
A mulher grávida do motorista
Você é o motorista.
Quem é ela?
Sua catinga.

10.07.2006

24 – CAVERN CLUB

“RITMOS DE BOATE” e “CAVERN CLUB” foram dois programas de rádio no Rio de Janeiro, com o “DJ” Big Boy, nos anos setenta do século passado – conta Maria Eduarda à irmã caçula, por telefone. “Big Boy rides again” – era assim que ele abria seus programas. Flávia está aflita: ninguém gosta do nome “Lennon e Vinicius” nem aceita que exista uma canção do brasileiro cuja letra se assemelhe em utopia a “Imagine” – sendo que seria de todo absurda qualquer hipótese de um ter influenciado o outro, fosse na ordem que fosse, tal a distância de ritmos, trajetória e linguagem dos dois, ainda que tenham sido contemporâneos e que coincidências, determinações divinas ou sincronismos lhes tenham tirado as vidas no mesmo ano: 1980. Maria Eduarda sugere à irmã que Vinicius se junte a Louis Armstrong e Pixinguinha no atual Satchmo e Pixinguinha e que o “Lennon e Vinicius” passe a se chamar “Cavern Club”, nome do lugar onde os Beatles se apresentavam na sua distante Liverpool em seu início de carreira e que batizou um dos programas do “DJ”, um dia encontrado morto em um quarto de hotel no Rio.

- Isso dará identidade ao bar que está fracassando e um “gancho” para um relançamento do complexo como um todo – é o que opina Maria Eduarda, e Flávia admite que a irmã mais velha teve uma boa idéia.

- Qual passará a ser o nome do “Satchmo e Pixinguinha”? – querem saber as sócias de Flávia: Rita, Renata e Cláudia. Flávia, que viveu alguns namoros, tendo sido um deles desses que deixam marcas de difícil cicatrização; Rita, que foi estuprada e quem morreu foi o estuprador – de parada cardíaca; e ninguém apareceu para reclamar o sumiço dele, como contou a Renata o policial que investiga a morte do velho cujo cadáver foi encontrado de calças arriadas, perto de uma etiqueta deste complexo onde estamos inseridos, NOITE E DIA, LIVRO E FANTASIA; Renata, que, como Flávia, conhece características físicas do assassino do advogado, crime que vem sendo há alguns meses investigado pela Polícia Federal e também pela Civil (Renata chegou a conhecer-lhe a voz e a proximidade); e Cláudia, que tem ciúmes permanentes do marido Angus, indivíduo de características físicas nada ou pouco atraentes para a maioria das mulheres e que foi capaz de atrair – momentaneamente – a amiga e sócia Rita - sem que Cláudia e o escocês descendente de celtas sequer tenham desconfiado disso.

(Como de todo e presumivelmente, nenhum celta deve ter desconfiado – a não ser que um de seus druidas seja capaz de não só desconfiar como tramar e provocar esse tipo de situação.)

Flávia pensa em criar mais um bar, dividindo o “Satchmo e Pixinguinha” em dois; Renata e Rita são contra - este vem fazendo sucesso e se mantendo cheio com o tamanho que tem – e propõem que o “Lennon e Vinicius” é que seja dividido em dois; Cláudia reage, De jeito nenhum, a ilha é um santuário de “covers” dos Beatles, vai encher sempre e exatamente no seu atual tamanho, especialmente com a nova personalidade - ela argumenta, enfaticamente.

Depois de fumaçadas do cigarro de Cláudia e correspondentes abanares das demais, as quatro decidem que o “Satchmo e Pixinguinha” vai continuar se chamando assim; e que aqui, doravante, vamos nos chamar “Cavern Club”. Agora é reformar e divulgar e assunto encerrado – Cláudia diz e se levanta, esmagando o que sobrou de um cigarro no cinzeiro.

É quando Flávia mergulha em profundos pensamentos e sai daqui sem mesmo se despedir das amigas, como se estivesse em uma espécie de transe, triste da saudade e dos traumas do amor fracassado, confusa com o rumo da sua vida, que vem sendo rondada de perto por duas mortes, uma presenciada por ela, a outra, vivenciada por Rita.

10.02.2006

REFLEXOS

O mar hoje reflete um céu cinzento.
Pensando bem
O céu nem tem tanta culpa assim
Nem o mar é tão reflexivo assim
Tanto que o céu está se azulando
E o mar vai se acinzentando por conta própria.

Não me resta saída
Senão associar idéias
Evidentemente estapafúrdias:

Serão os votos reflexo do país
Ou terão os votos vida própria?

9.26.2006

POR FAVOR, DISCORDE

De tanta auto-ajuda, finalmente a humanidade vai se tornar o conjunto de seres que se ajudam.

Sociedade fraterna é aquela fundada por Caim e Abel.

Amor conjugal: quem saberá conjugar esse verbo?

Amor filial é aquele que se expressa pela transferência de lucros para a matriz.

Dois pares de tapas nas costas: dois amigos se encontrando depois de longo tempo. Quando fazem ruído: dois políticos que passaram a tarde juntos.

Jantar à Americana é buffet. Sair à Francesa é deixar o jantar à Americana sem que ninguém perceba.

Os Estados Unidos, depois de acabarem com o Segundo Mundo, claramente mostram que estão descambando para o Terceiro. Tanto assim que eu vi um filme americano onde a atriz aparece sem sutiã e fazendo sexo. Ao mesmo tempo.

Filme francês de suspense agora é thriller. Globalização.

Estamos na reta final das eleições. Há eleitores de rádio de pilha no ombro e há outros de paletó e gravata e outros ainda de smoking. No universo feminino, enquanto umas ficaram em casa de pano na cabeça, outras se fizeram presentes; no lugar de panos, chapelões. Os candidatos usam tapa-olhos.

No ano em que o Brasil perdeu, inteligente mesmo é propor ao eleitor que tenha a mesma empolgação que teve na Copa. Mas, faz sentido: fazer o que na cozinha?

O avanço tecnológico vertiginoso que se configura no mundo de hoje é a introdução preferida de artigos que retratam algo que já se passou. Especialmente nos anais.

Anais: palavra sem singular.

Fazer frases não é monopólio de ninguém. E se alguém patenteou, foi o Barão de Itararé, que, quando vivo, queria mesmo era cair no domínio público.

Generosamente.

9.19.2006

DISCIPLINA

Não existe mendigo
Assaltante
Artista
Estuprador
Sem disciplina -
A arte de dormir e acordar
Bem.

Seus antepassados
Espreguiçavam-se;
E você?

Alongue-se
Prolongue-se
Depois e
Principalmente
Antes
De dormir.

Respire
Repare
O assaltante
Minutos antes
De lhe ceifar as orelhas
Estica o braço

Alonga-se
Como o mendigo
Antes de fazer a barba
Sem espuma
Com a lâmina
Catada no lixo.

Você pianista
Lutador de boxe
Cantora
Lutadora de judô

Antes do bemol
Do direto
Da dissonância perseguida
Do bum! No tatame

Tal como o executivo
Se alonga –

Nunca por disciplina.

Para suportá-la.

Se os crucificados
Fossem antes alongados
Teriam sido suas cruzes
Mais leves?

9.11.2006

DE PALAVRAS E BARES

Alguém do século passado – o XXI, lembra? – pesquisou em um dicionário da época palavras que não existem mais (como dicionários também são coisas do passado). Empolgou-se, viajou mais ainda no tempo - o passado -, e descobriu personagens e coisas que eles andaram dizendo ou cantando, lá, no tempo deles. Dizem que depois ficou louco, a tentar desenvolver idéias próprias a partir das que havia visitado, viajando no tempo. Contam que desapareceu; mas deixou no chão do bar, num obsoleto guardanapo, escritos que, atualizados, diriam mais ou menos assim:

***

Oscar Wilde recomendou que se deve resistir a tudo; menos às tentações.

Ora, o que deve então fazer um prudente?

Evitá-las.

***

Segredo é pra quatro paredes; já o adultério é pra oito.

***

Casal transformou-se em duplamente adúltero – só não se sabe quem começou, ele ou ela.

Um outro casal seguiu os passos do primeiro. E assim, um terceiro, um quarto, um quinto...

Logo:

Segredo é pra quatro paredes; adultério é pra 8, 16, 32, 64...

***

Até os impotentes sabem: adultério é uma potência. De dois.

***

Stanislaw Ponte Preta, sobre passageiros em pé nas “lotações” – pequenos ônibus do tempo dele -, contou que a lei permitia um máximo de 8 passageiros de pé, dentro daquele meio de transporte coletivo; e que, depois, a lei do 8 caiu - e, como 8 deitado é infinito...

Portanto:

Segredo é pra quatro paredes; adultério é pra oito. Deitado.

***

Se cometer adultério for assunto de lei, cometa. Se for “de lei”, não cometa.

***

Adultério: melhor não comentar.

***

Não é à toa que você lê essas frases soltas, de palavras e atos antigos, na parede deste banheiro de bar – para que você se pergunte, afinal, o que resiste mais ao tempo: as palavras? As pesquisas? Ou são os bares e seus guardanapos?

9.05.2006

O BRASIL E O UNIVERSO EM EXPANSÃO

UAI nem sempre é interjeição mineira, como não se pode acusá-la de inconfidência, pelo menos sem provas. Mas, se nem interjeição nem inconfidência, insurreição, sim: a UAI - União Astronômica Internacional – rebaixou Plutão a planeta anão. Mas será possível arbitrária e autoritariamente uma UAI qualquer retirar um planeta de sua órbita, reduzindo-o a uma sub-órbita – assim, de um ano-luz para o outro? Isso já causa revoltosos protestos de apaixonados e estudiosos astrônomos - sem que, no entanto, sejam esperados enforcamentos seguidos de esquartejamentos por conta disso. Disso que, diga-se, nem é novidade mais.

Da mesma forma, faz tempo que se comenta, em centros de pesquisa e botequins, que o universo vive em expansão. Se o big-bang foi ou não seu começo, aí o buraco, além de negro, é muito mais profundo; cientistas e curiosos embriagados ainda não conseguiram chegar a um consenso. Mas todos garantem: que o bang foi big, ah, isso foi – e, vá lá, reduzam Plutão a plutinho – mas que ninguém se meta a falar em fim do universo.

O universo vai-se expandindo espaço infinito afora, só pra ver quem é mais infinito no fim das contas: ele, universo infinito, ou o próprio infinito. E o fim das contas não existe, qualquer endividado sabe disso muito bem.

O que talvez também não seja novidade é que o Brasil segue a mesma trajetória da cósmica expansão.

Professores são seres capazes de transmitir conhecimento e provocar reflexões e modificações. Por isso, no Brasil, são tão desprezados e mal pagos. Formam então os professores uma galáxia à parte, que sai a protestar nas ruas contra a degradação da sua profissão, o tanto que deles já tiraram, a destruição da escola e do acervo científico-educacional-cultural público, assim por diante. Pelas demais organizações sociais brasileiras – ou galáxias -, são vistos como vagabundos que reclamam de barriga cheia, alimentada pelo povo.

E povo é outra galáxia, totalmente desconhecida pelas demais.

Estudantes, que fazem parte da mesma galáxia dos professores, deles se afastam.

Elites sócio-econômicas se queixam da carga tributária, dos juros altos, dos gastos públicos e, ainda que empreguem parte – planetas, anões ou não – da galáxia denominada Povo, e que parte dessa parte venha das escolas e universidades - que compartilham da órbita dos Professores -, a galáxia Elites se afasta das demais.

Políticos – ah, os políticos! - sabem de tudo, tudo propõem, prometem muito mais. Ouvem pouco. Muitos deles, percebendo espaços que se agigantam na camada de Ozônio, é na luz crepuscular que bem se adaptam à inescrupulosa. Rapidamente se libertam da gravidade e de todas as demais leis. Têm na galáxia Povo seu alvo predileto: eis a inspiração de Guerra nas Estrelas.

O Governo, ainda que majoritariamente orbitado por políticos, é uma outra galáxia. Aumenta impostos e diminui custos, sim senhor – senão, os professores não estariam reclamando.

Galáxias como a dos traficantes vão-se expandindo à velocidade da luz, na razão direta das massas e na inversa do quadrado da razão.

No lugar da razão, galáxias distintas, estranhas, planetas a desaparecer da órbita, a se violentar e a se perder no éter, a se plutanizar – expressão que, ninguém duvide, brevemente será cunhada – e não parente, do desprezado e simultaneamente temido, porque desconhecido, vernáculo.

A razão provavelmente preferiria professores bem preparados e pagos, universidades aparelhadas, concorrência saudável entre escolas públicas e privadas, empresas públicas e privadas eficientes e competitivas oferecendo o melhor, de empregos a produtos, comungando com cidadãos de emprego e vida dignos o pagamento dos impostos necessários e suficientes para o Estado-servidor.

Quereria presumivelmente a razão cidades menos tensas, com melhor distribuição de renda e demografia, transporte público de qualidade, paisagem em harmonia com a população, progresso social e desenvolvimento no ritmo que lhes fosse adequado, a elas e eles, cidades e cidadãos. Seu contrário são as mega-cidades, com sua mega-miséria, mega-violência, mega-engarrafamentos, mega-corrupção, mega-demagogia, mega-poluição...

Mas, que mega, hein?

Dizem que é assim por culpa da história, dos Estados Unidos e dos portugueses; por culpa do povo, do governo, das elites; a culpa é do clima, a culpa...

O Brasil se expande para fora de si, por meio de suas distintas galáxias distantes umas das outras, afastando-se, indo-se, cada qual por si.

Ao contrário do universo, o começo do Brasil é conhecido.

Bem como seu fim, tudo indica, o será em breve.

8.28.2006

VOCÊ, LEITOR

No caso deste blog, o título aí em cima é de um realismo acachapante. Eis aqui um blog de um leitor só – não necessariamente solitário, mas muito provavelmente sempre o mesmo. Pode, aliás, ser uma leitora, a incrementar o contador de visitantes sempre de 1 – lembrando uma torcida, a gritar depois de um gol: “mais um”.

Injustiça da minha parte com você, este outro ou outra você, que também ajuda a incrementar o contador, eu sei. Um é pouco, dois é bom, três, então, nem se fala. Sem demagogia – não se vive neste espaço de votos, vive-se aqui até sem salário, que dirá de mensalão -, quantidade não é o que se deseja por aqui. Melhor - aqui - é essa qualidade que é própria de você, leitor, nesta sua condição ímpar; esse intimismo, com S, de nem próximo nem distante. Intimismo do mesmo diâmetro de uma mesa de bar e com a profundidade e a poesia que lhe são peculiares e, principalmente, a conversa fora e a perspectiva de chamar um táxi e deixar o carro próprio no lugar que lhe é próprio: o estacionamento. Até a noite seguinte.

Temos planos. A começar por leitura especializada – e você, leitor, se enquadra nessa categoria. Quer se candidatar a crítico dessa obra fragmentada entre Terças e Sábados?

Buscamos concursos – e aceitamos sugestões.

Pensamos em organizar esta bagunça – esta com T, de tocante de tão próxima – e criar desvios do blog para seções: “A DINASTIA”, “PAREDES QUE FALAM”, “POEMAS”, “CRÔNICAS”, e outras pretensões. Ficará mais fácil e engenheirístico – face que este autor fará sempre questão de mostrar. Oferecer, não: nem no boxe, onde o adversário é como deve ser um adversário: um saco.

Ficará, de certo, mais bonito, embora desconsertar deva ser - às vezes, pelo menos - o papel da arte. Se não, Nelson Rodrigues não teria afirmado que toda mulher gosta de apanhar nem que ninguém gosta de preto porque nem o preto gosta de preto. Desconsertos assim provocam o que a arte mais gosta de provocar: reação. Do gênero “Eu, não”. E aí a perspectiva de grandes mudanças para melhor, mudando o que e quem – principalmente – deve ser mudado. Grande Nelson. Quem somos nós?

Vez por outra algo que pretende ousar um pouco mais, explorar o belo idioma que nos coube um pouco mais, descobrir suas veias, suas coxas, seu sexo, nuances e buços. Outras vezes a tentar provocar um risinho de canto de boca, uma careta, uma ruga passageira de desconfiança ou curiosidade. Em todas elas, uma cumplicidade.

Com você, leitor. Ou leitora. Você vai bem? Volte sempre, hein?

Por favor.

E obrigado.

8.21.2006

TÉDIO

(1)

E se você fosse um grande entediado
Na estréia de uma Segunda-feira
Uma temperatura extrema
Frio ou calor, tanto faz

E saísse a caminhar na hora do almoço
Tanto faz se frio ou quente o ar lá fora sopra
Sob um sol que só deixou de fora raios
Rajando seu corpo e a calçada

E o céu ficou azul e sem vergonha
E o ar e o sol e o céu levantaram
Mais que saias
Humores

Continuaria assim entediado
Ou faria como eu fiz
– e era frio que fazia –
E jogaria o tédio precipício abaixo?

(2)

Se o problema é esse noticiário
Pior ainda saber que o que está acontecendo
É bem pior do que isso que eles contam
Pode ficar tranqüilo
Isso não é tédio não
É revolta
Não cura com o sol não
Mas o tédio passa
Fica somente a revolta.

Coisa pouca.

8.15.2006

SOCIEDADE ANÔNIMA

Era só o começo. Era antes.

Os órgãos de comunicação atuantes no país foram advertidos de que qualquer tentativa de manipulação da opinião pública, omissão, divulgação irresponsável e/ou falsa de notícias seria respondida por ampla divulgação via organismos paralelos independentes e um boicote generalizado. A iniciativa privada acabou por acatar o convite para que provesse os recursos para o combate ao crime organizado e seus derivados, parcialmente como investimento, parcialmente como substituição de impostos – primeiro, unilateralmente decidida; depois, divulgada e negociada com o poder público. O repasse de verbas foi através de um fundo gerido por particulares e publicamente auditado por vários dos mesmos anteriormente advertidos veículos de comunicação.

Enquanto o poder público continuava a abarrotar as já hiper-lotadas cadeias, parte daqueles recursos da iniciativa privada possibilitou contratar a construção de maiores e melhores presídios. Sua expansão era planejada por meio de estatísticas, continuamente aferidas no decorrer dos fatos. Nas novas prisões, à exceção de desbalanceamentos momentâneos, só toleráveis por um ou dois dias, nunca uma cela seria habitada por mais nem menos que três presos – porque um, mais que pouco, seria caro; dois, uma fórmula boa demais para a cumplicidade revoltosa; a partir de quatro foi considerado superpopulação; e a infância mostrava que dois geralmente se aliam e alijam um terceiro, que passa a se defender, minando os planos dos outros dois. Foi instituído o trabalho remunerado para presidiários. Parte da remuneração ia para as famílias dos presos e parte era depositada para uso deles, depois do cumprimento de suas penas. Nos presídios, toda e qualquer conversa telefônica passou a ser ouvida e automaticamente gravada, em tempo real, local e remotamente, sempre com o conhecimento prévio de quem conversava. Posteriormente, essas práticas incorporaram-se à legislação. Apesar do veemente protesto de alguns setores da sociedade informada e instruída – “Assim, todo mundo vai querer ir pra cadeia” -, insistiram em programas de educação e re-enquadramento social. “Sangue bão” foi uma das expressões que desapareceram. A reclusão e reorientação de menores de 16 anos infratores baseou-se em substancial assistência médica, psicológica e educacional. Casos tidos como patológicos e sem retorno foram encaminhados para centros de reclusão especiais, onde o exercício de atividades produtivas era incentivado. Do lado de fora, por meio da gestão de instituições religiosas previamente analisadas, investigadas e qualificadas, desenvolveram-se programas de assistência a viciados para maximizar a cura e minimizar a dependência. Agências de propaganda e marketing realizaram, por conta própria e sem remuneração, campanhas de educação e alerta contra o uso de drogas pesadas. A maconha foi liberada. A exploração de pontos para a sua venda foi concedida a ex-traficantes cumprindo penas em regime semi-aberto, compatíveis com seus atos praticados no período do tráfico, desde que estes não incluíssem crimes de morte, tortura ou seqüestro. Todas as demais drogas traficadas foram mantidas na ilegalidade e assim combatidas, até que índices do nível de educação e qualidade de vida da grande maioria da população alcançassem padrões mundialmente tidos como satisfatórios. Já com o envolvimento do poder público, para combater o tráfico remanescente, o armamento, preparo e remuneração das forças armadas federais e das polícias federal e estaduais teve incremento expressivo, simultaneamente a estratégias de aceleração de substituição, julgamento e punição dos corruptos. Diminuição da pena, programas de reabilitação e re-enquadramento social, proteção e troca de identidade foram concedidos a alguns criminosos, em troca de confissão e delação. As fontes de renda foram ainda suplementadas por meio do reingresso incentivado e condicional de dinheiro anterior e ilicitamente expatriado, perdão parcial e condicional à sonegação e aporte voluntário de pessoas naturais do país e exterior. Para inibir a continuada proliferação do vício, organizações não-governamentais passaram a prover assistência psico-social a famílias ou pessoas de baixa renda e/ou de desempregados e também àquelas que se candidatassem ao programa em troca de trabalho voluntário ou a contribuir com recursos, financeiros ou não.

Tudo em meio a tenebrosos atos de terror. Em resposta, persistência.

Nomes de candidatos corruptos circulavam em listas, na mídia e boca-a-boca, especialmente nas regiões mais ermas e/ou de analfabetismo pronunciado. Eles ocupam hoje algumas das celas das novas prisões. Sempre em número de três.

Grandes fornecedoras de obras e serviços públicos foram convencidas a firmar de público um pacto que liquidou com velhos esquemas de corrupção e acerto prévio do resultado de concorrências. Inibiu novos. Funcionários públicos de histórico honrado foram prestigiados com homenagens e aumento de salários. Agências supra-partidárias foram encarregadas da gestão da carreira do funcionalismo público, que passou a competir em perspectivas de ascensão por mérito e resultados com as típicas do setor privado. A demissão de funcionários públicos incompetentes e não dispostos a progredir e colaborar passou a ser praticada. Empresas estatais e privadas concordaram com a criação de um fundo para desempregados, preparando os dispostos ao reingresso no mercado produtivo e suportando-os minimamente até que ele ocorresse.

Para a remodelagem estrutural do país, com o poder público já devidamente ciente de suas atribuições e responsabilidades e com uma visibilidade jamais vivida de seus atos, com verbas da parcial ou integral concessão à iniciativa privada da exploração de empresas públicas por prazo determinado, regulada por agências supra-partidárias fortalecidas, além da proveniente de uma racional reforma tributária, foi implantado um amplo programa de valorização do magistério, com ênfase nos salários e no preparo. A complementação educacional a domicílio foi oferecida a famílias e pessoas de baixa renda e/ou sem acesso a expressões artístico-culturais. Banidos foram os exames de avaliação de cursos por meio das provas a que se submetiam seus alunos e ex-alunos. As cotas para minorias foram substituídas por cursos de preparação para o vestibular para os estudantes em escolas públicas, até que estas atingissem o devido grau de competitividade com as particulares.

A verdadeira droga foi finalmente banida: a ignorância.

Antes era só o começo. Antes era 2006.

8.08.2006

DE CABRITOS E CANIVETES

“Bom cabrito é o que não berra” - será verdade?

Aquela viagem pelo interior, que incluiu estradas rurais ou coisa parecida – mais pra coisa parecida -, trilhas a pé, rios, percurso de barco - tudo a trabalho, nada de eco-turismo -, iniciou-se por sugerir uma prosa sobre cabritos (lembrando que bodes são muito espaçosos).

Antes do almoço, corcoveando dentro de uma camionete que era pra ser confortável, proseou-se sobre a provável reeleição do executivo-mor. Constatou-se que o excesso de sua exposição na mídia é que lhe esgota a inspiração para tiradas de efeito. Já do lado de quem as ouve, a paciência é que vai agonizando. Essa experiência já foi vivida com o mandatário anterior; tudo indica que a viveremos outra vez. Do lado do mandatário, portanto, constatou-se que bom cabrito é o que não fala.

Enquanto almoçavam em acampamento de obras bem no meio daquilo tudo, mata, rios, um calor seco sob nuvens a ensaiar uma chuvinha que não viria, falaram do barco no qual pretendiam navegar dali a algumas poucas horas:

- O motor anda bebendo demais.
- Não vai dar pra ir e voltar.
- Claro que dá.
- Ce tá louco, sô; não dá, não.
- Dá.
- Não dá.

E continuou aquela discussão de cabritos roucos, absolutamente inaudíveis, nenhum capaz de convencer ao outro. Aliás, ninguém ali era cabrito, eram pessoas vividas, experientes. Sem ofensa, estavam mais pra bodes. Se havia algum cabrito, era justamente o barqueiro, cuja opinião sequer era ouvida, que dirá considerada. Pra convencer bode, cabrito tem que ser muito bom de berro.

Depois de novas trilhas a pé e quase-estradas na referida camionete que era pra ser confortável, fizeram seu trajeto no referido barco. Na ausência de coletes salva-vidas, a tranqüilizar a todos, um par de remos. E um homem não é muito mais que um par de remos.

As águas, a paisagem, tudo aquilo foi ressuscitando corpos e mentes cansados do poder e da falta dele. E homens não são muito mais que sua ressurreição.

Que bode ou cabrito foi que venceu a discussão, ninguém sabe - mas a gasolina do barco acabou, no meio do percurso de retorno.

Quem pratica boxe conclui, precipitadamente, que um homem não é muito mais que suas luvas de boxe. Já quem anda de bicicleta entende que um homem não é muito mais que sua bicicleta – tanto assim que sempre se pergunta: casar ou comprar uma?

Porém, nem luvas de boxe nem bicicleta as havia.

O barqueiro revelou:

- Tem um pouco de gasolina no tanque e um pouco mais nesta vasilha – e perguntou:

- Alguém tem um canivete?

Sem ter a menor idéia da utilidade que poderia ter um canivete naquele instante, o mais peixe fora d’água de todos, nascido e criado em beira de praia de cidade grande, respondeu:

- Sim. Eu tenho um canivete.

E aí lhe foi dada a divina graça da revelação: seu canivete serviria para cortar o fundo de uma garrafa plástica de água mineral; esta, depois de cortada, se prestaria como funil entre a vasilha avulsa com gasolina e o tanque do barco, a fazer o motor à explosão explodir à vontade outra vez, pondo o barco a navegar de novo e de volta à terra, prometida e quase-firme.

Foi assim que ficou provado que – sem entrar no mérito da ressurreição -, um homem não só não é muito mais que seus remos, luvas de boxe e bicicleta, como, definitivamente, um homem nada mais é que seu canivete.

Portanto, minha amiga, da próxima vez que seu namorado lhe convidar a um motel, antes que alguma coisa deixe de funcionar, pergunte a ele:

- O canivete veio?

Ou fique a ouvir bodes e cabritos.

8.01.2006

A ESCOLHA É SUA

Se você pudesse escolher, claro, passaria a vida de bom humor. Aquele estado de espírito que mantém você bem disposto, uma alegria pertinho da superfície, pronta para aflorar à mais fraquinha das piadas. Você, aliás, hoje, está um ótimo contador de piadas. Contador, que nada: inventor. Você – com este seu bom humor – está afiadíssimo, criativo, tudo é oportunidade para uma grande tirada. Seus amigos percebem, ficam olhando pra você com um ar de O que foi que deu nele? - já percebeu? Você já acordou assim, de bom humor. Foi carinhoso com a mulher, brincou com o cachorro, nem se importou de ter pisado no cocô que ele fez no tapete novo da sala. E olha que você estava descalço. Foi pro trabalho a pé, de tão bem disposto, e não houve nada de novo, não. Nem hoje, nem ontem: nenhum aumento, promoção, nova oportunidade, nem mesmo uma insinuação da gostozona que voltou de férias. Nada disso, pura rotina, pura, rasa, medíocre mesmice; e você não é medíocre pra gostar da mediocridade nem da mesmice - tanto assim que, vira e mexe, se irrita com essas duas, quer mudar tudo, fazer tudo diferente. Fica até de mau humor. Mas hoje, não: nada abalou este sorriso envolvente. O papo da mesa é que está ficando um pouco chato, engraçado, todos estavam de bom humor, você – especialmente - estava tão bem humorado, o que foi que fez você mudar de humor assim de repente?

Podendo escolher, não perderia seu tempo procurando um livro interessante quando as livrarias só oferecem Como manter a calma, Como vencer na vida, Como vencer o stress, Como ter sempre bom humor, Como ser líder em vez de chefe, Como chefiar seu chefe, Como comer e emagrecer, como, como, como, o quê, o quê, o quê... Quem? Você? Quando?

Aquela revista já traz pergunta e resposta na capa: “COMO ACABAR COM O CRIME ORGANIZADO? SEIS PASSOS INFALÍVEIS, BASEADOS NA EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL E NA LÓGICA DE ESPECIALISTAS”.

Se você pudesse escolher, iría pra casa agora, amaria sua mulher perdidamente, deixaria a TV ligada no programa que fosse o mais imbecil de todos – sem perder tempo com essa terrível escolha -, comeria batatas fritas e dormiria sobre a cerveja derramada, um pé com a meia, o outro, sem. Sua mulher está, de fato, ao seu lado, mas algo rodeia você, sai de dentro da sua cabeça e passeia à volta da sua cabeça, lhe expõe cenários de vida e de morte, dos caminhos de poder - poder subir, parar, desaparecer, meter a porrada no primeiro que se atrevesse. Sua mulher se queixa de um cansaço que afirma nunca ter sentido, um vazio, uma vontade de chorar, ela não sabe expressar bem o que está sentindo. Perguntar se não é TPM seria reduzi-la a alguém sem escolha; você não faz isso e, se pudesse, daria um abraço nela, diria a ela, amanhã é outro dia, você vai ver, isso passa, tudo se resolve, é só ter calma, já passamos por tanta...

Na TV, um exército dizimou trinta e sete crianças.

7.25.2006

EXPERIÊNCIA OU MORTE – OU DEUS SERÁ O GARÇOM?

Você já foi mais velho? Não? Eu já fui mais moço.

Ser solteiro é melhor que ser casado. Você já foi casado? Eu já fui solteiro.

O falso moralismo nasceu. Seu parteiro era o verdadeiro. O verdadeiro morreu. De parto súbito.

Há uma obviedade mentirosa, o que é um paradoxo, pois mentira que é óbvia não é mentira, mentira que é mentira se parece com a verdade e verdade verdadeira nunca é óbvia. Sexo é uma coisa e amor é outra. Que alguém me diga, do sexo – saudável – se ele é desamor. Se não é desamor - amor não é?

Toda vida após a morte é plausível, já que é plausível existir um código a se formar da mistura de códigos trazidos em diferentes líquidos e, misturados os códigos, se instalar um novo dentro de alguém - que é código feito de mistura de outros códigos trazidos em líquidos. Tal como esta, a mistura recém-chegada viverá a questionar a vida e a morte e, se quiser e puder, a repetir a mistura líquida de códigos. O que jamais se explicará é a vida curtinha, de natimortos, de bebês mortos, de jovenzinhos e crianças mortas, sem tempo para questionar.

Se você acha que está mais perto da morte é porque se esqueceu daquela vez em que quase foi atropelado, afogado, dormiu dirigindo, deu de cara com o cara armado, o elevador chegou dois degraus acima, o avião teve um susto e deu uma chacoalhada que criou o milagre do copo solto no ar, dormiu debaixo do viaduto, foi cachorro ou gato ou tatu e atravessou a pista, ali era só mato, agora é cimento é aço, comeu sabão pensando ou querendo que fosse comida, cheirou o cheiro que não deveria ter cheirado, bebeu do líquido que não deveria ser bebido, meteu-se – foi metida? – onde – por quem? – não deveria ter sido, olhou e viu o que era proibido, escutou e ouviu um tiro, ou então foi só um zumbido, era uma faca a cortar você a extirpar de seu dentro um apêndice. Você é que é um apêndice. A morte é que é inteira. A vida é um quase.

- Garçom! Minha quase, por favor.

7.18.2006

SONETO PARA UMA MENINA-MOÇA

Para uma menina-moça
Desprovida de artificialismos
Cheia de arte
Matemática e Línguas

Para uma menina
Que gosta mesmo é da verdade
E de verdade
Gosta mais de fantasia

Para uma mocinha
Que escreve poemas
E estuda Ciências e Geografia

Que sabe onde fica
Exatamente
O coração da gente.

7.12.2006

EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA

ESCRITÓRIO E ESTREBARIA

Deus faz criaturas únicas.
Fato
Algumas se parecem
No tédio
Inveja
Sobrancelhas
Sorrisos.
Da minha parte
Gostaria muito
De ter sobrevivido
E até agora o consegui.
Gostaria mais
Eu
Criatura única/inda
Que parecida com tantas outras
De poder variar um pouco
De não ver minha face tantas vezes em outras
Especialmente a da falsidade
A que diariamente expressa a verdade
A vontade
De estar em outro lugar.

7.11.2006

A FOTO DE SATCHMO E PIXINGUINHA

A FOTO DE SATCHMO E PIXINGUINHA



(I)

Ela tem vinte anos
Vê a foto dos dois
Negros geniais músicos
Seus instrumentos nas mãos
Trazem o formato
Do riso
Das suas bocas.

Ela se pergunta
O que será que os dois conversam
Momentos antes e depois
Do momento da foto?

Dirá Pixinguinha – Eu vim
De uma roda de choro?
E Louis Armstrong – dirá
Que acabou de chegar
De New Orleans?
Ambos dirão ter medo do fim
Do choro e de New Orleans?

Ela tem vinte anos
Percebe na foto dos dois
O que foi dito antes e depois:

O sax de Pixinguinha
O trompete de Louis Armstrong
De tanta arte inspiração que trazem

Esses instrumentos moldados
Pelas bocas daqueles dois
Cantam terna eternamente

What a wonderful world.

(II)

She’s twenty years old
She looks at the picture
Black genius musicians
Their instruments in their hands
Got the shape
Of the smile
Of their mouths.


She asks herself
What about are they talking
Moments before and after
The very moment of the picture?

Does Pixinguinha say -
I just came from a choro session?
Does Louis Armstrong tell him -
I just arrived
From New Orleans?
Did they fear the end
Of choro and New Orleans?

She’s twenty years old
She understands perfectly
What have been said before and after:

Pixinguinhas’ sax
And Louis Armstrong’s trumpet
As much art inspiration they bring together

Those instruments shaped
By the mouths of them both
Forever and tenderly all they say is

What a wonderful world.

7.04.2006

UMA DOENÇA INCURÁVEL

Saudosismo é coisa de velho ou de nostálgico prematuro; futebol é coisa de criança. Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Jamais será aceitável acusar um clube de propaganda enganosa se, na sua infância ou adolescência, o clube tenha tido um timaço por um ou dois anos e, depois, desandou a perder e a permanecer na lanterna. Você poderia, neste caso, trocar de clube - alegariam os cartolas por ele (ir-) responsáveis - e sua causa estaria perdida. Fato é que sequer isso passa pela sua cabeça, pois você, eu e qualquer outro brasileiro adquirimos na infância essa doença que se chama futebol.

E a doença, ainda que incurável, raramente mata. Mais que isso, é coberta de razões, nenhuma delas doentia. A razão da sua doença pode ter sido Zico ou Jairzinho, Pelé ou Garrincha, Gerson ou Rivelino, Ademir ou Leônidas, Junior ou Nilton Santos, Falcão ou Sócrates... Pode ser Dunga, pode ser Tostão. Não pode mesmo ter cura uma doença - ainda mais adquirida na infância - com qualquer motivo dessa grandeza.

Mas sua doença infantil e incurável é benigna. Viu, com seus olhos de criança - que são ainda estes mesmos que se escondem meio chorosos sob suas sobrancelhas -, essa gente que causou sua doença incurável vestindo uma camisa e vibrando com ela a cada gol, sem nunca ter beijado o escudo que ela trazia e, no entanto, você sabia que era de verdade aquela emoção. Depois a camisa do seu clube passou a ser a de um clube maior ainda, que encampava o seu, com a camisa pintada de verde e amarelo (às vezes, azul). E você vibrava e se entristecia de verdade com a alegria e a tristeza verdadeiras de reincidentes causadores da sua doença incurável, a cada gol feito ou perdido ou tomado.

Quando o seu clube ou seu clubão verde-amarelo perdia, você ficava de cabeça inchada; recebia umas gozações e, dois dias depois, estava curado da cabeça inchada. Mas nunca da doença benigna e incurável que adquiriu na infância.

Era o que eu tinha a dizer, alusivamente a esta dita seleção de 2006 e seu respectivo técnico. Desta vez, eu faço questão de assinar:

Mario Benevides.