No princípio era a gravata.
Ginástica & Fisioterapia
Andar depressa depressa depressa
E de-va-gar.
Caixão de defunto.
Tempo para viajar
Tempo
Como se sabe
É dinheiro.
Dois litros de uisque
Um enfarte
Um transplante
Uma dieta
Um spa.
Vinhos.
Livros dos super
Dos que superaram
Dos que saíram vivos sorridentes
Da vida estratégica competitiva
Ricos vencedores
Segundo eles
É preciso comprá-los
Lê-los.
Jesus Cristo era Deus
Agora é psicólogo.
Um charuto
Uma vodka
Uma cerveja
Pelo amor de Deus
Sem mencionar o colarinho.
Buda
Agora executivo
Era Buda.
Um psiquiatra.
(No princípio era a psicoterapeuta.)
O proibido
Para quem o tem como permitido.
O adeus à barriga
Ela volta
Estufada e depressiva
Como é que pode?
Imediatamente faça amor
Diga alguma coisa inteligente
DesconTraia
Se.
HomeoApatia.
FAlopatia.
O psicopata é o piloto que vence
Passando por cima de todo mundo
Palmas para ele
Sorrindo
Aperte o nó
Dentro de você.
E pensar
No princípio
Era só afrouxar o nó.
O DIÁRIO DO MARIO contém crônicas e poemas de Mario Benevides, além do embrião do romance A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO, do mesmo autor, publicado em 2007 pela Design Editora, aqui no blog com o título A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS.
6.20.2006
6.13.2006
EU USO ÓCULOS
Eu uso óculos – já diziam os Paralamas do Sucesso.
Duvido que alguém o diga com orgulho – ou mesmo prazer.
Há quem chame o par de lentes apoiado no nariz de prótese; e não está errado, não.
Óculos pesam. O nariz de quem os usa fica marcado pelas borboletas que servem de contato entre o nariz e eles – os óculos. E se sua namorada usa lentes de contato, termine o namoro - ou nunca vá à piscina, praia nem cinema com ela. Namorar no carro, nem pensar.
Tenha sempre uma pia por perto. Óculos sujam. Flanelinhas só arranham os óculos – e não me refiro aos malas ou pobres diabos ou diabos mesmo que ficam passando pano sujo no carro da gente e a gente ainda paga por isso. Pronto: os desafetos Paralamas e Lobão já podem me processar, por tê-los deixado distantes entre si não mais que uns poucos parágrafos.
Óculos ficam tortos, arranham, empenam. Quebram - quando caem no chão e são pisados por quem os usa e abruptamente acorda depois de dormir assistindo a um chato - de óculos - na TV.
Ninguém fica mais intelectual por causa deles. Fica mais burro, porque, de tempos em tempos, briga com o grau das lentes – e sempre perde, ganhando mais graus.
Óculos sempre deixam quem os usa embaraçado, porque nunca sabe se deve perguntar cadê o MEU ou cadê os MEUS óculos. Esteja certo de duas coisas: eles cismam de desaparecer sempre que você os põe por instantes sobre qualquer prateleira, mesa, pia de banheiro público ou balcão de oficina mecânica; e são dois – no mínimo. São sempre plurais. Mais: eles são muitos e SABEM voar. Pronto: entre os já citados roqueiros, o cearense Ednardo há de apartá-los, me livrando de um processo criminal por abuso de aproximação.
Óculos: ame-os e não os deixe - a não ser que você goste da idéia de entregar seus olhos nas mãos de um sujeito que a vida inteira receitou óculos pra você.
Eu uso óculos. Apenas sem o orgulho característico de quem diz “Sou tijucano, com muito orgulho”.
Aí também seria demais.
Duvido que alguém o diga com orgulho – ou mesmo prazer.
Há quem chame o par de lentes apoiado no nariz de prótese; e não está errado, não.
Óculos pesam. O nariz de quem os usa fica marcado pelas borboletas que servem de contato entre o nariz e eles – os óculos. E se sua namorada usa lentes de contato, termine o namoro - ou nunca vá à piscina, praia nem cinema com ela. Namorar no carro, nem pensar.
Tenha sempre uma pia por perto. Óculos sujam. Flanelinhas só arranham os óculos – e não me refiro aos malas ou pobres diabos ou diabos mesmo que ficam passando pano sujo no carro da gente e a gente ainda paga por isso. Pronto: os desafetos Paralamas e Lobão já podem me processar, por tê-los deixado distantes entre si não mais que uns poucos parágrafos.
Óculos ficam tortos, arranham, empenam. Quebram - quando caem no chão e são pisados por quem os usa e abruptamente acorda depois de dormir assistindo a um chato - de óculos - na TV.
Ninguém fica mais intelectual por causa deles. Fica mais burro, porque, de tempos em tempos, briga com o grau das lentes – e sempre perde, ganhando mais graus.
Óculos sempre deixam quem os usa embaraçado, porque nunca sabe se deve perguntar cadê o MEU ou cadê os MEUS óculos. Esteja certo de duas coisas: eles cismam de desaparecer sempre que você os põe por instantes sobre qualquer prateleira, mesa, pia de banheiro público ou balcão de oficina mecânica; e são dois – no mínimo. São sempre plurais. Mais: eles são muitos e SABEM voar. Pronto: entre os já citados roqueiros, o cearense Ednardo há de apartá-los, me livrando de um processo criminal por abuso de aproximação.
Óculos: ame-os e não os deixe - a não ser que você goste da idéia de entregar seus olhos nas mãos de um sujeito que a vida inteira receitou óculos pra você.
Eu uso óculos. Apenas sem o orgulho característico de quem diz “Sou tijucano, com muito orgulho”.
Aí também seria demais.
6.06.2006
IDÉIAS, MELHOR NÃO TÊ-LAS?
O que não pode é a pessoa ter uma idéia e depois esquecê-la. Daquelas que não é a ficha que cai; quem cai é o próprio orelhão.
Andar com agenda de bolso pode ser uma boa idéia, desde que seja lembrado de que ela – a agenda - está no bolso.
No fim de semana, umas boas idéias passam pela cabeça da pessoa, mas dá uma certa preguiça, logo quando era possível até mesmo começar a por em pé o projeto que se desenhou mentalmente tão perfeito e bem acabado. Amanhã eu desenvolvo isso, tenho boa memória – o pensador de idéias pensa. E aí, quando chega a Segunda-feira, cadê a idéia?
Porque esse negócio de ficar ouvindo discurso cretino e imbecil, assistindo troca de insultos, chorando mais uma morte por tentativa de reação a tentativa de assalto ou de garoto vendendo ou comprando porcaria, entristece e embota o pensamento; é preciso ter idéias.
E namorar é preciso; viver não é preciso. Melhor fará quem tiver idéias no momento em que estiver namorando que instantaneamente as guarde em recanto cerebral reservado para boas e inoportunas idéias – pois não é recomendável pedir um instante, meu bem, vou anotar uma idéia e já volto.
Uma boa idéia pode, até, surgir durante uma boa conversa para, imediatamente, ser anotada na agenda de bolso. Pode-se inclusive ser generoso com o interlocutor e dizer que ele é que deu uma idéia tão boa que você resolveu anotá-la. Na verdade a idéia anotada será a sua, a que você teve, muito melhor que a dele, mas ele não precisa saber disso – a menos que quem esteja nessa conversa com você seja dado a cobrar direitos autorais por qualquer idéia que ele tenha, principalmente as ruins, más, péssimas idéias. Nesse caso, utilize-se do já citado RCRBII - Recanto Cerebral Reservado às Boas Idéias Inoportunas. E fique com a agenda coçando no seu bolso.
Mas, atenção: o RCRBII não abre nos fins de semana.
E que a idéia era boa, era.
Andar com agenda de bolso pode ser uma boa idéia, desde que seja lembrado de que ela – a agenda - está no bolso.
No fim de semana, umas boas idéias passam pela cabeça da pessoa, mas dá uma certa preguiça, logo quando era possível até mesmo começar a por em pé o projeto que se desenhou mentalmente tão perfeito e bem acabado. Amanhã eu desenvolvo isso, tenho boa memória – o pensador de idéias pensa. E aí, quando chega a Segunda-feira, cadê a idéia?
Porque esse negócio de ficar ouvindo discurso cretino e imbecil, assistindo troca de insultos, chorando mais uma morte por tentativa de reação a tentativa de assalto ou de garoto vendendo ou comprando porcaria, entristece e embota o pensamento; é preciso ter idéias.
E namorar é preciso; viver não é preciso. Melhor fará quem tiver idéias no momento em que estiver namorando que instantaneamente as guarde em recanto cerebral reservado para boas e inoportunas idéias – pois não é recomendável pedir um instante, meu bem, vou anotar uma idéia e já volto.
Uma boa idéia pode, até, surgir durante uma boa conversa para, imediatamente, ser anotada na agenda de bolso. Pode-se inclusive ser generoso com o interlocutor e dizer que ele é que deu uma idéia tão boa que você resolveu anotá-la. Na verdade a idéia anotada será a sua, a que você teve, muito melhor que a dele, mas ele não precisa saber disso – a menos que quem esteja nessa conversa com você seja dado a cobrar direitos autorais por qualquer idéia que ele tenha, principalmente as ruins, más, péssimas idéias. Nesse caso, utilize-se do já citado RCRBII - Recanto Cerebral Reservado às Boas Idéias Inoportunas. E fique com a agenda coçando no seu bolso.
Mas, atenção: o RCRBII não abre nos fins de semana.
E que a idéia era boa, era.
5.30.2006
DE TECLADO, DE LUVAS E KIMONOS
O teclado é pequeno demais para nós onze. Continuemos assim, semi-non-sense, treinando boxe, observando jiu-jitsu no tatame em frente. O boxe é knock-out, black-out, o outro-out: o outro fora do ar, apagado, religado somente no momento de erguer o braço do vencedor, a ratificar: você venceu. O outro – o que perdeu - levanta-se da lona com as pernas exaustas, uma vesguice nos ombros, os olhos vergados, a falência do fígado, a embriaguez dos rins, um sangramento no sexo. Trôpego, mas de pé novamente, tem um dos braços erguidos pela mão do vencedor - que está com as pernas exaustas, uma vesguice nos ombros, os olhos vergados, o fígado nos rins, um sangramento no sexo. O jiu-jitsu continua, no tatame em frente. Obstrui, contém, aprisiona, imobiliza. Humilha. O outro. Que está sob você – que venceu novamente. Os dois deitados no tatame, cada qual num quimono, sem saber se faz frio ou calor, lá fora dos seus quimonos. Um, ativo. O outro, passivo; imobilizado; depreciado. De repente, levantam-se; e cumprimentam-se, curvando suas cabeças um para o outro.
Há uma imensidão incontável de gentes comuns, gentis, gentias, pacíficas. É a maioria. E, dentre as minorias, há uma que, vira e mexe, é mais forte que a maioria. É ela a capaz da sedução própria da serpente, da imposição, do desprezo por qualquer existência que não seja a sua própria. Essa minoria seduz, submete, derrota e usa a maioria. Até que um dia se trai, não consegue se esquivar de si nem cuspir a tempo a baba do próprio veneno, em transe com o ruído do chocalho, do guiso que traz dentro da cabeça, cabeça própria de serpente, e vai ao chão, knock-out, black-out. Fica exausta, inativa, depreciada, e ninguém a mantém desse jeito, imóvel, imobilizada, depreciada. Põe-se agora de quatro, se levanta, se joga nas cordas, procura um braço de vencedor para erguer. Encontra somente um tatame vazio. Numa lona desabitada; num estádio sem platéia.
O teclado é que é invariavelmente pequeno demais para nós doze.
Há uma imensidão incontável de gentes comuns, gentis, gentias, pacíficas. É a maioria. E, dentre as minorias, há uma que, vira e mexe, é mais forte que a maioria. É ela a capaz da sedução própria da serpente, da imposição, do desprezo por qualquer existência que não seja a sua própria. Essa minoria seduz, submete, derrota e usa a maioria. Até que um dia se trai, não consegue se esquivar de si nem cuspir a tempo a baba do próprio veneno, em transe com o ruído do chocalho, do guiso que traz dentro da cabeça, cabeça própria de serpente, e vai ao chão, knock-out, black-out. Fica exausta, inativa, depreciada, e ninguém a mantém desse jeito, imóvel, imobilizada, depreciada. Põe-se agora de quatro, se levanta, se joga nas cordas, procura um braço de vencedor para erguer. Encontra somente um tatame vazio. Numa lona desabitada; num estádio sem platéia.
O teclado é que é invariavelmente pequeno demais para nós doze.
5.23.2006
UM HOMEM, AFINAL, O QUE É?
(Para Maria Luiza e Maria Beatriz (Bia))
Um homem não é muito mais que sua mulher
Sua filha
Seu irmão
Sua sobrinha
Poucos pares de meias
De amigos
De amigas
Sua profissão.
Um homem não é muito mais que seus sonhos
Projetos
Ex-namoradas
Beijos
Camas.
Mulher não é muito mais que um homem
A não ser muito mais
Coragem
Medo
Valentia.
Um homem
Pode ser um picareta
Um egoísta
Safado
Corrupto
Psicopata pensando em si
Somente em si mesmo
Somente em seus planos
De vitória
Sempre discutível
Para os outros
Não para ele
Para ele seu sucesso
Esse tipo de homem
Não tem discussão
É sempre sua vitória só o que interessa
O dono da verdade
Da história
Da morte
Da vida
Alheias.
Mas aí não será um homem.
Mas aí não será uma mulher.
Mas aí não será ninguém.
Um homem não é muito mais que sua mulher
Sua filha
Seu irmão
Sua sobrinha
Poucos pares de meias
De amigos
De amigas
Sua profissão.
Um homem não é muito mais que seus sonhos
Projetos
Ex-namoradas
Beijos
Camas.
Mulher não é muito mais que um homem
A não ser muito mais
Coragem
Medo
Valentia.
Um homem
Pode ser um picareta
Um egoísta
Safado
Corrupto
Psicopata pensando em si
Somente em si mesmo
Somente em seus planos
De vitória
Sempre discutível
Para os outros
Não para ele
Para ele seu sucesso
Esse tipo de homem
Não tem discussão
É sempre sua vitória só o que interessa
O dono da verdade
Da história
Da morte
Da vida
Alheias.
Mas aí não será um homem.
Mas aí não será uma mulher.
Mas aí não será ninguém.
5.15.2006
UM, DOIS, FEIJÃO COM ARROZ; E UM ESQUELETO
Um homem dentro de casa mexendo em seus canivetes, malas, recolhendo o lixo, olhando-se no espelho, levando a bicicleta ao médico ou o cachorro a fazer xixi e cocô, um filme. Uma canção antiga, um pai que sabia limpar canivetes, pintar paredes, lixar, envernizar, passar o Sábado. Eu nunca soube.
***
Fumar é inspirar a morte, profundamente; e expirar a vida, lentamente. Inspirar a morte é aspirar a vida. Palavra de ex-fumante.
***
Ninguém entende mais de gente que tapete. Aos gênios, serve-se a voar; aos medíocres, pisar; aos sonhadores, escorregar.
***
Limítrofes:
Atores; boêmios; poetas; cantoras de boate; freqüentadores de bingo; Bolívia.
***
Quando se anda por aí, tolamente, a olhar o mar, paralelamente aos automóveis e seus autômatos a dirigi-los, quando se vai à farmácia ou à padaria, quando se é gente de bairro, atenção: é um raro momento em que uma bomba deixou de explodir ao seu lado.
***
Mulheres e suas bundas: nada de novo no front.
***
O Word é um software puritano. Assinala bundas em vermelho e depois não deixa que elas sejam adicionadas ao dicionário. Também não permite que se as ignore.
Um puritano incorrigível.
***
Depois não me diga que eu não telefonei, que eu não escrevi, não lhe pisquei o olho, não me atrevi, não me arrisquei, não contei piada nem me zanguei. Apenas eu não era quem você queria. O que me aborrece é que isso me poderia ter sido dito na primeira vez em que eu telefonei, que eu escrevi, lhe pisquei o olho, me atrevi, me arrisquei, contei piada e me zanguei. Exatamente quando eu era quem você queria.
***
O poeta Aldo Votto me deu de presente um livro de sua autoria, com direito a dedicatória. De repente me saiu de dentro do livro algo que dizem às vezes sair de dentro do armário, mas que concluo ter saído na verdade de dentro do universo, quando ele era ainda uma casca de ovo. Seu poema ESQUELETO diz assim:
Mais triste
Que o prédio abandonado
É o que foi deixado
Em construção
Em que o musgo
Tomou o lugar da cal
E a sombra,
O lugar do reflexo.
Desfaz-se a obra
Que ainda não se fizera
E os tijolos viram tigelas
Para algum pombo citadino.
A altura, em vez de imponência,
É ameaça de acidente.
Mais que tudo,
O prédio inacabado
É oco de gente;
Espaço semi-construído,
Sequer meio vivido.
O que me fez concluir o seguinte:
Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto,
Não tem recheio de carne
Tampouco é feito de osso.
Mas, por ser esqueleto de todo jeito,
Permite imaginarem-se ossos nele
E aí é que se percebe,
Entre cada par de vértebras,
Entre cada duas costelas,
Nas juntas, falanges, rótulas
Uma alma.
E, como alma gosta muito
De habitar gente
E gente que tem esqueleto,
Essas almas vão-se multiplicando
Infinitamente.
Herman Hesse
Em O lobo da estepe
Prova
Germanicamente
Que homens e mulheres são feitos de infinitas
Almas.
Tivesse lido o poema do poeta Aldo Votto,
Teria dito uma só frase
Feita de dois versos
Tão somente.
Leiam Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto.
***
Ou
Como diria
Vinicius
De Moraes
Na agenda
De janeiro
Mês de férias
É preciso
Deixar todas as datas vazias
Para que haja espaço
Para o súbito
O não dito
A súbita
Poesia.
***
Muito obrigado, Aldo.
***
Fumar é inspirar a morte, profundamente; e expirar a vida, lentamente. Inspirar a morte é aspirar a vida. Palavra de ex-fumante.
***
Ninguém entende mais de gente que tapete. Aos gênios, serve-se a voar; aos medíocres, pisar; aos sonhadores, escorregar.
***
Limítrofes:
Atores; boêmios; poetas; cantoras de boate; freqüentadores de bingo; Bolívia.
***
Quando se anda por aí, tolamente, a olhar o mar, paralelamente aos automóveis e seus autômatos a dirigi-los, quando se vai à farmácia ou à padaria, quando se é gente de bairro, atenção: é um raro momento em que uma bomba deixou de explodir ao seu lado.
***
Mulheres e suas bundas: nada de novo no front.
***
O Word é um software puritano. Assinala bundas em vermelho e depois não deixa que elas sejam adicionadas ao dicionário. Também não permite que se as ignore.
Um puritano incorrigível.
***
Depois não me diga que eu não telefonei, que eu não escrevi, não lhe pisquei o olho, não me atrevi, não me arrisquei, não contei piada nem me zanguei. Apenas eu não era quem você queria. O que me aborrece é que isso me poderia ter sido dito na primeira vez em que eu telefonei, que eu escrevi, lhe pisquei o olho, me atrevi, me arrisquei, contei piada e me zanguei. Exatamente quando eu era quem você queria.
***
O poeta Aldo Votto me deu de presente um livro de sua autoria, com direito a dedicatória. De repente me saiu de dentro do livro algo que dizem às vezes sair de dentro do armário, mas que concluo ter saído na verdade de dentro do universo, quando ele era ainda uma casca de ovo. Seu poema ESQUELETO diz assim:
Mais triste
Que o prédio abandonado
É o que foi deixado
Em construção
Em que o musgo
Tomou o lugar da cal
E a sombra,
O lugar do reflexo.
Desfaz-se a obra
Que ainda não se fizera
E os tijolos viram tigelas
Para algum pombo citadino.
A altura, em vez de imponência,
É ameaça de acidente.
Mais que tudo,
O prédio inacabado
É oco de gente;
Espaço semi-construído,
Sequer meio vivido.
O que me fez concluir o seguinte:
Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto,
Não tem recheio de carne
Tampouco é feito de osso.
Mas, por ser esqueleto de todo jeito,
Permite imaginarem-se ossos nele
E aí é que se percebe,
Entre cada par de vértebras,
Entre cada duas costelas,
Nas juntas, falanges, rótulas
Uma alma.
E, como alma gosta muito
De habitar gente
E gente que tem esqueleto,
Essas almas vão-se multiplicando
Infinitamente.
Herman Hesse
Em O lobo da estepe
Prova
Germanicamente
Que homens e mulheres são feitos de infinitas
Almas.
Tivesse lido o poema do poeta Aldo Votto,
Teria dito uma só frase
Feita de dois versos
Tão somente.
Leiam Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto.
***
Ou
Como diria
Vinicius
De Moraes
Na agenda
De janeiro
Mês de férias
É preciso
Deixar todas as datas vazias
Para que haja espaço
Para o súbito
O não dito
A súbita
Poesia.
***
Muito obrigado, Aldo.
5.09.2006
DVINICIUSD
Vinicius em DVD, coisa que jamais passou pela cabeça dele, Vinicius de Moraes. Vinicius na telona do cinema, isso ele tinha todo direito de imaginar: não só crítico da arte ele foi, como viu seu Orfeu da Conceição, o Orfeu Negro, passar do palco para Cannes, e talvez nem fosse isso o que ele quisesse ou disso fizesse questão. Vinicius agora fica à disposição na prateleira, mais que em sons e imagens, em depoimentos extraordinários, como os de suas filhas, muito especialmente da mais velha, porque a que podia contar e contou mais histórias dele e o bem e o estrago que causavam, nele e em quem estivesse por perto, e por motivo que ele conheceu mais que nenhum outro: ao invés de escassez, excesso de amor. Como os de Chico, Tônia Carreiro, Edu Lobo, Caetano Veloso e Toquinho. Tom Jobim, claro, está lá. Maria Betânia. E estão lá interpretações magistrais por cantores e cantoras magistrais de canções de Vinicius & Vinicius, Vinicius & Tom, & Baden, & Toquinho, & Chico &... Os assassinos de Emmet em ritmo que ele provavelmente também não imaginaria (nem mesmo ele). Camila Morgado e Ricardo Blat a fazer teatro, teatro de verdade, sentido, profundo, interpretado, palavra, silêncio, gesto, respiração, idade, tempo. Antônio Cândido, que presença no filme de Miguel Faria Jr. E que filme, o de Miguel Faria Jr., que extraordinária peça para se ver e rever na telona, para se ter na prateleira e repetir sua imagem em 14 ou quantas forem as polegadas domésticas, a cantar, a pedir a beleza de amar.
Minha filha, quando for sua vez de ensinar alguém a ler, que seja Monteiro Lobato sua cartilha; quando for sua vez de desejar, Jorge Amado é caminho dengoso e perigoso, como deve e cabe ser; mas se for amar, amar a vida, aos homens e mulheres que são de amar em paz, é Vinicius, a abrir as portas de todos os que conheceu em vida e pensamento e cita generosa e fraternalmente em seus livros: Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, João Cabral, Murilo Mendes, Oswald e Mario de Andrade, Rubem Braga, tantos outros, além de outros ainda de outras patriazinhas, como Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Rilke...
Humano, demasiadamente humano? Vinicius.
E todas as vezes que surgirem esses doutores em coisa nenhuma a determinar qual o melhor poeta brasileiro, ouça, minha filha, ouça uma voz tanto humilde quanto sacana, que sempre responde de dentro dos verdadeiros puros:
- Quem é o melhor poeta eu não sei, mas, o melhor Vinicius, é o de Moraes.
Minha filha, quando for sua vez de ensinar alguém a ler, que seja Monteiro Lobato sua cartilha; quando for sua vez de desejar, Jorge Amado é caminho dengoso e perigoso, como deve e cabe ser; mas se for amar, amar a vida, aos homens e mulheres que são de amar em paz, é Vinicius, a abrir as portas de todos os que conheceu em vida e pensamento e cita generosa e fraternalmente em seus livros: Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, João Cabral, Murilo Mendes, Oswald e Mario de Andrade, Rubem Braga, tantos outros, além de outros ainda de outras patriazinhas, como Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Rilke...
Humano, demasiadamente humano? Vinicius.
E todas as vezes que surgirem esses doutores em coisa nenhuma a determinar qual o melhor poeta brasileiro, ouça, minha filha, ouça uma voz tanto humilde quanto sacana, que sempre responde de dentro dos verdadeiros puros:
- Quem é o melhor poeta eu não sei, mas, o melhor Vinicius, é o de Moraes.
5.01.2006
MÍNIMAS
Alguém já disse isto.
Entre a ecologia e a economia, sabe quem? A engenharia.
Eu sei, tu sabes, ele sabe. Nós calamos, vós também, eles continuam do mesmo jeito.
A pressa é inimiga da refeição.
O pai dele morreu.
O que dizer a ele,
Pêsames, sinto muito?
Coragem.
O filho dele nasceu.
O que dizer a ele,
Parabéns, felicidades, coragem?
Parabéns.
Alternativas para ordem e progresso: liberdade e respeito; ciência e ousadia; fôda-se todo mundo que o que eu quero é o meu.
Se alguém diz pra você que a paixão acaba quando o amor começa e que o amor acaba quando o casamento começa, não aumente a aposta: pague pra não ver. E pague pra ver.
O savoir faire, o know how e o saber fazer de nada são capazes diante da arrogância
Que é gêmea da ignorância.
A pressa é inimiga da afeição.
Alguém já disse isso.
Entre a ecologia e a economia, sabe quem? A engenharia.
Eu sei, tu sabes, ele sabe. Nós calamos, vós também, eles continuam do mesmo jeito.
A pressa é inimiga da refeição.
O pai dele morreu.
O que dizer a ele,
Pêsames, sinto muito?
Coragem.
O filho dele nasceu.
O que dizer a ele,
Parabéns, felicidades, coragem?
Parabéns.
Alternativas para ordem e progresso: liberdade e respeito; ciência e ousadia; fôda-se todo mundo que o que eu quero é o meu.
Se alguém diz pra você que a paixão acaba quando o amor começa e que o amor acaba quando o casamento começa, não aumente a aposta: pague pra não ver. E pague pra ver.
O savoir faire, o know how e o saber fazer de nada são capazes diante da arrogância
Que é gêmea da ignorância.
A pressa é inimiga da afeição.
Alguém já disse isso.
4.24.2006
DILEMAS
Suponhamos que hoje seja dia de folga e que nada de sério se deva comentar. Vamos falar de pequenos dilemas diários, na vida de quem pode se dar ao luxo cada vez mais raro do lazer. Um dos grandes quem vive é o carioca da Zona Sul do Rio – não, ninguém vai falar da dúvida entre usar ou não relógio, onde guardar o dinheiro do assaltante, ou, para os mais abastados, blindar ou não blindar, eis a questão; como dito, hoje é dia de folga. Falamos do carioca que ainda vai à praia, que se convenceu de que poluição não dá em praia, um cara simples, de hábitos simples, que dá seus mergulhos, se deita na areia e dá uma andada olhando quem vem e que passa a caminho do mar, lembrando Tom e Vinicius, como quem não quer nada. Esse carioca viverá, a cada dia de sol que não for de fim de semana ou feriado a angústia de não poder ir à praia; e quando for Sábado, Domingo ou feriado, se estiver fazendo sol, terá que se proibir de passar por perto dos bares do Leblon – porque, se o fizer, viverá um dilema típico de sua alma de homem simples e que mora perto do mar sem ser numa favela: o bar ou o mar? Os bares do Leblon têm um burburinho e um chope e um tira-gosto que são impossíveis de resistir, a esse indivíduo de quem falamos pelas costas. Ele irá sofrer demais se passar por aqueles bares; por isso, resoluto, irá direto para a praia, passando por transversais somente de edifícios, butiques e lojas de sucos – e olhe lá; pois, se forem dessas que vendem sucos também de cevada, olha o dilema aí, gente. Agora, se um mineiro ler este parágrafo, sentir-se-á o mais feliz dos homens, não é? Minas não tem mar; é bar - e pronto. Dilema zero.
Tem também o do indivíduo que está com uma sede danada e, ao mesmo tempo, vontade de fazer xixi. E agora? O que fazer primeiro?
Ir ou não de terno parece ser coisa do passado. Depois que se percebeu que terno e gravata vestem a maioria dos defuntos, esse traje vai-se tornando cada vez mais raro. Hoje é todo mundo casual. A depender do nível social, a pronúncia será a inglesa; mas deixa pra lá: o bom é poder deixar o terno dentro do armário e abraçando um cabide, o máximo tempo em que assim for possível.
Um dos bons: vou a pé ou de bicicleta? A pé a gente é adolescente; de bicicleta, criança.
Telefonar ou não pra ela? Opa – devemos pedir desculpas: dissemos que não falaríamos de coisas sérias.
Mas nenhum é pior do que aquele do carioca. Portanto, você já sabe: se estiver no Rio nas redondezas do Leblon com intenção de ir à praia, nada de passar perto do Jobi, do Clip, etc.
A não ser que você seja mineiro. Ou que não goste tanto assim de praia. Dizem que está poluída, não é?
Tem também o do indivíduo que está com uma sede danada e, ao mesmo tempo, vontade de fazer xixi. E agora? O que fazer primeiro?
Ir ou não de terno parece ser coisa do passado. Depois que se percebeu que terno e gravata vestem a maioria dos defuntos, esse traje vai-se tornando cada vez mais raro. Hoje é todo mundo casual. A depender do nível social, a pronúncia será a inglesa; mas deixa pra lá: o bom é poder deixar o terno dentro do armário e abraçando um cabide, o máximo tempo em que assim for possível.
Um dos bons: vou a pé ou de bicicleta? A pé a gente é adolescente; de bicicleta, criança.
Telefonar ou não pra ela? Opa – devemos pedir desculpas: dissemos que não falaríamos de coisas sérias.
Mas nenhum é pior do que aquele do carioca. Portanto, você já sabe: se estiver no Rio nas redondezas do Leblon com intenção de ir à praia, nada de passar perto do Jobi, do Clip, etc.
A não ser que você seja mineiro. Ou que não goste tanto assim de praia. Dizem que está poluída, não é?
4.22.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
ROMANCE INÉDITO DE MARIO BENEVIDES
2005-2006
EPÍLOGO
“[Olga] Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as casas, as igrejas; viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo [de Santana, Rio de Janeiro]... Tinha havido grandes e inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.”
Para quem não sabe ou não se lembra, é assim que Lima Barreto conclui sua biografia de Policarpo Quaresma.
Destacar o encontro no palácio presidencial em 2017 para lembrar a marcante mudança na mentalidade dominante brasileira que se deu naquele ano foi apenas porque lá estava um descendente de Ricardo Coração dos Outros.
Contar episódios havidos desde então até 2017 como se estivéssemos em 2020, quando o ano é 2053, teve a intenção de mais uma vez demonstrar que a modernidade é sempre passageira. Se isso é óbvio é porque a modernidade o é. Surpreendemo-nos com a tecnologia e, no entanto, ela apenas realiza algo que desejamos, precisamos ou vamos precisar. Quando surge uma novidade tecnológica, pensamos, Afinal nunca precisamos disso, para que diabos isso serve? - e, pouco depois, nos fazemos outra pergunta: Como foi que vivemos tantos anos sem essa coisa? Foi assim com os barcos, o automóvel, o avião, as hidro e termelétricas, o petróleo e sua substituição, a pipoca e o micro-ondas e a pipoca de microondas, o computador de sala, mesa, mala, mão e cérebro, o celular e as células-combustíveis. Hoje, mais que nunca, vivemos do Hidrogênio. E nos perguntamos ainda Para que diabos? e cultuamos o diabo tanto quanto a Deus, em suas variadas manifestações e principalmente na ausência delas.
Ora, a origem da chamada revolução de mentalidade foi o interior do Brasil; foi especialmente o interior de Goiás que deu origem a um movimento sem liderança conhecida, primeiro de boicote quase destrutivo para depois construir algo de realmente inovador, movimento surgido de anseios seculares da história do Brasil e que produziu a grande transformação do país, sem mortes, ameaças ou imposição. Tanto assim que foi motivo de destaque do noticiário mundial a participação ativa e teatral daqueles jovens estudantes de Minaçu dos primeiros anos deste século XXI, que faziam peças teatrais na cidade naqueles tempos, e que levaram adiante silenciosas dramatizações em Brasília na dita Revolução Brasileira de 2017.
Hoje é um dia de sol de 2053 e a distribuição da renda nacional permite uma vida razoavelmente tranqüila em sociedade, ainda que sofrimento, injustiça e desacesso ocorram e sejam noticiados, tal como alienações químicas. Mas a massificação da desgraça e o terror do tráfico aliciando a infância excluída e aprisionando adolescência e vida adulta desesperadas e despreparadas se foram. A indiferença diminuiu, o desaforo do desdém pela coisa pública costuma ser logo conhecido e execrado, a competência supera o estrelismo; aliás, no mundo inteiro a competência passou a ser percebida como talento. As desavenças estão aí, parece que são entranhadas na condição não só humana quanto de todo na de estar vivo em um planeta teimoso, a girar em torno do sol curando males das transformações causadas muito principalmente e não só pelos seus homens e suas mulheres, que hoje o habitam em praticamente iguais proporção e força transformadora e produtiva.
Aquela família de que tanto se falou, a ponto de se a descrever como dinastia, e seus mais próximos, em 2020 ficaram assim.
A que vivia com uma pessoa fazia igual a tantas outras, a viver com uma pessoa, embora isso, naquele tempo, mais antes de 2020 que propriamente naquele ano, a expressão “aquela pessoa” tivesse propósitos de escondê-la – a pessoa – sabe-se lá de que preconceitos.
Ricardo IV seguiu como brilhante advogado e episódico imperador em seu roupão caseiro.
O General continuou a exibir sua nudez à sua indiferente empregada e ao amigo Almir. Ela – a empregada do General - escreveu um livro: “A vista da Avenida Atlântica do Rio de Janeiro”; ele – Almir - enlouqueceu um pouquinho.
Muitos que residiam em Minaçu de lá se mudaram; outros, para lá é que se foram.
Sérgia tornou-se membro permanente da ONU, casada com Ricardo IV só de vez em quando.
A médica que foi amante de Ricardo IV, bem, não se pode revelar seu nome.
Rita e Ricardo V continuaram casados - ele, escritor, ela, incansável pesquisadora das etnias – não só das silvícolas do Brasil como também das do mundo árabe. Secretamente ainda buscava saber de que irlandês terá vindo o “Shaw” do sobrenome materno. Já sua mãe passou a permanecer em Orlando o mínimo possível, visitando Rita onde ela estivesse, Rio, Bagdá, Cavalcante, Minaçu, Xingu.
A irmã da que sempre foi vista como a viver com “uma pessoa”, que costumava não se fixar a nenhuma companhia, casou-se; com uma pessoa.
Da minha parte, enquanto meus pais se mudaram para o Rio, preferi freqüentar a Universidade Federal de Santa Catarina a fazer qualquer curso à distância. Agradam-me mais temperaturas mais amenas, passei por muito calor onde nasci. É em Florianópolis que vivo, até hoje. De 2020 até hoje, ora, alguns morreram, outros continuam neste planeta, que permanece a enlouquecer um pouco a cada dia. Florianópolis, 22 de abril de 2053, Ricardo Coração dos Outros VI.
- FIM -
ROMANCE INÉDITO DE MARIO BENEVIDES
2005-2006
EPÍLOGO
“[Olga] Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as casas, as igrejas; viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo [de Santana, Rio de Janeiro]... Tinha havido grandes e inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.”
Para quem não sabe ou não se lembra, é assim que Lima Barreto conclui sua biografia de Policarpo Quaresma.
Destacar o encontro no palácio presidencial em 2017 para lembrar a marcante mudança na mentalidade dominante brasileira que se deu naquele ano foi apenas porque lá estava um descendente de Ricardo Coração dos Outros.
Contar episódios havidos desde então até 2017 como se estivéssemos em 2020, quando o ano é 2053, teve a intenção de mais uma vez demonstrar que a modernidade é sempre passageira. Se isso é óbvio é porque a modernidade o é. Surpreendemo-nos com a tecnologia e, no entanto, ela apenas realiza algo que desejamos, precisamos ou vamos precisar. Quando surge uma novidade tecnológica, pensamos, Afinal nunca precisamos disso, para que diabos isso serve? - e, pouco depois, nos fazemos outra pergunta: Como foi que vivemos tantos anos sem essa coisa? Foi assim com os barcos, o automóvel, o avião, as hidro e termelétricas, o petróleo e sua substituição, a pipoca e o micro-ondas e a pipoca de microondas, o computador de sala, mesa, mala, mão e cérebro, o celular e as células-combustíveis. Hoje, mais que nunca, vivemos do Hidrogênio. E nos perguntamos ainda Para que diabos? e cultuamos o diabo tanto quanto a Deus, em suas variadas manifestações e principalmente na ausência delas.
Ora, a origem da chamada revolução de mentalidade foi o interior do Brasil; foi especialmente o interior de Goiás que deu origem a um movimento sem liderança conhecida, primeiro de boicote quase destrutivo para depois construir algo de realmente inovador, movimento surgido de anseios seculares da história do Brasil e que produziu a grande transformação do país, sem mortes, ameaças ou imposição. Tanto assim que foi motivo de destaque do noticiário mundial a participação ativa e teatral daqueles jovens estudantes de Minaçu dos primeiros anos deste século XXI, que faziam peças teatrais na cidade naqueles tempos, e que levaram adiante silenciosas dramatizações em Brasília na dita Revolução Brasileira de 2017.
Hoje é um dia de sol de 2053 e a distribuição da renda nacional permite uma vida razoavelmente tranqüila em sociedade, ainda que sofrimento, injustiça e desacesso ocorram e sejam noticiados, tal como alienações químicas. Mas a massificação da desgraça e o terror do tráfico aliciando a infância excluída e aprisionando adolescência e vida adulta desesperadas e despreparadas se foram. A indiferença diminuiu, o desaforo do desdém pela coisa pública costuma ser logo conhecido e execrado, a competência supera o estrelismo; aliás, no mundo inteiro a competência passou a ser percebida como talento. As desavenças estão aí, parece que são entranhadas na condição não só humana quanto de todo na de estar vivo em um planeta teimoso, a girar em torno do sol curando males das transformações causadas muito principalmente e não só pelos seus homens e suas mulheres, que hoje o habitam em praticamente iguais proporção e força transformadora e produtiva.
Aquela família de que tanto se falou, a ponto de se a descrever como dinastia, e seus mais próximos, em 2020 ficaram assim.
A que vivia com uma pessoa fazia igual a tantas outras, a viver com uma pessoa, embora isso, naquele tempo, mais antes de 2020 que propriamente naquele ano, a expressão “aquela pessoa” tivesse propósitos de escondê-la – a pessoa – sabe-se lá de que preconceitos.
Ricardo IV seguiu como brilhante advogado e episódico imperador em seu roupão caseiro.
O General continuou a exibir sua nudez à sua indiferente empregada e ao amigo Almir. Ela – a empregada do General - escreveu um livro: “A vista da Avenida Atlântica do Rio de Janeiro”; ele – Almir - enlouqueceu um pouquinho.
Muitos que residiam em Minaçu de lá se mudaram; outros, para lá é que se foram.
Sérgia tornou-se membro permanente da ONU, casada com Ricardo IV só de vez em quando.
A médica que foi amante de Ricardo IV, bem, não se pode revelar seu nome.
Rita e Ricardo V continuaram casados - ele, escritor, ela, incansável pesquisadora das etnias – não só das silvícolas do Brasil como também das do mundo árabe. Secretamente ainda buscava saber de que irlandês terá vindo o “Shaw” do sobrenome materno. Já sua mãe passou a permanecer em Orlando o mínimo possível, visitando Rita onde ela estivesse, Rio, Bagdá, Cavalcante, Minaçu, Xingu.
A irmã da que sempre foi vista como a viver com “uma pessoa”, que costumava não se fixar a nenhuma companhia, casou-se; com uma pessoa.
Da minha parte, enquanto meus pais se mudaram para o Rio, preferi freqüentar a Universidade Federal de Santa Catarina a fazer qualquer curso à distância. Agradam-me mais temperaturas mais amenas, passei por muito calor onde nasci. É em Florianópolis que vivo, até hoje. De 2020 até hoje, ora, alguns morreram, outros continuam neste planeta, que permanece a enlouquecer um pouco a cada dia. Florianópolis, 22 de abril de 2053, Ricardo Coração dos Outros VI.
- FIM -
4.17.2006
SEU LINO MORREU E MEU LIVRO ACABOU
Seu Lino morreu. Se você é o persistente leitor das reincidentes visitas a este blog, sabe de quem estou falando. Seu Lino estava com cento e quatro anos. Todos os longevos dos quais se tem notícia apresentam semelhanças: alimentação muito diferente do receituário da moda, bebida alcoólica citada e moderada, amigos sim mas autonomia antes que seja cedo e... Relógio de pêndulo. Quem dá as horas é o pêndulo; quem as avisa, o cuco; quem as determina, o dono do relógio. Os ingredientes complementares são água, terra, fogo e ar. Seu Lino teve tosse, que rapidamente virou pneumonia; disse que queria comer camarão e comeu; foi para o quarto, deu um adeusinho – expressão dos de sua geração e de outras um pouco mais recentes, mas gesto, nele, inesperado – deitou-se, virou de lado e, no dia seguinte, acordou. Despertou do lado de lá, depois de cento e quatro anos do lado de cá. É assim que se vive. É assim que se morre.
Meu romance “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros” acabou. Na verdade, acabará no próximo Sábado. Seu final já está guardado na máquina de escrever alemã Olympia que herdei do meu pai, na qual ele escrevia para minha mãe todas as vezes em que ela viajava, na mesma em que ela traduzia livros do Inglês, máquina onde escrevi textinhos e poeminhas para amigos e namoradas, que hoje é objeto de decoração e lembrança, e é na lembrança das suas teclas que pré-escrevo o que quer que escreva: é nelas onde já escrevi o final que escreverei de fato em teclado e tela de computador para publicar no blog no próximo Sábado, 22 de abril de 2006. Qual será o lado de lá do meu livro? E deste glorioso tanto quanto botafoguense blog? Do livro, o próximo passo será a busca do passado – não o da máquina do meu pai, mas o das letras impressas em papel, livro de se levar em viagem, ao banheiro, à estante, de se perder no banco do ônibus.
Se será bom de ler, aí já é outra história.
E será de outra história que viverá este blog.
Um abraço, Seu Lino. Não tive o prazer de lhe conhecer pessoalmente e sim por meio de seu neto, motorista de táxi, que hoje de manhã me disse da sua morte. Não tenho religião e tenho entretanto a certeza de que o senhor lerá esta crônica.
Se o senhor vai gostar...
Aí já é outra história.
Meu romance “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros” acabou. Na verdade, acabará no próximo Sábado. Seu final já está guardado na máquina de escrever alemã Olympia que herdei do meu pai, na qual ele escrevia para minha mãe todas as vezes em que ela viajava, na mesma em que ela traduzia livros do Inglês, máquina onde escrevi textinhos e poeminhas para amigos e namoradas, que hoje é objeto de decoração e lembrança, e é na lembrança das suas teclas que pré-escrevo o que quer que escreva: é nelas onde já escrevi o final que escreverei de fato em teclado e tela de computador para publicar no blog no próximo Sábado, 22 de abril de 2006. Qual será o lado de lá do meu livro? E deste glorioso tanto quanto botafoguense blog? Do livro, o próximo passo será a busca do passado – não o da máquina do meu pai, mas o das letras impressas em papel, livro de se levar em viagem, ao banheiro, à estante, de se perder no banco do ônibus.
Se será bom de ler, aí já é outra história.
E será de outra história que viverá este blog.
Um abraço, Seu Lino. Não tive o prazer de lhe conhecer pessoalmente e sim por meio de seu neto, motorista de táxi, que hoje de manhã me disse da sua morte. Não tenho religião e tenho entretanto a certeza de que o senhor lerá esta crônica.
Se o senhor vai gostar...
Aí já é outra história.
4.16.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SETE –
Depois do silêncio, algumas pessoas se retiraram; outras ocuparam seus lugares. Um deputado fez um discurso em tom antiquado, de palanque; mais silêncio. Ricardo V desandou a escrever em seu palm-top com teclado e tela virtuais. Pediu licença para projetar o que havia escrito. O deputado ainda falou por muitos instantes, até que se calou e sentou-se. A platéia permaneceu em silêncio, que só não era absoluto por causa do entra e sai de pessoas no anfiteatro e do corre-corre de profissionais da mídia e da segurança.
O que Ricardo V escrevera, projetado em ampla tela de ultra-máxima definição levada aos olhos de cada um dos presentes via “perfect-vision”, dizia o seguinte:
“A reunião perdera o sentido. O único efeito que dela ficou foi ter vazado, como disse o General, e com isso, parte do silêncio foi rompido. O pronunciamento de Dona Eduarda calou fundo na mente dos políticos profissionais – o que, a princípio, pareceu não ser verdadeiro. Terminada a reunião, lideres da política profissional reuniram-se dias a fio, reestruturando propostas de reformulação da prática política que se encontravam engavetadas, guardadas em mídias das mais diferentes gerações tecnológicas, para depois apresentá-las à população. Riscaram de vez de seus discursos a palavra “povo”, que sempre dera a impressão de que o povo fosse uma coisa à parte deles, os políticos, e delas, as elites culturais e sócio-econômicas. Povo era sempre empregado com fins demagógicos em seus discursos – deles, os políticos profissionais, os quais assim admitiram. Povo, não; população, sim. Propuseram uma administração em condomínio, onde exerceriam suas outras atividades econômicas às claras, dedicando apenas parte do seu tempo à prática política. O Executivo e o Judiciário deveriam continuar trabalhando com dedicação exclusiva, eles pensavam, mas o Legislativo, afora estudiosos do arcabouço e detalhamento do permanente pensamento das leis do país, deveria exclusivamente se reunir para apresentar e discutir propostas, tomando decisões de interesse público, maior para o funcionamento do país, sua economia, sua ecologia, sua gente. As campanhas passariam a ser sempre por colegiados, despersonificando-as o mais que fosse possível, buscando, antes de tudo, saber, de perto e a contento, metódica e sistematicamente, o que, afinal, os indivíduos da população queriam da política, do Estado e das empresas. A consciência de que políticos são empregados da população – e não o contrário – finalmente se estabeleceu. Antropólogos, psicólogos, psiquiatras, mães, avós, avôs, pais, adolescentes e artistas foram convidados a formarem núcleos para rediscussão do interesse pelas drogas, que já começava a ultrapassar novamente o controle da oferta pela saúde pública para viciados em programas de superação do vício e o que era possível de conviver à vista grossa, como ocorria no resto do mundo, e ao jeitinho brasileiro, nas esquinas, calçadas, residências, escritórios, igrejas, bares e repartições. A necessidade de repensar e re-projetar cárceres era premente. Não admitir que a Amazônia e reservas indígenas fossem desprotegidas a ponto de dar oportunidade a potências estrangeiras de proporem administrá-las em bloco era consenso nacional. Inclusão social todos os dias passou a ser prática corrente de Estado, empresas e indivíduos. Assistencialismo, nunca mais. A tecnologia foi invadindo saudavelmente assentamentos e fazendas, propiciando oportunidades e não tirando empregos. Irrigação por gravidade foi sendo substituída pelo que há de mais econômico e eficiente em todas as regiões rurais produtoras; a repartição de bens como a água foi resolvida racionalmente – e não demagógica ou imperativamente. A mídia passou a perguntar – e não a importar, adaptar e impor – o que, afinal, a sociedade queria ver e ouvir, como gostaria de se divertir e de ser informada – e, principalmente, do que cada indivíduo gostaria de ser informado. Deslizes, desonestidades, equívocos na política e no convívio da sociedade continuaram a acontecer, mas vigiados de perto, desprezados em forma e conteúdo pela população, punidos, corrigidos, rápida e eficazmente. O Brasil não estava se tornando uma potência – mas eliminando em ritmo acelerado o fosso social e deixando de permitir que se instalasse coletivamente o desânimo que Lima Barreto conferiu a Policarpo Quaresma nas últimas páginas da biografia deste, cuja vida foi vivida nos últimos anos do Século XIX, e que tantas vezes tornara a se instalar na alma brasileira ao longo da história do Brasil, até esses dias de 2017. Desânimo nunca mais; imposições nunca mais; demagogia nunca mais; corporativismo nunca mais; inclusão, progresso econômico, financeiro e social, sempre. Democracia sempre. Esclarecimento sempre. Cultura, educação, capacitação – sempre. Assim foi.”
A platéia leu aquelas palavras projetadas bem perto dos seus olhos, permaneceu em silêncio mais alguns instantes, até que um homem visivelmente humilde e ligeiramente embriagado levantou-se e disse, alto e bom som:
- Assim seja!
Todos ficaram de pé; Sérgia desceu com Ricardo V e o General para juntarem-se a Rita e Dona Eduarda dentre a audiência. A frase do senhor humilde e gentilmente bêbado foi repetida coletivamente, unissonamente:
- Assim seja!
Todos voltaram os olhos para os políticos presentes – deputados, senadores, o Presidente da República. Este tomou a palavra e declarou:
- Assim será.
E baixou a cabeça.
Todos se retiraram. Alguns sorrisos, alguns abraços. Em silêncio.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SETE –
Depois do silêncio, algumas pessoas se retiraram; outras ocuparam seus lugares. Um deputado fez um discurso em tom antiquado, de palanque; mais silêncio. Ricardo V desandou a escrever em seu palm-top com teclado e tela virtuais. Pediu licença para projetar o que havia escrito. O deputado ainda falou por muitos instantes, até que se calou e sentou-se. A platéia permaneceu em silêncio, que só não era absoluto por causa do entra e sai de pessoas no anfiteatro e do corre-corre de profissionais da mídia e da segurança.
O que Ricardo V escrevera, projetado em ampla tela de ultra-máxima definição levada aos olhos de cada um dos presentes via “perfect-vision”, dizia o seguinte:
“A reunião perdera o sentido. O único efeito que dela ficou foi ter vazado, como disse o General, e com isso, parte do silêncio foi rompido. O pronunciamento de Dona Eduarda calou fundo na mente dos políticos profissionais – o que, a princípio, pareceu não ser verdadeiro. Terminada a reunião, lideres da política profissional reuniram-se dias a fio, reestruturando propostas de reformulação da prática política que se encontravam engavetadas, guardadas em mídias das mais diferentes gerações tecnológicas, para depois apresentá-las à população. Riscaram de vez de seus discursos a palavra “povo”, que sempre dera a impressão de que o povo fosse uma coisa à parte deles, os políticos, e delas, as elites culturais e sócio-econômicas. Povo era sempre empregado com fins demagógicos em seus discursos – deles, os políticos profissionais, os quais assim admitiram. Povo, não; população, sim. Propuseram uma administração em condomínio, onde exerceriam suas outras atividades econômicas às claras, dedicando apenas parte do seu tempo à prática política. O Executivo e o Judiciário deveriam continuar trabalhando com dedicação exclusiva, eles pensavam, mas o Legislativo, afora estudiosos do arcabouço e detalhamento do permanente pensamento das leis do país, deveria exclusivamente se reunir para apresentar e discutir propostas, tomando decisões de interesse público, maior para o funcionamento do país, sua economia, sua ecologia, sua gente. As campanhas passariam a ser sempre por colegiados, despersonificando-as o mais que fosse possível, buscando, antes de tudo, saber, de perto e a contento, metódica e sistematicamente, o que, afinal, os indivíduos da população queriam da política, do Estado e das empresas. A consciência de que políticos são empregados da população – e não o contrário – finalmente se estabeleceu. Antropólogos, psicólogos, psiquiatras, mães, avós, avôs, pais, adolescentes e artistas foram convidados a formarem núcleos para rediscussão do interesse pelas drogas, que já começava a ultrapassar novamente o controle da oferta pela saúde pública para viciados em programas de superação do vício e o que era possível de conviver à vista grossa, como ocorria no resto do mundo, e ao jeitinho brasileiro, nas esquinas, calçadas, residências, escritórios, igrejas, bares e repartições. A necessidade de repensar e re-projetar cárceres era premente. Não admitir que a Amazônia e reservas indígenas fossem desprotegidas a ponto de dar oportunidade a potências estrangeiras de proporem administrá-las em bloco era consenso nacional. Inclusão social todos os dias passou a ser prática corrente de Estado, empresas e indivíduos. Assistencialismo, nunca mais. A tecnologia foi invadindo saudavelmente assentamentos e fazendas, propiciando oportunidades e não tirando empregos. Irrigação por gravidade foi sendo substituída pelo que há de mais econômico e eficiente em todas as regiões rurais produtoras; a repartição de bens como a água foi resolvida racionalmente – e não demagógica ou imperativamente. A mídia passou a perguntar – e não a importar, adaptar e impor – o que, afinal, a sociedade queria ver e ouvir, como gostaria de se divertir e de ser informada – e, principalmente, do que cada indivíduo gostaria de ser informado. Deslizes, desonestidades, equívocos na política e no convívio da sociedade continuaram a acontecer, mas vigiados de perto, desprezados em forma e conteúdo pela população, punidos, corrigidos, rápida e eficazmente. O Brasil não estava se tornando uma potência – mas eliminando em ritmo acelerado o fosso social e deixando de permitir que se instalasse coletivamente o desânimo que Lima Barreto conferiu a Policarpo Quaresma nas últimas páginas da biografia deste, cuja vida foi vivida nos últimos anos do Século XIX, e que tantas vezes tornara a se instalar na alma brasileira ao longo da história do Brasil, até esses dias de 2017. Desânimo nunca mais; imposições nunca mais; demagogia nunca mais; corporativismo nunca mais; inclusão, progresso econômico, financeiro e social, sempre. Democracia sempre. Esclarecimento sempre. Cultura, educação, capacitação – sempre. Assim foi.”
A platéia leu aquelas palavras projetadas bem perto dos seus olhos, permaneceu em silêncio mais alguns instantes, até que um homem visivelmente humilde e ligeiramente embriagado levantou-se e disse, alto e bom som:
- Assim seja!
Todos ficaram de pé; Sérgia desceu com Ricardo V e o General para juntarem-se a Rita e Dona Eduarda dentre a audiência. A frase do senhor humilde e gentilmente bêbado foi repetida coletivamente, unissonamente:
- Assim seja!
Todos voltaram os olhos para os políticos presentes – deputados, senadores, o Presidente da República. Este tomou a palavra e declarou:
- Assim será.
E baixou a cabeça.
Todos se retiraram. Alguns sorrisos, alguns abraços. Em silêncio.
4.10.2006
AO TELEFONE, DE FRENTE PARA O MAR
A vida vira morte de um instante para o outro e isso não é nenhuma novidade. Mesmo naqueles casos de leito de doença prolongada que se sabe é a morte chegando; mesmo quando, no momento em que ela se aproxima, provoca sonhos com outros mortos e os membros e órgãos vão sendo aos poucos desligados do cérebro, quando realmente chega, a morte é abrupta. E assim foi para um casal – ele primeiro, ela depois.
Um outro casal, com dois filhos mais velhos que os três órfãos do que falecera, herdou-os para criar. Isso faz alguns anos.
Pois ele - o que se tornou, abruptamente, pai não de dois, mas de cinco - me ligou. Fiquei preocupado, futilmente, pois ele torce para o Botafogo, como eu, e – a experiência demonstra - botafoguenses não devem se falar em dia de decisão.
Nem sempre a experiência vence e, mais tarde, quem venceu foi o Botafogo; sagrou-se campeão, contra um time de subúrbio, o Madureira – mesmo bairro da Portela, cujos ensaios eram na quadra do Botafogo. Devo me dar conta que o assunto não era - e não é - futebol. Mas podia ser samba; da Portela, inclusive. E dos mais alegres.
Eu estava na praia. Era Domingo, um dia lindo, o mar atlântico estourava na beira da praia como quem quer comemorar, sua temperatura, densidade e docilidade, nem o útero materno conseguiria fazer melhor. Pergunto ao meu amigo ao telefone, Como vão as crianças, que já não são mais crianças? O mais velho, diz ele, na Alemanha, fazendo doutorado de Engenharia; a segunda, em casa, estudando Medicina com o namorado; o terceiro, faz Educação Física; a quarta, também cursa universidade; o caçula, bem, o caçula passou para Comunicação e Educação Física e ainda está indeciso, mas sem pressa.
Não sei que reação essa história provocará em quem a ler, neste já persistente blog. Da minha parte, que a ouvi no original, confesso que fiquei rindo sozinho.
Obrigado, Leda, valeu, Zé. Vocês me fazem concluir que, perto da vida, a morte não passa de uma idiota. Abrupta e idiota.
Um outro casal, com dois filhos mais velhos que os três órfãos do que falecera, herdou-os para criar. Isso faz alguns anos.
Pois ele - o que se tornou, abruptamente, pai não de dois, mas de cinco - me ligou. Fiquei preocupado, futilmente, pois ele torce para o Botafogo, como eu, e – a experiência demonstra - botafoguenses não devem se falar em dia de decisão.
Nem sempre a experiência vence e, mais tarde, quem venceu foi o Botafogo; sagrou-se campeão, contra um time de subúrbio, o Madureira – mesmo bairro da Portela, cujos ensaios eram na quadra do Botafogo. Devo me dar conta que o assunto não era - e não é - futebol. Mas podia ser samba; da Portela, inclusive. E dos mais alegres.
Eu estava na praia. Era Domingo, um dia lindo, o mar atlântico estourava na beira da praia como quem quer comemorar, sua temperatura, densidade e docilidade, nem o útero materno conseguiria fazer melhor. Pergunto ao meu amigo ao telefone, Como vão as crianças, que já não são mais crianças? O mais velho, diz ele, na Alemanha, fazendo doutorado de Engenharia; a segunda, em casa, estudando Medicina com o namorado; o terceiro, faz Educação Física; a quarta, também cursa universidade; o caçula, bem, o caçula passou para Comunicação e Educação Física e ainda está indeciso, mas sem pressa.
Não sei que reação essa história provocará em quem a ler, neste já persistente blog. Da minha parte, que a ouvi no original, confesso que fiquei rindo sozinho.
Obrigado, Leda, valeu, Zé. Vocês me fazem concluir que, perto da vida, a morte não passa de uma idiota. Abrupta e idiota.
4.07.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SEIS –
Rita saiu quase que escorraçada depois da sua fala. Por mais que tenha frisado ser casada com um brasileiro, mãe de filho brasileiro e residente no Brasil havia quinze anos, seu sotaque de americana causou desconforto em alguns nacionalistas, extremados demais para discutir a questão indígena com uma americana.
Perguntaram-lhe da sua experiência e formação; disse-lhes dos seus títulos e citou suas experiências no Brasil e na Bolívia – que foram consideradas episódicas por um dos presentes, tendo o Presidente da República em pessoa dito a ela que já tinham levado em consideração suas contribuições e que ela por favor desse a vez a outros presentes.
Rita agradeceu e foi saindo do auditório da presidência; seu marido, Ricardo V, foi atrás dela, às pressas, percebendo a mágoa da mulher com o visível desinteresse e debochados bocejos que percebera enquanto se expressava. O General, que havia insistido para que Ricardo V fosse àquele encontro, foi atrás dele e, atrás do General, Sérgia, mãe de Ricardo V. Dona Eduarda foi saindo um pouco mais vagarosamente que os demais. Alguém pediu a palavra, mas iniciou-se um burburinho. O General voltou trazendo Ricardo V esbaforido e ofendido pelo braço e deu a seguinte notícia:
- Esse nosso encontro vazou; todo mundo está sabendo e há uma multidão lá fora. ONGs, movimentos, estudantes, o diabo.
O Presidente da República rapidamente acionou a Segurança do Palácio; o chefe da Segurança pediu-lhe calma: “A situação está sob controle”. O Presidente deu a notícia aos demais e pediu que o General tomasse a palavra – e brincou: “O Governo, não; só a palavra, General.”.
O General expressou-se pela manutenção das reservas indígenas dentro das fronteiras e sob a responsabilidade exclusivamente do Brasil. Propôs que fosse feita uma revisão geral da estrutura orçamentária do país, e que as nações interessadas na independência das tribos fossem convidadas a contribuir com recursos para manter as tribos protegidas, em seus limites de terra, saúde e bem estar, conservadas suas tradições. Uns balançaram a cabeça; outros aplaudiram. O Presidente da República disse “Muito bem, está aceita a proposta”. Foi quando Rita e Dona Eduarda retornaram; o General, percebendo os olhos mareados de Rita, pediu a Ricardo V que tomasse a palavra.
Ricardo V convidou a mulher para que o acompanhasse no palanque; ela não quis. Alguém chegou de fora correndo e foi ao ouvido do Presidente; este fez um ar preocupado, baixou a cabeça e disse:
- Mande-os entrar.
Ricardo V percebeu o mal estar e aguardou. Cerca de duzentas pessoas tiveram acesso ao ambiente; mantiveram-se de pé e, aos poucos, foram-se sentando.
Deram a palavra a Ricardo V novamente. Enquanto ele foi falando, mais umas trezentas pessoas entraram no auditório recentemente reformado e foram tomando seus assentos. Algumas preferiram ficar de pé.
Ricardo V disse assim:
- O que está acontecendo já era para ter acontecido há muitos anos e é só a ponta do iceberg. Muito bom que tenha havido um começo de solução para o tráfico em 2014 e que a situação nesse aspecto esteja hoje melhor do que foi até 2010. Porém, o avanço nas instituições e procedimentos da democracia brasileira, as práticas da política, foi pífio depois da crise de 2005 e 2006.
- Pífio? – um senador indignou-se. “Pífio” – repetiu Ricardo V.
Alguns da platéia aplaudiram; um chiado partido da mesa pediu silêncio. Mais pessoas entraram no ambiente; alguns esparsos aplausos para o que Ricardo V havia dito. Este continuou:
- O tráfico já começou a se reorganizar novamente.
- Protesto! – um deputado presente à mesa interrompeu. O tráfico não está na pauta! Não foi considerado crítico, não foi incluído na lista de consenso! Desde 2014, como declarou mesmo o senhor, nobre escritor futurólogo, a questão foi equacionada!
Ricardo retomou a palavra:
- A questão das drogas só teve uma solução temporária; atenção, deputado, atenção, senhores: este silêncio coletivo diz muito mais coisas do que se pensa. Cuidado, senhoras e senhores: é como se tivéssemos perdido um elo qualquer com aquilo que sonhamos. Tem sido assim sucessivamente. O descrédito com relação à política em 2005 e 2006 foi o começo dessa sensação, deste... vazio. Individual e coletivo.
- Superado! Foi superado! – gritou o mesmo deputado, batendo com as mãos sobre a mesa.
- Temporariamente, deputado; só temporariamente. Ainda viveríamos, como vivemos e vivenciamos, terríveis crises, incluindo a convulsão social de 2010.
- Ora, o senhor vai voltar no tempo? Viemos aqui para tratar do presente e do futuro!
- Deputado, o senhor não ouviu o que disse Dona Eduarda?
Fez-se um breve silêncio.
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SEIS –
Rita saiu quase que escorraçada depois da sua fala. Por mais que tenha frisado ser casada com um brasileiro, mãe de filho brasileiro e residente no Brasil havia quinze anos, seu sotaque de americana causou desconforto em alguns nacionalistas, extremados demais para discutir a questão indígena com uma americana.
Perguntaram-lhe da sua experiência e formação; disse-lhes dos seus títulos e citou suas experiências no Brasil e na Bolívia – que foram consideradas episódicas por um dos presentes, tendo o Presidente da República em pessoa dito a ela que já tinham levado em consideração suas contribuições e que ela por favor desse a vez a outros presentes.
Rita agradeceu e foi saindo do auditório da presidência; seu marido, Ricardo V, foi atrás dela, às pressas, percebendo a mágoa da mulher com o visível desinteresse e debochados bocejos que percebera enquanto se expressava. O General, que havia insistido para que Ricardo V fosse àquele encontro, foi atrás dele e, atrás do General, Sérgia, mãe de Ricardo V. Dona Eduarda foi saindo um pouco mais vagarosamente que os demais. Alguém pediu a palavra, mas iniciou-se um burburinho. O General voltou trazendo Ricardo V esbaforido e ofendido pelo braço e deu a seguinte notícia:
- Esse nosso encontro vazou; todo mundo está sabendo e há uma multidão lá fora. ONGs, movimentos, estudantes, o diabo.
O Presidente da República rapidamente acionou a Segurança do Palácio; o chefe da Segurança pediu-lhe calma: “A situação está sob controle”. O Presidente deu a notícia aos demais e pediu que o General tomasse a palavra – e brincou: “O Governo, não; só a palavra, General.”.
O General expressou-se pela manutenção das reservas indígenas dentro das fronteiras e sob a responsabilidade exclusivamente do Brasil. Propôs que fosse feita uma revisão geral da estrutura orçamentária do país, e que as nações interessadas na independência das tribos fossem convidadas a contribuir com recursos para manter as tribos protegidas, em seus limites de terra, saúde e bem estar, conservadas suas tradições. Uns balançaram a cabeça; outros aplaudiram. O Presidente da República disse “Muito bem, está aceita a proposta”. Foi quando Rita e Dona Eduarda retornaram; o General, percebendo os olhos mareados de Rita, pediu a Ricardo V que tomasse a palavra.
Ricardo V convidou a mulher para que o acompanhasse no palanque; ela não quis. Alguém chegou de fora correndo e foi ao ouvido do Presidente; este fez um ar preocupado, baixou a cabeça e disse:
- Mande-os entrar.
Ricardo V percebeu o mal estar e aguardou. Cerca de duzentas pessoas tiveram acesso ao ambiente; mantiveram-se de pé e, aos poucos, foram-se sentando.
Deram a palavra a Ricardo V novamente. Enquanto ele foi falando, mais umas trezentas pessoas entraram no auditório recentemente reformado e foram tomando seus assentos. Algumas preferiram ficar de pé.
Ricardo V disse assim:
- O que está acontecendo já era para ter acontecido há muitos anos e é só a ponta do iceberg. Muito bom que tenha havido um começo de solução para o tráfico em 2014 e que a situação nesse aspecto esteja hoje melhor do que foi até 2010. Porém, o avanço nas instituições e procedimentos da democracia brasileira, as práticas da política, foi pífio depois da crise de 2005 e 2006.
- Pífio? – um senador indignou-se. “Pífio” – repetiu Ricardo V.
Alguns da platéia aplaudiram; um chiado partido da mesa pediu silêncio. Mais pessoas entraram no ambiente; alguns esparsos aplausos para o que Ricardo V havia dito. Este continuou:
- O tráfico já começou a se reorganizar novamente.
- Protesto! – um deputado presente à mesa interrompeu. O tráfico não está na pauta! Não foi considerado crítico, não foi incluído na lista de consenso! Desde 2014, como declarou mesmo o senhor, nobre escritor futurólogo, a questão foi equacionada!
Ricardo retomou a palavra:
- A questão das drogas só teve uma solução temporária; atenção, deputado, atenção, senhores: este silêncio coletivo diz muito mais coisas do que se pensa. Cuidado, senhoras e senhores: é como se tivéssemos perdido um elo qualquer com aquilo que sonhamos. Tem sido assim sucessivamente. O descrédito com relação à política em 2005 e 2006 foi o começo dessa sensação, deste... vazio. Individual e coletivo.
- Superado! Foi superado! – gritou o mesmo deputado, batendo com as mãos sobre a mesa.
- Temporariamente, deputado; só temporariamente. Ainda viveríamos, como vivemos e vivenciamos, terríveis crises, incluindo a convulsão social de 2010.
- Ora, o senhor vai voltar no tempo? Viemos aqui para tratar do presente e do futuro!
- Deputado, o senhor não ouviu o que disse Dona Eduarda?
Fez-se um breve silêncio.
4.04.2006
SS: O SONETO SUBVERSIVO
Pode ser que um dia a turma fique esperta e perceba/
Que esse negócio de privatizar primeiro/
Obter investimentos privados/
E depois reestatizar//
Com discursos inflamados/
Isso é bem público/
Pertence ao povo/
Boliviano venezuelano brasileiro//
Fica sendo bom negócio pra quem vive/
De discurso/
Quem vive de investimento//
Fica a ver navios/
Quem simplesmente vive/
A ouvir discursos.///
Que esse negócio de privatizar primeiro/
Obter investimentos privados/
E depois reestatizar//
Com discursos inflamados/
Isso é bem público/
Pertence ao povo/
Boliviano venezuelano brasileiro//
Fica sendo bom negócio pra quem vive/
De discurso/
Quem vive de investimento//
Fica a ver navios/
Quem simplesmente vive/
A ouvir discursos.///
4.01.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- CINCO –
Ricardo V apresentou-se à mesa, deixando Rita e Dona Eduarda na primeira fileira do anfiteatro do palácio de governo, onde algumas poucas pessoas já se encontravam, provavelmente tão inesperadas e inexpressivas para a maioria como as duas.
Foi dada a palavra a Ricardo V:
- Acredito que este fenômeno silencioso, de apatia popular em relação à mídia e à política no Brasil, possa ser melhor explicado por Dona Eduarda, a quem gostaria de apresentar a todos e passar a palavra.
Houve alguns protestos. Alguém disse a Ricardo V que seu atraso havia-lhe impedido de acompanhar importantes debates, que uma lista de pontos de consenso já fora estabelecida e que o fenômeno do silêncio e apatia coletivos já havia sido compreendido pelo grupo de notáveis presentes, pelo menos em tese.
- Pois o que estou propondo é que Dona Eduarda o explique na prática.
- Quem é Dona Eduarda? – quis saber um dos que protestaram contra o atraso e as companhias de Ricardo V.
- Uma residente num dos assentamentos agrários do norte de Goiás.
Depois de algum silêncio, Ricardo V convidou Dona Eduarda a subir no palco e acessar o palanque ao lado dele.
- A palavra é sua, Dona Eduarda – ele disse.
- Boa tarde – ela disse, com seu sotaque característico da sua região. Meu nome é Eduarda das Neves, moro em Cavalcante, município do Estado de Goiás, em assentamento com mais vinte e três famílias, perto da comunidade kalunga. Vivemos ali por um tempo com muito pouca água, depois instalaram pra nós uma irrigação que precisava pagar pela energia, depois nós fizemos um sistema por gravidade com ajuda de uns engenheiros que moram por lá. Hoje temos água e energia. Temos a tele-multi-mídia e as redes, tratamos da nossa água, cada lote de terra, cada residência paga por sua luz e energia ao nosso condomínio. Nossa associação paga pelo acesso à água que é canalizada, paga pela luz, pela eletricidade. Temos bateria solar também, temos desses cata-ventos que também geram energia, temos uma fábrica de utensílios pra nossa lavoura, temos bons equipamentos de aragem. Temos um contrato pra vender nossa produção no comércio local, temos de um tudo por lá.
- Não falta nada, então? – perguntou alguém, com alguma ironia.
- Respeito. O que falta por lá é respeito.
- Da parte de quem? – quis saber o General.
- Tão fazendo pouco da nossa inteligência. Qualquer pessoa acessa qualquer das duas redes, lê os noticiários que chegam em papel, vê as notícias na tele-multi-mídia e é tudo igual. Tudo repetido, e parecem que querem alegrar a gente ou então entristecer, como se nós fôssemos idiotas. Nós temos escola, temos livros, temos tudo que a cidade tem.
- As cidades também estão em silêncio e sem acessar nem as redes nem a tele-multi-mídia – explicou Sérgia.
- Ninguém agüenta mais. Depois não dá pra entender como é que ainda tem tanto pobre no Brasil, muita coisa já evoluiu, eu tô com sessenta e cinco anos, já vi foi coisa. Aí os políticos visita nós, às vezes vão lá, outras vezes aparecem de repente na tele-multi-mídia, nos mandam mensagem com a cara deles nas telas de bolso e de mesa, no banheiro, na sala, no quarto, na lavoura, e dizem sempre a mesma coisa, tudo falando empolado, tudo agora tem diploma e nós também tem, tudo é profissional, treinado, e ainda tem muita miséria no Brasil, tá errado, não é justo nem é certo nem inteligente.
- O que que a senhora pensa dos índios? – perguntou o Presidente da República.
- Dos índios? Onde eu moro não tem.
- Posso falar? – ofereceu-se Rita, levantando-se.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- CINCO –
Ricardo V apresentou-se à mesa, deixando Rita e Dona Eduarda na primeira fileira do anfiteatro do palácio de governo, onde algumas poucas pessoas já se encontravam, provavelmente tão inesperadas e inexpressivas para a maioria como as duas.
Foi dada a palavra a Ricardo V:
- Acredito que este fenômeno silencioso, de apatia popular em relação à mídia e à política no Brasil, possa ser melhor explicado por Dona Eduarda, a quem gostaria de apresentar a todos e passar a palavra.
Houve alguns protestos. Alguém disse a Ricardo V que seu atraso havia-lhe impedido de acompanhar importantes debates, que uma lista de pontos de consenso já fora estabelecida e que o fenômeno do silêncio e apatia coletivos já havia sido compreendido pelo grupo de notáveis presentes, pelo menos em tese.
- Pois o que estou propondo é que Dona Eduarda o explique na prática.
- Quem é Dona Eduarda? – quis saber um dos que protestaram contra o atraso e as companhias de Ricardo V.
- Uma residente num dos assentamentos agrários do norte de Goiás.
Depois de algum silêncio, Ricardo V convidou Dona Eduarda a subir no palco e acessar o palanque ao lado dele.
- A palavra é sua, Dona Eduarda – ele disse.
- Boa tarde – ela disse, com seu sotaque característico da sua região. Meu nome é Eduarda das Neves, moro em Cavalcante, município do Estado de Goiás, em assentamento com mais vinte e três famílias, perto da comunidade kalunga. Vivemos ali por um tempo com muito pouca água, depois instalaram pra nós uma irrigação que precisava pagar pela energia, depois nós fizemos um sistema por gravidade com ajuda de uns engenheiros que moram por lá. Hoje temos água e energia. Temos a tele-multi-mídia e as redes, tratamos da nossa água, cada lote de terra, cada residência paga por sua luz e energia ao nosso condomínio. Nossa associação paga pelo acesso à água que é canalizada, paga pela luz, pela eletricidade. Temos bateria solar também, temos desses cata-ventos que também geram energia, temos uma fábrica de utensílios pra nossa lavoura, temos bons equipamentos de aragem. Temos um contrato pra vender nossa produção no comércio local, temos de um tudo por lá.
- Não falta nada, então? – perguntou alguém, com alguma ironia.
- Respeito. O que falta por lá é respeito.
- Da parte de quem? – quis saber o General.
- Tão fazendo pouco da nossa inteligência. Qualquer pessoa acessa qualquer das duas redes, lê os noticiários que chegam em papel, vê as notícias na tele-multi-mídia e é tudo igual. Tudo repetido, e parecem que querem alegrar a gente ou então entristecer, como se nós fôssemos idiotas. Nós temos escola, temos livros, temos tudo que a cidade tem.
- As cidades também estão em silêncio e sem acessar nem as redes nem a tele-multi-mídia – explicou Sérgia.
- Ninguém agüenta mais. Depois não dá pra entender como é que ainda tem tanto pobre no Brasil, muita coisa já evoluiu, eu tô com sessenta e cinco anos, já vi foi coisa. Aí os políticos visita nós, às vezes vão lá, outras vezes aparecem de repente na tele-multi-mídia, nos mandam mensagem com a cara deles nas telas de bolso e de mesa, no banheiro, na sala, no quarto, na lavoura, e dizem sempre a mesma coisa, tudo falando empolado, tudo agora tem diploma e nós também tem, tudo é profissional, treinado, e ainda tem muita miséria no Brasil, tá errado, não é justo nem é certo nem inteligente.
- O que que a senhora pensa dos índios? – perguntou o Presidente da República.
- Dos índios? Onde eu moro não tem.
- Posso falar? – ofereceu-se Rita, levantando-se.
3.27.2006
O QUE VOCÊ QUER LER?
Mas afinal, o que é que você gostaria de ler?
Da minha parte, li que a candidatura da oposição já nasce com suspeitas de favorecimento de verbas para aliados e que a da situação, enquanto permanecer no cargo, trocará de ministros, tanto os que pretendem se candidatar a cargos eletivos como aquele sobre cuja cabeça pairam tantas suspeitas e acusações.
Li que o tráfico modernizou-se, lançou a cota extra gratuita, de prêmio, disponível a cada dez compras.
Que há mares antes navegáveis e agora, intragáveis.
De um ator de novelas que está fazendo novela que diz ter-se cansado de fazer novela; perguntassem a ele, Você já pensou em quem as assiste?
Quebraram o sigilo bancário de um caseiro! Essa, sim, deveria ser a manchete do ano.
Consta da capa de uma revista que uma cantora afirma e pergunta, Sou bi, e daí? Pois é: e daí? Mais precisamente: e nós com isso? Se ela pelo menos cantasse – houve um tempo em que cantoras cantavam! Não é fantástico?
Saudosismo? Nada disso. Sentir saudades é mirar do alto de calças curtas botas de cano longo, marchando no meio da cidade. Parece que foi ontem – e foi: as tropas saíram por aí PDV porque lhes roubaram as armas debaixo dos narizes. Caramba! Parece que foi sempre.
À procura de um tema capaz de responder à pergunta lá de cima – única realmente importante para esses dedos que vão pintando de preto uma tela em branco, tolas teclas ritmadas ao invés de poéticos pincéis ou nanquins ou grafites, tela que se desfará depois em mudo e inexpressivo cinza e não uma capaz de fixar os dedos de Diego Rivera ou a multifacetada sua mulher Frida Callo -, passei por um quarto de dormir onde de fato dormia alguém, uma menina de doze anos, com um sorriso nos lábios, metade do seu rosto na penumbra, metade clareada por uma nesga de sol que penetrou pela janela sem pedir licença. Não sei se era isso que você queria ler – provavelmente não –, mas era isso o que se tinha a dizer. Mais: era isso que se tinha de dizer.
Por escrito.
Da minha parte, li que a candidatura da oposição já nasce com suspeitas de favorecimento de verbas para aliados e que a da situação, enquanto permanecer no cargo, trocará de ministros, tanto os que pretendem se candidatar a cargos eletivos como aquele sobre cuja cabeça pairam tantas suspeitas e acusações.
Li que o tráfico modernizou-se, lançou a cota extra gratuita, de prêmio, disponível a cada dez compras.
Que há mares antes navegáveis e agora, intragáveis.
De um ator de novelas que está fazendo novela que diz ter-se cansado de fazer novela; perguntassem a ele, Você já pensou em quem as assiste?
Quebraram o sigilo bancário de um caseiro! Essa, sim, deveria ser a manchete do ano.
Consta da capa de uma revista que uma cantora afirma e pergunta, Sou bi, e daí? Pois é: e daí? Mais precisamente: e nós com isso? Se ela pelo menos cantasse – houve um tempo em que cantoras cantavam! Não é fantástico?
Saudosismo? Nada disso. Sentir saudades é mirar do alto de calças curtas botas de cano longo, marchando no meio da cidade. Parece que foi ontem – e foi: as tropas saíram por aí PDV porque lhes roubaram as armas debaixo dos narizes. Caramba! Parece que foi sempre.
À procura de um tema capaz de responder à pergunta lá de cima – única realmente importante para esses dedos que vão pintando de preto uma tela em branco, tolas teclas ritmadas ao invés de poéticos pincéis ou nanquins ou grafites, tela que se desfará depois em mudo e inexpressivo cinza e não uma capaz de fixar os dedos de Diego Rivera ou a multifacetada sua mulher Frida Callo -, passei por um quarto de dormir onde de fato dormia alguém, uma menina de doze anos, com um sorriso nos lábios, metade do seu rosto na penumbra, metade clareada por uma nesga de sol que penetrou pela janela sem pedir licença. Não sei se era isso que você queria ler – provavelmente não –, mas era isso o que se tinha a dizer. Mais: era isso que se tinha de dizer.
Por escrito.
3.25.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- QUATRO –
De nada adiantou que o país fosse auto-suficiente em petróleo a partir de 2010, por causa da bem explorada capacidade do sub-solo “on” e “off-shore”, do uso massivo do álcool nos automóveis e da expansão da biomassa na energia elétrica: foi em 2010 que manifestou-se a desorganizada e perigosa convulsão social, que saiu pipocando pelas cinco regiões geopolíticas do Brasil de maneira pavorosa. Ainda era o país da concentração de renda, fosse nos períodos de crescimento, mais ainda nos de contenção.
Agora era diferente. Em 2017, ninguém explicitava seus anseios e frustrações. Ninguém sequer cruzava os braços, muito menos os que perderam seus trabalhos por força do boicote coletivo aos meios de comunicação e à política. Uma proposta de governo militar, “saneador”, foi recebida do mesmo modo: ao invés de indignação e palavras de ordem ou acolhedora aclamação, silêncio. Foi quando o presidente da república, em conversa com o General Fernando, que fora convidado para apaziguar os ânimos das tropas em regime, foi por este convencido a convocar homens de letras, sociologia e antropologia (dentre eles, Ricardo V e sua mãe, Sérgia), matemáticos e físicos, (estarrecidos) políticos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, (desesperados) profissionais de comunicação e reportagens, empresários e sindicalistas. Formou-se um fórum de setenta e oito pessoas, reunidas no palácio de governo, em Brasília - fato este que foi noticiado, para audiência alguma.
Daquele seleto grupo, onde a presença de mãe e filho – Sérgia e Ricardo V – só não era espantosa porque, ela, há muito defendia o ponto de vista de que a raiz dos problemas era a cultural e enraizada exclusão e má-distribuição da renda, ele, por ter ensaiado algo de parecido com o que estava ocorrendo, em livro que se tornara best-seller, 55% eram homens, 45% mulheres, dos quais, 15% homo ou bissexuais; 58% mestiços e os restantes 42% predominantemente negros ou brancos em, praticamente, igual proporção – o que não ocorria relativamente à distribuição geográfica: região a região, havia mais paulistas, sulistas, nordestinos e radicados ou nascidos no centro-oeste que cariocas e nortistas.
Depois de algumas horas, surgiu, afinal, uma lista de pontos de consenso:
As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. Programas de entretenimento das massas haviam chegado ao auge da banalização ou mesmo da boçalidade;
A política, por mais esforços que tivessem havido para torná-la o mais transparente possível referentemente à obtenção de recursos e à sua utilização, caíra em terreno tão árido quanto o que estavam experimentando as comunicações;
Era preciso de uma vez por todas haver uma definição da causa indígena: criar uma nação independente, fomentada pelos países interessados na medida – o que causava tenebroso mal estar em alguns setores, como o militar – a Nação Xingu era o exemplo mais citado -, manter as reservas como se encontravam, sabendo de antemão que as verbas públicas para tanto pareciam ser eternamente insuficientes, órgãos indigienistas dando a impressão de abandono, seus escritórios, até de falta de higiene, ou aculturar e absorver de vez os silvícolas remanescentes na sociedade cidadã - o que era duramente combatido por ONGs, governos nacionais e internacionais ou quem quer que se apresentasse disposto a abraçar a causa que fosse e onde fosse;
Ações do Ministério Público, do Governo e do Judiciário em suas outras esferas para punição, anistia parcial e repatriamento de capital transferido para o exterior por brasileiros, abastados ou agraciados (lícita e ilicitamente) mas descontentes com a tributação e respectiva utilização em solo pátrio, de forma ilícita (ainda que tacitamente aceita como usual e correta) não eram percebidas pela população, ou, se o eram, era nada capaz de causar emoção ou contentamento – nada parecia mais despertar ufanismo, desejado por muitos como algo a deixar perceber satisfação patriótica, nem mesmo o velho futebol;
A concentração de renda ainda persistia, embora a fome e o analfabetismo tivessem atingido níveis bastante baixos frente aos padrões da história do Brasil;
A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso, o que significava que existiam lares de chão de barro e/ou telhado de palha e/ou parede de adobe no Brasil e mundo afora, onde a tele-multi-mídia exibia toda sua exuberância, nas paredes e bolsos e mesas.
Foi neste momento, quando a lista de pontos de consenso foi concluída, que chegou Ricardo V, acompanhado de duas mulheres: sua mulher, Rita; e Dona Eduarda - até então, ilustre desconhecida. Ele foi recebido com alguns aplausos e expressões entre a recriminação e a estranheza pelo seu atraso; as duas, como se fossem penetras de uma festa para a qual sua presença não havia sido nem muito remotamente cogitada.
Gelidamente.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- QUATRO –
De nada adiantou que o país fosse auto-suficiente em petróleo a partir de 2010, por causa da bem explorada capacidade do sub-solo “on” e “off-shore”, do uso massivo do álcool nos automóveis e da expansão da biomassa na energia elétrica: foi em 2010 que manifestou-se a desorganizada e perigosa convulsão social, que saiu pipocando pelas cinco regiões geopolíticas do Brasil de maneira pavorosa. Ainda era o país da concentração de renda, fosse nos períodos de crescimento, mais ainda nos de contenção.
Agora era diferente. Em 2017, ninguém explicitava seus anseios e frustrações. Ninguém sequer cruzava os braços, muito menos os que perderam seus trabalhos por força do boicote coletivo aos meios de comunicação e à política. Uma proposta de governo militar, “saneador”, foi recebida do mesmo modo: ao invés de indignação e palavras de ordem ou acolhedora aclamação, silêncio. Foi quando o presidente da república, em conversa com o General Fernando, que fora convidado para apaziguar os ânimos das tropas em regime, foi por este convencido a convocar homens de letras, sociologia e antropologia (dentre eles, Ricardo V e sua mãe, Sérgia), matemáticos e físicos, (estarrecidos) políticos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, (desesperados) profissionais de comunicação e reportagens, empresários e sindicalistas. Formou-se um fórum de setenta e oito pessoas, reunidas no palácio de governo, em Brasília - fato este que foi noticiado, para audiência alguma.
Daquele seleto grupo, onde a presença de mãe e filho – Sérgia e Ricardo V – só não era espantosa porque, ela, há muito defendia o ponto de vista de que a raiz dos problemas era a cultural e enraizada exclusão e má-distribuição da renda, ele, por ter ensaiado algo de parecido com o que estava ocorrendo, em livro que se tornara best-seller, 55% eram homens, 45% mulheres, dos quais, 15% homo ou bissexuais; 58% mestiços e os restantes 42% predominantemente negros ou brancos em, praticamente, igual proporção – o que não ocorria relativamente à distribuição geográfica: região a região, havia mais paulistas, sulistas, nordestinos e radicados ou nascidos no centro-oeste que cariocas e nortistas.
Depois de algumas horas, surgiu, afinal, uma lista de pontos de consenso:
As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. Programas de entretenimento das massas haviam chegado ao auge da banalização ou mesmo da boçalidade;
A política, por mais esforços que tivessem havido para torná-la o mais transparente possível referentemente à obtenção de recursos e à sua utilização, caíra em terreno tão árido quanto o que estavam experimentando as comunicações;
Era preciso de uma vez por todas haver uma definição da causa indígena: criar uma nação independente, fomentada pelos países interessados na medida – o que causava tenebroso mal estar em alguns setores, como o militar – a Nação Xingu era o exemplo mais citado -, manter as reservas como se encontravam, sabendo de antemão que as verbas públicas para tanto pareciam ser eternamente insuficientes, órgãos indigienistas dando a impressão de abandono, seus escritórios, até de falta de higiene, ou aculturar e absorver de vez os silvícolas remanescentes na sociedade cidadã - o que era duramente combatido por ONGs, governos nacionais e internacionais ou quem quer que se apresentasse disposto a abraçar a causa que fosse e onde fosse;
Ações do Ministério Público, do Governo e do Judiciário em suas outras esferas para punição, anistia parcial e repatriamento de capital transferido para o exterior por brasileiros, abastados ou agraciados (lícita e ilicitamente) mas descontentes com a tributação e respectiva utilização em solo pátrio, de forma ilícita (ainda que tacitamente aceita como usual e correta) não eram percebidas pela população, ou, se o eram, era nada capaz de causar emoção ou contentamento – nada parecia mais despertar ufanismo, desejado por muitos como algo a deixar perceber satisfação patriótica, nem mesmo o velho futebol;
A concentração de renda ainda persistia, embora a fome e o analfabetismo tivessem atingido níveis bastante baixos frente aos padrões da história do Brasil;
A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso, o que significava que existiam lares de chão de barro e/ou telhado de palha e/ou parede de adobe no Brasil e mundo afora, onde a tele-multi-mídia exibia toda sua exuberância, nas paredes e bolsos e mesas.
Foi neste momento, quando a lista de pontos de consenso foi concluída, que chegou Ricardo V, acompanhado de duas mulheres: sua mulher, Rita; e Dona Eduarda - até então, ilustre desconhecida. Ele foi recebido com alguns aplausos e expressões entre a recriminação e a estranheza pelo seu atraso; as duas, como se fossem penetras de uma festa para a qual sua presença não havia sido nem muito remotamente cogitada.
Gelidamente.
3.21.2006
O OLHO IMITA A LENTE OU A LENTE IMITA O OLHO
Às vezes se está em algum lugar alegre, cheio de gente em volta. Conversa-se com alguém, sem intimidade, os assuntos vão surgindo e, de repente, a conversa se esvai, muda-se de lugar. Há uma outra pessoa que roubou sua conversa, que monopolizou quem conversava antes com você – que ficou só, na cabeceira da mesa do bar, sem ouvir direito o que os dois conversam. De vez em quando você olha para os outros que estão compartilhando a mesma mesa. E você mira a cena, olha em perspectiva os olhares, trejeitos, quem fuma e quem rói as unhas, quem sente uma súbita e irresistível coceira. Uma gargalhada.
Você volta a perceber os dois que estão próximos, um de cada lado, você, na cabeceira. A conversa segue aos sussurros, você tem vontade de propor uma troca de lugar, há alguém interessante do lado de um deles, mas eles não param de sussurrar, não lhe dão chance de fazer nenhuma proposta. Quer intervir, participar, mas acha que não fica bem. Pensa em ir para o outro lado da mesa, mudar de cadeira, mas as outras conversas parecem estar tão íntimas e exclusivas quanto esta que está tão perto de você – que fica parado, não consegue mais se mexer, não tem oportunidade de se expressar, só pode observar. Nem o garçom se aproxima para lhe salvar. Aliás, agora lhe deu uma sede tremenda, onde uma cerveja?, pelo amor de Deus!, agora uma fome súbita, irresistível.
A conversa dos dois de repente íntimos e exclusivistas se torna um pouco mais clara aos seus ouvidos, você entende perfeitamente o que eles dizem, e eles falam em Francês. Todos falam Francês, e você, não. E daí? Se falassem Português, a sensação seria exatamente a mesma. Inglês, e nada mudaria.
Você vai ao banheiro. Quando volta, a cena permanece a mesma. Quem fumava com mistura de sofrimento e graça continua fazendo a mesma coisa: sim com a cabeça, um sorriso soprando fumaça para baixo, olhares sonhadores. Quem ruía unha agora penteia e despenteia os cabelos com os dedos longos. A coceira de quem se coçava já não é mais súbita; fica indo e vindo, em movimentos agora vagarosos. Os dois mais próximos da sua mesa continuam sussurrando.
Você filma; e mais nada. Filma com os olhos, a imagem ficará somente em sua memória, na de mais ninguém.
Num instante, a imagem passa a se modificar ao seu gosto, sem nenhum comando ou movimento. Você gosta dos olhares, do ambiente ligeiramente enfumaçado, logo você, que não fuma e tem alergia. Percebe o Francês falado sussurrado aos seus ouvidos e sem tocá-los, tem vontade de comentar, fica mudo, distorce as palavras para si a seu gosto. Alguém pede a conta e paga; era isso o que você queria.
Parabéns, diretor.
Você volta a perceber os dois que estão próximos, um de cada lado, você, na cabeceira. A conversa segue aos sussurros, você tem vontade de propor uma troca de lugar, há alguém interessante do lado de um deles, mas eles não param de sussurrar, não lhe dão chance de fazer nenhuma proposta. Quer intervir, participar, mas acha que não fica bem. Pensa em ir para o outro lado da mesa, mudar de cadeira, mas as outras conversas parecem estar tão íntimas e exclusivas quanto esta que está tão perto de você – que fica parado, não consegue mais se mexer, não tem oportunidade de se expressar, só pode observar. Nem o garçom se aproxima para lhe salvar. Aliás, agora lhe deu uma sede tremenda, onde uma cerveja?, pelo amor de Deus!, agora uma fome súbita, irresistível.
A conversa dos dois de repente íntimos e exclusivistas se torna um pouco mais clara aos seus ouvidos, você entende perfeitamente o que eles dizem, e eles falam em Francês. Todos falam Francês, e você, não. E daí? Se falassem Português, a sensação seria exatamente a mesma. Inglês, e nada mudaria.
Você vai ao banheiro. Quando volta, a cena permanece a mesma. Quem fumava com mistura de sofrimento e graça continua fazendo a mesma coisa: sim com a cabeça, um sorriso soprando fumaça para baixo, olhares sonhadores. Quem ruía unha agora penteia e despenteia os cabelos com os dedos longos. A coceira de quem se coçava já não é mais súbita; fica indo e vindo, em movimentos agora vagarosos. Os dois mais próximos da sua mesa continuam sussurrando.
Você filma; e mais nada. Filma com os olhos, a imagem ficará somente em sua memória, na de mais ninguém.
Num instante, a imagem passa a se modificar ao seu gosto, sem nenhum comando ou movimento. Você gosta dos olhares, do ambiente ligeiramente enfumaçado, logo você, que não fuma e tem alergia. Percebe o Francês falado sussurrado aos seus ouvidos e sem tocá-los, tem vontade de comentar, fica mudo, distorce as palavras para si a seu gosto. Alguém pede a conta e paga; era isso o que você queria.
Parabéns, diretor.
3.17.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- TRÊS –
Aquele movimento sem nome e sem rosto provocou um retrocesso no tempo: mídia e seus anunciantes foram para as ruas distribuir panfletos oferecendo programações e produtos, em pleníssima era das ultra-telecomunicações, televendas, tudo tele - longe, tecnológico, impessoal.
O Exército mobilizou-se; sem saber contra quem. As tropas estavam lá, nas ruas. Depois, foi a vez da Marinha: mares de frente para as praias tratadas para manter a poluição em níveis aceitáveis, com suas porções reservadas à geração de energia e à sua conversão em água para consumo, além de suas reservas para assinantes, passaram a vir boiarem sobre si embarcações circunspetas, nada esportivas, até agressivas, desde que assim decidissem ser vistas. Jetsons militares passaram a sobrevoar todo o território brasileiro, além de equipamentos bem mais aparelhados e específicos, ruidosos ou não, dos maiores aos menores.
Depois de décadas apregoando que todo e qualquer empregado de toda e qualquer empresa era, antes de tudo, um vendedor, as empresas mantinham seus departamentos de vendas, ainda que com os mais variados nomes. Isso somado àquela onda de silêncio – que, na verdade, se baseava, antes de tudo, sem que se soubesse ainda porque, no absenteísmo do acesso aos veículos de comunicação de massa e de intercomunicação – causou a demissão de quem trabalhava diretamente em vendas. Os demais – vendedores acessórios, por assim dizer – mantinham suas atividades, inclusive a de tentar descobrir o que estava acontecendo e o que fazer para projetar o futuro. Mas todos faziam parte do dito movimento sem rosto e sem nome.
Naquele momento, Cidade do México e Minaçu pareciam-se imensamente – na distância do mar, no ar seco, no aspecto indígena de suas populações, e o mais espantoso: no silêncio.
Nova Iorque era silenciosa, como o era – e sempre foi – a população de Pequim.
Copenhague era diferente, porque sempre o foi; mas a semelhança para leigos desavisados dos trajes de algumas de suas louras com os de algumas louras norte-americanas não-nova-iorquinas – não só trajes, mas posturas, maneira de se expressar – acentuava-se.
E os que distribuíam arcaicos panfletos de propaganda, implorando para que todos voltassem a sintonizar redes, toda a imensa e multifuncional conexão ultra-multi-mídia disponível, também faziam parte; seu corpo a corpo era silencioso, embora sorridente.
E era só no Brasil – mas começava a incomodar o mundo.
E a sensação de desconexão foi maior. Depoimentos dos líderes mais importantes da China e dos Estados Unidos bem o demonstraram. Toda aquela momentânea mas duradoura desconexão já traziam, mais que desconforto, evidentemente, prejuízo.
Todas as marchas de protesto que percorreram tão especialmente o Século XX e, já bastante conhecidas na forma e nem tanto em intenção, na primeira década do XXI, passaram a contrastar com aquele espetáculo de indivíduos propondo que fossem aceitos pelos passantes panfletos de papel pelas ruas de cidades grandes e muitas outras de outros portes do Brasil.
Tudo isso, como se sabe, aconteceu há somente três anos. Um batismo do que ocorria ficou gravado na memória de dois amigos. Em conversa ligeiramente embriagada do General Fernando com seu amigo Almir, ambos da reserva (militares aposentados), em uma noite no apartamento do General, este, que geralmente não veste nem pijamas nem qualquer outra roupa quando está em casa, e que houve por bem manter-se vestido naquela noite de uisquinhos, disse assim a Almir:
- É a Revolução do Silêncio.
Em seguida, Almir pensou em silêncio alguma coisa genial de que jamais conseguiu se lembrar, a empregada bocejou e deu boa noite e retirou-se e Almir resolveu despedir-se também e foi para sua casa, a pé, sem medo, com muito sono.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- TRÊS –
Aquele movimento sem nome e sem rosto provocou um retrocesso no tempo: mídia e seus anunciantes foram para as ruas distribuir panfletos oferecendo programações e produtos, em pleníssima era das ultra-telecomunicações, televendas, tudo tele - longe, tecnológico, impessoal.
O Exército mobilizou-se; sem saber contra quem. As tropas estavam lá, nas ruas. Depois, foi a vez da Marinha: mares de frente para as praias tratadas para manter a poluição em níveis aceitáveis, com suas porções reservadas à geração de energia e à sua conversão em água para consumo, além de suas reservas para assinantes, passaram a vir boiarem sobre si embarcações circunspetas, nada esportivas, até agressivas, desde que assim decidissem ser vistas. Jetsons militares passaram a sobrevoar todo o território brasileiro, além de equipamentos bem mais aparelhados e específicos, ruidosos ou não, dos maiores aos menores.
Depois de décadas apregoando que todo e qualquer empregado de toda e qualquer empresa era, antes de tudo, um vendedor, as empresas mantinham seus departamentos de vendas, ainda que com os mais variados nomes. Isso somado àquela onda de silêncio – que, na verdade, se baseava, antes de tudo, sem que se soubesse ainda porque, no absenteísmo do acesso aos veículos de comunicação de massa e de intercomunicação – causou a demissão de quem trabalhava diretamente em vendas. Os demais – vendedores acessórios, por assim dizer – mantinham suas atividades, inclusive a de tentar descobrir o que estava acontecendo e o que fazer para projetar o futuro. Mas todos faziam parte do dito movimento sem rosto e sem nome.
Naquele momento, Cidade do México e Minaçu pareciam-se imensamente – na distância do mar, no ar seco, no aspecto indígena de suas populações, e o mais espantoso: no silêncio.
Nova Iorque era silenciosa, como o era – e sempre foi – a população de Pequim.
Copenhague era diferente, porque sempre o foi; mas a semelhança para leigos desavisados dos trajes de algumas de suas louras com os de algumas louras norte-americanas não-nova-iorquinas – não só trajes, mas posturas, maneira de se expressar – acentuava-se.
E os que distribuíam arcaicos panfletos de propaganda, implorando para que todos voltassem a sintonizar redes, toda a imensa e multifuncional conexão ultra-multi-mídia disponível, também faziam parte; seu corpo a corpo era silencioso, embora sorridente.
E era só no Brasil – mas começava a incomodar o mundo.
E a sensação de desconexão foi maior. Depoimentos dos líderes mais importantes da China e dos Estados Unidos bem o demonstraram. Toda aquela momentânea mas duradoura desconexão já traziam, mais que desconforto, evidentemente, prejuízo.
Todas as marchas de protesto que percorreram tão especialmente o Século XX e, já bastante conhecidas na forma e nem tanto em intenção, na primeira década do XXI, passaram a contrastar com aquele espetáculo de indivíduos propondo que fossem aceitos pelos passantes panfletos de papel pelas ruas de cidades grandes e muitas outras de outros portes do Brasil.
Tudo isso, como se sabe, aconteceu há somente três anos. Um batismo do que ocorria ficou gravado na memória de dois amigos. Em conversa ligeiramente embriagada do General Fernando com seu amigo Almir, ambos da reserva (militares aposentados), em uma noite no apartamento do General, este, que geralmente não veste nem pijamas nem qualquer outra roupa quando está em casa, e que houve por bem manter-se vestido naquela noite de uisquinhos, disse assim a Almir:
- É a Revolução do Silêncio.
Em seguida, Almir pensou em silêncio alguma coisa genial de que jamais conseguiu se lembrar, a empregada bocejou e deu boa noite e retirou-se e Almir resolveu despedir-se também e foi para sua casa, a pé, sem medo, com muito sono.
3.13.2006
CUCARACHA
(PARA TERÇA, 14 DE MARÇO DE 2006.)
“Cucaracha / vou-me embora lavar prato nos states / logo agora / que eu me vejo tão somente coração / logo agora / que a orquestra toca essa do Roberto / que eu me vejo baterista rindo à toa / nos teus braços, um artista / logo agora” (de uma canção em parceria com Tião Coelho, engenheiro e compositor).
O Brasil é um país onde um documento dentro de seu prazo de validade não vale. Isso mesmo: se seu passaporte está com menos de seis meses para expirar sua validade, vá à Polícia Federal e não dê queixa nem se queixe, não: tire outro – pois, com o seu atual, você sequer consegue embarcar, para qualquer que seja o país para onde você precisa ou deseja ir.
Para ir ao México, agora, é exigido visto. Claro: virou moda ir pra lá para se juntar a mexicanos desesperados e cruzar a fronteira para o Grande Irmão do Norte. Fizeram uma novela no ano passado sobre o tema, não foi?
E assim vamos nós, brasileiros, mantendo-nos com fama de ilegais, indo embora pros states para trabalhar em atividades que os americanos já não querem mais pra eles. Vamos lá, macacada, virar cucaracha.
Vistos para os Estados Unidos já são negados até para profissionais de nível superior devida e comprovadamente empregados no Brasil, que gostariam somente de visitar Disney World ou Nova Iorque - porque nós não merecemos crédito.
E não adianta dar desculpas, justificativas, explicar que o Brasil não oferece empregos, que é preciso ir para os states lavar pratos porque lá eles pagam em dólar. Fato é que, lá, a classe um dia ou ainda média brasileira não se envergonha de fazer trabalho subalterno, coisas que aqui não quer fazer nem jamais faria, imagina, lavar pratos. Nem pensar em tentar mudar de cidade no próprio Brasil, para buscar um emprego de acordo com suas aptidões, pois “Nova Iorque é aqui / Nova Iorque é ali / Nova Iorque é mais perto que o sertão” (canção de Sá e Guarabira). Cobrar do governo, protestar, exigir redução da carga tributária, eficiência, probidade, tudo mais que gere emprego, ora, nada disso é brasileiro. Melhor passar vergonha lá fora, ser tratado como sub-raça – mas é lá, nos states. “Fazer a América”. Vale para a classe dita média como para a pobre, tanto faz: já é mais uma tradição brasileira entrar e permanecer ilegalmente nos Estados Unidos, até que venha a extradição ou o “paraíso”: o green-card.
Não há governo que dê conta disso, porque essa já deixou de ser questão meramente pecuniária ou de arranjar emprego, ou ainda de dar vazão a um imaginário e romântico instinto aventureiro. Não é aventura jogar carreiras e estudo fora, desistir da própria terra para competir com desgraçados e desgraçadas de outros países, “para aprender Inglês”, “para juntar dinheiro”, “lá é que é país”.
Nem nossos passaportes merecem mais crédito se não estiverem válidos por longo prazo. Caramba!
Não há governo que dê conta, porque não há governo que não seja parecido com seu povo. O político é Deus: ele está no meio de nós. O político é um de nós. Ou melhoramos nós ou nossos políticos permanecerão corruptos, muitos, envergonhados, poucos, ineficientes, vários, indecentes, mais alguns, despreparados, mais ainda, arrogantes, a dar com o pau, covardes, a grande maioria. Ou continuemos a tapar o sol com a peneira, a deixar pra lá, tudo bem, very good, é isso aí, my friend, podes crer, brother, a Califórnia é diferente, irmão, é muito mais do que um sonho: é o pesadelo da discriminação, do faz de conta pros que estão no Brasil que estamos bem pra caramba e não escondidos nas sombras dos nativos, Jimmis, Edwards, Johns, Joes, Marys, Sarahs, Debis, Lailas, babando pelo dinheiro deles, o idioma deles, o que é deles é que é bom, um dia eu volto, rico, pro Brasil, vocês vão ver. Discriminado aqui, ora, discriminado lá - há quem pense assim, quem sonhe assim, quem faça assim; é assim – e pronto. Acabou-se. Tudo por dinheiro – é esse o tempo; é esse o país: Brasil.
O risco Brasil despencou, ultimamente – é o que dizem os noticiários; é o que divulgam as agências que avaliam o risco de se investir neste ou naquele país.
Sim, o risco Brasil caiu. O risco Brasileiro, não.
“Cucaracha / vou-me embora lavar prato nos states / logo agora / que eu me vejo tão somente coração / logo agora / que a orquestra toca essa do Roberto / que eu me vejo baterista rindo à toa / nos teus braços, um artista / logo agora” (de uma canção em parceria com Tião Coelho, engenheiro e compositor).
O Brasil é um país onde um documento dentro de seu prazo de validade não vale. Isso mesmo: se seu passaporte está com menos de seis meses para expirar sua validade, vá à Polícia Federal e não dê queixa nem se queixe, não: tire outro – pois, com o seu atual, você sequer consegue embarcar, para qualquer que seja o país para onde você precisa ou deseja ir.
Para ir ao México, agora, é exigido visto. Claro: virou moda ir pra lá para se juntar a mexicanos desesperados e cruzar a fronteira para o Grande Irmão do Norte. Fizeram uma novela no ano passado sobre o tema, não foi?
E assim vamos nós, brasileiros, mantendo-nos com fama de ilegais, indo embora pros states para trabalhar em atividades que os americanos já não querem mais pra eles. Vamos lá, macacada, virar cucaracha.
Vistos para os Estados Unidos já são negados até para profissionais de nível superior devida e comprovadamente empregados no Brasil, que gostariam somente de visitar Disney World ou Nova Iorque - porque nós não merecemos crédito.
E não adianta dar desculpas, justificativas, explicar que o Brasil não oferece empregos, que é preciso ir para os states lavar pratos porque lá eles pagam em dólar. Fato é que, lá, a classe um dia ou ainda média brasileira não se envergonha de fazer trabalho subalterno, coisas que aqui não quer fazer nem jamais faria, imagina, lavar pratos. Nem pensar em tentar mudar de cidade no próprio Brasil, para buscar um emprego de acordo com suas aptidões, pois “Nova Iorque é aqui / Nova Iorque é ali / Nova Iorque é mais perto que o sertão” (canção de Sá e Guarabira). Cobrar do governo, protestar, exigir redução da carga tributária, eficiência, probidade, tudo mais que gere emprego, ora, nada disso é brasileiro. Melhor passar vergonha lá fora, ser tratado como sub-raça – mas é lá, nos states. “Fazer a América”. Vale para a classe dita média como para a pobre, tanto faz: já é mais uma tradição brasileira entrar e permanecer ilegalmente nos Estados Unidos, até que venha a extradição ou o “paraíso”: o green-card.
Não há governo que dê conta disso, porque essa já deixou de ser questão meramente pecuniária ou de arranjar emprego, ou ainda de dar vazão a um imaginário e romântico instinto aventureiro. Não é aventura jogar carreiras e estudo fora, desistir da própria terra para competir com desgraçados e desgraçadas de outros países, “para aprender Inglês”, “para juntar dinheiro”, “lá é que é país”.
Nem nossos passaportes merecem mais crédito se não estiverem válidos por longo prazo. Caramba!
Não há governo que dê conta, porque não há governo que não seja parecido com seu povo. O político é Deus: ele está no meio de nós. O político é um de nós. Ou melhoramos nós ou nossos políticos permanecerão corruptos, muitos, envergonhados, poucos, ineficientes, vários, indecentes, mais alguns, despreparados, mais ainda, arrogantes, a dar com o pau, covardes, a grande maioria. Ou continuemos a tapar o sol com a peneira, a deixar pra lá, tudo bem, very good, é isso aí, my friend, podes crer, brother, a Califórnia é diferente, irmão, é muito mais do que um sonho: é o pesadelo da discriminação, do faz de conta pros que estão no Brasil que estamos bem pra caramba e não escondidos nas sombras dos nativos, Jimmis, Edwards, Johns, Joes, Marys, Sarahs, Debis, Lailas, babando pelo dinheiro deles, o idioma deles, o que é deles é que é bom, um dia eu volto, rico, pro Brasil, vocês vão ver. Discriminado aqui, ora, discriminado lá - há quem pense assim, quem sonhe assim, quem faça assim; é assim – e pronto. Acabou-se. Tudo por dinheiro – é esse o tempo; é esse o país: Brasil.
O risco Brasil despencou, ultimamente – é o que dizem os noticiários; é o que divulgam as agências que avaliam o risco de se investir neste ou naquele país.
Sim, o risco Brasil caiu. O risco Brasileiro, não.
3.11.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- DOIS –
Ricardo V sorveu prazerosamente uns bons goles da cerveja gelada, na varanda da sua casa, de frente para a piscina. Vinha revezando esse novo prazer com as viagens ao Rio, Orlando, Irlanda e Escócia, seus escritos e longas caminhadas, com direito a acampamento, em companhia de Rita e do filho Ricardo VI, pelas trilhas na Chapada dos Veadeiros, suas matas e cachoeiras. Ricardo VI estava com 14 anos e Rita, esplendorosa: o bronzeado produzido pelo sol filtrado pelas matas fazia um belo contraste com seus cabelos ruivos, escondendo um pouco suas sardas, deixando delas somente uma sombrinha graciosa; suas pernas e a barriga geralmente expostas pareciam agradecer ao exercício oferecido pelas trilhas. Mais ainda, Rita vivia fase de grande vivacidade mental; voltara a pesquisar índios e demais raças que habitavam aquele Brasil de 2017 e comparava-os, sem qualquer compromisso científico – muito pelo contrário – com os celtas e suas tradições ainda existentes na Irlanda, Escócia e Galícia. Raças que, no seu entender, teimavam por resistir e continuar a existir, mesmo que vivendo longos períodos das mais diversas formas de submissão.
Numa daquelas caminhadas, deram com a comunidade descrita havia sete anos pelo então Coronel Fernando, sem travar qualquer contato além de cumprimentos amistosos e silenciosos, pois perceberam que se agissem diferente o resultado teria sido igual: o mesmo silêncio observador.
Ricardo V deixou a cerveja de lado, espreguiçou-se, deu um mergulho e deixou mulher e filho na piscina, para tomar um banho e sair de carro. Visitou um dos diversos assentamentos coletivos da região rural e percebeu quase que o mesmo silêncio da “comunidade do General”, como haviam se habituado a chamar os silenciosos da chapada. Tentou puxar conversa com um dos agricultores – um dos mais ativos, produtivos, alguém que soube aproveitar a oportunidade de receber um lote de terra e treinamento para o explorar, e que conseguira obter para o assentamento um bom sistema de logística para entrega de insumos e escoamento da produção, superando exemplarmente a cultura de subsistência -, e só recebeu em troca um amigável sorriso. Tentou novamente: futebol, um sorriso; política, uma cara amarrada, foi o que conseguiu em troca.
Foi até uma bêbada contumaz. Como vai, Dona Zeza, tudo bem com a senhora? Ela levantou o rosto na direção dele, sorriu, fixou seu olhar do de Ricardo V, baixou os olhos e tirou mais um trago do gargalo da garrafa de cachaça. Ele sentiu-se um idiota, debaixo daquele sol estonteante como sempre e pensou em voltar para casa, para sua piscina.
Ou para seus escritos? Ou ao telefone ou à rede – para uma conversa com o General?
Caminhou um pouco mais, entrou no carro e dirigiu até um bar no centro da cidade. Lá, encontrou conversa; pediu um chope, que bebeu de um gole só e foi para casa, um pouco mais satisfeito. Mas intrigado; e atordoado. Sol demais, cerveja demais para sua parca experiência como bebedor, comida de menos, conversa pouca, silêncio demais na zona rural. Lembrou-se de 2006, do Movimento dos Sem Terra, da sua invasão ao laboratório rural de uma multinacional de papel e celulose. 20 anos de pesquisa destruídos por algumas mulheres pobres e ignorantes, em nome de um “protesto para chamar a atenção da sociedade”, à guisa de atacar “os novos inimigos: as transnacionais” – palavras do líder do MST.
Que silêncio era aquele?
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- DOIS –
Ricardo V sorveu prazerosamente uns bons goles da cerveja gelada, na varanda da sua casa, de frente para a piscina. Vinha revezando esse novo prazer com as viagens ao Rio, Orlando, Irlanda e Escócia, seus escritos e longas caminhadas, com direito a acampamento, em companhia de Rita e do filho Ricardo VI, pelas trilhas na Chapada dos Veadeiros, suas matas e cachoeiras. Ricardo VI estava com 14 anos e Rita, esplendorosa: o bronzeado produzido pelo sol filtrado pelas matas fazia um belo contraste com seus cabelos ruivos, escondendo um pouco suas sardas, deixando delas somente uma sombrinha graciosa; suas pernas e a barriga geralmente expostas pareciam agradecer ao exercício oferecido pelas trilhas. Mais ainda, Rita vivia fase de grande vivacidade mental; voltara a pesquisar índios e demais raças que habitavam aquele Brasil de 2017 e comparava-os, sem qualquer compromisso científico – muito pelo contrário – com os celtas e suas tradições ainda existentes na Irlanda, Escócia e Galícia. Raças que, no seu entender, teimavam por resistir e continuar a existir, mesmo que vivendo longos períodos das mais diversas formas de submissão.
Numa daquelas caminhadas, deram com a comunidade descrita havia sete anos pelo então Coronel Fernando, sem travar qualquer contato além de cumprimentos amistosos e silenciosos, pois perceberam que se agissem diferente o resultado teria sido igual: o mesmo silêncio observador.
Ricardo V deixou a cerveja de lado, espreguiçou-se, deu um mergulho e deixou mulher e filho na piscina, para tomar um banho e sair de carro. Visitou um dos diversos assentamentos coletivos da região rural e percebeu quase que o mesmo silêncio da “comunidade do General”, como haviam se habituado a chamar os silenciosos da chapada. Tentou puxar conversa com um dos agricultores – um dos mais ativos, produtivos, alguém que soube aproveitar a oportunidade de receber um lote de terra e treinamento para o explorar, e que conseguira obter para o assentamento um bom sistema de logística para entrega de insumos e escoamento da produção, superando exemplarmente a cultura de subsistência -, e só recebeu em troca um amigável sorriso. Tentou novamente: futebol, um sorriso; política, uma cara amarrada, foi o que conseguiu em troca.
Foi até uma bêbada contumaz. Como vai, Dona Zeza, tudo bem com a senhora? Ela levantou o rosto na direção dele, sorriu, fixou seu olhar do de Ricardo V, baixou os olhos e tirou mais um trago do gargalo da garrafa de cachaça. Ele sentiu-se um idiota, debaixo daquele sol estonteante como sempre e pensou em voltar para casa, para sua piscina.
Ou para seus escritos? Ou ao telefone ou à rede – para uma conversa com o General?
Caminhou um pouco mais, entrou no carro e dirigiu até um bar no centro da cidade. Lá, encontrou conversa; pediu um chope, que bebeu de um gole só e foi para casa, um pouco mais satisfeito. Mas intrigado; e atordoado. Sol demais, cerveja demais para sua parca experiência como bebedor, comida de menos, conversa pouca, silêncio demais na zona rural. Lembrou-se de 2006, do Movimento dos Sem Terra, da sua invasão ao laboratório rural de uma multinacional de papel e celulose. 20 anos de pesquisa destruídos por algumas mulheres pobres e ignorantes, em nome de um “protesto para chamar a atenção da sociedade”, à guisa de atacar “os novos inimigos: as transnacionais” – palavras do líder do MST.
Que silêncio era aquele?
3.06.2006
CADÊ O ÔNIBUS
Uma poesia sem verso, espalhada em prosa, solta em frases curtas e longas, pontuadas com vírgulas e pontos, espaçando-se ao longo de parágrafos, que não falava de amor nem de morte, falava da vida, inclusive e principalmente da alheia, mas, sim, falava da vida, nos morros, asfaltos, calçadas, apartamentos, mansões.
Procurava compreender o porque da diferença de apartamentos, mansões e bancos de praça, evitando para isso a rima, fugia da métrica como quem foge da polícia.
Deixou para trás, como já dito, o verso e, conseqüentemente, as estrofes, substituindo-as por formais parágrafos.
Examinou alguns lares, lares desfeitos, recém-construídos outros, alguns idosos, solitários, unidos, vizinhos, clandestinos, em suspiros de amor e de morte, embora tivesse tentado evitar esses temas tão complexos.
Quisera ater-se no concreto não do verso mas da existência, pecúnia, peculato, pederastia, pedofilia, predisposição, resfriado, gripe, matrimônio, separação, virgindade, estupro, assassinato, fortuna e miséria, dor de barriga, azia, dor de cabeça, enxaqueca, calcinha, sutiã, cuecas penduradas em um varal de subúrbio, cachorros magros e seus latidos afônicos, uma limusine.
Entretanto, o que acabou acontecendo foi uma crônica, gênero tão desprezado e ao mesmo tempo tão presente, todo cronista corresponde-se com seus leitores, a crônica é o bate-papo à distância, um cafezinho ao telefone, um chope de aeroporto, um vôo perdido, um novo sonho esperando o próximo.
Uma poesia sem verso
espalhada em prosa
solta
em frases curtas e
longas
pontuadas com vírgulas e pontos
espaçando-se
ao longo de parágrafos
que não falava de amor nem de morte
falava da vida principalmente alheia
falava de amor
falava de morte.
E era só uma poesia, poeminha de se guardar na gaveta, crônica de se ler no ônibus, cadê o ônibus, a cidade comeu o ônibus, o futuro engoliu a cidade, a cidade levou junto a gaveta, só ficou a crônica
Da poesia
Saudosa do verso.
Procurava compreender o porque da diferença de apartamentos, mansões e bancos de praça, evitando para isso a rima, fugia da métrica como quem foge da polícia.
Deixou para trás, como já dito, o verso e, conseqüentemente, as estrofes, substituindo-as por formais parágrafos.
Examinou alguns lares, lares desfeitos, recém-construídos outros, alguns idosos, solitários, unidos, vizinhos, clandestinos, em suspiros de amor e de morte, embora tivesse tentado evitar esses temas tão complexos.
Quisera ater-se no concreto não do verso mas da existência, pecúnia, peculato, pederastia, pedofilia, predisposição, resfriado, gripe, matrimônio, separação, virgindade, estupro, assassinato, fortuna e miséria, dor de barriga, azia, dor de cabeça, enxaqueca, calcinha, sutiã, cuecas penduradas em um varal de subúrbio, cachorros magros e seus latidos afônicos, uma limusine.
Entretanto, o que acabou acontecendo foi uma crônica, gênero tão desprezado e ao mesmo tempo tão presente, todo cronista corresponde-se com seus leitores, a crônica é o bate-papo à distância, um cafezinho ao telefone, um chope de aeroporto, um vôo perdido, um novo sonho esperando o próximo.
Uma poesia sem verso
espalhada em prosa
solta
em frases curtas e
longas
pontuadas com vírgulas e pontos
espaçando-se
ao longo de parágrafos
que não falava de amor nem de morte
falava da vida principalmente alheia
falava de amor
falava de morte.
E era só uma poesia, poeminha de se guardar na gaveta, crônica de se ler no ônibus, cadê o ônibus, a cidade comeu o ônibus, o futuro engoliu a cidade, a cidade levou junto a gaveta, só ficou a crônica
Da poesia
Saudosa do verso.
3.04.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- UM –
O General Fernando caminhou com seu amigo Almir ao longo da calçada da Avenida Atlântica tal como fez, em 1° de abril de 1964, Carlos Drummond de Andrade, em companhia de Carlos Heitor Cony. Havia várias diferenças entre os dois encontros. Primeiro, em 1964, no dia em que foi anunciado à nação que o Presidente João Goulart fora derrubado por uma assim chamada revolução, comandada por tropas militares, a Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, ainda não tinha passagens subterrâneas e passarelas aéreas, nem trechos privativos ou pontos de pouso nos prédios para os mini-turbo-helicópteros de hoje, os populares (no nome) Jetsons, por causa de um desenho animado de Hanna e Barbera, dos mesmos anos sessenta do século passado. Aliás, em 1964, nem mesmo havia sido duplicada a pista para automóveis. A rebentação do mar, na infância dos dois generais da reserva, se dava lá longe, para depois as ondas virem se desfazendo, lentamente, até a beirinha, era como via em sua memória o General Fernando, enquanto caminhava com o amigo Almir.
A segunda diferença é que, naquele dia de 2017, nenhum golpe ou revolução fora anunciado; apenas havia um silêncio até então desconhecido pela maioria.
- Depois que você me telefonou, eu tentei descobrir a que diabos de silêncio você se referia. Copacabana continua como sempre foi, alguns investiram na despoluição sonora, outros preferem pagar a multa. Aí foi que percebi, quando liguei a minha tv. Aliás, um modelo novo, você precisa ver, deixa o que o Bradburry imaginou em Farenheit 451 parecendo coisa do tempo das diligências, se é que você me entende. Você leu o Farenheit 451, Fernando? Leu, né. Você é teimoso, Fernando, você se referiu ao silêncio do povo, mas o silêncio do povo está vindo é via televisão, mídia, comunicações. O indicador da assistência que aparece no canto superior esquerdo - que é restrito ao Brasil, claro, vamos frisar -, que costuma indicar alguns milhões para a totalidade e uns bons milhares para cada canal, - até, às vezes, dependendo do canal e horário, uns milhõezinhos – rapaz, mostrava centenas! No total, uns míseros milharezinhos! Você acredita, Fernando?
- O mortal silêncio das tvs – que, na verdade, é o silêncio do povo, que silenciou suas tvs. Pior, muito pior do que aquele silêncio estranho, daquela comunidade de que te falei...
- Eu sei – Almir interrompeu o amigo -, na chapada dos veadeiros, em Goiás. Mas não foi só isso, não.
- As redes – adiantou-se o General.
- Isso! As redes, as duas, a dez a doze e a TPM, tiveram uma queda brutal de acesso no Brasil – justamente o país de suas sedes administrativas; você sabia disso, Fernando, que desde 2014 as redes têm seus headquarters no Brasil, com crise, seqüestro e tudo, sabia, né? -, a mídia eletrônica está tendo um colossal prejuízo nas últimas horas, aqui no Brasil, meu camarada!
- Quem estará por trás disso? A quem interessa esse tipo de boicote?
- Na tv não dizem nada; mas apareceu um deputado, na tv da câmara, dizendo que, aparentemente, só políticos estavam assistindo tv. Disse isso em tom de ironia, mas depois ficou sério.
Fernando balançou a cabeça e disse, Não pode ser, isso não faz nenhum sentido.
- Mas coincidência não é! – disparou seu amigo de fardas, na reserva, aposentado, como ele.
- Se eu acreditasse que fosse coincidência não teria dado o alarme, não é, Almir? Fui eu que liguei pra você, eu tenho um faro terrível pressas coisas.
- Faro, não: ouvido.
Os dois riram. Fernando confirmou:
- É. Ouvido. Depois do silêncio de Almir, Fernando completou o que pensava:
- Pois é, meu amigo. No Brasil, o mundo da informação está em silêncio, informando para ninguém, a não ser uns poucos. Dentre eles, sim, a maioria deve ser de políticos. E uns poucos mais – que, à medida em que o tempo passar, irão se retirando também da frente das hiper-telas e das hiper-redes, das micro-telas de bolso, de seus micro-teclados ótico-sensitivos, engrossando o número de não-assistentes, não-acessantes, não-público, não-consumidores, não-eleitores. Continuarão trabalhando, normalmente. Mas em silêncio. Palavras, só as essenciais.
- Profético?
- Não. Mineiro!
E riram mais um bocado, risada de amigos, velhos amigos.
A REVOLUÇÃO
- UM –
O General Fernando caminhou com seu amigo Almir ao longo da calçada da Avenida Atlântica tal como fez, em 1° de abril de 1964, Carlos Drummond de Andrade, em companhia de Carlos Heitor Cony. Havia várias diferenças entre os dois encontros. Primeiro, em 1964, no dia em que foi anunciado à nação que o Presidente João Goulart fora derrubado por uma assim chamada revolução, comandada por tropas militares, a Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, ainda não tinha passagens subterrâneas e passarelas aéreas, nem trechos privativos ou pontos de pouso nos prédios para os mini-turbo-helicópteros de hoje, os populares (no nome) Jetsons, por causa de um desenho animado de Hanna e Barbera, dos mesmos anos sessenta do século passado. Aliás, em 1964, nem mesmo havia sido duplicada a pista para automóveis. A rebentação do mar, na infância dos dois generais da reserva, se dava lá longe, para depois as ondas virem se desfazendo, lentamente, até a beirinha, era como via em sua memória o General Fernando, enquanto caminhava com o amigo Almir.
A segunda diferença é que, naquele dia de 2017, nenhum golpe ou revolução fora anunciado; apenas havia um silêncio até então desconhecido pela maioria.
- Depois que você me telefonou, eu tentei descobrir a que diabos de silêncio você se referia. Copacabana continua como sempre foi, alguns investiram na despoluição sonora, outros preferem pagar a multa. Aí foi que percebi, quando liguei a minha tv. Aliás, um modelo novo, você precisa ver, deixa o que o Bradburry imaginou em Farenheit 451 parecendo coisa do tempo das diligências, se é que você me entende. Você leu o Farenheit 451, Fernando? Leu, né. Você é teimoso, Fernando, você se referiu ao silêncio do povo, mas o silêncio do povo está vindo é via televisão, mídia, comunicações. O indicador da assistência que aparece no canto superior esquerdo - que é restrito ao Brasil, claro, vamos frisar -, que costuma indicar alguns milhões para a totalidade e uns bons milhares para cada canal, - até, às vezes, dependendo do canal e horário, uns milhõezinhos – rapaz, mostrava centenas! No total, uns míseros milharezinhos! Você acredita, Fernando?
- O mortal silêncio das tvs – que, na verdade, é o silêncio do povo, que silenciou suas tvs. Pior, muito pior do que aquele silêncio estranho, daquela comunidade de que te falei...
- Eu sei – Almir interrompeu o amigo -, na chapada dos veadeiros, em Goiás. Mas não foi só isso, não.
- As redes – adiantou-se o General.
- Isso! As redes, as duas, a dez a doze e a TPM, tiveram uma queda brutal de acesso no Brasil – justamente o país de suas sedes administrativas; você sabia disso, Fernando, que desde 2014 as redes têm seus headquarters no Brasil, com crise, seqüestro e tudo, sabia, né? -, a mídia eletrônica está tendo um colossal prejuízo nas últimas horas, aqui no Brasil, meu camarada!
- Quem estará por trás disso? A quem interessa esse tipo de boicote?
- Na tv não dizem nada; mas apareceu um deputado, na tv da câmara, dizendo que, aparentemente, só políticos estavam assistindo tv. Disse isso em tom de ironia, mas depois ficou sério.
Fernando balançou a cabeça e disse, Não pode ser, isso não faz nenhum sentido.
- Mas coincidência não é! – disparou seu amigo de fardas, na reserva, aposentado, como ele.
- Se eu acreditasse que fosse coincidência não teria dado o alarme, não é, Almir? Fui eu que liguei pra você, eu tenho um faro terrível pressas coisas.
- Faro, não: ouvido.
Os dois riram. Fernando confirmou:
- É. Ouvido. Depois do silêncio de Almir, Fernando completou o que pensava:
- Pois é, meu amigo. No Brasil, o mundo da informação está em silêncio, informando para ninguém, a não ser uns poucos. Dentre eles, sim, a maioria deve ser de políticos. E uns poucos mais – que, à medida em que o tempo passar, irão se retirando também da frente das hiper-telas e das hiper-redes, das micro-telas de bolso, de seus micro-teclados ótico-sensitivos, engrossando o número de não-assistentes, não-acessantes, não-público, não-consumidores, não-eleitores. Continuarão trabalhando, normalmente. Mas em silêncio. Palavras, só as essenciais.
- Profético?
- Não. Mineiro!
E riram mais um bocado, risada de amigos, velhos amigos.
2.28.2006
AH, SEGUNDAS-FEIRAS
Ah, Segundas-feiras.
Acordou bem disposto: era Segunda-feira de carnaval. Feriado. Gostava de pensar, Hoje é Segunda-feira e eu não vou trabalhar.
Era um dia de sol. Apanhou a namorada e dirigiram-se para a praia. Um certo engarrafamento já era esperado – afinal, era Segunda-feira e feriado, feriado de carnaval e com sol. Não eram os únicos a querer ir à praia.
Escolheu mal, a praia – e com insistência, como contaria depois. Ouvira falar muito bem de lá, queria ir àquela praia de qualquer jeito, embora ela tivesse argumentado, Hoje não é um bom dia, é dia de carnaval, tudo por lá vai estar lotado. Mas ele insistiu, Você é sempre muito resistente a qualquer idéia nova, se dependesse de você iríamos sempre aos mesmos lugares. Lembra daquela vez, em Parati? Não conheceríamos Parati se fosse por você. Vai valer a pena, me falaram muito bem dessa praia, vamos lá. Confie em mim.
E resolveu brincar com ela, para amenizar:
- Seu mal é bom-senso. Você é uma mulher que sofre de bom-senso – ele disse a ela, passando a mão carinhosamente na perna da namorada, com um sorriso. Ela, da sua parte, ficou séria, não achou graça, não. Ele pôs de novo a mão no volante.
Chegaram, duas horas depois do previsto, e a coisa não estava boa, não. A praia não era lá o que lhe haviam dito, a maré estava cheia e o bar em frente, muito ruim. Desandou a falar mal do Brasil, Como é que um país que quer se fazer de turístico tem um despreparo desses? Como é que o sujeito diz, Não estamos preparados para esse movimento? Pombas, então fecha o estabelecimento, ora!
Por insistência dele, almoçaram em outro lugar. Dessa vez, acertou: um bom restaurante de um bom hotel que permitiu o ingresso deles somente para almoçar, na frente de outra praia muito melhor. Ela já estava de bom-humor, novamente; ligou para a melhor amiga, Menina, uma roubada – mas agora está tudo bem. Ela desligou, com um sorriso nos lábios; ele desancou a argumentar, Você não tem maturidade. Que roubada foi essa, ora? Não mergulhamos, você não viu peixinho e tudo no fundo do mar, peixe com riscas, que nem uma zebra do mar, peixe transparente, peixe pequeno, peixe grande? Agora estamos aqui, de frente pro mar novamente, um dia lindo, boa comida e boa bebida, está reclamando de que? De umas horinhas no trânsito? Você precisa passar por uma roubada, para saber do que se trata, uma verdadeira roubada. Te falta isso.
Pronto: ganhou a discussão. Inapelavelmente. E perdeu a namorada. Inapelavelmente.
Ah, Segundas-feiras.
Acordou bem disposto: era Segunda-feira de carnaval. Feriado. Gostava de pensar, Hoje é Segunda-feira e eu não vou trabalhar.
Era um dia de sol. Apanhou a namorada e dirigiram-se para a praia. Um certo engarrafamento já era esperado – afinal, era Segunda-feira e feriado, feriado de carnaval e com sol. Não eram os únicos a querer ir à praia.
Escolheu mal, a praia – e com insistência, como contaria depois. Ouvira falar muito bem de lá, queria ir àquela praia de qualquer jeito, embora ela tivesse argumentado, Hoje não é um bom dia, é dia de carnaval, tudo por lá vai estar lotado. Mas ele insistiu, Você é sempre muito resistente a qualquer idéia nova, se dependesse de você iríamos sempre aos mesmos lugares. Lembra daquela vez, em Parati? Não conheceríamos Parati se fosse por você. Vai valer a pena, me falaram muito bem dessa praia, vamos lá. Confie em mim.
E resolveu brincar com ela, para amenizar:
- Seu mal é bom-senso. Você é uma mulher que sofre de bom-senso – ele disse a ela, passando a mão carinhosamente na perna da namorada, com um sorriso. Ela, da sua parte, ficou séria, não achou graça, não. Ele pôs de novo a mão no volante.
Chegaram, duas horas depois do previsto, e a coisa não estava boa, não. A praia não era lá o que lhe haviam dito, a maré estava cheia e o bar em frente, muito ruim. Desandou a falar mal do Brasil, Como é que um país que quer se fazer de turístico tem um despreparo desses? Como é que o sujeito diz, Não estamos preparados para esse movimento? Pombas, então fecha o estabelecimento, ora!
Por insistência dele, almoçaram em outro lugar. Dessa vez, acertou: um bom restaurante de um bom hotel que permitiu o ingresso deles somente para almoçar, na frente de outra praia muito melhor. Ela já estava de bom-humor, novamente; ligou para a melhor amiga, Menina, uma roubada – mas agora está tudo bem. Ela desligou, com um sorriso nos lábios; ele desancou a argumentar, Você não tem maturidade. Que roubada foi essa, ora? Não mergulhamos, você não viu peixinho e tudo no fundo do mar, peixe com riscas, que nem uma zebra do mar, peixe transparente, peixe pequeno, peixe grande? Agora estamos aqui, de frente pro mar novamente, um dia lindo, boa comida e boa bebida, está reclamando de que? De umas horinhas no trânsito? Você precisa passar por uma roubada, para saber do que se trata, uma verdadeira roubada. Te falta isso.
Pronto: ganhou a discussão. Inapelavelmente. E perdeu a namorada. Inapelavelmente.
Ah, Segundas-feiras.
2.25.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(4) (o último da cronologia:) O longo trajeto da chegada da mãe de Rita
A trajetória de chegada ao mundo da mãe de Rita foi tão longa quanto a de qualquer contemporâneo seu. Nada de novo – apenas para o menino Ricardo VI, com sete anos em 2010.
Ricardo VI não entendeu bem aquela história da pirâmide dupla, sua mãe lhe dizendo do mistério da ancestralidade, para cada ser uma cadeia imensa de casais, dois pais, quatro avós, cada um deles com pai e mãe, já contava oito, que, por sua vez, tiveram seus pais e suas mães, dezesseis, trinta e dois... De cima para baixo, um casal tem quatro, dos quatro, três procriam, um faz dois, ou três, outro dezoito, dos dezoito, quinze têm muitos filhos, uma filharada, uma netada, populando o mundo, gente fazendo gente, gato fazendo gato, cachorro fazendo cachorro, cobra fazendo cobra, mosquito fazendo mosquito, micróbio fazendo micróbio, macaco fazendo macaco. Aí pensou, em voz alta:
- Sou filho de Deus, mas descendo do macaco. Aliás, de uma grande macacada.
Rita andava exagerando um pouco nas doses de uisque que dera para beber naquele ano – pararia na terceira crise de vômitos e enxaqueca de dias inteiros - e, assim, a explicação veio um tanto confusa para o filho. Afinal, foi ela quem teve que contar a história da sua genealogia para o menino, de modo a satisfazer sua curiosidade, despertada pelo pai, que só queria se ensimesmar com os assuntos que tivera com o Coronel Fernando (que, mais tarde, sete anos depois, ficaria conhecido como O General). Ainda não havia as pastilhas multilingües; Rita falava um pouco em Inglês, um pouco em Português – nas piores partes da narrativa, pois, se normalmente, seu sotaque já não ajudava, o efeito de uns uisquinhos a mais obrigava o garoto a verdadeiros exercícios mentais.
Traduzindo a gravação feita por Ricardo VI e sem qualquer tentativa de aferição – pois nenhum interesse há em precisões genealógicas nessa narrativa, tão somente o de permitir que se perceba um pouco mais de alguns dos indivíduos com alguma relevância na Revolução de 2017 -, o que se pode contar é o seguinte.
Sarah Shaw Almanendez Chermont – este o sobrenome da avó de Ricardo VI. O Chermont já se sabe de onde veio, como anteriormente narrado. Shaw é sobrenome irlandês e Almanendez é espanhol – nada mais óbvio. O problema é que Rita quis encontrar seus antepassados principalmente na época dos primeiros espanhóis que se aventuraram nas costas do sudeste norte-americano, acompanhando Alvarez de Pindea, que descobriu a foz do Mississipi em 1519.
Onde hoje fica Nova Orleans, reconstruída após a tragédia de 2005, causada pelo furacão Katrina, que desnudou algumas varizes americanas, umas sociais, outras de postura de governo, havia uma vila indígena: Tchoutchuoma. Quando a expedição de Hernando de Soto descobriu o rio Mississipi e o desceu em direção ao México, entre os anos de 1541 e 1543, Tchoutchuoma já não existia mais. Supõe-se, na família da mãe de Rita, que foi nesta época que chegou ao continente americano o primeiro Almanendez.
Rita queria se convencer – mais que ao filho – que seu primeiro antepassado a chegar nas terras que, em 1682, com a expedição de Cavelier de la Salle, viria a ser batizada como Louisiana (e a cidade desaparecida em 2005, Nouvelle Orleans), seria um dos três heróicos náufragos que acompanharam Álvar Núñes Cabeza de Vaca, sobrevivente de um naufrágio, na sua incrível caminhada, nu em pelo, da Flórida ao México. Ocorre que, em 1542, Cabeza de Vaca estava na América do Sul – mais precisamente nas cataratas do Iguaçu. (No dia 31 de Janeiro daquele ano, em um canoa; deparou-se com as cataratas e gritou: "Santa Maria, que beleza!".) Sua caminhada pelo continente ao norte do hemisfério se iniciou em 1527, e ele e mais três pelados só reapareceram na Espanha oito anos depois; e foi da Flórida – separada da Louisiana por Alabama e Massachusetts - às imediações da cidade do México. Há, portanto, impossibilidades tanto temporais quanto geográficas nas suposições da família de Rita, e dela mesma, quanto a descender de um dos poucos desbravadores pacíficos de seu país e seus vizinhos, que chegou a ser tido como xamã por indígenas norte-americanos com os quais se relacionou (seu relato da sua viagem ao sul do depois português Brasil até terras atualmente paraguaias já descreve embates com algumas tribos sul-americanas).
Em compensação, Rita foi perfeitamente capaz, depois de vomitar um pouco, de descrever ao filho alguns dos feitos da família da mãe dela. Citou um advogado de pobres da Nova Orleans dos mesmos tempos da adolescência de Louis Armstrong, dois professores, um escritor e um engenheiro; mencionou uma tia chefe de cozinha, uma cantora e uma prima da sua mãe que é médica, a quem Ricardo VI conheceu, naquela estada em Orlando, onde passara a morar a família de Rita - sua cidade natal; falou de um trisavô fazendeiro que deixava seus escravos fugirem; e de uma romântica história de amor entre os pais dela, e nesse ponto Rita ficou muda.
No Rio, viu uma foto imensa de Pixinguinha ao lado de Louis Armstrong, os dois já com alguma idade, os dois negros, bons, músicos e seus instrumentos, seus sorrisos e lábios mudos e generosos, sua proximidade. Emocionou-se e pensou “Como eu e Ricardo estamos distantes”.
Já de volta, em casa, em Minaçu, em uma noite quando soprava uma brisa, o marido e o filho dormindo, Rita saiu de seu quarto vestindo somente uma calcinha. Bebeu água na cozinha, olhou-se no espelho da sala, desvencilhou-se da calcinha, jogou seus cabelos para trás. Ricardo V surgiu na soleira da porta para o corredor, admirou sua mulher ruiva apaixonadamente, abraçou-a; passou a crise que perdurava entre os dois, amaram-se no chão, tal e qual foram flagrados pelo filho, que não compreendeu o que viu mas percebeu que não estavam brigando, aquilo era um abraço, não era briga, não, que voltou ao seu quarto e dormiu outra vez.
Profundamente.
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(4) (o último da cronologia:) O longo trajeto da chegada da mãe de Rita
A trajetória de chegada ao mundo da mãe de Rita foi tão longa quanto a de qualquer contemporâneo seu. Nada de novo – apenas para o menino Ricardo VI, com sete anos em 2010.
Ricardo VI não entendeu bem aquela história da pirâmide dupla, sua mãe lhe dizendo do mistério da ancestralidade, para cada ser uma cadeia imensa de casais, dois pais, quatro avós, cada um deles com pai e mãe, já contava oito, que, por sua vez, tiveram seus pais e suas mães, dezesseis, trinta e dois... De cima para baixo, um casal tem quatro, dos quatro, três procriam, um faz dois, ou três, outro dezoito, dos dezoito, quinze têm muitos filhos, uma filharada, uma netada, populando o mundo, gente fazendo gente, gato fazendo gato, cachorro fazendo cachorro, cobra fazendo cobra, mosquito fazendo mosquito, micróbio fazendo micróbio, macaco fazendo macaco. Aí pensou, em voz alta:
- Sou filho de Deus, mas descendo do macaco. Aliás, de uma grande macacada.
Rita andava exagerando um pouco nas doses de uisque que dera para beber naquele ano – pararia na terceira crise de vômitos e enxaqueca de dias inteiros - e, assim, a explicação veio um tanto confusa para o filho. Afinal, foi ela quem teve que contar a história da sua genealogia para o menino, de modo a satisfazer sua curiosidade, despertada pelo pai, que só queria se ensimesmar com os assuntos que tivera com o Coronel Fernando (que, mais tarde, sete anos depois, ficaria conhecido como O General). Ainda não havia as pastilhas multilingües; Rita falava um pouco em Inglês, um pouco em Português – nas piores partes da narrativa, pois, se normalmente, seu sotaque já não ajudava, o efeito de uns uisquinhos a mais obrigava o garoto a verdadeiros exercícios mentais.
Traduzindo a gravação feita por Ricardo VI e sem qualquer tentativa de aferição – pois nenhum interesse há em precisões genealógicas nessa narrativa, tão somente o de permitir que se perceba um pouco mais de alguns dos indivíduos com alguma relevância na Revolução de 2017 -, o que se pode contar é o seguinte.
Sarah Shaw Almanendez Chermont – este o sobrenome da avó de Ricardo VI. O Chermont já se sabe de onde veio, como anteriormente narrado. Shaw é sobrenome irlandês e Almanendez é espanhol – nada mais óbvio. O problema é que Rita quis encontrar seus antepassados principalmente na época dos primeiros espanhóis que se aventuraram nas costas do sudeste norte-americano, acompanhando Alvarez de Pindea, que descobriu a foz do Mississipi em 1519.
Onde hoje fica Nova Orleans, reconstruída após a tragédia de 2005, causada pelo furacão Katrina, que desnudou algumas varizes americanas, umas sociais, outras de postura de governo, havia uma vila indígena: Tchoutchuoma. Quando a expedição de Hernando de Soto descobriu o rio Mississipi e o desceu em direção ao México, entre os anos de 1541 e 1543, Tchoutchuoma já não existia mais. Supõe-se, na família da mãe de Rita, que foi nesta época que chegou ao continente americano o primeiro Almanendez.
Rita queria se convencer – mais que ao filho – que seu primeiro antepassado a chegar nas terras que, em 1682, com a expedição de Cavelier de la Salle, viria a ser batizada como Louisiana (e a cidade desaparecida em 2005, Nouvelle Orleans), seria um dos três heróicos náufragos que acompanharam Álvar Núñes Cabeza de Vaca, sobrevivente de um naufrágio, na sua incrível caminhada, nu em pelo, da Flórida ao México. Ocorre que, em 1542, Cabeza de Vaca estava na América do Sul – mais precisamente nas cataratas do Iguaçu. (No dia 31 de Janeiro daquele ano, em um canoa; deparou-se com as cataratas e gritou: "Santa Maria, que beleza!".) Sua caminhada pelo continente ao norte do hemisfério se iniciou em 1527, e ele e mais três pelados só reapareceram na Espanha oito anos depois; e foi da Flórida – separada da Louisiana por Alabama e Massachusetts - às imediações da cidade do México. Há, portanto, impossibilidades tanto temporais quanto geográficas nas suposições da família de Rita, e dela mesma, quanto a descender de um dos poucos desbravadores pacíficos de seu país e seus vizinhos, que chegou a ser tido como xamã por indígenas norte-americanos com os quais se relacionou (seu relato da sua viagem ao sul do depois português Brasil até terras atualmente paraguaias já descreve embates com algumas tribos sul-americanas).
Em compensação, Rita foi perfeitamente capaz, depois de vomitar um pouco, de descrever ao filho alguns dos feitos da família da mãe dela. Citou um advogado de pobres da Nova Orleans dos mesmos tempos da adolescência de Louis Armstrong, dois professores, um escritor e um engenheiro; mencionou uma tia chefe de cozinha, uma cantora e uma prima da sua mãe que é médica, a quem Ricardo VI conheceu, naquela estada em Orlando, onde passara a morar a família de Rita - sua cidade natal; falou de um trisavô fazendeiro que deixava seus escravos fugirem; e de uma romântica história de amor entre os pais dela, e nesse ponto Rita ficou muda.
No Rio, viu uma foto imensa de Pixinguinha ao lado de Louis Armstrong, os dois já com alguma idade, os dois negros, bons, músicos e seus instrumentos, seus sorrisos e lábios mudos e generosos, sua proximidade. Emocionou-se e pensou “Como eu e Ricardo estamos distantes”.
Já de volta, em casa, em Minaçu, em uma noite quando soprava uma brisa, o marido e o filho dormindo, Rita saiu de seu quarto vestindo somente uma calcinha. Bebeu água na cozinha, olhou-se no espelho da sala, desvencilhou-se da calcinha, jogou seus cabelos para trás. Ricardo V surgiu na soleira da porta para o corredor, admirou sua mulher ruiva apaixonadamente, abraçou-a; passou a crise que perdurava entre os dois, amaram-se no chão, tal e qual foram flagrados pelo filho, que não compreendeu o que viu mas percebeu que não estavam brigando, aquilo era um abraço, não era briga, não, que voltou ao seu quarto e dormiu outra vez.
Profundamente.
2.20.2006
O NOME DELE
O NOME DELE
Ele pouco sabia da empresa e seus chefes. Tinha perfeita noção do seu anacronismo – um negro de carapinha branca uniformizado, pilotando um elevador movido a manivela, com portas corrediças de madeira envernizada - como as paredes -, o grande espelho atrás de si, seu banco giratório de madeira almofadada em vermelho.
Começou pilotando aquilo quando havia um ventilador preso a uma das paredes. Naquele tempo, conhecia muito bem o chefe – aliás, o dono -, que subia e descia com ele diariamente e com ele conversava. Quando o dono estava com alguém, podia ouvir um pouco da conversa, aos sussurros trocados entre o chefe e quem o acompanhava, ou dela participar, sendo, inclusive, consultado. Por exemplo, se sapatos de cromo alemão ainda combinavam bem, se deveriam ser usados ou não.
Agora era diferente. Sabia que quem mandava chegava de helicóptero. Não havia mais ventilador; seu veículo era, agora, climatizado. Através dos anos pode perceber, no sobe e desce característico da sua profissão, que sabia não existir mais, a não ser ali, só a dele e para ele e naquele lugar, que o dono já não aparecia. Vieram americanos, franceses, africanos, árabes, japoneses, baianos, chineses, todos quase sempre acompanhados por alguém que concordava com tudo que eles dissessem.
Agora era ainda mais diferente. Seu transporte passou a ser um prêmio solitário. Quando um dos chefes – assim eles os imaginava – precisava pensar em solidão, não era no banheiro que se trancava: apertava o botão daquele elevador - o único do prédio – e da cidade – a operar comandado por uma pessoa presente o tempo todo - e ordenava: “Garagem”. “Térreo, por favor”. “Terraço – e, depois, térreo; térreo, não: sub-solo. Terraço outra vez e, depois, décimo. Foi no décimo que entrei, não foi?”.
Havia outros que ele tinha toda certeza – a de quem leva pessoas há muitos anos para cima e para baixo –que não eram chefes, mas, como podia perceber um certo sorriso em comum naquele tipo de indivíduo, – que freqüentemente usava saias ou, de calças compridas, seios - o mesmo de certos acompanhantes do dono de outrora, aos quais ele costumava convidar para subir ou descer no elevador em sua companhia – a qual, por si só, já era um prêmio, sinal de reconhecimento, antecipação de bom futuro -, sabia ser um prêmio o que trazia àqueles e aquelas sorridentes a companhia dele, silenciosa e profissional, porque a do chefe de antigamente tudo indicava já não ser mais possível.
Ele era a atração do prédio, da firma, do poder constituído ou em formação: um ser obsoleto, comandando um equipamento obsoleto.
Havia típicos espertos, que entravam ali sorrateiros, fingindo auto-confiança, comandando, terceiro, quinto, décimo, terraço.
Até que, um final de tarde, alguém que não conseguiu decifrar - se chefe, sub-chefe, puxa-saco, aspirante ou aventureiro - ordenou-lhe:
- Inferno. Depois o céu. E a realidade - por favor.
E o elevador andou sozinho, sem precisar que ele girasse a manivela, abrisse as portas de madeira envernizada com as mãos, ambas livres para fazer juntas seu sinal cortês, tão dele próprio e inseparável, mostrando que o andar pedido havia chegado, por aqui, por favor, seu andar é este.
Depois da cortesia, saiu caminhando a exibir seus sapatos de cromo alemão. Só ficou em dúvida aos olhos de quem: se da divindade, perversidade ou neutralidade. O que seria pior?
Jonas era seu nome; a baleia que se danasse.
Ele pouco sabia da empresa e seus chefes. Tinha perfeita noção do seu anacronismo – um negro de carapinha branca uniformizado, pilotando um elevador movido a manivela, com portas corrediças de madeira envernizada - como as paredes -, o grande espelho atrás de si, seu banco giratório de madeira almofadada em vermelho.
Começou pilotando aquilo quando havia um ventilador preso a uma das paredes. Naquele tempo, conhecia muito bem o chefe – aliás, o dono -, que subia e descia com ele diariamente e com ele conversava. Quando o dono estava com alguém, podia ouvir um pouco da conversa, aos sussurros trocados entre o chefe e quem o acompanhava, ou dela participar, sendo, inclusive, consultado. Por exemplo, se sapatos de cromo alemão ainda combinavam bem, se deveriam ser usados ou não.
Agora era diferente. Sabia que quem mandava chegava de helicóptero. Não havia mais ventilador; seu veículo era, agora, climatizado. Através dos anos pode perceber, no sobe e desce característico da sua profissão, que sabia não existir mais, a não ser ali, só a dele e para ele e naquele lugar, que o dono já não aparecia. Vieram americanos, franceses, africanos, árabes, japoneses, baianos, chineses, todos quase sempre acompanhados por alguém que concordava com tudo que eles dissessem.
Agora era ainda mais diferente. Seu transporte passou a ser um prêmio solitário. Quando um dos chefes – assim eles os imaginava – precisava pensar em solidão, não era no banheiro que se trancava: apertava o botão daquele elevador - o único do prédio – e da cidade – a operar comandado por uma pessoa presente o tempo todo - e ordenava: “Garagem”. “Térreo, por favor”. “Terraço – e, depois, térreo; térreo, não: sub-solo. Terraço outra vez e, depois, décimo. Foi no décimo que entrei, não foi?”.
Havia outros que ele tinha toda certeza – a de quem leva pessoas há muitos anos para cima e para baixo –que não eram chefes, mas, como podia perceber um certo sorriso em comum naquele tipo de indivíduo, – que freqüentemente usava saias ou, de calças compridas, seios - o mesmo de certos acompanhantes do dono de outrora, aos quais ele costumava convidar para subir ou descer no elevador em sua companhia – a qual, por si só, já era um prêmio, sinal de reconhecimento, antecipação de bom futuro -, sabia ser um prêmio o que trazia àqueles e aquelas sorridentes a companhia dele, silenciosa e profissional, porque a do chefe de antigamente tudo indicava já não ser mais possível.
Ele era a atração do prédio, da firma, do poder constituído ou em formação: um ser obsoleto, comandando um equipamento obsoleto.
Havia típicos espertos, que entravam ali sorrateiros, fingindo auto-confiança, comandando, terceiro, quinto, décimo, terraço.
Até que, um final de tarde, alguém que não conseguiu decifrar - se chefe, sub-chefe, puxa-saco, aspirante ou aventureiro - ordenou-lhe:
- Inferno. Depois o céu. E a realidade - por favor.
E o elevador andou sozinho, sem precisar que ele girasse a manivela, abrisse as portas de madeira envernizada com as mãos, ambas livres para fazer juntas seu sinal cortês, tão dele próprio e inseparável, mostrando que o andar pedido havia chegado, por aqui, por favor, seu andar é este.
Depois da cortesia, saiu caminhando a exibir seus sapatos de cromo alemão. Só ficou em dúvida aos olhos de quem: se da divindade, perversidade ou neutralidade. O que seria pior?
Jonas era seu nome; a baleia que se danasse.
2.18.2006
SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(4) O que foi que o General – quando ainda era Coronel – viu:
- A Inteligência do Exército, que vem se revigorando com o passar do tempo, de vez em quando entra em seara alheia. Por exemplo, na da Polícia Federal. Vínhamos acompanhando aqueles arremedos de espiões havia algum tempo. Sua reação, senhor Ricardo, foi muito adequada; o senhor soube tourear aquela gente. E foi por acaso que, atirando no que víamos, acertamos no que nem sabíamos que existia. Eles se isolaram no meio do nada na Chapada dos Veadeiros, formaram uma comunidade. Você entra, lê, pergunta, ninguém responde nada. Pra começo de conversa, não há conversa – nem uma única palavra: é o silêncio mais organizado que já vi. Entrei lá sozinho, na trilha, meus ajudantes se perderam de mim. Apareci fardado, portando um facão na mão para abrir uma picada e, na cintura, uma pistola automática. Uma menininha lourinha, com uns, sei lá, treze anos de idade, parada à minha frente. Associei aquilo com o tráfico de drogas, os meninos nos morros portando pistolas e fuzis, comunicando-se com os postos mais altos, informando a chegada de um intruso, metendo medo nele. A garotinha não portava arma alguma; apenas me olhou nos olhos firmemente, como se aquilo tivesse sido ensaiado, ou então como quem já está acostumado a encarar um invasor somente olhando nos olhos dele. Depois foi chegando mais gente, ninguém portando arma. Pertinho dali, a reserva indígena, dos avá-canoeiro. Se Dona Rita houvesse continuado com as pesquisas dela, teria achado esse povoado antes de mim. Lá dentro, tem de tudo: branco, preto, mulato, cafuzo, e não dá pra saber que língua eles falam – porque eles não falam, simplesmente não dizem uma palavra, pode perguntar você o que quiser. Sou um soldado, treinado – e, quer saber?, tive que servir à ditadura, sim senhor, com dezoito anos, 1976, um ano após a morte do Vladimir Herzog, eu tenho certeza de que o senhor, estudioso como é, sabe de quem estou falando; e de que época; que tempos! Sou um soldado, acostumado a enfrentar o inimigo, acostumado a fazer até o que eu nunca tive vontade nem convicção de fazer. Faço parte da Inteligência do Exército, conheço todas as manhas e artimanhas. E não consegui arrancar uma palavra que fosse daquela gente! Me ofereceram chá – acredita? Chá, biscoitos feitos lá, verduras, carne, sim senhor – nada lá é proibido. Uma aguardente muito saborosa, que não é de cana e não sei do que é, me ofereceram – sem dizer nada, só me mostrando a garrafa e o copinho. Bebi um pouco e dormi, no meio do mato, sem medo de cobra nem de onça, sem ser ameaçado nem por uma nem por outra. Acordei sozinho, perto da estrada, já não tenho certeza se sei voltar lá. Que lugar, rapaz! Que gente! Que diabos de sociedade construíram lá? Gente é igual em qualquer lugar, bom e mau caráter se revelando mais num, menos no outro, às vezes tudo de ruim num só ou meia dúzia, às vezes tudo no outro. Mas... o silêncio! Que silêncio impressionante! Já pensou, seu Ricardo Coração dos Outros de quinta geração, viver em absoluto silêncio? Num mundo sem palavras? Como viveria um escritor num lugar assim? Talvez bem, talvez bem; a palavra escrita deve circular por lá, não é possível que não. Mas como, se não existe a falada? Ou foi só uma farsa, naquela tarde-noite? Será que eu delirei? Acho que não.
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(4) O que foi que o General – quando ainda era Coronel – viu:
- A Inteligência do Exército, que vem se revigorando com o passar do tempo, de vez em quando entra em seara alheia. Por exemplo, na da Polícia Federal. Vínhamos acompanhando aqueles arremedos de espiões havia algum tempo. Sua reação, senhor Ricardo, foi muito adequada; o senhor soube tourear aquela gente. E foi por acaso que, atirando no que víamos, acertamos no que nem sabíamos que existia. Eles se isolaram no meio do nada na Chapada dos Veadeiros, formaram uma comunidade. Você entra, lê, pergunta, ninguém responde nada. Pra começo de conversa, não há conversa – nem uma única palavra: é o silêncio mais organizado que já vi. Entrei lá sozinho, na trilha, meus ajudantes se perderam de mim. Apareci fardado, portando um facão na mão para abrir uma picada e, na cintura, uma pistola automática. Uma menininha lourinha, com uns, sei lá, treze anos de idade, parada à minha frente. Associei aquilo com o tráfico de drogas, os meninos nos morros portando pistolas e fuzis, comunicando-se com os postos mais altos, informando a chegada de um intruso, metendo medo nele. A garotinha não portava arma alguma; apenas me olhou nos olhos firmemente, como se aquilo tivesse sido ensaiado, ou então como quem já está acostumado a encarar um invasor somente olhando nos olhos dele. Depois foi chegando mais gente, ninguém portando arma. Pertinho dali, a reserva indígena, dos avá-canoeiro. Se Dona Rita houvesse continuado com as pesquisas dela, teria achado esse povoado antes de mim. Lá dentro, tem de tudo: branco, preto, mulato, cafuzo, e não dá pra saber que língua eles falam – porque eles não falam, simplesmente não dizem uma palavra, pode perguntar você o que quiser. Sou um soldado, treinado – e, quer saber?, tive que servir à ditadura, sim senhor, com dezoito anos, 1976, um ano após a morte do Vladimir Herzog, eu tenho certeza de que o senhor, estudioso como é, sabe de quem estou falando; e de que época; que tempos! Sou um soldado, acostumado a enfrentar o inimigo, acostumado a fazer até o que eu nunca tive vontade nem convicção de fazer. Faço parte da Inteligência do Exército, conheço todas as manhas e artimanhas. E não consegui arrancar uma palavra que fosse daquela gente! Me ofereceram chá – acredita? Chá, biscoitos feitos lá, verduras, carne, sim senhor – nada lá é proibido. Uma aguardente muito saborosa, que não é de cana e não sei do que é, me ofereceram – sem dizer nada, só me mostrando a garrafa e o copinho. Bebi um pouco e dormi, no meio do mato, sem medo de cobra nem de onça, sem ser ameaçado nem por uma nem por outra. Acordei sozinho, perto da estrada, já não tenho certeza se sei voltar lá. Que lugar, rapaz! Que gente! Que diabos de sociedade construíram lá? Gente é igual em qualquer lugar, bom e mau caráter se revelando mais num, menos no outro, às vezes tudo de ruim num só ou meia dúzia, às vezes tudo no outro. Mas... o silêncio! Que silêncio impressionante! Já pensou, seu Ricardo Coração dos Outros de quinta geração, viver em absoluto silêncio? Num mundo sem palavras? Como viveria um escritor num lugar assim? Talvez bem, talvez bem; a palavra escrita deve circular por lá, não é possível que não. Mas como, se não existe a falada? Ou foi só uma farsa, naquela tarde-noite? Será que eu delirei? Acho que não.
2.14.2006
IDA E VOLTA A BRASÍLIA
Ele acordou de madrugada, tomou banho, vestiu-se no escuro e partiu para o aeroporto, não sem antes dar um beijo desajeitado no rosto dela, que, dormindo, respondeu algo parecido com Vai com Deus. Dirigiu na cidade ainda no escuro, naqueles momentos em que vícios e virtudes, assassinatos e paixões, sonhos e pesadelos, espancamentos e apedrejamentos não podem ser vistos; quando só se expõem umas poucas freadas bruscas, algumas colisões mortais, um cachorro vagabundo, um corredor insone, um mendigo. Encarou a fila do check-in, esperou pacientemente a emissão do cartão de embarque, tranqüilizou-se ao saber que não ficaria em um assento de meio, desajeitado, espremido, incomodado. Tomou café com pão de queijo, foi para a sala de embarque, embarcou.
No avião ouviu os discursos de praxe, dormitou um pouco, acordou com o próprio ligeiro ronco. O comandante disse qualquer coisa como “nosso estimado de pouso”, referindo-se ao horário previsto para pousar em Brasília. No chamado “procedimento de descida” – viajante contumaz, freqüente, no mínimo semanal –, resolveu prestar atenção ao que a aeromoça dizia: “Afivele o cinto de segurança, retornando o encosto da poltrona para a posição original e mantendo a mesinha da poltrona da frente travada.”. E se alguém, algum dia, realmente tentar fazer as três coisas ao mesmo tempo?
Brasília – era fevereiro – manteve-se com boa umidade mas sem chuvas, temperatura amena, exceto na reunião de que participou. Viera para isso; fazer o quê?
Não há tempo nem espaço para contar o dia dela como foi, fica para uma outra vez, mas foi um dia bom, com alguns momentos difíceis, intensos, a vida profissional anda muito corrida, as pessoas, muito nervosas, todos se cobram muito e aos outros também, o trânsito andou um pouco parado em alguns momentos, crianças na rua se fazendo de malabaristas, quem foi que ensinou isso a elas e pra quê?, a maior das burrices, a exclusão, o mar aliviou um pouco isso tudo, é doce morar no mar, perto do mar, em cidade litorânea.
Ele voltou no vôo das vinte e vinte e oito, com vários políticos a bordo. Nesse horário costuma sentir-se enjoado, mas sem vomitar; com sono, mas sem dormir; entravado, preso, cansado.
No saguão do aeroporto viu sua imagem refletida: era agora uma cama de armar barata, que desarmara entre a parede e o guarda-roupa de um quarto vagabundo, com cheiro de tábua de passar. Vive assim até hoje; nunca mais se reencontraram.
No avião ouviu os discursos de praxe, dormitou um pouco, acordou com o próprio ligeiro ronco. O comandante disse qualquer coisa como “nosso estimado de pouso”, referindo-se ao horário previsto para pousar em Brasília. No chamado “procedimento de descida” – viajante contumaz, freqüente, no mínimo semanal –, resolveu prestar atenção ao que a aeromoça dizia: “Afivele o cinto de segurança, retornando o encosto da poltrona para a posição original e mantendo a mesinha da poltrona da frente travada.”. E se alguém, algum dia, realmente tentar fazer as três coisas ao mesmo tempo?
Brasília – era fevereiro – manteve-se com boa umidade mas sem chuvas, temperatura amena, exceto na reunião de que participou. Viera para isso; fazer o quê?
Não há tempo nem espaço para contar o dia dela como foi, fica para uma outra vez, mas foi um dia bom, com alguns momentos difíceis, intensos, a vida profissional anda muito corrida, as pessoas, muito nervosas, todos se cobram muito e aos outros também, o trânsito andou um pouco parado em alguns momentos, crianças na rua se fazendo de malabaristas, quem foi que ensinou isso a elas e pra quê?, a maior das burrices, a exclusão, o mar aliviou um pouco isso tudo, é doce morar no mar, perto do mar, em cidade litorânea.
Ele voltou no vôo das vinte e vinte e oito, com vários políticos a bordo. Nesse horário costuma sentir-se enjoado, mas sem vomitar; com sono, mas sem dormir; entravado, preso, cansado.
No saguão do aeroporto viu sua imagem refletida: era agora uma cama de armar barata, que desarmara entre a parede e o guarda-roupa de um quarto vagabundo, com cheiro de tábua de passar. Vive assim até hoje; nunca mais se reencontraram.
2.11.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006
SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(3) Outras Dinastias: a do pai de Rita
Se Satchmo já tivesse idade, teria sido em outro estabelecimento que não o de Henry Ponce que teria iniciado sua carreira na música profissional.
Poucos anos antes de Lima Barreto escrever a biografia de Policarpo e seu professor de violão, Ricardo Coração dos Outros, quando Louis Armstrong (Satchmo) jogava tijolos em um dos namorados da mãe a quem presenciara batendo nela, jurando-o de morte pelo resto da sua vida iluminada, com direito a detenção na “Colored” Waif’s Home for Boys - não pelos tijolos, mas por uns tiros para o alto com o 38 que encontrara em casa de um outro namorado de Mayann, como ela era chamada -, Chermont la Belle cuidava de sua honky-tonk com mais zelo que qualquer creollo macho da Nova Orleans daqueles anos de estréia do Século XX.
Não se pode acusar la Belle de vida indigna; dava emprego a músicos e moças que precisavam de um lugar para proporcionar diversão a homens solitários e enfrentava concorrentes invejosos no braço, sempre que preciso. Entretanto, haverá quem considere ainda mais digna a vida de André Chermont, que por lá chegou quando da retomada do território da Louisiana pela Corte Francesa, em 1731. Não se sabe bem o que foi que ele fez, mas é tido como herói pela família por ter sido capaz de resistir aos índios natchez e aos ingleses - aos quais foi cedida Nova Orleans após a Guerra dos Sete Anos, quando Espanha e França foram aliadas, e à segunda foi reconhecida pela primeira a posse de tudo ali à leste do Mississipi que Nova Orleans não fosse.
De André a la Belle, muito originalmente Louise de batismo, houve um rico na família, que prosperou do algodão e se tornou um nobre: André Joseph Levitt Chermont II – título que ignorou dois ou três Chermonts entre o pioneiro e ele, em um período de cerca de cem anos. Aí por volta de quando Ricardo Coração dos Outros fugiu do Rio de Janeiro com sua Olga, quando Nova Orleans já era Estado Americano, Chermont II faleceu, deixando em vida, além de umas filhas que desapareceram Mississipi acima com ou sem maridos, um tuberculoso André Joseph Levitt Chermont III com cinqüenta e cinco anos, sobrevivente da Guerra da Secessão, cuja mulher, Jean Marie Stweart, passava dias e noites trancada em seu quarto, imitando sons que ouvia de uns poucos negros que ainda roçavam por uns poucos cobres lá fora, no que restara da um dia fazenda, a essa altura, já um tanto arruinada de pragas, melancolia e abandono. Dos quatro filhos que tivera, três foram homens; os três morreram antes dos dez anos. Dois anos depois, pai e mãe infortunados pela guerra e a morte prematura de três dos quatro filhos morreram dentro da casa decadente do que fora espécie de palácio rural de Chermont dito II, não se sabe se voluntariamente ou não; o fato é que um dos negros que acabaram ficando por lá, de posse informal da terra ou do que dela restara foi à cidade cantar para Louise la Belle, que já estava com seus trinta e cinco anos e iniciava sua carreira de proprietária de uma honky-tonk – nunca teve nada de bela, o apelido era do mais cruel sarcasmo -, a canção que permaneceria na família do pai de Rita para sempre:
A woman-bird sings and sings
A woman-bird sings and sings
Index, middle, little finger
Index, middle, little finger
Fine three fingers, sweet three rings
Fine three fingers, sweet three rings
Who’d stolen woman’s rings?
Who’d stolen woman’s rings?
No more fingers, now’s your turn
No more fingers, now’s your turn
Now’s your turn you brave thumb
Now’s your turn you brave thumb.
La Belle quis passar a se chamar Chermont the Thumb, mas já não era mais possível mudar de alcunha, o que poderia, aliás, prejudicar seus negócios. Mas, que negócios? - ela se perguntou. La Belle vendeu sua honky-tonk, ingressou no Charity Hospital, foi aprendendo novo ofício. Dez anos depois, lá conheceu um convalescente muito mais moço que ela, tão ou mais carente que ela. Casaram-se. Foi mãe adotiva de Charles Chermont Stevens, aos quarenta e sete anos, abandonado a presumíveis quatro meses de seu nascimento na porta do Charity. La Belle – melhor dizendo, Louise Chermont Stevens – foi a trisavó de Rita. O Stevens desapareceu com o tempo; Charles era negro.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006
SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(3) Outras Dinastias: a do pai de Rita
Se Satchmo já tivesse idade, teria sido em outro estabelecimento que não o de Henry Ponce que teria iniciado sua carreira na música profissional.
Poucos anos antes de Lima Barreto escrever a biografia de Policarpo e seu professor de violão, Ricardo Coração dos Outros, quando Louis Armstrong (Satchmo) jogava tijolos em um dos namorados da mãe a quem presenciara batendo nela, jurando-o de morte pelo resto da sua vida iluminada, com direito a detenção na “Colored” Waif’s Home for Boys - não pelos tijolos, mas por uns tiros para o alto com o 38 que encontrara em casa de um outro namorado de Mayann, como ela era chamada -, Chermont la Belle cuidava de sua honky-tonk com mais zelo que qualquer creollo macho da Nova Orleans daqueles anos de estréia do Século XX.
Não se pode acusar la Belle de vida indigna; dava emprego a músicos e moças que precisavam de um lugar para proporcionar diversão a homens solitários e enfrentava concorrentes invejosos no braço, sempre que preciso. Entretanto, haverá quem considere ainda mais digna a vida de André Chermont, que por lá chegou quando da retomada do território da Louisiana pela Corte Francesa, em 1731. Não se sabe bem o que foi que ele fez, mas é tido como herói pela família por ter sido capaz de resistir aos índios natchez e aos ingleses - aos quais foi cedida Nova Orleans após a Guerra dos Sete Anos, quando Espanha e França foram aliadas, e à segunda foi reconhecida pela primeira a posse de tudo ali à leste do Mississipi que Nova Orleans não fosse.
De André a la Belle, muito originalmente Louise de batismo, houve um rico na família, que prosperou do algodão e se tornou um nobre: André Joseph Levitt Chermont II – título que ignorou dois ou três Chermonts entre o pioneiro e ele, em um período de cerca de cem anos. Aí por volta de quando Ricardo Coração dos Outros fugiu do Rio de Janeiro com sua Olga, quando Nova Orleans já era Estado Americano, Chermont II faleceu, deixando em vida, além de umas filhas que desapareceram Mississipi acima com ou sem maridos, um tuberculoso André Joseph Levitt Chermont III com cinqüenta e cinco anos, sobrevivente da Guerra da Secessão, cuja mulher, Jean Marie Stweart, passava dias e noites trancada em seu quarto, imitando sons que ouvia de uns poucos negros que ainda roçavam por uns poucos cobres lá fora, no que restara da um dia fazenda, a essa altura, já um tanto arruinada de pragas, melancolia e abandono. Dos quatro filhos que tivera, três foram homens; os três morreram antes dos dez anos. Dois anos depois, pai e mãe infortunados pela guerra e a morte prematura de três dos quatro filhos morreram dentro da casa decadente do que fora espécie de palácio rural de Chermont dito II, não se sabe se voluntariamente ou não; o fato é que um dos negros que acabaram ficando por lá, de posse informal da terra ou do que dela restara foi à cidade cantar para Louise la Belle, que já estava com seus trinta e cinco anos e iniciava sua carreira de proprietária de uma honky-tonk – nunca teve nada de bela, o apelido era do mais cruel sarcasmo -, a canção que permaneceria na família do pai de Rita para sempre:
A woman-bird sings and sings
A woman-bird sings and sings
Index, middle, little finger
Index, middle, little finger
Fine three fingers, sweet three rings
Fine three fingers, sweet three rings
Who’d stolen woman’s rings?
Who’d stolen woman’s rings?
No more fingers, now’s your turn
No more fingers, now’s your turn
Now’s your turn you brave thumb
Now’s your turn you brave thumb.
La Belle quis passar a se chamar Chermont the Thumb, mas já não era mais possível mudar de alcunha, o que poderia, aliás, prejudicar seus negócios. Mas, que negócios? - ela se perguntou. La Belle vendeu sua honky-tonk, ingressou no Charity Hospital, foi aprendendo novo ofício. Dez anos depois, lá conheceu um convalescente muito mais moço que ela, tão ou mais carente que ela. Casaram-se. Foi mãe adotiva de Charles Chermont Stevens, aos quarenta e sete anos, abandonado a presumíveis quatro meses de seu nascimento na porta do Charity. La Belle – melhor dizendo, Louise Chermont Stevens – foi a trisavó de Rita. O Stevens desapareceu com o tempo; Charles era negro.
2.07.2006
O INGLÊS, O PORTUGUÊS E O AUSTRÍACO
Aconselhava Bernard Shaw que mulheres deveriam fazer o possível para casar e os homens o impossível para não casar. Não se sabe ao certo se o conselho continua válido, nesses dias de 2006. Mulheres das classes alta e média são criadas para a auto-suficiência; se ficam nas casas de seus pais até concluirem o após-pós-doutorado, aí é outra coisa, de conjuntura, tempos difíceis, muito concorridos. Homens desses mesmos tempos e classes passam pela mesma situação. Nas classes mais baixas, a dificuldade é tanta, mas tanta, que é a mesma de sempre: pouco emprego, de faxina, de pedreiro, de perda do emprego de pedreiro e consolo na cachaça e tome porrada na mulher, faxineira. Não é de se presumir que o conselho do inglês teatrólogo seja dos melhores para essas classes, isto é: todas. Nas baixas, é porrada na certa; nas altas, ganhar dinheiro é preciso, viver, já não se sabe - que nos perdoe o poeta português.
Outra questão a pensar é que homens se esforçaram tanto para ser tidos como atletas do sexo que muitas mulheres gostaram da idéia e passaram a exigir deles um desempenho digno de premiação. Perguntas do próximo vestibular: (1) O Viagra foi inventado por (a) Homens (b) Mulheres (c) Pink e Cérebro; (2) Sua invenção se deu para (a) Resolver problemas de ereção (b) Criar problemas variados (c) Você não tem nada a ver com isso.
Mas algumas respostas são certas e atemporais: (1) Mulheres são mães desde o dia em que nascem; (2) Homens são filhos desde o dia em que nascem; (3) Quando se casam, é assim que se comportam.
Tanta volta, somente para uma vez mais dar razão a ele mesmo: o austríaco Freud. Calma! E mulheres, enquanto não se casam, são mães ou filhas?
Enquanto não se casam.
Outra questão a pensar é que homens se esforçaram tanto para ser tidos como atletas do sexo que muitas mulheres gostaram da idéia e passaram a exigir deles um desempenho digno de premiação. Perguntas do próximo vestibular: (1) O Viagra foi inventado por (a) Homens (b) Mulheres (c) Pink e Cérebro; (2) Sua invenção se deu para (a) Resolver problemas de ereção (b) Criar problemas variados (c) Você não tem nada a ver com isso.
Mas algumas respostas são certas e atemporais: (1) Mulheres são mães desde o dia em que nascem; (2) Homens são filhos desde o dia em que nascem; (3) Quando se casam, é assim que se comportam.
Tanta volta, somente para uma vez mais dar razão a ele mesmo: o austríaco Freud. Calma! E mulheres, enquanto não se casam, são mães ou filhas?
Enquanto não se casam.
2.04.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006
SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(2) O Café da Manhã com o General
- O senhor me chama de general, mas sou coronel.
- Desculpe, é que não sei distinguir fardas, quer dizer, seus sinais, suas convenções, seus... Desculpe, não foi por mal – explicou-se Ricardo V.
- Não há de quê. Não sei ainda se vou chegar a esse posto, o de general. Quem sabe, só na reserva.
Na véspera, o General – que ainda era e continuava sendo na manhã seguinte Coronel – começara a falar do lugar estranho que conhecera, perto de Minaçu, onde teve contato com um silêncio coletivo. Mais que isso – ou menos ou tanto quanto – significativo. Aflitivo! Encontrara a palavra em algum momento da conversa. Ricardo V, porém, não conseguiu prestar atenção na medida necessária ao que o militar dizia; arranjou, então, de convidar aquele que viria a ser uma das principais personagens da revolução de 2017 a tomar café com ele, no hotel onde estava hospedado, com Rita e o filho deles, Ricardo VI.
Quando chegou ao quarto do hotel para dormir, foi um mal estar tremendo. Ricardo V, que pouco bebe, chegou tonto e confuso do jantar. Rita estava acordada, com um copo de uisque nas mãos, sem gelo, mas meio aguado. O menino Ricardo VI dormia. Ricardo V arrancou do corpo a roupa que usava e jogou-a aos cantos, no chão, em um resto de poltrona, já parcialmente ocupada por roupas da mulher, Rita, e irritou-se com isso, com a desorganização, ao mesmo tempo em que precisava dela, da desorganização (do abandono, do esquecimento). A conversa com o General (que ainda não o era) fora perturbadora, ainda ou porque incompleta. Despertou na manhã seguinte ligando para a agência de viagens adiando por um dia a ida da família para os Estados Unidos, à revelia e sob protestos veementes da mulher e do filho, uma dor de cabeça desagradável, insistente, uma espécie de isolamento acústico entre crânio e cérebro, um incomodamento na nuca, nas têmporas, uma irritação, tudo à flor da pele, à beira da exaustão. Avisou, então, que tomaria café com o General (assim ele o percebia).
- Eu e seu filho, ficamos no quarto, escondidos? Com medo desse General?
- Claro que não – Ricardo V respondeu à sua mulher.
- Vamos todos tomar café com ele? – quis saber Ricardo VI.
- Não, não dá, filho, é preciso que eu saiba, afinal, do que é que o General quer falar comigo, que história é essa, de comunidade secreta em Minaçu.
- Secreta? Em Minaçu? – perguntou Ricardo VI.
- Perto, perto de Minaçu.
- Onde? – quis saber Rita. A resposta de Ricardo V foi mal-humorada, típica de quem está inquieto, inseguro, aflito, tudo agravado por uma ressaca, mas nem tanto.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006
SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017
- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –
(2) O Café da Manhã com o General
- O senhor me chama de general, mas sou coronel.
- Desculpe, é que não sei distinguir fardas, quer dizer, seus sinais, suas convenções, seus... Desculpe, não foi por mal – explicou-se Ricardo V.
- Não há de quê. Não sei ainda se vou chegar a esse posto, o de general. Quem sabe, só na reserva.
Na véspera, o General – que ainda era e continuava sendo na manhã seguinte Coronel – começara a falar do lugar estranho que conhecera, perto de Minaçu, onde teve contato com um silêncio coletivo. Mais que isso – ou menos ou tanto quanto – significativo. Aflitivo! Encontrara a palavra em algum momento da conversa. Ricardo V, porém, não conseguiu prestar atenção na medida necessária ao que o militar dizia; arranjou, então, de convidar aquele que viria a ser uma das principais personagens da revolução de 2017 a tomar café com ele, no hotel onde estava hospedado, com Rita e o filho deles, Ricardo VI.
Quando chegou ao quarto do hotel para dormir, foi um mal estar tremendo. Ricardo V, que pouco bebe, chegou tonto e confuso do jantar. Rita estava acordada, com um copo de uisque nas mãos, sem gelo, mas meio aguado. O menino Ricardo VI dormia. Ricardo V arrancou do corpo a roupa que usava e jogou-a aos cantos, no chão, em um resto de poltrona, já parcialmente ocupada por roupas da mulher, Rita, e irritou-se com isso, com a desorganização, ao mesmo tempo em que precisava dela, da desorganização (do abandono, do esquecimento). A conversa com o General (que ainda não o era) fora perturbadora, ainda ou porque incompleta. Despertou na manhã seguinte ligando para a agência de viagens adiando por um dia a ida da família para os Estados Unidos, à revelia e sob protestos veementes da mulher e do filho, uma dor de cabeça desagradável, insistente, uma espécie de isolamento acústico entre crânio e cérebro, um incomodamento na nuca, nas têmporas, uma irritação, tudo à flor da pele, à beira da exaustão. Avisou, então, que tomaria café com o General (assim ele o percebia).
- Eu e seu filho, ficamos no quarto, escondidos? Com medo desse General?
- Claro que não – Ricardo V respondeu à sua mulher.
- Vamos todos tomar café com ele? – quis saber Ricardo VI.
- Não, não dá, filho, é preciso que eu saiba, afinal, do que é que o General quer falar comigo, que história é essa, de comunidade secreta em Minaçu.
- Secreta? Em Minaçu? – perguntou Ricardo VI.
- Perto, perto de Minaçu.
- Onde? – quis saber Rita. A resposta de Ricardo V foi mal-humorada, típica de quem está inquieto, inseguro, aflito, tudo agravado por uma ressaca, mas nem tanto.
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