12.29.2006

VALORES - UMA CRÔNICA INACABADA

A bolsa ou a vida! - ameaçava o assaltante à senhora, que, sem hesitar, entregava a bolsa e ficava com a vida. Trocava seus valores pela manutenção da vida, por mais sem graça que ela fosse. Pouco importava se era uma desprezada e humilhada por se ter desquitado; ou se tinha ou não marido e era uma entre milhares de mal-amadas, salve-salve. Os valores eram aqueles: os da bolsa - que se ía, com os valores dentro. A vida ficava. Enquanto isso, uma outra, morro acima, carregava uma lata d'água na cabeça.
Não muito tempo depois, era engraçadinho dizer-se, Que pena, o Rio, uma cidade tão bonita e... tão violenta. O veneninho corria pelo canto da boca e o carioca se saía com uma resposta, ora irônica, às vezes ressentida.
Depois foi São Paulo, paralizada, atônita, em estado de guerra, nas mãos do crime, do terror sem bandeira nem credo, de dentro, mais que das cadeias, de não se sabe de onde, só se pode imaginar.
No final de 2006, o Rio, de novo: um homem vai dar queixa do vizinho e morre metralhado; uma vendedora ambulante salva a vida do filho de seis anos e morre do mesmo jeito, sem chance de nenhuma queixa; quem viajava de ônibus, adeus: mil queimaduras, morte ou morte em vida.
Cheiramos, nos injetamos, fumamos, ou não: e, em qualquer doas casos, estamos à mercê.
No tempo da bolsa ou a vida, sabíamos onde estavam nossos valores. O problema é que sempre foram poucos: os da bolsa e, para os mais afortunados, os guardados no banco.
Futebol, café, Pelé, samba, chorinho, bossa-nova, religião, exportações, volei, top-models - pense em algo que seja, verdadeiramente, um valor brasileiro: não fica um. E daí? - questionará você, argumentando que os americanos, por exemplo, cheios de moral e nacionalismo, são uma ilha cercada de guerras por todos os lados, e hipocrisias, além de pobrezas e misérias e racismos pornograficamente desnudados, ultimamente por furacões; os europeus, na sua maior parte, encontram-se imersos em um pote até aqui de mágoa de seus ex-colonizados, e tome bombas e incêndios e depredações, pouco importa se sua cultura, latu / strictu sensu, lhes seja um real valor; e que os ultra-religiosos matam-se entre eles, aos outros e a quem estiver por perto, cheios de seus valores históricos e além-túmulo.
Nós não temos valores; e daí? Talvez por isso vivamos placidamente, até que um tiro ou incêndio ou enforcamento num subterrâneo ou numa subida de morro nos alce a um outro tipo de inferno. Talvez daí nos seja natural a combinação explosiva da economia forte e vegetativa com uma das piores distribuições de renda do planeta e suas crias - crianças morrendo e nos matando nos sinais de tráfego, classe média desesperada, gente pobre e gente rica cheirando bosta branca, movimentos supostamente representativos apenas expondo as cáries e a gengivite de nossos campos férteis, a seca, a enriquecer boçais e a matar desgraçados, e, principalmente, a política, sim, verdadeiramente representativa da alma brasileira: eu quero o meu e o resto, ora, que se...
Talvez esteja aí nossa grande possibilidade: nós não temos valor algum.
E quem quiser que acabe a crônica.

12.18.2006

DE VOLTA PRA CASA

De volta ao padrão; à normalidade. Às Terças, um avulso, um texto desconexo do antes e do depois.

Havia uma canção que dizia: Paraíba não é Chicago não. Já uma repórter bem conhecida da TV uma vez disse que Miami parece o Rio, só que no Primeiro Mundo. Se a primeira afirmativa é correta, a segunda parece que não é - e não é mesmo. As praias de Miami começam por uma pista sólida, mal-coberta de areia. Depois, a areia é cheia de cascalho e há tanto cascalho debaixo d’água que é recomendável entrar no mar de sapatas holandesas. As praias do Rio também passaram por aterros, no seu caso, para privilegiar os automóveis, a andar em oitava marcha, característica dos cágados, nas pistas de asfalto duplicadas. No caso de Miami, era tudo pântano; aterro de pântano não pode mesmo dar certo, nem no Primeiro Mundo. Lugar, aliás, onde Miami não fica: seu comércio é legitimamente paraguaio. A repórter só acertou muito indiretamente em aspectos de indiscutível semelhança: o oceano continua sendo, lá e cá, o Atlântico; e a liberdade é atlântica. O comércio é paraguaio, a sandália é havaiana, a Giselle é Büntschen, e os casais se namoram escancaradamente, héteros, homos, bis.

De volta à Pátria, visitei o norte de Goiás rodeado de belgas por todos os lados. A comunicação é mais atlântica que o próprio oceano e nos entendemos em arremedos de Inglês, Francês, Portunhol, fome de comida e de viver, sede de beber o que fosse líquido. Mato pra que te quero, festa pra que te quero, trabalho. O Congo poderia ter sido aqui; e teríamos colonizado a Bélgica.

Deixei de morar com vista para o mar, em Florianópolis. Não ouço mais o vento nordeste implicando com toda razão contra minhas janelas, como não ouço mais os automóveis se espatifando uns contra os outros, na avenida Beira Mar. Minha janela agora é indiscreta e nem precisei quebrar a perna. Minhas mulher e filha foram para o Rio – vou na Sexta que vem, de férias – e o cachorro poodle muito mais delas que meu amigo mudou-se para a casa da nossa empregada de serviços domésticos, de férias – o cachorro, por ora. Grande Bolinha! Bom sujeito, às vezes parecendo Nietzche, mais recentemente grama – segundo sua mais querida, Maria Luiza, depois de uma tosa infeliz. Ela ainda não sabe, mas, na sua colônia de férias, Bolinha foi atacado por um Pit Bull. Patrícia, nossa nobre empregada, contou-me que saiu no jornal a notícia de crianças atacadas por Pit Bulls nas praias catarinenses, no último fim de semana. Bolinha terá que operar o maxilar. Não sei o que foi das crianças, não li o jornal. Impressionante como a técnica do transplante funciona magistralmente: cada vez mais fica provado que transplantar cérebros de Pit Bull para cabeças humanas transforma os possuidores dessas cabeças de cérebros transplantados em Pit Bulls, capazes de adquirir e deixar soltos semelhantes a eles, montados sobre quatro patas. Declarei à nossa empregada, voluntária e provisoriamente tutora do Bolinha, que vou processar o animal responsável pelo animal que agrediu nosso amigo poodle – sem ter a menor idéia de como processar alguém. Muito menos um portador de miolos transplantados de uma raça que se supõe canina.

De volta ao padrão; à normalidade.

11.26.2006

IMPERDOAVEL

Aos meus, mais que raros, cari'ssimos leitores, informo que ate' o pro'ximo dia 6/12/2006 me sera' praticamente impossivel publicar alguma coisa para diverti-los ou entedia'-los (claro que a intencao e' sempre a primeira, mas nao ha' qualquer tipo de garantia para esse tipo de produto). Como pode ser visto, nem acentuar eu posso e escrever em Portugue^s sem acento, mais que desconfortavel, e' perigoso. Por exemplo, se digo que peco, posso estar pecando ou pedindo e, neste caso, nao necessariamente para pecar. Estou fora do ar, fora do clima ameno brasileiro, enfrentando frios feitos com exclusividade para ursos - e ursos polares, naturalmente - e sem acento. E me recuso a escrever "eh" quando quero dizer "e'" e, quando escrevo "e'", fica a pobre da letra em tempo de verbo com duas aspas de um lado e tre^s do outro, em insustentavel assimetria.

Gravi'issimos pedidos de desculpas e at'e breve, com as cro^nicas, os poemas e os capi'tulos de PAREDES QUE FALAM (momentaneamente mudas - mas so' momentaneamente).

Abracos,

Mario.

11.14.2006

MOVIMENTOS

Agenda positiva
Ação afirmativa
Posição assertiva
Palavras expressões contemporâneas
Todas
Querendo dizer não.

Modismos.
Toda hora surge uma bobagem qualquer
Que quando dita pela boca de um dito
Representante
Do povo
Assume seu ar solene
De grossa porcaria.

Protestos.
Nunca se protestou tanto
Inutilmente
Exatamente
Porque nunca se protestou tanto.

Contemporaneamente
O ato de amar
Contra tudo de charlatanismo burrice hipocrisia
Boçalidade
Inclusive o movimento de carros
Transportando vazios
A lugar algum

Plenamente consciente
Da total inutilidade do seu gesto

Permanece protestando.

Assim lhe batizaram sacanagem.

11.08.2006

DE MÉDICOS E MONSTROS

Matemáticos poderão ficar horas discutindo com grande precisão sobre o espaço enésimo. Ficarão aflitos se pelo menos um dos enésimos espaços não servir para que esbocem suas curvas e conforme-queríamos-demonstrar equações. Um deles, só para não ficar de fora, sacará de um computador de bolso a enésima casa decimal de pi.

A Lei das Probabilidades afirma que um físico entrará na roda – que desprezará o espaço onde os matemáticos andaram rabiscando e o próprio planeta Terra surgirá das suas mãos. Em torno dele – é um erro pensar ser correto o contrário – girará todo o infinito espaço, a deixar o enésimo encabulado.

Inevitavelmente invadirá a estratosfera um economista, a desenhar seus gráficos do eixo dos y para o dos x, invertendo tudo – porque foram os ingleses que desenterraram a Economia das valas dos escravos e trabalhadores vinte-e-quatro-horas e, como se sabe, ingleses são canhotos: não à toa, mas solenemente, seus automóveis andam na contra-mão. O recém-chegado recitará debêntures, déficits, superávits e sonetos.

Um contador apresentará a mais perfeita exatidão: aquela onde ativo e passivo se igualam. Na seqüência, um cientista político afirmará: direita e esquerda também.

Quando for a vez das doenças, chegarão os médicos - e muitos: haverá um congresso. Um matemático, após consultar a língua, tornar-se-á sócio do economista, deixando o contador sem palavras: demonstrarão que sintomas multiplicam-se em diagnósticos e estes, em receitas, na razão direta do número de médicos e na inversa do inverso da razão.

Que ninguém queira prever o final – pois, ao invés de advogados, quem chegará serão advogadas.

Exércitos, extra-terrestres, estudantes, desesperados, pacifistas, lixeiros, políticos, aproveitadores e jornalistas vão-se juntar à grande discussão acerca do que seja realmente exato – e apontarão como capazes da resposta os matemáticos, não só por estes dominarem a única ciência humana exata, mas por estarem, desde o princípio – e não era este o verbo – em maior número. Após o incômodo suspense do silêncio que antecede as grandes revelações, aquele do computador de bolso revelará:

- A enésima decimal de pi só é conhecida como enésima. Seu valor não se conhece. A única ciência exata que temos não é exata o bastante para que a última decimal de pi – do velho pi – se revele em seu exato valor, no seu exato e único último lugar.

O silêncio que sucederá o desapontamento será quebrado pela língua, a traduzir-se em infinitos-enésimos idiomas:

- O último não é o primeiro, porque este, dado o generalizado desconhecimento daquele, não se faz conhecido.

Pi.

10.30.2006

UMA ESTRANHA FREQÜÊNCIA

Silêncio. Parece que os automóveis perderam suas buzinas. A festa da democracia é um tanto barulhenta. A festa acabou e que alguém faça o favor de lembrar o poema do Drummond.

Silêncio. Possivelmente será feito silêncio das investigações em curso: já não interessam a mais ninguém.

Silêncio. Governo e Oposição começaram a tramar ruidosamente contra nós.

Silêncio. A bomba norte-coreana começou a explodir. Silenciosamente.

Silêncio. Do lado de cá do planeta, tão somente se contam as mortes e explosões que acontecem do outro lado; por aqui, são silenciosas.

Silêncio. No morro e no apartamento. Jamais a bala perdida foi tão silenciosa.

Silêncio. Muito silêncio, porque a briga da família vizinha é como punhais cortando a nossa carne e, nos nossos ouvidos, o som da nossa morte.

Silêncio. Faz-se necessário um minuto de silêncio para que você possa ouvir o zumbido insuportável que não lhe deixa os tímpanos – que, bom, Drummond, se o zumbido fosse a falsa vienense.

Silêncio. Uma rosa nasceu – faz tempo que ela nasceu num verso do Chico Buarque, mas rosas são como estrelas: somente percebemos seus sons e luzes quando já não mais existem.

O que ainda nos faz lembrar Cartola e Olavo Bilac.

Para quê tanta ciência?

Silêncio.

10.16.2006

MARGINAIS

Poeta e poesia
São marginais sempre
Ainda que raramente cometam crimes
E quando os cometem
Geralmente é contra a língua
E dificilmente contra o beijo.
Gente de teatro quando mata
No mais das vezes é de rir.
Médicos, generais e engenheiros
- uns quando erram, outros quando acertam –
Podem matar de verdade.
Já entre poeta e poesia
Quem morre é sempre o poeta
E nem sempre no final:
Há poetas apressados
Que apressam seu final.
Tudo assim impreciso
Porque poeta e poesia não combinam muito
Com precisão
A não ser de dinheiro.
Se poesia é palavra gasta
Rima fácil de samba-enredo
Poeta é pejorativo.
Pois mesmo sendo assim
E quase sempre sendo poesia verso
Todo poeta vira prosa
Quando revela sua condição marginal:
- Prazer. Poeta.

10.09.2006

TÁXI

Poderíamos falar de...
Política?
Melhor não.
Futebol, então...
Nem pensar.
Melhor não falar do tempo
Que é sobre ele que todo mundo fala
É banal.
Um samba,
Minha vida por um samba,
Um reggae,
Uma opereta
Mas nada disso toca em rádio de táxi.
O motorista cheira mal
E o carro cheira ao motorista.
O cinto de segurança do banco traseiro
Se achado foi roubado.
Se você tivesse um carro, hein?
Mas você não viria com seu carro a Amsterdã
Você mora longe
Você fica lá do outro lado
Só que veio parar aqui.
Parar, nada: andar de táxi
Neste lugar
Que nada tem de Amsterdã.
Ela bem que podia facilitar as coisas
Puxar assunto
Mas parece que a ponta do cabelo dela
Tem muito mais assunto que você.
O motorista não fala nem ouve
Fede.
A palavra já é horrível
E não traduz exatamente o cheiro
De quem dorme e acorda e se droga dentro desse carro
Ele mora no carro,
Percebeu?
Tudo parado e é noite
Atenção todos os carros
Fiquem parados –
A ordem veio de Marte.
Um disco voador! –
Você quis e não viu
E não disse.
Você está prestes a explodir de tristeza
Tem um sonho acordado
Está numa tribo pelado
Dança com eles
Você que detesta índio
Transporta-se
Respira fundo
(O carro todo cheira ao motorista que não dorme)
Vira-se pra ela
Consegue que ela deixe a ponta do cabelo
Por um instante infinito
Solto e sem a mão dela.
Você toma dessa mão
Que é da freira
Da sua mãe
Da sua irmã
Da sua moribunda avó
Quem sabe da sua mulher
Da sua tia de Guaratinguetá
Sua namorada
Sua empregada
A namorada do melhor amigo
A mulher grávida do motorista
Você é o motorista.
Quem é ela?
Sua catinga.

10.07.2006

24 – CAVERN CLUB

“RITMOS DE BOATE” e “CAVERN CLUB” foram dois programas de rádio no Rio de Janeiro, com o “DJ” Big Boy, nos anos setenta do século passado – conta Maria Eduarda à irmã caçula, por telefone. “Big Boy rides again” – era assim que ele abria seus programas. Flávia está aflita: ninguém gosta do nome “Lennon e Vinicius” nem aceita que exista uma canção do brasileiro cuja letra se assemelhe em utopia a “Imagine” – sendo que seria de todo absurda qualquer hipótese de um ter influenciado o outro, fosse na ordem que fosse, tal a distância de ritmos, trajetória e linguagem dos dois, ainda que tenham sido contemporâneos e que coincidências, determinações divinas ou sincronismos lhes tenham tirado as vidas no mesmo ano: 1980. Maria Eduarda sugere à irmã que Vinicius se junte a Louis Armstrong e Pixinguinha no atual Satchmo e Pixinguinha e que o “Lennon e Vinicius” passe a se chamar “Cavern Club”, nome do lugar onde os Beatles se apresentavam na sua distante Liverpool em seu início de carreira e que batizou um dos programas do “DJ”, um dia encontrado morto em um quarto de hotel no Rio.

- Isso dará identidade ao bar que está fracassando e um “gancho” para um relançamento do complexo como um todo – é o que opina Maria Eduarda, e Flávia admite que a irmã mais velha teve uma boa idéia.

- Qual passará a ser o nome do “Satchmo e Pixinguinha”? – querem saber as sócias de Flávia: Rita, Renata e Cláudia. Flávia, que viveu alguns namoros, tendo sido um deles desses que deixam marcas de difícil cicatrização; Rita, que foi estuprada e quem morreu foi o estuprador – de parada cardíaca; e ninguém apareceu para reclamar o sumiço dele, como contou a Renata o policial que investiga a morte do velho cujo cadáver foi encontrado de calças arriadas, perto de uma etiqueta deste complexo onde estamos inseridos, NOITE E DIA, LIVRO E FANTASIA; Renata, que, como Flávia, conhece características físicas do assassino do advogado, crime que vem sendo há alguns meses investigado pela Polícia Federal e também pela Civil (Renata chegou a conhecer-lhe a voz e a proximidade); e Cláudia, que tem ciúmes permanentes do marido Angus, indivíduo de características físicas nada ou pouco atraentes para a maioria das mulheres e que foi capaz de atrair – momentaneamente – a amiga e sócia Rita - sem que Cláudia e o escocês descendente de celtas sequer tenham desconfiado disso.

(Como de todo e presumivelmente, nenhum celta deve ter desconfiado – a não ser que um de seus druidas seja capaz de não só desconfiar como tramar e provocar esse tipo de situação.)

Flávia pensa em criar mais um bar, dividindo o “Satchmo e Pixinguinha” em dois; Renata e Rita são contra - este vem fazendo sucesso e se mantendo cheio com o tamanho que tem – e propõem que o “Lennon e Vinicius” é que seja dividido em dois; Cláudia reage, De jeito nenhum, a ilha é um santuário de “covers” dos Beatles, vai encher sempre e exatamente no seu atual tamanho, especialmente com a nova personalidade - ela argumenta, enfaticamente.

Depois de fumaçadas do cigarro de Cláudia e correspondentes abanares das demais, as quatro decidem que o “Satchmo e Pixinguinha” vai continuar se chamando assim; e que aqui, doravante, vamos nos chamar “Cavern Club”. Agora é reformar e divulgar e assunto encerrado – Cláudia diz e se levanta, esmagando o que sobrou de um cigarro no cinzeiro.

É quando Flávia mergulha em profundos pensamentos e sai daqui sem mesmo se despedir das amigas, como se estivesse em uma espécie de transe, triste da saudade e dos traumas do amor fracassado, confusa com o rumo da sua vida, que vem sendo rondada de perto por duas mortes, uma presenciada por ela, a outra, vivenciada por Rita.

10.02.2006

REFLEXOS

O mar hoje reflete um céu cinzento.
Pensando bem
O céu nem tem tanta culpa assim
Nem o mar é tão reflexivo assim
Tanto que o céu está se azulando
E o mar vai se acinzentando por conta própria.

Não me resta saída
Senão associar idéias
Evidentemente estapafúrdias:

Serão os votos reflexo do país
Ou terão os votos vida própria?

9.26.2006

POR FAVOR, DISCORDE

De tanta auto-ajuda, finalmente a humanidade vai se tornar o conjunto de seres que se ajudam.

Sociedade fraterna é aquela fundada por Caim e Abel.

Amor conjugal: quem saberá conjugar esse verbo?

Amor filial é aquele que se expressa pela transferência de lucros para a matriz.

Dois pares de tapas nas costas: dois amigos se encontrando depois de longo tempo. Quando fazem ruído: dois políticos que passaram a tarde juntos.

Jantar à Americana é buffet. Sair à Francesa é deixar o jantar à Americana sem que ninguém perceba.

Os Estados Unidos, depois de acabarem com o Segundo Mundo, claramente mostram que estão descambando para o Terceiro. Tanto assim que eu vi um filme americano onde a atriz aparece sem sutiã e fazendo sexo. Ao mesmo tempo.

Filme francês de suspense agora é thriller. Globalização.

Estamos na reta final das eleições. Há eleitores de rádio de pilha no ombro e há outros de paletó e gravata e outros ainda de smoking. No universo feminino, enquanto umas ficaram em casa de pano na cabeça, outras se fizeram presentes; no lugar de panos, chapelões. Os candidatos usam tapa-olhos.

No ano em que o Brasil perdeu, inteligente mesmo é propor ao eleitor que tenha a mesma empolgação que teve na Copa. Mas, faz sentido: fazer o que na cozinha?

O avanço tecnológico vertiginoso que se configura no mundo de hoje é a introdução preferida de artigos que retratam algo que já se passou. Especialmente nos anais.

Anais: palavra sem singular.

Fazer frases não é monopólio de ninguém. E se alguém patenteou, foi o Barão de Itararé, que, quando vivo, queria mesmo era cair no domínio público.

Generosamente.

9.19.2006

DISCIPLINA

Não existe mendigo
Assaltante
Artista
Estuprador
Sem disciplina -
A arte de dormir e acordar
Bem.

Seus antepassados
Espreguiçavam-se;
E você?

Alongue-se
Prolongue-se
Depois e
Principalmente
Antes
De dormir.

Respire
Repare
O assaltante
Minutos antes
De lhe ceifar as orelhas
Estica o braço

Alonga-se
Como o mendigo
Antes de fazer a barba
Sem espuma
Com a lâmina
Catada no lixo.

Você pianista
Lutador de boxe
Cantora
Lutadora de judô

Antes do bemol
Do direto
Da dissonância perseguida
Do bum! No tatame

Tal como o executivo
Se alonga –

Nunca por disciplina.

Para suportá-la.

Se os crucificados
Fossem antes alongados
Teriam sido suas cruzes
Mais leves?

9.11.2006

DE PALAVRAS E BARES

Alguém do século passado – o XXI, lembra? – pesquisou em um dicionário da época palavras que não existem mais (como dicionários também são coisas do passado). Empolgou-se, viajou mais ainda no tempo - o passado -, e descobriu personagens e coisas que eles andaram dizendo ou cantando, lá, no tempo deles. Dizem que depois ficou louco, a tentar desenvolver idéias próprias a partir das que havia visitado, viajando no tempo. Contam que desapareceu; mas deixou no chão do bar, num obsoleto guardanapo, escritos que, atualizados, diriam mais ou menos assim:

***

Oscar Wilde recomendou que se deve resistir a tudo; menos às tentações.

Ora, o que deve então fazer um prudente?

Evitá-las.

***

Segredo é pra quatro paredes; já o adultério é pra oito.

***

Casal transformou-se em duplamente adúltero – só não se sabe quem começou, ele ou ela.

Um outro casal seguiu os passos do primeiro. E assim, um terceiro, um quarto, um quinto...

Logo:

Segredo é pra quatro paredes; adultério é pra 8, 16, 32, 64...

***

Até os impotentes sabem: adultério é uma potência. De dois.

***

Stanislaw Ponte Preta, sobre passageiros em pé nas “lotações” – pequenos ônibus do tempo dele -, contou que a lei permitia um máximo de 8 passageiros de pé, dentro daquele meio de transporte coletivo; e que, depois, a lei do 8 caiu - e, como 8 deitado é infinito...

Portanto:

Segredo é pra quatro paredes; adultério é pra oito. Deitado.

***

Se cometer adultério for assunto de lei, cometa. Se for “de lei”, não cometa.

***

Adultério: melhor não comentar.

***

Não é à toa que você lê essas frases soltas, de palavras e atos antigos, na parede deste banheiro de bar – para que você se pergunte, afinal, o que resiste mais ao tempo: as palavras? As pesquisas? Ou são os bares e seus guardanapos?

9.05.2006

O BRASIL E O UNIVERSO EM EXPANSÃO

UAI nem sempre é interjeição mineira, como não se pode acusá-la de inconfidência, pelo menos sem provas. Mas, se nem interjeição nem inconfidência, insurreição, sim: a UAI - União Astronômica Internacional – rebaixou Plutão a planeta anão. Mas será possível arbitrária e autoritariamente uma UAI qualquer retirar um planeta de sua órbita, reduzindo-o a uma sub-órbita – assim, de um ano-luz para o outro? Isso já causa revoltosos protestos de apaixonados e estudiosos astrônomos - sem que, no entanto, sejam esperados enforcamentos seguidos de esquartejamentos por conta disso. Disso que, diga-se, nem é novidade mais.

Da mesma forma, faz tempo que se comenta, em centros de pesquisa e botequins, que o universo vive em expansão. Se o big-bang foi ou não seu começo, aí o buraco, além de negro, é muito mais profundo; cientistas e curiosos embriagados ainda não conseguiram chegar a um consenso. Mas todos garantem: que o bang foi big, ah, isso foi – e, vá lá, reduzam Plutão a plutinho – mas que ninguém se meta a falar em fim do universo.

O universo vai-se expandindo espaço infinito afora, só pra ver quem é mais infinito no fim das contas: ele, universo infinito, ou o próprio infinito. E o fim das contas não existe, qualquer endividado sabe disso muito bem.

O que talvez também não seja novidade é que o Brasil segue a mesma trajetória da cósmica expansão.

Professores são seres capazes de transmitir conhecimento e provocar reflexões e modificações. Por isso, no Brasil, são tão desprezados e mal pagos. Formam então os professores uma galáxia à parte, que sai a protestar nas ruas contra a degradação da sua profissão, o tanto que deles já tiraram, a destruição da escola e do acervo científico-educacional-cultural público, assim por diante. Pelas demais organizações sociais brasileiras – ou galáxias -, são vistos como vagabundos que reclamam de barriga cheia, alimentada pelo povo.

E povo é outra galáxia, totalmente desconhecida pelas demais.

Estudantes, que fazem parte da mesma galáxia dos professores, deles se afastam.

Elites sócio-econômicas se queixam da carga tributária, dos juros altos, dos gastos públicos e, ainda que empreguem parte – planetas, anões ou não – da galáxia denominada Povo, e que parte dessa parte venha das escolas e universidades - que compartilham da órbita dos Professores -, a galáxia Elites se afasta das demais.

Políticos – ah, os políticos! - sabem de tudo, tudo propõem, prometem muito mais. Ouvem pouco. Muitos deles, percebendo espaços que se agigantam na camada de Ozônio, é na luz crepuscular que bem se adaptam à inescrupulosa. Rapidamente se libertam da gravidade e de todas as demais leis. Têm na galáxia Povo seu alvo predileto: eis a inspiração de Guerra nas Estrelas.

O Governo, ainda que majoritariamente orbitado por políticos, é uma outra galáxia. Aumenta impostos e diminui custos, sim senhor – senão, os professores não estariam reclamando.

Galáxias como a dos traficantes vão-se expandindo à velocidade da luz, na razão direta das massas e na inversa do quadrado da razão.

No lugar da razão, galáxias distintas, estranhas, planetas a desaparecer da órbita, a se violentar e a se perder no éter, a se plutanizar – expressão que, ninguém duvide, brevemente será cunhada – e não parente, do desprezado e simultaneamente temido, porque desconhecido, vernáculo.

A razão provavelmente preferiria professores bem preparados e pagos, universidades aparelhadas, concorrência saudável entre escolas públicas e privadas, empresas públicas e privadas eficientes e competitivas oferecendo o melhor, de empregos a produtos, comungando com cidadãos de emprego e vida dignos o pagamento dos impostos necessários e suficientes para o Estado-servidor.

Quereria presumivelmente a razão cidades menos tensas, com melhor distribuição de renda e demografia, transporte público de qualidade, paisagem em harmonia com a população, progresso social e desenvolvimento no ritmo que lhes fosse adequado, a elas e eles, cidades e cidadãos. Seu contrário são as mega-cidades, com sua mega-miséria, mega-violência, mega-engarrafamentos, mega-corrupção, mega-demagogia, mega-poluição...

Mas, que mega, hein?

Dizem que é assim por culpa da história, dos Estados Unidos e dos portugueses; por culpa do povo, do governo, das elites; a culpa é do clima, a culpa...

O Brasil se expande para fora de si, por meio de suas distintas galáxias distantes umas das outras, afastando-se, indo-se, cada qual por si.

Ao contrário do universo, o começo do Brasil é conhecido.

Bem como seu fim, tudo indica, o será em breve.

8.28.2006

VOCÊ, LEITOR

No caso deste blog, o título aí em cima é de um realismo acachapante. Eis aqui um blog de um leitor só – não necessariamente solitário, mas muito provavelmente sempre o mesmo. Pode, aliás, ser uma leitora, a incrementar o contador de visitantes sempre de 1 – lembrando uma torcida, a gritar depois de um gol: “mais um”.

Injustiça da minha parte com você, este outro ou outra você, que também ajuda a incrementar o contador, eu sei. Um é pouco, dois é bom, três, então, nem se fala. Sem demagogia – não se vive neste espaço de votos, vive-se aqui até sem salário, que dirá de mensalão -, quantidade não é o que se deseja por aqui. Melhor - aqui - é essa qualidade que é própria de você, leitor, nesta sua condição ímpar; esse intimismo, com S, de nem próximo nem distante. Intimismo do mesmo diâmetro de uma mesa de bar e com a profundidade e a poesia que lhe são peculiares e, principalmente, a conversa fora e a perspectiva de chamar um táxi e deixar o carro próprio no lugar que lhe é próprio: o estacionamento. Até a noite seguinte.

Temos planos. A começar por leitura especializada – e você, leitor, se enquadra nessa categoria. Quer se candidatar a crítico dessa obra fragmentada entre Terças e Sábados?

Buscamos concursos – e aceitamos sugestões.

Pensamos em organizar esta bagunça – esta com T, de tocante de tão próxima – e criar desvios do blog para seções: “A DINASTIA”, “PAREDES QUE FALAM”, “POEMAS”, “CRÔNICAS”, e outras pretensões. Ficará mais fácil e engenheirístico – face que este autor fará sempre questão de mostrar. Oferecer, não: nem no boxe, onde o adversário é como deve ser um adversário: um saco.

Ficará, de certo, mais bonito, embora desconsertar deva ser - às vezes, pelo menos - o papel da arte. Se não, Nelson Rodrigues não teria afirmado que toda mulher gosta de apanhar nem que ninguém gosta de preto porque nem o preto gosta de preto. Desconsertos assim provocam o que a arte mais gosta de provocar: reação. Do gênero “Eu, não”. E aí a perspectiva de grandes mudanças para melhor, mudando o que e quem – principalmente – deve ser mudado. Grande Nelson. Quem somos nós?

Vez por outra algo que pretende ousar um pouco mais, explorar o belo idioma que nos coube um pouco mais, descobrir suas veias, suas coxas, seu sexo, nuances e buços. Outras vezes a tentar provocar um risinho de canto de boca, uma careta, uma ruga passageira de desconfiança ou curiosidade. Em todas elas, uma cumplicidade.

Com você, leitor. Ou leitora. Você vai bem? Volte sempre, hein?

Por favor.

E obrigado.

8.21.2006

TÉDIO

(1)

E se você fosse um grande entediado
Na estréia de uma Segunda-feira
Uma temperatura extrema
Frio ou calor, tanto faz

E saísse a caminhar na hora do almoço
Tanto faz se frio ou quente o ar lá fora sopra
Sob um sol que só deixou de fora raios
Rajando seu corpo e a calçada

E o céu ficou azul e sem vergonha
E o ar e o sol e o céu levantaram
Mais que saias
Humores

Continuaria assim entediado
Ou faria como eu fiz
– e era frio que fazia –
E jogaria o tédio precipício abaixo?

(2)

Se o problema é esse noticiário
Pior ainda saber que o que está acontecendo
É bem pior do que isso que eles contam
Pode ficar tranqüilo
Isso não é tédio não
É revolta
Não cura com o sol não
Mas o tédio passa
Fica somente a revolta.

Coisa pouca.

8.15.2006

SOCIEDADE ANÔNIMA

Era só o começo. Era antes.

Os órgãos de comunicação atuantes no país foram advertidos de que qualquer tentativa de manipulação da opinião pública, omissão, divulgação irresponsável e/ou falsa de notícias seria respondida por ampla divulgação via organismos paralelos independentes e um boicote generalizado. A iniciativa privada acabou por acatar o convite para que provesse os recursos para o combate ao crime organizado e seus derivados, parcialmente como investimento, parcialmente como substituição de impostos – primeiro, unilateralmente decidida; depois, divulgada e negociada com o poder público. O repasse de verbas foi através de um fundo gerido por particulares e publicamente auditado por vários dos mesmos anteriormente advertidos veículos de comunicação.

Enquanto o poder público continuava a abarrotar as já hiper-lotadas cadeias, parte daqueles recursos da iniciativa privada possibilitou contratar a construção de maiores e melhores presídios. Sua expansão era planejada por meio de estatísticas, continuamente aferidas no decorrer dos fatos. Nas novas prisões, à exceção de desbalanceamentos momentâneos, só toleráveis por um ou dois dias, nunca uma cela seria habitada por mais nem menos que três presos – porque um, mais que pouco, seria caro; dois, uma fórmula boa demais para a cumplicidade revoltosa; a partir de quatro foi considerado superpopulação; e a infância mostrava que dois geralmente se aliam e alijam um terceiro, que passa a se defender, minando os planos dos outros dois. Foi instituído o trabalho remunerado para presidiários. Parte da remuneração ia para as famílias dos presos e parte era depositada para uso deles, depois do cumprimento de suas penas. Nos presídios, toda e qualquer conversa telefônica passou a ser ouvida e automaticamente gravada, em tempo real, local e remotamente, sempre com o conhecimento prévio de quem conversava. Posteriormente, essas práticas incorporaram-se à legislação. Apesar do veemente protesto de alguns setores da sociedade informada e instruída – “Assim, todo mundo vai querer ir pra cadeia” -, insistiram em programas de educação e re-enquadramento social. “Sangue bão” foi uma das expressões que desapareceram. A reclusão e reorientação de menores de 16 anos infratores baseou-se em substancial assistência médica, psicológica e educacional. Casos tidos como patológicos e sem retorno foram encaminhados para centros de reclusão especiais, onde o exercício de atividades produtivas era incentivado. Do lado de fora, por meio da gestão de instituições religiosas previamente analisadas, investigadas e qualificadas, desenvolveram-se programas de assistência a viciados para maximizar a cura e minimizar a dependência. Agências de propaganda e marketing realizaram, por conta própria e sem remuneração, campanhas de educação e alerta contra o uso de drogas pesadas. A maconha foi liberada. A exploração de pontos para a sua venda foi concedida a ex-traficantes cumprindo penas em regime semi-aberto, compatíveis com seus atos praticados no período do tráfico, desde que estes não incluíssem crimes de morte, tortura ou seqüestro. Todas as demais drogas traficadas foram mantidas na ilegalidade e assim combatidas, até que índices do nível de educação e qualidade de vida da grande maioria da população alcançassem padrões mundialmente tidos como satisfatórios. Já com o envolvimento do poder público, para combater o tráfico remanescente, o armamento, preparo e remuneração das forças armadas federais e das polícias federal e estaduais teve incremento expressivo, simultaneamente a estratégias de aceleração de substituição, julgamento e punição dos corruptos. Diminuição da pena, programas de reabilitação e re-enquadramento social, proteção e troca de identidade foram concedidos a alguns criminosos, em troca de confissão e delação. As fontes de renda foram ainda suplementadas por meio do reingresso incentivado e condicional de dinheiro anterior e ilicitamente expatriado, perdão parcial e condicional à sonegação e aporte voluntário de pessoas naturais do país e exterior. Para inibir a continuada proliferação do vício, organizações não-governamentais passaram a prover assistência psico-social a famílias ou pessoas de baixa renda e/ou de desempregados e também àquelas que se candidatassem ao programa em troca de trabalho voluntário ou a contribuir com recursos, financeiros ou não.

Tudo em meio a tenebrosos atos de terror. Em resposta, persistência.

Nomes de candidatos corruptos circulavam em listas, na mídia e boca-a-boca, especialmente nas regiões mais ermas e/ou de analfabetismo pronunciado. Eles ocupam hoje algumas das celas das novas prisões. Sempre em número de três.

Grandes fornecedoras de obras e serviços públicos foram convencidas a firmar de público um pacto que liquidou com velhos esquemas de corrupção e acerto prévio do resultado de concorrências. Inibiu novos. Funcionários públicos de histórico honrado foram prestigiados com homenagens e aumento de salários. Agências supra-partidárias foram encarregadas da gestão da carreira do funcionalismo público, que passou a competir em perspectivas de ascensão por mérito e resultados com as típicas do setor privado. A demissão de funcionários públicos incompetentes e não dispostos a progredir e colaborar passou a ser praticada. Empresas estatais e privadas concordaram com a criação de um fundo para desempregados, preparando os dispostos ao reingresso no mercado produtivo e suportando-os minimamente até que ele ocorresse.

Para a remodelagem estrutural do país, com o poder público já devidamente ciente de suas atribuições e responsabilidades e com uma visibilidade jamais vivida de seus atos, com verbas da parcial ou integral concessão à iniciativa privada da exploração de empresas públicas por prazo determinado, regulada por agências supra-partidárias fortalecidas, além da proveniente de uma racional reforma tributária, foi implantado um amplo programa de valorização do magistério, com ênfase nos salários e no preparo. A complementação educacional a domicílio foi oferecida a famílias e pessoas de baixa renda e/ou sem acesso a expressões artístico-culturais. Banidos foram os exames de avaliação de cursos por meio das provas a que se submetiam seus alunos e ex-alunos. As cotas para minorias foram substituídas por cursos de preparação para o vestibular para os estudantes em escolas públicas, até que estas atingissem o devido grau de competitividade com as particulares.

A verdadeira droga foi finalmente banida: a ignorância.

Antes era só o começo. Antes era 2006.

8.08.2006

DE CABRITOS E CANIVETES

“Bom cabrito é o que não berra” - será verdade?

Aquela viagem pelo interior, que incluiu estradas rurais ou coisa parecida – mais pra coisa parecida -, trilhas a pé, rios, percurso de barco - tudo a trabalho, nada de eco-turismo -, iniciou-se por sugerir uma prosa sobre cabritos (lembrando que bodes são muito espaçosos).

Antes do almoço, corcoveando dentro de uma camionete que era pra ser confortável, proseou-se sobre a provável reeleição do executivo-mor. Constatou-se que o excesso de sua exposição na mídia é que lhe esgota a inspiração para tiradas de efeito. Já do lado de quem as ouve, a paciência é que vai agonizando. Essa experiência já foi vivida com o mandatário anterior; tudo indica que a viveremos outra vez. Do lado do mandatário, portanto, constatou-se que bom cabrito é o que não fala.

Enquanto almoçavam em acampamento de obras bem no meio daquilo tudo, mata, rios, um calor seco sob nuvens a ensaiar uma chuvinha que não viria, falaram do barco no qual pretendiam navegar dali a algumas poucas horas:

- O motor anda bebendo demais.
- Não vai dar pra ir e voltar.
- Claro que dá.
- Ce tá louco, sô; não dá, não.
- Dá.
- Não dá.

E continuou aquela discussão de cabritos roucos, absolutamente inaudíveis, nenhum capaz de convencer ao outro. Aliás, ninguém ali era cabrito, eram pessoas vividas, experientes. Sem ofensa, estavam mais pra bodes. Se havia algum cabrito, era justamente o barqueiro, cuja opinião sequer era ouvida, que dirá considerada. Pra convencer bode, cabrito tem que ser muito bom de berro.

Depois de novas trilhas a pé e quase-estradas na referida camionete que era pra ser confortável, fizeram seu trajeto no referido barco. Na ausência de coletes salva-vidas, a tranqüilizar a todos, um par de remos. E um homem não é muito mais que um par de remos.

As águas, a paisagem, tudo aquilo foi ressuscitando corpos e mentes cansados do poder e da falta dele. E homens não são muito mais que sua ressurreição.

Que bode ou cabrito foi que venceu a discussão, ninguém sabe - mas a gasolina do barco acabou, no meio do percurso de retorno.

Quem pratica boxe conclui, precipitadamente, que um homem não é muito mais que suas luvas de boxe. Já quem anda de bicicleta entende que um homem não é muito mais que sua bicicleta – tanto assim que sempre se pergunta: casar ou comprar uma?

Porém, nem luvas de boxe nem bicicleta as havia.

O barqueiro revelou:

- Tem um pouco de gasolina no tanque e um pouco mais nesta vasilha – e perguntou:

- Alguém tem um canivete?

Sem ter a menor idéia da utilidade que poderia ter um canivete naquele instante, o mais peixe fora d’água de todos, nascido e criado em beira de praia de cidade grande, respondeu:

- Sim. Eu tenho um canivete.

E aí lhe foi dada a divina graça da revelação: seu canivete serviria para cortar o fundo de uma garrafa plástica de água mineral; esta, depois de cortada, se prestaria como funil entre a vasilha avulsa com gasolina e o tanque do barco, a fazer o motor à explosão explodir à vontade outra vez, pondo o barco a navegar de novo e de volta à terra, prometida e quase-firme.

Foi assim que ficou provado que – sem entrar no mérito da ressurreição -, um homem não só não é muito mais que seus remos, luvas de boxe e bicicleta, como, definitivamente, um homem nada mais é que seu canivete.

Portanto, minha amiga, da próxima vez que seu namorado lhe convidar a um motel, antes que alguma coisa deixe de funcionar, pergunte a ele:

- O canivete veio?

Ou fique a ouvir bodes e cabritos.

8.01.2006

A ESCOLHA É SUA

Se você pudesse escolher, claro, passaria a vida de bom humor. Aquele estado de espírito que mantém você bem disposto, uma alegria pertinho da superfície, pronta para aflorar à mais fraquinha das piadas. Você, aliás, hoje, está um ótimo contador de piadas. Contador, que nada: inventor. Você – com este seu bom humor – está afiadíssimo, criativo, tudo é oportunidade para uma grande tirada. Seus amigos percebem, ficam olhando pra você com um ar de O que foi que deu nele? - já percebeu? Você já acordou assim, de bom humor. Foi carinhoso com a mulher, brincou com o cachorro, nem se importou de ter pisado no cocô que ele fez no tapete novo da sala. E olha que você estava descalço. Foi pro trabalho a pé, de tão bem disposto, e não houve nada de novo, não. Nem hoje, nem ontem: nenhum aumento, promoção, nova oportunidade, nem mesmo uma insinuação da gostozona que voltou de férias. Nada disso, pura rotina, pura, rasa, medíocre mesmice; e você não é medíocre pra gostar da mediocridade nem da mesmice - tanto assim que, vira e mexe, se irrita com essas duas, quer mudar tudo, fazer tudo diferente. Fica até de mau humor. Mas hoje, não: nada abalou este sorriso envolvente. O papo da mesa é que está ficando um pouco chato, engraçado, todos estavam de bom humor, você – especialmente - estava tão bem humorado, o que foi que fez você mudar de humor assim de repente?

Podendo escolher, não perderia seu tempo procurando um livro interessante quando as livrarias só oferecem Como manter a calma, Como vencer na vida, Como vencer o stress, Como ter sempre bom humor, Como ser líder em vez de chefe, Como chefiar seu chefe, Como comer e emagrecer, como, como, como, o quê, o quê, o quê... Quem? Você? Quando?

Aquela revista já traz pergunta e resposta na capa: “COMO ACABAR COM O CRIME ORGANIZADO? SEIS PASSOS INFALÍVEIS, BASEADOS NA EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL E NA LÓGICA DE ESPECIALISTAS”.

Se você pudesse escolher, iría pra casa agora, amaria sua mulher perdidamente, deixaria a TV ligada no programa que fosse o mais imbecil de todos – sem perder tempo com essa terrível escolha -, comeria batatas fritas e dormiria sobre a cerveja derramada, um pé com a meia, o outro, sem. Sua mulher está, de fato, ao seu lado, mas algo rodeia você, sai de dentro da sua cabeça e passeia à volta da sua cabeça, lhe expõe cenários de vida e de morte, dos caminhos de poder - poder subir, parar, desaparecer, meter a porrada no primeiro que se atrevesse. Sua mulher se queixa de um cansaço que afirma nunca ter sentido, um vazio, uma vontade de chorar, ela não sabe expressar bem o que está sentindo. Perguntar se não é TPM seria reduzi-la a alguém sem escolha; você não faz isso e, se pudesse, daria um abraço nela, diria a ela, amanhã é outro dia, você vai ver, isso passa, tudo se resolve, é só ter calma, já passamos por tanta...

Na TV, um exército dizimou trinta e sete crianças.

7.25.2006

EXPERIÊNCIA OU MORTE – OU DEUS SERÁ O GARÇOM?

Você já foi mais velho? Não? Eu já fui mais moço.

Ser solteiro é melhor que ser casado. Você já foi casado? Eu já fui solteiro.

O falso moralismo nasceu. Seu parteiro era o verdadeiro. O verdadeiro morreu. De parto súbito.

Há uma obviedade mentirosa, o que é um paradoxo, pois mentira que é óbvia não é mentira, mentira que é mentira se parece com a verdade e verdade verdadeira nunca é óbvia. Sexo é uma coisa e amor é outra. Que alguém me diga, do sexo – saudável – se ele é desamor. Se não é desamor - amor não é?

Toda vida após a morte é plausível, já que é plausível existir um código a se formar da mistura de códigos trazidos em diferentes líquidos e, misturados os códigos, se instalar um novo dentro de alguém - que é código feito de mistura de outros códigos trazidos em líquidos. Tal como esta, a mistura recém-chegada viverá a questionar a vida e a morte e, se quiser e puder, a repetir a mistura líquida de códigos. O que jamais se explicará é a vida curtinha, de natimortos, de bebês mortos, de jovenzinhos e crianças mortas, sem tempo para questionar.

Se você acha que está mais perto da morte é porque se esqueceu daquela vez em que quase foi atropelado, afogado, dormiu dirigindo, deu de cara com o cara armado, o elevador chegou dois degraus acima, o avião teve um susto e deu uma chacoalhada que criou o milagre do copo solto no ar, dormiu debaixo do viaduto, foi cachorro ou gato ou tatu e atravessou a pista, ali era só mato, agora é cimento é aço, comeu sabão pensando ou querendo que fosse comida, cheirou o cheiro que não deveria ter cheirado, bebeu do líquido que não deveria ser bebido, meteu-se – foi metida? – onde – por quem? – não deveria ter sido, olhou e viu o que era proibido, escutou e ouviu um tiro, ou então foi só um zumbido, era uma faca a cortar você a extirpar de seu dentro um apêndice. Você é que é um apêndice. A morte é que é inteira. A vida é um quase.

- Garçom! Minha quase, por favor.