O teclado é pequeno demais para nós onze. Continuemos assim, semi-non-sense, treinando boxe, observando jiu-jitsu no tatame em frente. O boxe é knock-out, black-out, o outro-out: o outro fora do ar, apagado, religado somente no momento de erguer o braço do vencedor, a ratificar: você venceu. O outro – o que perdeu - levanta-se da lona com as pernas exaustas, uma vesguice nos ombros, os olhos vergados, a falência do fígado, a embriaguez dos rins, um sangramento no sexo. Trôpego, mas de pé novamente, tem um dos braços erguidos pela mão do vencedor - que está com as pernas exaustas, uma vesguice nos ombros, os olhos vergados, o fígado nos rins, um sangramento no sexo. O jiu-jitsu continua, no tatame em frente. Obstrui, contém, aprisiona, imobiliza. Humilha. O outro. Que está sob você – que venceu novamente. Os dois deitados no tatame, cada qual num quimono, sem saber se faz frio ou calor, lá fora dos seus quimonos. Um, ativo. O outro, passivo; imobilizado; depreciado. De repente, levantam-se; e cumprimentam-se, curvando suas cabeças um para o outro.
Há uma imensidão incontável de gentes comuns, gentis, gentias, pacíficas. É a maioria. E, dentre as minorias, há uma que, vira e mexe, é mais forte que a maioria. É ela a capaz da sedução própria da serpente, da imposição, do desprezo por qualquer existência que não seja a sua própria. Essa minoria seduz, submete, derrota e usa a maioria. Até que um dia se trai, não consegue se esquivar de si nem cuspir a tempo a baba do próprio veneno, em transe com o ruído do chocalho, do guiso que traz dentro da cabeça, cabeça própria de serpente, e vai ao chão, knock-out, black-out. Fica exausta, inativa, depreciada, e ninguém a mantém desse jeito, imóvel, imobilizada, depreciada. Põe-se agora de quatro, se levanta, se joga nas cordas, procura um braço de vencedor para erguer. Encontra somente um tatame vazio. Numa lona desabitada; num estádio sem platéia.
O teclado é que é invariavelmente pequeno demais para nós doze.
O DIÁRIO DO MARIO contém crônicas e poemas de Mario Benevides, além do embrião do romance A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO, do mesmo autor, publicado em 2007 pela Design Editora, aqui no blog com o título A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS.
5.30.2006
5.23.2006
UM HOMEM, AFINAL, O QUE É?
(Para Maria Luiza e Maria Beatriz (Bia))
Um homem não é muito mais que sua mulher
Sua filha
Seu irmão
Sua sobrinha
Poucos pares de meias
De amigos
De amigas
Sua profissão.
Um homem não é muito mais que seus sonhos
Projetos
Ex-namoradas
Beijos
Camas.
Mulher não é muito mais que um homem
A não ser muito mais
Coragem
Medo
Valentia.
Um homem
Pode ser um picareta
Um egoísta
Safado
Corrupto
Psicopata pensando em si
Somente em si mesmo
Somente em seus planos
De vitória
Sempre discutível
Para os outros
Não para ele
Para ele seu sucesso
Esse tipo de homem
Não tem discussão
É sempre sua vitória só o que interessa
O dono da verdade
Da história
Da morte
Da vida
Alheias.
Mas aí não será um homem.
Mas aí não será uma mulher.
Mas aí não será ninguém.
Um homem não é muito mais que sua mulher
Sua filha
Seu irmão
Sua sobrinha
Poucos pares de meias
De amigos
De amigas
Sua profissão.
Um homem não é muito mais que seus sonhos
Projetos
Ex-namoradas
Beijos
Camas.
Mulher não é muito mais que um homem
A não ser muito mais
Coragem
Medo
Valentia.
Um homem
Pode ser um picareta
Um egoísta
Safado
Corrupto
Psicopata pensando em si
Somente em si mesmo
Somente em seus planos
De vitória
Sempre discutível
Para os outros
Não para ele
Para ele seu sucesso
Esse tipo de homem
Não tem discussão
É sempre sua vitória só o que interessa
O dono da verdade
Da história
Da morte
Da vida
Alheias.
Mas aí não será um homem.
Mas aí não será uma mulher.
Mas aí não será ninguém.
5.15.2006
UM, DOIS, FEIJÃO COM ARROZ; E UM ESQUELETO
Um homem dentro de casa mexendo em seus canivetes, malas, recolhendo o lixo, olhando-se no espelho, levando a bicicleta ao médico ou o cachorro a fazer xixi e cocô, um filme. Uma canção antiga, um pai que sabia limpar canivetes, pintar paredes, lixar, envernizar, passar o Sábado. Eu nunca soube.
***
Fumar é inspirar a morte, profundamente; e expirar a vida, lentamente. Inspirar a morte é aspirar a vida. Palavra de ex-fumante.
***
Ninguém entende mais de gente que tapete. Aos gênios, serve-se a voar; aos medíocres, pisar; aos sonhadores, escorregar.
***
Limítrofes:
Atores; boêmios; poetas; cantoras de boate; freqüentadores de bingo; Bolívia.
***
Quando se anda por aí, tolamente, a olhar o mar, paralelamente aos automóveis e seus autômatos a dirigi-los, quando se vai à farmácia ou à padaria, quando se é gente de bairro, atenção: é um raro momento em que uma bomba deixou de explodir ao seu lado.
***
Mulheres e suas bundas: nada de novo no front.
***
O Word é um software puritano. Assinala bundas em vermelho e depois não deixa que elas sejam adicionadas ao dicionário. Também não permite que se as ignore.
Um puritano incorrigível.
***
Depois não me diga que eu não telefonei, que eu não escrevi, não lhe pisquei o olho, não me atrevi, não me arrisquei, não contei piada nem me zanguei. Apenas eu não era quem você queria. O que me aborrece é que isso me poderia ter sido dito na primeira vez em que eu telefonei, que eu escrevi, lhe pisquei o olho, me atrevi, me arrisquei, contei piada e me zanguei. Exatamente quando eu era quem você queria.
***
O poeta Aldo Votto me deu de presente um livro de sua autoria, com direito a dedicatória. De repente me saiu de dentro do livro algo que dizem às vezes sair de dentro do armário, mas que concluo ter saído na verdade de dentro do universo, quando ele era ainda uma casca de ovo. Seu poema ESQUELETO diz assim:
Mais triste
Que o prédio abandonado
É o que foi deixado
Em construção
Em que o musgo
Tomou o lugar da cal
E a sombra,
O lugar do reflexo.
Desfaz-se a obra
Que ainda não se fizera
E os tijolos viram tigelas
Para algum pombo citadino.
A altura, em vez de imponência,
É ameaça de acidente.
Mais que tudo,
O prédio inacabado
É oco de gente;
Espaço semi-construído,
Sequer meio vivido.
O que me fez concluir o seguinte:
Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto,
Não tem recheio de carne
Tampouco é feito de osso.
Mas, por ser esqueleto de todo jeito,
Permite imaginarem-se ossos nele
E aí é que se percebe,
Entre cada par de vértebras,
Entre cada duas costelas,
Nas juntas, falanges, rótulas
Uma alma.
E, como alma gosta muito
De habitar gente
E gente que tem esqueleto,
Essas almas vão-se multiplicando
Infinitamente.
Herman Hesse
Em O lobo da estepe
Prova
Germanicamente
Que homens e mulheres são feitos de infinitas
Almas.
Tivesse lido o poema do poeta Aldo Votto,
Teria dito uma só frase
Feita de dois versos
Tão somente.
Leiam Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto.
***
Ou
Como diria
Vinicius
De Moraes
Na agenda
De janeiro
Mês de férias
É preciso
Deixar todas as datas vazias
Para que haja espaço
Para o súbito
O não dito
A súbita
Poesia.
***
Muito obrigado, Aldo.
***
Fumar é inspirar a morte, profundamente; e expirar a vida, lentamente. Inspirar a morte é aspirar a vida. Palavra de ex-fumante.
***
Ninguém entende mais de gente que tapete. Aos gênios, serve-se a voar; aos medíocres, pisar; aos sonhadores, escorregar.
***
Limítrofes:
Atores; boêmios; poetas; cantoras de boate; freqüentadores de bingo; Bolívia.
***
Quando se anda por aí, tolamente, a olhar o mar, paralelamente aos automóveis e seus autômatos a dirigi-los, quando se vai à farmácia ou à padaria, quando se é gente de bairro, atenção: é um raro momento em que uma bomba deixou de explodir ao seu lado.
***
Mulheres e suas bundas: nada de novo no front.
***
O Word é um software puritano. Assinala bundas em vermelho e depois não deixa que elas sejam adicionadas ao dicionário. Também não permite que se as ignore.
Um puritano incorrigível.
***
Depois não me diga que eu não telefonei, que eu não escrevi, não lhe pisquei o olho, não me atrevi, não me arrisquei, não contei piada nem me zanguei. Apenas eu não era quem você queria. O que me aborrece é que isso me poderia ter sido dito na primeira vez em que eu telefonei, que eu escrevi, lhe pisquei o olho, me atrevi, me arrisquei, contei piada e me zanguei. Exatamente quando eu era quem você queria.
***
O poeta Aldo Votto me deu de presente um livro de sua autoria, com direito a dedicatória. De repente me saiu de dentro do livro algo que dizem às vezes sair de dentro do armário, mas que concluo ter saído na verdade de dentro do universo, quando ele era ainda uma casca de ovo. Seu poema ESQUELETO diz assim:
Mais triste
Que o prédio abandonado
É o que foi deixado
Em construção
Em que o musgo
Tomou o lugar da cal
E a sombra,
O lugar do reflexo.
Desfaz-se a obra
Que ainda não se fizera
E os tijolos viram tigelas
Para algum pombo citadino.
A altura, em vez de imponência,
É ameaça de acidente.
Mais que tudo,
O prédio inacabado
É oco de gente;
Espaço semi-construído,
Sequer meio vivido.
O que me fez concluir o seguinte:
Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto,
Não tem recheio de carne
Tampouco é feito de osso.
Mas, por ser esqueleto de todo jeito,
Permite imaginarem-se ossos nele
E aí é que se percebe,
Entre cada par de vértebras,
Entre cada duas costelas,
Nas juntas, falanges, rótulas
Uma alma.
E, como alma gosta muito
De habitar gente
E gente que tem esqueleto,
Essas almas vão-se multiplicando
Infinitamente.
Herman Hesse
Em O lobo da estepe
Prova
Germanicamente
Que homens e mulheres são feitos de infinitas
Almas.
Tivesse lido o poema do poeta Aldo Votto,
Teria dito uma só frase
Feita de dois versos
Tão somente.
Leiam Esqueleto,
Poema do poeta Aldo Votto.
***
Ou
Como diria
Vinicius
De Moraes
Na agenda
De janeiro
Mês de férias
É preciso
Deixar todas as datas vazias
Para que haja espaço
Para o súbito
O não dito
A súbita
Poesia.
***
Muito obrigado, Aldo.
5.09.2006
DVINICIUSD
Vinicius em DVD, coisa que jamais passou pela cabeça dele, Vinicius de Moraes. Vinicius na telona do cinema, isso ele tinha todo direito de imaginar: não só crítico da arte ele foi, como viu seu Orfeu da Conceição, o Orfeu Negro, passar do palco para Cannes, e talvez nem fosse isso o que ele quisesse ou disso fizesse questão. Vinicius agora fica à disposição na prateleira, mais que em sons e imagens, em depoimentos extraordinários, como os de suas filhas, muito especialmente da mais velha, porque a que podia contar e contou mais histórias dele e o bem e o estrago que causavam, nele e em quem estivesse por perto, e por motivo que ele conheceu mais que nenhum outro: ao invés de escassez, excesso de amor. Como os de Chico, Tônia Carreiro, Edu Lobo, Caetano Veloso e Toquinho. Tom Jobim, claro, está lá. Maria Betânia. E estão lá interpretações magistrais por cantores e cantoras magistrais de canções de Vinicius & Vinicius, Vinicius & Tom, & Baden, & Toquinho, & Chico &... Os assassinos de Emmet em ritmo que ele provavelmente também não imaginaria (nem mesmo ele). Camila Morgado e Ricardo Blat a fazer teatro, teatro de verdade, sentido, profundo, interpretado, palavra, silêncio, gesto, respiração, idade, tempo. Antônio Cândido, que presença no filme de Miguel Faria Jr. E que filme, o de Miguel Faria Jr., que extraordinária peça para se ver e rever na telona, para se ter na prateleira e repetir sua imagem em 14 ou quantas forem as polegadas domésticas, a cantar, a pedir a beleza de amar.
Minha filha, quando for sua vez de ensinar alguém a ler, que seja Monteiro Lobato sua cartilha; quando for sua vez de desejar, Jorge Amado é caminho dengoso e perigoso, como deve e cabe ser; mas se for amar, amar a vida, aos homens e mulheres que são de amar em paz, é Vinicius, a abrir as portas de todos os que conheceu em vida e pensamento e cita generosa e fraternalmente em seus livros: Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, João Cabral, Murilo Mendes, Oswald e Mario de Andrade, Rubem Braga, tantos outros, além de outros ainda de outras patriazinhas, como Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Rilke...
Humano, demasiadamente humano? Vinicius.
E todas as vezes que surgirem esses doutores em coisa nenhuma a determinar qual o melhor poeta brasileiro, ouça, minha filha, ouça uma voz tanto humilde quanto sacana, que sempre responde de dentro dos verdadeiros puros:
- Quem é o melhor poeta eu não sei, mas, o melhor Vinicius, é o de Moraes.
Minha filha, quando for sua vez de ensinar alguém a ler, que seja Monteiro Lobato sua cartilha; quando for sua vez de desejar, Jorge Amado é caminho dengoso e perigoso, como deve e cabe ser; mas se for amar, amar a vida, aos homens e mulheres que são de amar em paz, é Vinicius, a abrir as portas de todos os que conheceu em vida e pensamento e cita generosa e fraternalmente em seus livros: Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, João Cabral, Murilo Mendes, Oswald e Mario de Andrade, Rubem Braga, tantos outros, além de outros ainda de outras patriazinhas, como Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Rilke...
Humano, demasiadamente humano? Vinicius.
E todas as vezes que surgirem esses doutores em coisa nenhuma a determinar qual o melhor poeta brasileiro, ouça, minha filha, ouça uma voz tanto humilde quanto sacana, que sempre responde de dentro dos verdadeiros puros:
- Quem é o melhor poeta eu não sei, mas, o melhor Vinicius, é o de Moraes.
5.01.2006
MÍNIMAS
Alguém já disse isto.
Entre a ecologia e a economia, sabe quem? A engenharia.
Eu sei, tu sabes, ele sabe. Nós calamos, vós também, eles continuam do mesmo jeito.
A pressa é inimiga da refeição.
O pai dele morreu.
O que dizer a ele,
Pêsames, sinto muito?
Coragem.
O filho dele nasceu.
O que dizer a ele,
Parabéns, felicidades, coragem?
Parabéns.
Alternativas para ordem e progresso: liberdade e respeito; ciência e ousadia; fôda-se todo mundo que o que eu quero é o meu.
Se alguém diz pra você que a paixão acaba quando o amor começa e que o amor acaba quando o casamento começa, não aumente a aposta: pague pra não ver. E pague pra ver.
O savoir faire, o know how e o saber fazer de nada são capazes diante da arrogância
Que é gêmea da ignorância.
A pressa é inimiga da afeição.
Alguém já disse isso.
Entre a ecologia e a economia, sabe quem? A engenharia.
Eu sei, tu sabes, ele sabe. Nós calamos, vós também, eles continuam do mesmo jeito.
A pressa é inimiga da refeição.
O pai dele morreu.
O que dizer a ele,
Pêsames, sinto muito?
Coragem.
O filho dele nasceu.
O que dizer a ele,
Parabéns, felicidades, coragem?
Parabéns.
Alternativas para ordem e progresso: liberdade e respeito; ciência e ousadia; fôda-se todo mundo que o que eu quero é o meu.
Se alguém diz pra você que a paixão acaba quando o amor começa e que o amor acaba quando o casamento começa, não aumente a aposta: pague pra não ver. E pague pra ver.
O savoir faire, o know how e o saber fazer de nada são capazes diante da arrogância
Que é gêmea da ignorância.
A pressa é inimiga da afeição.
Alguém já disse isso.
4.24.2006
DILEMAS
Suponhamos que hoje seja dia de folga e que nada de sério se deva comentar. Vamos falar de pequenos dilemas diários, na vida de quem pode se dar ao luxo cada vez mais raro do lazer. Um dos grandes quem vive é o carioca da Zona Sul do Rio – não, ninguém vai falar da dúvida entre usar ou não relógio, onde guardar o dinheiro do assaltante, ou, para os mais abastados, blindar ou não blindar, eis a questão; como dito, hoje é dia de folga. Falamos do carioca que ainda vai à praia, que se convenceu de que poluição não dá em praia, um cara simples, de hábitos simples, que dá seus mergulhos, se deita na areia e dá uma andada olhando quem vem e que passa a caminho do mar, lembrando Tom e Vinicius, como quem não quer nada. Esse carioca viverá, a cada dia de sol que não for de fim de semana ou feriado a angústia de não poder ir à praia; e quando for Sábado, Domingo ou feriado, se estiver fazendo sol, terá que se proibir de passar por perto dos bares do Leblon – porque, se o fizer, viverá um dilema típico de sua alma de homem simples e que mora perto do mar sem ser numa favela: o bar ou o mar? Os bares do Leblon têm um burburinho e um chope e um tira-gosto que são impossíveis de resistir, a esse indivíduo de quem falamos pelas costas. Ele irá sofrer demais se passar por aqueles bares; por isso, resoluto, irá direto para a praia, passando por transversais somente de edifícios, butiques e lojas de sucos – e olhe lá; pois, se forem dessas que vendem sucos também de cevada, olha o dilema aí, gente. Agora, se um mineiro ler este parágrafo, sentir-se-á o mais feliz dos homens, não é? Minas não tem mar; é bar - e pronto. Dilema zero.
Tem também o do indivíduo que está com uma sede danada e, ao mesmo tempo, vontade de fazer xixi. E agora? O que fazer primeiro?
Ir ou não de terno parece ser coisa do passado. Depois que se percebeu que terno e gravata vestem a maioria dos defuntos, esse traje vai-se tornando cada vez mais raro. Hoje é todo mundo casual. A depender do nível social, a pronúncia será a inglesa; mas deixa pra lá: o bom é poder deixar o terno dentro do armário e abraçando um cabide, o máximo tempo em que assim for possível.
Um dos bons: vou a pé ou de bicicleta? A pé a gente é adolescente; de bicicleta, criança.
Telefonar ou não pra ela? Opa – devemos pedir desculpas: dissemos que não falaríamos de coisas sérias.
Mas nenhum é pior do que aquele do carioca. Portanto, você já sabe: se estiver no Rio nas redondezas do Leblon com intenção de ir à praia, nada de passar perto do Jobi, do Clip, etc.
A não ser que você seja mineiro. Ou que não goste tanto assim de praia. Dizem que está poluída, não é?
Tem também o do indivíduo que está com uma sede danada e, ao mesmo tempo, vontade de fazer xixi. E agora? O que fazer primeiro?
Ir ou não de terno parece ser coisa do passado. Depois que se percebeu que terno e gravata vestem a maioria dos defuntos, esse traje vai-se tornando cada vez mais raro. Hoje é todo mundo casual. A depender do nível social, a pronúncia será a inglesa; mas deixa pra lá: o bom é poder deixar o terno dentro do armário e abraçando um cabide, o máximo tempo em que assim for possível.
Um dos bons: vou a pé ou de bicicleta? A pé a gente é adolescente; de bicicleta, criança.
Telefonar ou não pra ela? Opa – devemos pedir desculpas: dissemos que não falaríamos de coisas sérias.
Mas nenhum é pior do que aquele do carioca. Portanto, você já sabe: se estiver no Rio nas redondezas do Leblon com intenção de ir à praia, nada de passar perto do Jobi, do Clip, etc.
A não ser que você seja mineiro. Ou que não goste tanto assim de praia. Dizem que está poluída, não é?
4.22.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
ROMANCE INÉDITO DE MARIO BENEVIDES
2005-2006
EPÍLOGO
“[Olga] Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as casas, as igrejas; viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo [de Santana, Rio de Janeiro]... Tinha havido grandes e inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.”
Para quem não sabe ou não se lembra, é assim que Lima Barreto conclui sua biografia de Policarpo Quaresma.
Destacar o encontro no palácio presidencial em 2017 para lembrar a marcante mudança na mentalidade dominante brasileira que se deu naquele ano foi apenas porque lá estava um descendente de Ricardo Coração dos Outros.
Contar episódios havidos desde então até 2017 como se estivéssemos em 2020, quando o ano é 2053, teve a intenção de mais uma vez demonstrar que a modernidade é sempre passageira. Se isso é óbvio é porque a modernidade o é. Surpreendemo-nos com a tecnologia e, no entanto, ela apenas realiza algo que desejamos, precisamos ou vamos precisar. Quando surge uma novidade tecnológica, pensamos, Afinal nunca precisamos disso, para que diabos isso serve? - e, pouco depois, nos fazemos outra pergunta: Como foi que vivemos tantos anos sem essa coisa? Foi assim com os barcos, o automóvel, o avião, as hidro e termelétricas, o petróleo e sua substituição, a pipoca e o micro-ondas e a pipoca de microondas, o computador de sala, mesa, mala, mão e cérebro, o celular e as células-combustíveis. Hoje, mais que nunca, vivemos do Hidrogênio. E nos perguntamos ainda Para que diabos? e cultuamos o diabo tanto quanto a Deus, em suas variadas manifestações e principalmente na ausência delas.
Ora, a origem da chamada revolução de mentalidade foi o interior do Brasil; foi especialmente o interior de Goiás que deu origem a um movimento sem liderança conhecida, primeiro de boicote quase destrutivo para depois construir algo de realmente inovador, movimento surgido de anseios seculares da história do Brasil e que produziu a grande transformação do país, sem mortes, ameaças ou imposição. Tanto assim que foi motivo de destaque do noticiário mundial a participação ativa e teatral daqueles jovens estudantes de Minaçu dos primeiros anos deste século XXI, que faziam peças teatrais na cidade naqueles tempos, e que levaram adiante silenciosas dramatizações em Brasília na dita Revolução Brasileira de 2017.
Hoje é um dia de sol de 2053 e a distribuição da renda nacional permite uma vida razoavelmente tranqüila em sociedade, ainda que sofrimento, injustiça e desacesso ocorram e sejam noticiados, tal como alienações químicas. Mas a massificação da desgraça e o terror do tráfico aliciando a infância excluída e aprisionando adolescência e vida adulta desesperadas e despreparadas se foram. A indiferença diminuiu, o desaforo do desdém pela coisa pública costuma ser logo conhecido e execrado, a competência supera o estrelismo; aliás, no mundo inteiro a competência passou a ser percebida como talento. As desavenças estão aí, parece que são entranhadas na condição não só humana quanto de todo na de estar vivo em um planeta teimoso, a girar em torno do sol curando males das transformações causadas muito principalmente e não só pelos seus homens e suas mulheres, que hoje o habitam em praticamente iguais proporção e força transformadora e produtiva.
Aquela família de que tanto se falou, a ponto de se a descrever como dinastia, e seus mais próximos, em 2020 ficaram assim.
A que vivia com uma pessoa fazia igual a tantas outras, a viver com uma pessoa, embora isso, naquele tempo, mais antes de 2020 que propriamente naquele ano, a expressão “aquela pessoa” tivesse propósitos de escondê-la – a pessoa – sabe-se lá de que preconceitos.
Ricardo IV seguiu como brilhante advogado e episódico imperador em seu roupão caseiro.
O General continuou a exibir sua nudez à sua indiferente empregada e ao amigo Almir. Ela – a empregada do General - escreveu um livro: “A vista da Avenida Atlântica do Rio de Janeiro”; ele – Almir - enlouqueceu um pouquinho.
Muitos que residiam em Minaçu de lá se mudaram; outros, para lá é que se foram.
Sérgia tornou-se membro permanente da ONU, casada com Ricardo IV só de vez em quando.
A médica que foi amante de Ricardo IV, bem, não se pode revelar seu nome.
Rita e Ricardo V continuaram casados - ele, escritor, ela, incansável pesquisadora das etnias – não só das silvícolas do Brasil como também das do mundo árabe. Secretamente ainda buscava saber de que irlandês terá vindo o “Shaw” do sobrenome materno. Já sua mãe passou a permanecer em Orlando o mínimo possível, visitando Rita onde ela estivesse, Rio, Bagdá, Cavalcante, Minaçu, Xingu.
A irmã da que sempre foi vista como a viver com “uma pessoa”, que costumava não se fixar a nenhuma companhia, casou-se; com uma pessoa.
Da minha parte, enquanto meus pais se mudaram para o Rio, preferi freqüentar a Universidade Federal de Santa Catarina a fazer qualquer curso à distância. Agradam-me mais temperaturas mais amenas, passei por muito calor onde nasci. É em Florianópolis que vivo, até hoje. De 2020 até hoje, ora, alguns morreram, outros continuam neste planeta, que permanece a enlouquecer um pouco a cada dia. Florianópolis, 22 de abril de 2053, Ricardo Coração dos Outros VI.
- FIM -
ROMANCE INÉDITO DE MARIO BENEVIDES
2005-2006
EPÍLOGO
“[Olga] Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as casas, as igrejas; viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo [de Santana, Rio de Janeiro]... Tinha havido grandes e inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.”
Para quem não sabe ou não se lembra, é assim que Lima Barreto conclui sua biografia de Policarpo Quaresma.
Destacar o encontro no palácio presidencial em 2017 para lembrar a marcante mudança na mentalidade dominante brasileira que se deu naquele ano foi apenas porque lá estava um descendente de Ricardo Coração dos Outros.
Contar episódios havidos desde então até 2017 como se estivéssemos em 2020, quando o ano é 2053, teve a intenção de mais uma vez demonstrar que a modernidade é sempre passageira. Se isso é óbvio é porque a modernidade o é. Surpreendemo-nos com a tecnologia e, no entanto, ela apenas realiza algo que desejamos, precisamos ou vamos precisar. Quando surge uma novidade tecnológica, pensamos, Afinal nunca precisamos disso, para que diabos isso serve? - e, pouco depois, nos fazemos outra pergunta: Como foi que vivemos tantos anos sem essa coisa? Foi assim com os barcos, o automóvel, o avião, as hidro e termelétricas, o petróleo e sua substituição, a pipoca e o micro-ondas e a pipoca de microondas, o computador de sala, mesa, mala, mão e cérebro, o celular e as células-combustíveis. Hoje, mais que nunca, vivemos do Hidrogênio. E nos perguntamos ainda Para que diabos? e cultuamos o diabo tanto quanto a Deus, em suas variadas manifestações e principalmente na ausência delas.
Ora, a origem da chamada revolução de mentalidade foi o interior do Brasil; foi especialmente o interior de Goiás que deu origem a um movimento sem liderança conhecida, primeiro de boicote quase destrutivo para depois construir algo de realmente inovador, movimento surgido de anseios seculares da história do Brasil e que produziu a grande transformação do país, sem mortes, ameaças ou imposição. Tanto assim que foi motivo de destaque do noticiário mundial a participação ativa e teatral daqueles jovens estudantes de Minaçu dos primeiros anos deste século XXI, que faziam peças teatrais na cidade naqueles tempos, e que levaram adiante silenciosas dramatizações em Brasília na dita Revolução Brasileira de 2017.
Hoje é um dia de sol de 2053 e a distribuição da renda nacional permite uma vida razoavelmente tranqüila em sociedade, ainda que sofrimento, injustiça e desacesso ocorram e sejam noticiados, tal como alienações químicas. Mas a massificação da desgraça e o terror do tráfico aliciando a infância excluída e aprisionando adolescência e vida adulta desesperadas e despreparadas se foram. A indiferença diminuiu, o desaforo do desdém pela coisa pública costuma ser logo conhecido e execrado, a competência supera o estrelismo; aliás, no mundo inteiro a competência passou a ser percebida como talento. As desavenças estão aí, parece que são entranhadas na condição não só humana quanto de todo na de estar vivo em um planeta teimoso, a girar em torno do sol curando males das transformações causadas muito principalmente e não só pelos seus homens e suas mulheres, que hoje o habitam em praticamente iguais proporção e força transformadora e produtiva.
Aquela família de que tanto se falou, a ponto de se a descrever como dinastia, e seus mais próximos, em 2020 ficaram assim.
A que vivia com uma pessoa fazia igual a tantas outras, a viver com uma pessoa, embora isso, naquele tempo, mais antes de 2020 que propriamente naquele ano, a expressão “aquela pessoa” tivesse propósitos de escondê-la – a pessoa – sabe-se lá de que preconceitos.
Ricardo IV seguiu como brilhante advogado e episódico imperador em seu roupão caseiro.
O General continuou a exibir sua nudez à sua indiferente empregada e ao amigo Almir. Ela – a empregada do General - escreveu um livro: “A vista da Avenida Atlântica do Rio de Janeiro”; ele – Almir - enlouqueceu um pouquinho.
Muitos que residiam em Minaçu de lá se mudaram; outros, para lá é que se foram.
Sérgia tornou-se membro permanente da ONU, casada com Ricardo IV só de vez em quando.
A médica que foi amante de Ricardo IV, bem, não se pode revelar seu nome.
Rita e Ricardo V continuaram casados - ele, escritor, ela, incansável pesquisadora das etnias – não só das silvícolas do Brasil como também das do mundo árabe. Secretamente ainda buscava saber de que irlandês terá vindo o “Shaw” do sobrenome materno. Já sua mãe passou a permanecer em Orlando o mínimo possível, visitando Rita onde ela estivesse, Rio, Bagdá, Cavalcante, Minaçu, Xingu.
A irmã da que sempre foi vista como a viver com “uma pessoa”, que costumava não se fixar a nenhuma companhia, casou-se; com uma pessoa.
Da minha parte, enquanto meus pais se mudaram para o Rio, preferi freqüentar a Universidade Federal de Santa Catarina a fazer qualquer curso à distância. Agradam-me mais temperaturas mais amenas, passei por muito calor onde nasci. É em Florianópolis que vivo, até hoje. De 2020 até hoje, ora, alguns morreram, outros continuam neste planeta, que permanece a enlouquecer um pouco a cada dia. Florianópolis, 22 de abril de 2053, Ricardo Coração dos Outros VI.
- FIM -
4.17.2006
SEU LINO MORREU E MEU LIVRO ACABOU
Seu Lino morreu. Se você é o persistente leitor das reincidentes visitas a este blog, sabe de quem estou falando. Seu Lino estava com cento e quatro anos. Todos os longevos dos quais se tem notícia apresentam semelhanças: alimentação muito diferente do receituário da moda, bebida alcoólica citada e moderada, amigos sim mas autonomia antes que seja cedo e... Relógio de pêndulo. Quem dá as horas é o pêndulo; quem as avisa, o cuco; quem as determina, o dono do relógio. Os ingredientes complementares são água, terra, fogo e ar. Seu Lino teve tosse, que rapidamente virou pneumonia; disse que queria comer camarão e comeu; foi para o quarto, deu um adeusinho – expressão dos de sua geração e de outras um pouco mais recentes, mas gesto, nele, inesperado – deitou-se, virou de lado e, no dia seguinte, acordou. Despertou do lado de lá, depois de cento e quatro anos do lado de cá. É assim que se vive. É assim que se morre.
Meu romance “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros” acabou. Na verdade, acabará no próximo Sábado. Seu final já está guardado na máquina de escrever alemã Olympia que herdei do meu pai, na qual ele escrevia para minha mãe todas as vezes em que ela viajava, na mesma em que ela traduzia livros do Inglês, máquina onde escrevi textinhos e poeminhas para amigos e namoradas, que hoje é objeto de decoração e lembrança, e é na lembrança das suas teclas que pré-escrevo o que quer que escreva: é nelas onde já escrevi o final que escreverei de fato em teclado e tela de computador para publicar no blog no próximo Sábado, 22 de abril de 2006. Qual será o lado de lá do meu livro? E deste glorioso tanto quanto botafoguense blog? Do livro, o próximo passo será a busca do passado – não o da máquina do meu pai, mas o das letras impressas em papel, livro de se levar em viagem, ao banheiro, à estante, de se perder no banco do ônibus.
Se será bom de ler, aí já é outra história.
E será de outra história que viverá este blog.
Um abraço, Seu Lino. Não tive o prazer de lhe conhecer pessoalmente e sim por meio de seu neto, motorista de táxi, que hoje de manhã me disse da sua morte. Não tenho religião e tenho entretanto a certeza de que o senhor lerá esta crônica.
Se o senhor vai gostar...
Aí já é outra história.
Meu romance “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros” acabou. Na verdade, acabará no próximo Sábado. Seu final já está guardado na máquina de escrever alemã Olympia que herdei do meu pai, na qual ele escrevia para minha mãe todas as vezes em que ela viajava, na mesma em que ela traduzia livros do Inglês, máquina onde escrevi textinhos e poeminhas para amigos e namoradas, que hoje é objeto de decoração e lembrança, e é na lembrança das suas teclas que pré-escrevo o que quer que escreva: é nelas onde já escrevi o final que escreverei de fato em teclado e tela de computador para publicar no blog no próximo Sábado, 22 de abril de 2006. Qual será o lado de lá do meu livro? E deste glorioso tanto quanto botafoguense blog? Do livro, o próximo passo será a busca do passado – não o da máquina do meu pai, mas o das letras impressas em papel, livro de se levar em viagem, ao banheiro, à estante, de se perder no banco do ônibus.
Se será bom de ler, aí já é outra história.
E será de outra história que viverá este blog.
Um abraço, Seu Lino. Não tive o prazer de lhe conhecer pessoalmente e sim por meio de seu neto, motorista de táxi, que hoje de manhã me disse da sua morte. Não tenho religião e tenho entretanto a certeza de que o senhor lerá esta crônica.
Se o senhor vai gostar...
Aí já é outra história.
4.16.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SETE –
Depois do silêncio, algumas pessoas se retiraram; outras ocuparam seus lugares. Um deputado fez um discurso em tom antiquado, de palanque; mais silêncio. Ricardo V desandou a escrever em seu palm-top com teclado e tela virtuais. Pediu licença para projetar o que havia escrito. O deputado ainda falou por muitos instantes, até que se calou e sentou-se. A platéia permaneceu em silêncio, que só não era absoluto por causa do entra e sai de pessoas no anfiteatro e do corre-corre de profissionais da mídia e da segurança.
O que Ricardo V escrevera, projetado em ampla tela de ultra-máxima definição levada aos olhos de cada um dos presentes via “perfect-vision”, dizia o seguinte:
“A reunião perdera o sentido. O único efeito que dela ficou foi ter vazado, como disse o General, e com isso, parte do silêncio foi rompido. O pronunciamento de Dona Eduarda calou fundo na mente dos políticos profissionais – o que, a princípio, pareceu não ser verdadeiro. Terminada a reunião, lideres da política profissional reuniram-se dias a fio, reestruturando propostas de reformulação da prática política que se encontravam engavetadas, guardadas em mídias das mais diferentes gerações tecnológicas, para depois apresentá-las à população. Riscaram de vez de seus discursos a palavra “povo”, que sempre dera a impressão de que o povo fosse uma coisa à parte deles, os políticos, e delas, as elites culturais e sócio-econômicas. Povo era sempre empregado com fins demagógicos em seus discursos – deles, os políticos profissionais, os quais assim admitiram. Povo, não; população, sim. Propuseram uma administração em condomínio, onde exerceriam suas outras atividades econômicas às claras, dedicando apenas parte do seu tempo à prática política. O Executivo e o Judiciário deveriam continuar trabalhando com dedicação exclusiva, eles pensavam, mas o Legislativo, afora estudiosos do arcabouço e detalhamento do permanente pensamento das leis do país, deveria exclusivamente se reunir para apresentar e discutir propostas, tomando decisões de interesse público, maior para o funcionamento do país, sua economia, sua ecologia, sua gente. As campanhas passariam a ser sempre por colegiados, despersonificando-as o mais que fosse possível, buscando, antes de tudo, saber, de perto e a contento, metódica e sistematicamente, o que, afinal, os indivíduos da população queriam da política, do Estado e das empresas. A consciência de que políticos são empregados da população – e não o contrário – finalmente se estabeleceu. Antropólogos, psicólogos, psiquiatras, mães, avós, avôs, pais, adolescentes e artistas foram convidados a formarem núcleos para rediscussão do interesse pelas drogas, que já começava a ultrapassar novamente o controle da oferta pela saúde pública para viciados em programas de superação do vício e o que era possível de conviver à vista grossa, como ocorria no resto do mundo, e ao jeitinho brasileiro, nas esquinas, calçadas, residências, escritórios, igrejas, bares e repartições. A necessidade de repensar e re-projetar cárceres era premente. Não admitir que a Amazônia e reservas indígenas fossem desprotegidas a ponto de dar oportunidade a potências estrangeiras de proporem administrá-las em bloco era consenso nacional. Inclusão social todos os dias passou a ser prática corrente de Estado, empresas e indivíduos. Assistencialismo, nunca mais. A tecnologia foi invadindo saudavelmente assentamentos e fazendas, propiciando oportunidades e não tirando empregos. Irrigação por gravidade foi sendo substituída pelo que há de mais econômico e eficiente em todas as regiões rurais produtoras; a repartição de bens como a água foi resolvida racionalmente – e não demagógica ou imperativamente. A mídia passou a perguntar – e não a importar, adaptar e impor – o que, afinal, a sociedade queria ver e ouvir, como gostaria de se divertir e de ser informada – e, principalmente, do que cada indivíduo gostaria de ser informado. Deslizes, desonestidades, equívocos na política e no convívio da sociedade continuaram a acontecer, mas vigiados de perto, desprezados em forma e conteúdo pela população, punidos, corrigidos, rápida e eficazmente. O Brasil não estava se tornando uma potência – mas eliminando em ritmo acelerado o fosso social e deixando de permitir que se instalasse coletivamente o desânimo que Lima Barreto conferiu a Policarpo Quaresma nas últimas páginas da biografia deste, cuja vida foi vivida nos últimos anos do Século XIX, e que tantas vezes tornara a se instalar na alma brasileira ao longo da história do Brasil, até esses dias de 2017. Desânimo nunca mais; imposições nunca mais; demagogia nunca mais; corporativismo nunca mais; inclusão, progresso econômico, financeiro e social, sempre. Democracia sempre. Esclarecimento sempre. Cultura, educação, capacitação – sempre. Assim foi.”
A platéia leu aquelas palavras projetadas bem perto dos seus olhos, permaneceu em silêncio mais alguns instantes, até que um homem visivelmente humilde e ligeiramente embriagado levantou-se e disse, alto e bom som:
- Assim seja!
Todos ficaram de pé; Sérgia desceu com Ricardo V e o General para juntarem-se a Rita e Dona Eduarda dentre a audiência. A frase do senhor humilde e gentilmente bêbado foi repetida coletivamente, unissonamente:
- Assim seja!
Todos voltaram os olhos para os políticos presentes – deputados, senadores, o Presidente da República. Este tomou a palavra e declarou:
- Assim será.
E baixou a cabeça.
Todos se retiraram. Alguns sorrisos, alguns abraços. Em silêncio.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SETE –
Depois do silêncio, algumas pessoas se retiraram; outras ocuparam seus lugares. Um deputado fez um discurso em tom antiquado, de palanque; mais silêncio. Ricardo V desandou a escrever em seu palm-top com teclado e tela virtuais. Pediu licença para projetar o que havia escrito. O deputado ainda falou por muitos instantes, até que se calou e sentou-se. A platéia permaneceu em silêncio, que só não era absoluto por causa do entra e sai de pessoas no anfiteatro e do corre-corre de profissionais da mídia e da segurança.
O que Ricardo V escrevera, projetado em ampla tela de ultra-máxima definição levada aos olhos de cada um dos presentes via “perfect-vision”, dizia o seguinte:
“A reunião perdera o sentido. O único efeito que dela ficou foi ter vazado, como disse o General, e com isso, parte do silêncio foi rompido. O pronunciamento de Dona Eduarda calou fundo na mente dos políticos profissionais – o que, a princípio, pareceu não ser verdadeiro. Terminada a reunião, lideres da política profissional reuniram-se dias a fio, reestruturando propostas de reformulação da prática política que se encontravam engavetadas, guardadas em mídias das mais diferentes gerações tecnológicas, para depois apresentá-las à população. Riscaram de vez de seus discursos a palavra “povo”, que sempre dera a impressão de que o povo fosse uma coisa à parte deles, os políticos, e delas, as elites culturais e sócio-econômicas. Povo era sempre empregado com fins demagógicos em seus discursos – deles, os políticos profissionais, os quais assim admitiram. Povo, não; população, sim. Propuseram uma administração em condomínio, onde exerceriam suas outras atividades econômicas às claras, dedicando apenas parte do seu tempo à prática política. O Executivo e o Judiciário deveriam continuar trabalhando com dedicação exclusiva, eles pensavam, mas o Legislativo, afora estudiosos do arcabouço e detalhamento do permanente pensamento das leis do país, deveria exclusivamente se reunir para apresentar e discutir propostas, tomando decisões de interesse público, maior para o funcionamento do país, sua economia, sua ecologia, sua gente. As campanhas passariam a ser sempre por colegiados, despersonificando-as o mais que fosse possível, buscando, antes de tudo, saber, de perto e a contento, metódica e sistematicamente, o que, afinal, os indivíduos da população queriam da política, do Estado e das empresas. A consciência de que políticos são empregados da população – e não o contrário – finalmente se estabeleceu. Antropólogos, psicólogos, psiquiatras, mães, avós, avôs, pais, adolescentes e artistas foram convidados a formarem núcleos para rediscussão do interesse pelas drogas, que já começava a ultrapassar novamente o controle da oferta pela saúde pública para viciados em programas de superação do vício e o que era possível de conviver à vista grossa, como ocorria no resto do mundo, e ao jeitinho brasileiro, nas esquinas, calçadas, residências, escritórios, igrejas, bares e repartições. A necessidade de repensar e re-projetar cárceres era premente. Não admitir que a Amazônia e reservas indígenas fossem desprotegidas a ponto de dar oportunidade a potências estrangeiras de proporem administrá-las em bloco era consenso nacional. Inclusão social todos os dias passou a ser prática corrente de Estado, empresas e indivíduos. Assistencialismo, nunca mais. A tecnologia foi invadindo saudavelmente assentamentos e fazendas, propiciando oportunidades e não tirando empregos. Irrigação por gravidade foi sendo substituída pelo que há de mais econômico e eficiente em todas as regiões rurais produtoras; a repartição de bens como a água foi resolvida racionalmente – e não demagógica ou imperativamente. A mídia passou a perguntar – e não a importar, adaptar e impor – o que, afinal, a sociedade queria ver e ouvir, como gostaria de se divertir e de ser informada – e, principalmente, do que cada indivíduo gostaria de ser informado. Deslizes, desonestidades, equívocos na política e no convívio da sociedade continuaram a acontecer, mas vigiados de perto, desprezados em forma e conteúdo pela população, punidos, corrigidos, rápida e eficazmente. O Brasil não estava se tornando uma potência – mas eliminando em ritmo acelerado o fosso social e deixando de permitir que se instalasse coletivamente o desânimo que Lima Barreto conferiu a Policarpo Quaresma nas últimas páginas da biografia deste, cuja vida foi vivida nos últimos anos do Século XIX, e que tantas vezes tornara a se instalar na alma brasileira ao longo da história do Brasil, até esses dias de 2017. Desânimo nunca mais; imposições nunca mais; demagogia nunca mais; corporativismo nunca mais; inclusão, progresso econômico, financeiro e social, sempre. Democracia sempre. Esclarecimento sempre. Cultura, educação, capacitação – sempre. Assim foi.”
A platéia leu aquelas palavras projetadas bem perto dos seus olhos, permaneceu em silêncio mais alguns instantes, até que um homem visivelmente humilde e ligeiramente embriagado levantou-se e disse, alto e bom som:
- Assim seja!
Todos ficaram de pé; Sérgia desceu com Ricardo V e o General para juntarem-se a Rita e Dona Eduarda dentre a audiência. A frase do senhor humilde e gentilmente bêbado foi repetida coletivamente, unissonamente:
- Assim seja!
Todos voltaram os olhos para os políticos presentes – deputados, senadores, o Presidente da República. Este tomou a palavra e declarou:
- Assim será.
E baixou a cabeça.
Todos se retiraram. Alguns sorrisos, alguns abraços. Em silêncio.
4.10.2006
AO TELEFONE, DE FRENTE PARA O MAR
A vida vira morte de um instante para o outro e isso não é nenhuma novidade. Mesmo naqueles casos de leito de doença prolongada que se sabe é a morte chegando; mesmo quando, no momento em que ela se aproxima, provoca sonhos com outros mortos e os membros e órgãos vão sendo aos poucos desligados do cérebro, quando realmente chega, a morte é abrupta. E assim foi para um casal – ele primeiro, ela depois.
Um outro casal, com dois filhos mais velhos que os três órfãos do que falecera, herdou-os para criar. Isso faz alguns anos.
Pois ele - o que se tornou, abruptamente, pai não de dois, mas de cinco - me ligou. Fiquei preocupado, futilmente, pois ele torce para o Botafogo, como eu, e – a experiência demonstra - botafoguenses não devem se falar em dia de decisão.
Nem sempre a experiência vence e, mais tarde, quem venceu foi o Botafogo; sagrou-se campeão, contra um time de subúrbio, o Madureira – mesmo bairro da Portela, cujos ensaios eram na quadra do Botafogo. Devo me dar conta que o assunto não era - e não é - futebol. Mas podia ser samba; da Portela, inclusive. E dos mais alegres.
Eu estava na praia. Era Domingo, um dia lindo, o mar atlântico estourava na beira da praia como quem quer comemorar, sua temperatura, densidade e docilidade, nem o útero materno conseguiria fazer melhor. Pergunto ao meu amigo ao telefone, Como vão as crianças, que já não são mais crianças? O mais velho, diz ele, na Alemanha, fazendo doutorado de Engenharia; a segunda, em casa, estudando Medicina com o namorado; o terceiro, faz Educação Física; a quarta, também cursa universidade; o caçula, bem, o caçula passou para Comunicação e Educação Física e ainda está indeciso, mas sem pressa.
Não sei que reação essa história provocará em quem a ler, neste já persistente blog. Da minha parte, que a ouvi no original, confesso que fiquei rindo sozinho.
Obrigado, Leda, valeu, Zé. Vocês me fazem concluir que, perto da vida, a morte não passa de uma idiota. Abrupta e idiota.
Um outro casal, com dois filhos mais velhos que os três órfãos do que falecera, herdou-os para criar. Isso faz alguns anos.
Pois ele - o que se tornou, abruptamente, pai não de dois, mas de cinco - me ligou. Fiquei preocupado, futilmente, pois ele torce para o Botafogo, como eu, e – a experiência demonstra - botafoguenses não devem se falar em dia de decisão.
Nem sempre a experiência vence e, mais tarde, quem venceu foi o Botafogo; sagrou-se campeão, contra um time de subúrbio, o Madureira – mesmo bairro da Portela, cujos ensaios eram na quadra do Botafogo. Devo me dar conta que o assunto não era - e não é - futebol. Mas podia ser samba; da Portela, inclusive. E dos mais alegres.
Eu estava na praia. Era Domingo, um dia lindo, o mar atlântico estourava na beira da praia como quem quer comemorar, sua temperatura, densidade e docilidade, nem o útero materno conseguiria fazer melhor. Pergunto ao meu amigo ao telefone, Como vão as crianças, que já não são mais crianças? O mais velho, diz ele, na Alemanha, fazendo doutorado de Engenharia; a segunda, em casa, estudando Medicina com o namorado; o terceiro, faz Educação Física; a quarta, também cursa universidade; o caçula, bem, o caçula passou para Comunicação e Educação Física e ainda está indeciso, mas sem pressa.
Não sei que reação essa história provocará em quem a ler, neste já persistente blog. Da minha parte, que a ouvi no original, confesso que fiquei rindo sozinho.
Obrigado, Leda, valeu, Zé. Vocês me fazem concluir que, perto da vida, a morte não passa de uma idiota. Abrupta e idiota.
4.07.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SEIS –
Rita saiu quase que escorraçada depois da sua fala. Por mais que tenha frisado ser casada com um brasileiro, mãe de filho brasileiro e residente no Brasil havia quinze anos, seu sotaque de americana causou desconforto em alguns nacionalistas, extremados demais para discutir a questão indígena com uma americana.
Perguntaram-lhe da sua experiência e formação; disse-lhes dos seus títulos e citou suas experiências no Brasil e na Bolívia – que foram consideradas episódicas por um dos presentes, tendo o Presidente da República em pessoa dito a ela que já tinham levado em consideração suas contribuições e que ela por favor desse a vez a outros presentes.
Rita agradeceu e foi saindo do auditório da presidência; seu marido, Ricardo V, foi atrás dela, às pressas, percebendo a mágoa da mulher com o visível desinteresse e debochados bocejos que percebera enquanto se expressava. O General, que havia insistido para que Ricardo V fosse àquele encontro, foi atrás dele e, atrás do General, Sérgia, mãe de Ricardo V. Dona Eduarda foi saindo um pouco mais vagarosamente que os demais. Alguém pediu a palavra, mas iniciou-se um burburinho. O General voltou trazendo Ricardo V esbaforido e ofendido pelo braço e deu a seguinte notícia:
- Esse nosso encontro vazou; todo mundo está sabendo e há uma multidão lá fora. ONGs, movimentos, estudantes, o diabo.
O Presidente da República rapidamente acionou a Segurança do Palácio; o chefe da Segurança pediu-lhe calma: “A situação está sob controle”. O Presidente deu a notícia aos demais e pediu que o General tomasse a palavra – e brincou: “O Governo, não; só a palavra, General.”.
O General expressou-se pela manutenção das reservas indígenas dentro das fronteiras e sob a responsabilidade exclusivamente do Brasil. Propôs que fosse feita uma revisão geral da estrutura orçamentária do país, e que as nações interessadas na independência das tribos fossem convidadas a contribuir com recursos para manter as tribos protegidas, em seus limites de terra, saúde e bem estar, conservadas suas tradições. Uns balançaram a cabeça; outros aplaudiram. O Presidente da República disse “Muito bem, está aceita a proposta”. Foi quando Rita e Dona Eduarda retornaram; o General, percebendo os olhos mareados de Rita, pediu a Ricardo V que tomasse a palavra.
Ricardo V convidou a mulher para que o acompanhasse no palanque; ela não quis. Alguém chegou de fora correndo e foi ao ouvido do Presidente; este fez um ar preocupado, baixou a cabeça e disse:
- Mande-os entrar.
Ricardo V percebeu o mal estar e aguardou. Cerca de duzentas pessoas tiveram acesso ao ambiente; mantiveram-se de pé e, aos poucos, foram-se sentando.
Deram a palavra a Ricardo V novamente. Enquanto ele foi falando, mais umas trezentas pessoas entraram no auditório recentemente reformado e foram tomando seus assentos. Algumas preferiram ficar de pé.
Ricardo V disse assim:
- O que está acontecendo já era para ter acontecido há muitos anos e é só a ponta do iceberg. Muito bom que tenha havido um começo de solução para o tráfico em 2014 e que a situação nesse aspecto esteja hoje melhor do que foi até 2010. Porém, o avanço nas instituições e procedimentos da democracia brasileira, as práticas da política, foi pífio depois da crise de 2005 e 2006.
- Pífio? – um senador indignou-se. “Pífio” – repetiu Ricardo V.
Alguns da platéia aplaudiram; um chiado partido da mesa pediu silêncio. Mais pessoas entraram no ambiente; alguns esparsos aplausos para o que Ricardo V havia dito. Este continuou:
- O tráfico já começou a se reorganizar novamente.
- Protesto! – um deputado presente à mesa interrompeu. O tráfico não está na pauta! Não foi considerado crítico, não foi incluído na lista de consenso! Desde 2014, como declarou mesmo o senhor, nobre escritor futurólogo, a questão foi equacionada!
Ricardo retomou a palavra:
- A questão das drogas só teve uma solução temporária; atenção, deputado, atenção, senhores: este silêncio coletivo diz muito mais coisas do que se pensa. Cuidado, senhoras e senhores: é como se tivéssemos perdido um elo qualquer com aquilo que sonhamos. Tem sido assim sucessivamente. O descrédito com relação à política em 2005 e 2006 foi o começo dessa sensação, deste... vazio. Individual e coletivo.
- Superado! Foi superado! – gritou o mesmo deputado, batendo com as mãos sobre a mesa.
- Temporariamente, deputado; só temporariamente. Ainda viveríamos, como vivemos e vivenciamos, terríveis crises, incluindo a convulsão social de 2010.
- Ora, o senhor vai voltar no tempo? Viemos aqui para tratar do presente e do futuro!
- Deputado, o senhor não ouviu o que disse Dona Eduarda?
Fez-se um breve silêncio.
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- SEIS –
Rita saiu quase que escorraçada depois da sua fala. Por mais que tenha frisado ser casada com um brasileiro, mãe de filho brasileiro e residente no Brasil havia quinze anos, seu sotaque de americana causou desconforto em alguns nacionalistas, extremados demais para discutir a questão indígena com uma americana.
Perguntaram-lhe da sua experiência e formação; disse-lhes dos seus títulos e citou suas experiências no Brasil e na Bolívia – que foram consideradas episódicas por um dos presentes, tendo o Presidente da República em pessoa dito a ela que já tinham levado em consideração suas contribuições e que ela por favor desse a vez a outros presentes.
Rita agradeceu e foi saindo do auditório da presidência; seu marido, Ricardo V, foi atrás dela, às pressas, percebendo a mágoa da mulher com o visível desinteresse e debochados bocejos que percebera enquanto se expressava. O General, que havia insistido para que Ricardo V fosse àquele encontro, foi atrás dele e, atrás do General, Sérgia, mãe de Ricardo V. Dona Eduarda foi saindo um pouco mais vagarosamente que os demais. Alguém pediu a palavra, mas iniciou-se um burburinho. O General voltou trazendo Ricardo V esbaforido e ofendido pelo braço e deu a seguinte notícia:
- Esse nosso encontro vazou; todo mundo está sabendo e há uma multidão lá fora. ONGs, movimentos, estudantes, o diabo.
O Presidente da República rapidamente acionou a Segurança do Palácio; o chefe da Segurança pediu-lhe calma: “A situação está sob controle”. O Presidente deu a notícia aos demais e pediu que o General tomasse a palavra – e brincou: “O Governo, não; só a palavra, General.”.
O General expressou-se pela manutenção das reservas indígenas dentro das fronteiras e sob a responsabilidade exclusivamente do Brasil. Propôs que fosse feita uma revisão geral da estrutura orçamentária do país, e que as nações interessadas na independência das tribos fossem convidadas a contribuir com recursos para manter as tribos protegidas, em seus limites de terra, saúde e bem estar, conservadas suas tradições. Uns balançaram a cabeça; outros aplaudiram. O Presidente da República disse “Muito bem, está aceita a proposta”. Foi quando Rita e Dona Eduarda retornaram; o General, percebendo os olhos mareados de Rita, pediu a Ricardo V que tomasse a palavra.
Ricardo V convidou a mulher para que o acompanhasse no palanque; ela não quis. Alguém chegou de fora correndo e foi ao ouvido do Presidente; este fez um ar preocupado, baixou a cabeça e disse:
- Mande-os entrar.
Ricardo V percebeu o mal estar e aguardou. Cerca de duzentas pessoas tiveram acesso ao ambiente; mantiveram-se de pé e, aos poucos, foram-se sentando.
Deram a palavra a Ricardo V novamente. Enquanto ele foi falando, mais umas trezentas pessoas entraram no auditório recentemente reformado e foram tomando seus assentos. Algumas preferiram ficar de pé.
Ricardo V disse assim:
- O que está acontecendo já era para ter acontecido há muitos anos e é só a ponta do iceberg. Muito bom que tenha havido um começo de solução para o tráfico em 2014 e que a situação nesse aspecto esteja hoje melhor do que foi até 2010. Porém, o avanço nas instituições e procedimentos da democracia brasileira, as práticas da política, foi pífio depois da crise de 2005 e 2006.
- Pífio? – um senador indignou-se. “Pífio” – repetiu Ricardo V.
Alguns da platéia aplaudiram; um chiado partido da mesa pediu silêncio. Mais pessoas entraram no ambiente; alguns esparsos aplausos para o que Ricardo V havia dito. Este continuou:
- O tráfico já começou a se reorganizar novamente.
- Protesto! – um deputado presente à mesa interrompeu. O tráfico não está na pauta! Não foi considerado crítico, não foi incluído na lista de consenso! Desde 2014, como declarou mesmo o senhor, nobre escritor futurólogo, a questão foi equacionada!
Ricardo retomou a palavra:
- A questão das drogas só teve uma solução temporária; atenção, deputado, atenção, senhores: este silêncio coletivo diz muito mais coisas do que se pensa. Cuidado, senhoras e senhores: é como se tivéssemos perdido um elo qualquer com aquilo que sonhamos. Tem sido assim sucessivamente. O descrédito com relação à política em 2005 e 2006 foi o começo dessa sensação, deste... vazio. Individual e coletivo.
- Superado! Foi superado! – gritou o mesmo deputado, batendo com as mãos sobre a mesa.
- Temporariamente, deputado; só temporariamente. Ainda viveríamos, como vivemos e vivenciamos, terríveis crises, incluindo a convulsão social de 2010.
- Ora, o senhor vai voltar no tempo? Viemos aqui para tratar do presente e do futuro!
- Deputado, o senhor não ouviu o que disse Dona Eduarda?
Fez-se um breve silêncio.
4.04.2006
SS: O SONETO SUBVERSIVO
Pode ser que um dia a turma fique esperta e perceba/
Que esse negócio de privatizar primeiro/
Obter investimentos privados/
E depois reestatizar//
Com discursos inflamados/
Isso é bem público/
Pertence ao povo/
Boliviano venezuelano brasileiro//
Fica sendo bom negócio pra quem vive/
De discurso/
Quem vive de investimento//
Fica a ver navios/
Quem simplesmente vive/
A ouvir discursos.///
Que esse negócio de privatizar primeiro/
Obter investimentos privados/
E depois reestatizar//
Com discursos inflamados/
Isso é bem público/
Pertence ao povo/
Boliviano venezuelano brasileiro//
Fica sendo bom negócio pra quem vive/
De discurso/
Quem vive de investimento//
Fica a ver navios/
Quem simplesmente vive/
A ouvir discursos.///
4.01.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- CINCO –
Ricardo V apresentou-se à mesa, deixando Rita e Dona Eduarda na primeira fileira do anfiteatro do palácio de governo, onde algumas poucas pessoas já se encontravam, provavelmente tão inesperadas e inexpressivas para a maioria como as duas.
Foi dada a palavra a Ricardo V:
- Acredito que este fenômeno silencioso, de apatia popular em relação à mídia e à política no Brasil, possa ser melhor explicado por Dona Eduarda, a quem gostaria de apresentar a todos e passar a palavra.
Houve alguns protestos. Alguém disse a Ricardo V que seu atraso havia-lhe impedido de acompanhar importantes debates, que uma lista de pontos de consenso já fora estabelecida e que o fenômeno do silêncio e apatia coletivos já havia sido compreendido pelo grupo de notáveis presentes, pelo menos em tese.
- Pois o que estou propondo é que Dona Eduarda o explique na prática.
- Quem é Dona Eduarda? – quis saber um dos que protestaram contra o atraso e as companhias de Ricardo V.
- Uma residente num dos assentamentos agrários do norte de Goiás.
Depois de algum silêncio, Ricardo V convidou Dona Eduarda a subir no palco e acessar o palanque ao lado dele.
- A palavra é sua, Dona Eduarda – ele disse.
- Boa tarde – ela disse, com seu sotaque característico da sua região. Meu nome é Eduarda das Neves, moro em Cavalcante, município do Estado de Goiás, em assentamento com mais vinte e três famílias, perto da comunidade kalunga. Vivemos ali por um tempo com muito pouca água, depois instalaram pra nós uma irrigação que precisava pagar pela energia, depois nós fizemos um sistema por gravidade com ajuda de uns engenheiros que moram por lá. Hoje temos água e energia. Temos a tele-multi-mídia e as redes, tratamos da nossa água, cada lote de terra, cada residência paga por sua luz e energia ao nosso condomínio. Nossa associação paga pelo acesso à água que é canalizada, paga pela luz, pela eletricidade. Temos bateria solar também, temos desses cata-ventos que também geram energia, temos uma fábrica de utensílios pra nossa lavoura, temos bons equipamentos de aragem. Temos um contrato pra vender nossa produção no comércio local, temos de um tudo por lá.
- Não falta nada, então? – perguntou alguém, com alguma ironia.
- Respeito. O que falta por lá é respeito.
- Da parte de quem? – quis saber o General.
- Tão fazendo pouco da nossa inteligência. Qualquer pessoa acessa qualquer das duas redes, lê os noticiários que chegam em papel, vê as notícias na tele-multi-mídia e é tudo igual. Tudo repetido, e parecem que querem alegrar a gente ou então entristecer, como se nós fôssemos idiotas. Nós temos escola, temos livros, temos tudo que a cidade tem.
- As cidades também estão em silêncio e sem acessar nem as redes nem a tele-multi-mídia – explicou Sérgia.
- Ninguém agüenta mais. Depois não dá pra entender como é que ainda tem tanto pobre no Brasil, muita coisa já evoluiu, eu tô com sessenta e cinco anos, já vi foi coisa. Aí os políticos visita nós, às vezes vão lá, outras vezes aparecem de repente na tele-multi-mídia, nos mandam mensagem com a cara deles nas telas de bolso e de mesa, no banheiro, na sala, no quarto, na lavoura, e dizem sempre a mesma coisa, tudo falando empolado, tudo agora tem diploma e nós também tem, tudo é profissional, treinado, e ainda tem muita miséria no Brasil, tá errado, não é justo nem é certo nem inteligente.
- O que que a senhora pensa dos índios? – perguntou o Presidente da República.
- Dos índios? Onde eu moro não tem.
- Posso falar? – ofereceu-se Rita, levantando-se.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 - 2006
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- CINCO –
Ricardo V apresentou-se à mesa, deixando Rita e Dona Eduarda na primeira fileira do anfiteatro do palácio de governo, onde algumas poucas pessoas já se encontravam, provavelmente tão inesperadas e inexpressivas para a maioria como as duas.
Foi dada a palavra a Ricardo V:
- Acredito que este fenômeno silencioso, de apatia popular em relação à mídia e à política no Brasil, possa ser melhor explicado por Dona Eduarda, a quem gostaria de apresentar a todos e passar a palavra.
Houve alguns protestos. Alguém disse a Ricardo V que seu atraso havia-lhe impedido de acompanhar importantes debates, que uma lista de pontos de consenso já fora estabelecida e que o fenômeno do silêncio e apatia coletivos já havia sido compreendido pelo grupo de notáveis presentes, pelo menos em tese.
- Pois o que estou propondo é que Dona Eduarda o explique na prática.
- Quem é Dona Eduarda? – quis saber um dos que protestaram contra o atraso e as companhias de Ricardo V.
- Uma residente num dos assentamentos agrários do norte de Goiás.
Depois de algum silêncio, Ricardo V convidou Dona Eduarda a subir no palco e acessar o palanque ao lado dele.
- A palavra é sua, Dona Eduarda – ele disse.
- Boa tarde – ela disse, com seu sotaque característico da sua região. Meu nome é Eduarda das Neves, moro em Cavalcante, município do Estado de Goiás, em assentamento com mais vinte e três famílias, perto da comunidade kalunga. Vivemos ali por um tempo com muito pouca água, depois instalaram pra nós uma irrigação que precisava pagar pela energia, depois nós fizemos um sistema por gravidade com ajuda de uns engenheiros que moram por lá. Hoje temos água e energia. Temos a tele-multi-mídia e as redes, tratamos da nossa água, cada lote de terra, cada residência paga por sua luz e energia ao nosso condomínio. Nossa associação paga pelo acesso à água que é canalizada, paga pela luz, pela eletricidade. Temos bateria solar também, temos desses cata-ventos que também geram energia, temos uma fábrica de utensílios pra nossa lavoura, temos bons equipamentos de aragem. Temos um contrato pra vender nossa produção no comércio local, temos de um tudo por lá.
- Não falta nada, então? – perguntou alguém, com alguma ironia.
- Respeito. O que falta por lá é respeito.
- Da parte de quem? – quis saber o General.
- Tão fazendo pouco da nossa inteligência. Qualquer pessoa acessa qualquer das duas redes, lê os noticiários que chegam em papel, vê as notícias na tele-multi-mídia e é tudo igual. Tudo repetido, e parecem que querem alegrar a gente ou então entristecer, como se nós fôssemos idiotas. Nós temos escola, temos livros, temos tudo que a cidade tem.
- As cidades também estão em silêncio e sem acessar nem as redes nem a tele-multi-mídia – explicou Sérgia.
- Ninguém agüenta mais. Depois não dá pra entender como é que ainda tem tanto pobre no Brasil, muita coisa já evoluiu, eu tô com sessenta e cinco anos, já vi foi coisa. Aí os políticos visita nós, às vezes vão lá, outras vezes aparecem de repente na tele-multi-mídia, nos mandam mensagem com a cara deles nas telas de bolso e de mesa, no banheiro, na sala, no quarto, na lavoura, e dizem sempre a mesma coisa, tudo falando empolado, tudo agora tem diploma e nós também tem, tudo é profissional, treinado, e ainda tem muita miséria no Brasil, tá errado, não é justo nem é certo nem inteligente.
- O que que a senhora pensa dos índios? – perguntou o Presidente da República.
- Dos índios? Onde eu moro não tem.
- Posso falar? – ofereceu-se Rita, levantando-se.
3.27.2006
O QUE VOCÊ QUER LER?
Mas afinal, o que é que você gostaria de ler?
Da minha parte, li que a candidatura da oposição já nasce com suspeitas de favorecimento de verbas para aliados e que a da situação, enquanto permanecer no cargo, trocará de ministros, tanto os que pretendem se candidatar a cargos eletivos como aquele sobre cuja cabeça pairam tantas suspeitas e acusações.
Li que o tráfico modernizou-se, lançou a cota extra gratuita, de prêmio, disponível a cada dez compras.
Que há mares antes navegáveis e agora, intragáveis.
De um ator de novelas que está fazendo novela que diz ter-se cansado de fazer novela; perguntassem a ele, Você já pensou em quem as assiste?
Quebraram o sigilo bancário de um caseiro! Essa, sim, deveria ser a manchete do ano.
Consta da capa de uma revista que uma cantora afirma e pergunta, Sou bi, e daí? Pois é: e daí? Mais precisamente: e nós com isso? Se ela pelo menos cantasse – houve um tempo em que cantoras cantavam! Não é fantástico?
Saudosismo? Nada disso. Sentir saudades é mirar do alto de calças curtas botas de cano longo, marchando no meio da cidade. Parece que foi ontem – e foi: as tropas saíram por aí PDV porque lhes roubaram as armas debaixo dos narizes. Caramba! Parece que foi sempre.
À procura de um tema capaz de responder à pergunta lá de cima – única realmente importante para esses dedos que vão pintando de preto uma tela em branco, tolas teclas ritmadas ao invés de poéticos pincéis ou nanquins ou grafites, tela que se desfará depois em mudo e inexpressivo cinza e não uma capaz de fixar os dedos de Diego Rivera ou a multifacetada sua mulher Frida Callo -, passei por um quarto de dormir onde de fato dormia alguém, uma menina de doze anos, com um sorriso nos lábios, metade do seu rosto na penumbra, metade clareada por uma nesga de sol que penetrou pela janela sem pedir licença. Não sei se era isso que você queria ler – provavelmente não –, mas era isso o que se tinha a dizer. Mais: era isso que se tinha de dizer.
Por escrito.
Da minha parte, li que a candidatura da oposição já nasce com suspeitas de favorecimento de verbas para aliados e que a da situação, enquanto permanecer no cargo, trocará de ministros, tanto os que pretendem se candidatar a cargos eletivos como aquele sobre cuja cabeça pairam tantas suspeitas e acusações.
Li que o tráfico modernizou-se, lançou a cota extra gratuita, de prêmio, disponível a cada dez compras.
Que há mares antes navegáveis e agora, intragáveis.
De um ator de novelas que está fazendo novela que diz ter-se cansado de fazer novela; perguntassem a ele, Você já pensou em quem as assiste?
Quebraram o sigilo bancário de um caseiro! Essa, sim, deveria ser a manchete do ano.
Consta da capa de uma revista que uma cantora afirma e pergunta, Sou bi, e daí? Pois é: e daí? Mais precisamente: e nós com isso? Se ela pelo menos cantasse – houve um tempo em que cantoras cantavam! Não é fantástico?
Saudosismo? Nada disso. Sentir saudades é mirar do alto de calças curtas botas de cano longo, marchando no meio da cidade. Parece que foi ontem – e foi: as tropas saíram por aí PDV porque lhes roubaram as armas debaixo dos narizes. Caramba! Parece que foi sempre.
À procura de um tema capaz de responder à pergunta lá de cima – única realmente importante para esses dedos que vão pintando de preto uma tela em branco, tolas teclas ritmadas ao invés de poéticos pincéis ou nanquins ou grafites, tela que se desfará depois em mudo e inexpressivo cinza e não uma capaz de fixar os dedos de Diego Rivera ou a multifacetada sua mulher Frida Callo -, passei por um quarto de dormir onde de fato dormia alguém, uma menina de doze anos, com um sorriso nos lábios, metade do seu rosto na penumbra, metade clareada por uma nesga de sol que penetrou pela janela sem pedir licença. Não sei se era isso que você queria ler – provavelmente não –, mas era isso o que se tinha a dizer. Mais: era isso que se tinha de dizer.
Por escrito.
3.25.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- QUATRO –
De nada adiantou que o país fosse auto-suficiente em petróleo a partir de 2010, por causa da bem explorada capacidade do sub-solo “on” e “off-shore”, do uso massivo do álcool nos automóveis e da expansão da biomassa na energia elétrica: foi em 2010 que manifestou-se a desorganizada e perigosa convulsão social, que saiu pipocando pelas cinco regiões geopolíticas do Brasil de maneira pavorosa. Ainda era o país da concentração de renda, fosse nos períodos de crescimento, mais ainda nos de contenção.
Agora era diferente. Em 2017, ninguém explicitava seus anseios e frustrações. Ninguém sequer cruzava os braços, muito menos os que perderam seus trabalhos por força do boicote coletivo aos meios de comunicação e à política. Uma proposta de governo militar, “saneador”, foi recebida do mesmo modo: ao invés de indignação e palavras de ordem ou acolhedora aclamação, silêncio. Foi quando o presidente da república, em conversa com o General Fernando, que fora convidado para apaziguar os ânimos das tropas em regime, foi por este convencido a convocar homens de letras, sociologia e antropologia (dentre eles, Ricardo V e sua mãe, Sérgia), matemáticos e físicos, (estarrecidos) políticos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, (desesperados) profissionais de comunicação e reportagens, empresários e sindicalistas. Formou-se um fórum de setenta e oito pessoas, reunidas no palácio de governo, em Brasília - fato este que foi noticiado, para audiência alguma.
Daquele seleto grupo, onde a presença de mãe e filho – Sérgia e Ricardo V – só não era espantosa porque, ela, há muito defendia o ponto de vista de que a raiz dos problemas era a cultural e enraizada exclusão e má-distribuição da renda, ele, por ter ensaiado algo de parecido com o que estava ocorrendo, em livro que se tornara best-seller, 55% eram homens, 45% mulheres, dos quais, 15% homo ou bissexuais; 58% mestiços e os restantes 42% predominantemente negros ou brancos em, praticamente, igual proporção – o que não ocorria relativamente à distribuição geográfica: região a região, havia mais paulistas, sulistas, nordestinos e radicados ou nascidos no centro-oeste que cariocas e nortistas.
Depois de algumas horas, surgiu, afinal, uma lista de pontos de consenso:
As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. Programas de entretenimento das massas haviam chegado ao auge da banalização ou mesmo da boçalidade;
A política, por mais esforços que tivessem havido para torná-la o mais transparente possível referentemente à obtenção de recursos e à sua utilização, caíra em terreno tão árido quanto o que estavam experimentando as comunicações;
Era preciso de uma vez por todas haver uma definição da causa indígena: criar uma nação independente, fomentada pelos países interessados na medida – o que causava tenebroso mal estar em alguns setores, como o militar – a Nação Xingu era o exemplo mais citado -, manter as reservas como se encontravam, sabendo de antemão que as verbas públicas para tanto pareciam ser eternamente insuficientes, órgãos indigienistas dando a impressão de abandono, seus escritórios, até de falta de higiene, ou aculturar e absorver de vez os silvícolas remanescentes na sociedade cidadã - o que era duramente combatido por ONGs, governos nacionais e internacionais ou quem quer que se apresentasse disposto a abraçar a causa que fosse e onde fosse;
Ações do Ministério Público, do Governo e do Judiciário em suas outras esferas para punição, anistia parcial e repatriamento de capital transferido para o exterior por brasileiros, abastados ou agraciados (lícita e ilicitamente) mas descontentes com a tributação e respectiva utilização em solo pátrio, de forma ilícita (ainda que tacitamente aceita como usual e correta) não eram percebidas pela população, ou, se o eram, era nada capaz de causar emoção ou contentamento – nada parecia mais despertar ufanismo, desejado por muitos como algo a deixar perceber satisfação patriótica, nem mesmo o velho futebol;
A concentração de renda ainda persistia, embora a fome e o analfabetismo tivessem atingido níveis bastante baixos frente aos padrões da história do Brasil;
A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso, o que significava que existiam lares de chão de barro e/ou telhado de palha e/ou parede de adobe no Brasil e mundo afora, onde a tele-multi-mídia exibia toda sua exuberância, nas paredes e bolsos e mesas.
Foi neste momento, quando a lista de pontos de consenso foi concluída, que chegou Ricardo V, acompanhado de duas mulheres: sua mulher, Rita; e Dona Eduarda - até então, ilustre desconhecida. Ele foi recebido com alguns aplausos e expressões entre a recriminação e a estranheza pelo seu atraso; as duas, como se fossem penetras de uma festa para a qual sua presença não havia sido nem muito remotamente cogitada.
Gelidamente.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- QUATRO –
De nada adiantou que o país fosse auto-suficiente em petróleo a partir de 2010, por causa da bem explorada capacidade do sub-solo “on” e “off-shore”, do uso massivo do álcool nos automóveis e da expansão da biomassa na energia elétrica: foi em 2010 que manifestou-se a desorganizada e perigosa convulsão social, que saiu pipocando pelas cinco regiões geopolíticas do Brasil de maneira pavorosa. Ainda era o país da concentração de renda, fosse nos períodos de crescimento, mais ainda nos de contenção.
Agora era diferente. Em 2017, ninguém explicitava seus anseios e frustrações. Ninguém sequer cruzava os braços, muito menos os que perderam seus trabalhos por força do boicote coletivo aos meios de comunicação e à política. Uma proposta de governo militar, “saneador”, foi recebida do mesmo modo: ao invés de indignação e palavras de ordem ou acolhedora aclamação, silêncio. Foi quando o presidente da república, em conversa com o General Fernando, que fora convidado para apaziguar os ânimos das tropas em regime, foi por este convencido a convocar homens de letras, sociologia e antropologia (dentre eles, Ricardo V e sua mãe, Sérgia), matemáticos e físicos, (estarrecidos) políticos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, (desesperados) profissionais de comunicação e reportagens, empresários e sindicalistas. Formou-se um fórum de setenta e oito pessoas, reunidas no palácio de governo, em Brasília - fato este que foi noticiado, para audiência alguma.
Daquele seleto grupo, onde a presença de mãe e filho – Sérgia e Ricardo V – só não era espantosa porque, ela, há muito defendia o ponto de vista de que a raiz dos problemas era a cultural e enraizada exclusão e má-distribuição da renda, ele, por ter ensaiado algo de parecido com o que estava ocorrendo, em livro que se tornara best-seller, 55% eram homens, 45% mulheres, dos quais, 15% homo ou bissexuais; 58% mestiços e os restantes 42% predominantemente negros ou brancos em, praticamente, igual proporção – o que não ocorria relativamente à distribuição geográfica: região a região, havia mais paulistas, sulistas, nordestinos e radicados ou nascidos no centro-oeste que cariocas e nortistas.
Depois de algumas horas, surgiu, afinal, uma lista de pontos de consenso:
As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. Programas de entretenimento das massas haviam chegado ao auge da banalização ou mesmo da boçalidade;
A política, por mais esforços que tivessem havido para torná-la o mais transparente possível referentemente à obtenção de recursos e à sua utilização, caíra em terreno tão árido quanto o que estavam experimentando as comunicações;
Era preciso de uma vez por todas haver uma definição da causa indígena: criar uma nação independente, fomentada pelos países interessados na medida – o que causava tenebroso mal estar em alguns setores, como o militar – a Nação Xingu era o exemplo mais citado -, manter as reservas como se encontravam, sabendo de antemão que as verbas públicas para tanto pareciam ser eternamente insuficientes, órgãos indigienistas dando a impressão de abandono, seus escritórios, até de falta de higiene, ou aculturar e absorver de vez os silvícolas remanescentes na sociedade cidadã - o que era duramente combatido por ONGs, governos nacionais e internacionais ou quem quer que se apresentasse disposto a abraçar a causa que fosse e onde fosse;
Ações do Ministério Público, do Governo e do Judiciário em suas outras esferas para punição, anistia parcial e repatriamento de capital transferido para o exterior por brasileiros, abastados ou agraciados (lícita e ilicitamente) mas descontentes com a tributação e respectiva utilização em solo pátrio, de forma ilícita (ainda que tacitamente aceita como usual e correta) não eram percebidas pela população, ou, se o eram, era nada capaz de causar emoção ou contentamento – nada parecia mais despertar ufanismo, desejado por muitos como algo a deixar perceber satisfação patriótica, nem mesmo o velho futebol;
A concentração de renda ainda persistia, embora a fome e o analfabetismo tivessem atingido níveis bastante baixos frente aos padrões da história do Brasil;
A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso, o que significava que existiam lares de chão de barro e/ou telhado de palha e/ou parede de adobe no Brasil e mundo afora, onde a tele-multi-mídia exibia toda sua exuberância, nas paredes e bolsos e mesas.
Foi neste momento, quando a lista de pontos de consenso foi concluída, que chegou Ricardo V, acompanhado de duas mulheres: sua mulher, Rita; e Dona Eduarda - até então, ilustre desconhecida. Ele foi recebido com alguns aplausos e expressões entre a recriminação e a estranheza pelo seu atraso; as duas, como se fossem penetras de uma festa para a qual sua presença não havia sido nem muito remotamente cogitada.
Gelidamente.
3.21.2006
O OLHO IMITA A LENTE OU A LENTE IMITA O OLHO
Às vezes se está em algum lugar alegre, cheio de gente em volta. Conversa-se com alguém, sem intimidade, os assuntos vão surgindo e, de repente, a conversa se esvai, muda-se de lugar. Há uma outra pessoa que roubou sua conversa, que monopolizou quem conversava antes com você – que ficou só, na cabeceira da mesa do bar, sem ouvir direito o que os dois conversam. De vez em quando você olha para os outros que estão compartilhando a mesma mesa. E você mira a cena, olha em perspectiva os olhares, trejeitos, quem fuma e quem rói as unhas, quem sente uma súbita e irresistível coceira. Uma gargalhada.
Você volta a perceber os dois que estão próximos, um de cada lado, você, na cabeceira. A conversa segue aos sussurros, você tem vontade de propor uma troca de lugar, há alguém interessante do lado de um deles, mas eles não param de sussurrar, não lhe dão chance de fazer nenhuma proposta. Quer intervir, participar, mas acha que não fica bem. Pensa em ir para o outro lado da mesa, mudar de cadeira, mas as outras conversas parecem estar tão íntimas e exclusivas quanto esta que está tão perto de você – que fica parado, não consegue mais se mexer, não tem oportunidade de se expressar, só pode observar. Nem o garçom se aproxima para lhe salvar. Aliás, agora lhe deu uma sede tremenda, onde uma cerveja?, pelo amor de Deus!, agora uma fome súbita, irresistível.
A conversa dos dois de repente íntimos e exclusivistas se torna um pouco mais clara aos seus ouvidos, você entende perfeitamente o que eles dizem, e eles falam em Francês. Todos falam Francês, e você, não. E daí? Se falassem Português, a sensação seria exatamente a mesma. Inglês, e nada mudaria.
Você vai ao banheiro. Quando volta, a cena permanece a mesma. Quem fumava com mistura de sofrimento e graça continua fazendo a mesma coisa: sim com a cabeça, um sorriso soprando fumaça para baixo, olhares sonhadores. Quem ruía unha agora penteia e despenteia os cabelos com os dedos longos. A coceira de quem se coçava já não é mais súbita; fica indo e vindo, em movimentos agora vagarosos. Os dois mais próximos da sua mesa continuam sussurrando.
Você filma; e mais nada. Filma com os olhos, a imagem ficará somente em sua memória, na de mais ninguém.
Num instante, a imagem passa a se modificar ao seu gosto, sem nenhum comando ou movimento. Você gosta dos olhares, do ambiente ligeiramente enfumaçado, logo você, que não fuma e tem alergia. Percebe o Francês falado sussurrado aos seus ouvidos e sem tocá-los, tem vontade de comentar, fica mudo, distorce as palavras para si a seu gosto. Alguém pede a conta e paga; era isso o que você queria.
Parabéns, diretor.
Você volta a perceber os dois que estão próximos, um de cada lado, você, na cabeceira. A conversa segue aos sussurros, você tem vontade de propor uma troca de lugar, há alguém interessante do lado de um deles, mas eles não param de sussurrar, não lhe dão chance de fazer nenhuma proposta. Quer intervir, participar, mas acha que não fica bem. Pensa em ir para o outro lado da mesa, mudar de cadeira, mas as outras conversas parecem estar tão íntimas e exclusivas quanto esta que está tão perto de você – que fica parado, não consegue mais se mexer, não tem oportunidade de se expressar, só pode observar. Nem o garçom se aproxima para lhe salvar. Aliás, agora lhe deu uma sede tremenda, onde uma cerveja?, pelo amor de Deus!, agora uma fome súbita, irresistível.
A conversa dos dois de repente íntimos e exclusivistas se torna um pouco mais clara aos seus ouvidos, você entende perfeitamente o que eles dizem, e eles falam em Francês. Todos falam Francês, e você, não. E daí? Se falassem Português, a sensação seria exatamente a mesma. Inglês, e nada mudaria.
Você vai ao banheiro. Quando volta, a cena permanece a mesma. Quem fumava com mistura de sofrimento e graça continua fazendo a mesma coisa: sim com a cabeça, um sorriso soprando fumaça para baixo, olhares sonhadores. Quem ruía unha agora penteia e despenteia os cabelos com os dedos longos. A coceira de quem se coçava já não é mais súbita; fica indo e vindo, em movimentos agora vagarosos. Os dois mais próximos da sua mesa continuam sussurrando.
Você filma; e mais nada. Filma com os olhos, a imagem ficará somente em sua memória, na de mais ninguém.
Num instante, a imagem passa a se modificar ao seu gosto, sem nenhum comando ou movimento. Você gosta dos olhares, do ambiente ligeiramente enfumaçado, logo você, que não fuma e tem alergia. Percebe o Francês falado sussurrado aos seus ouvidos e sem tocá-los, tem vontade de comentar, fica mudo, distorce as palavras para si a seu gosto. Alguém pede a conta e paga; era isso o que você queria.
Parabéns, diretor.
3.17.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- TRÊS –
Aquele movimento sem nome e sem rosto provocou um retrocesso no tempo: mídia e seus anunciantes foram para as ruas distribuir panfletos oferecendo programações e produtos, em pleníssima era das ultra-telecomunicações, televendas, tudo tele - longe, tecnológico, impessoal.
O Exército mobilizou-se; sem saber contra quem. As tropas estavam lá, nas ruas. Depois, foi a vez da Marinha: mares de frente para as praias tratadas para manter a poluição em níveis aceitáveis, com suas porções reservadas à geração de energia e à sua conversão em água para consumo, além de suas reservas para assinantes, passaram a vir boiarem sobre si embarcações circunspetas, nada esportivas, até agressivas, desde que assim decidissem ser vistas. Jetsons militares passaram a sobrevoar todo o território brasileiro, além de equipamentos bem mais aparelhados e específicos, ruidosos ou não, dos maiores aos menores.
Depois de décadas apregoando que todo e qualquer empregado de toda e qualquer empresa era, antes de tudo, um vendedor, as empresas mantinham seus departamentos de vendas, ainda que com os mais variados nomes. Isso somado àquela onda de silêncio – que, na verdade, se baseava, antes de tudo, sem que se soubesse ainda porque, no absenteísmo do acesso aos veículos de comunicação de massa e de intercomunicação – causou a demissão de quem trabalhava diretamente em vendas. Os demais – vendedores acessórios, por assim dizer – mantinham suas atividades, inclusive a de tentar descobrir o que estava acontecendo e o que fazer para projetar o futuro. Mas todos faziam parte do dito movimento sem rosto e sem nome.
Naquele momento, Cidade do México e Minaçu pareciam-se imensamente – na distância do mar, no ar seco, no aspecto indígena de suas populações, e o mais espantoso: no silêncio.
Nova Iorque era silenciosa, como o era – e sempre foi – a população de Pequim.
Copenhague era diferente, porque sempre o foi; mas a semelhança para leigos desavisados dos trajes de algumas de suas louras com os de algumas louras norte-americanas não-nova-iorquinas – não só trajes, mas posturas, maneira de se expressar – acentuava-se.
E os que distribuíam arcaicos panfletos de propaganda, implorando para que todos voltassem a sintonizar redes, toda a imensa e multifuncional conexão ultra-multi-mídia disponível, também faziam parte; seu corpo a corpo era silencioso, embora sorridente.
E era só no Brasil – mas começava a incomodar o mundo.
E a sensação de desconexão foi maior. Depoimentos dos líderes mais importantes da China e dos Estados Unidos bem o demonstraram. Toda aquela momentânea mas duradoura desconexão já traziam, mais que desconforto, evidentemente, prejuízo.
Todas as marchas de protesto que percorreram tão especialmente o Século XX e, já bastante conhecidas na forma e nem tanto em intenção, na primeira década do XXI, passaram a contrastar com aquele espetáculo de indivíduos propondo que fossem aceitos pelos passantes panfletos de papel pelas ruas de cidades grandes e muitas outras de outros portes do Brasil.
Tudo isso, como se sabe, aconteceu há somente três anos. Um batismo do que ocorria ficou gravado na memória de dois amigos. Em conversa ligeiramente embriagada do General Fernando com seu amigo Almir, ambos da reserva (militares aposentados), em uma noite no apartamento do General, este, que geralmente não veste nem pijamas nem qualquer outra roupa quando está em casa, e que houve por bem manter-se vestido naquela noite de uisquinhos, disse assim a Almir:
- É a Revolução do Silêncio.
Em seguida, Almir pensou em silêncio alguma coisa genial de que jamais conseguiu se lembrar, a empregada bocejou e deu boa noite e retirou-se e Almir resolveu despedir-se também e foi para sua casa, a pé, sem medo, com muito sono.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- TRÊS –
Aquele movimento sem nome e sem rosto provocou um retrocesso no tempo: mídia e seus anunciantes foram para as ruas distribuir panfletos oferecendo programações e produtos, em pleníssima era das ultra-telecomunicações, televendas, tudo tele - longe, tecnológico, impessoal.
O Exército mobilizou-se; sem saber contra quem. As tropas estavam lá, nas ruas. Depois, foi a vez da Marinha: mares de frente para as praias tratadas para manter a poluição em níveis aceitáveis, com suas porções reservadas à geração de energia e à sua conversão em água para consumo, além de suas reservas para assinantes, passaram a vir boiarem sobre si embarcações circunspetas, nada esportivas, até agressivas, desde que assim decidissem ser vistas. Jetsons militares passaram a sobrevoar todo o território brasileiro, além de equipamentos bem mais aparelhados e específicos, ruidosos ou não, dos maiores aos menores.
Depois de décadas apregoando que todo e qualquer empregado de toda e qualquer empresa era, antes de tudo, um vendedor, as empresas mantinham seus departamentos de vendas, ainda que com os mais variados nomes. Isso somado àquela onda de silêncio – que, na verdade, se baseava, antes de tudo, sem que se soubesse ainda porque, no absenteísmo do acesso aos veículos de comunicação de massa e de intercomunicação – causou a demissão de quem trabalhava diretamente em vendas. Os demais – vendedores acessórios, por assim dizer – mantinham suas atividades, inclusive a de tentar descobrir o que estava acontecendo e o que fazer para projetar o futuro. Mas todos faziam parte do dito movimento sem rosto e sem nome.
Naquele momento, Cidade do México e Minaçu pareciam-se imensamente – na distância do mar, no ar seco, no aspecto indígena de suas populações, e o mais espantoso: no silêncio.
Nova Iorque era silenciosa, como o era – e sempre foi – a população de Pequim.
Copenhague era diferente, porque sempre o foi; mas a semelhança para leigos desavisados dos trajes de algumas de suas louras com os de algumas louras norte-americanas não-nova-iorquinas – não só trajes, mas posturas, maneira de se expressar – acentuava-se.
E os que distribuíam arcaicos panfletos de propaganda, implorando para que todos voltassem a sintonizar redes, toda a imensa e multifuncional conexão ultra-multi-mídia disponível, também faziam parte; seu corpo a corpo era silencioso, embora sorridente.
E era só no Brasil – mas começava a incomodar o mundo.
E a sensação de desconexão foi maior. Depoimentos dos líderes mais importantes da China e dos Estados Unidos bem o demonstraram. Toda aquela momentânea mas duradoura desconexão já traziam, mais que desconforto, evidentemente, prejuízo.
Todas as marchas de protesto que percorreram tão especialmente o Século XX e, já bastante conhecidas na forma e nem tanto em intenção, na primeira década do XXI, passaram a contrastar com aquele espetáculo de indivíduos propondo que fossem aceitos pelos passantes panfletos de papel pelas ruas de cidades grandes e muitas outras de outros portes do Brasil.
Tudo isso, como se sabe, aconteceu há somente três anos. Um batismo do que ocorria ficou gravado na memória de dois amigos. Em conversa ligeiramente embriagada do General Fernando com seu amigo Almir, ambos da reserva (militares aposentados), em uma noite no apartamento do General, este, que geralmente não veste nem pijamas nem qualquer outra roupa quando está em casa, e que houve por bem manter-se vestido naquela noite de uisquinhos, disse assim a Almir:
- É a Revolução do Silêncio.
Em seguida, Almir pensou em silêncio alguma coisa genial de que jamais conseguiu se lembrar, a empregada bocejou e deu boa noite e retirou-se e Almir resolveu despedir-se também e foi para sua casa, a pé, sem medo, com muito sono.
3.13.2006
CUCARACHA
(PARA TERÇA, 14 DE MARÇO DE 2006.)
“Cucaracha / vou-me embora lavar prato nos states / logo agora / que eu me vejo tão somente coração / logo agora / que a orquestra toca essa do Roberto / que eu me vejo baterista rindo à toa / nos teus braços, um artista / logo agora” (de uma canção em parceria com Tião Coelho, engenheiro e compositor).
O Brasil é um país onde um documento dentro de seu prazo de validade não vale. Isso mesmo: se seu passaporte está com menos de seis meses para expirar sua validade, vá à Polícia Federal e não dê queixa nem se queixe, não: tire outro – pois, com o seu atual, você sequer consegue embarcar, para qualquer que seja o país para onde você precisa ou deseja ir.
Para ir ao México, agora, é exigido visto. Claro: virou moda ir pra lá para se juntar a mexicanos desesperados e cruzar a fronteira para o Grande Irmão do Norte. Fizeram uma novela no ano passado sobre o tema, não foi?
E assim vamos nós, brasileiros, mantendo-nos com fama de ilegais, indo embora pros states para trabalhar em atividades que os americanos já não querem mais pra eles. Vamos lá, macacada, virar cucaracha.
Vistos para os Estados Unidos já são negados até para profissionais de nível superior devida e comprovadamente empregados no Brasil, que gostariam somente de visitar Disney World ou Nova Iorque - porque nós não merecemos crédito.
E não adianta dar desculpas, justificativas, explicar que o Brasil não oferece empregos, que é preciso ir para os states lavar pratos porque lá eles pagam em dólar. Fato é que, lá, a classe um dia ou ainda média brasileira não se envergonha de fazer trabalho subalterno, coisas que aqui não quer fazer nem jamais faria, imagina, lavar pratos. Nem pensar em tentar mudar de cidade no próprio Brasil, para buscar um emprego de acordo com suas aptidões, pois “Nova Iorque é aqui / Nova Iorque é ali / Nova Iorque é mais perto que o sertão” (canção de Sá e Guarabira). Cobrar do governo, protestar, exigir redução da carga tributária, eficiência, probidade, tudo mais que gere emprego, ora, nada disso é brasileiro. Melhor passar vergonha lá fora, ser tratado como sub-raça – mas é lá, nos states. “Fazer a América”. Vale para a classe dita média como para a pobre, tanto faz: já é mais uma tradição brasileira entrar e permanecer ilegalmente nos Estados Unidos, até que venha a extradição ou o “paraíso”: o green-card.
Não há governo que dê conta disso, porque essa já deixou de ser questão meramente pecuniária ou de arranjar emprego, ou ainda de dar vazão a um imaginário e romântico instinto aventureiro. Não é aventura jogar carreiras e estudo fora, desistir da própria terra para competir com desgraçados e desgraçadas de outros países, “para aprender Inglês”, “para juntar dinheiro”, “lá é que é país”.
Nem nossos passaportes merecem mais crédito se não estiverem válidos por longo prazo. Caramba!
Não há governo que dê conta, porque não há governo que não seja parecido com seu povo. O político é Deus: ele está no meio de nós. O político é um de nós. Ou melhoramos nós ou nossos políticos permanecerão corruptos, muitos, envergonhados, poucos, ineficientes, vários, indecentes, mais alguns, despreparados, mais ainda, arrogantes, a dar com o pau, covardes, a grande maioria. Ou continuemos a tapar o sol com a peneira, a deixar pra lá, tudo bem, very good, é isso aí, my friend, podes crer, brother, a Califórnia é diferente, irmão, é muito mais do que um sonho: é o pesadelo da discriminação, do faz de conta pros que estão no Brasil que estamos bem pra caramba e não escondidos nas sombras dos nativos, Jimmis, Edwards, Johns, Joes, Marys, Sarahs, Debis, Lailas, babando pelo dinheiro deles, o idioma deles, o que é deles é que é bom, um dia eu volto, rico, pro Brasil, vocês vão ver. Discriminado aqui, ora, discriminado lá - há quem pense assim, quem sonhe assim, quem faça assim; é assim – e pronto. Acabou-se. Tudo por dinheiro – é esse o tempo; é esse o país: Brasil.
O risco Brasil despencou, ultimamente – é o que dizem os noticiários; é o que divulgam as agências que avaliam o risco de se investir neste ou naquele país.
Sim, o risco Brasil caiu. O risco Brasileiro, não.
“Cucaracha / vou-me embora lavar prato nos states / logo agora / que eu me vejo tão somente coração / logo agora / que a orquestra toca essa do Roberto / que eu me vejo baterista rindo à toa / nos teus braços, um artista / logo agora” (de uma canção em parceria com Tião Coelho, engenheiro e compositor).
O Brasil é um país onde um documento dentro de seu prazo de validade não vale. Isso mesmo: se seu passaporte está com menos de seis meses para expirar sua validade, vá à Polícia Federal e não dê queixa nem se queixe, não: tire outro – pois, com o seu atual, você sequer consegue embarcar, para qualquer que seja o país para onde você precisa ou deseja ir.
Para ir ao México, agora, é exigido visto. Claro: virou moda ir pra lá para se juntar a mexicanos desesperados e cruzar a fronteira para o Grande Irmão do Norte. Fizeram uma novela no ano passado sobre o tema, não foi?
E assim vamos nós, brasileiros, mantendo-nos com fama de ilegais, indo embora pros states para trabalhar em atividades que os americanos já não querem mais pra eles. Vamos lá, macacada, virar cucaracha.
Vistos para os Estados Unidos já são negados até para profissionais de nível superior devida e comprovadamente empregados no Brasil, que gostariam somente de visitar Disney World ou Nova Iorque - porque nós não merecemos crédito.
E não adianta dar desculpas, justificativas, explicar que o Brasil não oferece empregos, que é preciso ir para os states lavar pratos porque lá eles pagam em dólar. Fato é que, lá, a classe um dia ou ainda média brasileira não se envergonha de fazer trabalho subalterno, coisas que aqui não quer fazer nem jamais faria, imagina, lavar pratos. Nem pensar em tentar mudar de cidade no próprio Brasil, para buscar um emprego de acordo com suas aptidões, pois “Nova Iorque é aqui / Nova Iorque é ali / Nova Iorque é mais perto que o sertão” (canção de Sá e Guarabira). Cobrar do governo, protestar, exigir redução da carga tributária, eficiência, probidade, tudo mais que gere emprego, ora, nada disso é brasileiro. Melhor passar vergonha lá fora, ser tratado como sub-raça – mas é lá, nos states. “Fazer a América”. Vale para a classe dita média como para a pobre, tanto faz: já é mais uma tradição brasileira entrar e permanecer ilegalmente nos Estados Unidos, até que venha a extradição ou o “paraíso”: o green-card.
Não há governo que dê conta disso, porque essa já deixou de ser questão meramente pecuniária ou de arranjar emprego, ou ainda de dar vazão a um imaginário e romântico instinto aventureiro. Não é aventura jogar carreiras e estudo fora, desistir da própria terra para competir com desgraçados e desgraçadas de outros países, “para aprender Inglês”, “para juntar dinheiro”, “lá é que é país”.
Nem nossos passaportes merecem mais crédito se não estiverem válidos por longo prazo. Caramba!
Não há governo que dê conta, porque não há governo que não seja parecido com seu povo. O político é Deus: ele está no meio de nós. O político é um de nós. Ou melhoramos nós ou nossos políticos permanecerão corruptos, muitos, envergonhados, poucos, ineficientes, vários, indecentes, mais alguns, despreparados, mais ainda, arrogantes, a dar com o pau, covardes, a grande maioria. Ou continuemos a tapar o sol com a peneira, a deixar pra lá, tudo bem, very good, é isso aí, my friend, podes crer, brother, a Califórnia é diferente, irmão, é muito mais do que um sonho: é o pesadelo da discriminação, do faz de conta pros que estão no Brasil que estamos bem pra caramba e não escondidos nas sombras dos nativos, Jimmis, Edwards, Johns, Joes, Marys, Sarahs, Debis, Lailas, babando pelo dinheiro deles, o idioma deles, o que é deles é que é bom, um dia eu volto, rico, pro Brasil, vocês vão ver. Discriminado aqui, ora, discriminado lá - há quem pense assim, quem sonhe assim, quem faça assim; é assim – e pronto. Acabou-se. Tudo por dinheiro – é esse o tempo; é esse o país: Brasil.
O risco Brasil despencou, ultimamente – é o que dizem os noticiários; é o que divulgam as agências que avaliam o risco de se investir neste ou naquele país.
Sim, o risco Brasil caiu. O risco Brasileiro, não.
3.11.2006
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- DOIS –
Ricardo V sorveu prazerosamente uns bons goles da cerveja gelada, na varanda da sua casa, de frente para a piscina. Vinha revezando esse novo prazer com as viagens ao Rio, Orlando, Irlanda e Escócia, seus escritos e longas caminhadas, com direito a acampamento, em companhia de Rita e do filho Ricardo VI, pelas trilhas na Chapada dos Veadeiros, suas matas e cachoeiras. Ricardo VI estava com 14 anos e Rita, esplendorosa: o bronzeado produzido pelo sol filtrado pelas matas fazia um belo contraste com seus cabelos ruivos, escondendo um pouco suas sardas, deixando delas somente uma sombrinha graciosa; suas pernas e a barriga geralmente expostas pareciam agradecer ao exercício oferecido pelas trilhas. Mais ainda, Rita vivia fase de grande vivacidade mental; voltara a pesquisar índios e demais raças que habitavam aquele Brasil de 2017 e comparava-os, sem qualquer compromisso científico – muito pelo contrário – com os celtas e suas tradições ainda existentes na Irlanda, Escócia e Galícia. Raças que, no seu entender, teimavam por resistir e continuar a existir, mesmo que vivendo longos períodos das mais diversas formas de submissão.
Numa daquelas caminhadas, deram com a comunidade descrita havia sete anos pelo então Coronel Fernando, sem travar qualquer contato além de cumprimentos amistosos e silenciosos, pois perceberam que se agissem diferente o resultado teria sido igual: o mesmo silêncio observador.
Ricardo V deixou a cerveja de lado, espreguiçou-se, deu um mergulho e deixou mulher e filho na piscina, para tomar um banho e sair de carro. Visitou um dos diversos assentamentos coletivos da região rural e percebeu quase que o mesmo silêncio da “comunidade do General”, como haviam se habituado a chamar os silenciosos da chapada. Tentou puxar conversa com um dos agricultores – um dos mais ativos, produtivos, alguém que soube aproveitar a oportunidade de receber um lote de terra e treinamento para o explorar, e que conseguira obter para o assentamento um bom sistema de logística para entrega de insumos e escoamento da produção, superando exemplarmente a cultura de subsistência -, e só recebeu em troca um amigável sorriso. Tentou novamente: futebol, um sorriso; política, uma cara amarrada, foi o que conseguiu em troca.
Foi até uma bêbada contumaz. Como vai, Dona Zeza, tudo bem com a senhora? Ela levantou o rosto na direção dele, sorriu, fixou seu olhar do de Ricardo V, baixou os olhos e tirou mais um trago do gargalo da garrafa de cachaça. Ele sentiu-se um idiota, debaixo daquele sol estonteante como sempre e pensou em voltar para casa, para sua piscina.
Ou para seus escritos? Ou ao telefone ou à rede – para uma conversa com o General?
Caminhou um pouco mais, entrou no carro e dirigiu até um bar no centro da cidade. Lá, encontrou conversa; pediu um chope, que bebeu de um gole só e foi para casa, um pouco mais satisfeito. Mas intrigado; e atordoado. Sol demais, cerveja demais para sua parca experiência como bebedor, comida de menos, conversa pouca, silêncio demais na zona rural. Lembrou-se de 2006, do Movimento dos Sem Terra, da sua invasão ao laboratório rural de uma multinacional de papel e celulose. 20 anos de pesquisa destruídos por algumas mulheres pobres e ignorantes, em nome de um “protesto para chamar a atenção da sociedade”, à guisa de atacar “os novos inimigos: as transnacionais” – palavras do líder do MST.
Que silêncio era aquele?
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO
- DOIS –
Ricardo V sorveu prazerosamente uns bons goles da cerveja gelada, na varanda da sua casa, de frente para a piscina. Vinha revezando esse novo prazer com as viagens ao Rio, Orlando, Irlanda e Escócia, seus escritos e longas caminhadas, com direito a acampamento, em companhia de Rita e do filho Ricardo VI, pelas trilhas na Chapada dos Veadeiros, suas matas e cachoeiras. Ricardo VI estava com 14 anos e Rita, esplendorosa: o bronzeado produzido pelo sol filtrado pelas matas fazia um belo contraste com seus cabelos ruivos, escondendo um pouco suas sardas, deixando delas somente uma sombrinha graciosa; suas pernas e a barriga geralmente expostas pareciam agradecer ao exercício oferecido pelas trilhas. Mais ainda, Rita vivia fase de grande vivacidade mental; voltara a pesquisar índios e demais raças que habitavam aquele Brasil de 2017 e comparava-os, sem qualquer compromisso científico – muito pelo contrário – com os celtas e suas tradições ainda existentes na Irlanda, Escócia e Galícia. Raças que, no seu entender, teimavam por resistir e continuar a existir, mesmo que vivendo longos períodos das mais diversas formas de submissão.
Numa daquelas caminhadas, deram com a comunidade descrita havia sete anos pelo então Coronel Fernando, sem travar qualquer contato além de cumprimentos amistosos e silenciosos, pois perceberam que se agissem diferente o resultado teria sido igual: o mesmo silêncio observador.
Ricardo V deixou a cerveja de lado, espreguiçou-se, deu um mergulho e deixou mulher e filho na piscina, para tomar um banho e sair de carro. Visitou um dos diversos assentamentos coletivos da região rural e percebeu quase que o mesmo silêncio da “comunidade do General”, como haviam se habituado a chamar os silenciosos da chapada. Tentou puxar conversa com um dos agricultores – um dos mais ativos, produtivos, alguém que soube aproveitar a oportunidade de receber um lote de terra e treinamento para o explorar, e que conseguira obter para o assentamento um bom sistema de logística para entrega de insumos e escoamento da produção, superando exemplarmente a cultura de subsistência -, e só recebeu em troca um amigável sorriso. Tentou novamente: futebol, um sorriso; política, uma cara amarrada, foi o que conseguiu em troca.
Foi até uma bêbada contumaz. Como vai, Dona Zeza, tudo bem com a senhora? Ela levantou o rosto na direção dele, sorriu, fixou seu olhar do de Ricardo V, baixou os olhos e tirou mais um trago do gargalo da garrafa de cachaça. Ele sentiu-se um idiota, debaixo daquele sol estonteante como sempre e pensou em voltar para casa, para sua piscina.
Ou para seus escritos? Ou ao telefone ou à rede – para uma conversa com o General?
Caminhou um pouco mais, entrou no carro e dirigiu até um bar no centro da cidade. Lá, encontrou conversa; pediu um chope, que bebeu de um gole só e foi para casa, um pouco mais satisfeito. Mas intrigado; e atordoado. Sol demais, cerveja demais para sua parca experiência como bebedor, comida de menos, conversa pouca, silêncio demais na zona rural. Lembrou-se de 2006, do Movimento dos Sem Terra, da sua invasão ao laboratório rural de uma multinacional de papel e celulose. 20 anos de pesquisa destruídos por algumas mulheres pobres e ignorantes, em nome de um “protesto para chamar a atenção da sociedade”, à guisa de atacar “os novos inimigos: as transnacionais” – palavras do líder do MST.
Que silêncio era aquele?
3.06.2006
CADÊ O ÔNIBUS
Uma poesia sem verso, espalhada em prosa, solta em frases curtas e longas, pontuadas com vírgulas e pontos, espaçando-se ao longo de parágrafos, que não falava de amor nem de morte, falava da vida, inclusive e principalmente da alheia, mas, sim, falava da vida, nos morros, asfaltos, calçadas, apartamentos, mansões.
Procurava compreender o porque da diferença de apartamentos, mansões e bancos de praça, evitando para isso a rima, fugia da métrica como quem foge da polícia.
Deixou para trás, como já dito, o verso e, conseqüentemente, as estrofes, substituindo-as por formais parágrafos.
Examinou alguns lares, lares desfeitos, recém-construídos outros, alguns idosos, solitários, unidos, vizinhos, clandestinos, em suspiros de amor e de morte, embora tivesse tentado evitar esses temas tão complexos.
Quisera ater-se no concreto não do verso mas da existência, pecúnia, peculato, pederastia, pedofilia, predisposição, resfriado, gripe, matrimônio, separação, virgindade, estupro, assassinato, fortuna e miséria, dor de barriga, azia, dor de cabeça, enxaqueca, calcinha, sutiã, cuecas penduradas em um varal de subúrbio, cachorros magros e seus latidos afônicos, uma limusine.
Entretanto, o que acabou acontecendo foi uma crônica, gênero tão desprezado e ao mesmo tempo tão presente, todo cronista corresponde-se com seus leitores, a crônica é o bate-papo à distância, um cafezinho ao telefone, um chope de aeroporto, um vôo perdido, um novo sonho esperando o próximo.
Uma poesia sem verso
espalhada em prosa
solta
em frases curtas e
longas
pontuadas com vírgulas e pontos
espaçando-se
ao longo de parágrafos
que não falava de amor nem de morte
falava da vida principalmente alheia
falava de amor
falava de morte.
E era só uma poesia, poeminha de se guardar na gaveta, crônica de se ler no ônibus, cadê o ônibus, a cidade comeu o ônibus, o futuro engoliu a cidade, a cidade levou junto a gaveta, só ficou a crônica
Da poesia
Saudosa do verso.
Procurava compreender o porque da diferença de apartamentos, mansões e bancos de praça, evitando para isso a rima, fugia da métrica como quem foge da polícia.
Deixou para trás, como já dito, o verso e, conseqüentemente, as estrofes, substituindo-as por formais parágrafos.
Examinou alguns lares, lares desfeitos, recém-construídos outros, alguns idosos, solitários, unidos, vizinhos, clandestinos, em suspiros de amor e de morte, embora tivesse tentado evitar esses temas tão complexos.
Quisera ater-se no concreto não do verso mas da existência, pecúnia, peculato, pederastia, pedofilia, predisposição, resfriado, gripe, matrimônio, separação, virgindade, estupro, assassinato, fortuna e miséria, dor de barriga, azia, dor de cabeça, enxaqueca, calcinha, sutiã, cuecas penduradas em um varal de subúrbio, cachorros magros e seus latidos afônicos, uma limusine.
Entretanto, o que acabou acontecendo foi uma crônica, gênero tão desprezado e ao mesmo tempo tão presente, todo cronista corresponde-se com seus leitores, a crônica é o bate-papo à distância, um cafezinho ao telefone, um chope de aeroporto, um vôo perdido, um novo sonho esperando o próximo.
Uma poesia sem verso
espalhada em prosa
solta
em frases curtas e
longas
pontuadas com vírgulas e pontos
espaçando-se
ao longo de parágrafos
que não falava de amor nem de morte
falava da vida principalmente alheia
falava de amor
falava de morte.
E era só uma poesia, poeminha de se guardar na gaveta, crônica de se ler no ônibus, cadê o ônibus, a cidade comeu o ônibus, o futuro engoliu a cidade, a cidade levou junto a gaveta, só ficou a crônica
Da poesia
Saudosa do verso.
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