3.27.2006

O QUE VOCÊ QUER LER?

Mas afinal, o que é que você gostaria de ler?

Da minha parte, li que a candidatura da oposição já nasce com suspeitas de favorecimento de verbas para aliados e que a da situação, enquanto permanecer no cargo, trocará de ministros, tanto os que pretendem se candidatar a cargos eletivos como aquele sobre cuja cabeça pairam tantas suspeitas e acusações.

Li que o tráfico modernizou-se, lançou a cota extra gratuita, de prêmio, disponível a cada dez compras.

Que há mares antes navegáveis e agora, intragáveis.

De um ator de novelas que está fazendo novela que diz ter-se cansado de fazer novela; perguntassem a ele, Você já pensou em quem as assiste?

Quebraram o sigilo bancário de um caseiro! Essa, sim, deveria ser a manchete do ano.

Consta da capa de uma revista que uma cantora afirma e pergunta, Sou bi, e daí? Pois é: e daí? Mais precisamente: e nós com isso? Se ela pelo menos cantasse – houve um tempo em que cantoras cantavam! Não é fantástico?

Saudosismo? Nada disso. Sentir saudades é mirar do alto de calças curtas botas de cano longo, marchando no meio da cidade. Parece que foi ontem – e foi: as tropas saíram por aí PDV porque lhes roubaram as armas debaixo dos narizes. Caramba! Parece que foi sempre.

À procura de um tema capaz de responder à pergunta lá de cima – única realmente importante para esses dedos que vão pintando de preto uma tela em branco, tolas teclas ritmadas ao invés de poéticos pincéis ou nanquins ou grafites, tela que se desfará depois em mudo e inexpressivo cinza e não uma capaz de fixar os dedos de Diego Rivera ou a multifacetada sua mulher Frida Callo -, passei por um quarto de dormir onde de fato dormia alguém, uma menina de doze anos, com um sorriso nos lábios, metade do seu rosto na penumbra, metade clareada por uma nesga de sol que penetrou pela janela sem pedir licença. Não sei se era isso que você queria ler – provavelmente não –, mas era isso o que se tinha a dizer. Mais: era isso que se tinha de dizer.

Por escrito.

3.25.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005

TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO

- QUATRO –

De nada adiantou que o país fosse auto-suficiente em petróleo a partir de 2010, por causa da bem explorada capacidade do sub-solo “on” e “off-shore”, do uso massivo do álcool nos automóveis e da expansão da biomassa na energia elétrica: foi em 2010 que manifestou-se a desorganizada e perigosa convulsão social, que saiu pipocando pelas cinco regiões geopolíticas do Brasil de maneira pavorosa. Ainda era o país da concentração de renda, fosse nos períodos de crescimento, mais ainda nos de contenção.

Agora era diferente. Em 2017, ninguém explicitava seus anseios e frustrações. Ninguém sequer cruzava os braços, muito menos os que perderam seus trabalhos por força do boicote coletivo aos meios de comunicação e à política. Uma proposta de governo militar, “saneador”, foi recebida do mesmo modo: ao invés de indignação e palavras de ordem ou acolhedora aclamação, silêncio. Foi quando o presidente da república, em conversa com o General Fernando, que fora convidado para apaziguar os ânimos das tropas em regime, foi por este convencido a convocar homens de letras, sociologia e antropologia (dentre eles, Ricardo V e sua mãe, Sérgia), matemáticos e físicos, (estarrecidos) políticos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, (desesperados) profissionais de comunicação e reportagens, empresários e sindicalistas. Formou-se um fórum de setenta e oito pessoas, reunidas no palácio de governo, em Brasília - fato este que foi noticiado, para audiência alguma.

Daquele seleto grupo, onde a presença de mãe e filho – Sérgia e Ricardo V – só não era espantosa porque, ela, há muito defendia o ponto de vista de que a raiz dos problemas era a cultural e enraizada exclusão e má-distribuição da renda, ele, por ter ensaiado algo de parecido com o que estava ocorrendo, em livro que se tornara best-seller, 55% eram homens, 45% mulheres, dos quais, 15% homo ou bissexuais; 58% mestiços e os restantes 42% predominantemente negros ou brancos em, praticamente, igual proporção – o que não ocorria relativamente à distribuição geográfica: região a região, havia mais paulistas, sulistas, nordestinos e radicados ou nascidos no centro-oeste que cariocas e nortistas.

Depois de algumas horas, surgiu, afinal, uma lista de pontos de consenso:

As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. Programas de entretenimento das massas haviam chegado ao auge da banalização ou mesmo da boçalidade;
A política, por mais esforços que tivessem havido para torná-la o mais transparente possível referentemente à obtenção de recursos e à sua utilização, caíra em terreno tão árido quanto o que estavam experimentando as comunicações;
Era preciso de uma vez por todas haver uma definição da causa indígena: criar uma nação independente, fomentada pelos países interessados na medida – o que causava tenebroso mal estar em alguns setores, como o militar – a Nação Xingu era o exemplo mais citado -, manter as reservas como se encontravam, sabendo de antemão que as verbas públicas para tanto pareciam ser eternamente insuficientes, órgãos indigienistas dando a impressão de abandono, seus escritórios, até de falta de higiene, ou aculturar e absorver de vez os silvícolas remanescentes na sociedade cidadã - o que era duramente combatido por ONGs, governos nacionais e internacionais ou quem quer que se apresentasse disposto a abraçar a causa que fosse e onde fosse;
Ações do Ministério Público, do Governo e do Judiciário em suas outras esferas para punição, anistia parcial e repatriamento de capital transferido para o exterior por brasileiros, abastados ou agraciados (lícita e ilicitamente) mas descontentes com a tributação e respectiva utilização em solo pátrio, de forma ilícita (ainda que tacitamente aceita como usual e correta) não eram percebidas pela população, ou, se o eram, era nada capaz de causar emoção ou contentamento – nada parecia mais despertar ufanismo, desejado por muitos como algo a deixar perceber satisfação patriótica, nem mesmo o velho futebol;
A concentração de renda ainda persistia, embora a fome e o analfabetismo tivessem atingido níveis bastante baixos frente aos padrões da história do Brasil;
A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso, o que significava que existiam lares de chão de barro e/ou telhado de palha e/ou parede de adobe no Brasil e mundo afora, onde a tele-multi-mídia exibia toda sua exuberância, nas paredes e bolsos e mesas.

Foi neste momento, quando a lista de pontos de consenso foi concluída, que chegou Ricardo V, acompanhado de duas mulheres: sua mulher, Rita; e Dona Eduarda - até então, ilustre desconhecida. Ele foi recebido com alguns aplausos e expressões entre a recriminação e a estranheza pelo seu atraso; as duas, como se fossem penetras de uma festa para a qual sua presença não havia sido nem muito remotamente cogitada.

Gelidamente.

3.21.2006

O OLHO IMITA A LENTE OU A LENTE IMITA O OLHO

Às vezes se está em algum lugar alegre, cheio de gente em volta. Conversa-se com alguém, sem intimidade, os assuntos vão surgindo e, de repente, a conversa se esvai, muda-se de lugar. Há uma outra pessoa que roubou sua conversa, que monopolizou quem conversava antes com você – que ficou só, na cabeceira da mesa do bar, sem ouvir direito o que os dois conversam. De vez em quando você olha para os outros que estão compartilhando a mesma mesa. E você mira a cena, olha em perspectiva os olhares, trejeitos, quem fuma e quem rói as unhas, quem sente uma súbita e irresistível coceira. Uma gargalhada.

Você volta a perceber os dois que estão próximos, um de cada lado, você, na cabeceira. A conversa segue aos sussurros, você tem vontade de propor uma troca de lugar, há alguém interessante do lado de um deles, mas eles não param de sussurrar, não lhe dão chance de fazer nenhuma proposta. Quer intervir, participar, mas acha que não fica bem. Pensa em ir para o outro lado da mesa, mudar de cadeira, mas as outras conversas parecem estar tão íntimas e exclusivas quanto esta que está tão perto de você – que fica parado, não consegue mais se mexer, não tem oportunidade de se expressar, só pode observar. Nem o garçom se aproxima para lhe salvar. Aliás, agora lhe deu uma sede tremenda, onde uma cerveja?, pelo amor de Deus!, agora uma fome súbita, irresistível.

A conversa dos dois de repente íntimos e exclusivistas se torna um pouco mais clara aos seus ouvidos, você entende perfeitamente o que eles dizem, e eles falam em Francês. Todos falam Francês, e você, não. E daí? Se falassem Português, a sensação seria exatamente a mesma. Inglês, e nada mudaria.

Você vai ao banheiro. Quando volta, a cena permanece a mesma. Quem fumava com mistura de sofrimento e graça continua fazendo a mesma coisa: sim com a cabeça, um sorriso soprando fumaça para baixo, olhares sonhadores. Quem ruía unha agora penteia e despenteia os cabelos com os dedos longos. A coceira de quem se coçava já não é mais súbita; fica indo e vindo, em movimentos agora vagarosos. Os dois mais próximos da sua mesa continuam sussurrando.

Você filma; e mais nada. Filma com os olhos, a imagem ficará somente em sua memória, na de mais ninguém.

Num instante, a imagem passa a se modificar ao seu gosto, sem nenhum comando ou movimento. Você gosta dos olhares, do ambiente ligeiramente enfumaçado, logo você, que não fuma e tem alergia. Percebe o Francês falado sussurrado aos seus ouvidos e sem tocá-los, tem vontade de comentar, fica mudo, distorce as palavras para si a seu gosto. Alguém pede a conta e paga; era isso o que você queria.

Parabéns, diretor.

3.17.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005

TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO

- TRÊS –

Aquele movimento sem nome e sem rosto provocou um retrocesso no tempo: mídia e seus anunciantes foram para as ruas distribuir panfletos oferecendo programações e produtos, em pleníssima era das ultra-telecomunicações, televendas, tudo tele - longe, tecnológico, impessoal.

O Exército mobilizou-se; sem saber contra quem. As tropas estavam lá, nas ruas. Depois, foi a vez da Marinha: mares de frente para as praias tratadas para manter a poluição em níveis aceitáveis, com suas porções reservadas à geração de energia e à sua conversão em água para consumo, além de suas reservas para assinantes, passaram a vir boiarem sobre si embarcações circunspetas, nada esportivas, até agressivas, desde que assim decidissem ser vistas. Jetsons militares passaram a sobrevoar todo o território brasileiro, além de equipamentos bem mais aparelhados e específicos, ruidosos ou não, dos maiores aos menores.

Depois de décadas apregoando que todo e qualquer empregado de toda e qualquer empresa era, antes de tudo, um vendedor, as empresas mantinham seus departamentos de vendas, ainda que com os mais variados nomes. Isso somado àquela onda de silêncio – que, na verdade, se baseava, antes de tudo, sem que se soubesse ainda porque, no absenteísmo do acesso aos veículos de comunicação de massa e de intercomunicação – causou a demissão de quem trabalhava diretamente em vendas. Os demais – vendedores acessórios, por assim dizer – mantinham suas atividades, inclusive a de tentar descobrir o que estava acontecendo e o que fazer para projetar o futuro. Mas todos faziam parte do dito movimento sem rosto e sem nome.

Naquele momento, Cidade do México e Minaçu pareciam-se imensamente – na distância do mar, no ar seco, no aspecto indígena de suas populações, e o mais espantoso: no silêncio.

Nova Iorque era silenciosa, como o era – e sempre foi – a população de Pequim.

Copenhague era diferente, porque sempre o foi; mas a semelhança para leigos desavisados dos trajes de algumas de suas louras com os de algumas louras norte-americanas não-nova-iorquinas – não só trajes, mas posturas, maneira de se expressar – acentuava-se.

E os que distribuíam arcaicos panfletos de propaganda, implorando para que todos voltassem a sintonizar redes, toda a imensa e multifuncional conexão ultra-multi-mídia disponível, também faziam parte; seu corpo a corpo era silencioso, embora sorridente.

E era só no Brasil – mas começava a incomodar o mundo.

E a sensação de desconexão foi maior. Depoimentos dos líderes mais importantes da China e dos Estados Unidos bem o demonstraram. Toda aquela momentânea mas duradoura desconexão já traziam, mais que desconforto, evidentemente, prejuízo.

Todas as marchas de protesto que percorreram tão especialmente o Século XX e, já bastante conhecidas na forma e nem tanto em intenção, na primeira década do XXI, passaram a contrastar com aquele espetáculo de indivíduos propondo que fossem aceitos pelos passantes panfletos de papel pelas ruas de cidades grandes e muitas outras de outros portes do Brasil.

Tudo isso, como se sabe, aconteceu há somente três anos. Um batismo do que ocorria ficou gravado na memória de dois amigos. Em conversa ligeiramente embriagada do General Fernando com seu amigo Almir, ambos da reserva (militares aposentados), em uma noite no apartamento do General, este, que geralmente não veste nem pijamas nem qualquer outra roupa quando está em casa, e que houve por bem manter-se vestido naquela noite de uisquinhos, disse assim a Almir:

- É a Revolução do Silêncio.

Em seguida, Almir pensou em silêncio alguma coisa genial de que jamais conseguiu se lembrar, a empregada bocejou e deu boa noite e retirou-se e Almir resolveu despedir-se também e foi para sua casa, a pé, sem medo, com muito sono.

3.13.2006

CUCARACHA

(PARA TERÇA, 14 DE MARÇO DE 2006.)

“Cucaracha / vou-me embora lavar prato nos states / logo agora / que eu me vejo tão somente coração / logo agora / que a orquestra toca essa do Roberto / que eu me vejo baterista rindo à toa / nos teus braços, um artista / logo agora” (de uma canção em parceria com Tião Coelho, engenheiro e compositor).

O Brasil é um país onde um documento dentro de seu prazo de validade não vale. Isso mesmo: se seu passaporte está com menos de seis meses para expirar sua validade, vá à Polícia Federal e não dê queixa nem se queixe, não: tire outro – pois, com o seu atual, você sequer consegue embarcar, para qualquer que seja o país para onde você precisa ou deseja ir.

Para ir ao México, agora, é exigido visto. Claro: virou moda ir pra lá para se juntar a mexicanos desesperados e cruzar a fronteira para o Grande Irmão do Norte. Fizeram uma novela no ano passado sobre o tema, não foi?

E assim vamos nós, brasileiros, mantendo-nos com fama de ilegais, indo embora pros states para trabalhar em atividades que os americanos já não querem mais pra eles. Vamos lá, macacada, virar cucaracha.

Vistos para os Estados Unidos já são negados até para profissionais de nível superior devida e comprovadamente empregados no Brasil, que gostariam somente de visitar Disney World ou Nova Iorque - porque nós não merecemos crédito.

E não adianta dar desculpas, justificativas, explicar que o Brasil não oferece empregos, que é preciso ir para os states lavar pratos porque lá eles pagam em dólar. Fato é que, lá, a classe um dia ou ainda média brasileira não se envergonha de fazer trabalho subalterno, coisas que aqui não quer fazer nem jamais faria, imagina, lavar pratos. Nem pensar em tentar mudar de cidade no próprio Brasil, para buscar um emprego de acordo com suas aptidões, pois “Nova Iorque é aqui / Nova Iorque é ali / Nova Iorque é mais perto que o sertão” (canção de Sá e Guarabira). Cobrar do governo, protestar, exigir redução da carga tributária, eficiência, probidade, tudo mais que gere emprego, ora, nada disso é brasileiro. Melhor passar vergonha lá fora, ser tratado como sub-raça – mas é lá, nos states. “Fazer a América”. Vale para a classe dita média como para a pobre, tanto faz: já é mais uma tradição brasileira entrar e permanecer ilegalmente nos Estados Unidos, até que venha a extradição ou o “paraíso”: o green-card.

Não há governo que dê conta disso, porque essa já deixou de ser questão meramente pecuniária ou de arranjar emprego, ou ainda de dar vazão a um imaginário e romântico instinto aventureiro. Não é aventura jogar carreiras e estudo fora, desistir da própria terra para competir com desgraçados e desgraçadas de outros países, “para aprender Inglês”, “para juntar dinheiro”, “lá é que é país”.

Nem nossos passaportes merecem mais crédito se não estiverem válidos por longo prazo. Caramba!

Não há governo que dê conta, porque não há governo que não seja parecido com seu povo. O político é Deus: ele está no meio de nós. O político é um de nós. Ou melhoramos nós ou nossos políticos permanecerão corruptos, muitos, envergonhados, poucos, ineficientes, vários, indecentes, mais alguns, despreparados, mais ainda, arrogantes, a dar com o pau, covardes, a grande maioria. Ou continuemos a tapar o sol com a peneira, a deixar pra lá, tudo bem, very good, é isso aí, my friend, podes crer, brother, a Califórnia é diferente, irmão, é muito mais do que um sonho: é o pesadelo da discriminação, do faz de conta pros que estão no Brasil que estamos bem pra caramba e não escondidos nas sombras dos nativos, Jimmis, Edwards, Johns, Joes, Marys, Sarahs, Debis, Lailas, babando pelo dinheiro deles, o idioma deles, o que é deles é que é bom, um dia eu volto, rico, pro Brasil, vocês vão ver. Discriminado aqui, ora, discriminado lá - há quem pense assim, quem sonhe assim, quem faça assim; é assim – e pronto. Acabou-se. Tudo por dinheiro – é esse o tempo; é esse o país: Brasil.

O risco Brasil despencou, ultimamente – é o que dizem os noticiários; é o que divulgam as agências que avaliam o risco de se investir neste ou naquele país.

Sim, o risco Brasil caiu. O risco Brasileiro, não.

3.11.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario BenevidesBrasil, 2005

TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO

- DOIS –

Ricardo V sorveu prazerosamente uns bons goles da cerveja gelada, na varanda da sua casa, de frente para a piscina. Vinha revezando esse novo prazer com as viagens ao Rio, Orlando, Irlanda e Escócia, seus escritos e longas caminhadas, com direito a acampamento, em companhia de Rita e do filho Ricardo VI, pelas trilhas na Chapada dos Veadeiros, suas matas e cachoeiras. Ricardo VI estava com 14 anos e Rita, esplendorosa: o bronzeado produzido pelo sol filtrado pelas matas fazia um belo contraste com seus cabelos ruivos, escondendo um pouco suas sardas, deixando delas somente uma sombrinha graciosa; suas pernas e a barriga geralmente expostas pareciam agradecer ao exercício oferecido pelas trilhas. Mais ainda, Rita vivia fase de grande vivacidade mental; voltara a pesquisar índios e demais raças que habitavam aquele Brasil de 2017 e comparava-os, sem qualquer compromisso científico – muito pelo contrário – com os celtas e suas tradições ainda existentes na Irlanda, Escócia e Galícia. Raças que, no seu entender, teimavam por resistir e continuar a existir, mesmo que vivendo longos períodos das mais diversas formas de submissão.

Numa daquelas caminhadas, deram com a comunidade descrita havia sete anos pelo então Coronel Fernando, sem travar qualquer contato além de cumprimentos amistosos e silenciosos, pois perceberam que se agissem diferente o resultado teria sido igual: o mesmo silêncio observador.

Ricardo V deixou a cerveja de lado, espreguiçou-se, deu um mergulho e deixou mulher e filho na piscina, para tomar um banho e sair de carro. Visitou um dos diversos assentamentos coletivos da região rural e percebeu quase que o mesmo silêncio da “comunidade do General”, como haviam se habituado a chamar os silenciosos da chapada. Tentou puxar conversa com um dos agricultores – um dos mais ativos, produtivos, alguém que soube aproveitar a oportunidade de receber um lote de terra e treinamento para o explorar, e que conseguira obter para o assentamento um bom sistema de logística para entrega de insumos e escoamento da produção, superando exemplarmente a cultura de subsistência -, e só recebeu em troca um amigável sorriso. Tentou novamente: futebol, um sorriso; política, uma cara amarrada, foi o que conseguiu em troca.

Foi até uma bêbada contumaz. Como vai, Dona Zeza, tudo bem com a senhora? Ela levantou o rosto na direção dele, sorriu, fixou seu olhar do de Ricardo V, baixou os olhos e tirou mais um trago do gargalo da garrafa de cachaça. Ele sentiu-se um idiota, debaixo daquele sol estonteante como sempre e pensou em voltar para casa, para sua piscina.

Ou para seus escritos? Ou ao telefone ou à rede – para uma conversa com o General?

Caminhou um pouco mais, entrou no carro e dirigiu até um bar no centro da cidade. Lá, encontrou conversa; pediu um chope, que bebeu de um gole só e foi para casa, um pouco mais satisfeito. Mas intrigado; e atordoado. Sol demais, cerveja demais para sua parca experiência como bebedor, comida de menos, conversa pouca, silêncio demais na zona rural. Lembrou-se de 2006, do Movimento dos Sem Terra, da sua invasão ao laboratório rural de uma multinacional de papel e celulose. 20 anos de pesquisa destruídos por algumas mulheres pobres e ignorantes, em nome de um “protesto para chamar a atenção da sociedade”, à guisa de atacar “os novos inimigos: as transnacionais” – palavras do líder do MST.

Que silêncio era aquele?

3.06.2006

CADÊ O ÔNIBUS

Uma poesia sem verso, espalhada em prosa, solta em frases curtas e longas, pontuadas com vírgulas e pontos, espaçando-se ao longo de parágrafos, que não falava de amor nem de morte, falava da vida, inclusive e principalmente da alheia, mas, sim, falava da vida, nos morros, asfaltos, calçadas, apartamentos, mansões.

Procurava compreender o porque da diferença de apartamentos, mansões e bancos de praça, evitando para isso a rima, fugia da métrica como quem foge da polícia.

Deixou para trás, como já dito, o verso e, conseqüentemente, as estrofes, substituindo-as por formais parágrafos.

Examinou alguns lares, lares desfeitos, recém-construídos outros, alguns idosos, solitários, unidos, vizinhos, clandestinos, em suspiros de amor e de morte, embora tivesse tentado evitar esses temas tão complexos.

Quisera ater-se no concreto não do verso mas da existência, pecúnia, peculato, pederastia, pedofilia, predisposição, resfriado, gripe, matrimônio, separação, virgindade, estupro, assassinato, fortuna e miséria, dor de barriga, azia, dor de cabeça, enxaqueca, calcinha, sutiã, cuecas penduradas em um varal de subúrbio, cachorros magros e seus latidos afônicos, uma limusine.

Entretanto, o que acabou acontecendo foi uma crônica, gênero tão desprezado e ao mesmo tempo tão presente, todo cronista corresponde-se com seus leitores, a crônica é o bate-papo à distância, um cafezinho ao telefone, um chope de aeroporto, um vôo perdido, um novo sonho esperando o próximo.

Uma poesia sem verso
espalhada em prosa
solta
em frases curtas e
longas
pontuadas com vírgulas e pontos
espaçando-se
ao longo de parágrafos
que não falava de amor nem de morte
falava da vida principalmente alheia
falava de amor
falava de morte.

E era só uma poesia, poeminha de se guardar na gaveta, crônica de se ler no ônibus, cadê o ônibus, a cidade comeu o ônibus, o futuro engoliu a cidade, a cidade levou junto a gaveta, só ficou a crônica

Da poesia
Saudosa do verso.

3.04.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
TERCEIRA PARTE:
A REVOLUÇÃO

- UM –

O General Fernando caminhou com seu amigo Almir ao longo da calçada da Avenida Atlântica tal como fez, em 1° de abril de 1964, Carlos Drummond de Andrade, em companhia de Carlos Heitor Cony. Havia várias diferenças entre os dois encontros. Primeiro, em 1964, no dia em que foi anunciado à nação que o Presidente João Goulart fora derrubado por uma assim chamada revolução, comandada por tropas militares, a Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, ainda não tinha passagens subterrâneas e passarelas aéreas, nem trechos privativos ou pontos de pouso nos prédios para os mini-turbo-helicópteros de hoje, os populares (no nome) Jetsons, por causa de um desenho animado de Hanna e Barbera, dos mesmos anos sessenta do século passado. Aliás, em 1964, nem mesmo havia sido duplicada a pista para automóveis. A rebentação do mar, na infância dos dois generais da reserva, se dava lá longe, para depois as ondas virem se desfazendo, lentamente, até a beirinha, era como via em sua memória o General Fernando, enquanto caminhava com o amigo Almir.

A segunda diferença é que, naquele dia de 2017, nenhum golpe ou revolução fora anunciado; apenas havia um silêncio até então desconhecido pela maioria.

- Depois que você me telefonou, eu tentei descobrir a que diabos de silêncio você se referia. Copacabana continua como sempre foi, alguns investiram na despoluição sonora, outros preferem pagar a multa. Aí foi que percebi, quando liguei a minha tv. Aliás, um modelo novo, você precisa ver, deixa o que o Bradburry imaginou em Farenheit 451 parecendo coisa do tempo das diligências, se é que você me entende. Você leu o Farenheit 451, Fernando? Leu, né. Você é teimoso, Fernando, você se referiu ao silêncio do povo, mas o silêncio do povo está vindo é via televisão, mídia, comunicações. O indicador da assistência que aparece no canto superior esquerdo - que é restrito ao Brasil, claro, vamos frisar -, que costuma indicar alguns milhões para a totalidade e uns bons milhares para cada canal, - até, às vezes, dependendo do canal e horário, uns milhõezinhos – rapaz, mostrava centenas! No total, uns míseros milharezinhos! Você acredita, Fernando?

- O mortal silêncio das tvs – que, na verdade, é o silêncio do povo, que silenciou suas tvs. Pior, muito pior do que aquele silêncio estranho, daquela comunidade de que te falei...

- Eu sei – Almir interrompeu o amigo -, na chapada dos veadeiros, em Goiás. Mas não foi só isso, não.

- As redes – adiantou-se o General.

- Isso! As redes, as duas, a dez a doze e a TPM, tiveram uma queda brutal de acesso no Brasil – justamente o país de suas sedes administrativas; você sabia disso, Fernando, que desde 2014 as redes têm seus headquarters no Brasil, com crise, seqüestro e tudo, sabia, né? -, a mídia eletrônica está tendo um colossal prejuízo nas últimas horas, aqui no Brasil, meu camarada!

- Quem estará por trás disso? A quem interessa esse tipo de boicote?

- Na tv não dizem nada; mas apareceu um deputado, na tv da câmara, dizendo que, aparentemente, só políticos estavam assistindo tv. Disse isso em tom de ironia, mas depois ficou sério.

Fernando balançou a cabeça e disse, Não pode ser, isso não faz nenhum sentido.

- Mas coincidência não é! – disparou seu amigo de fardas, na reserva, aposentado, como ele.

- Se eu acreditasse que fosse coincidência não teria dado o alarme, não é, Almir? Fui eu que liguei pra você, eu tenho um faro terrível pressas coisas.

- Faro, não: ouvido.

Os dois riram. Fernando confirmou:

- É. Ouvido. Depois do silêncio de Almir, Fernando completou o que pensava:

- Pois é, meu amigo. No Brasil, o mundo da informação está em silêncio, informando para ninguém, a não ser uns poucos. Dentre eles, sim, a maioria deve ser de políticos. E uns poucos mais – que, à medida em que o tempo passar, irão se retirando também da frente das hiper-telas e das hiper-redes, das micro-telas de bolso, de seus micro-teclados ótico-sensitivos, engrossando o número de não-assistentes, não-acessantes, não-público, não-consumidores, não-eleitores. Continuarão trabalhando, normalmente. Mas em silêncio. Palavras, só as essenciais.

- Profético?

- Não. Mineiro!

E riram mais um bocado, risada de amigos, velhos amigos.

2.28.2006

AH, SEGUNDAS-FEIRAS

Ah, Segundas-feiras.

Acordou bem disposto: era Segunda-feira de carnaval. Feriado. Gostava de pensar, Hoje é Segunda-feira e eu não vou trabalhar.

Era um dia de sol. Apanhou a namorada e dirigiram-se para a praia. Um certo engarrafamento já era esperado – afinal, era Segunda-feira e feriado, feriado de carnaval e com sol. Não eram os únicos a querer ir à praia.

Escolheu mal, a praia – e com insistência, como contaria depois. Ouvira falar muito bem de lá, queria ir àquela praia de qualquer jeito, embora ela tivesse argumentado, Hoje não é um bom dia, é dia de carnaval, tudo por lá vai estar lotado. Mas ele insistiu, Você é sempre muito resistente a qualquer idéia nova, se dependesse de você iríamos sempre aos mesmos lugares. Lembra daquela vez, em Parati? Não conheceríamos Parati se fosse por você. Vai valer a pena, me falaram muito bem dessa praia, vamos lá. Confie em mim.

E resolveu brincar com ela, para amenizar:

- Seu mal é bom-senso. Você é uma mulher que sofre de bom-senso – ele disse a ela, passando a mão carinhosamente na perna da namorada, com um sorriso. Ela, da sua parte, ficou séria, não achou graça, não. Ele pôs de novo a mão no volante.

Chegaram, duas horas depois do previsto, e a coisa não estava boa, não. A praia não era lá o que lhe haviam dito, a maré estava cheia e o bar em frente, muito ruim. Desandou a falar mal do Brasil, Como é que um país que quer se fazer de turístico tem um despreparo desses? Como é que o sujeito diz, Não estamos preparados para esse movimento? Pombas, então fecha o estabelecimento, ora!

Por insistência dele, almoçaram em outro lugar. Dessa vez, acertou: um bom restaurante de um bom hotel que permitiu o ingresso deles somente para almoçar, na frente de outra praia muito melhor. Ela já estava de bom-humor, novamente; ligou para a melhor amiga, Menina, uma roubada – mas agora está tudo bem. Ela desligou, com um sorriso nos lábios; ele desancou a argumentar, Você não tem maturidade. Que roubada foi essa, ora? Não mergulhamos, você não viu peixinho e tudo no fundo do mar, peixe com riscas, que nem uma zebra do mar, peixe transparente, peixe pequeno, peixe grande? Agora estamos aqui, de frente pro mar novamente, um dia lindo, boa comida e boa bebida, está reclamando de que? De umas horinhas no trânsito? Você precisa passar por uma roubada, para saber do que se trata, uma verdadeira roubada. Te falta isso.

Pronto: ganhou a discussão. Inapelavelmente. E perdeu a namorada. Inapelavelmente.

Ah, Segundas-feiras.

2.25.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017

- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –

(4) (o último da cronologia:) O longo trajeto da chegada da mãe de Rita

A trajetória de chegada ao mundo da mãe de Rita foi tão longa quanto a de qualquer contemporâneo seu. Nada de novo – apenas para o menino Ricardo VI, com sete anos em 2010.

Ricardo VI não entendeu bem aquela história da pirâmide dupla, sua mãe lhe dizendo do mistério da ancestralidade, para cada ser uma cadeia imensa de casais, dois pais, quatro avós, cada um deles com pai e mãe, já contava oito, que, por sua vez, tiveram seus pais e suas mães, dezesseis, trinta e dois... De cima para baixo, um casal tem quatro, dos quatro, três procriam, um faz dois, ou três, outro dezoito, dos dezoito, quinze têm muitos filhos, uma filharada, uma netada, populando o mundo, gente fazendo gente, gato fazendo gato, cachorro fazendo cachorro, cobra fazendo cobra, mosquito fazendo mosquito, micróbio fazendo micróbio, macaco fazendo macaco. Aí pensou, em voz alta:

- Sou filho de Deus, mas descendo do macaco. Aliás, de uma grande macacada.

Rita andava exagerando um pouco nas doses de uisque que dera para beber naquele ano – pararia na terceira crise de vômitos e enxaqueca de dias inteiros - e, assim, a explicação veio um tanto confusa para o filho. Afinal, foi ela quem teve que contar a história da sua genealogia para o menino, de modo a satisfazer sua curiosidade, despertada pelo pai, que só queria se ensimesmar com os assuntos que tivera com o Coronel Fernando (que, mais tarde, sete anos depois, ficaria conhecido como O General). Ainda não havia as pastilhas multilingües; Rita falava um pouco em Inglês, um pouco em Português – nas piores partes da narrativa, pois, se normalmente, seu sotaque já não ajudava, o efeito de uns uisquinhos a mais obrigava o garoto a verdadeiros exercícios mentais.

Traduzindo a gravação feita por Ricardo VI e sem qualquer tentativa de aferição – pois nenhum interesse há em precisões genealógicas nessa narrativa, tão somente o de permitir que se perceba um pouco mais de alguns dos indivíduos com alguma relevância na Revolução de 2017 -, o que se pode contar é o seguinte.

Sarah Shaw Almanendez Chermont – este o sobrenome da avó de Ricardo VI. O Chermont já se sabe de onde veio, como anteriormente narrado. Shaw é sobrenome irlandês e Almanendez é espanhol – nada mais óbvio. O problema é que Rita quis encontrar seus antepassados principalmente na época dos primeiros espanhóis que se aventuraram nas costas do sudeste norte-americano, acompanhando Alvarez de Pindea, que descobriu a foz do Mississipi em 1519.

Onde hoje fica Nova Orleans, reconstruída após a tragédia de 2005, causada pelo furacão Katrina, que desnudou algumas varizes americanas, umas sociais, outras de postura de governo, havia uma vila indígena: Tchoutchuoma. Quando a expedição de Hernando de Soto descobriu o rio Mississipi e o desceu em direção ao México, entre os anos de 1541 e 1543, Tchoutchuoma já não existia mais. Supõe-se, na família da mãe de Rita, que foi nesta época que chegou ao continente americano o primeiro Almanendez.

Rita queria se convencer – mais que ao filho – que seu primeiro antepassado a chegar nas terras que, em 1682, com a expedição de Cavelier de la Salle, viria a ser batizada como Louisiana (e a cidade desaparecida em 2005, Nouvelle Orleans), seria um dos três heróicos náufragos que acompanharam Álvar Núñes Cabeza de Vaca, sobrevivente de um naufrágio, na sua incrível caminhada, nu em pelo, da Flórida ao México. Ocorre que, em 1542, Cabeza de Vaca estava na América do Sul – mais precisamente nas cataratas do Iguaçu. (No dia 31 de Janeiro daquele ano, em um canoa; deparou-se com as cataratas e gritou: "Santa Maria, que beleza!".) Sua caminhada pelo continente ao norte do hemisfério se iniciou em 1527, e ele e mais três pelados só reapareceram na Espanha oito anos depois; e foi da Flórida – separada da Louisiana por Alabama e Massachusetts - às imediações da cidade do México. Há, portanto, impossibilidades tanto temporais quanto geográficas nas suposições da família de Rita, e dela mesma, quanto a descender de um dos poucos desbravadores pacíficos de seu país e seus vizinhos, que chegou a ser tido como xamã por indígenas norte-americanos com os quais se relacionou (seu relato da sua viagem ao sul do depois português Brasil até terras atualmente paraguaias já descreve embates com algumas tribos sul-americanas).

Em compensação, Rita foi perfeitamente capaz, depois de vomitar um pouco, de descrever ao filho alguns dos feitos da família da mãe dela. Citou um advogado de pobres da Nova Orleans dos mesmos tempos da adolescência de Louis Armstrong, dois professores, um escritor e um engenheiro; mencionou uma tia chefe de cozinha, uma cantora e uma prima da sua mãe que é médica, a quem Ricardo VI conheceu, naquela estada em Orlando, onde passara a morar a família de Rita - sua cidade natal; falou de um trisavô fazendeiro que deixava seus escravos fugirem; e de uma romântica história de amor entre os pais dela, e nesse ponto Rita ficou muda.

No Rio, viu uma foto imensa de Pixinguinha ao lado de Louis Armstrong, os dois já com alguma idade, os dois negros, bons, músicos e seus instrumentos, seus sorrisos e lábios mudos e generosos, sua proximidade. Emocionou-se e pensou “Como eu e Ricardo estamos distantes”.

Já de volta, em casa, em Minaçu, em uma noite quando soprava uma brisa, o marido e o filho dormindo, Rita saiu de seu quarto vestindo somente uma calcinha. Bebeu água na cozinha, olhou-se no espelho da sala, desvencilhou-se da calcinha, jogou seus cabelos para trás. Ricardo V surgiu na soleira da porta para o corredor, admirou sua mulher ruiva apaixonadamente, abraçou-a; passou a crise que perdurava entre os dois, amaram-se no chão, tal e qual foram flagrados pelo filho, que não compreendeu o que viu mas percebeu que não estavam brigando, aquilo era um abraço, não era briga, não, que voltou ao seu quarto e dormiu outra vez.

Profundamente.

2.20.2006

O NOME DELE

O NOME DELE

Ele pouco sabia da empresa e seus chefes. Tinha perfeita noção do seu anacronismo – um negro de carapinha branca uniformizado, pilotando um elevador movido a manivela, com portas corrediças de madeira envernizada - como as paredes -, o grande espelho atrás de si, seu banco giratório de madeira almofadada em vermelho.

Começou pilotando aquilo quando havia um ventilador preso a uma das paredes. Naquele tempo, conhecia muito bem o chefe – aliás, o dono -, que subia e descia com ele diariamente e com ele conversava. Quando o dono estava com alguém, podia ouvir um pouco da conversa, aos sussurros trocados entre o chefe e quem o acompanhava, ou dela participar, sendo, inclusive, consultado. Por exemplo, se sapatos de cromo alemão ainda combinavam bem, se deveriam ser usados ou não.

Agora era diferente. Sabia que quem mandava chegava de helicóptero. Não havia mais ventilador; seu veículo era, agora, climatizado. Através dos anos pode perceber, no sobe e desce característico da sua profissão, que sabia não existir mais, a não ser ali, só a dele e para ele e naquele lugar, que o dono já não aparecia. Vieram americanos, franceses, africanos, árabes, japoneses, baianos, chineses, todos quase sempre acompanhados por alguém que concordava com tudo que eles dissessem.

Agora era ainda mais diferente. Seu transporte passou a ser um prêmio solitário. Quando um dos chefes – assim eles os imaginava – precisava pensar em solidão, não era no banheiro que se trancava: apertava o botão daquele elevador - o único do prédio – e da cidade – a operar comandado por uma pessoa presente o tempo todo - e ordenava: “Garagem”. “Térreo, por favor”. “Terraço – e, depois, térreo; térreo, não: sub-solo. Terraço outra vez e, depois, décimo. Foi no décimo que entrei, não foi?”.

Havia outros que ele tinha toda certeza – a de quem leva pessoas há muitos anos para cima e para baixo –que não eram chefes, mas, como podia perceber um certo sorriso em comum naquele tipo de indivíduo, – que freqüentemente usava saias ou, de calças compridas, seios - o mesmo de certos acompanhantes do dono de outrora, aos quais ele costumava convidar para subir ou descer no elevador em sua companhia – a qual, por si só, já era um prêmio, sinal de reconhecimento, antecipação de bom futuro -, sabia ser um prêmio o que trazia àqueles e aquelas sorridentes a companhia dele, silenciosa e profissional, porque a do chefe de antigamente tudo indicava já não ser mais possível.

Ele era a atração do prédio, da firma, do poder constituído ou em formação: um ser obsoleto, comandando um equipamento obsoleto.

Havia típicos espertos, que entravam ali sorrateiros, fingindo auto-confiança, comandando, terceiro, quinto, décimo, terraço.

Até que, um final de tarde, alguém que não conseguiu decifrar - se chefe, sub-chefe, puxa-saco, aspirante ou aventureiro - ordenou-lhe:

- Inferno. Depois o céu. E a realidade - por favor.

E o elevador andou sozinho, sem precisar que ele girasse a manivela, abrisse as portas de madeira envernizada com as mãos, ambas livres para fazer juntas seu sinal cortês, tão dele próprio e inseparável, mostrando que o andar pedido havia chegado, por aqui, por favor, seu andar é este.

Depois da cortesia, saiu caminhando a exibir seus sapatos de cromo alemão. Só ficou em dúvida aos olhos de quem: se da divindade, perversidade ou neutralidade. O que seria pior?

Jonas era seu nome; a baleia que se danasse.

2.18.2006

SEGUNDA PARTE:

UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017

- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –

(4) O que foi que o General – quando ainda era Coronel – viu:

- A Inteligência do Exército, que vem se revigorando com o passar do tempo, de vez em quando entra em seara alheia. Por exemplo, na da Polícia Federal. Vínhamos acompanhando aqueles arremedos de espiões havia algum tempo. Sua reação, senhor Ricardo, foi muito adequada; o senhor soube tourear aquela gente. E foi por acaso que, atirando no que víamos, acertamos no que nem sabíamos que existia. Eles se isolaram no meio do nada na Chapada dos Veadeiros, formaram uma comunidade. Você entra, lê, pergunta, ninguém responde nada. Pra começo de conversa, não há conversa – nem uma única palavra: é o silêncio mais organizado que já vi. Entrei lá sozinho, na trilha, meus ajudantes se perderam de mim. Apareci fardado, portando um facão na mão para abrir uma picada e, na cintura, uma pistola automática. Uma menininha lourinha, com uns, sei lá, treze anos de idade, parada à minha frente. Associei aquilo com o tráfico de drogas, os meninos nos morros portando pistolas e fuzis, comunicando-se com os postos mais altos, informando a chegada de um intruso, metendo medo nele. A garotinha não portava arma alguma; apenas me olhou nos olhos firmemente, como se aquilo tivesse sido ensaiado, ou então como quem já está acostumado a encarar um invasor somente olhando nos olhos dele. Depois foi chegando mais gente, ninguém portando arma. Pertinho dali, a reserva indígena, dos avá-canoeiro. Se Dona Rita houvesse continuado com as pesquisas dela, teria achado esse povoado antes de mim. Lá dentro, tem de tudo: branco, preto, mulato, cafuzo, e não dá pra saber que língua eles falam – porque eles não falam, simplesmente não dizem uma palavra, pode perguntar você o que quiser. Sou um soldado, treinado – e, quer saber?, tive que servir à ditadura, sim senhor, com dezoito anos, 1976, um ano após a morte do Vladimir Herzog, eu tenho certeza de que o senhor, estudioso como é, sabe de quem estou falando; e de que época; que tempos! Sou um soldado, acostumado a enfrentar o inimigo, acostumado a fazer até o que eu nunca tive vontade nem convicção de fazer. Faço parte da Inteligência do Exército, conheço todas as manhas e artimanhas. E não consegui arrancar uma palavra que fosse daquela gente! Me ofereceram chá – acredita? Chá, biscoitos feitos lá, verduras, carne, sim senhor – nada lá é proibido. Uma aguardente muito saborosa, que não é de cana e não sei do que é, me ofereceram – sem dizer nada, só me mostrando a garrafa e o copinho. Bebi um pouco e dormi, no meio do mato, sem medo de cobra nem de onça, sem ser ameaçado nem por uma nem por outra. Acordei sozinho, perto da estrada, já não tenho certeza se sei voltar lá. Que lugar, rapaz! Que gente! Que diabos de sociedade construíram lá? Gente é igual em qualquer lugar, bom e mau caráter se revelando mais num, menos no outro, às vezes tudo de ruim num só ou meia dúzia, às vezes tudo no outro. Mas... o silêncio! Que silêncio impressionante! Já pensou, seu Ricardo Coração dos Outros de quinta geração, viver em absoluto silêncio? Num mundo sem palavras? Como viveria um escritor num lugar assim? Talvez bem, talvez bem; a palavra escrita deve circular por lá, não é possível que não. Mas como, se não existe a falada? Ou foi só uma farsa, naquela tarde-noite? Será que eu delirei? Acho que não.

2.14.2006

IDA E VOLTA A BRASÍLIA

Ele acordou de madrugada, tomou banho, vestiu-se no escuro e partiu para o aeroporto, não sem antes dar um beijo desajeitado no rosto dela, que, dormindo, respondeu algo parecido com Vai com Deus. Dirigiu na cidade ainda no escuro, naqueles momentos em que vícios e virtudes, assassinatos e paixões, sonhos e pesadelos, espancamentos e apedrejamentos não podem ser vistos; quando só se expõem umas poucas freadas bruscas, algumas colisões mortais, um cachorro vagabundo, um corredor insone, um mendigo. Encarou a fila do check-in, esperou pacientemente a emissão do cartão de embarque, tranqüilizou-se ao saber que não ficaria em um assento de meio, desajeitado, espremido, incomodado. Tomou café com pão de queijo, foi para a sala de embarque, embarcou.

No avião ouviu os discursos de praxe, dormitou um pouco, acordou com o próprio ligeiro ronco. O comandante disse qualquer coisa como “nosso estimado de pouso”, referindo-se ao horário previsto para pousar em Brasília. No chamado “procedimento de descida” – viajante contumaz, freqüente, no mínimo semanal –, resolveu prestar atenção ao que a aeromoça dizia: “Afivele o cinto de segurança, retornando o encosto da poltrona para a posição original e mantendo a mesinha da poltrona da frente travada.”. E se alguém, algum dia, realmente tentar fazer as três coisas ao mesmo tempo?

Brasília – era fevereiro – manteve-se com boa umidade mas sem chuvas, temperatura amena, exceto na reunião de que participou. Viera para isso; fazer o quê?

Não há tempo nem espaço para contar o dia dela como foi, fica para uma outra vez, mas foi um dia bom, com alguns momentos difíceis, intensos, a vida profissional anda muito corrida, as pessoas, muito nervosas, todos se cobram muito e aos outros também, o trânsito andou um pouco parado em alguns momentos, crianças na rua se fazendo de malabaristas, quem foi que ensinou isso a elas e pra quê?, a maior das burrices, a exclusão, o mar aliviou um pouco isso tudo, é doce morar no mar, perto do mar, em cidade litorânea.

Ele voltou no vôo das vinte e vinte e oito, com vários políticos a bordo. Nesse horário costuma sentir-se enjoado, mas sem vomitar; com sono, mas sem dormir; entravado, preso, cansado.

No saguão do aeroporto viu sua imagem refletida: era agora uma cama de armar barata, que desarmara entre a parede e o guarda-roupa de um quarto vagabundo, com cheiro de tábua de passar. Vive assim até hoje; nunca mais se reencontraram.

2.11.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006

SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017

- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –

(3) Outras Dinastias: a do pai de Rita

Se Satchmo já tivesse idade, teria sido em outro estabelecimento que não o de Henry Ponce que teria iniciado sua carreira na música profissional.

Poucos anos antes de Lima Barreto escrever a biografia de Policarpo e seu professor de violão, Ricardo Coração dos Outros, quando Louis Armstrong (Satchmo) jogava tijolos em um dos namorados da mãe a quem presenciara batendo nela, jurando-o de morte pelo resto da sua vida iluminada, com direito a detenção na “Colored” Waif’s Home for Boys - não pelos tijolos, mas por uns tiros para o alto com o 38 que encontrara em casa de um outro namorado de Mayann, como ela era chamada -, Chermont la Belle cuidava de sua honky-tonk com mais zelo que qualquer creollo macho da Nova Orleans daqueles anos de estréia do Século XX.

Não se pode acusar la Belle de vida indigna; dava emprego a músicos e moças que precisavam de um lugar para proporcionar diversão a homens solitários e enfrentava concorrentes invejosos no braço, sempre que preciso. Entretanto, haverá quem considere ainda mais digna a vida de André Chermont, que por lá chegou quando da retomada do território da Louisiana pela Corte Francesa, em 1731. Não se sabe bem o que foi que ele fez, mas é tido como herói pela família por ter sido capaz de resistir aos índios natchez e aos ingleses - aos quais foi cedida Nova Orleans após a Guerra dos Sete Anos, quando Espanha e França foram aliadas, e à segunda foi reconhecida pela primeira a posse de tudo ali à leste do Mississipi que Nova Orleans não fosse.

De André a la Belle, muito originalmente Louise de batismo, houve um rico na família, que prosperou do algodão e se tornou um nobre: André Joseph Levitt Chermont II – título que ignorou dois ou três Chermonts entre o pioneiro e ele, em um período de cerca de cem anos. Aí por volta de quando Ricardo Coração dos Outros fugiu do Rio de Janeiro com sua Olga, quando Nova Orleans já era Estado Americano, Chermont II faleceu, deixando em vida, além de umas filhas que desapareceram Mississipi acima com ou sem maridos, um tuberculoso André Joseph Levitt Chermont III com cinqüenta e cinco anos, sobrevivente da Guerra da Secessão, cuja mulher, Jean Marie Stweart, passava dias e noites trancada em seu quarto, imitando sons que ouvia de uns poucos negros que ainda roçavam por uns poucos cobres lá fora, no que restara da um dia fazenda, a essa altura, já um tanto arruinada de pragas, melancolia e abandono. Dos quatro filhos que tivera, três foram homens; os três morreram antes dos dez anos. Dois anos depois, pai e mãe infortunados pela guerra e a morte prematura de três dos quatro filhos morreram dentro da casa decadente do que fora espécie de palácio rural de Chermont dito II, não se sabe se voluntariamente ou não; o fato é que um dos negros que acabaram ficando por lá, de posse informal da terra ou do que dela restara foi à cidade cantar para Louise la Belle, que já estava com seus trinta e cinco anos e iniciava sua carreira de proprietária de uma honky-tonk – nunca teve nada de bela, o apelido era do mais cruel sarcasmo -, a canção que permaneceria na família do pai de Rita para sempre:

A woman-bird sings and sings
A woman-bird sings and sings
Index, middle, little finger
Index, middle, little finger

Fine three fingers, sweet three rings
Fine three fingers, sweet three rings

Who’d stolen woman’s rings?
Who’d stolen woman’s rings?

No more fingers, now’s your turn
No more fingers, now’s your turn

Now’s your turn you brave thumb
Now’s your turn you brave thumb.

La Belle quis passar a se chamar Chermont the Thumb, mas já não era mais possível mudar de alcunha, o que poderia, aliás, prejudicar seus negócios. Mas, que negócios? - ela se perguntou. La Belle vendeu sua honky-tonk, ingressou no Charity Hospital, foi aprendendo novo ofício. Dez anos depois, lá conheceu um convalescente muito mais moço que ela, tão ou mais carente que ela. Casaram-se. Foi mãe adotiva de Charles Chermont Stevens, aos quarenta e sete anos, abandonado a presumíveis quatro meses de seu nascimento na porta do Charity. La Belle – melhor dizendo, Louise Chermont Stevens – foi a trisavó de Rita. O Stevens desapareceu com o tempo; Charles era negro.

2.07.2006

O INGLÊS, O PORTUGUÊS E O AUSTRÍACO

Aconselhava Bernard Shaw que mulheres deveriam fazer o possível para casar e os homens o impossível para não casar. Não se sabe ao certo se o conselho continua válido, nesses dias de 2006. Mulheres das classes alta e média são criadas para a auto-suficiência; se ficam nas casas de seus pais até concluirem o após-pós-doutorado, aí é outra coisa, de conjuntura, tempos difíceis, muito concorridos. Homens desses mesmos tempos e classes passam pela mesma situação. Nas classes mais baixas, a dificuldade é tanta, mas tanta, que é a mesma de sempre: pouco emprego, de faxina, de pedreiro, de perda do emprego de pedreiro e consolo na cachaça e tome porrada na mulher, faxineira. Não é de se presumir que o conselho do inglês teatrólogo seja dos melhores para essas classes, isto é: todas. Nas baixas, é porrada na certa; nas altas, ganhar dinheiro é preciso, viver, já não se sabe - que nos perdoe o poeta português.
Outra questão a pensar é que homens se esforçaram tanto para ser tidos como atletas do sexo que muitas mulheres gostaram da idéia e passaram a exigir deles um desempenho digno de premiação. Perguntas do próximo vestibular: (1) O Viagra foi inventado por (a) Homens (b) Mulheres (c) Pink e Cérebro; (2) Sua invenção se deu para (a) Resolver problemas de ereção (b) Criar problemas variados (c) Você não tem nada a ver com isso.
Mas algumas respostas são certas e atemporais: (1) Mulheres são mães desde o dia em que nascem; (2) Homens são filhos desde o dia em que nascem; (3) Quando se casam, é assim que se comportam.
Tanta volta, somente para uma vez mais dar razão a ele mesmo: o austríaco Freud. Calma! E mulheres, enquanto não se casam, são mães ou filhas?
Enquanto não se casam.

2.04.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006

SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017

- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –

(2) O Café da Manhã com o General

- O senhor me chama de general, mas sou coronel.

- Desculpe, é que não sei distinguir fardas, quer dizer, seus sinais, suas convenções, seus... Desculpe, não foi por mal – explicou-se Ricardo V.

- Não há de quê. Não sei ainda se vou chegar a esse posto, o de general. Quem sabe, só na reserva.

Na véspera, o General – que ainda era e continuava sendo na manhã seguinte Coronel – começara a falar do lugar estranho que conhecera, perto de Minaçu, onde teve contato com um silêncio coletivo. Mais que isso – ou menos ou tanto quanto – significativo. Aflitivo! Encontrara a palavra em algum momento da conversa. Ricardo V, porém, não conseguiu prestar atenção na medida necessária ao que o militar dizia; arranjou, então, de convidar aquele que viria a ser uma das principais personagens da revolução de 2017 a tomar café com ele, no hotel onde estava hospedado, com Rita e o filho deles, Ricardo VI.

Quando chegou ao quarto do hotel para dormir, foi um mal estar tremendo. Ricardo V, que pouco bebe, chegou tonto e confuso do jantar. Rita estava acordada, com um copo de uisque nas mãos, sem gelo, mas meio aguado. O menino Ricardo VI dormia. Ricardo V arrancou do corpo a roupa que usava e jogou-a aos cantos, no chão, em um resto de poltrona, já parcialmente ocupada por roupas da mulher, Rita, e irritou-se com isso, com a desorganização, ao mesmo tempo em que precisava dela, da desorganização (do abandono, do esquecimento). A conversa com o General (que ainda não o era) fora perturbadora, ainda ou porque incompleta. Despertou na manhã seguinte ligando para a agência de viagens adiando por um dia a ida da família para os Estados Unidos, à revelia e sob protestos veementes da mulher e do filho, uma dor de cabeça desagradável, insistente, uma espécie de isolamento acústico entre crânio e cérebro, um incomodamento na nuca, nas têmporas, uma irritação, tudo à flor da pele, à beira da exaustão. Avisou, então, que tomaria café com o General (assim ele o percebia).

- Eu e seu filho, ficamos no quarto, escondidos? Com medo desse General?

- Claro que não – Ricardo V respondeu à sua mulher.

- Vamos todos tomar café com ele? – quis saber Ricardo VI.

- Não, não dá, filho, é preciso que eu saiba, afinal, do que é que o General quer falar comigo, que história é essa, de comunidade secreta em Minaçu.

- Secreta? Em Minaçu? – perguntou Ricardo VI.

- Perto, perto de Minaçu.

- Onde? – quis saber Rita. A resposta de Ricardo V foi mal-humorada, típica de quem está inquieto, inseguro, aflito, tudo agravado por uma ressaca, mas nem tanto.

1.30.2006

CRÍTICAS E CONTRARIEDADES

Quem gosta de ser criticado é sábio. É a crítica a antítese da auto-crítica; a imagem contra o relfexo. O problema é que quem gosta de ser criticado ainda está para ser inventado.

O mais preparado dos indivíduos não está preparado para ser criticado. Razões há para isso, a começar por não se ter com muita freqüência a certeza de se tratar de crítica e não ciúme, inveja, desdém ou simples impaciência. Outra presumível é que a auto-crítica se considera tão perfeita que não admite não ter sido capaz de criticar aquilo que a crítica criticou.

No dia seguinte, é outra coisa: quem foi criticado já assimilou a noite mal dormida, superou o maldito travesseiro que se fez quadrado e a vontade de fazer xixi às três da manhã, e já é capaz de dizer, É, pode ser bom negócio rever isso e aquilo, mudar um pouco aqui e ali, a crítica não foi tão infundada assim.

Mas a invenção do século XXI será mesmo a de quem gostar de ser contrariado. Desejar que o sinal feche para melhorar a posição do cinto de segurança, do sutiã ou da cueca e pegar uma raríssima seqüência de dezenove sinais abertos. Desejar que o sinal permaneça aberto, porque, da transversal, virão cinqüenta e seis caminhões, mais duzentos e sete automóveis, dois ônibus duplos e um trem, enquanto um flagelado malabarista vai engolir fogo e jogar bolinhas pro alto e pedir gorjeta e a vontade de fazer xixi está muito mais intensa que aquela das três da manhã e sua casa fica logo ali, a cinqüenta metros do sinal, e o sinal fechou. Propor cinema e ir ao teatro. Querer ir à praia e almoçar dobradinha na casa da tia da sogra. Pedir aumento. Seu guarda, eu não vi. Moça, a senhora furou a fila. Não passar de ano. Carne?: peixe. Peixe?: rúcula.

É claro, há os que se saem melhor na - e da - contrariedade. Gostar disso é que nem livro de auto-ajuda terá cara de pau o bastante para propor.

(Com toda franqueza, melhor não dizer que há um livro de auto-ajuda que propõe ser possível gostar da contrariedade.)

1.28.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006

SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017

- TRÊS: POR PARTE DA MÃE –

(1) O Jantar com o General

Foram no restaurante da preferência dos políticos. Pediram um carmenere chileno de preço mediano, para acompanhar carne. O General começou por fazer a seguinte provocação:

- O senhor sabe quem é o político? O político é Deus.

Ricardo V apenas olhou nos olhos do general como um lutador de boxe que ainda estuda o que pretende fazer o adversário. O General explicou sua dedução fazendo voz de padre:

- Ele está no meio de nós.

E continuou o General, agora sem falsear a voz, Ricardo V já de guarda baixa; o jantar não seria uma luta de boxe, convenceu-se disso. Disse o General:

- O político está no meio de nós, é um de nós e é eleito por nós. Se são respeitosos é porque vieram de um meio onde a tônica é o respeito. Se nos desrespeitam é porque percebem mais desrespeito que respeito onde vivem.

- E gostam – interrompeu Ricardo V.

- Claro – concordou o General. E gostam muito.

Ricardo V percebera em Minaçu mulheres fingindo de grávidas para furar filas.

- O ambiente sempre foi porco, General; mistura de força e pequenas corrupções. Ameaças de inferno, inclusive o inferno em vida - prisão sem motivo, tortura, fogueira. Na outra mão, a benção, o indulto, uma paga irrisória, um prato de comida, merenda e leite subsidiados...

O General, aparentemente impassível, enquanto cortava a carne em seu prato quase que cirurgicamente, respondeu:

- Sempre pensei que Marx e Engels acertaram no diagnóstico, mas erraram na receita.

Ricardo V gostou:

- Concordo.

O General mudou o tom, olhou à volta discreta e significativamente, convidando com os olhos que Ricardo V fizesse o mesmo, e perguntou a ele, como quem divide uma fofoca:

- Reparou a quantidade e intensidade dos abraços e tapas nas costas que eles dão uns nos outros? Como todos se tratam pelos seus postos eletivos, “Meu nobre Deputado”, “Como vai, Senador”... Principalmente os de lados opostos, os que passaram o dia a se agredir, situação e oposição? Na verdade, experimentam, medem as costas e diâmetros do outro, querem que o corpo do outro expresse a mente, o pensamento; seu próximo golpe, sua fragilidade ou for-ça.

- O senhor apoiou o golpe de 64?

O General riu, em uma gargalhada contida. Depois:

- Com seis anos de idade? Nasci em 1958, meu nobre escritor!

Ricardo V riu, desconcertado, pensou em insistir, “O senhor teria apoiado, se tivesse idade, aderiria ao golpe, à ‘revolução’?”, mas lembrou-se do assunto que motivara o jantar entre os dois e sentiu mais conforto mudando o assunto:

- O senhor me falou de um local estranho, uma comunidade que...

O General arregalou os olhos, empolgado:

- Isso mesmo! Vamos falar desse lugar, agora. Vamos escolher a sobremesa?

E continuaram a conversa um pouco mais, enquanto, no hotel, Rita assistia a um canal por assinatura sobre antropologia e Ricardo VI dormia, aguardando um pouco mais para conhecer a família da sua mãe, primeiro em sua genealogia, nas vozes de seus pais, depois pessoalmente, quando chegassem aos Estados Unidos.

1.24.2006

O QUE, AFINAL, LETRAS TÊM A VER COM LUTA DE BOXE?

Curioso ritual é uma luta de boxe. Os dois sobem ao ringue com seus calções fulgurantes, botas até quase os joelhos, luvas colossais, na boca, uma proteção que os deixa com ares mais ainda enfurecidos, concentrados, um juiz de gravata borboleta. Nos cantos, treinadores e assistentes, com seus conselhos, baldes d’água, curativos. No ringue, o boxeador toma na cara de punhos cerrados e vestidos de luvas; no canto, leva tapas de mãos abertas e desnudas, a título de reanimá-lo a tomar novos socos de luvas coloridas. A platéia urra, como urrava no tempo dos gladiadores e seus leões. Pela tv, o que mais chama a atenção são os esguichos de sangue que explodem dos supercílios, os olhos já inchados, uma certa imbecilidade no olhar, não mais a fúria concentrada. Há o “clinch”, abraço de arrego de um lado e de urso do outro, o se jogar nas cordas e o se quedar no chão, ouvindo a contagem regressiva do alívio e da derrota.

Nomes como Sugar Ray Robinson e Joe Louis são lendas; mas Cassius Clay, depois Mohamed Ali, é o real. Peso pesadíssimo, gingava como um dançarino. Houve uma luta que é um clássico, quando dançou de guarda baixa, aberta, para exaurir seu adversário apanhando, e apanhando mais, até que ele, o adversário, não agüentou mais e, então, foi a vez de Mohamed / Cassius bater e bater e bater, até nocautear o incrédulo. Mohamed, hoje em dia, sofre de mal de Parkinson, das trombadas que tomou na sua cabeça de campeão, de cérebro privilegiado, astuto, olhar de Glauber Rocha, dizendo não à guerra, uma guerra em que os americanos não salvaram mundo algum do comunismo, o qual, do mesmo modo, não dominou mundo nenhum, apenas matou-se e morreu-se e barbarizou-se de parte a parte inutilmente, covardemente, trogloditamente, não muito diferente do Iraque de hoje. Cassius / Mohamed sentado por trás das grades, protestando, com ares de quem fazia cocô.

Mike Tyson não lutava; derrubava e ia embora; era outra luta. E foi preso, também, por motivos menos nobres, mais violentos, mais ainda fora do ringue.

Chineses inventaram o Tai Shi Shuan para que o inimigo não percebesse tratar-se de uma luta, com seus golpes simulados em lento movimento, para ser rápidos somente de surpresa, durante uma luta de verdade. Já o boxe, não se sabe até hoje se é permitido chamá-lo de esporte, tal é sua violência. Entretanto, sua dança, seu gingado, seu avançar e recuar de corpo, braços e punhos, toda sua pungência e explicitude dão ao boxe um lugar específico, invisível, no vácuo entre a dança, o esporte e a barbárie. Esses foram os motivos que levaram esse poeta-escritor, que se esconde e se mostra, via, por enquanto, gavetas e internete, a treinar boxe, duas noites por semana, sem confronto direto, apenas a ginga, o avançar e recuar, o esquivar e ameaçar, o socar o ar e o saco de pancadas, o suar infinitamente, a percepção de que pular corda é o oposto de andar de bicicleta, parou, esqueceu, é preciso aprender de novo. Curiosa sensação, a de freqüentar e cumprimentar e compartilhar um grupo tão díspar, fortões de braços tatuados, jovens gordotes que parecem ter sido mandados pra lá pelo pai ou pela mãe, poloneses que parecem ter acabado de deixar a lavoura ou as prateleiras do supermercado, um cinqüentão. Assim, lá se foram da minha vida pelo ralo mais alguns preconceitos. Obrigado, Mohamed.

1.20.2006

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005 / 2006

SEGUNDA PARTE:
UMA BREVE REVISÃO DA CRONOLOGIA GENEALÓGICA DA DINASTIA, PARA DEPOIS SE CONTAR EM DETALHES A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE MENTALIDADE DE 2017

- DOIS: POR PARTE DA AVÓ MATERNA –

A narrativa que Ricardo V fez sobre a árvore genealógica do filho continuou no automóvel, a caminho de Brasília, onde pegariam um vôo para os Estados Unidos, na presença de Rita. Para evitar discussões – ele estava certo de que sua mulher iría discordar de tudo o que ele dissesse a respeito da família dela, e Rita não demonstrou ânimo para falar de seus antepassados naqueles momentos -, Ricardo V optou por contar o que sabia da família de sua mãe, avó de Ricardo VI, Sérgia.

- Sua avó, aos vinte e um anos, resolveu entrar para o PCB, o Partido Comunista Brasileiro. Melhor você continuar gravando o que eu for dizendo e me fazer algumas das perguntas que você quiser daqui a um ou dois anos, se você não se importar. De toda forma, em 1975, ainda era tempo de ditadura, no Brasil. Em 64, João Goulart foi deposto por um movimento militar, esse regime durou até a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney, dois civis, e foi Sarney quem governou, porque Tancredo morreu antes de tomar posse. É complicado, eu sei. Comunismo é um regime onde se pretende que o Estado, isto é, o próprio país, através do governo, providencie tudo para a população – saúde, educação, moradia, emprego, lazer, comércio; nada é de ninguém, tudo é de todo mundo, ninguém é dono de nada. Sua avó entusiasmou-se com essa idéia, mas o que a motivou mesmo a entrar para o Partido Comunista – que era proibido de existir – foi lutar contra a ditadura. Já seu avô se queixa de que, nessa época, ele, por causa também da ditadura, era um alienado, não sabia de nada, apenas ouvia falar. Pessoas desapareciam de repente, um vizinho, um colega de faculdade ou de escola... às vezes, para participar da reação contra a ditadura, inclusive pegando em armas, outras por ter sido preso, muitas vezes torturado, isto é, submetido a sofrimentos terríveis, surras, choques, para dizer nomes de outras pessoas que fizessem parte da reação à ditadura, ou assassinado, desaparecido, exilado para outro país... Seu pai ouvia falar disso tudo, o pai dele, meu avô Ricardo III, teve que se esconder em Petrópolis, já te contei isso, também pesou isso, quer dizer, meu avô, seu bisavô, fez de tudo para que meu pai ficasse de fora daquilo tudo, não se envolvesse, para que não sofresse.

Depois de beber um gole de água mineral com uma das mãos, enquanto mantinha a outra no volante, Ricardo V continuou:

- Minha mãe, vovó Sérgia, ficou fazendo trabalhos de escritório, folhetos explicando o que a ditadura estava fazendo contra as pessoas – eram chamados de “panfletos” -, textos para jornais que estavam proibidos de ser vendidos nas bancas...

- Vovó foi presa?

- Não.

- Torturada?

- Não.

- Deu tudo certo?

- Um dia tudo acabou, depois de muito sofrimento, sua avó sofreu pela morte e pelo sofrimento de alguns amigos e amigos dela, mas ela mesma, conseguiu se safar, fazer o trabalho que se propusera a fazer e pronto. Depois ela desistiu do comunismo, desiludiu-se com a política de maneira geral.

Ricardo V fez uma pausa, por se ter lembrado de Maria Otávia (“a política tem que ser feita por amadores, por amadores, por amadores...”). ficou um pouco triste, depois passou:

- Vovó Sérgia descende de um casal de origem bem humilde, tudo o que ela sabe foi por conta própria que aprendeu, incluindo aquele jeitão educado, polido. Muito estudiosa, estudou de tudo por conta própria, muito precoce, assim como você. Há pouco o que dizer do pai e da mãe dela, eram pessoas muito simples, honestas, trabalhadoras. O grande orgulho dela era de um avô, que era da Polícia, e que vivia dizendo a ela que havia prendido um bandido assim ou assado, isto é, um bandido tal num dia, noutro dia, um outro bandido. Essa expressão, “assim ou assado”, é bem do tempo do avô dela, cuja mulher, mãe da mãe dela, era uma gracinha de velhinha, eu ainda a conheci, Dona Alzira, fazia uns bolos muito gostosos, esse tipo de mulher com cara de avó.

- Vovó Sérgia tem cara de avó?

- Nenhuma. Vovó Sérgia tem cara do que ela é, psicopedagoga, intelectual, cheia de razões, idéias, verdades e ordens. Mandona pra caramba.

- Mamãe não é mandona.

- Principalmente quando está dormindo, não é, filho? Já o pai dela... Da vovó Sérgia, quero dizer. O pai dela, da vovó Sérgia, foi criado em orfanato, abandonado pelos pais. Não há muito o que dizer da árvore genealógica da sua avó Sérgia; o sobrenome dela, Jacobina Neves, que é um sobrenome clássico, formado por dois sobrenomes tradicionais, se deu por acaso, porque a mãe dela tinha como primeiro nome Jacobina, e Neves era o sobrenome do “Seu” Antônio Sérgio das Neves, pintor de paredes, só isso. Aí ficou assim: Sérgia Jacobina Neves. Há muito mais a dizer da família da sua mãe, o que é melhor deixar pr’amanhã, quando sua mãe estiver de bom humor; hoje ela está um pouco enjoada. Engraçado, estamos há um tempão sendo seguidos por uma camionete cinza, já dei passagem pra ela algumas vezes, ela se aproxima muito devagar, depois acaba ficando pra trás, novamente. Olha, lá vem ela de novo, e está fazendo sinal para eu parar, quem será? Será um assalto? Um seqüestro? A camionete parou. Saiu um cara lá de dentro, êpa!, um cara fardado...

Ricardo V parou o carro no acostamento, mas com o pé no acelerador, pronto para uma arrancada. Foi quando um simpático Coronel do exército brasileiro, que mais tarde viria a ser General reformado, com importante papel na Revolução de 2017, lhe estendeu a mão, muito amistosamente (“Prazer, Fernando”). O então Coronel se explicou:

- Perdoe ter seguido seu carro e lhe ter pedido para parar; é que acabo de vir de um lugar muito estranho, onde ouvi falar do senhor. Ricardo Coração dos Outros V, não é?

- Sim. Mas...

- Procurei-lhe na cidade, a sua empregada me disse que o Senhor iría sair de viagem...

- Como foi que o senhor soube do meu endereço?

- Todo mundo sabe seu endereço em Minaçu, Doutor Ricardo; então, o senhor não é aquele escritor famoso, do livro da revolução que o senhor diz que vai acontecer em 2017?

Ricardo V riu amarelo.

- Não tive jeito senão sair atrás do senhor, sua empregada me falou da cor do seu carro, fez uma descrição dele, não quis me dar o número do seu telefone para que eu lhe pudesse telefonar de jeito nenhum, mas não se importou de me dizer como era o seu carro e com quem o senhor viajava.

Os dois sorriram. O Coronel era muito simpático, nada havia de ameaçador ou prepotente em seu rosto.

- Quando a gente viaja com criança e mulher, tem que dar umas paradas, não é? Sabia que iría acabar tendo a oportunidade de me aproximar do senhor, é que preciso muito falar com o senhor, porque li seu livro e vi um local muito estranho, uma comunidade que fica perto de Minaçu, o senhor sabe do que estou falando?

- Não.

- Podemos conversar um pouco quando chegarmos em Brasília?

- Sim. Vou dormir lá essa noite. Mas... o que esse tal lugar estranho tem a ver com meu livro?

- Aceita o meu convite para jantarmos juntos? Leve sua família. Eu vou só, quem está dirigindo o carro pra mim tem que se apresentar ainda essa noite no quartel. Vamos jantar essa noite juntos?

Jantaram. Rita e Ricardo VI ficaram no hotel.