Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO TRINTA E TRÊS –
Depois da assim chamada reforma eleitoral e partidária de 2007, dizem muitos que, nas eleições de 2010, a convulsão social foi determinante para a vitória do PIB – Partido Idealista Brasileiro -, formado por vários ex-integrantes tanto do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) como do PT (Partido dos Trabalhadores). Se em 2002 Anthony Garotinho tivesse chegado ao segundo turno contra Lula no lugar de José Serra, era tido como certo que o PSDB apoiaria o PT no segundo turno da eleição presidencial daquele ano; e a passagem do cargo de FHC para Lula, naquele ano, foi tida como pacífica e até mesmo elegante. Portanto, não foi grande surpresa quando a rixa de anos entre os dois partidos terminasse por resultar na formação de um terceiro e sem que os originais que lhe deram origem se extinguissem e mesmo deixassem de apoiar o PIB - como sucedeu. Tampouco foi surpreendente que as acusações de corrupção havidas principalmente no período em que ambos se alternaram nas posições de situação e oposição de parte a parte fossem esquecidas, ainda que lembradas pelos outros partidos, de oposição à coligação PIB-PT-PSDB de 2010 – mesmo porque tinham também contra si outras tantas suspeitas.
Outro fato é que as cassações de alguns mandatos em 2005, ainda que em número inferior ao que gostaria grande parte da população, tiraram de cena alguns dos mais que suspeitos de uso da caixa dois e / ou suborno, muito embora algumas das renúncias tenham trazido de volta ao Parlamento, em 2006, alguns não só dos suspeitos como até dos comprovadamente culpados, tenha sido por desinformação ou por uma espécie de fé inabalável que pareciam merecer dos seus eleitores.
“Contra a convulsão, a união” – esse foi o slogan da chapa vitoriosa em 2010.
O artigo 2° do Capítulo II do estatuto do PSDB (“Dos Objetivos e dos Princípios Programáticos”) definia: “O PSDB tem como base a democracia interna e a disciplina e, como objetivos programáticos, a consolidação dos direitos individuais e coletivos; o exercício democrático participativo e representativo; a soberania nacional; a construção de uma ordem social justa e garantida pela igualdade de oportunidades; o respeito ao pluralismo de idéias, culturas e etnias; e a realização do desenvolvimento de forma harmoniosa, com a prevalência do trabalho sobre o capital, buscando a distribuição equilibrada da riqueza nacional entre todas as regiões e classes sociais.”
Já o do PT, em seu capítulo I (“DA DURAÇÃO, SEDE E FORO), artigo 1°, estabelecia: “O Partido dos Trabalhadores (PT) é uma associação voluntária de cidadãs e cidadãos que se propõem a lutar por democracia, pluralidade, solidariedade, transformações políticas, sociais, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais, destinadas a eliminar a exploração, a dominação, a opressão, a desigualdade, a injustiça e a miséria, com o objetivo de construir o socialismo democrático.”
O programa de governo da coligação liderada pelo PIB, a grande vitoriosa das eleições de 2010, continha propostas diferentes mas absolutamente convergentes, não sendo difícil identificar de que vertentes partiram suas respectivas propostas - desde que se conheça um pouco da história dos mandatos e da prática política, como situação e oposição, dos partidos que deram origem ao PIB e a ele se aliaram em 2010, PSDB e PT, que propriamente seus estatutos. Por exemplo:
“AMPLIAÇÃO DE MERCADOS – favelas e periferias constituem-se excelentes oportunidades de rápida ampliação de mercados de diferentes produtos e serviços, mas muito especialmente para concessionárias de água e esgoto. Sob a liderança do Governo, Estado, empresas privadas e sociedade em geral deverão fomentar a capacitação para o trabalho e o empreendedorismo dos habitantes de favelas e periferias para que estes possam se tornar consumidores, pagando suas contas, eliminando conexões irregulares e ilegais (“gatos”), com ganhos de escala e conseqüentemente diminuição da tarifa, eliminação de perdas, menores gastos públicos com saúde e menores tensões sociais. Para tanto, é preciso vencer o tráfico de drogas, visto ser uma atividade cujas oferta e demanda são contrárias ao interesse da maioria.”
“INCLUSÃO SOCIAL – é preciso desmarginalizar o favelado e o habitante das periferias das grandes cidades. Para isso, é necessário levar as redes de água e esgoto às suas casas, permitindo a eles alcançar o direito constitucional da cidadania e da saúde, o que poderá ser conquistado criando-se para eles oportunidades de justa e lícita auto-geração de renda, através do emprego, da formação de cooperativas e de pequenas empresas, afastando a criança, o adolescente e o adulto da marginalidade, do tráfico e do consumo de drogas.”
Ricardo V percebeu a afinidade daquelas idéias com as suas, contidas em seu best-seller “A Revolução Brasileira de 2017”, publicado um ano antes da vitória da coligação e seu programa de governo. Por isso, filiou-se ao PIB e passou a freqüentar algumas das suas reuniões e convenções, em Brasília, em Goiânia, no Rio e em São Paulo, além das havidas em Minaçu, muito raras e pouco freqüentadas, diga-se de passagem. Ricardo V sofreu forte resistência à sua filiação, além de feroz crítica por parte de escritores, intelectuais de plantão, cientistas políticos e outros setores. Com o sucesso do livro, já alcançara autonomia financeira para não depender da universidade que o mantivera por um bom tempo, à guisa de que desenvolvesse suas teses. Queria conhecer a política profissional para melhor chegar ao seu oposto: a sua sonhada política amadora.
O DIÁRIO DO MARIO contém crônicas e poemas de Mario Benevides, além do embrião do romance A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO, do mesmo autor, publicado em 2007 pela Design Editora, aqui no blog com o título A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS.
11.04.2005
10.31.2005
O HOMEM, A MULHER E SEUS SUBS
Mulher é o engenheiro do homem.
Homem gosta da mulher.
Mulher gosta do projeto.
Ao ver um homem do seu agrado
A mulher dirá
ESSE TEM CHANCE
PODE FICAR DO JEITINHO QUE EU GOSTO.
O homem
Percebendo o interesse da fêmea
Sendo humano - isso é: tolo -
Encherá o peito e pensará
ESSA TÁ NO PAPO.
Namoro iniciado e
Principalmente
Continuado
Desde seus sapatos
Á barriga
Passando pela quantidade do que bebe e come
Chegando ao caráter
À vontade de vencer
Que antes nem era tanta
Ao penteado e à pasta de dentes
Tudo será modificado.
Ao perceber o interesse da mulher
O homem não deverá jamais se achar o tal.
Melhor fará se pendurar uma placa no próprio peito
Onde esteja escrito
EM OBRAS.
Assim e só assim
- Inacabado -
O homem será desejado pela mulher.
Ou será mero interesse
Da sub-mulher
Pelo sub-homem.
Homem gosta da mulher.
Mulher gosta do projeto.
Ao ver um homem do seu agrado
A mulher dirá
ESSE TEM CHANCE
PODE FICAR DO JEITINHO QUE EU GOSTO.
O homem
Percebendo o interesse da fêmea
Sendo humano - isso é: tolo -
Encherá o peito e pensará
ESSA TÁ NO PAPO.
Namoro iniciado e
Principalmente
Continuado
Desde seus sapatos
Á barriga
Passando pela quantidade do que bebe e come
Chegando ao caráter
À vontade de vencer
Que antes nem era tanta
Ao penteado e à pasta de dentes
Tudo será modificado.
Ao perceber o interesse da mulher
O homem não deverá jamais se achar o tal.
Melhor fará se pendurar uma placa no próprio peito
Onde esteja escrito
EM OBRAS.
Assim e só assim
- Inacabado -
O homem será desejado pela mulher.
Ou será mero interesse
Da sub-mulher
Pelo sub-homem.
10.29.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO TRINTA E DOIS –
Naqueles dias de 2005, de crise política e referendo à proibição das armas – amplamente recusado -, as sensações variavam do espanto à revolta, passando pela indiferença pela repetição das reportagens e cenas de acareações e interrogatórios conduzidos pela comissão parlamentar mista de inquérito então constituída. Quanto ao referendo, houve quem dissesse que o “não”, que venceu ao “sim”, não fosse restrito à proibição da venda de armas, mas significando também repulsa à “caixa dois” - a própria caixa de Pandora, que foi a primeira mulher feita por Zeus e entregue a Epimeteu, que possuía a misteriosa caixa, que Pandora abriu, sem saber que assim deixaria escapar da caixa a inveja, a vingança e o reumatismo, deixando lá dentro somente a esperança - a mesma da população brasileira de quinze anos antes desse relato, de que a política se transformasse, ainda que ruidosa, tediosa e dolorosamente. Sabe-se agora que a conhecida e por vezes desprezada esperança brasileira – não tão diferente da de outros povos, como os gregos - não foi em vão: hoje, em 2020, a política, a partir e por conta da revolução pacífica de 2017, mantém-se elevada.
Dez anos antes da revolução, Giulio Vincenzo, o falso Vincenzo Scarpini, assumira estratégia semelhante ao daquele “our man in Havana”, de Graham Greene – com muito menos imaginação. Como não encontrava mais o que dizer sobre seu vigiado, passou a enviar aos seus chefes nos Estados Unidos relatórios inventados; como este, por exemplo (já com a ortografia e a gramática corrigidas):
“R V continua dizendo à polícia que está escrevendo sobre turismo no cerrado. Tive acesso aos seus escritos em arriscada operação. Está marcando regiões em mapas de Goiás e Tocantins, que, na verdade, comunidades americanas vão ocupar, criando novas fronteiras dentro do Brasil. Abadiânia e Cavalcante são as mais riscadas a caneta hidrográfica, em vermelho e amarelo, mas também em azul.”
Ricardo V depois contaria à mulher e ao filho que simulara telefonemas em código de seu celular a supostos cúmplices enquanto dava suas caminhadas, notoriamente seguido por Giulio Vincenzo, sempre na garupa de uma moto-taxi. Dizia, por exemplo, assim:
“Para os mórmons, há boas terras no trajeto de Cavalcante a Minaçu. Já para a Third Millennium Civilization, que acredita que o calor dos trópicos seja a única força capaz de arrancar o demônio dos corpos, já adquiri duas em Palmeirópolis. Há projetos de hidrelétricas em andamento por lá, o que encareceu os preços, mas essas propriedades ficam distantes delas, em locais praticamente inabitados, perfeitos para nossos propósitos.”
Numa dessas simulações, Ricardo V foi ouvido por Pedrosa, agente do Tenente, o que lhe levou a dar explicações, inclusive para a Polícia Federal. Ricardo V foi visitado em Minaçu por um investigador daquela instituição, sob suspeita de traição da pátria. O detetive, depois de passar alguns dias vigiando e inquirindo Ricardo V, prendeu Giulio Vincenzo. Ao perceber o quão despreparado era seu prisioneiro por suspeita de espionagem internacional; depois de ouvir súplicas de Marita, a prostituta dona de um trailer de cerveja e churrasquinho, que lhe garantira na cama do motel que ficava na estrada para Goiânia que o italiano era um homem bom; ainda que obviamente o tal Vincenzo fosse grosseiro impostor, que de cientista não tinha nem sombra, o investigador foi embora. A partir daí, Giulio passou a inventar uma história sem qualquer nexo para a universidade que o contratara, baseada nos riscos que Ricardo V continuava a fazer em mapas que jogava nas lixeiras públicas da cidade, só para manter o estranho ocupado. Os agentes do Tenente, Figueiredo e Pedrosa, foram transferidos para Porangatu. Ricardo V pode enfim trabalhar e caminhar e freqüentar cidade e região em paz - coisa que nenhum habitante de Minaçu tinha em época de eleições, como a que se deu no segundo semestre de 2006, para deputados, senadores, governadores e Presidente; mas só até 2017, pois, em 2018, o sistema eleitoral seria radicalmente modificado, como se sabe.
Já em 1945, a humanidade comemorava o fim da Segunda Grande Guerra enquanto sofria suas dores. Maria Cristina chorava a morte do marido Ricardo II e, para completar o drama, o fato de estar com quarenta anos e quatro filhos para criar sozinha: Ricardo III, com treze; Ricardo Maria, com nove; Ricardina Cristina com sete; e Olga Cristina com cinco, que se tornaria poetisa concretista e que viria a morrer em 1972, aos trinta e dois anos. O que a viúva não sabia era que o mais velho, Ricardo III, viria a se tornar o salvador da família, com seus dotes musicais herdados do avô e muito cedo revelados, logo se tornando famoso, ainda adolescente, apresentando suas canções na Rádio Nacional com sua voz macia e em baixo volume (quase que um prenúncio de João Gilberto). Emilinha Borba gravou dois de seus sambas, mas cortou relações com ele publicamente quando soube que ele dera para Marlene gravar a marchinha “Minhas moléculas estão no teu sangue para sempre”. A versão em Inglês dessa marchinha – “My cheek is your cheek”, ou “Minha bochecha é sua bochecha” -, foi grande sucesso de Carmen Miranda.
- CAPÍTULO TRINTA E DOIS –
Naqueles dias de 2005, de crise política e referendo à proibição das armas – amplamente recusado -, as sensações variavam do espanto à revolta, passando pela indiferença pela repetição das reportagens e cenas de acareações e interrogatórios conduzidos pela comissão parlamentar mista de inquérito então constituída. Quanto ao referendo, houve quem dissesse que o “não”, que venceu ao “sim”, não fosse restrito à proibição da venda de armas, mas significando também repulsa à “caixa dois” - a própria caixa de Pandora, que foi a primeira mulher feita por Zeus e entregue a Epimeteu, que possuía a misteriosa caixa, que Pandora abriu, sem saber que assim deixaria escapar da caixa a inveja, a vingança e o reumatismo, deixando lá dentro somente a esperança - a mesma da população brasileira de quinze anos antes desse relato, de que a política se transformasse, ainda que ruidosa, tediosa e dolorosamente. Sabe-se agora que a conhecida e por vezes desprezada esperança brasileira – não tão diferente da de outros povos, como os gregos - não foi em vão: hoje, em 2020, a política, a partir e por conta da revolução pacífica de 2017, mantém-se elevada.
Dez anos antes da revolução, Giulio Vincenzo, o falso Vincenzo Scarpini, assumira estratégia semelhante ao daquele “our man in Havana”, de Graham Greene – com muito menos imaginação. Como não encontrava mais o que dizer sobre seu vigiado, passou a enviar aos seus chefes nos Estados Unidos relatórios inventados; como este, por exemplo (já com a ortografia e a gramática corrigidas):
“R V continua dizendo à polícia que está escrevendo sobre turismo no cerrado. Tive acesso aos seus escritos em arriscada operação. Está marcando regiões em mapas de Goiás e Tocantins, que, na verdade, comunidades americanas vão ocupar, criando novas fronteiras dentro do Brasil. Abadiânia e Cavalcante são as mais riscadas a caneta hidrográfica, em vermelho e amarelo, mas também em azul.”
Ricardo V depois contaria à mulher e ao filho que simulara telefonemas em código de seu celular a supostos cúmplices enquanto dava suas caminhadas, notoriamente seguido por Giulio Vincenzo, sempre na garupa de uma moto-taxi. Dizia, por exemplo, assim:
“Para os mórmons, há boas terras no trajeto de Cavalcante a Minaçu. Já para a Third Millennium Civilization, que acredita que o calor dos trópicos seja a única força capaz de arrancar o demônio dos corpos, já adquiri duas em Palmeirópolis. Há projetos de hidrelétricas em andamento por lá, o que encareceu os preços, mas essas propriedades ficam distantes delas, em locais praticamente inabitados, perfeitos para nossos propósitos.”
Numa dessas simulações, Ricardo V foi ouvido por Pedrosa, agente do Tenente, o que lhe levou a dar explicações, inclusive para a Polícia Federal. Ricardo V foi visitado em Minaçu por um investigador daquela instituição, sob suspeita de traição da pátria. O detetive, depois de passar alguns dias vigiando e inquirindo Ricardo V, prendeu Giulio Vincenzo. Ao perceber o quão despreparado era seu prisioneiro por suspeita de espionagem internacional; depois de ouvir súplicas de Marita, a prostituta dona de um trailer de cerveja e churrasquinho, que lhe garantira na cama do motel que ficava na estrada para Goiânia que o italiano era um homem bom; ainda que obviamente o tal Vincenzo fosse grosseiro impostor, que de cientista não tinha nem sombra, o investigador foi embora. A partir daí, Giulio passou a inventar uma história sem qualquer nexo para a universidade que o contratara, baseada nos riscos que Ricardo V continuava a fazer em mapas que jogava nas lixeiras públicas da cidade, só para manter o estranho ocupado. Os agentes do Tenente, Figueiredo e Pedrosa, foram transferidos para Porangatu. Ricardo V pode enfim trabalhar e caminhar e freqüentar cidade e região em paz - coisa que nenhum habitante de Minaçu tinha em época de eleições, como a que se deu no segundo semestre de 2006, para deputados, senadores, governadores e Presidente; mas só até 2017, pois, em 2018, o sistema eleitoral seria radicalmente modificado, como se sabe.
Já em 1945, a humanidade comemorava o fim da Segunda Grande Guerra enquanto sofria suas dores. Maria Cristina chorava a morte do marido Ricardo II e, para completar o drama, o fato de estar com quarenta anos e quatro filhos para criar sozinha: Ricardo III, com treze; Ricardo Maria, com nove; Ricardina Cristina com sete; e Olga Cristina com cinco, que se tornaria poetisa concretista e que viria a morrer em 1972, aos trinta e dois anos. O que a viúva não sabia era que o mais velho, Ricardo III, viria a se tornar o salvador da família, com seus dotes musicais herdados do avô e muito cedo revelados, logo se tornando famoso, ainda adolescente, apresentando suas canções na Rádio Nacional com sua voz macia e em baixo volume (quase que um prenúncio de João Gilberto). Emilinha Borba gravou dois de seus sambas, mas cortou relações com ele publicamente quando soube que ele dera para Marlene gravar a marchinha “Minhas moléculas estão no teu sangue para sempre”. A versão em Inglês dessa marchinha – “My cheek is your cheek”, ou “Minha bochecha é sua bochecha” -, foi grande sucesso de Carmen Miranda.
10.25.2005
POESIA, COISA DESVAIRADA, DE POETA E DE QUEM DELA SE APOSSA E GOSTA
Nesses tempos de frangos gripados e vacas febris
O que devemos fazer? Tomar Vitamina C?
De bucha e de bruxa,
Vendavais tão covardemente viris
O que fazer?
Nos esconder? Inverter? Reverter?
Em que ética e pragmatismo
Engalfinham se socam sem luvas em
Pusilânime pugilismo
O que fazer?
Desencavar um ismo?
(Catolicismo? Espiritismo? Capitalismo? Comunismo?)
E se a gente conversasse e se mudasse a gente
E se amasse urgente e de repente?
O que devemos fazer? Tomar Vitamina C?
De bucha e de bruxa,
Vendavais tão covardemente viris
O que fazer?
Nos esconder? Inverter? Reverter?
Em que ética e pragmatismo
Engalfinham se socam sem luvas em
Pusilânime pugilismo
O que fazer?
Desencavar um ismo?
(Catolicismo? Espiritismo? Capitalismo? Comunismo?)
E se a gente conversasse e se mudasse a gente
E se amasse urgente e de repente?
10.22.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO TRINTA E UM –
Da porta aberta da casa putridamente decadente, via-se o Ogro somente de short, sem sapatos e sem camisa. Sua cabeça branca de cabelos rentes e seu sorriso lhe davam um ar simpático, e despertaram no visitante em trajes civis, que batera à porta, um forte sentimento de pena. O Ogro, ainda demonstrando surpresa com a inesperada e desconhecida visita, empurrando com os pés uma cadela vira-latas muito suja, convidou-o a entrar e sentar-se. Ricardo Coração dos Outros II apresentou-se, esclarecendo que era um correspondente de guerra brasileiro, em razoável italiano. Ainda de pé, examinou mais detidamente o Ogro: uma enorme e despencada barriga, lanhada de feridas vermelhas; o tórax, muito suado, como o gordo pescoço; a canela da perna direita com uma ferida exposta, sem curativo e aspecto nojento; o olho esquerdo sem cor nem expressão; o direito, azul e arregalado, ainda perfeitamente capaz de expressar os sentimentos do Ogro, além de uma aterrorizante vivacidade, quem sabe, própria do olho e não dele, Ogro.
Ele ofereceu um cigarro que Ricardo II aceitou. Insuportável: cada tragada era um soco dentro de cada um dos pulmões. O Ogro disse assim:
- Vejo você como se estivéssemos dentro d’água. Não vejo seus olhos, apenas seu vulto. Não se impressione com meu olho, tive um derrame de manhã dentro dele, o que não causou nenhuma diferença: já via todo mundo como se todos estivéssemos dentro d’água o tempo todo, nada mudou, tudo continuou igual como estava antes.
(Não para ele, Ricardo II, como confessaria mais tarde ao seu amigo, trisavô de Danilo S., um dos mais conhecidos PCR da atualidade. Ricardo II, ainda que houvesse presenciado a algumas das barbáries da guerra, homens cujas pernas tinham sido arrancadas, outros, os braços ou a cabeça, não conseguia encarar o Ogro e seu olho derramado. Nem fumar seu terrível cigarro.)
O Ogro deu uma profunda tragada, coçou e arranhou um pouco mais o ventre e perguntou a Ricardo II:
- O que você quer comigo?
- Entrevistá-lo.
- Por quê?
- O Senhor desde o começo dessa guerra disse que Mussolini era nada mais que um fantoche de Hitler.
O Ogro suspirou profundamente e balançou a cabeça. Explicou que não usava mais os cinzeiros da casa porque não conseguia enxergá-los, e deixou Ricardo II à vontade para se desfazer das cinzas no chão. Ricardo, discretamente, largou e pisoteou no chão o cigarro que lhe dera o Ogro e acendeu um dos seus, que trouxera no bolso da camisa.
- Você é quem? O que é que você veio fazer aqui? – quis saber o Ogro.
- Sou um correspondente de guerra brasileiro - repetiu. Admiro seu idealismo, sua repugna ao fascismo e ao nazismo. Deu um largo sorriso e completou: - Admiro sua esperteza em manter-se escondido aqui mesmo, na Itália, nas barbas de Mussolini e de Hitler, depois de ter feito ataques tão contundentes e brilhantes contra o fascismo, o eixo e o nazismo. Seus textos, suas falas, seus discursos e conferências, logo no começo... Quanta coragem e precisão!
O Ogro levantou-se, “Você me dá licença um instante?”, ao que Ricardo respondeu, “Claro, claro que sim”.
O Ogro não demorou muito; voltou com uma Lugger, pistola alemã, e, diante do olhar atônito do correspondente de guerra brasileiro, disse a ele:
- Detesto idealistas - e meteu uma bala em Coração dos Outros II. Depois, deu um tiro em seu próprio olho, o opaco, atacado por um derrame na manhã daquele dia, caindo fulminado sobre seu corpo obeso e cheio de feridas. Seu olho bom continuou aberto e vivaz, mirando o teto, de dentro d’água.
A caminho de uma enfermaria de guerra da Força Expedicionária, a FEB, Ricardo II morreu - não sem antes dar seu relato ao amigo, trisavô de Danilo S., do que lhe acontecera na tentativa de entrevistar o Ogro, opositor de primeira hora a Mussolini. Fora chamado de Ogro pela imprensa por causa do olho direito, sempre azul e vivaz, e não pelo esquerdo, derrotado por um derrame de manhã e um tiro à tarde. O homem que passara a ver o mundo totalmente fora de foco por conta de um avançado estado de diabetes, que permanecera o tempo todo escondido na própria casa, na sua própria e derrotada Itália. O Ogro. Que se matara, depois de dar início ao fim da vida também de Ricardo Coração dos Outros II, quando este mal completara seus quarenta e cinco anos, pai de quatro filhos. Não fosse Danilo S. e ninguém saberia de nada disso.
Brasil, 2005
- CAPÍTULO TRINTA E UM –
Da porta aberta da casa putridamente decadente, via-se o Ogro somente de short, sem sapatos e sem camisa. Sua cabeça branca de cabelos rentes e seu sorriso lhe davam um ar simpático, e despertaram no visitante em trajes civis, que batera à porta, um forte sentimento de pena. O Ogro, ainda demonstrando surpresa com a inesperada e desconhecida visita, empurrando com os pés uma cadela vira-latas muito suja, convidou-o a entrar e sentar-se. Ricardo Coração dos Outros II apresentou-se, esclarecendo que era um correspondente de guerra brasileiro, em razoável italiano. Ainda de pé, examinou mais detidamente o Ogro: uma enorme e despencada barriga, lanhada de feridas vermelhas; o tórax, muito suado, como o gordo pescoço; a canela da perna direita com uma ferida exposta, sem curativo e aspecto nojento; o olho esquerdo sem cor nem expressão; o direito, azul e arregalado, ainda perfeitamente capaz de expressar os sentimentos do Ogro, além de uma aterrorizante vivacidade, quem sabe, própria do olho e não dele, Ogro.
Ele ofereceu um cigarro que Ricardo II aceitou. Insuportável: cada tragada era um soco dentro de cada um dos pulmões. O Ogro disse assim:
- Vejo você como se estivéssemos dentro d’água. Não vejo seus olhos, apenas seu vulto. Não se impressione com meu olho, tive um derrame de manhã dentro dele, o que não causou nenhuma diferença: já via todo mundo como se todos estivéssemos dentro d’água o tempo todo, nada mudou, tudo continuou igual como estava antes.
(Não para ele, Ricardo II, como confessaria mais tarde ao seu amigo, trisavô de Danilo S., um dos mais conhecidos PCR da atualidade. Ricardo II, ainda que houvesse presenciado a algumas das barbáries da guerra, homens cujas pernas tinham sido arrancadas, outros, os braços ou a cabeça, não conseguia encarar o Ogro e seu olho derramado. Nem fumar seu terrível cigarro.)
O Ogro deu uma profunda tragada, coçou e arranhou um pouco mais o ventre e perguntou a Ricardo II:
- O que você quer comigo?
- Entrevistá-lo.
- Por quê?
- O Senhor desde o começo dessa guerra disse que Mussolini era nada mais que um fantoche de Hitler.
O Ogro suspirou profundamente e balançou a cabeça. Explicou que não usava mais os cinzeiros da casa porque não conseguia enxergá-los, e deixou Ricardo II à vontade para se desfazer das cinzas no chão. Ricardo, discretamente, largou e pisoteou no chão o cigarro que lhe dera o Ogro e acendeu um dos seus, que trouxera no bolso da camisa.
- Você é quem? O que é que você veio fazer aqui? – quis saber o Ogro.
- Sou um correspondente de guerra brasileiro - repetiu. Admiro seu idealismo, sua repugna ao fascismo e ao nazismo. Deu um largo sorriso e completou: - Admiro sua esperteza em manter-se escondido aqui mesmo, na Itália, nas barbas de Mussolini e de Hitler, depois de ter feito ataques tão contundentes e brilhantes contra o fascismo, o eixo e o nazismo. Seus textos, suas falas, seus discursos e conferências, logo no começo... Quanta coragem e precisão!
O Ogro levantou-se, “Você me dá licença um instante?”, ao que Ricardo respondeu, “Claro, claro que sim”.
O Ogro não demorou muito; voltou com uma Lugger, pistola alemã, e, diante do olhar atônito do correspondente de guerra brasileiro, disse a ele:
- Detesto idealistas - e meteu uma bala em Coração dos Outros II. Depois, deu um tiro em seu próprio olho, o opaco, atacado por um derrame na manhã daquele dia, caindo fulminado sobre seu corpo obeso e cheio de feridas. Seu olho bom continuou aberto e vivaz, mirando o teto, de dentro d’água.
A caminho de uma enfermaria de guerra da Força Expedicionária, a FEB, Ricardo II morreu - não sem antes dar seu relato ao amigo, trisavô de Danilo S., do que lhe acontecera na tentativa de entrevistar o Ogro, opositor de primeira hora a Mussolini. Fora chamado de Ogro pela imprensa por causa do olho direito, sempre azul e vivaz, e não pelo esquerdo, derrotado por um derrame de manhã e um tiro à tarde. O homem que passara a ver o mundo totalmente fora de foco por conta de um avançado estado de diabetes, que permanecera o tempo todo escondido na própria casa, na sua própria e derrotada Itália. O Ogro. Que se matara, depois de dar início ao fim da vida também de Ricardo Coração dos Outros II, quando este mal completara seus quarenta e cinco anos, pai de quatro filhos. Não fosse Danilo S. e ninguém saberia de nada disso.
10.18.2005
O GLOBO E O DIÁRIO
O GLOBO desse Domingo teve a seguinte manchete:
“REFERENDO CAUSA CORRIDA POR ARMAS E MUNIÇÃO”.
Quem acompanha este Diário de um Mario leu na semana passada o seguinte:
“Quem jamais pensou em comprar uma arma deve agora estar vivendo a aflição dos últimos dias: tem que ser agora, pois, após o dia 23, poderá estar impedido de adquirir uma arma legal (no sentido de dentro da lei – claro). É possível que quem já possui uma arma esteja formando um verdadeiro exército dentro de casa, também possuído pela mesma aflição dos últimos dias. (...) se você é um aflito dos últimos dias, não perca tempo: vá à loja mais próxima e arme-se. Por causa desses aflitos, é de se imaginar que o comércio de armas legais esteja faturando como nunca”.
Melhor não insistir no assunto – mas não deixa de dar um certo gostinho que esse Diário tenha antecipado o óbvio (nada mais que o óbvio) e sua publicação.
Pra comemorar, esse futurismo há de não ser do óbvio – e se arrisca a prever que um dia acontecerá o que previu Chico Buarque, em sua Valsinha:
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais... Que o mundo compreendeu... E o dia amanheceu... Em paz.
Para que isso aconteça, é preciso antes de tudo lembrar da velha terceira Lei de Newton.
Bush vai se armando e ameaçando e vendo fantasmas no mundo todo e também ao sul do seu país. Seus olhos de ave de rapina miram tanto na tríplice fronteira - que lembra a tríplice aliança de tempos idos e que serviu a re-arrumações na mesma tríplice fronteira de hoje, então a serviço de outros da mesma origem de Bush, anglo-saxônica - como na Amazônia, principalmente na Venezuela – onde a referida lei newtoniana é apimentada por uma apaixonada formação militar e propalada como ideológica, de Hugo Chaves, que vai se armando e ameaçando e vendo fantasmas no mundo todo e também ao norte do seu país, em processo assustadoramente re-alimentador daquela lei – que foi ninada no mesmo berço dos primeiros anglo-saxões.
Nos tempos de Dom Pedro I e Simon Bolívar, nosso então imperador, sábia, política e diplomaticamente soube deixar de meter nossos antepassados em intermináveis turras na região que Bolívar chamava de Grã-Colômbia (que ia até a Venezuela). Talvez esse, quem sabe, tenha sido ensinamento mais profundo que possa ser profundo qualquer debate sobre (des-)armamento.
E é só. Melhor: lembrar também de Vinicius de Moraes com Tom Jobim:
Vai e canta a última esperança, esperança divina, de amar em paz...
“REFERENDO CAUSA CORRIDA POR ARMAS E MUNIÇÃO”.
Quem acompanha este Diário de um Mario leu na semana passada o seguinte:
“Quem jamais pensou em comprar uma arma deve agora estar vivendo a aflição dos últimos dias: tem que ser agora, pois, após o dia 23, poderá estar impedido de adquirir uma arma legal (no sentido de dentro da lei – claro). É possível que quem já possui uma arma esteja formando um verdadeiro exército dentro de casa, também possuído pela mesma aflição dos últimos dias. (...) se você é um aflito dos últimos dias, não perca tempo: vá à loja mais próxima e arme-se. Por causa desses aflitos, é de se imaginar que o comércio de armas legais esteja faturando como nunca”.
Melhor não insistir no assunto – mas não deixa de dar um certo gostinho que esse Diário tenha antecipado o óbvio (nada mais que o óbvio) e sua publicação.
Pra comemorar, esse futurismo há de não ser do óbvio – e se arrisca a prever que um dia acontecerá o que previu Chico Buarque, em sua Valsinha:
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais... Que o mundo compreendeu... E o dia amanheceu... Em paz.
Para que isso aconteça, é preciso antes de tudo lembrar da velha terceira Lei de Newton.
Bush vai se armando e ameaçando e vendo fantasmas no mundo todo e também ao sul do seu país. Seus olhos de ave de rapina miram tanto na tríplice fronteira - que lembra a tríplice aliança de tempos idos e que serviu a re-arrumações na mesma tríplice fronteira de hoje, então a serviço de outros da mesma origem de Bush, anglo-saxônica - como na Amazônia, principalmente na Venezuela – onde a referida lei newtoniana é apimentada por uma apaixonada formação militar e propalada como ideológica, de Hugo Chaves, que vai se armando e ameaçando e vendo fantasmas no mundo todo e também ao norte do seu país, em processo assustadoramente re-alimentador daquela lei – que foi ninada no mesmo berço dos primeiros anglo-saxões.
Nos tempos de Dom Pedro I e Simon Bolívar, nosso então imperador, sábia, política e diplomaticamente soube deixar de meter nossos antepassados em intermináveis turras na região que Bolívar chamava de Grã-Colômbia (que ia até a Venezuela). Talvez esse, quem sabe, tenha sido ensinamento mais profundo que possa ser profundo qualquer debate sobre (des-)armamento.
E é só. Melhor: lembrar também de Vinicius de Moraes com Tom Jobim:
Vai e canta a última esperança, esperança divina, de amar em paz...
10.15.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO TRINTA –
O movimento orbital de um corpo celeste é uma revolução, como o de uma coisa qualquer em torno de um eixo. Por que será que meu pai imaginou uma revolução para o ano que vem? Em torno de que eixo? Que órbita será iniciada por esse movimento que ele imagina que será pacífico? E que tem que ser insurgente, pois, senão, não será uma revolução?
Contra o quê é fácil de se perceber.
Houve progressos consideráveis desde a última década do século passado. Toda e qualquer farsa, tenha vindo de que força que tenha sido - comunicações, poder público, tráfico, toda e qualquer farsa -, se assim não se revelou de imediato, assim foi logo desvendada, farsa como farsa que era e sempre foi desde a origem; fosse por outra das forças ou pela simples percepção que se consolidou do que seja e do que deixe de ser farsa.
Sublevação, rebelião, subversão, revolta, insurreição – nada disso é parecido com paz, movimento pacífico, sequer orbital. Engano meu: orbital, sim, pode ser – e deve, deve ser esta a fixação de meu pai. Orbital em torno de uma idéia. Meu pai jamais foi marxista, aliás, nunca consegui saber quem influencia meu pai, ou com quem ele se identifica. Tantos meu pai leu! Deve ser ele um misturador de idéias e ideais. Da minha parte, sempre me deu mais prazer escrever e escrever e escrever, pelo simples especular. Perguntar. Observar. Orbitar! Mas sem saber em torno de que eixo...
Minhas tias gêmeas e meu avô lá fora se perguntam, mas afinal, o que ele escreve, um diário? Mais curioso ainda: ainda não perceberam que encontrei escritos e discursos e pautas musicais da terceira geração dos Dos Outros, que nasceu de Maria Cristina e Ricardo II, morto na guerra de Hitler e Mussolini.
Mais interessante ainda – e espero que meu pai não perceba – é que, momentaneamente, enquanto passo esse tempo aqui no Rio, roubei dele curiosas anotações. Procurei por elas em seu livro famoso e não as encontrei – quando muito, alguma coisa parecida, alguma idéia que ele desenvolveu desses rascunhos. Mas não deixa de ser interessante que possam se tornar realidade. A revolução pacífica, que transforme o Brasil não em um país igualitário e totalitário, mas inclusivo, do socialismo surgido do próprio capitalismo. Ou vice-versa? Posso muito bem usufruir do início da minha adolescência. Posso, aliás, inventar palavras, como adulescência, a essência da adulação adolescente. Regina Célia é puxa-saco – puxa, que decepção! Adulando o professor Henrique, de Português – e pelo telefone! Pan-babaca!
Meu pai, Ricardo V, escreveu assim, já faz bastante tempo:
Muito me admira a capacidade de alguns desses agricultores dessa terra seca e poeirenta a maior parte do tempo e encharcada durante o resto não só de arrancar o que seja do chão, seja milho ou pasto ou vegetação a lhes curar a dor de barriga, mas de conseguir vender e escoar a produção deles nessa cultura secularmente isolacionista, individualista, que usa tapa-olhos laterais e só enxerga a tela da televisão. Mais vai me admirar – e há de acontecer – quando essa gente arrancar dos olhos desses cavalos de carga humanos seus tapa-olhos. Só que suavemente, muito suavemente.
Escrevo essas notas para jogá-las fora depois, revoltado de perceber que me falta a competência de difundir o óbvio: as organizações não-governamentais explodem em resposta à incapacidade das governamentais e no entanto com os mesmos vícios de origem, de origem, de origem.
Muito me admira essa gente que arranca planta e pasto e comida da própria merda da terra. Não tenho a menor dúvida de que será essa gente a fazer a Revolução, que será pacífica, pois camponês de verdade jamais quis saber de arma alguma, a não ser a de fazer comer, e quando percebem o gosto de fazer os outros comerem, vendendo o que produzem, ora, da única arma que querem é a que fizer que vendam mais para trabalhar mais e vender mais.
Investimento no social: eis uma expressão idiota. Idiota porque está sempre na boca de idiotas. No dia em que for percebido e desejado que o investimento no desenvolvimento social seja igual a qualquer investimento, isto é, dinheiro para se ganhar mais dinheiro, aí sim. A inclusão social trará consumidores, produtores, mão de obra, criadores, artistas; mas não é a política profissional que a fará, como não serão ONGs, nem ideologias. Será a mentalidade de quem empreende, principalmente dos sem dentes na boca. Vai lhes cair a ficha!
Eu preciso me cuidar para não enlouquecer, como aconteceu com Maria Otávia. Amanhã, acordarei e escreverei tudo isso de novo de novo de novo, mas com outras palavras. No computador.
Brasil, 2005
- CAPÍTULO TRINTA –
O movimento orbital de um corpo celeste é uma revolução, como o de uma coisa qualquer em torno de um eixo. Por que será que meu pai imaginou uma revolução para o ano que vem? Em torno de que eixo? Que órbita será iniciada por esse movimento que ele imagina que será pacífico? E que tem que ser insurgente, pois, senão, não será uma revolução?
Contra o quê é fácil de se perceber.
Houve progressos consideráveis desde a última década do século passado. Toda e qualquer farsa, tenha vindo de que força que tenha sido - comunicações, poder público, tráfico, toda e qualquer farsa -, se assim não se revelou de imediato, assim foi logo desvendada, farsa como farsa que era e sempre foi desde a origem; fosse por outra das forças ou pela simples percepção que se consolidou do que seja e do que deixe de ser farsa.
Sublevação, rebelião, subversão, revolta, insurreição – nada disso é parecido com paz, movimento pacífico, sequer orbital. Engano meu: orbital, sim, pode ser – e deve, deve ser esta a fixação de meu pai. Orbital em torno de uma idéia. Meu pai jamais foi marxista, aliás, nunca consegui saber quem influencia meu pai, ou com quem ele se identifica. Tantos meu pai leu! Deve ser ele um misturador de idéias e ideais. Da minha parte, sempre me deu mais prazer escrever e escrever e escrever, pelo simples especular. Perguntar. Observar. Orbitar! Mas sem saber em torno de que eixo...
Minhas tias gêmeas e meu avô lá fora se perguntam, mas afinal, o que ele escreve, um diário? Mais curioso ainda: ainda não perceberam que encontrei escritos e discursos e pautas musicais da terceira geração dos Dos Outros, que nasceu de Maria Cristina e Ricardo II, morto na guerra de Hitler e Mussolini.
Mais interessante ainda – e espero que meu pai não perceba – é que, momentaneamente, enquanto passo esse tempo aqui no Rio, roubei dele curiosas anotações. Procurei por elas em seu livro famoso e não as encontrei – quando muito, alguma coisa parecida, alguma idéia que ele desenvolveu desses rascunhos. Mas não deixa de ser interessante que possam se tornar realidade. A revolução pacífica, que transforme o Brasil não em um país igualitário e totalitário, mas inclusivo, do socialismo surgido do próprio capitalismo. Ou vice-versa? Posso muito bem usufruir do início da minha adolescência. Posso, aliás, inventar palavras, como adulescência, a essência da adulação adolescente. Regina Célia é puxa-saco – puxa, que decepção! Adulando o professor Henrique, de Português – e pelo telefone! Pan-babaca!
Meu pai, Ricardo V, escreveu assim, já faz bastante tempo:
Muito me admira a capacidade de alguns desses agricultores dessa terra seca e poeirenta a maior parte do tempo e encharcada durante o resto não só de arrancar o que seja do chão, seja milho ou pasto ou vegetação a lhes curar a dor de barriga, mas de conseguir vender e escoar a produção deles nessa cultura secularmente isolacionista, individualista, que usa tapa-olhos laterais e só enxerga a tela da televisão. Mais vai me admirar – e há de acontecer – quando essa gente arrancar dos olhos desses cavalos de carga humanos seus tapa-olhos. Só que suavemente, muito suavemente.
Escrevo essas notas para jogá-las fora depois, revoltado de perceber que me falta a competência de difundir o óbvio: as organizações não-governamentais explodem em resposta à incapacidade das governamentais e no entanto com os mesmos vícios de origem, de origem, de origem.
Muito me admira essa gente que arranca planta e pasto e comida da própria merda da terra. Não tenho a menor dúvida de que será essa gente a fazer a Revolução, que será pacífica, pois camponês de verdade jamais quis saber de arma alguma, a não ser a de fazer comer, e quando percebem o gosto de fazer os outros comerem, vendendo o que produzem, ora, da única arma que querem é a que fizer que vendam mais para trabalhar mais e vender mais.
Investimento no social: eis uma expressão idiota. Idiota porque está sempre na boca de idiotas. No dia em que for percebido e desejado que o investimento no desenvolvimento social seja igual a qualquer investimento, isto é, dinheiro para se ganhar mais dinheiro, aí sim. A inclusão social trará consumidores, produtores, mão de obra, criadores, artistas; mas não é a política profissional que a fará, como não serão ONGs, nem ideologias. Será a mentalidade de quem empreende, principalmente dos sem dentes na boca. Vai lhes cair a ficha!
Eu preciso me cuidar para não enlouquecer, como aconteceu com Maria Otávia. Amanhã, acordarei e escreverei tudo isso de novo de novo de novo, mas com outras palavras. No computador.
10.11.2005
O SIM E O NÃO
Cronistas gostam dessas polêmicas: o assunto vem até eles espontaneamente, sem que seja necessário procurar por um dentre vários ou inventar um.
Curiosa discussão. Quem jamais pensou em comprar uma arma deve agora estar vivendo a aflição dos últimos dias: tem que ser agora, pois, após o dia 23, poderá estar impedido de adquirir uma arma legal (no sentido de dentro da lei – claro). É possível que quem já possui uma arma esteja formando um verdadeiro exército dentro de casa, também possuído pela mesma aflição dos últimos dias. É muito pouco provável que ações judiciais não sejam capazes de jogar por terra possível obrigação legal de se devolverem as armas que se tiver em casa depois da proibição do seu comércio; portanto, se você é um aflito dos últimos dias, não perca tempo: vá à loja mais próxima e arme-se. Por causa desses aflitos, é de se imaginar que o comércio de armas legais esteja faturando como nunca; mas pode ser que nunca mais possa faturar tanto, pois, após o dia 23, quem sabe seja obrigado a restringir suas vendas às forças armadas e outras atividades que permitem a posse e até o porte de armas.
Desarmar o cidadão não é a solução – diz a campanha do não. Claro que não. Entretanto, armar o cidadão – é a solução?
Há quem diga que proibir o comércio seja dar ao bandido a certeza de que você não tem arma em casa. Falso: a menos que ele faça rigorosa investigação prévia, não terá como saber se você comprou uma ou muitas antes do dia 23 ou se você não é da polícia ou do exército ou da marinha ou da aeronáutica ou fiscal da receita – e tanto pode ter como portar armas legais; ou do tráfico – caso em que comprar as ilegais é nada vexatório. A incerteza permanecerá, apenas e talvez, menor – o que poderá, inclusive, diminuir o apetite do bandido – o qual, segundo a campanha do sim, muitas vezes tem como alvo do seu furto exatamente armas.
Apregoam outros defensores do não que quem mora em lugar ermo tem que ter uma arma, para espantar ou mesmo matar um invasor indesejado. Mas, como saber se o invasor é de fato indesejado? E se você for um atlético e solitário valentão e o invasor da sua erma propriedade for uma invasora – Luma de Oliveira, com súbita e irresistível vontade de fazer xixi, com medo de abelhas e cansada de tocar a campainha da porteira do seu sítio, que você não ouviu, tão preocupado que está em ouvir invasores indesejados?
Outro argumento a favor do não: o rico pode contratar segurança armada, o pobre, não. Ora, mas se o pobre é pobre, quem vai querer assaltá-lo? E que dinheiro o pobre terá para comprar uma arma?
A grande covardia, como bem observou o irmão deste cronista internético, foi por no nosso colo a decisão. O Estado, além de incapaz de nos defender, deu uma de Pilatos: se vocês disserem sim, problema de vocês; se disserem não, também.
Não senhor. Dizendo sim, a população estará devolvendo ao Estado a responsabilidade que lhe cabe e é exclusiva – a de defendê-la. Definitivamente.O
Curiosa discussão. Quem jamais pensou em comprar uma arma deve agora estar vivendo a aflição dos últimos dias: tem que ser agora, pois, após o dia 23, poderá estar impedido de adquirir uma arma legal (no sentido de dentro da lei – claro). É possível que quem já possui uma arma esteja formando um verdadeiro exército dentro de casa, também possuído pela mesma aflição dos últimos dias. É muito pouco provável que ações judiciais não sejam capazes de jogar por terra possível obrigação legal de se devolverem as armas que se tiver em casa depois da proibição do seu comércio; portanto, se você é um aflito dos últimos dias, não perca tempo: vá à loja mais próxima e arme-se. Por causa desses aflitos, é de se imaginar que o comércio de armas legais esteja faturando como nunca; mas pode ser que nunca mais possa faturar tanto, pois, após o dia 23, quem sabe seja obrigado a restringir suas vendas às forças armadas e outras atividades que permitem a posse e até o porte de armas.
Desarmar o cidadão não é a solução – diz a campanha do não. Claro que não. Entretanto, armar o cidadão – é a solução?
Há quem diga que proibir o comércio seja dar ao bandido a certeza de que você não tem arma em casa. Falso: a menos que ele faça rigorosa investigação prévia, não terá como saber se você comprou uma ou muitas antes do dia 23 ou se você não é da polícia ou do exército ou da marinha ou da aeronáutica ou fiscal da receita – e tanto pode ter como portar armas legais; ou do tráfico – caso em que comprar as ilegais é nada vexatório. A incerteza permanecerá, apenas e talvez, menor – o que poderá, inclusive, diminuir o apetite do bandido – o qual, segundo a campanha do sim, muitas vezes tem como alvo do seu furto exatamente armas.
Apregoam outros defensores do não que quem mora em lugar ermo tem que ter uma arma, para espantar ou mesmo matar um invasor indesejado. Mas, como saber se o invasor é de fato indesejado? E se você for um atlético e solitário valentão e o invasor da sua erma propriedade for uma invasora – Luma de Oliveira, com súbita e irresistível vontade de fazer xixi, com medo de abelhas e cansada de tocar a campainha da porteira do seu sítio, que você não ouviu, tão preocupado que está em ouvir invasores indesejados?
Outro argumento a favor do não: o rico pode contratar segurança armada, o pobre, não. Ora, mas se o pobre é pobre, quem vai querer assaltá-lo? E que dinheiro o pobre terá para comprar uma arma?
A grande covardia, como bem observou o irmão deste cronista internético, foi por no nosso colo a decisão. O Estado, além de incapaz de nos defender, deu uma de Pilatos: se vocês disserem sim, problema de vocês; se disserem não, também.
Não senhor. Dizendo sim, a população estará devolvendo ao Estado a responsabilidade que lhe cabe e é exclusiva – a de defendê-la. Definitivamente.O
10.09.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E NOVE –
Era 2005. Hugo Chaves, presidente da Venezuela, com exemplar capacidade de comunicação e persuasão, defendia seu governo como democrático; salientava ter desenvolvido programa de medicina comunitária com auxílio de Cuba, e afirmava que cada favela venezuelana passara a contar com um médico residente; propunha uma aliança latino-americana muito mais ampla que o combalido Mercosul, com troca de investimentos entre os países; dizia-se um soldado, para sempre soldado, que vivia para a família, sem grandes ambições, até que um dia despertou para a pobreza da sua gente. Um político-pastor americano propôs publicamente seu assassinato pelo governo dos Estados Unidos, alegando ser Hugo Chaves um agente do terrorismo internacional. Hugo Chaves dizia com todas as letras que estava armando a população para defender o país de um provável ataque americano – pois, ao invés de rechaçar a proposta de assassinato daquele chefe de estado, Bush, presidente dos Estados Unidos, prestigiara o pastor-político, encarregando-o como um dos responsáveis pelo projeto de reconstrução de Nova Orleans.
No Brasil, poucos anos antes, no governo de Fernando Henrique Cardoso, em dado momento, todos comentavam que o homem com mais poder de Estado não era ele, mas sim um senador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães. Um publicamente desafeto de Antônio Carlos, senador pelo Pará, Jader Barbalho, passou a denunciar atos que tinha como pouco elegantes do seu colega baiano. E vice-versa. Fernando Henrique governou até o final do seu segundo mandato, final este já sem a presença dos dois senadores desafetos, que renunciaram, cada um por seus motivos, tidos por muitos como não muito elegantes.
Antes ainda, na primeira eleição direta para a presidência após a ditadura militar e o mandato civil de José Sarney, Fernando Collor tinha um homem forte em seu governo, chamado PC Farias. Uma desavença entre Fernando e seu irmão, Pedro Collor, que se disse prejudicado em negócios familiares de comunicações e iniciou uma série de denúncias de extorsões e corrupção, redundou por fazer cair o governante, por impeachment. Já no governo Lula, o homem forte foi, por bom tempo, José Dirceu. Ao chegarem ao noticiário denúncias de corrupção e extorsão comandadas dos escritórios do Correio Nacional, que envolviam diretamente um político com exemplar capacidade de comunicação e persuasão, chamado Roberto Jéferson, este não teve dúvidas: denunciou o “mensalão”, pago a vários deputados de diferentes partidos como condição para que votassem a favor dos projetos governistas. José Dirceu perdeu seu cargo no governo e Roberto Jéferson, seu mandato.
Ricardo Coração dos Outros IV, enquanto lia os primeiros rascunhos do que viria a ser o grande best-seller do seu filho, “A Revolução Brasileira de 2017”, publicado em 2009, revolução que, segundo o autor, aconteceria “pela influência da simbiose da fidalguia européia, da nobreza africana e da estirpe ameríndia na gênese da sua plebe e a involuntária conspiração de Newton e Gauss”, relembrava não só daqueles acontecimentos, então muito recentes, mas de outros que a história da humanidade tinha para contar, e comentou com as filhas gêmeas, Ricardina e Olga – esta, na companhia da pessoa com quem se casou, e Ricardina com o sobrinho Ricardo VI dormindo no seu colo, então com 3 anos:
- A descoberta mais importante do irmão de vocês não foi dele, mas de Newton: a sua Terceira Lei, ação e reação. A humanidade é isto: nada mais que isso.
As filhas e a pessoa com quem Olga se casou o olharam como quem nem concordava nem discordava; ainda não haviam lido os rascunhos do irmão e geralmente não prestavam atenção quando ele comentava qualquer coisa, quando vinha ao Rio. Ricardo IV concluiu, ao levantar-se com os papéis nas mãos e dirigir-se ao banheiro:
- A curva de Gauss vá lá, se aplica; mas faltou uma quarta dimensão: a arrogância. Que é gêmea da ignorância. Todo arrogante se defende da ignorância que lhe é própria. E os arrogantes caem por terra – assim disse o pai de Ricardo V e saiu e trancou-se no banheiro. Diria depois ter-se angustiado com as seguintes perguntas que se fez: “Chaves e Bush eram arrogantes? Ignorantes? Cairiam um dia derrotados por isso? E Lula – era arrogante? Teria sido arrogante quando discursou em Davos, na Suíça, para artistas como a Sharon Stone (atriz de cinema que ficara muito famosa por uma cruzada de pernas), falando em ‘um mundo mais justo, mais equânime’? Ou quando discursou na ONU, sobre a fome? Ou quando sempre e tanto faz da fome seu refrão? Ou quando afirmou que nenhum cidadão é mais ético que ele? Arrogante? Ignorante? Ou sincero?”.
Era Domingo de tarde. Ricardo IV foi ao espelho de cristal da sala envolto em seu roupão, tendo por baixo o pijama que usara na sesta e, perfilado, perguntou-se:
- Ricardo Coração dos Outros IV: sois um arrogante?
E retirou-se.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E NOVE –
Era 2005. Hugo Chaves, presidente da Venezuela, com exemplar capacidade de comunicação e persuasão, defendia seu governo como democrático; salientava ter desenvolvido programa de medicina comunitária com auxílio de Cuba, e afirmava que cada favela venezuelana passara a contar com um médico residente; propunha uma aliança latino-americana muito mais ampla que o combalido Mercosul, com troca de investimentos entre os países; dizia-se um soldado, para sempre soldado, que vivia para a família, sem grandes ambições, até que um dia despertou para a pobreza da sua gente. Um político-pastor americano propôs publicamente seu assassinato pelo governo dos Estados Unidos, alegando ser Hugo Chaves um agente do terrorismo internacional. Hugo Chaves dizia com todas as letras que estava armando a população para defender o país de um provável ataque americano – pois, ao invés de rechaçar a proposta de assassinato daquele chefe de estado, Bush, presidente dos Estados Unidos, prestigiara o pastor-político, encarregando-o como um dos responsáveis pelo projeto de reconstrução de Nova Orleans.
No Brasil, poucos anos antes, no governo de Fernando Henrique Cardoso, em dado momento, todos comentavam que o homem com mais poder de Estado não era ele, mas sim um senador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães. Um publicamente desafeto de Antônio Carlos, senador pelo Pará, Jader Barbalho, passou a denunciar atos que tinha como pouco elegantes do seu colega baiano. E vice-versa. Fernando Henrique governou até o final do seu segundo mandato, final este já sem a presença dos dois senadores desafetos, que renunciaram, cada um por seus motivos, tidos por muitos como não muito elegantes.
Antes ainda, na primeira eleição direta para a presidência após a ditadura militar e o mandato civil de José Sarney, Fernando Collor tinha um homem forte em seu governo, chamado PC Farias. Uma desavença entre Fernando e seu irmão, Pedro Collor, que se disse prejudicado em negócios familiares de comunicações e iniciou uma série de denúncias de extorsões e corrupção, redundou por fazer cair o governante, por impeachment. Já no governo Lula, o homem forte foi, por bom tempo, José Dirceu. Ao chegarem ao noticiário denúncias de corrupção e extorsão comandadas dos escritórios do Correio Nacional, que envolviam diretamente um político com exemplar capacidade de comunicação e persuasão, chamado Roberto Jéferson, este não teve dúvidas: denunciou o “mensalão”, pago a vários deputados de diferentes partidos como condição para que votassem a favor dos projetos governistas. José Dirceu perdeu seu cargo no governo e Roberto Jéferson, seu mandato.
Ricardo Coração dos Outros IV, enquanto lia os primeiros rascunhos do que viria a ser o grande best-seller do seu filho, “A Revolução Brasileira de 2017”, publicado em 2009, revolução que, segundo o autor, aconteceria “pela influência da simbiose da fidalguia européia, da nobreza africana e da estirpe ameríndia na gênese da sua plebe e a involuntária conspiração de Newton e Gauss”, relembrava não só daqueles acontecimentos, então muito recentes, mas de outros que a história da humanidade tinha para contar, e comentou com as filhas gêmeas, Ricardina e Olga – esta, na companhia da pessoa com quem se casou, e Ricardina com o sobrinho Ricardo VI dormindo no seu colo, então com 3 anos:
- A descoberta mais importante do irmão de vocês não foi dele, mas de Newton: a sua Terceira Lei, ação e reação. A humanidade é isto: nada mais que isso.
As filhas e a pessoa com quem Olga se casou o olharam como quem nem concordava nem discordava; ainda não haviam lido os rascunhos do irmão e geralmente não prestavam atenção quando ele comentava qualquer coisa, quando vinha ao Rio. Ricardo IV concluiu, ao levantar-se com os papéis nas mãos e dirigir-se ao banheiro:
- A curva de Gauss vá lá, se aplica; mas faltou uma quarta dimensão: a arrogância. Que é gêmea da ignorância. Todo arrogante se defende da ignorância que lhe é própria. E os arrogantes caem por terra – assim disse o pai de Ricardo V e saiu e trancou-se no banheiro. Diria depois ter-se angustiado com as seguintes perguntas que se fez: “Chaves e Bush eram arrogantes? Ignorantes? Cairiam um dia derrotados por isso? E Lula – era arrogante? Teria sido arrogante quando discursou em Davos, na Suíça, para artistas como a Sharon Stone (atriz de cinema que ficara muito famosa por uma cruzada de pernas), falando em ‘um mundo mais justo, mais equânime’? Ou quando discursou na ONU, sobre a fome? Ou quando sempre e tanto faz da fome seu refrão? Ou quando afirmou que nenhum cidadão é mais ético que ele? Arrogante? Ignorante? Ou sincero?”.
Era Domingo de tarde. Ricardo IV foi ao espelho de cristal da sala envolto em seu roupão, tendo por baixo o pijama que usara na sesta e, perfilado, perguntou-se:
- Ricardo Coração dos Outros IV: sois um arrogante?
E retirou-se.
10.05.2005
CIDADE ADULTA
Há Roma, de Fellini, cidade aberta, de Rosselini, como há Cidade oculta, com Carla Camurati - a São Paulo onde Fernando Pessoa toma ritmo e conteúdo especiais com Arrigo Barnabé: Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada. Haverá também para sempre Olha a pista chegando e vamos nós, com Tom Jobim.
Para quem não sabe, Florianópolis, em boa parte, é uma ilha açoriana cercada de restaurantes italianos por todos os lados.
Da sua porção insular, por trás dos prédios que ficam bisbilhotando o contorno dos morros continentais do lado de lá da baía e ouvindo a zoeira incessante de motos e automóveis ensandecidos na Avenida Beira Mar, há coisa-muito-boa à vista.
Pizza Mia.
Há muitos pingüins no lugar onde eles vivem; um deles será aquele a olhar nos olhos do estranho que vai parar por lá, a dar de cara com muitos pingüins que vivem na terra dos pingüins e percebe o olhar de um só deles, o pingüim afim, com afinidade no olhar com o olhar do estranho que chega por lá.
As pizzas do Pizza Mia são daquelas de massa fininha. A cobertura é sempre delicada, às vezes doce, outras, salgada, mais comumente salgada e doce ao mesmo tempo, e sempre leve, de bom gosto e gosto bom. Os vinhos, competentes, como o são as sobremesas. Quem serve é mais: bem educado; gentil; oportuno.
De uma tela de Modigliani, sai a flutuar no ambiente sua regente - cujo nome só será desvendado quando o artista que a inventou assim o quiser.
Para jamais esquecer que a vida há de ser feita de poesia, os banheiros do Pizza Mia ficam por trás e à esquerda de uma porta com escotilha e se distinguem um do outro por sutis e angelicais carinhas, que ocupam cada qual um dos quadrantes de respectivos quadrinhos com ares infantis. Como se fossem os morros do outro lado da baía entre a ilha e o continente, olhando por trás da escotilha à procura do pingüim afim, lá está um quadro que Modigliani gostaria muito de ter pintado, assinado por Karem, datado de 2005.
Vá lá - e veja e admire duas figuras femininas a deixar pingüins a ver navios; e homens e mulheres a ver o que há de belo e poesia.
Floripa, cidade adulta, teu nome é Pizza Mia.
Para quem não sabe, Florianópolis, em boa parte, é uma ilha açoriana cercada de restaurantes italianos por todos os lados.
Da sua porção insular, por trás dos prédios que ficam bisbilhotando o contorno dos morros continentais do lado de lá da baía e ouvindo a zoeira incessante de motos e automóveis ensandecidos na Avenida Beira Mar, há coisa-muito-boa à vista.
Pizza Mia.
Há muitos pingüins no lugar onde eles vivem; um deles será aquele a olhar nos olhos do estranho que vai parar por lá, a dar de cara com muitos pingüins que vivem na terra dos pingüins e percebe o olhar de um só deles, o pingüim afim, com afinidade no olhar com o olhar do estranho que chega por lá.
As pizzas do Pizza Mia são daquelas de massa fininha. A cobertura é sempre delicada, às vezes doce, outras, salgada, mais comumente salgada e doce ao mesmo tempo, e sempre leve, de bom gosto e gosto bom. Os vinhos, competentes, como o são as sobremesas. Quem serve é mais: bem educado; gentil; oportuno.
De uma tela de Modigliani, sai a flutuar no ambiente sua regente - cujo nome só será desvendado quando o artista que a inventou assim o quiser.
Para jamais esquecer que a vida há de ser feita de poesia, os banheiros do Pizza Mia ficam por trás e à esquerda de uma porta com escotilha e se distinguem um do outro por sutis e angelicais carinhas, que ocupam cada qual um dos quadrantes de respectivos quadrinhos com ares infantis. Como se fossem os morros do outro lado da baía entre a ilha e o continente, olhando por trás da escotilha à procura do pingüim afim, lá está um quadro que Modigliani gostaria muito de ter pintado, assinado por Karem, datado de 2005.
Vá lá - e veja e admire duas figuras femininas a deixar pingüins a ver navios; e homens e mulheres a ver o que há de belo e poesia.
Floripa, cidade adulta, teu nome é Pizza Mia.
10.02.2005
EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA
Meu caro Pasquali,Antes de mais nada, fiquei muito honrado com sua visita ao "Diário de um Mario", apelido do blog onde exponho opiniões e fantasias, o mariobenevides.blogspot.com. Propagandas à parte, transcrevo o que o Pasquali me escreveu:
"Mario,Concordemos com a sua posição ou não, é sempre bom discutir. Se esse referendo de nada adiantar para a questão das armas, pelo menos nos restará o exercício da democracia.Um abraço,Pasquali."
Como se vê, o Pasquali foi na mosca. Esse exercício da democracia nos levará a uma das seguintes situações: (a) A maioria se dirá contrária à proibição do comércio legal das armas. Neste caso, estará dizendo claramente que não considera o armamento oficial, o das forças do Estado, suficiente para nos defender; (b) No caso oposto, a maioria estará dizendo que está depositando nas mãos do Estado toda e qualquer perspectiva da defesa da sociedade contra a violência, auferindo ao Estado uma responsabilidade que, via de regra, este não assume.
Qualquer que seja a opção da maioria, o que estará e já está em cheque é a responsabilidade/capacidade do Estado, mantido por nós - o conjunto formado por maioria e minoria de opção - de nos defender. Este, sim, é o maior valor dessa discussão. Pouco importa seu resultado de sim ou não, mas sim a exposição de que não estamos nem um pouco à vontade no que se refere à nossa segurança; caso contrário, não estaríamos discutindo o assunto - discussão que nos há de levar a outras, mais profundas, das causas e como acabar com tanta violência no Brasil. Assim, palmas a quem abriu a discussão - que, salvo engano, foi o movimento chamado "Viva Rio" -; e obrigado ao Pasquali, por me ter dado a oportunidade de voltar ao assunto.
Abraços,
Mario Benevides.
"Mario,Concordemos com a sua posição ou não, é sempre bom discutir. Se esse referendo de nada adiantar para a questão das armas, pelo menos nos restará o exercício da democracia.Um abraço,Pasquali."
Como se vê, o Pasquali foi na mosca. Esse exercício da democracia nos levará a uma das seguintes situações: (a) A maioria se dirá contrária à proibição do comércio legal das armas. Neste caso, estará dizendo claramente que não considera o armamento oficial, o das forças do Estado, suficiente para nos defender; (b) No caso oposto, a maioria estará dizendo que está depositando nas mãos do Estado toda e qualquer perspectiva da defesa da sociedade contra a violência, auferindo ao Estado uma responsabilidade que, via de regra, este não assume.
Qualquer que seja a opção da maioria, o que estará e já está em cheque é a responsabilidade/capacidade do Estado, mantido por nós - o conjunto formado por maioria e minoria de opção - de nos defender. Este, sim, é o maior valor dessa discussão. Pouco importa seu resultado de sim ou não, mas sim a exposição de que não estamos nem um pouco à vontade no que se refere à nossa segurança; caso contrário, não estaríamos discutindo o assunto - discussão que nos há de levar a outras, mais profundas, das causas e como acabar com tanta violência no Brasil. Assim, palmas a quem abriu a discussão - que, salvo engano, foi o movimento chamado "Viva Rio" -; e obrigado ao Pasquali, por me ter dado a oportunidade de voltar ao assunto.
Abraços,
Mario Benevides.
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E OITO –
Ricardo II morreu na segunda guerra mundial. Resolveu que seria correspondente de guerra para desespero de Maria Cristina, com quem se casou depois que ela se arrependeu de ceder às pressões familiares para deixar o plebeu Coração dos Outros II e enamorar-se de um rico filho mais moço de um nobre e já ligeiramente velho amigo de Alfredo D\'Escragnolle (Visconde de) Taunay - com o qual o antepassado do ex-quase-noivo de Maria Cristina teria estado na “heróica retirada da Laguna”.
Da mesma forma que pode soar estranho que tenha sido heróica uma retirada, muito estranho era, para muitos, que Ricardo II e Maria Cristina se dessem tão bem, como deixou registrado o amigo dele do qual descende um conhecido Profissional de Comunicações e Reportagens desses nossos dias de 2020. Talvez, aliás, bastasse saber que Ricardo II deixou a viúva com dois filhos, Ricardo III e Ricardo Maria, e duas filhas, Ricardina Cristina e a poetisa, que morreria concretista, Olga Cristina Bastos Coração dos Outros – embora, é claro, filhos, ainda que em número significativo, nem sempre sejam sinal de amor verdadeiro. Mas o deles era.
Convém fazer logo outro registro de interrupção de trajetória visível a olhos meramente humanos: Olga e Ricardo Coração dos Outros, de cuja fuga do Rio de Janeiro dos tempos do Marechal de Ferro nasceria a dinastia da qual aqui livremente se fala e que participou de importantes e nem sempre heróicos episódios da história pátria, especialmente a Revolução de 2017, simplesmente desapareceram, sem deixar nenhum sinal que fosse, em mais um percurso de Cavalcante ao Rio – exatamente quando o objetivo da viagem era conhecer a nora, Maria Cristina. Deixaram em Cavalcante a única irmã de Ricardo II, Ricardina Olga Tavares e Silva, casada com o Coronel Eurípides Ovídio Tavares e Silva, que não foi a nenhuma guerra não por outro motivo que não fosse o de que seu título militar tenha sido obtido pela sua atividade de dono de mina de ouro – alguém que explorava não só minério, mas mão de obra também (tudo indica que com alguma correção pecuniária, mas com certo excesso de autoridade).
A atividade de exploração mineral ainda perduraria por muitos anos na região, para onde o fluxo de nortistas do Pará e nordestinos do Maranhão foi bastante intenso, até ainda depois da fundação de Minaçu, em 1976. Por exemplo, no centro mesmo de Cavalcante, havia uma mina que foi passando de mão em mão a cada vez que dava sinais de exaustão até idos já deste século XXI. O garimpo a base de mercúrio e bateia na beira dos rios e diferentes formas de mineração de algum modo legalmente constituídas conviveram por séculos, gerando um pouco de tudo que há na história humana: povoados, cidades, riqueza, pobreza, miséria, fidalguia, covardia, famílias, desavenças, disputas judiciais, matança de índios, abruptos desemprego e perda irrecuperável de renda, vida nômade, outras matanças, sangue - mais sangue, até, que ouro.
Porém, tal e qual nem toda riqueza vem do ouro – em sentido largo e estrito -, nem sempre foi o ouro que causou sangramento e desgraça na região.
Dentre algumas das anotações do falso antropólogo italiano, a serviço dos empregadores de Ricardo V a seguir e reportar seus passos, porque este desenvolvia na época suas primeiras idéias de uma revolução social pacífica, achou-se a seguinte:
“R V cismou de fazer caminhadas. Debaixo desse sol acachapante, o louco sai andando desde a casa dele, na Vila de Furnas, perto da esquina de Porto Colômbia com a Av Maranhão, até o centro da cidade, percorrendo a mesma Av M de ida e volta, numa distância total superior a 10 kM. Isso às 4 ou 5 da tarde, mama mia!, quando o sol ainda está fervendo e do chão de asfalto sai o bafo do demônio. Ainda bem que está terminando a estação seca, quando só se respira poeira quente e a gente nem precisa de cachaça pra sentir tonteira, porque seguir o camarada debaixo de muita água é desgraça um pouco menor que ficar debaixo desse sol daqui. Hoje dei sorte de pegar o moto-taxi certo, uma mocinha gostosinha de apertar na cintura e que respeita os quebra-mola, não é que nem uns doido que tem por aqui e ultrapassa os cruzamento sem nem olhar. Hoje, como estava chovendo, o maluco resolveu mudar o trajeto e ficar subindo e descendo a Porto Colômbia pra cima e pra baixo e fiquei que nem um idiota atrás dele, na garupa da motoca. Tá na cara que ele já sabe que eu estou na cola dele, mas não tenho o que fazer, os americano querem assim, depois invento umas bobagem e eles fica satisfeito. Vi umas meninada interessante saindo do colégio, valeu a maluquice diária. Os menino de chinelo de dedo, aqui não parece chinelo que a modelo famosa usa, é chinelo de dedo mesmo, nem dá pra chamar de flip-flop que nem os americano. As menina, que graça, fala umas palavra bonita e de repente uns ‘caralho!’, esses brasileiro parece italiano. Mas que pena: Sábado passado, de noite, já era quase Domingo, um meninote que reclamou que um outro tinha roubado o boné dele foi espancado pelos amigo do ladrão do boné na porta do baile onde eu estava, boa parte da cidade estava no baile. O rapazola que levou porrada foi em casa e voltou com uma faca de cozinha e, mama mia, tem um que ficou sem o braço e outro que perdeu os dedo e um terceiro foi a orelha esquerda que deixou ele. Pena que o quarto foi furado no fígado, morreu na hora, uma pena, tudo uns garoto, tudo com cara de anjo. Tem uns dois paisano na minha cola, já saquei, todos os dia.”.
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E OITO –
Ricardo II morreu na segunda guerra mundial. Resolveu que seria correspondente de guerra para desespero de Maria Cristina, com quem se casou depois que ela se arrependeu de ceder às pressões familiares para deixar o plebeu Coração dos Outros II e enamorar-se de um rico filho mais moço de um nobre e já ligeiramente velho amigo de Alfredo D\'Escragnolle (Visconde de) Taunay - com o qual o antepassado do ex-quase-noivo de Maria Cristina teria estado na “heróica retirada da Laguna”.
Da mesma forma que pode soar estranho que tenha sido heróica uma retirada, muito estranho era, para muitos, que Ricardo II e Maria Cristina se dessem tão bem, como deixou registrado o amigo dele do qual descende um conhecido Profissional de Comunicações e Reportagens desses nossos dias de 2020. Talvez, aliás, bastasse saber que Ricardo II deixou a viúva com dois filhos, Ricardo III e Ricardo Maria, e duas filhas, Ricardina Cristina e a poetisa, que morreria concretista, Olga Cristina Bastos Coração dos Outros – embora, é claro, filhos, ainda que em número significativo, nem sempre sejam sinal de amor verdadeiro. Mas o deles era.
Convém fazer logo outro registro de interrupção de trajetória visível a olhos meramente humanos: Olga e Ricardo Coração dos Outros, de cuja fuga do Rio de Janeiro dos tempos do Marechal de Ferro nasceria a dinastia da qual aqui livremente se fala e que participou de importantes e nem sempre heróicos episódios da história pátria, especialmente a Revolução de 2017, simplesmente desapareceram, sem deixar nenhum sinal que fosse, em mais um percurso de Cavalcante ao Rio – exatamente quando o objetivo da viagem era conhecer a nora, Maria Cristina. Deixaram em Cavalcante a única irmã de Ricardo II, Ricardina Olga Tavares e Silva, casada com o Coronel Eurípides Ovídio Tavares e Silva, que não foi a nenhuma guerra não por outro motivo que não fosse o de que seu título militar tenha sido obtido pela sua atividade de dono de mina de ouro – alguém que explorava não só minério, mas mão de obra também (tudo indica que com alguma correção pecuniária, mas com certo excesso de autoridade).
A atividade de exploração mineral ainda perduraria por muitos anos na região, para onde o fluxo de nortistas do Pará e nordestinos do Maranhão foi bastante intenso, até ainda depois da fundação de Minaçu, em 1976. Por exemplo, no centro mesmo de Cavalcante, havia uma mina que foi passando de mão em mão a cada vez que dava sinais de exaustão até idos já deste século XXI. O garimpo a base de mercúrio e bateia na beira dos rios e diferentes formas de mineração de algum modo legalmente constituídas conviveram por séculos, gerando um pouco de tudo que há na história humana: povoados, cidades, riqueza, pobreza, miséria, fidalguia, covardia, famílias, desavenças, disputas judiciais, matança de índios, abruptos desemprego e perda irrecuperável de renda, vida nômade, outras matanças, sangue - mais sangue, até, que ouro.
Porém, tal e qual nem toda riqueza vem do ouro – em sentido largo e estrito -, nem sempre foi o ouro que causou sangramento e desgraça na região.
Dentre algumas das anotações do falso antropólogo italiano, a serviço dos empregadores de Ricardo V a seguir e reportar seus passos, porque este desenvolvia na época suas primeiras idéias de uma revolução social pacífica, achou-se a seguinte:
“R V cismou de fazer caminhadas. Debaixo desse sol acachapante, o louco sai andando desde a casa dele, na Vila de Furnas, perto da esquina de Porto Colômbia com a Av Maranhão, até o centro da cidade, percorrendo a mesma Av M de ida e volta, numa distância total superior a 10 kM. Isso às 4 ou 5 da tarde, mama mia!, quando o sol ainda está fervendo e do chão de asfalto sai o bafo do demônio. Ainda bem que está terminando a estação seca, quando só se respira poeira quente e a gente nem precisa de cachaça pra sentir tonteira, porque seguir o camarada debaixo de muita água é desgraça um pouco menor que ficar debaixo desse sol daqui. Hoje dei sorte de pegar o moto-taxi certo, uma mocinha gostosinha de apertar na cintura e que respeita os quebra-mola, não é que nem uns doido que tem por aqui e ultrapassa os cruzamento sem nem olhar. Hoje, como estava chovendo, o maluco resolveu mudar o trajeto e ficar subindo e descendo a Porto Colômbia pra cima e pra baixo e fiquei que nem um idiota atrás dele, na garupa da motoca. Tá na cara que ele já sabe que eu estou na cola dele, mas não tenho o que fazer, os americano querem assim, depois invento umas bobagem e eles fica satisfeito. Vi umas meninada interessante saindo do colégio, valeu a maluquice diária. Os menino de chinelo de dedo, aqui não parece chinelo que a modelo famosa usa, é chinelo de dedo mesmo, nem dá pra chamar de flip-flop que nem os americano. As menina, que graça, fala umas palavra bonita e de repente uns ‘caralho!’, esses brasileiro parece italiano. Mas que pena: Sábado passado, de noite, já era quase Domingo, um meninote que reclamou que um outro tinha roubado o boné dele foi espancado pelos amigo do ladrão do boné na porta do baile onde eu estava, boa parte da cidade estava no baile. O rapazola que levou porrada foi em casa e voltou com uma faca de cozinha e, mama mia, tem um que ficou sem o braço e outro que perdeu os dedo e um terceiro foi a orelha esquerda que deixou ele. Pena que o quarto foi furado no fígado, morreu na hora, uma pena, tudo uns garoto, tudo com cara de anjo. Tem uns dois paisano na minha cola, já saquei, todos os dia.”.
9.27.2005
A PROIBIÇÃO DA VENDA DE ARMAS; UMA DISCUSSÃO EM TEMPO REAL
A discussão tem sua razão. Andam se matando por aí a troco de troco. Depois, ao entrar numa loja e pedir uma Parabelum, ninguém lhe perguntará se é com açúcar ou adoçante.
Você já passou pelo teste e afirmou: armas usadas pelos bandidos não são compradas na loja. Além disso, você já se viu no espelho a dizer que tem todo o direito de se defender e portanto portar uma arma. E mais. Você já repassou aos amigos a mensagem da Internet que alerta: - Atenção, você não terá arma em casa e seu vizinho também não e o bandido terá certeza disso e você estará indefeso e não poderá pedir socorro a ninguém, somente à polícia, que está mal armada e impotente. (Ou mal amada e impotente.)
Você não se conhece o suficiente e não comprará uma arma porque tem medo de ficar triste e resolver acabar com a tristeza com um tiro na própria testa ou na de quem você mais ama. Teme também que limpar a arma lhe dê uma mortal dor de cabeça. Você também conhece seu filho e sua filha e sabe muito bem que eles poderão brincar de bang-bang ou traficante-mirim e bang-bang, pronto, um dos dois foi ao chão com uma bala no coração ou na mão que chateação ter que ir ao hospital na hora do Fantástico.
Mas a proibição leva à contravenção - basta lembrar da Lei Seca, nos Estados Unidos de Al Capone; por outro lado, deixar como está poderá manter tudo como está ou incentivar a quem jamais pensou em comprar uma arma, a adquirir uma ou duas.
A quem interessar possa, vou continuar não tendo nem comprando armas e votarei pela proibição da sua venda, porque: (i) acho perigoso demais ter-se dentro de casa o risco da facilidade mortífera que uma arma de fogo proporciona; (ii) trancá-la a sete chaves é o mesmo que não possuí-la; (iii) o bandido sempre terá mais motivos e destreza que a vítima em usá-la, especialmente quando se sentir por ela ameaçado; (iv) gritar “socorro” aos vizinhos quando se está ameaçado por alguém armado, nos dias e no Brasil de hoje, me parece mais provável como auto-sentença de morte que real perspectiva de socorro; (v) sou otimista: caso vença a proibição, os fabricantes de armas as continuarão fabricando – só que exclusivamente para as forças armadas, e estas serão mais cobradas por uma sociedade desarmada; (vi) o argumento de que o referendo à proibição do comércio seja manobra para um golpe de estado, primeiramente desarmando a população e depois via associação com o tráfico, é esquecer que a história mostra que nenhum golpe de estado surgiu e prevaleceu sem amparo de significativa parcela da população, no mínimo em poder relativo na sociedade – e, por pior que esteja o crédito dos políticos, há claras demonstrações de que o que a maioria quer é aperfeiçoar a democracia e não jogá-la fora, além de não haver nenhum real poder ameaçado a ponto de se arriscar em aventura desse tipo. E, otimista que sou, ainda que o tráfico possa ter representantes dis-farc-çados no Congresso, não consigo imaginar nem esquerda nem direita brasileira, com efetiva representatividade, sócia do tráfico para alçar o poder à força.
Assim, com todo respeito a quem pensar diferente e sem nenhuma pretensão idiota de defender uma bandeira, se me perguntassem Vai um diet Colt aí?, minha resposta seria Não, obrigado.
Você já passou pelo teste e afirmou: armas usadas pelos bandidos não são compradas na loja. Além disso, você já se viu no espelho a dizer que tem todo o direito de se defender e portanto portar uma arma. E mais. Você já repassou aos amigos a mensagem da Internet que alerta: - Atenção, você não terá arma em casa e seu vizinho também não e o bandido terá certeza disso e você estará indefeso e não poderá pedir socorro a ninguém, somente à polícia, que está mal armada e impotente. (Ou mal amada e impotente.)
Você não se conhece o suficiente e não comprará uma arma porque tem medo de ficar triste e resolver acabar com a tristeza com um tiro na própria testa ou na de quem você mais ama. Teme também que limpar a arma lhe dê uma mortal dor de cabeça. Você também conhece seu filho e sua filha e sabe muito bem que eles poderão brincar de bang-bang ou traficante-mirim e bang-bang, pronto, um dos dois foi ao chão com uma bala no coração ou na mão que chateação ter que ir ao hospital na hora do Fantástico.
Mas a proibição leva à contravenção - basta lembrar da Lei Seca, nos Estados Unidos de Al Capone; por outro lado, deixar como está poderá manter tudo como está ou incentivar a quem jamais pensou em comprar uma arma, a adquirir uma ou duas.
A quem interessar possa, vou continuar não tendo nem comprando armas e votarei pela proibição da sua venda, porque: (i) acho perigoso demais ter-se dentro de casa o risco da facilidade mortífera que uma arma de fogo proporciona; (ii) trancá-la a sete chaves é o mesmo que não possuí-la; (iii) o bandido sempre terá mais motivos e destreza que a vítima em usá-la, especialmente quando se sentir por ela ameaçado; (iv) gritar “socorro” aos vizinhos quando se está ameaçado por alguém armado, nos dias e no Brasil de hoje, me parece mais provável como auto-sentença de morte que real perspectiva de socorro; (v) sou otimista: caso vença a proibição, os fabricantes de armas as continuarão fabricando – só que exclusivamente para as forças armadas, e estas serão mais cobradas por uma sociedade desarmada; (vi) o argumento de que o referendo à proibição do comércio seja manobra para um golpe de estado, primeiramente desarmando a população e depois via associação com o tráfico, é esquecer que a história mostra que nenhum golpe de estado surgiu e prevaleceu sem amparo de significativa parcela da população, no mínimo em poder relativo na sociedade – e, por pior que esteja o crédito dos políticos, há claras demonstrações de que o que a maioria quer é aperfeiçoar a democracia e não jogá-la fora, além de não haver nenhum real poder ameaçado a ponto de se arriscar em aventura desse tipo. E, otimista que sou, ainda que o tráfico possa ter representantes dis-farc-çados no Congresso, não consigo imaginar nem esquerda nem direita brasileira, com efetiva representatividade, sócia do tráfico para alçar o poder à força.
Assim, com todo respeito a quem pensar diferente e sem nenhuma pretensão idiota de defender uma bandeira, se me perguntassem Vai um diet Colt aí?, minha resposta seria Não, obrigado.
9.24.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASILQUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADVINHOU
ROMANCE INÉDITO DE MARIO BENEVIDES
BRASIL, 2005
- CAPÍTULO VINTE E SETE –
Mamãe, mamãe! Papai, papai! A Coluna passou por aqui! A Coluna Prestes passou em Cavalcante!
Ricardo VI estava com dez anos (era 2013). Cavalcante, àquela altura, já contava com boa parte da sua população formada por europeus e americanos, que para lá haviam se mudado para abrir pousadas e outras formas de comércio de turismo ecológico. A terra mais valiosa era, agora, a NÃO agricultável - que não tivesse sido preparada para pastagem ou cultivo e que guardasse o que não existia mais em outros lugares: pedra e mata virgem. Ainda assim, era grande ainda a distorção social no município.
No começo do século XXI, quando Ricardo V estava iniciando seus escritos que terminaram por prever a Revolução de Mentalidade de 2017, Cavalcante detinha o segundo índice de desenvolvimento humano do Estado de Goiás – isto é: o segundo pior. Não era muito diferente em 2013. Município de área muito grande, com a maior comunidade quilombola do Brasil – os Kalungas -, e dez mil habitantes, Cavalcante possuía, em 2005, o privilégio de uma proporção de habitantes por quilômetro quadrado muito mais favorável que São Paulo e outras capitais; também por isso, já naquele tempo, começou um fluxo migratório interessante de grandes cidades brasileiras e estrangeiras, aumentando o contraste de traços de cultura, origem e condições sócio-econômicas.
Freudianamente, é comum homens se envolverem com mulheres que, de algum modo, se parecem com suas mães. Maria Otávia, ex-namorada de Ricardo V, cujo apelido era Opinião Pública, morta prematuramente, obcecava-se por uma determinada idéia e a repetia e repetia e repetia. Em 2005, Ricardo V, já casado com a americana Rita e morando na cidade vizinha a Cavalcante, Minaçu, Sérgia estava obcecada em demonstrar que as diferenças sociais do Brasil independiam da situação econômica ou política. Fosse em palestras, chás beneficentes ou almoços, Sérgia insistia:
- De JK a Lula, passando pelos militares, Collor e FHC, com ou sem inflação, com ditadura ou democracia, crescimento ou recessão, estatização ou privatização, de cada cem moedas produzidas no Brasil, dez porcento da população ficam com quarenta das cem moedas. O resto – os outros noventa porcento – ficam com o resto: sessenta moedas são repartidas por noventa, enquanto quarenta, pelos dez mais ricos.
O panorama, como se sabe, só mudaria há três anos, em 2017.
Em 2013, a obsessão do filho de Ricardo V e Rita era a Coluna Prestes – isso porque seu pai dissera a ele que o trisavô de Ricardo VI, Ricardo Coração dos Outros II, participara da longa e emblemática caminhada liderada pelo Cavaleiro da Esperança – como ficaria para sempre conhecido Luís Carlos Prestes.
Pois em 2005, a obsessão de Ricardo V era Cavalcante, para desvendar o passado dos trisavós dele, Ricardo V, que haviam iniciado aquela plebéia dinastia: Olga e Ricardo Coração dos Outros – no que era muito incentivado por Rita, entusiasmada com o clima mais ameno que Minaçu e especialmente pela paisagem. A Chapada dos Veadeiros é das mais deslumbrantes paisagens que podem existir – Rita afirma até hoje, e tenta explicar porque:
- As montanhas de pedra cercam as cidades, as trilhas, os povoados pobres que moram em casas de adobe e sapê, os bichos que correm na frente do carro quando a gente está vindo pra cá, veados, onças, cobras, siriemas...
Quando, no começo deste Século XXI, Rita ainda trazia Ricardo VI no ventre e voltavam pela primeira vez de uma viagem a Cavalcante, a camionete derrapando e pulando na estrada de terra, Rita teve um pequeno sangramento e temeu perder o filho em formação na sua barriga; Rita, que apesar de descendente de espanhóis e franceses, não era católica, nem tinha qualquer outra religião, ali, naquele momento, mirando a chapada, desandou a rezar "Holy Mary" e "Our Father" sem parar.
Era disso que Rita se lembrava quando, em 2013, Ricardo VI, com dez anos, chegou correndo à mesa onde estavam com um casal seu conterrâneo, dono de uma pousada, dizendo Mamãe, mamãe, papai, papai, a Coluna passou por aqui, a Coluna Prestes passou em Cavalcante. Depois, foram até uma das muitas cachoeiras, a pé, molhar os corpos e sacudir os cabelos.
9.19.2005
DA ATLÂNTIDA E DE TAPETES
Estive em Nova Orleans em 1987, no Mardi Gras – a terça-feira gorda, o carnaval em ritmo de jazz. Mais que do jazz carnavalesco, me ficou na lembrança uma orquestra de músicos velhinhos, bacaninhas, de gravatas borboleta, tocando o Dixieland Jazz. A alegre sucessão de bares e mais bares sempre com músicos tocando maravilhosamente; a Bourbon Street, de tantas canções, como a do Sting, que lembra uma outra, Falling Leaves, gravada imortalmente por Net King Cole; a comida criolla, o French Quarter, o rio Mississipi, as casas sem muro na frente – tudo isso trago para sempre guardado no porta-retrato da minha memória mais afetiva. Turista deslumbrado com aquela musicalidade, com a mistura de cores, raças e culturas, a história sofrida dos escravos das plantações de algodão me era passado; não conheci o lado pobre da cidade – que apareceu agora, paradoxalmente, com o seu desaparecimento, tão triste, como se já não fosse tristeza bastante a pobreza em si.
Naquele carnaval, um americano, ex-mariner, quando soube que éramos brasileiros (eu e meu irmão), fez questão de nos dizer: “Já estive em Trinidad Tobago”. O mapa dele deve ser o mesmo do atual presidente americano e daquele outro, que confundiu o Brasil com a Bolívia. Não deixa de ser preocupante perceber que esse sistema de coordenadas deles poderá, em dado instante, nos transformar em imensa Venezuela de seu desafeto Hugo Chaves - principalmente se este tornar assíduo de jantares com nosso principal executivo.
A boa notícia é que a Coréia desistiu do seu programa nuclear. A má notícia é que a mudança de postura foi decorrente de uma negociação com o governo Bush. A notícia oficial é que ela se deu porque a Coréia está precisando de ajuda do Ocidente. Bem que a tática pode valer de sugestão para a Venezuela – perdão - para o Brasil: nossos governantes deveriam iniciar um projeto de bomba nuclear e continuá-lo até que incomodasse nosso Grande Irmão nortista; quando isso acontecesse, o Haiti – perdão – o Brasil estaria em condições de barganhar alguma coisa, como o tal assento no Conselho de Segurança da ONU – desde que, é claro, Severino nele se sentasse, já que tudo indica que ele ficará sem emprego, e nosso executivo-mor não admitirá que um brasileiro fique sem emprego – já que presidentes só admitem que muitos brasileiros fiquem sem emprego, porque aí vira mera questão estatística.
Voltando à Atlântida de nossos dias, há que se torcer para que os arquitetos da sua reconstrução fiquem longe de Bush e Dick Cheney. Essa gente não foi capaz de prestar socorro, como não será capaz de reconstruir uma cidade tão delicada, habitada por negros e brancos de todas as idades tocando todos os sopros e cordas, ainda que escondesse debaixo do tapete a pobreza e a exploração de outras formas de pobreza. Bush e companhia vão faturar a reconstrução de Nova Orleans, como pretendem fazer com Bagdá e seus tapetes um dia voadores – é o inevitável. Mas que seu imenso mau gosto não se manifeste.
Quanto a nós, do país de Severino, personificação do ticket-refeição, é claro que não esquecemos seu nome: aqui é o mesmo Brasil de sempre, onde se tocam também tantos sopros e tantas cordas, mas com uma fundamental diferença: o tapete é curto.
Cada vez mais curto.
Naquele carnaval, um americano, ex-mariner, quando soube que éramos brasileiros (eu e meu irmão), fez questão de nos dizer: “Já estive em Trinidad Tobago”. O mapa dele deve ser o mesmo do atual presidente americano e daquele outro, que confundiu o Brasil com a Bolívia. Não deixa de ser preocupante perceber que esse sistema de coordenadas deles poderá, em dado instante, nos transformar em imensa Venezuela de seu desafeto Hugo Chaves - principalmente se este tornar assíduo de jantares com nosso principal executivo.
A boa notícia é que a Coréia desistiu do seu programa nuclear. A má notícia é que a mudança de postura foi decorrente de uma negociação com o governo Bush. A notícia oficial é que ela se deu porque a Coréia está precisando de ajuda do Ocidente. Bem que a tática pode valer de sugestão para a Venezuela – perdão - para o Brasil: nossos governantes deveriam iniciar um projeto de bomba nuclear e continuá-lo até que incomodasse nosso Grande Irmão nortista; quando isso acontecesse, o Haiti – perdão – o Brasil estaria em condições de barganhar alguma coisa, como o tal assento no Conselho de Segurança da ONU – desde que, é claro, Severino nele se sentasse, já que tudo indica que ele ficará sem emprego, e nosso executivo-mor não admitirá que um brasileiro fique sem emprego – já que presidentes só admitem que muitos brasileiros fiquem sem emprego, porque aí vira mera questão estatística.
Voltando à Atlântida de nossos dias, há que se torcer para que os arquitetos da sua reconstrução fiquem longe de Bush e Dick Cheney. Essa gente não foi capaz de prestar socorro, como não será capaz de reconstruir uma cidade tão delicada, habitada por negros e brancos de todas as idades tocando todos os sopros e cordas, ainda que escondesse debaixo do tapete a pobreza e a exploração de outras formas de pobreza. Bush e companhia vão faturar a reconstrução de Nova Orleans, como pretendem fazer com Bagdá e seus tapetes um dia voadores – é o inevitável. Mas que seu imenso mau gosto não se manifeste.
Quanto a nós, do país de Severino, personificação do ticket-refeição, é claro que não esquecemos seu nome: aqui é o mesmo Brasil de sempre, onde se tocam também tantos sopros e tantas cordas, mas com uma fundamental diferença: o tapete é curto.
Cada vez mais curto.
9.16.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E SEIS -
Contou-nos um PCR que um trisavô seu, jornalista (como se chamou a profissão de Profissional de Comunicação e Reportagens durante muitos anos), passou de geração a geração um desabafo que ouviu de Ricardo Coração dos Outros II na Bolívia, onde a Coluna Prestes, à qual se engajara, encerrara sua invicta (ainda que não propriamente vitoriosa) caminhada de 25 mil quilômetros:
- Fui idiota de largar a roça, onde o aperto de mão tem na pureza e na sinceridade o mesmo peso e a mesma pega da rugosidade dos calos feitos na lida permanente com a terra sedenta ou encharcada, para me enfeitiçar pela capital, onde o aperto de mão tem a leveza da imunda falsidade e da débil futilidade; mas recuperei-me e vinguei meu pai: se ele entrou na guerra do lado dos opressores, tive a honra de seguir o Cavaleiro da Esperança e o general Miguel Costa contra Artur Bernardes e sua Lei Infame e a opressão da roça e da cidade. Mas fui mais idiota ainda e mais enfeitiçado ainda pela futilidade personificada chamada Maria Cristina. E ainda sou. Sim senhor, aquela senhorinha de nariz que não pode tomar chuva sob o risco de matá-la afogada em sua própria imbecilmente suposta superioridade sobre todas as coisas e os mortais, principalmente os plebeus e mestiços, como eu, me enfeitiçou, e parece que para sempre. Que idiota eu sou!
E se, muitos anos depois, Ricardo V se sentia um idiota por se perceber seguido por quatro idiotas, dois mandados dos Estados Unidos e dois pelo Tenente, anos depois ainda Ricardo IV, seu pai, diria de si a mesma coisa ao neto, Ricardo VI:
- Sou um idiota a misturar idealismo com negócios, coisas que não se misturam, e desandei a misturar uisque com hepta-endorfina, para ver se era possível o impossível, misturar o que não se mistura, como água e óleo, como costumava dizer meu avô. Às favas com os negócios ou com o idealismo, porra! Desculpe, meu neto, desculpe.
O mesmo Ricardo VI, ainda menino, uma noite, ouviu a avó, Sérgia, medindo-se com a mãe dele, Rita, no mesmo quesito, na sala de visitas da avó, no Rio de Janeiro, já havia muito não mais capital federal como no tempo de seu trisavô, Ricardo II:
- Idiota sou eu. Ora, você deixou seu país movida por um ideal, uma pesquisa científica.
- Que não deu em nada.
- Não por culpa sua.
- Sim, por culpa meu, culpa minha, porque fiquei comovida com a história dos avá-canoeiros sem possibilidade de cruzamento, quer dizer, casamento, procriamento, quer dizer, procriaçau, e pesquisadora não pode ficar comovida, tem que pesquisar e estudar e entender e escrever, e eu não escrevi, não escrevi nada.
- Mas seu marido escreve e você o ajuda, não é?
- Mas me anulei, sou mãe e pronto. Rita ficou em silêncio, refletindo um pouco, e disse, depois:
- Mas eu gosto de ser mãe e mulher, mulher de seu filho. Me faz bem.
- Mesmo morando numa cidade como Minaçu, sem recursos, provinciana?
- Cidades americanas são quase sempre provincianas, não faz mal. A não ser as grandes, que eu não gosto. Recursos, quer dizer, cultura, hospital, remédio, a gente arruma viajando e a gente pode viajar sempre, a toda hora, não é problema.
Depois de outra pausa, Rita voltou ao assunto, como quem havia provado alguma coisa à sogra:
- Viu como a idiota sou eu? Sérgia inspirou profundamente e respondeu:
- Minha filha, ninguém é mais idiota que eu, me escondendo atrás de um disfarce babaca e cretino de culta e educada e refinada e politizada. Sabe do que eu gosto, mesmo? Eu gosto é de...
- Não precisa dizer. Eu também gosto. Todo mundo gosta.
E aí riram um pouco das suas idiotices.
Já Dona Luzia, reassentada por uma das hidrelétricas que superou a praga da cultura da dependência e da subsistência e plantou e planta de tudo e se alimenta e se veste e pagou os estudos dos netos do que produziu e produz, e que hoje caminha em torno da plantação dando instruções e depois senta-se em uma velha cadeira de balanço e repete que quem crama da vida é porque não trabaia e desanda a contar como foi sua participação na Revolução de 2017, de vez em quando lembra do que ouvia de vizinhos, o que eles assistiam numa televisão não sabia de quem, isso no tempo em que a tv mostrava o presidente fazendo um discurso por dia, um dia para operários, outro para camponeses, outro ainda para fazendeiros, às vezes para assembléias de nações ou artistas de Hollywood ou da tv, até para estudantes e também para empresários ou então bispos ou domésticas ou donas de casa, ou quando as notícias eram pré-fabricadas para satisfazer ditadores ou interesses, e pensava, Deus, quanta idiotice.
- CAPÍTULO VINTE E SEIS -
Contou-nos um PCR que um trisavô seu, jornalista (como se chamou a profissão de Profissional de Comunicação e Reportagens durante muitos anos), passou de geração a geração um desabafo que ouviu de Ricardo Coração dos Outros II na Bolívia, onde a Coluna Prestes, à qual se engajara, encerrara sua invicta (ainda que não propriamente vitoriosa) caminhada de 25 mil quilômetros:
- Fui idiota de largar a roça, onde o aperto de mão tem na pureza e na sinceridade o mesmo peso e a mesma pega da rugosidade dos calos feitos na lida permanente com a terra sedenta ou encharcada, para me enfeitiçar pela capital, onde o aperto de mão tem a leveza da imunda falsidade e da débil futilidade; mas recuperei-me e vinguei meu pai: se ele entrou na guerra do lado dos opressores, tive a honra de seguir o Cavaleiro da Esperança e o general Miguel Costa contra Artur Bernardes e sua Lei Infame e a opressão da roça e da cidade. Mas fui mais idiota ainda e mais enfeitiçado ainda pela futilidade personificada chamada Maria Cristina. E ainda sou. Sim senhor, aquela senhorinha de nariz que não pode tomar chuva sob o risco de matá-la afogada em sua própria imbecilmente suposta superioridade sobre todas as coisas e os mortais, principalmente os plebeus e mestiços, como eu, me enfeitiçou, e parece que para sempre. Que idiota eu sou!
E se, muitos anos depois, Ricardo V se sentia um idiota por se perceber seguido por quatro idiotas, dois mandados dos Estados Unidos e dois pelo Tenente, anos depois ainda Ricardo IV, seu pai, diria de si a mesma coisa ao neto, Ricardo VI:
- Sou um idiota a misturar idealismo com negócios, coisas que não se misturam, e desandei a misturar uisque com hepta-endorfina, para ver se era possível o impossível, misturar o que não se mistura, como água e óleo, como costumava dizer meu avô. Às favas com os negócios ou com o idealismo, porra! Desculpe, meu neto, desculpe.
O mesmo Ricardo VI, ainda menino, uma noite, ouviu a avó, Sérgia, medindo-se com a mãe dele, Rita, no mesmo quesito, na sala de visitas da avó, no Rio de Janeiro, já havia muito não mais capital federal como no tempo de seu trisavô, Ricardo II:
- Idiota sou eu. Ora, você deixou seu país movida por um ideal, uma pesquisa científica.
- Que não deu em nada.
- Não por culpa sua.
- Sim, por culpa meu, culpa minha, porque fiquei comovida com a história dos avá-canoeiros sem possibilidade de cruzamento, quer dizer, casamento, procriamento, quer dizer, procriaçau, e pesquisadora não pode ficar comovida, tem que pesquisar e estudar e entender e escrever, e eu não escrevi, não escrevi nada.
- Mas seu marido escreve e você o ajuda, não é?
- Mas me anulei, sou mãe e pronto. Rita ficou em silêncio, refletindo um pouco, e disse, depois:
- Mas eu gosto de ser mãe e mulher, mulher de seu filho. Me faz bem.
- Mesmo morando numa cidade como Minaçu, sem recursos, provinciana?
- Cidades americanas são quase sempre provincianas, não faz mal. A não ser as grandes, que eu não gosto. Recursos, quer dizer, cultura, hospital, remédio, a gente arruma viajando e a gente pode viajar sempre, a toda hora, não é problema.
Depois de outra pausa, Rita voltou ao assunto, como quem havia provado alguma coisa à sogra:
- Viu como a idiota sou eu? Sérgia inspirou profundamente e respondeu:
- Minha filha, ninguém é mais idiota que eu, me escondendo atrás de um disfarce babaca e cretino de culta e educada e refinada e politizada. Sabe do que eu gosto, mesmo? Eu gosto é de...
- Não precisa dizer. Eu também gosto. Todo mundo gosta.
E aí riram um pouco das suas idiotices.
Já Dona Luzia, reassentada por uma das hidrelétricas que superou a praga da cultura da dependência e da subsistência e plantou e planta de tudo e se alimenta e se veste e pagou os estudos dos netos do que produziu e produz, e que hoje caminha em torno da plantação dando instruções e depois senta-se em uma velha cadeira de balanço e repete que quem crama da vida é porque não trabaia e desanda a contar como foi sua participação na Revolução de 2017, de vez em quando lembra do que ouvia de vizinhos, o que eles assistiam numa televisão não sabia de quem, isso no tempo em que a tv mostrava o presidente fazendo um discurso por dia, um dia para operários, outro para camponeses, outro ainda para fazendeiros, às vezes para assembléias de nações ou artistas de Hollywood ou da tv, até para estudantes e também para empresários ou então bispos ou domésticas ou donas de casa, ou quando as notícias eram pré-fabricadas para satisfazer ditadores ou interesses, e pensava, Deus, quanta idiotice.
9.12.2005
AS MATEMÁTICAS
Matemática não é uma só.
Matemática é matéria complicada para muita gente, especialmente quando quem ensinou era muito complicado.
Matemática, quando é financeira, bota complicado nisso: deixa de ser ciência exata e se torna fixação, insônia ou, ainda, a soma inexata das duas coisas.
Bom mesmo é quando a Matemática é coisa simples, aritmética, e não matéria complicada; quando nem matéria é. Exemplos:
Dois mais dois igual a quatro - ninguém seria superficial e tosco a ponto de dizer “isso é Descartes”. Mas que tem vontade, tem;
Um sobre zero tende a infinito e um sobre infinito tende a zero: ciência política;
A quarta dimensão é Freud. A quinta, Jung;
Espaço enésimo? Freqüente aí uma mesa de bar por volta das duas da manhã e depois nos conte;
Tábua logarítmica: o mesmo que Latim;
Multiplicar por menos um é muito utilizado por quem usou o cheque especial uma única vez e não consegue entender porque foi que passou a usar para sempre;
Raiz quadrada: (1) jamais fique embaixo de um radical; (2) o resultado é mais ou menos.
E assim fica demonstrado o corolário de que, em tempos em que a descoberta é de escândalos políticos em série de Fourier, deve-se, com todo e devido respeito ao seu criador e sua admirável “transformada”, transformá-la em resultado que fique na nossa memória para sempre, em todas as eleições. E delas, jamais abrir mão.
Nem das Matemáticas.
Matemática é matéria complicada para muita gente, especialmente quando quem ensinou era muito complicado.
Matemática, quando é financeira, bota complicado nisso: deixa de ser ciência exata e se torna fixação, insônia ou, ainda, a soma inexata das duas coisas.
Bom mesmo é quando a Matemática é coisa simples, aritmética, e não matéria complicada; quando nem matéria é. Exemplos:
Dois mais dois igual a quatro - ninguém seria superficial e tosco a ponto de dizer “isso é Descartes”. Mas que tem vontade, tem;
Um sobre zero tende a infinito e um sobre infinito tende a zero: ciência política;
A quarta dimensão é Freud. A quinta, Jung;
Espaço enésimo? Freqüente aí uma mesa de bar por volta das duas da manhã e depois nos conte;
Tábua logarítmica: o mesmo que Latim;
Multiplicar por menos um é muito utilizado por quem usou o cheque especial uma única vez e não consegue entender porque foi que passou a usar para sempre;
Raiz quadrada: (1) jamais fique embaixo de um radical; (2) o resultado é mais ou menos.
E assim fica demonstrado o corolário de que, em tempos em que a descoberta é de escândalos políticos em série de Fourier, deve-se, com todo e devido respeito ao seu criador e sua admirável “transformada”, transformá-la em resultado que fique na nossa memória para sempre, em todas as eleições. E delas, jamais abrir mão.
Nem das Matemáticas.
9.10.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E CINCO -
Porca miséria. Onde foi que eu deixei o maldito diário, com as anotações daquele Preston e as minhas? E agora? Vá, é preciso começar tudo de novo, lembrar do que estava lá, anotado pelo desgraçado do americano e por este imbecil, aqui.
Giulio – o falso Doutor Vincenzo Scarpini - saiu pela Avenida Maranhão e entrou na primeira papelaria que encontrou. Não percebeu, mas, atrás dele, estava um policial fardado, que escutou o forte sotaque italiano encomendando um caderno. O Tenente afastou-se e atravessou a rua. Quando Giulio saiu, sem que percebesse, foi discretamente seguido. Giulio estava hospedado em um hotel chamado Cadoro. O Tenente telefonou do seu celular para Ricardo Coração dos Outros V:
- O senhor me disse que o diário que eu emprestei pro senhor traduzir pra mim estava em que línguas, mesmo?
- Inglês e italiano.
- Gostaria de ir à sua casa agora, pode ser?
Ricardo estava escrevendo e teve vontade de dizer que não; mas logo lhe ocorreu que o assunto deveria ser sobre o diário encontrado no La Ventana pelo Tenente. Respondeu que sim, escreveu mais um pouco e foi para a sala, aguardar pelo Tenente, enquanto Rita passeava pela cercanias rurais da cidade com o filho, Ricardo VI. O Tenente desligou e, em seguida, deu uma ordem, ainda pelo celular:
- Figueiredo, você venha à paisana até o Cadoro e se apresente ao gerente como fiscal de qualquer coisa. Inventa o que você quiser, monta uma carteira daquelas padronizadas, mas venha à paisana e rápido. Peça o livro de contas do hotel e depois o de hóspedes. Nesse de hóspedes, pegue e anote o nome e o apartamento de um italiano. É, um italiano, só sabemos disso, por enquanto. Anote também a data em que ele se hospedou, positivo? E aí fique de plantão no saguão do hotel, peça para ver todos os livros de controle, ganhe tempo, mas fique, para ver se o italiano deixa o quarto dele; se ele sair do hotel, siga o elemento, positivo? Seja criativo, mas não faz besteira, combinado?
Na sala de Ricardo V, o diálogo deu-se mais ou menos assim:
- O diário tem uma primeira parte com anotações em Inglês, descrevendo meus movimentos pela cidade – disse Ricardo.
- O senhor fez alguma coisa de errado? Tá devendo dinheiro, ou coisa parecida?
- Não. Apenas escrevo textos para uma universidade americana e também um livro.
O Tenente ficou em silêncio, mexendo a colher na xícara do cafezinho que lhe fora servido por Lindalva, a empregada loura da casa. Depois perguntou a Ricardo:
- Seus escritos falam de quê?
Ricardo mentiu:
- Sobre possibilidades de turismo no cerrado.
- Ah, que interessante. Mas isso não é motivo para ser seguido, não é, doutor?
- Não.
- E o que foi que o italiano escreveu, na parte dele do diário?
- A mesma coisa: está seguindo meus passos - respondeu. O Tenente disse:
- Pode deixar, doutor. Do americano eu não sei, pode ser que tenha alguma coisa a ver com aquele camarada que ficou falado por aqui, na época que o senhor e Dona Rita vieram pra cá. Mas esse italiano já está na minha mira.
- Tenente, se o senhor puder fazer o favor de não... Quer dizer, de não deixar esse italiano ser molestado e depois arranjar um jeito da gente conversar com ele...
- Esse é o meu trabalho. O senhor pode voltar pro seus escritos.
O Tenente despediu-se e, depois de telefonar para seu subordinado Figueiredo, deu outro telefonema do celular:
- Pedrosa, a partir de hoje, você deixa a farda em casa e cola no Senhor Ricardo. Aquele com jeito meio maluco, casado com a americana, Dona Rita. Sabe quem é? Isso mesmo: Ricardo não-sei-o-quê quinto. Pode vir agora e passa a rondar a casa do elemento, positivo? Tem que ser discreto. Eu sei: esse é o teu trabalho. Mas toma nota, presta atenção em tudo e vai me informando, tá me entendendo?
Pedrosa respondeu que sim.
- CAPÍTULO VINTE E CINCO -
Porca miséria. Onde foi que eu deixei o maldito diário, com as anotações daquele Preston e as minhas? E agora? Vá, é preciso começar tudo de novo, lembrar do que estava lá, anotado pelo desgraçado do americano e por este imbecil, aqui.
Giulio – o falso Doutor Vincenzo Scarpini - saiu pela Avenida Maranhão e entrou na primeira papelaria que encontrou. Não percebeu, mas, atrás dele, estava um policial fardado, que escutou o forte sotaque italiano encomendando um caderno. O Tenente afastou-se e atravessou a rua. Quando Giulio saiu, sem que percebesse, foi discretamente seguido. Giulio estava hospedado em um hotel chamado Cadoro. O Tenente telefonou do seu celular para Ricardo Coração dos Outros V:
- O senhor me disse que o diário que eu emprestei pro senhor traduzir pra mim estava em que línguas, mesmo?
- Inglês e italiano.
- Gostaria de ir à sua casa agora, pode ser?
Ricardo estava escrevendo e teve vontade de dizer que não; mas logo lhe ocorreu que o assunto deveria ser sobre o diário encontrado no La Ventana pelo Tenente. Respondeu que sim, escreveu mais um pouco e foi para a sala, aguardar pelo Tenente, enquanto Rita passeava pela cercanias rurais da cidade com o filho, Ricardo VI. O Tenente desligou e, em seguida, deu uma ordem, ainda pelo celular:
- Figueiredo, você venha à paisana até o Cadoro e se apresente ao gerente como fiscal de qualquer coisa. Inventa o que você quiser, monta uma carteira daquelas padronizadas, mas venha à paisana e rápido. Peça o livro de contas do hotel e depois o de hóspedes. Nesse de hóspedes, pegue e anote o nome e o apartamento de um italiano. É, um italiano, só sabemos disso, por enquanto. Anote também a data em que ele se hospedou, positivo? E aí fique de plantão no saguão do hotel, peça para ver todos os livros de controle, ganhe tempo, mas fique, para ver se o italiano deixa o quarto dele; se ele sair do hotel, siga o elemento, positivo? Seja criativo, mas não faz besteira, combinado?
Na sala de Ricardo V, o diálogo deu-se mais ou menos assim:
- O diário tem uma primeira parte com anotações em Inglês, descrevendo meus movimentos pela cidade – disse Ricardo.
- O senhor fez alguma coisa de errado? Tá devendo dinheiro, ou coisa parecida?
- Não. Apenas escrevo textos para uma universidade americana e também um livro.
O Tenente ficou em silêncio, mexendo a colher na xícara do cafezinho que lhe fora servido por Lindalva, a empregada loura da casa. Depois perguntou a Ricardo:
- Seus escritos falam de quê?
Ricardo mentiu:
- Sobre possibilidades de turismo no cerrado.
- Ah, que interessante. Mas isso não é motivo para ser seguido, não é, doutor?
- Não.
- E o que foi que o italiano escreveu, na parte dele do diário?
- A mesma coisa: está seguindo meus passos - respondeu. O Tenente disse:
- Pode deixar, doutor. Do americano eu não sei, pode ser que tenha alguma coisa a ver com aquele camarada que ficou falado por aqui, na época que o senhor e Dona Rita vieram pra cá. Mas esse italiano já está na minha mira.
- Tenente, se o senhor puder fazer o favor de não... Quer dizer, de não deixar esse italiano ser molestado e depois arranjar um jeito da gente conversar com ele...
- Esse é o meu trabalho. O senhor pode voltar pro seus escritos.
O Tenente despediu-se e, depois de telefonar para seu subordinado Figueiredo, deu outro telefonema do celular:
- Pedrosa, a partir de hoje, você deixa a farda em casa e cola no Senhor Ricardo. Aquele com jeito meio maluco, casado com a americana, Dona Rita. Sabe quem é? Isso mesmo: Ricardo não-sei-o-quê quinto. Pode vir agora e passa a rondar a casa do elemento, positivo? Tem que ser discreto. Eu sei: esse é o teu trabalho. Mas toma nota, presta atenção em tudo e vai me informando, tá me entendendo?
Pedrosa respondeu que sim.
9.06.2005
IMPRESSÕES AO DIRIGIR
Nova Lima fica entre Belo Horizonte e Ouro Preto, em Minas Gerais. Estou hospedado em um hotel de negócios, criado especialmente em função de uma instituição de ensino, a Fundação Dom Cabral, ligada à PUC de Minas. Dom Cabral foi um bispo preocupado em aproximar a Universidade às empresas; daí ter surgido um curso com o nome dele para administração de negócios - um MBA (lê-se emm-bi-ei), como cunhado em todo o mundo. O hotel e o prédio onde acontecem as aulas (uma semana, de domingo a sábado, a cada dois meses) ficam num condomínio de casas em torno de uma lagoa, onde já foi uma mineração. Antes das aulas, a Fundação organiza caminhadas, precedidas e encerradas por exercícios de alongamento – destes que a gente tem a impressão de que a real intenção é a de nos preparar para outra profissão, de um mercado disputadíssimo: a dos artistas de circo.
Era aí onde eu queria chegar: essas caminhadas são conduzidas por belas e competentes e simpáticas e pacientes profissionais. E o ar é de montanha e hoje de manhã estava friozinho, parece ter chovido um pouco de madrugada. É bom demais! Demais da conta, sô.
Na ginástica de encerramento da caminhada de hoje, um amigo (Cascaes, natural de Florianópolis) comentou ter visto um gavião pousado em um transformador de poste, acrescentando que, de certo, não era um gavião qualquer, pois o condomínio é de luxo. Aí nossa professorinha (Graziela) disse que uma sua tia uma vez tirou do congelador um pedaço de carne e o pôs na janela e depois flagrou um gavião “de todo tamanho” se fartando daquela natureza morta. Expressões como “de todo tamanho”, dentre outras tão especialmente mineiras, dão bem o tom dessas Minas Gerais, de montanhas e profundezas feitas por coisas desconhecidas de nós, pobres mortais, mas percebidas por alguns como muito mais preciosas que o minério que batizou a província que virou Estado.
E onde terminar essa crônica preguiçosa? Numa canção que fiz em parceria com outro amigo e colega de MBA, que se chama Luís Henrique Vieira Vaqueiro, que, no começo da madrugada passada, em típica situação de república de estudantes, dedilhando num bar para uns poucos de nós seu belo violão, tocou uma melodia e me desafiou: Mario, faz a letra. Depois eu faço, respondi. E ele: Não. Tem que ser agora. Afinal, a letra foi feita em papéis de anotações de bolso que sempre trago comigo, na hora, como proposto, e ficou assim:
Fosse um país qualquer / se fosse uma mulher / se fosse uma bandeira / se fosse uma canção / um rosto, uma nação.
Era um país qualquer / um rosto, uma mulher / um morro, uma ladeira / amor, declaração / de paz, de escravidão.
Audácia de viver / em um país assim / audácia de te amar / de te ver nascer / de dentro de mim.
Tudo isso não passa de um punhado de meras impressões ao dirigir durante alguns momentos a própria vida. Coisa que, convenhamos, é de todo tamanho.
Era aí onde eu queria chegar: essas caminhadas são conduzidas por belas e competentes e simpáticas e pacientes profissionais. E o ar é de montanha e hoje de manhã estava friozinho, parece ter chovido um pouco de madrugada. É bom demais! Demais da conta, sô.
Na ginástica de encerramento da caminhada de hoje, um amigo (Cascaes, natural de Florianópolis) comentou ter visto um gavião pousado em um transformador de poste, acrescentando que, de certo, não era um gavião qualquer, pois o condomínio é de luxo. Aí nossa professorinha (Graziela) disse que uma sua tia uma vez tirou do congelador um pedaço de carne e o pôs na janela e depois flagrou um gavião “de todo tamanho” se fartando daquela natureza morta. Expressões como “de todo tamanho”, dentre outras tão especialmente mineiras, dão bem o tom dessas Minas Gerais, de montanhas e profundezas feitas por coisas desconhecidas de nós, pobres mortais, mas percebidas por alguns como muito mais preciosas que o minério que batizou a província que virou Estado.
E onde terminar essa crônica preguiçosa? Numa canção que fiz em parceria com outro amigo e colega de MBA, que se chama Luís Henrique Vieira Vaqueiro, que, no começo da madrugada passada, em típica situação de república de estudantes, dedilhando num bar para uns poucos de nós seu belo violão, tocou uma melodia e me desafiou: Mario, faz a letra. Depois eu faço, respondi. E ele: Não. Tem que ser agora. Afinal, a letra foi feita em papéis de anotações de bolso que sempre trago comigo, na hora, como proposto, e ficou assim:
Fosse um país qualquer / se fosse uma mulher / se fosse uma bandeira / se fosse uma canção / um rosto, uma nação.
Era um país qualquer / um rosto, uma mulher / um morro, uma ladeira / amor, declaração / de paz, de escravidão.
Audácia de viver / em um país assim / audácia de te amar / de te ver nascer / de dentro de mim.
Tudo isso não passa de um punhado de meras impressões ao dirigir durante alguns momentos a própria vida. Coisa que, convenhamos, é de todo tamanho.
9.02.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E QUATRO -
Rita assistia atônita ao que a televisão mostrava: a cidade onde quase nascera, praticamente destruída por um furacão. Rita desesperava-se e chorava tanto quantos vários de seus compatriotas naqueles momentos, mas, embora estivesse em uma cidade do interior do Brasil, com poucos recursos e baixos índices de desenvolvimento e qualidade de vida, conseguira o que tantos dos de seu país natal não conseguiam: falar com sua família; com sua mãe - por telefone, de Minaçu a Orlando, tudo começando por uma espiral ridícula pendurada na parede, tantas vidas e coisas terminando em outra espiral, monstrenga, imensa espiral feita de ar.
Ricardo V acompanhava a tragédia de Nova Orleans perguntando-se, secretamente: será que sofro mais quando a dor é de país rico? Todos os dias na TV assisto a Tsunamis, Palestinas, Áfricas, Índias, Paquistães, Nordestes... Percebo mais essa dor que vejo agora. Esforçou-se para abstrair-se do fato de ser casado com uma americana, somente para observar, introspectiva e obsessivamente, tão à sua maneira quanto à de Otávia, de quem viveria, como hoje, em 2020, para sempre viúvo, se esta é que era a sua verdade: dor de rico lhe doía mais. De repente uma idéia lhe caiu no colo, nas fuças, no ventre, na nuca: a cultura norte-americana, de tão difundida, independentemente da proximidade, das características de novo-mundo e país-continente em comum com o Brasil, por mais amigos ou conhecidos judeus, nordestinos, negros, hindus e árabes que tivesse, a dor americana, do jazz de Nova Orleans inundado, saxofones, prostitutas, ricos filhos-da-puta ou não, louras, barbies, negros e negras atuando em filmes por pressão e força e talento, todos na súbita desgraça, era como se Nova Orleans, a New Orleans do French Quarter fosse sua. Como sua era o Rio de Janeiro. Como, já àquela altura, era Minaçu. Tudo tão diferente e distante, no entanto, era seu e por isso doía. Não que não doesse o pavor diário palestino, a desgraceira dos homens-bomba, toda a merdice e desgraceira humana; tudo doía, mas era diário – e voltou a perguntar-se: devo mesmo sofrer mais porque agora, como em setembro de 2001, foi nos Estados Unidos, os grandes fodões, os destruidores, predadores, arrogantes imperadores? Choro a dor dos opressores? Claro que não: choro a dor de quem se fodeu, de quem dormiu numa cama e acordou numa imensa poça d’água, na lama, na bosta, no frio, na tristeza, no abandono, na pior espécie de solidão.
E lhe foi assustador que, exatamente naquela noite, quando o noticiário da tragédia do furacão “Katrina” explodia na tela da sua televisão e golpeava tão perto de si tão fundo sua mulher e também a ele, que outra forma de solidão lhe viesse às mãos pelas do filho de 3 anos – uma carta amarelecida e aos pedaços do bisavô, Ricardo Coração dos Outros II, onde ele diz:
“Maria Cristina:
Alguma coisa muito má eu devo ter feito. É assim que me sinto. Foi dedicação demais e, em troca, desdém demais. Nada faz sentido. Sou um homem barbado na frente do espelho, suposto estudante de Direito, ex-noivo, ex-sujeito.
Vou rimar sempre: sou filho de trovador. Pouco me importam esses modernistas de São Paulo, ainda que a eles muito admire, por sua coragem, de desconstruir para melhor reconstruir esta nossa raça.
Fugi do assunto: continuo como quem foi flagrado em crime que não cometeu. Não posso ser chamado de mau amante, sequer: gemias, e gemias com prazer, não me venhas dizer que não, que fingias – porque não fingias. Quem nasceu onde eu nasci conhece de tão perto a verdade, que é capaz como nenhum outro de conhecer a mentira e o fingimento. Não fingiste: gostaste. Gostaste de mim, da minha presença, do meu cheiro, meu contato e tudo o mais que resolvemos juntos arriscar e subverter.
Vai com teu almofadinha; vai e explica a ele tua vergonha. Mostra a ele meus dentes cravados nos bicos dos teus seios, meus dedos, em todos os pedaços do teu corpo.
Não te mando esta carta, porque sou covarde. Porque me sinto como se tivesse partido de mim mesmo, como se ousara rasgar o mundo em três, na frente de seus donos. Como quando quebrei o objeto mais precioso de minha mãe. Como quando, brincando com meu pai, sem querer, quebrei-lhe o braço, quase que para sempre lhe arrancando das mãos o abençoado violão e seu dedilhar encantado.
Não vou morrer; vivo no Século XX. E ainda vou te fotografar sorrindo, porque é sorrindo que te quero mais, ainda que em braços que não são meus – mas a máquina há de ser tão moderna, que há de fotografar por trás dela meu sorriso, maior e mais intenso que o teu.
Não te quero mais, Maria Cristina; já não cometi crime algum; gosto mais de mim e das futuras namoradas e noivas e amantes que amarei, na mesma cama de “república” que te possuí. Saudades de ti. Isso não há como eu negar. Mas, amanhã, farei a revolução e seduzirei a bela criatura que me lava as roupas, que será de mim amada como foste tu.
Talvez eu te mande esta carta. Amanhã saberei.”
- CAPÍTULO VINTE E QUATRO -
Rita assistia atônita ao que a televisão mostrava: a cidade onde quase nascera, praticamente destruída por um furacão. Rita desesperava-se e chorava tanto quantos vários de seus compatriotas naqueles momentos, mas, embora estivesse em uma cidade do interior do Brasil, com poucos recursos e baixos índices de desenvolvimento e qualidade de vida, conseguira o que tantos dos de seu país natal não conseguiam: falar com sua família; com sua mãe - por telefone, de Minaçu a Orlando, tudo começando por uma espiral ridícula pendurada na parede, tantas vidas e coisas terminando em outra espiral, monstrenga, imensa espiral feita de ar.
Ricardo V acompanhava a tragédia de Nova Orleans perguntando-se, secretamente: será que sofro mais quando a dor é de país rico? Todos os dias na TV assisto a Tsunamis, Palestinas, Áfricas, Índias, Paquistães, Nordestes... Percebo mais essa dor que vejo agora. Esforçou-se para abstrair-se do fato de ser casado com uma americana, somente para observar, introspectiva e obsessivamente, tão à sua maneira quanto à de Otávia, de quem viveria, como hoje, em 2020, para sempre viúvo, se esta é que era a sua verdade: dor de rico lhe doía mais. De repente uma idéia lhe caiu no colo, nas fuças, no ventre, na nuca: a cultura norte-americana, de tão difundida, independentemente da proximidade, das características de novo-mundo e país-continente em comum com o Brasil, por mais amigos ou conhecidos judeus, nordestinos, negros, hindus e árabes que tivesse, a dor americana, do jazz de Nova Orleans inundado, saxofones, prostitutas, ricos filhos-da-puta ou não, louras, barbies, negros e negras atuando em filmes por pressão e força e talento, todos na súbita desgraça, era como se Nova Orleans, a New Orleans do French Quarter fosse sua. Como sua era o Rio de Janeiro. Como, já àquela altura, era Minaçu. Tudo tão diferente e distante, no entanto, era seu e por isso doía. Não que não doesse o pavor diário palestino, a desgraceira dos homens-bomba, toda a merdice e desgraceira humana; tudo doía, mas era diário – e voltou a perguntar-se: devo mesmo sofrer mais porque agora, como em setembro de 2001, foi nos Estados Unidos, os grandes fodões, os destruidores, predadores, arrogantes imperadores? Choro a dor dos opressores? Claro que não: choro a dor de quem se fodeu, de quem dormiu numa cama e acordou numa imensa poça d’água, na lama, na bosta, no frio, na tristeza, no abandono, na pior espécie de solidão.
E lhe foi assustador que, exatamente naquela noite, quando o noticiário da tragédia do furacão “Katrina” explodia na tela da sua televisão e golpeava tão perto de si tão fundo sua mulher e também a ele, que outra forma de solidão lhe viesse às mãos pelas do filho de 3 anos – uma carta amarelecida e aos pedaços do bisavô, Ricardo Coração dos Outros II, onde ele diz:
“Maria Cristina:
Alguma coisa muito má eu devo ter feito. É assim que me sinto. Foi dedicação demais e, em troca, desdém demais. Nada faz sentido. Sou um homem barbado na frente do espelho, suposto estudante de Direito, ex-noivo, ex-sujeito.
Vou rimar sempre: sou filho de trovador. Pouco me importam esses modernistas de São Paulo, ainda que a eles muito admire, por sua coragem, de desconstruir para melhor reconstruir esta nossa raça.
Fugi do assunto: continuo como quem foi flagrado em crime que não cometeu. Não posso ser chamado de mau amante, sequer: gemias, e gemias com prazer, não me venhas dizer que não, que fingias – porque não fingias. Quem nasceu onde eu nasci conhece de tão perto a verdade, que é capaz como nenhum outro de conhecer a mentira e o fingimento. Não fingiste: gostaste. Gostaste de mim, da minha presença, do meu cheiro, meu contato e tudo o mais que resolvemos juntos arriscar e subverter.
Vai com teu almofadinha; vai e explica a ele tua vergonha. Mostra a ele meus dentes cravados nos bicos dos teus seios, meus dedos, em todos os pedaços do teu corpo.
Não te mando esta carta, porque sou covarde. Porque me sinto como se tivesse partido de mim mesmo, como se ousara rasgar o mundo em três, na frente de seus donos. Como quando quebrei o objeto mais precioso de minha mãe. Como quando, brincando com meu pai, sem querer, quebrei-lhe o braço, quase que para sempre lhe arrancando das mãos o abençoado violão e seu dedilhar encantado.
Não vou morrer; vivo no Século XX. E ainda vou te fotografar sorrindo, porque é sorrindo que te quero mais, ainda que em braços que não são meus – mas a máquina há de ser tão moderna, que há de fotografar por trás dela meu sorriso, maior e mais intenso que o teu.
Não te quero mais, Maria Cristina; já não cometi crime algum; gosto mais de mim e das futuras namoradas e noivas e amantes que amarei, na mesma cama de “república” que te possuí. Saudades de ti. Isso não há como eu negar. Mas, amanhã, farei a revolução e seduzirei a bela criatura que me lava as roupas, que será de mim amada como foste tu.
Talvez eu te mande esta carta. Amanhã saberei.”
8.30.2005
ImaGINI!
O matemático italiano Conrado Gini inventou uma medida para a distribuição da renda de um determinado grupo, baseada em dada equação que compara o quanto da renda fica com os mais ricos e o quanto dela fica com os mais pobres. Sem entrar no mérito matemático-estatístico, quanto mais próximo de zero for o índice de Gini, mais proporcional é a distribuição; quanto mais perto de 1, maior é a concentração. Assim, se os 20% mais ricos ficarem com 20% da renda e os 20% mais pobres com 20% dela, estaremos em um país economicamente equilibrado.
Entra governo e sai governo, com os mais variados receituários econômicos, de 1960 para cá, o índice de Gini brasileiro situou-se entre 0,5 e 0,6, aproximadamente. Em 2004, era 0,576, 120° do mundo, quando, na Dinamarca, o índice ficava em 0,247, o 2° melhor do mundo; mas não somos dinamarqueses, ora. Pois Portugal estava em 67°, com 0,385. Esses dados ficam somente para comparação – pois o que deve ser observado é que, seja com Jucelino, Jango, militares, Collor, FHC ou Lula, passando por Sarney e Itamar, e seus respectivos macro-economistas, a distribuição da renda nacional fica ali, entre o ruim e o péssimo. Percebeu? Não é de economia que estamos falando – tão somente de curiosa, para não dizer perversa, constatação: se a economia cresce ou desanda, a mandar pra casa ou pra rua um monte de gente; se a inflação é latente ou pungente; se é a esquerda ou a direita quem governa; ou se o regime é aparentemente democrático ou ostensivamente seu oposto, tanto faz: o Brasil é mais concentrado que leite em pó - sendo que, tal como o velho Leite Glória, vive desmanchando sem bater.
E agora? Ora, José! (Saravá, sinhô Carlos.) Não vá você perguntar aos políticos ou aos seus macro-economistas, nem mesmo aos economistas de plantão na tv, com suas respostas e fórmulas prontas, nem ainda aos bons economistas – os há – o que fazer. Ao contrário; responda depressa: se a distribuição da renda brasileira fosse melhor, (1) haveria tantos farsantes na política? (2) Se você, José, é pobre, seria mais pobre do que é? (3) E se você é rico – seria menos rico do que é? Ah! Você, além de não ser José, é rico, sim; e nem vai-se dar ao trabalho de responder esta questão. Afinal, você não é Papai Noel pra sair distribuindo sua renda pros outros e, com o mesmo direito de nós, menos ricos que você, não confia nem um pouco na gestão dos impostos, gordos impostos arrecadados pelo governo brasileiro – seja ele qual for; não é? No entanto, meu amigo ou amiga cujo nome não sei, se a renda fosse melhor distribuída, até os impostos seriam menores, como menor seria sua dor de cabeça, seja ela por causa da indecisão entre atrasar a conta do telefone ou a da luz, seja a de blindar ou não e em que porção seu belo automóvel.
Mas é muito fácil falar, não é? Ora, se de JK a Lula, nada muda? Se o governo não faz, - isso não é coisa pro governo fazer? Se tanto “fera” em economia não resolve, que petulância é essa, - de vir com liçõezinhas rasteiras e perguntinhas sem resposta?
Só nos resta esperar pelas mais novas gerações e sua superior sabedoria. Só que, no meio delas, vai crescendo a legião dos que não pedem; mandam - com o ferro na mão. Sacou? Não? Ele, sim. Ah, nem pense em se armar e sacar antes! Ele é muito mais rápido; e cresce na razão direta do índice de Gini – que nos EUA-2004 era igual a 0,408, ou o 76° mundial.
Entra governo e sai governo, com os mais variados receituários econômicos, de 1960 para cá, o índice de Gini brasileiro situou-se entre 0,5 e 0,6, aproximadamente. Em 2004, era 0,576, 120° do mundo, quando, na Dinamarca, o índice ficava em 0,247, o 2° melhor do mundo; mas não somos dinamarqueses, ora. Pois Portugal estava em 67°, com 0,385. Esses dados ficam somente para comparação – pois o que deve ser observado é que, seja com Jucelino, Jango, militares, Collor, FHC ou Lula, passando por Sarney e Itamar, e seus respectivos macro-economistas, a distribuição da renda nacional fica ali, entre o ruim e o péssimo. Percebeu? Não é de economia que estamos falando – tão somente de curiosa, para não dizer perversa, constatação: se a economia cresce ou desanda, a mandar pra casa ou pra rua um monte de gente; se a inflação é latente ou pungente; se é a esquerda ou a direita quem governa; ou se o regime é aparentemente democrático ou ostensivamente seu oposto, tanto faz: o Brasil é mais concentrado que leite em pó - sendo que, tal como o velho Leite Glória, vive desmanchando sem bater.
E agora? Ora, José! (Saravá, sinhô Carlos.) Não vá você perguntar aos políticos ou aos seus macro-economistas, nem mesmo aos economistas de plantão na tv, com suas respostas e fórmulas prontas, nem ainda aos bons economistas – os há – o que fazer. Ao contrário; responda depressa: se a distribuição da renda brasileira fosse melhor, (1) haveria tantos farsantes na política? (2) Se você, José, é pobre, seria mais pobre do que é? (3) E se você é rico – seria menos rico do que é? Ah! Você, além de não ser José, é rico, sim; e nem vai-se dar ao trabalho de responder esta questão. Afinal, você não é Papai Noel pra sair distribuindo sua renda pros outros e, com o mesmo direito de nós, menos ricos que você, não confia nem um pouco na gestão dos impostos, gordos impostos arrecadados pelo governo brasileiro – seja ele qual for; não é? No entanto, meu amigo ou amiga cujo nome não sei, se a renda fosse melhor distribuída, até os impostos seriam menores, como menor seria sua dor de cabeça, seja ela por causa da indecisão entre atrasar a conta do telefone ou a da luz, seja a de blindar ou não e em que porção seu belo automóvel.
Mas é muito fácil falar, não é? Ora, se de JK a Lula, nada muda? Se o governo não faz, - isso não é coisa pro governo fazer? Se tanto “fera” em economia não resolve, que petulância é essa, - de vir com liçõezinhas rasteiras e perguntinhas sem resposta?
Só nos resta esperar pelas mais novas gerações e sua superior sabedoria. Só que, no meio delas, vai crescendo a legião dos que não pedem; mandam - com o ferro na mão. Sacou? Não? Ele, sim. Ah, nem pense em se armar e sacar antes! Ele é muito mais rápido; e cresce na razão direta do índice de Gini – que nos EUA-2004 era igual a 0,408, ou o 76° mundial.
8.26.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E TRÊS –
A médica terminou o caso, pois percebeu que o amor dele, Ricardo IV, seria sempre de Sérgia. Mas não sem dor para ele, porque algo especial havia acontecido: uma naturalidade que jamais vivera com a mulher. E não sem culpa, porque gostava perdidamente de Sérgia e a ela sentia-se no dever de ser fiel – palavra que não lhe agradava, mas não encontrava outra melhor para definir a monogamia à qual se sentia obrigado. Por que não falavam sobre isso? Se ela era tão liberal, capaz de rever seus pontos de vista com naturalidade? Se ambos eram bem-nascidos e criados no Rio de Janeiro, ainda que com todas as suas mazelas, ainda assim, a terra de Leila Diniz, Vinicius de Moraes e tantos outros libertários, salgados do mar à volta e à beira do caos urbano? Por que não conversava com Sérgia, que era tão inconformista e libertária e irreverente como os ícones da cidade do Corcovado, capaz de desnudar talvez como nenhuma outra toda e qualquer hipocrisia, desde antes do Redentor, desde Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Machado de Assis – desde sempre? Ou Sérgia e ele seriam somente meros teóricos da liberdade e da naturalidade? Entristecia-se ainda um ano depois com o fim do seu caso amoroso com a médica, quando se deu conta de que bebia saborosa cerveja debaixo de uma árvore frondosa, no restaurante Samina, ao meio-dia, em Minaçu, naquele finzinho de 2006. Ele e Sérgia, daquela vez, hospedaram-se no Executivo, na esquina da Rua 2 com a Avenida Maranhão, porque Sarah Shaw Almanendez Chermont, mãe de Rita, ficara na casa de Rita e Ricardo V. Sarah, Sérgia e Rita caminhavam pela Avenida Maranhão, espiando o comércio interiorano.
Depois de deixar a família em frente ao Samina (exceto Ricardo VI, que ficara com as empregadas, em casa), Ricardo V foi ao encontro do Tenente da Polícia Militar, a convite deste. O Tenente lhe disse:
- Encontrei esse caderno no banheiro do La Ventana (bar nas proximidades da praia artificial). Acho que está em Inglês e Espanhol, mas percebi que seu nome e o de Dona Rita estão nele.
Ricardo V pediu para ver o caderno. Disse ao Tenente:
- Está em Inglês e Italiano. Posso ficar com ele?
Depois de hesitar um pouco, o Tenente lhe respondeu:
- Pode. Mas o Senhor vai me prometer que vai me devolver ele. E mais uma coisa: quero que o Senhor traduza ele pra mim, pode ser?
Ricardo disse “Claro que sim”, assinou um termo de responsabilidade e levou o caderno consigo. Entrou no carro, abriu as janelas e começou a ler as anotações. Percebeu ser um relato minucioso dos seus passos logo quando da sua chegada a Minaçu. Ao término do que parecia ser a primeira parte das anotações, estava escrito, em Inglês, “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A segunda parte era escrita em péssima caligrafia, que misturava Inglês rudimentar a um Italiano chulo. Mas o principal objeto era, novamente, ele, Ricardo V (Rita era somente citada como sua mulher). Não conseguiu fazer nenhuma outra conexão com aquele interesse de absurdos espiões seguindo seus passos na longínqua Minaçu que não seus escritos. Estava convencido de que fora a universidade americana que resolvera vigiá-lo. Sentiu-se enganado, um idiota, nas mãos de seus patrocinadores. “Finalidade pretendida”: seria ela a revolução de mentalidade, por ele imaginada e proposta em seus escritos?
Quando juntou-se à família, a sogra perguntou-lhe, em um misto de Inglês, Espanhol e Português:
- “Óculos solar”; li isso num loja. Shouldn’t it be “óculos solares”?
- Sim. Um óculo, dois óculos – respondeu-lhe o genro.
- Por isso, “lentes de contatos” – a sogra deduziu.
- Não, explicou-lhe o genro. O certo é “Lentes de contato”.
Ricardo IV, então, tomou a palavra do filho e iniciou dificílima explicação gramatical para os óculos “solares” e as lentes “de contato” para Sarah, que fez ares de contida desaprovação e ficou em silêncio. Almoçaram “peixe na telha” – um “filhote”, espécie então em extinção dos rios brasileiros, de pesca proibida, que às vezes chegava a pesar mais de cem quilos. A comida estava bem gostosa e, apesar do sol torturante, havia uma brisa e a sombra da árvore era uma benção. Sarah e Sérgia entreolharam-se, meio que perdoando os filhos por morarem naquele fim de mundo. (Mas não muito.) “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A frase e o insólito diário não deixavam Ricardo V em paz. Cruzou seus talheres e disse:
- Vamos ver quem engana quem.
E então ouviu “What?”, “O quê?”, “Como?”. Desculpou-se por ter pensado em voz alta. Ricardo IV pediu e pagou a conta e foram embora, cada qual com seus pensamentos.
- CAPÍTULO VINTE E TRÊS –
A médica terminou o caso, pois percebeu que o amor dele, Ricardo IV, seria sempre de Sérgia. Mas não sem dor para ele, porque algo especial havia acontecido: uma naturalidade que jamais vivera com a mulher. E não sem culpa, porque gostava perdidamente de Sérgia e a ela sentia-se no dever de ser fiel – palavra que não lhe agradava, mas não encontrava outra melhor para definir a monogamia à qual se sentia obrigado. Por que não falavam sobre isso? Se ela era tão liberal, capaz de rever seus pontos de vista com naturalidade? Se ambos eram bem-nascidos e criados no Rio de Janeiro, ainda que com todas as suas mazelas, ainda assim, a terra de Leila Diniz, Vinicius de Moraes e tantos outros libertários, salgados do mar à volta e à beira do caos urbano? Por que não conversava com Sérgia, que era tão inconformista e libertária e irreverente como os ícones da cidade do Corcovado, capaz de desnudar talvez como nenhuma outra toda e qualquer hipocrisia, desde antes do Redentor, desde Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Machado de Assis – desde sempre? Ou Sérgia e ele seriam somente meros teóricos da liberdade e da naturalidade? Entristecia-se ainda um ano depois com o fim do seu caso amoroso com a médica, quando se deu conta de que bebia saborosa cerveja debaixo de uma árvore frondosa, no restaurante Samina, ao meio-dia, em Minaçu, naquele finzinho de 2006. Ele e Sérgia, daquela vez, hospedaram-se no Executivo, na esquina da Rua 2 com a Avenida Maranhão, porque Sarah Shaw Almanendez Chermont, mãe de Rita, ficara na casa de Rita e Ricardo V. Sarah, Sérgia e Rita caminhavam pela Avenida Maranhão, espiando o comércio interiorano.
Depois de deixar a família em frente ao Samina (exceto Ricardo VI, que ficara com as empregadas, em casa), Ricardo V foi ao encontro do Tenente da Polícia Militar, a convite deste. O Tenente lhe disse:
- Encontrei esse caderno no banheiro do La Ventana (bar nas proximidades da praia artificial). Acho que está em Inglês e Espanhol, mas percebi que seu nome e o de Dona Rita estão nele.
Ricardo V pediu para ver o caderno. Disse ao Tenente:
- Está em Inglês e Italiano. Posso ficar com ele?
Depois de hesitar um pouco, o Tenente lhe respondeu:
- Pode. Mas o Senhor vai me prometer que vai me devolver ele. E mais uma coisa: quero que o Senhor traduza ele pra mim, pode ser?
Ricardo disse “Claro que sim”, assinou um termo de responsabilidade e levou o caderno consigo. Entrou no carro, abriu as janelas e começou a ler as anotações. Percebeu ser um relato minucioso dos seus passos logo quando da sua chegada a Minaçu. Ao término do que parecia ser a primeira parte das anotações, estava escrito, em Inglês, “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A segunda parte era escrita em péssima caligrafia, que misturava Inglês rudimentar a um Italiano chulo. Mas o principal objeto era, novamente, ele, Ricardo V (Rita era somente citada como sua mulher). Não conseguiu fazer nenhuma outra conexão com aquele interesse de absurdos espiões seguindo seus passos na longínqua Minaçu que não seus escritos. Estava convencido de que fora a universidade americana que resolvera vigiá-lo. Sentiu-se enganado, um idiota, nas mãos de seus patrocinadores. “Finalidade pretendida”: seria ela a revolução de mentalidade, por ele imaginada e proposta em seus escritos?
Quando juntou-se à família, a sogra perguntou-lhe, em um misto de Inglês, Espanhol e Português:
- “Óculos solar”; li isso num loja. Shouldn’t it be “óculos solares”?
- Sim. Um óculo, dois óculos – respondeu-lhe o genro.
- Por isso, “lentes de contatos” – a sogra deduziu.
- Não, explicou-lhe o genro. O certo é “Lentes de contato”.
Ricardo IV, então, tomou a palavra do filho e iniciou dificílima explicação gramatical para os óculos “solares” e as lentes “de contato” para Sarah, que fez ares de contida desaprovação e ficou em silêncio. Almoçaram “peixe na telha” – um “filhote”, espécie então em extinção dos rios brasileiros, de pesca proibida, que às vezes chegava a pesar mais de cem quilos. A comida estava bem gostosa e, apesar do sol torturante, havia uma brisa e a sombra da árvore era uma benção. Sarah e Sérgia entreolharam-se, meio que perdoando os filhos por morarem naquele fim de mundo. (Mas não muito.) “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A frase e o insólito diário não deixavam Ricardo V em paz. Cruzou seus talheres e disse:
- Vamos ver quem engana quem.
E então ouviu “What?”, “O quê?”, “Como?”. Desculpou-se por ter pensado em voz alta. Ricardo IV pediu e pagou a conta e foram embora, cada qual com seus pensamentos.
8.22.2005
O FIO
Ninguém diz o que quer porque todo mundo ouve o que quer. Só seria possível se dizer aquilo que se queria se alguém estivesse disposto a ouvir o que se disse. Mas não é assim que funciona. Pelo antiquado telefone convencional, o fio é o culpado; pelo celular ou pessoalmente, provavelmente, sua ausência é que é – e tudo fica por um fio.
Ela chegou em casa muito contente e ele também não ficou triste, ao vê-la de biquíni fio dental, os cabelos, molhados e salgados da praia. Ela estava de férias, ele, não. Beijaram-se e abraçaram-se e ele gostou muito de pensar que seu terno seria lavado mais de sal que da poeira das ruas; mais do suor dela do que dele próprio. Ela sentiu o corpo tocado pelo tecido do terno e teve arrepios agradáveis, mais ainda no rosto, pela barba que já despontava no rosto dele, pelo cheiro do perfume dele, agora esmaecido no rosto ensaboado várias vezes durante o dia, o sal da pele dele misturado com o do mar, que permanecia em seu corpo, no corpo dela.
Ela procurou um lugar na praia onde não fosse obrigada a conviver com nenhuma das tribos: dos adolescentes que haviam chegado das aulas, dos intelectuais de plantão, das peruas, das turbinadas, dos gringos, dos fortões, dos pivetes. A solução foi caminhar, caminhar, caminhar; só parava para mergulhar, entrar na água devagar, sentindo um friozinho, dobrando os joelhos, fazendo xixi discretamente, até que mergulhava de cabeça, levantava-se, sacudia os cabelos, dava três braçadas de costas, pegava uma onda e saia do mar, para caminhar novamente.
Durante o dia, ele só tinha ficado chateado quando o chefe o chamou para lhe passar uma tarefa, nada demais, um tanto banal, e desandou a falar mal do médico que vinha-lhe tratando da rinite, vivia de nariz entupido, cadê meu lenço?, um horror. Seu aumento ainda não vai sair dessa vez, tenha calma, e muito cuidado com suas propostas, você ainda está longe do poder da empresa, não se meta a besta, fique na sua, que eu sou seu aliado; mas lembre-se: bom cabrito não berra. Ele sossegou-se e pensou, não vou perder meu tempo com babaca. Em casa, ele disse a ela, te amo, você está linda, um tesão.
Depois do abraço e do beijo, ela fungou, disse que devia ser da água do mar, que o sal seca as mucosas e é muito bom contra rinite, mas devia estar acontecendo uma adaptação, uma espécie de choque, afinal, era seu primeiro dia de férias, ainda estava impregnada de escritório, de cheiro de tailleur, não era o do terno dele, não. Ela contou a ele que havia se chateado um pouco ao entardecer, quando já se preparava para voltar pra casa e ouviu de um grupo de caras metidos a fortes, de um gênero que ela detesta, o comentário, essa aí vale a pena, eu até que trabalhava, por ela, eu até vestia um terno. Bom cabrito não berra, foi o que eu pensei, ela, em casa, disse a ele, e completou: não vou perder meu tempo com babaca. Você está um charme, te amo, te adoro, ela disse a ele.
Ele disse a ela, vá logo tomar um banho, você está suja, oleosa, mal-cheirosa do mar. Ela respondeu, quem está sujo, mal-cheiroso e oleoso é você, com essa catinga insuportável de escritório. Daí pra frente, o que se ouviu foi barulho de porta batendo. Depois, um celular tocou. Alguém comentou que um cachorro latiu. Mas havia a sirene, como saber?
Ela chegou em casa muito contente e ele também não ficou triste, ao vê-la de biquíni fio dental, os cabelos, molhados e salgados da praia. Ela estava de férias, ele, não. Beijaram-se e abraçaram-se e ele gostou muito de pensar que seu terno seria lavado mais de sal que da poeira das ruas; mais do suor dela do que dele próprio. Ela sentiu o corpo tocado pelo tecido do terno e teve arrepios agradáveis, mais ainda no rosto, pela barba que já despontava no rosto dele, pelo cheiro do perfume dele, agora esmaecido no rosto ensaboado várias vezes durante o dia, o sal da pele dele misturado com o do mar, que permanecia em seu corpo, no corpo dela.
Ela procurou um lugar na praia onde não fosse obrigada a conviver com nenhuma das tribos: dos adolescentes que haviam chegado das aulas, dos intelectuais de plantão, das peruas, das turbinadas, dos gringos, dos fortões, dos pivetes. A solução foi caminhar, caminhar, caminhar; só parava para mergulhar, entrar na água devagar, sentindo um friozinho, dobrando os joelhos, fazendo xixi discretamente, até que mergulhava de cabeça, levantava-se, sacudia os cabelos, dava três braçadas de costas, pegava uma onda e saia do mar, para caminhar novamente.
Durante o dia, ele só tinha ficado chateado quando o chefe o chamou para lhe passar uma tarefa, nada demais, um tanto banal, e desandou a falar mal do médico que vinha-lhe tratando da rinite, vivia de nariz entupido, cadê meu lenço?, um horror. Seu aumento ainda não vai sair dessa vez, tenha calma, e muito cuidado com suas propostas, você ainda está longe do poder da empresa, não se meta a besta, fique na sua, que eu sou seu aliado; mas lembre-se: bom cabrito não berra. Ele sossegou-se e pensou, não vou perder meu tempo com babaca. Em casa, ele disse a ela, te amo, você está linda, um tesão.
Depois do abraço e do beijo, ela fungou, disse que devia ser da água do mar, que o sal seca as mucosas e é muito bom contra rinite, mas devia estar acontecendo uma adaptação, uma espécie de choque, afinal, era seu primeiro dia de férias, ainda estava impregnada de escritório, de cheiro de tailleur, não era o do terno dele, não. Ela contou a ele que havia se chateado um pouco ao entardecer, quando já se preparava para voltar pra casa e ouviu de um grupo de caras metidos a fortes, de um gênero que ela detesta, o comentário, essa aí vale a pena, eu até que trabalhava, por ela, eu até vestia um terno. Bom cabrito não berra, foi o que eu pensei, ela, em casa, disse a ele, e completou: não vou perder meu tempo com babaca. Você está um charme, te amo, te adoro, ela disse a ele.
Ele disse a ela, vá logo tomar um banho, você está suja, oleosa, mal-cheirosa do mar. Ela respondeu, quem está sujo, mal-cheiroso e oleoso é você, com essa catinga insuportável de escritório. Daí pra frente, o que se ouviu foi barulho de porta batendo. Depois, um celular tocou. Alguém comentou que um cachorro latiu. Mas havia a sirene, como saber?
8.19.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E DOIS–
“Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1922.
Senhores Meus Pais:
Com vosso devido perdão, não entendo como tivestes a coragem de deixar a capital para viverdes como viveis, no meio do nada e sem recursos. (Mesmo sabedor do vosso desgosto com o triste fim de Policarpo Quaresma, padrinho da Senhora Minha Mãe, além de amigo e aluno de violão do Senhor Meu Pai.) Inda que bem me lembre da história que me contastes, isto é, da vontade de Minha Mãe de viver uma aventura, e que compreenda vosso desgosto por terdes, Meu Pai, servido ao exército de Floriano contra vossa vontade, mesmo que inda agora a situação na capital do país esteja tão conturbada, que cidade linda e fervorosa é a vossa! Acabo de assistir às comemorações do centenário da independência, que contaram, inclusive, com a presença do Presidente de Portugal, o Dr. Antônio José de Almeida, dentre outros mui ilustres estrangeiros. Pois que o Conde D´Eu, que vinha da França especialmente para os festejos, reconciliado, desde que, em setembro de 1920, o Sr. Epitácio Pessoa revogou o decreto de banimento da família imperial brasileira, morreu a bordo do navio que o trazia!
Já Dona Chiquinha Gonzaga conta agora com setenta e três anos. Seus chorinhos ainda se ouvem pela cidade e me dão muita alegria; vos agradeço pelos versos que me escrevestes, Meu Pai, aludindo aos choros dessa admirável Senhora. Soube que, em 1903 (eu com meus três anos), Dona Chiquinha Gonzaga viu, em Berlim, composições suas gravadas e editadas por um tal de Fred Figner, sem a devida autorização. Pois o citado Sr. Figner foi processado e, depois de profundas mudanças na legislação brasileira, aos 27 de setembro de 1917, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, foi criada a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, com Dona Chiquinha fazendo parte da Diretoria. Senhor meu pai, mandai-me vossos cadernos musicais, que vou registrá-los na S.B.A.T., para que vossos direitos de compositor sejam preservados para sempre.
Por falar em “direitos”: como me valeram vossas aulas em nossa casa! Ingressei na Universidade do Rio de Janeiro, criada há dois anos por decreto do Presidente da República; formar-me-ei Bacharel em Direito!
Já vos contei? Assisti (estupefato!) à derrubada do Morro do Castelo! Vós acreditais nisso, em tal tresloucada decisão? É o progresso!
Narro-vos agora acerca do “Levante do Forte de Copacabana” - do que li e do que vi.
Creio que mesmo aí em Cavalcante o Senhor Meu Pai e a Senhora Minha Mãe terão acompanhado pelo menos em parte as notícias a respeito. Se assim não for, vos faço sabedores de que, antes, o Marechal Hermes da Fonseca tomara o partido de militares de Pernambuco que haviam hostilizado parentes do Senhor Epitácio Pessoa. Pois que tal fato causou o fechamento do Clube Militar e a prisão do seu Presidente, que vem a ser o próprio Marechal Hermes - simplesmente o ex-Presidente da República! Tudo por causa das "Cartas Falsas", nas quais o Marechal foi chamado de "sargentão sem compostura". (Dizem por aí que tais cartas teriam sido escritas pelo Senhor Artur Bernardes.) Pois que veio o “levante” – o qual foi derrotado. A senha para o início da revolução seria um tiro de pólvora seca - que deveria ser disparado do Forte de Copacabana. Uma contra-senha, então, seria dada por tiros vindos das demais fortificações participantes. O tiro de Copacabana de fato houve, mas sem ouvir resposta que fosse. Assim, às onze da manhã, o Tenente Siqueira Campos comunicou aos seus aliados que haviam perdido a revolução. Em meio ao suspense e antes da marcha para o Palácio do Catete, em dado instante, no Forte, um soldado subiu num mastro para retirar a própria bandeira brasileira, que foi recortada em 28 pedaços! Acreditai, Senhor Meu Pai, Senhora Minha Mãe: a bandeira nacional foi recortada em 28 pedaços!
Despeço-me de vós, meus amados Pai e Mãe, pois agora vou noivar. Meu coração não é mais “dos outros”: já pertence, como sabeis, a Maria Cristina, que conhecereis quando aqui vierdes. Volto a vos escrever em breve; prometo-vos.
Do vosso filho,
Ricardo Coração dos Outros II.”
98 anos após a carta de Ricardo II aos seus pais, permanece a dúvida: seriam 28 os “18 do Forte”? Eduardo Gomes, que participou da revolta quando era um daqueles tenentes, quando já Brigadeiro, declarou que eram apenas 12 – e há registros de que teriam sido 11. Mais recentemente, a história ficou mais fácil e exata, ainda que menos heróica. Com tudo gravado, por exemplo, sabe-se exatamente quantos políticos receberam propina a título de tráfego de votos e outros artigos no chamado “mensalão” de 2005. O que, aliás, não faz como não fez a menor diferença. Pois que a diferença só veio a acontecer de fato depois da Revolução de 2017.
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E DOIS–
“Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1922.
Senhores Meus Pais:
Com vosso devido perdão, não entendo como tivestes a coragem de deixar a capital para viverdes como viveis, no meio do nada e sem recursos. (Mesmo sabedor do vosso desgosto com o triste fim de Policarpo Quaresma, padrinho da Senhora Minha Mãe, além de amigo e aluno de violão do Senhor Meu Pai.) Inda que bem me lembre da história que me contastes, isto é, da vontade de Minha Mãe de viver uma aventura, e que compreenda vosso desgosto por terdes, Meu Pai, servido ao exército de Floriano contra vossa vontade, mesmo que inda agora a situação na capital do país esteja tão conturbada, que cidade linda e fervorosa é a vossa! Acabo de assistir às comemorações do centenário da independência, que contaram, inclusive, com a presença do Presidente de Portugal, o Dr. Antônio José de Almeida, dentre outros mui ilustres estrangeiros. Pois que o Conde D´Eu, que vinha da França especialmente para os festejos, reconciliado, desde que, em setembro de 1920, o Sr. Epitácio Pessoa revogou o decreto de banimento da família imperial brasileira, morreu a bordo do navio que o trazia!
Já Dona Chiquinha Gonzaga conta agora com setenta e três anos. Seus chorinhos ainda se ouvem pela cidade e me dão muita alegria; vos agradeço pelos versos que me escrevestes, Meu Pai, aludindo aos choros dessa admirável Senhora. Soube que, em 1903 (eu com meus três anos), Dona Chiquinha Gonzaga viu, em Berlim, composições suas gravadas e editadas por um tal de Fred Figner, sem a devida autorização. Pois o citado Sr. Figner foi processado e, depois de profundas mudanças na legislação brasileira, aos 27 de setembro de 1917, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, foi criada a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, com Dona Chiquinha fazendo parte da Diretoria. Senhor meu pai, mandai-me vossos cadernos musicais, que vou registrá-los na S.B.A.T., para que vossos direitos de compositor sejam preservados para sempre.
Por falar em “direitos”: como me valeram vossas aulas em nossa casa! Ingressei na Universidade do Rio de Janeiro, criada há dois anos por decreto do Presidente da República; formar-me-ei Bacharel em Direito!
Já vos contei? Assisti (estupefato!) à derrubada do Morro do Castelo! Vós acreditais nisso, em tal tresloucada decisão? É o progresso!
Narro-vos agora acerca do “Levante do Forte de Copacabana” - do que li e do que vi.
Creio que mesmo aí em Cavalcante o Senhor Meu Pai e a Senhora Minha Mãe terão acompanhado pelo menos em parte as notícias a respeito. Se assim não for, vos faço sabedores de que, antes, o Marechal Hermes da Fonseca tomara o partido de militares de Pernambuco que haviam hostilizado parentes do Senhor Epitácio Pessoa. Pois que tal fato causou o fechamento do Clube Militar e a prisão do seu Presidente, que vem a ser o próprio Marechal Hermes - simplesmente o ex-Presidente da República! Tudo por causa das "Cartas Falsas", nas quais o Marechal foi chamado de "sargentão sem compostura". (Dizem por aí que tais cartas teriam sido escritas pelo Senhor Artur Bernardes.) Pois que veio o “levante” – o qual foi derrotado. A senha para o início da revolução seria um tiro de pólvora seca - que deveria ser disparado do Forte de Copacabana. Uma contra-senha, então, seria dada por tiros vindos das demais fortificações participantes. O tiro de Copacabana de fato houve, mas sem ouvir resposta que fosse. Assim, às onze da manhã, o Tenente Siqueira Campos comunicou aos seus aliados que haviam perdido a revolução. Em meio ao suspense e antes da marcha para o Palácio do Catete, em dado instante, no Forte, um soldado subiu num mastro para retirar a própria bandeira brasileira, que foi recortada em 28 pedaços! Acreditai, Senhor Meu Pai, Senhora Minha Mãe: a bandeira nacional foi recortada em 28 pedaços!
Despeço-me de vós, meus amados Pai e Mãe, pois agora vou noivar. Meu coração não é mais “dos outros”: já pertence, como sabeis, a Maria Cristina, que conhecereis quando aqui vierdes. Volto a vos escrever em breve; prometo-vos.
Do vosso filho,
Ricardo Coração dos Outros II.”
98 anos após a carta de Ricardo II aos seus pais, permanece a dúvida: seriam 28 os “18 do Forte”? Eduardo Gomes, que participou da revolta quando era um daqueles tenentes, quando já Brigadeiro, declarou que eram apenas 12 – e há registros de que teriam sido 11. Mais recentemente, a história ficou mais fácil e exata, ainda que menos heróica. Com tudo gravado, por exemplo, sabe-se exatamente quantos políticos receberam propina a título de tráfego de votos e outros artigos no chamado “mensalão” de 2005. O que, aliás, não faz como não fez a menor diferença. Pois que a diferença só veio a acontecer de fato depois da Revolução de 2017.
8.15.2005
A
Amoral: o que não tem moral. Muitas vezes o amoral é tido como espécie de marginal, - mas dos bandidos, não somente por ficar à margem, mas daqueles que ficam à nossa volta, roubando porcos, pérolas e lap-tops, mesmo que não faça nada disso, que não agrida nem avilte a nada ou ninguém.
“Atire a primeira pedra” meio que já diz tudo. É como se os puros fossem aqueles que não o são – pelo menos aqueles que não se dizem puros e que não nos exigem que o sejamos.
“Eis que é chegada a hora dos verdadeiros puros” – foi algo assim que disse Vinicius de Moraes, em livro desaparecido na bagunça de quem vem aqui desafiar as leis e especialmente os dicionários, igualmente distantes, neste momento.
Os verdadeiros puros provavelmente são amorais, por não gostarem da moral; a desprezam, por a saberem dedo a acusar outrem para esconder a própria mão que o traz, que costuma cometer delitos geralmente maiores que os supostamente cometidos pelo acusado.
A partir daqui é que se pretende introduzir um outro grupo, que poderá ser tido como amoral, ou, quem sabe, impuro: o dos afiéis.
Muito interessante observar que, dos gregos, dentre outras analogias, herdamos o αβ-to, que começa por uma negação; o contrário: A - de atemporal, anacrônico, anônimo, antônimo... Amoral.
Afiel.
Não precisamos ir ao dicionário para descobrir que os afiéis não se encontram lá, ao contrário dos fiéis e seu contrário, os infiéis. Mas urge que os afiéis passem a fazer parte das definições catalogadas.
Afiel é quem permanece único na vida de alguém e assim se mantém não por não perceber outras possibilidades e não por assim não se perceber. Tão somente se deixa único na vida de alguém por instinto: amorosamente, apaixonadamente, amoralmente; afielmente.
O resto é contrato, fidelidade, adultério, moral. E não a beleza do seu contrário; a do começo.
Pura, helênica e simplesmente “A”.
“Atire a primeira pedra” meio que já diz tudo. É como se os puros fossem aqueles que não o são – pelo menos aqueles que não se dizem puros e que não nos exigem que o sejamos.
“Eis que é chegada a hora dos verdadeiros puros” – foi algo assim que disse Vinicius de Moraes, em livro desaparecido na bagunça de quem vem aqui desafiar as leis e especialmente os dicionários, igualmente distantes, neste momento.
Os verdadeiros puros provavelmente são amorais, por não gostarem da moral; a desprezam, por a saberem dedo a acusar outrem para esconder a própria mão que o traz, que costuma cometer delitos geralmente maiores que os supostamente cometidos pelo acusado.
A partir daqui é que se pretende introduzir um outro grupo, que poderá ser tido como amoral, ou, quem sabe, impuro: o dos afiéis.
Muito interessante observar que, dos gregos, dentre outras analogias, herdamos o αβ-to, que começa por uma negação; o contrário: A - de atemporal, anacrônico, anônimo, antônimo... Amoral.
Afiel.
Não precisamos ir ao dicionário para descobrir que os afiéis não se encontram lá, ao contrário dos fiéis e seu contrário, os infiéis. Mas urge que os afiéis passem a fazer parte das definições catalogadas.
Afiel é quem permanece único na vida de alguém e assim se mantém não por não perceber outras possibilidades e não por assim não se perceber. Tão somente se deixa único na vida de alguém por instinto: amorosamente, apaixonadamente, amoralmente; afielmente.
O resto é contrato, fidelidade, adultério, moral. E não a beleza do seu contrário; a do começo.
Pura, helênica e simplesmente “A”.
8.13.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E UM–
No começo, Rita já entendia quase todos os hábitos da cidade e com eles convivia – menos o “salão” (que ela pronunciava – como até hoje pronuncia – sem o til). Tivesse chegado antes da construção da segunda hidrelétrica – ou mesmo durante -, já estaria acostumada, ou ficaria ainda mais espantada com o hábito.
Antes da segunda hidrelétrica, Minaçu era ainda mais provinciana. Durante as obras, eram comuns os bailes organizados em diferentes locais da cidade, especialmente nas noites de sábado. Peões dançavam com engenheiras, engenheiros com sociólogas ou manicures, a população quase que em peso comparecia. Dançavam um ritmo que misturava música regional sertaneja - ou “Brazilian country music” - com alguma coisa parecida com rumba: era assim que parecia aos ouvidos de Rita e de seu conterrâneo Robert Preston Jr., ambos chegados depois da obra pronta e que jamais foram àqueles bailes; mas o ritmo ainda se ouvia em alguns bares e residências, em 2002 – quando Mr. Preston e Rita chegaram, sem nunca se conhecerem - e depois. (Um ano depois, nasceria Ricardo Coração dos Outros VI e Mr. Preston iría de carro até Brasília, fazendo o mesmo percurso de Ricardo V quando, em 2006, foi buscar mulher e filho chegados de Orlando e foi fotografado por Giulio Vincenzo, o falso Dr. Scarpini.) Porém, mesmo quando não havia um único mísero baile para se ir, o encontro vespertino das mulheres era no “salão” – o tradicional “salão de beleza”, tão comum em todas as cidades brasileiras, onde é igualmente comum a conversa entre mulheres, geralmente sobre a vida alheia.
Na Minaçu de depois da segunda hidrelétrica até hoje o hábito se mantém, mas não com a duração e intensidade dos tempos a ela anteriores. As tardes eram imensas – dificilmente havia o que se fazer, a não ser ir ao “salão”, onde duas cabeleireiras-manicures revezavam-se, penteando e “fazendo o pé” ou “fazendo a mão” de – quiçá – todas as mulheres minaçuanas do mundo – mas de uma forma organizada, pois nunca se soube de uma fila. Enquanto duas mulheres eram atendidas, outras esperavam abanando-se e servindo-se de café; e todas falavam ao mesmo tempo. O mesmo Brasil de “Memórias de um sargento de milícias” se repetia naquela vizinhança, onde casos de adultério terminados ou não em morte serviam de assunto por bom tempo.
Rita estava curiosa por conhecer o tal “salão”, ainda pouco compreendendo o sotaque do cerrado. Foi lá acompanhada da assistente social, residente em Minaçu por conta da segunda hidrelétrica e seus reassentamentos, que a levara com o marido, Ricardo V, a uma das comunidades rurais vizinhas. Que era uma tarde muito quente, não era novidade – mas Rita percebeu haver grande excitamento no lugar. Custou a entender: era a mesma história de um estrangeiro que se dissera “turista” por aquelas bandas e acompanhara a assistente social à mesma comunidade e depois fora denunciado por uma jornalista como “falso turista”. Aquela história era repetida em toda parte, inclusive na casa de Rita, tendo sido motivo de brigas do casal, pois Ricardo V desconfiava de planos de dominação da região por comunidades ou instituições norte-americanas – sendo que, às vezes, desconfiava de que o plano fosse do próprio estado americano, do país, os Estados Unidos da América. Ricardo VI já com dois, três anos, em 2005, 2006, e a mesma história ainda amolava a paz do casal – que só viria a conhecer a verdadeira história do falso turista por meio de Giulio Vincenzo, em 2006 – que não deixa de ser relacionada à revolução de 2017, como se verá.
Já em 1920, Ricardo II desembarcava de trem no Rio de Janeiro, capital da República e berço de seus pais, Ricardo Coração dos Outros e Olga, habitantes de Cavalcante, Goiás, onde ele nascera. Era o governo de Epitácio Pessoa. Naquele mesmo ano, foi realizado o recenseamento da população no Brasil, tendo sido contados trinta milhões, seiscentos e trinta e cinco mil, seiscentos e oitenta e cinco habitantes, dos quais um milhão, cento e cinqüenta e sete mil, oitocentos e setenta e três no Rio de Janeiro. Gente pra burro! – Ricardo II, com seus vinte anos, espantou-se. Mais ainda com as tropas na Avenida Rio Branco, perfiladas para receber os reis Alberto I e Elizabeth, da Bélgica. Dois anos depois, testemunharia o levante do Forte de Copacabana. Era demais para um pobre coração dos outros nascido em Cavalcante.
- CAPÍTULO VINTE E UM–
No começo, Rita já entendia quase todos os hábitos da cidade e com eles convivia – menos o “salão” (que ela pronunciava – como até hoje pronuncia – sem o til). Tivesse chegado antes da construção da segunda hidrelétrica – ou mesmo durante -, já estaria acostumada, ou ficaria ainda mais espantada com o hábito.
Antes da segunda hidrelétrica, Minaçu era ainda mais provinciana. Durante as obras, eram comuns os bailes organizados em diferentes locais da cidade, especialmente nas noites de sábado. Peões dançavam com engenheiras, engenheiros com sociólogas ou manicures, a população quase que em peso comparecia. Dançavam um ritmo que misturava música regional sertaneja - ou “Brazilian country music” - com alguma coisa parecida com rumba: era assim que parecia aos ouvidos de Rita e de seu conterrâneo Robert Preston Jr., ambos chegados depois da obra pronta e que jamais foram àqueles bailes; mas o ritmo ainda se ouvia em alguns bares e residências, em 2002 – quando Mr. Preston e Rita chegaram, sem nunca se conhecerem - e depois. (Um ano depois, nasceria Ricardo Coração dos Outros VI e Mr. Preston iría de carro até Brasília, fazendo o mesmo percurso de Ricardo V quando, em 2006, foi buscar mulher e filho chegados de Orlando e foi fotografado por Giulio Vincenzo, o falso Dr. Scarpini.) Porém, mesmo quando não havia um único mísero baile para se ir, o encontro vespertino das mulheres era no “salão” – o tradicional “salão de beleza”, tão comum em todas as cidades brasileiras, onde é igualmente comum a conversa entre mulheres, geralmente sobre a vida alheia.
Na Minaçu de depois da segunda hidrelétrica até hoje o hábito se mantém, mas não com a duração e intensidade dos tempos a ela anteriores. As tardes eram imensas – dificilmente havia o que se fazer, a não ser ir ao “salão”, onde duas cabeleireiras-manicures revezavam-se, penteando e “fazendo o pé” ou “fazendo a mão” de – quiçá – todas as mulheres minaçuanas do mundo – mas de uma forma organizada, pois nunca se soube de uma fila. Enquanto duas mulheres eram atendidas, outras esperavam abanando-se e servindo-se de café; e todas falavam ao mesmo tempo. O mesmo Brasil de “Memórias de um sargento de milícias” se repetia naquela vizinhança, onde casos de adultério terminados ou não em morte serviam de assunto por bom tempo.
Rita estava curiosa por conhecer o tal “salão”, ainda pouco compreendendo o sotaque do cerrado. Foi lá acompanhada da assistente social, residente em Minaçu por conta da segunda hidrelétrica e seus reassentamentos, que a levara com o marido, Ricardo V, a uma das comunidades rurais vizinhas. Que era uma tarde muito quente, não era novidade – mas Rita percebeu haver grande excitamento no lugar. Custou a entender: era a mesma história de um estrangeiro que se dissera “turista” por aquelas bandas e acompanhara a assistente social à mesma comunidade e depois fora denunciado por uma jornalista como “falso turista”. Aquela história era repetida em toda parte, inclusive na casa de Rita, tendo sido motivo de brigas do casal, pois Ricardo V desconfiava de planos de dominação da região por comunidades ou instituições norte-americanas – sendo que, às vezes, desconfiava de que o plano fosse do próprio estado americano, do país, os Estados Unidos da América. Ricardo VI já com dois, três anos, em 2005, 2006, e a mesma história ainda amolava a paz do casal – que só viria a conhecer a verdadeira história do falso turista por meio de Giulio Vincenzo, em 2006 – que não deixa de ser relacionada à revolução de 2017, como se verá.
Já em 1920, Ricardo II desembarcava de trem no Rio de Janeiro, capital da República e berço de seus pais, Ricardo Coração dos Outros e Olga, habitantes de Cavalcante, Goiás, onde ele nascera. Era o governo de Epitácio Pessoa. Naquele mesmo ano, foi realizado o recenseamento da população no Brasil, tendo sido contados trinta milhões, seiscentos e trinta e cinco mil, seiscentos e oitenta e cinco habitantes, dos quais um milhão, cento e cinqüenta e sete mil, oitocentos e setenta e três no Rio de Janeiro. Gente pra burro! – Ricardo II, com seus vinte anos, espantou-se. Mais ainda com as tropas na Avenida Rio Branco, perfiladas para receber os reis Alberto I e Elizabeth, da Bélgica. Dois anos depois, testemunharia o levante do Forte de Copacabana. Era demais para um pobre coração dos outros nascido em Cavalcante.
8.08.2005
LAMENTAMOS INFORMAR, MAS O SÉCULO QUE CHEGOU FOI O XIX
Na capa está escrito que a crise sobe a rampa, mas o que chama a atenção é uma alemã, chamada Judith Mair, que descobriu a fórmula da liberdade: a prisão. (A revista é “Época”, edição de 8 de agosto de 2005.)
Pegue lá um conto ou romance do século dezenove – pode ser inglês ou russo, tanto faz. Perceba o ambiente severo de escritórios e repartições: ar sombrio, atmosfera carregada de silêncio e temor, ninguém fala com ninguém, só despacha, defere, indefere, carimba, molha a pena, assina, levanta, vai ao banheiro, volta, senta-se novamente, olhando de soslaio para o chefe, um sisudo, para ver se ele recriminou o tempo em que seu carimbo deixou de carimbar e sua pena ficou seca. Não é de você que falamos - afinal seu século é outro, o do Monge e o Executivo, do líder no lugar do chefe, o que é amado e respeitado e não temido e obedecido.
Pois Dona Judith, 33 anos, autora do best-seller “chega de Oba-Oba!”, descobriu que as empresas ditas modernas escravizam os indivíduos, exatamente por os encherem de liberdade. A liberdade de conversar com o colega, de deixar ligado o celular, segundo ela, escraviza. Ela faz questão de lembrar também que Sábado é dia de churrasco. É claro: com o pessoal da empresa e o chefe – opa! Chefe não: líder. O que ela propõe e pratica em sua empresa? Celular desligado, conversas, só as essenciais, no lugar de nomes, sobrenomes. Em contrapartida, acabou o expediente? Até amanhã. Nada de “confraternização de fim de semana”; ninguém do trabalho vai ligar convidando você para uma partida de tênis ou uma rapidinha, isto é, reuniãozinha, na tarde de domingo. Ou, como conversam os humildes: “A que horas você pega no serviço?”. “Pego às 8 e largo às 18 e folgo no fim de semana.”.
Acompanhados de Judith, saímos do século XX e chegamos não ao XXI, mas ao XIX; e começamos a achar que fizemos bom negócio: as guerras tão cedo serão atômicas; morreremos de tédio e tuberculose e não de atropelamento e stress. O chato é que o mesmo triste espetáculo se repete: a crise sobe ou desce a rampa, discursos enfadonhos e vazios nos penetram a intimidade e os ouvidos, sofistas e dialéticos se revezam a discutir se precisamos ou não de líderes, se liderar é chefiar, nata qualidade ou aristotélica ou maquiavélica invenção. Se você trabalha, dá graças a Deus e, se está sem trabalho, é a Ele que você pede emprego - logo você, que não crê; logo você, que tanto crê e não compreende.
Voltamos ao XXI? Anime-se: há novas perspectivas para o sexo e o rock’n roll – mesmo porque, com a música e os discursos que andam por aí, melhor reinventar o roque e fazer sexo com bossa nova.
Assim viajamos no tempo, sem precisar de tecnologia. Amanhã é dia de trabalho e, quer apostar? Essa noite você sonhará com Judith.
A não ser que seu subconsciente lhe pregue uma peça e lhe dê de presente uma rampa.
Pegue lá um conto ou romance do século dezenove – pode ser inglês ou russo, tanto faz. Perceba o ambiente severo de escritórios e repartições: ar sombrio, atmosfera carregada de silêncio e temor, ninguém fala com ninguém, só despacha, defere, indefere, carimba, molha a pena, assina, levanta, vai ao banheiro, volta, senta-se novamente, olhando de soslaio para o chefe, um sisudo, para ver se ele recriminou o tempo em que seu carimbo deixou de carimbar e sua pena ficou seca. Não é de você que falamos - afinal seu século é outro, o do Monge e o Executivo, do líder no lugar do chefe, o que é amado e respeitado e não temido e obedecido.
Pois Dona Judith, 33 anos, autora do best-seller “chega de Oba-Oba!”, descobriu que as empresas ditas modernas escravizam os indivíduos, exatamente por os encherem de liberdade. A liberdade de conversar com o colega, de deixar ligado o celular, segundo ela, escraviza. Ela faz questão de lembrar também que Sábado é dia de churrasco. É claro: com o pessoal da empresa e o chefe – opa! Chefe não: líder. O que ela propõe e pratica em sua empresa? Celular desligado, conversas, só as essenciais, no lugar de nomes, sobrenomes. Em contrapartida, acabou o expediente? Até amanhã. Nada de “confraternização de fim de semana”; ninguém do trabalho vai ligar convidando você para uma partida de tênis ou uma rapidinha, isto é, reuniãozinha, na tarde de domingo. Ou, como conversam os humildes: “A que horas você pega no serviço?”. “Pego às 8 e largo às 18 e folgo no fim de semana.”.
Acompanhados de Judith, saímos do século XX e chegamos não ao XXI, mas ao XIX; e começamos a achar que fizemos bom negócio: as guerras tão cedo serão atômicas; morreremos de tédio e tuberculose e não de atropelamento e stress. O chato é que o mesmo triste espetáculo se repete: a crise sobe ou desce a rampa, discursos enfadonhos e vazios nos penetram a intimidade e os ouvidos, sofistas e dialéticos se revezam a discutir se precisamos ou não de líderes, se liderar é chefiar, nata qualidade ou aristotélica ou maquiavélica invenção. Se você trabalha, dá graças a Deus e, se está sem trabalho, é a Ele que você pede emprego - logo você, que não crê; logo você, que tanto crê e não compreende.
Voltamos ao XXI? Anime-se: há novas perspectivas para o sexo e o rock’n roll – mesmo porque, com a música e os discursos que andam por aí, melhor reinventar o roque e fazer sexo com bossa nova.
Assim viajamos no tempo, sem precisar de tecnologia. Amanhã é dia de trabalho e, quer apostar? Essa noite você sonhará com Judith.
A não ser que seu subconsciente lhe pregue uma peça e lhe dê de presente uma rampa.
8.06.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE –
Giulio Vincenzo não gostava de que seu sobrenome fosse um segundo nome próprio, principalmente por tê-lo herdado do pai que jamais conheceu, por mórbida paixão da mãe, Sophia, que desprezou o próprio sobrenome, Lorenzi, para não caracterizar o que era de todo óbvio: Giulio era filho de mãe solteira.
Chegara à profissão de antropólogo por tortuosas vias. Tentara medicina, sem conseguir ingressar na faculdade; depois, veterinária, mas, ao perder o primeiro período por insuficiência, desistiu; conseguiu, com grande dificuldade, uma vaga em sociologia – que abandonou, porque perdia o sono às noites, já que este lhe tomava os dias, nas aulas, quando sua concentração era uma corrente de vento que entrava pela janela, cheia de elos desatados. Ingressou no exército e seguiu em missão de paz para Serra Leoa. Viu tanta desgraça ao lado do renomado antropólogo Dr. Vincenzo (coincidência que, a princípio, tomara como maldita), de sobrenome Scarpini, que, quando este, ainda moço, desabou de febre e de frio e de morte ao lado dele, Giulio, encarregado de zelar pela vida do doutor, numa tarde de calor e poeira insuportáveis, decidiu enterrar-lhe por ali, só que sem a carteira de notas e documentos – que passaram a lhe acompanhar, com a devida troca de retratos e constante renovação das notas, desde a fuga e deserção daquele inferno humano até aqueles momentos, em que se encontrava no cerrado brasileiro, escondendo-se atrás de uma árvore, após ter sido flagrado pelo sujeito pago pela universidade para desenvolver uma tese maluca, a mesma universidade que contratara Giulio para fazer o que eles haviam chamado de “pesquisas paralelas”.
O eterno retorno. Da África, fugira para o Brasil, mais precisamente Rio de Janeiro, que atraía como atraiu e até hoje atrai estrangeiros de toda parte, nas mais diversas fases da sua história. Alguns a procuram quando sua fama é de tranqüilidade; outros, quando, mesmo ou porque, suas notícias são de risco e violência – como naquele 2006. Giulio fora em busca de mar, mulheres e oportunidades de exercer a profissão que conquistara pela morte do homem cuja vida dependera da sua proteção, contra a qual não cometera qualquer violência, morte que se deu ao seu lado, na ausência de outras testemunhas e que entendeu como dádiva divina. Conseguira ler poucas páginas de alguns dos livros do Doutor Scarpini, que agora era ele e, portanto, a ele, Giulio, pertenciam, ora com espanto, ora com a mesma sonolência dos bancos universitários que chegou a freqüentar. Mas o que lhe dava prazer de verdade eram as anotações de Vincenzo Scarpini em um caderno que trazia consigo dentro da mochila pendurada nos ombros e apoiada nas costas quando caiu sem vida. Não pelas desgraças humanas narradas pelo cientista que agora personificava, mas pela riqueza de detalhes, de expressões em latim, além de exclamações de alguém verdadeiramente apaixonado pelo que fazia. Essas exclamações é que entusiasmaram Giulio e que foram por ele incorporadas para compor sua personagem, o tipo que resolveu adotar para si, na pele do Doutor em antropologia, Signore Vincenzo Scarpini.
No Rio não conseguia parar de, às manhãs e tardes, zanzar pelos calçadões de Copacabana, Ipanema e Leblon; de, às noites, deixar-se preso a tulipas de chopes nos bares de Copacabana, abordado por prostitutas que lhe aquietavam os instintos e, às vezes, a alma; de, quando de dia novamente, voltar a caminhar em bermudas e tênis nos calçadões à beira da praia, quando pensava despertar a atenção de mulheres de variadas idades e se engraçava para algumas delas, sem, no entanto, lograr êxito - a não ser uma única vez, que veio a levar-lhe do Rio à Flórida. Namorou Fernanda por uma semana, quando passaram a maior parte do tempo trancados no quarto lateral do hotel de Copacabana, fazendo sexo a mais não poder, a conversar num ritmo de descombinação latina, com poucas e profundas pausas entremeadas por grandes atropelos de caudalosas e desconexas frases, até que ela lhe convidou:
- Vamos para Miami; lá se ganha em dólar.
Pararam mesmo foi em Orlando, onde se desentenderam, pois, lá, conseguiu realizar seu sonho de ser tomado por antropólogo, o renomado Doutor Vincenzo Scarpini, dado como desaparecido em Serra Leoa. Foi contratado, com a instrução de realizar pesquisas paralelas e secretas às de Ricardo Coração dos Outros V, com o mesmo tema, com o seguinte recado, explícito, firme, sem margens para dúvidas:
- Acompanhe os passos de Ricardo. Is that clear?
- Absolutely – Giulio respondeu, como aprendera com Fernanda, que passou a exercer outra profissão em Orlando e por lá permaneceu.
Assim foi o retorno de Giulio Vincenzo, filho de Sophia Lorenzi, vulgo Doutor Vincenzo Scarpini, ao Brasil, agora para a região do cerrado goiano, com escala na capital, Brasília – mesmo percurso que um certo Mr. Robert Preston Jr. fizera, à mando da mesma universidade, três anos antes, quando Ricardo V e Rita eram recém-chegados em Minaçu. Como era o período seco, a poeira estava de matar. “De volta ao pó” – pensou Giulio - ou “aquele merda”, como a ele Ricardo V se referira, sem que Giulio soubesse, ainda que assim se sentisse.
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE –
Giulio Vincenzo não gostava de que seu sobrenome fosse um segundo nome próprio, principalmente por tê-lo herdado do pai que jamais conheceu, por mórbida paixão da mãe, Sophia, que desprezou o próprio sobrenome, Lorenzi, para não caracterizar o que era de todo óbvio: Giulio era filho de mãe solteira.
Chegara à profissão de antropólogo por tortuosas vias. Tentara medicina, sem conseguir ingressar na faculdade; depois, veterinária, mas, ao perder o primeiro período por insuficiência, desistiu; conseguiu, com grande dificuldade, uma vaga em sociologia – que abandonou, porque perdia o sono às noites, já que este lhe tomava os dias, nas aulas, quando sua concentração era uma corrente de vento que entrava pela janela, cheia de elos desatados. Ingressou no exército e seguiu em missão de paz para Serra Leoa. Viu tanta desgraça ao lado do renomado antropólogo Dr. Vincenzo (coincidência que, a princípio, tomara como maldita), de sobrenome Scarpini, que, quando este, ainda moço, desabou de febre e de frio e de morte ao lado dele, Giulio, encarregado de zelar pela vida do doutor, numa tarde de calor e poeira insuportáveis, decidiu enterrar-lhe por ali, só que sem a carteira de notas e documentos – que passaram a lhe acompanhar, com a devida troca de retratos e constante renovação das notas, desde a fuga e deserção daquele inferno humano até aqueles momentos, em que se encontrava no cerrado brasileiro, escondendo-se atrás de uma árvore, após ter sido flagrado pelo sujeito pago pela universidade para desenvolver uma tese maluca, a mesma universidade que contratara Giulio para fazer o que eles haviam chamado de “pesquisas paralelas”.
O eterno retorno. Da África, fugira para o Brasil, mais precisamente Rio de Janeiro, que atraía como atraiu e até hoje atrai estrangeiros de toda parte, nas mais diversas fases da sua história. Alguns a procuram quando sua fama é de tranqüilidade; outros, quando, mesmo ou porque, suas notícias são de risco e violência – como naquele 2006. Giulio fora em busca de mar, mulheres e oportunidades de exercer a profissão que conquistara pela morte do homem cuja vida dependera da sua proteção, contra a qual não cometera qualquer violência, morte que se deu ao seu lado, na ausência de outras testemunhas e que entendeu como dádiva divina. Conseguira ler poucas páginas de alguns dos livros do Doutor Scarpini, que agora era ele e, portanto, a ele, Giulio, pertenciam, ora com espanto, ora com a mesma sonolência dos bancos universitários que chegou a freqüentar. Mas o que lhe dava prazer de verdade eram as anotações de Vincenzo Scarpini em um caderno que trazia consigo dentro da mochila pendurada nos ombros e apoiada nas costas quando caiu sem vida. Não pelas desgraças humanas narradas pelo cientista que agora personificava, mas pela riqueza de detalhes, de expressões em latim, além de exclamações de alguém verdadeiramente apaixonado pelo que fazia. Essas exclamações é que entusiasmaram Giulio e que foram por ele incorporadas para compor sua personagem, o tipo que resolveu adotar para si, na pele do Doutor em antropologia, Signore Vincenzo Scarpini.
No Rio não conseguia parar de, às manhãs e tardes, zanzar pelos calçadões de Copacabana, Ipanema e Leblon; de, às noites, deixar-se preso a tulipas de chopes nos bares de Copacabana, abordado por prostitutas que lhe aquietavam os instintos e, às vezes, a alma; de, quando de dia novamente, voltar a caminhar em bermudas e tênis nos calçadões à beira da praia, quando pensava despertar a atenção de mulheres de variadas idades e se engraçava para algumas delas, sem, no entanto, lograr êxito - a não ser uma única vez, que veio a levar-lhe do Rio à Flórida. Namorou Fernanda por uma semana, quando passaram a maior parte do tempo trancados no quarto lateral do hotel de Copacabana, fazendo sexo a mais não poder, a conversar num ritmo de descombinação latina, com poucas e profundas pausas entremeadas por grandes atropelos de caudalosas e desconexas frases, até que ela lhe convidou:
- Vamos para Miami; lá se ganha em dólar.
Pararam mesmo foi em Orlando, onde se desentenderam, pois, lá, conseguiu realizar seu sonho de ser tomado por antropólogo, o renomado Doutor Vincenzo Scarpini, dado como desaparecido em Serra Leoa. Foi contratado, com a instrução de realizar pesquisas paralelas e secretas às de Ricardo Coração dos Outros V, com o mesmo tema, com o seguinte recado, explícito, firme, sem margens para dúvidas:
- Acompanhe os passos de Ricardo. Is that clear?
- Absolutely – Giulio respondeu, como aprendera com Fernanda, que passou a exercer outra profissão em Orlando e por lá permaneceu.
Assim foi o retorno de Giulio Vincenzo, filho de Sophia Lorenzi, vulgo Doutor Vincenzo Scarpini, ao Brasil, agora para a região do cerrado goiano, com escala na capital, Brasília – mesmo percurso que um certo Mr. Robert Preston Jr. fizera, à mando da mesma universidade, três anos antes, quando Ricardo V e Rita eram recém-chegados em Minaçu. Como era o período seco, a poeira estava de matar. “De volta ao pó” – pensou Giulio - ou “aquele merda”, como a ele Ricardo V se referira, sem que Giulio soubesse, ainda que assim se sentisse.
8.03.2005
LINOLOGIA
Os dicionários dirão que a palavra certa é “Limnologia” - ciência que estuda a qualidade das águas doces -, mas o assunto aqui é outro: a Linologia; a lógica do Lino.
Lino tem 104 anos – você não leu errado: cento e quatro anos -, é natural de Florianópolis, não fuma e só bebe quando quer, toca pandeiro e vai, de vez em quando, a São Paulo.
Não vê, não lê e não ouve noticiários sobre crimes; casou uma só vez e enviuvou; é namorador e galanteador.
Lino é uma mistura de bugre com alemão. Bugre: indivíduo dos bugres, tribo indígena do sul do Brasil. Alemão: nascido na Alemanha. De certo descenderá de um inconformado e visionário, que fugiu para um paraíso que aqui se escondia e ainda se esconde, onde nenhum outro branco jamais chegou nem chegará, e casou-se com uma, duas ou três índias - uma das quais deu origem à raça Lino, que veio parar na Ilha de Santa Catarina.
Seu neto dirige um táxi, tem a mesma cor do avô e por volta de quarenta e cinco anos. Vai ao médico e faz os exames recomendados regularmente: de cinco em cinco anos.
Lino planta no quintal da casa onde mora, vai a pé comprar pão, tomate e, uma vez ou outra, cachaça - que bebe aos goles lentos e filosofais, balançando-se em uma cadeira que lhe ensina o movimento da terra em torno do sol com uma precisão que a ciência jamais conhecerá.
Aulas de Linologia deveriam ser ministradas de Florianópolis para o mundo, quem sabe afastando o tráfico e trazendo o mundo de volta, que anda longe e triste, pra lá de Bagdá.
Revisão do original de 26 de julho de 2003. E a guerra continua. Que infantilidade! Ela nunca parou, não é?
Lino tem 104 anos – você não leu errado: cento e quatro anos -, é natural de Florianópolis, não fuma e só bebe quando quer, toca pandeiro e vai, de vez em quando, a São Paulo.
Não vê, não lê e não ouve noticiários sobre crimes; casou uma só vez e enviuvou; é namorador e galanteador.
Lino é uma mistura de bugre com alemão. Bugre: indivíduo dos bugres, tribo indígena do sul do Brasil. Alemão: nascido na Alemanha. De certo descenderá de um inconformado e visionário, que fugiu para um paraíso que aqui se escondia e ainda se esconde, onde nenhum outro branco jamais chegou nem chegará, e casou-se com uma, duas ou três índias - uma das quais deu origem à raça Lino, que veio parar na Ilha de Santa Catarina.
Seu neto dirige um táxi, tem a mesma cor do avô e por volta de quarenta e cinco anos. Vai ao médico e faz os exames recomendados regularmente: de cinco em cinco anos.
Lino planta no quintal da casa onde mora, vai a pé comprar pão, tomate e, uma vez ou outra, cachaça - que bebe aos goles lentos e filosofais, balançando-se em uma cadeira que lhe ensina o movimento da terra em torno do sol com uma precisão que a ciência jamais conhecerá.
Aulas de Linologia deveriam ser ministradas de Florianópolis para o mundo, quem sabe afastando o tráfico e trazendo o mundo de volta, que anda longe e triste, pra lá de Bagdá.
Revisão do original de 26 de julho de 2003. E a guerra continua. Que infantilidade! Ela nunca parou, não é?
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