UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E OITO –
Ricardo II morreu na segunda guerra mundial. Resolveu que seria correspondente de guerra para desespero de Maria Cristina, com quem se casou depois que ela se arrependeu de ceder às pressões familiares para deixar o plebeu Coração dos Outros II e enamorar-se de um rico filho mais moço de um nobre e já ligeiramente velho amigo de Alfredo D\'Escragnolle (Visconde de) Taunay - com o qual o antepassado do ex-quase-noivo de Maria Cristina teria estado na “heróica retirada da Laguna”.
Da mesma forma que pode soar estranho que tenha sido heróica uma retirada, muito estranho era, para muitos, que Ricardo II e Maria Cristina se dessem tão bem, como deixou registrado o amigo dele do qual descende um conhecido Profissional de Comunicações e Reportagens desses nossos dias de 2020. Talvez, aliás, bastasse saber que Ricardo II deixou a viúva com dois filhos, Ricardo III e Ricardo Maria, e duas filhas, Ricardina Cristina e a poetisa, que morreria concretista, Olga Cristina Bastos Coração dos Outros – embora, é claro, filhos, ainda que em número significativo, nem sempre sejam sinal de amor verdadeiro. Mas o deles era.
Convém fazer logo outro registro de interrupção de trajetória visível a olhos meramente humanos: Olga e Ricardo Coração dos Outros, de cuja fuga do Rio de Janeiro dos tempos do Marechal de Ferro nasceria a dinastia da qual aqui livremente se fala e que participou de importantes e nem sempre heróicos episódios da história pátria, especialmente a Revolução de 2017, simplesmente desapareceram, sem deixar nenhum sinal que fosse, em mais um percurso de Cavalcante ao Rio – exatamente quando o objetivo da viagem era conhecer a nora, Maria Cristina. Deixaram em Cavalcante a única irmã de Ricardo II, Ricardina Olga Tavares e Silva, casada com o Coronel Eurípides Ovídio Tavares e Silva, que não foi a nenhuma guerra não por outro motivo que não fosse o de que seu título militar tenha sido obtido pela sua atividade de dono de mina de ouro – alguém que explorava não só minério, mas mão de obra também (tudo indica que com alguma correção pecuniária, mas com certo excesso de autoridade).
A atividade de exploração mineral ainda perduraria por muitos anos na região, para onde o fluxo de nortistas do Pará e nordestinos do Maranhão foi bastante intenso, até ainda depois da fundação de Minaçu, em 1976. Por exemplo, no centro mesmo de Cavalcante, havia uma mina que foi passando de mão em mão a cada vez que dava sinais de exaustão até idos já deste século XXI. O garimpo a base de mercúrio e bateia na beira dos rios e diferentes formas de mineração de algum modo legalmente constituídas conviveram por séculos, gerando um pouco de tudo que há na história humana: povoados, cidades, riqueza, pobreza, miséria, fidalguia, covardia, famílias, desavenças, disputas judiciais, matança de índios, abruptos desemprego e perda irrecuperável de renda, vida nômade, outras matanças, sangue - mais sangue, até, que ouro.
Porém, tal e qual nem toda riqueza vem do ouro – em sentido largo e estrito -, nem sempre foi o ouro que causou sangramento e desgraça na região.
Dentre algumas das anotações do falso antropólogo italiano, a serviço dos empregadores de Ricardo V a seguir e reportar seus passos, porque este desenvolvia na época suas primeiras idéias de uma revolução social pacífica, achou-se a seguinte:
“R V cismou de fazer caminhadas. Debaixo desse sol acachapante, o louco sai andando desde a casa dele, na Vila de Furnas, perto da esquina de Porto Colômbia com a Av Maranhão, até o centro da cidade, percorrendo a mesma Av M de ida e volta, numa distância total superior a 10 kM. Isso às 4 ou 5 da tarde, mama mia!, quando o sol ainda está fervendo e do chão de asfalto sai o bafo do demônio. Ainda bem que está terminando a estação seca, quando só se respira poeira quente e a gente nem precisa de cachaça pra sentir tonteira, porque seguir o camarada debaixo de muita água é desgraça um pouco menor que ficar debaixo desse sol daqui. Hoje dei sorte de pegar o moto-taxi certo, uma mocinha gostosinha de apertar na cintura e que respeita os quebra-mola, não é que nem uns doido que tem por aqui e ultrapassa os cruzamento sem nem olhar. Hoje, como estava chovendo, o maluco resolveu mudar o trajeto e ficar subindo e descendo a Porto Colômbia pra cima e pra baixo e fiquei que nem um idiota atrás dele, na garupa da motoca. Tá na cara que ele já sabe que eu estou na cola dele, mas não tenho o que fazer, os americano querem assim, depois invento umas bobagem e eles fica satisfeito. Vi umas meninada interessante saindo do colégio, valeu a maluquice diária. Os menino de chinelo de dedo, aqui não parece chinelo que a modelo famosa usa, é chinelo de dedo mesmo, nem dá pra chamar de flip-flop que nem os americano. As menina, que graça, fala umas palavra bonita e de repente uns ‘caralho!’, esses brasileiro parece italiano. Mas que pena: Sábado passado, de noite, já era quase Domingo, um meninote que reclamou que um outro tinha roubado o boné dele foi espancado pelos amigo do ladrão do boné na porta do baile onde eu estava, boa parte da cidade estava no baile. O rapazola que levou porrada foi em casa e voltou com uma faca de cozinha e, mama mia, tem um que ficou sem o braço e outro que perdeu os dedo e um terceiro foi a orelha esquerda que deixou ele. Pena que o quarto foi furado no fígado, morreu na hora, uma pena, tudo uns garoto, tudo com cara de anjo. Tem uns dois paisano na minha cola, já saquei, todos os dia.”.
O DIÁRIO DO MARIO contém crônicas e poemas de Mario Benevides, além do embrião do romance A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO, do mesmo autor, publicado em 2007 pela Design Editora, aqui no blog com o título A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS.
10.02.2005
9.27.2005
A PROIBIÇÃO DA VENDA DE ARMAS; UMA DISCUSSÃO EM TEMPO REAL
A discussão tem sua razão. Andam se matando por aí a troco de troco. Depois, ao entrar numa loja e pedir uma Parabelum, ninguém lhe perguntará se é com açúcar ou adoçante.
Você já passou pelo teste e afirmou: armas usadas pelos bandidos não são compradas na loja. Além disso, você já se viu no espelho a dizer que tem todo o direito de se defender e portanto portar uma arma. E mais. Você já repassou aos amigos a mensagem da Internet que alerta: - Atenção, você não terá arma em casa e seu vizinho também não e o bandido terá certeza disso e você estará indefeso e não poderá pedir socorro a ninguém, somente à polícia, que está mal armada e impotente. (Ou mal amada e impotente.)
Você não se conhece o suficiente e não comprará uma arma porque tem medo de ficar triste e resolver acabar com a tristeza com um tiro na própria testa ou na de quem você mais ama. Teme também que limpar a arma lhe dê uma mortal dor de cabeça. Você também conhece seu filho e sua filha e sabe muito bem que eles poderão brincar de bang-bang ou traficante-mirim e bang-bang, pronto, um dos dois foi ao chão com uma bala no coração ou na mão que chateação ter que ir ao hospital na hora do Fantástico.
Mas a proibição leva à contravenção - basta lembrar da Lei Seca, nos Estados Unidos de Al Capone; por outro lado, deixar como está poderá manter tudo como está ou incentivar a quem jamais pensou em comprar uma arma, a adquirir uma ou duas.
A quem interessar possa, vou continuar não tendo nem comprando armas e votarei pela proibição da sua venda, porque: (i) acho perigoso demais ter-se dentro de casa o risco da facilidade mortífera que uma arma de fogo proporciona; (ii) trancá-la a sete chaves é o mesmo que não possuí-la; (iii) o bandido sempre terá mais motivos e destreza que a vítima em usá-la, especialmente quando se sentir por ela ameaçado; (iv) gritar “socorro” aos vizinhos quando se está ameaçado por alguém armado, nos dias e no Brasil de hoje, me parece mais provável como auto-sentença de morte que real perspectiva de socorro; (v) sou otimista: caso vença a proibição, os fabricantes de armas as continuarão fabricando – só que exclusivamente para as forças armadas, e estas serão mais cobradas por uma sociedade desarmada; (vi) o argumento de que o referendo à proibição do comércio seja manobra para um golpe de estado, primeiramente desarmando a população e depois via associação com o tráfico, é esquecer que a história mostra que nenhum golpe de estado surgiu e prevaleceu sem amparo de significativa parcela da população, no mínimo em poder relativo na sociedade – e, por pior que esteja o crédito dos políticos, há claras demonstrações de que o que a maioria quer é aperfeiçoar a democracia e não jogá-la fora, além de não haver nenhum real poder ameaçado a ponto de se arriscar em aventura desse tipo. E, otimista que sou, ainda que o tráfico possa ter representantes dis-farc-çados no Congresso, não consigo imaginar nem esquerda nem direita brasileira, com efetiva representatividade, sócia do tráfico para alçar o poder à força.
Assim, com todo respeito a quem pensar diferente e sem nenhuma pretensão idiota de defender uma bandeira, se me perguntassem Vai um diet Colt aí?, minha resposta seria Não, obrigado.
Você já passou pelo teste e afirmou: armas usadas pelos bandidos não são compradas na loja. Além disso, você já se viu no espelho a dizer que tem todo o direito de se defender e portanto portar uma arma. E mais. Você já repassou aos amigos a mensagem da Internet que alerta: - Atenção, você não terá arma em casa e seu vizinho também não e o bandido terá certeza disso e você estará indefeso e não poderá pedir socorro a ninguém, somente à polícia, que está mal armada e impotente. (Ou mal amada e impotente.)
Você não se conhece o suficiente e não comprará uma arma porque tem medo de ficar triste e resolver acabar com a tristeza com um tiro na própria testa ou na de quem você mais ama. Teme também que limpar a arma lhe dê uma mortal dor de cabeça. Você também conhece seu filho e sua filha e sabe muito bem que eles poderão brincar de bang-bang ou traficante-mirim e bang-bang, pronto, um dos dois foi ao chão com uma bala no coração ou na mão que chateação ter que ir ao hospital na hora do Fantástico.
Mas a proibição leva à contravenção - basta lembrar da Lei Seca, nos Estados Unidos de Al Capone; por outro lado, deixar como está poderá manter tudo como está ou incentivar a quem jamais pensou em comprar uma arma, a adquirir uma ou duas.
A quem interessar possa, vou continuar não tendo nem comprando armas e votarei pela proibição da sua venda, porque: (i) acho perigoso demais ter-se dentro de casa o risco da facilidade mortífera que uma arma de fogo proporciona; (ii) trancá-la a sete chaves é o mesmo que não possuí-la; (iii) o bandido sempre terá mais motivos e destreza que a vítima em usá-la, especialmente quando se sentir por ela ameaçado; (iv) gritar “socorro” aos vizinhos quando se está ameaçado por alguém armado, nos dias e no Brasil de hoje, me parece mais provável como auto-sentença de morte que real perspectiva de socorro; (v) sou otimista: caso vença a proibição, os fabricantes de armas as continuarão fabricando – só que exclusivamente para as forças armadas, e estas serão mais cobradas por uma sociedade desarmada; (vi) o argumento de que o referendo à proibição do comércio seja manobra para um golpe de estado, primeiramente desarmando a população e depois via associação com o tráfico, é esquecer que a história mostra que nenhum golpe de estado surgiu e prevaleceu sem amparo de significativa parcela da população, no mínimo em poder relativo na sociedade – e, por pior que esteja o crédito dos políticos, há claras demonstrações de que o que a maioria quer é aperfeiçoar a democracia e não jogá-la fora, além de não haver nenhum real poder ameaçado a ponto de se arriscar em aventura desse tipo. E, otimista que sou, ainda que o tráfico possa ter representantes dis-farc-çados no Congresso, não consigo imaginar nem esquerda nem direita brasileira, com efetiva representatividade, sócia do tráfico para alçar o poder à força.
Assim, com todo respeito a quem pensar diferente e sem nenhuma pretensão idiota de defender uma bandeira, se me perguntassem Vai um diet Colt aí?, minha resposta seria Não, obrigado.
9.24.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:
UM BRASILQUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADVINHOU
ROMANCE INÉDITO DE MARIO BENEVIDES
BRASIL, 2005
- CAPÍTULO VINTE E SETE –
Mamãe, mamãe! Papai, papai! A Coluna passou por aqui! A Coluna Prestes passou em Cavalcante!
Ricardo VI estava com dez anos (era 2013). Cavalcante, àquela altura, já contava com boa parte da sua população formada por europeus e americanos, que para lá haviam se mudado para abrir pousadas e outras formas de comércio de turismo ecológico. A terra mais valiosa era, agora, a NÃO agricultável - que não tivesse sido preparada para pastagem ou cultivo e que guardasse o que não existia mais em outros lugares: pedra e mata virgem. Ainda assim, era grande ainda a distorção social no município.
No começo do século XXI, quando Ricardo V estava iniciando seus escritos que terminaram por prever a Revolução de Mentalidade de 2017, Cavalcante detinha o segundo índice de desenvolvimento humano do Estado de Goiás – isto é: o segundo pior. Não era muito diferente em 2013. Município de área muito grande, com a maior comunidade quilombola do Brasil – os Kalungas -, e dez mil habitantes, Cavalcante possuía, em 2005, o privilégio de uma proporção de habitantes por quilômetro quadrado muito mais favorável que São Paulo e outras capitais; também por isso, já naquele tempo, começou um fluxo migratório interessante de grandes cidades brasileiras e estrangeiras, aumentando o contraste de traços de cultura, origem e condições sócio-econômicas.
Freudianamente, é comum homens se envolverem com mulheres que, de algum modo, se parecem com suas mães. Maria Otávia, ex-namorada de Ricardo V, cujo apelido era Opinião Pública, morta prematuramente, obcecava-se por uma determinada idéia e a repetia e repetia e repetia. Em 2005, Ricardo V, já casado com a americana Rita e morando na cidade vizinha a Cavalcante, Minaçu, Sérgia estava obcecada em demonstrar que as diferenças sociais do Brasil independiam da situação econômica ou política. Fosse em palestras, chás beneficentes ou almoços, Sérgia insistia:
- De JK a Lula, passando pelos militares, Collor e FHC, com ou sem inflação, com ditadura ou democracia, crescimento ou recessão, estatização ou privatização, de cada cem moedas produzidas no Brasil, dez porcento da população ficam com quarenta das cem moedas. O resto – os outros noventa porcento – ficam com o resto: sessenta moedas são repartidas por noventa, enquanto quarenta, pelos dez mais ricos.
O panorama, como se sabe, só mudaria há três anos, em 2017.
Em 2013, a obsessão do filho de Ricardo V e Rita era a Coluna Prestes – isso porque seu pai dissera a ele que o trisavô de Ricardo VI, Ricardo Coração dos Outros II, participara da longa e emblemática caminhada liderada pelo Cavaleiro da Esperança – como ficaria para sempre conhecido Luís Carlos Prestes.
Pois em 2005, a obsessão de Ricardo V era Cavalcante, para desvendar o passado dos trisavós dele, Ricardo V, que haviam iniciado aquela plebéia dinastia: Olga e Ricardo Coração dos Outros – no que era muito incentivado por Rita, entusiasmada com o clima mais ameno que Minaçu e especialmente pela paisagem. A Chapada dos Veadeiros é das mais deslumbrantes paisagens que podem existir – Rita afirma até hoje, e tenta explicar porque:
- As montanhas de pedra cercam as cidades, as trilhas, os povoados pobres que moram em casas de adobe e sapê, os bichos que correm na frente do carro quando a gente está vindo pra cá, veados, onças, cobras, siriemas...
Quando, no começo deste Século XXI, Rita ainda trazia Ricardo VI no ventre e voltavam pela primeira vez de uma viagem a Cavalcante, a camionete derrapando e pulando na estrada de terra, Rita teve um pequeno sangramento e temeu perder o filho em formação na sua barriga; Rita, que apesar de descendente de espanhóis e franceses, não era católica, nem tinha qualquer outra religião, ali, naquele momento, mirando a chapada, desandou a rezar "Holy Mary" e "Our Father" sem parar.
Era disso que Rita se lembrava quando, em 2013, Ricardo VI, com dez anos, chegou correndo à mesa onde estavam com um casal seu conterrâneo, dono de uma pousada, dizendo Mamãe, mamãe, papai, papai, a Coluna passou por aqui, a Coluna Prestes passou em Cavalcante. Depois, foram até uma das muitas cachoeiras, a pé, molhar os corpos e sacudir os cabelos.
9.19.2005
DA ATLÂNTIDA E DE TAPETES
Estive em Nova Orleans em 1987, no Mardi Gras – a terça-feira gorda, o carnaval em ritmo de jazz. Mais que do jazz carnavalesco, me ficou na lembrança uma orquestra de músicos velhinhos, bacaninhas, de gravatas borboleta, tocando o Dixieland Jazz. A alegre sucessão de bares e mais bares sempre com músicos tocando maravilhosamente; a Bourbon Street, de tantas canções, como a do Sting, que lembra uma outra, Falling Leaves, gravada imortalmente por Net King Cole; a comida criolla, o French Quarter, o rio Mississipi, as casas sem muro na frente – tudo isso trago para sempre guardado no porta-retrato da minha memória mais afetiva. Turista deslumbrado com aquela musicalidade, com a mistura de cores, raças e culturas, a história sofrida dos escravos das plantações de algodão me era passado; não conheci o lado pobre da cidade – que apareceu agora, paradoxalmente, com o seu desaparecimento, tão triste, como se já não fosse tristeza bastante a pobreza em si.
Naquele carnaval, um americano, ex-mariner, quando soube que éramos brasileiros (eu e meu irmão), fez questão de nos dizer: “Já estive em Trinidad Tobago”. O mapa dele deve ser o mesmo do atual presidente americano e daquele outro, que confundiu o Brasil com a Bolívia. Não deixa de ser preocupante perceber que esse sistema de coordenadas deles poderá, em dado instante, nos transformar em imensa Venezuela de seu desafeto Hugo Chaves - principalmente se este tornar assíduo de jantares com nosso principal executivo.
A boa notícia é que a Coréia desistiu do seu programa nuclear. A má notícia é que a mudança de postura foi decorrente de uma negociação com o governo Bush. A notícia oficial é que ela se deu porque a Coréia está precisando de ajuda do Ocidente. Bem que a tática pode valer de sugestão para a Venezuela – perdão - para o Brasil: nossos governantes deveriam iniciar um projeto de bomba nuclear e continuá-lo até que incomodasse nosso Grande Irmão nortista; quando isso acontecesse, o Haiti – perdão – o Brasil estaria em condições de barganhar alguma coisa, como o tal assento no Conselho de Segurança da ONU – desde que, é claro, Severino nele se sentasse, já que tudo indica que ele ficará sem emprego, e nosso executivo-mor não admitirá que um brasileiro fique sem emprego – já que presidentes só admitem que muitos brasileiros fiquem sem emprego, porque aí vira mera questão estatística.
Voltando à Atlântida de nossos dias, há que se torcer para que os arquitetos da sua reconstrução fiquem longe de Bush e Dick Cheney. Essa gente não foi capaz de prestar socorro, como não será capaz de reconstruir uma cidade tão delicada, habitada por negros e brancos de todas as idades tocando todos os sopros e cordas, ainda que escondesse debaixo do tapete a pobreza e a exploração de outras formas de pobreza. Bush e companhia vão faturar a reconstrução de Nova Orleans, como pretendem fazer com Bagdá e seus tapetes um dia voadores – é o inevitável. Mas que seu imenso mau gosto não se manifeste.
Quanto a nós, do país de Severino, personificação do ticket-refeição, é claro que não esquecemos seu nome: aqui é o mesmo Brasil de sempre, onde se tocam também tantos sopros e tantas cordas, mas com uma fundamental diferença: o tapete é curto.
Cada vez mais curto.
Naquele carnaval, um americano, ex-mariner, quando soube que éramos brasileiros (eu e meu irmão), fez questão de nos dizer: “Já estive em Trinidad Tobago”. O mapa dele deve ser o mesmo do atual presidente americano e daquele outro, que confundiu o Brasil com a Bolívia. Não deixa de ser preocupante perceber que esse sistema de coordenadas deles poderá, em dado instante, nos transformar em imensa Venezuela de seu desafeto Hugo Chaves - principalmente se este tornar assíduo de jantares com nosso principal executivo.
A boa notícia é que a Coréia desistiu do seu programa nuclear. A má notícia é que a mudança de postura foi decorrente de uma negociação com o governo Bush. A notícia oficial é que ela se deu porque a Coréia está precisando de ajuda do Ocidente. Bem que a tática pode valer de sugestão para a Venezuela – perdão - para o Brasil: nossos governantes deveriam iniciar um projeto de bomba nuclear e continuá-lo até que incomodasse nosso Grande Irmão nortista; quando isso acontecesse, o Haiti – perdão – o Brasil estaria em condições de barganhar alguma coisa, como o tal assento no Conselho de Segurança da ONU – desde que, é claro, Severino nele se sentasse, já que tudo indica que ele ficará sem emprego, e nosso executivo-mor não admitirá que um brasileiro fique sem emprego – já que presidentes só admitem que muitos brasileiros fiquem sem emprego, porque aí vira mera questão estatística.
Voltando à Atlântida de nossos dias, há que se torcer para que os arquitetos da sua reconstrução fiquem longe de Bush e Dick Cheney. Essa gente não foi capaz de prestar socorro, como não será capaz de reconstruir uma cidade tão delicada, habitada por negros e brancos de todas as idades tocando todos os sopros e cordas, ainda que escondesse debaixo do tapete a pobreza e a exploração de outras formas de pobreza. Bush e companhia vão faturar a reconstrução de Nova Orleans, como pretendem fazer com Bagdá e seus tapetes um dia voadores – é o inevitável. Mas que seu imenso mau gosto não se manifeste.
Quanto a nós, do país de Severino, personificação do ticket-refeição, é claro que não esquecemos seu nome: aqui é o mesmo Brasil de sempre, onde se tocam também tantos sopros e tantas cordas, mas com uma fundamental diferença: o tapete é curto.
Cada vez mais curto.
9.16.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E SEIS -
Contou-nos um PCR que um trisavô seu, jornalista (como se chamou a profissão de Profissional de Comunicação e Reportagens durante muitos anos), passou de geração a geração um desabafo que ouviu de Ricardo Coração dos Outros II na Bolívia, onde a Coluna Prestes, à qual se engajara, encerrara sua invicta (ainda que não propriamente vitoriosa) caminhada de 25 mil quilômetros:
- Fui idiota de largar a roça, onde o aperto de mão tem na pureza e na sinceridade o mesmo peso e a mesma pega da rugosidade dos calos feitos na lida permanente com a terra sedenta ou encharcada, para me enfeitiçar pela capital, onde o aperto de mão tem a leveza da imunda falsidade e da débil futilidade; mas recuperei-me e vinguei meu pai: se ele entrou na guerra do lado dos opressores, tive a honra de seguir o Cavaleiro da Esperança e o general Miguel Costa contra Artur Bernardes e sua Lei Infame e a opressão da roça e da cidade. Mas fui mais idiota ainda e mais enfeitiçado ainda pela futilidade personificada chamada Maria Cristina. E ainda sou. Sim senhor, aquela senhorinha de nariz que não pode tomar chuva sob o risco de matá-la afogada em sua própria imbecilmente suposta superioridade sobre todas as coisas e os mortais, principalmente os plebeus e mestiços, como eu, me enfeitiçou, e parece que para sempre. Que idiota eu sou!
E se, muitos anos depois, Ricardo V se sentia um idiota por se perceber seguido por quatro idiotas, dois mandados dos Estados Unidos e dois pelo Tenente, anos depois ainda Ricardo IV, seu pai, diria de si a mesma coisa ao neto, Ricardo VI:
- Sou um idiota a misturar idealismo com negócios, coisas que não se misturam, e desandei a misturar uisque com hepta-endorfina, para ver se era possível o impossível, misturar o que não se mistura, como água e óleo, como costumava dizer meu avô. Às favas com os negócios ou com o idealismo, porra! Desculpe, meu neto, desculpe.
O mesmo Ricardo VI, ainda menino, uma noite, ouviu a avó, Sérgia, medindo-se com a mãe dele, Rita, no mesmo quesito, na sala de visitas da avó, no Rio de Janeiro, já havia muito não mais capital federal como no tempo de seu trisavô, Ricardo II:
- Idiota sou eu. Ora, você deixou seu país movida por um ideal, uma pesquisa científica.
- Que não deu em nada.
- Não por culpa sua.
- Sim, por culpa meu, culpa minha, porque fiquei comovida com a história dos avá-canoeiros sem possibilidade de cruzamento, quer dizer, casamento, procriamento, quer dizer, procriaçau, e pesquisadora não pode ficar comovida, tem que pesquisar e estudar e entender e escrever, e eu não escrevi, não escrevi nada.
- Mas seu marido escreve e você o ajuda, não é?
- Mas me anulei, sou mãe e pronto. Rita ficou em silêncio, refletindo um pouco, e disse, depois:
- Mas eu gosto de ser mãe e mulher, mulher de seu filho. Me faz bem.
- Mesmo morando numa cidade como Minaçu, sem recursos, provinciana?
- Cidades americanas são quase sempre provincianas, não faz mal. A não ser as grandes, que eu não gosto. Recursos, quer dizer, cultura, hospital, remédio, a gente arruma viajando e a gente pode viajar sempre, a toda hora, não é problema.
Depois de outra pausa, Rita voltou ao assunto, como quem havia provado alguma coisa à sogra:
- Viu como a idiota sou eu? Sérgia inspirou profundamente e respondeu:
- Minha filha, ninguém é mais idiota que eu, me escondendo atrás de um disfarce babaca e cretino de culta e educada e refinada e politizada. Sabe do que eu gosto, mesmo? Eu gosto é de...
- Não precisa dizer. Eu também gosto. Todo mundo gosta.
E aí riram um pouco das suas idiotices.
Já Dona Luzia, reassentada por uma das hidrelétricas que superou a praga da cultura da dependência e da subsistência e plantou e planta de tudo e se alimenta e se veste e pagou os estudos dos netos do que produziu e produz, e que hoje caminha em torno da plantação dando instruções e depois senta-se em uma velha cadeira de balanço e repete que quem crama da vida é porque não trabaia e desanda a contar como foi sua participação na Revolução de 2017, de vez em quando lembra do que ouvia de vizinhos, o que eles assistiam numa televisão não sabia de quem, isso no tempo em que a tv mostrava o presidente fazendo um discurso por dia, um dia para operários, outro para camponeses, outro ainda para fazendeiros, às vezes para assembléias de nações ou artistas de Hollywood ou da tv, até para estudantes e também para empresários ou então bispos ou domésticas ou donas de casa, ou quando as notícias eram pré-fabricadas para satisfazer ditadores ou interesses, e pensava, Deus, quanta idiotice.
- CAPÍTULO VINTE E SEIS -
Contou-nos um PCR que um trisavô seu, jornalista (como se chamou a profissão de Profissional de Comunicação e Reportagens durante muitos anos), passou de geração a geração um desabafo que ouviu de Ricardo Coração dos Outros II na Bolívia, onde a Coluna Prestes, à qual se engajara, encerrara sua invicta (ainda que não propriamente vitoriosa) caminhada de 25 mil quilômetros:
- Fui idiota de largar a roça, onde o aperto de mão tem na pureza e na sinceridade o mesmo peso e a mesma pega da rugosidade dos calos feitos na lida permanente com a terra sedenta ou encharcada, para me enfeitiçar pela capital, onde o aperto de mão tem a leveza da imunda falsidade e da débil futilidade; mas recuperei-me e vinguei meu pai: se ele entrou na guerra do lado dos opressores, tive a honra de seguir o Cavaleiro da Esperança e o general Miguel Costa contra Artur Bernardes e sua Lei Infame e a opressão da roça e da cidade. Mas fui mais idiota ainda e mais enfeitiçado ainda pela futilidade personificada chamada Maria Cristina. E ainda sou. Sim senhor, aquela senhorinha de nariz que não pode tomar chuva sob o risco de matá-la afogada em sua própria imbecilmente suposta superioridade sobre todas as coisas e os mortais, principalmente os plebeus e mestiços, como eu, me enfeitiçou, e parece que para sempre. Que idiota eu sou!
E se, muitos anos depois, Ricardo V se sentia um idiota por se perceber seguido por quatro idiotas, dois mandados dos Estados Unidos e dois pelo Tenente, anos depois ainda Ricardo IV, seu pai, diria de si a mesma coisa ao neto, Ricardo VI:
- Sou um idiota a misturar idealismo com negócios, coisas que não se misturam, e desandei a misturar uisque com hepta-endorfina, para ver se era possível o impossível, misturar o que não se mistura, como água e óleo, como costumava dizer meu avô. Às favas com os negócios ou com o idealismo, porra! Desculpe, meu neto, desculpe.
O mesmo Ricardo VI, ainda menino, uma noite, ouviu a avó, Sérgia, medindo-se com a mãe dele, Rita, no mesmo quesito, na sala de visitas da avó, no Rio de Janeiro, já havia muito não mais capital federal como no tempo de seu trisavô, Ricardo II:
- Idiota sou eu. Ora, você deixou seu país movida por um ideal, uma pesquisa científica.
- Que não deu em nada.
- Não por culpa sua.
- Sim, por culpa meu, culpa minha, porque fiquei comovida com a história dos avá-canoeiros sem possibilidade de cruzamento, quer dizer, casamento, procriamento, quer dizer, procriaçau, e pesquisadora não pode ficar comovida, tem que pesquisar e estudar e entender e escrever, e eu não escrevi, não escrevi nada.
- Mas seu marido escreve e você o ajuda, não é?
- Mas me anulei, sou mãe e pronto. Rita ficou em silêncio, refletindo um pouco, e disse, depois:
- Mas eu gosto de ser mãe e mulher, mulher de seu filho. Me faz bem.
- Mesmo morando numa cidade como Minaçu, sem recursos, provinciana?
- Cidades americanas são quase sempre provincianas, não faz mal. A não ser as grandes, que eu não gosto. Recursos, quer dizer, cultura, hospital, remédio, a gente arruma viajando e a gente pode viajar sempre, a toda hora, não é problema.
Depois de outra pausa, Rita voltou ao assunto, como quem havia provado alguma coisa à sogra:
- Viu como a idiota sou eu? Sérgia inspirou profundamente e respondeu:
- Minha filha, ninguém é mais idiota que eu, me escondendo atrás de um disfarce babaca e cretino de culta e educada e refinada e politizada. Sabe do que eu gosto, mesmo? Eu gosto é de...
- Não precisa dizer. Eu também gosto. Todo mundo gosta.
E aí riram um pouco das suas idiotices.
Já Dona Luzia, reassentada por uma das hidrelétricas que superou a praga da cultura da dependência e da subsistência e plantou e planta de tudo e se alimenta e se veste e pagou os estudos dos netos do que produziu e produz, e que hoje caminha em torno da plantação dando instruções e depois senta-se em uma velha cadeira de balanço e repete que quem crama da vida é porque não trabaia e desanda a contar como foi sua participação na Revolução de 2017, de vez em quando lembra do que ouvia de vizinhos, o que eles assistiam numa televisão não sabia de quem, isso no tempo em que a tv mostrava o presidente fazendo um discurso por dia, um dia para operários, outro para camponeses, outro ainda para fazendeiros, às vezes para assembléias de nações ou artistas de Hollywood ou da tv, até para estudantes e também para empresários ou então bispos ou domésticas ou donas de casa, ou quando as notícias eram pré-fabricadas para satisfazer ditadores ou interesses, e pensava, Deus, quanta idiotice.
9.12.2005
AS MATEMÁTICAS
Matemática não é uma só.
Matemática é matéria complicada para muita gente, especialmente quando quem ensinou era muito complicado.
Matemática, quando é financeira, bota complicado nisso: deixa de ser ciência exata e se torna fixação, insônia ou, ainda, a soma inexata das duas coisas.
Bom mesmo é quando a Matemática é coisa simples, aritmética, e não matéria complicada; quando nem matéria é. Exemplos:
Dois mais dois igual a quatro - ninguém seria superficial e tosco a ponto de dizer “isso é Descartes”. Mas que tem vontade, tem;
Um sobre zero tende a infinito e um sobre infinito tende a zero: ciência política;
A quarta dimensão é Freud. A quinta, Jung;
Espaço enésimo? Freqüente aí uma mesa de bar por volta das duas da manhã e depois nos conte;
Tábua logarítmica: o mesmo que Latim;
Multiplicar por menos um é muito utilizado por quem usou o cheque especial uma única vez e não consegue entender porque foi que passou a usar para sempre;
Raiz quadrada: (1) jamais fique embaixo de um radical; (2) o resultado é mais ou menos.
E assim fica demonstrado o corolário de que, em tempos em que a descoberta é de escândalos políticos em série de Fourier, deve-se, com todo e devido respeito ao seu criador e sua admirável “transformada”, transformá-la em resultado que fique na nossa memória para sempre, em todas as eleições. E delas, jamais abrir mão.
Nem das Matemáticas.
Matemática é matéria complicada para muita gente, especialmente quando quem ensinou era muito complicado.
Matemática, quando é financeira, bota complicado nisso: deixa de ser ciência exata e se torna fixação, insônia ou, ainda, a soma inexata das duas coisas.
Bom mesmo é quando a Matemática é coisa simples, aritmética, e não matéria complicada; quando nem matéria é. Exemplos:
Dois mais dois igual a quatro - ninguém seria superficial e tosco a ponto de dizer “isso é Descartes”. Mas que tem vontade, tem;
Um sobre zero tende a infinito e um sobre infinito tende a zero: ciência política;
A quarta dimensão é Freud. A quinta, Jung;
Espaço enésimo? Freqüente aí uma mesa de bar por volta das duas da manhã e depois nos conte;
Tábua logarítmica: o mesmo que Latim;
Multiplicar por menos um é muito utilizado por quem usou o cheque especial uma única vez e não consegue entender porque foi que passou a usar para sempre;
Raiz quadrada: (1) jamais fique embaixo de um radical; (2) o resultado é mais ou menos.
E assim fica demonstrado o corolário de que, em tempos em que a descoberta é de escândalos políticos em série de Fourier, deve-se, com todo e devido respeito ao seu criador e sua admirável “transformada”, transformá-la em resultado que fique na nossa memória para sempre, em todas as eleições. E delas, jamais abrir mão.
Nem das Matemáticas.
9.10.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E CINCO -
Porca miséria. Onde foi que eu deixei o maldito diário, com as anotações daquele Preston e as minhas? E agora? Vá, é preciso começar tudo de novo, lembrar do que estava lá, anotado pelo desgraçado do americano e por este imbecil, aqui.
Giulio – o falso Doutor Vincenzo Scarpini - saiu pela Avenida Maranhão e entrou na primeira papelaria que encontrou. Não percebeu, mas, atrás dele, estava um policial fardado, que escutou o forte sotaque italiano encomendando um caderno. O Tenente afastou-se e atravessou a rua. Quando Giulio saiu, sem que percebesse, foi discretamente seguido. Giulio estava hospedado em um hotel chamado Cadoro. O Tenente telefonou do seu celular para Ricardo Coração dos Outros V:
- O senhor me disse que o diário que eu emprestei pro senhor traduzir pra mim estava em que línguas, mesmo?
- Inglês e italiano.
- Gostaria de ir à sua casa agora, pode ser?
Ricardo estava escrevendo e teve vontade de dizer que não; mas logo lhe ocorreu que o assunto deveria ser sobre o diário encontrado no La Ventana pelo Tenente. Respondeu que sim, escreveu mais um pouco e foi para a sala, aguardar pelo Tenente, enquanto Rita passeava pela cercanias rurais da cidade com o filho, Ricardo VI. O Tenente desligou e, em seguida, deu uma ordem, ainda pelo celular:
- Figueiredo, você venha à paisana até o Cadoro e se apresente ao gerente como fiscal de qualquer coisa. Inventa o que você quiser, monta uma carteira daquelas padronizadas, mas venha à paisana e rápido. Peça o livro de contas do hotel e depois o de hóspedes. Nesse de hóspedes, pegue e anote o nome e o apartamento de um italiano. É, um italiano, só sabemos disso, por enquanto. Anote também a data em que ele se hospedou, positivo? E aí fique de plantão no saguão do hotel, peça para ver todos os livros de controle, ganhe tempo, mas fique, para ver se o italiano deixa o quarto dele; se ele sair do hotel, siga o elemento, positivo? Seja criativo, mas não faz besteira, combinado?
Na sala de Ricardo V, o diálogo deu-se mais ou menos assim:
- O diário tem uma primeira parte com anotações em Inglês, descrevendo meus movimentos pela cidade – disse Ricardo.
- O senhor fez alguma coisa de errado? Tá devendo dinheiro, ou coisa parecida?
- Não. Apenas escrevo textos para uma universidade americana e também um livro.
O Tenente ficou em silêncio, mexendo a colher na xícara do cafezinho que lhe fora servido por Lindalva, a empregada loura da casa. Depois perguntou a Ricardo:
- Seus escritos falam de quê?
Ricardo mentiu:
- Sobre possibilidades de turismo no cerrado.
- Ah, que interessante. Mas isso não é motivo para ser seguido, não é, doutor?
- Não.
- E o que foi que o italiano escreveu, na parte dele do diário?
- A mesma coisa: está seguindo meus passos - respondeu. O Tenente disse:
- Pode deixar, doutor. Do americano eu não sei, pode ser que tenha alguma coisa a ver com aquele camarada que ficou falado por aqui, na época que o senhor e Dona Rita vieram pra cá. Mas esse italiano já está na minha mira.
- Tenente, se o senhor puder fazer o favor de não... Quer dizer, de não deixar esse italiano ser molestado e depois arranjar um jeito da gente conversar com ele...
- Esse é o meu trabalho. O senhor pode voltar pro seus escritos.
O Tenente despediu-se e, depois de telefonar para seu subordinado Figueiredo, deu outro telefonema do celular:
- Pedrosa, a partir de hoje, você deixa a farda em casa e cola no Senhor Ricardo. Aquele com jeito meio maluco, casado com a americana, Dona Rita. Sabe quem é? Isso mesmo: Ricardo não-sei-o-quê quinto. Pode vir agora e passa a rondar a casa do elemento, positivo? Tem que ser discreto. Eu sei: esse é o teu trabalho. Mas toma nota, presta atenção em tudo e vai me informando, tá me entendendo?
Pedrosa respondeu que sim.
- CAPÍTULO VINTE E CINCO -
Porca miséria. Onde foi que eu deixei o maldito diário, com as anotações daquele Preston e as minhas? E agora? Vá, é preciso começar tudo de novo, lembrar do que estava lá, anotado pelo desgraçado do americano e por este imbecil, aqui.
Giulio – o falso Doutor Vincenzo Scarpini - saiu pela Avenida Maranhão e entrou na primeira papelaria que encontrou. Não percebeu, mas, atrás dele, estava um policial fardado, que escutou o forte sotaque italiano encomendando um caderno. O Tenente afastou-se e atravessou a rua. Quando Giulio saiu, sem que percebesse, foi discretamente seguido. Giulio estava hospedado em um hotel chamado Cadoro. O Tenente telefonou do seu celular para Ricardo Coração dos Outros V:
- O senhor me disse que o diário que eu emprestei pro senhor traduzir pra mim estava em que línguas, mesmo?
- Inglês e italiano.
- Gostaria de ir à sua casa agora, pode ser?
Ricardo estava escrevendo e teve vontade de dizer que não; mas logo lhe ocorreu que o assunto deveria ser sobre o diário encontrado no La Ventana pelo Tenente. Respondeu que sim, escreveu mais um pouco e foi para a sala, aguardar pelo Tenente, enquanto Rita passeava pela cercanias rurais da cidade com o filho, Ricardo VI. O Tenente desligou e, em seguida, deu uma ordem, ainda pelo celular:
- Figueiredo, você venha à paisana até o Cadoro e se apresente ao gerente como fiscal de qualquer coisa. Inventa o que você quiser, monta uma carteira daquelas padronizadas, mas venha à paisana e rápido. Peça o livro de contas do hotel e depois o de hóspedes. Nesse de hóspedes, pegue e anote o nome e o apartamento de um italiano. É, um italiano, só sabemos disso, por enquanto. Anote também a data em que ele se hospedou, positivo? E aí fique de plantão no saguão do hotel, peça para ver todos os livros de controle, ganhe tempo, mas fique, para ver se o italiano deixa o quarto dele; se ele sair do hotel, siga o elemento, positivo? Seja criativo, mas não faz besteira, combinado?
Na sala de Ricardo V, o diálogo deu-se mais ou menos assim:
- O diário tem uma primeira parte com anotações em Inglês, descrevendo meus movimentos pela cidade – disse Ricardo.
- O senhor fez alguma coisa de errado? Tá devendo dinheiro, ou coisa parecida?
- Não. Apenas escrevo textos para uma universidade americana e também um livro.
O Tenente ficou em silêncio, mexendo a colher na xícara do cafezinho que lhe fora servido por Lindalva, a empregada loura da casa. Depois perguntou a Ricardo:
- Seus escritos falam de quê?
Ricardo mentiu:
- Sobre possibilidades de turismo no cerrado.
- Ah, que interessante. Mas isso não é motivo para ser seguido, não é, doutor?
- Não.
- E o que foi que o italiano escreveu, na parte dele do diário?
- A mesma coisa: está seguindo meus passos - respondeu. O Tenente disse:
- Pode deixar, doutor. Do americano eu não sei, pode ser que tenha alguma coisa a ver com aquele camarada que ficou falado por aqui, na época que o senhor e Dona Rita vieram pra cá. Mas esse italiano já está na minha mira.
- Tenente, se o senhor puder fazer o favor de não... Quer dizer, de não deixar esse italiano ser molestado e depois arranjar um jeito da gente conversar com ele...
- Esse é o meu trabalho. O senhor pode voltar pro seus escritos.
O Tenente despediu-se e, depois de telefonar para seu subordinado Figueiredo, deu outro telefonema do celular:
- Pedrosa, a partir de hoje, você deixa a farda em casa e cola no Senhor Ricardo. Aquele com jeito meio maluco, casado com a americana, Dona Rita. Sabe quem é? Isso mesmo: Ricardo não-sei-o-quê quinto. Pode vir agora e passa a rondar a casa do elemento, positivo? Tem que ser discreto. Eu sei: esse é o teu trabalho. Mas toma nota, presta atenção em tudo e vai me informando, tá me entendendo?
Pedrosa respondeu que sim.
9.06.2005
IMPRESSÕES AO DIRIGIR
Nova Lima fica entre Belo Horizonte e Ouro Preto, em Minas Gerais. Estou hospedado em um hotel de negócios, criado especialmente em função de uma instituição de ensino, a Fundação Dom Cabral, ligada à PUC de Minas. Dom Cabral foi um bispo preocupado em aproximar a Universidade às empresas; daí ter surgido um curso com o nome dele para administração de negócios - um MBA (lê-se emm-bi-ei), como cunhado em todo o mundo. O hotel e o prédio onde acontecem as aulas (uma semana, de domingo a sábado, a cada dois meses) ficam num condomínio de casas em torno de uma lagoa, onde já foi uma mineração. Antes das aulas, a Fundação organiza caminhadas, precedidas e encerradas por exercícios de alongamento – destes que a gente tem a impressão de que a real intenção é a de nos preparar para outra profissão, de um mercado disputadíssimo: a dos artistas de circo.
Era aí onde eu queria chegar: essas caminhadas são conduzidas por belas e competentes e simpáticas e pacientes profissionais. E o ar é de montanha e hoje de manhã estava friozinho, parece ter chovido um pouco de madrugada. É bom demais! Demais da conta, sô.
Na ginástica de encerramento da caminhada de hoje, um amigo (Cascaes, natural de Florianópolis) comentou ter visto um gavião pousado em um transformador de poste, acrescentando que, de certo, não era um gavião qualquer, pois o condomínio é de luxo. Aí nossa professorinha (Graziela) disse que uma sua tia uma vez tirou do congelador um pedaço de carne e o pôs na janela e depois flagrou um gavião “de todo tamanho” se fartando daquela natureza morta. Expressões como “de todo tamanho”, dentre outras tão especialmente mineiras, dão bem o tom dessas Minas Gerais, de montanhas e profundezas feitas por coisas desconhecidas de nós, pobres mortais, mas percebidas por alguns como muito mais preciosas que o minério que batizou a província que virou Estado.
E onde terminar essa crônica preguiçosa? Numa canção que fiz em parceria com outro amigo e colega de MBA, que se chama Luís Henrique Vieira Vaqueiro, que, no começo da madrugada passada, em típica situação de república de estudantes, dedilhando num bar para uns poucos de nós seu belo violão, tocou uma melodia e me desafiou: Mario, faz a letra. Depois eu faço, respondi. E ele: Não. Tem que ser agora. Afinal, a letra foi feita em papéis de anotações de bolso que sempre trago comigo, na hora, como proposto, e ficou assim:
Fosse um país qualquer / se fosse uma mulher / se fosse uma bandeira / se fosse uma canção / um rosto, uma nação.
Era um país qualquer / um rosto, uma mulher / um morro, uma ladeira / amor, declaração / de paz, de escravidão.
Audácia de viver / em um país assim / audácia de te amar / de te ver nascer / de dentro de mim.
Tudo isso não passa de um punhado de meras impressões ao dirigir durante alguns momentos a própria vida. Coisa que, convenhamos, é de todo tamanho.
Era aí onde eu queria chegar: essas caminhadas são conduzidas por belas e competentes e simpáticas e pacientes profissionais. E o ar é de montanha e hoje de manhã estava friozinho, parece ter chovido um pouco de madrugada. É bom demais! Demais da conta, sô.
Na ginástica de encerramento da caminhada de hoje, um amigo (Cascaes, natural de Florianópolis) comentou ter visto um gavião pousado em um transformador de poste, acrescentando que, de certo, não era um gavião qualquer, pois o condomínio é de luxo. Aí nossa professorinha (Graziela) disse que uma sua tia uma vez tirou do congelador um pedaço de carne e o pôs na janela e depois flagrou um gavião “de todo tamanho” se fartando daquela natureza morta. Expressões como “de todo tamanho”, dentre outras tão especialmente mineiras, dão bem o tom dessas Minas Gerais, de montanhas e profundezas feitas por coisas desconhecidas de nós, pobres mortais, mas percebidas por alguns como muito mais preciosas que o minério que batizou a província que virou Estado.
E onde terminar essa crônica preguiçosa? Numa canção que fiz em parceria com outro amigo e colega de MBA, que se chama Luís Henrique Vieira Vaqueiro, que, no começo da madrugada passada, em típica situação de república de estudantes, dedilhando num bar para uns poucos de nós seu belo violão, tocou uma melodia e me desafiou: Mario, faz a letra. Depois eu faço, respondi. E ele: Não. Tem que ser agora. Afinal, a letra foi feita em papéis de anotações de bolso que sempre trago comigo, na hora, como proposto, e ficou assim:
Fosse um país qualquer / se fosse uma mulher / se fosse uma bandeira / se fosse uma canção / um rosto, uma nação.
Era um país qualquer / um rosto, uma mulher / um morro, uma ladeira / amor, declaração / de paz, de escravidão.
Audácia de viver / em um país assim / audácia de te amar / de te ver nascer / de dentro de mim.
Tudo isso não passa de um punhado de meras impressões ao dirigir durante alguns momentos a própria vida. Coisa que, convenhamos, é de todo tamanho.
9.02.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E QUATRO -
Rita assistia atônita ao que a televisão mostrava: a cidade onde quase nascera, praticamente destruída por um furacão. Rita desesperava-se e chorava tanto quantos vários de seus compatriotas naqueles momentos, mas, embora estivesse em uma cidade do interior do Brasil, com poucos recursos e baixos índices de desenvolvimento e qualidade de vida, conseguira o que tantos dos de seu país natal não conseguiam: falar com sua família; com sua mãe - por telefone, de Minaçu a Orlando, tudo começando por uma espiral ridícula pendurada na parede, tantas vidas e coisas terminando em outra espiral, monstrenga, imensa espiral feita de ar.
Ricardo V acompanhava a tragédia de Nova Orleans perguntando-se, secretamente: será que sofro mais quando a dor é de país rico? Todos os dias na TV assisto a Tsunamis, Palestinas, Áfricas, Índias, Paquistães, Nordestes... Percebo mais essa dor que vejo agora. Esforçou-se para abstrair-se do fato de ser casado com uma americana, somente para observar, introspectiva e obsessivamente, tão à sua maneira quanto à de Otávia, de quem viveria, como hoje, em 2020, para sempre viúvo, se esta é que era a sua verdade: dor de rico lhe doía mais. De repente uma idéia lhe caiu no colo, nas fuças, no ventre, na nuca: a cultura norte-americana, de tão difundida, independentemente da proximidade, das características de novo-mundo e país-continente em comum com o Brasil, por mais amigos ou conhecidos judeus, nordestinos, negros, hindus e árabes que tivesse, a dor americana, do jazz de Nova Orleans inundado, saxofones, prostitutas, ricos filhos-da-puta ou não, louras, barbies, negros e negras atuando em filmes por pressão e força e talento, todos na súbita desgraça, era como se Nova Orleans, a New Orleans do French Quarter fosse sua. Como sua era o Rio de Janeiro. Como, já àquela altura, era Minaçu. Tudo tão diferente e distante, no entanto, era seu e por isso doía. Não que não doesse o pavor diário palestino, a desgraceira dos homens-bomba, toda a merdice e desgraceira humana; tudo doía, mas era diário – e voltou a perguntar-se: devo mesmo sofrer mais porque agora, como em setembro de 2001, foi nos Estados Unidos, os grandes fodões, os destruidores, predadores, arrogantes imperadores? Choro a dor dos opressores? Claro que não: choro a dor de quem se fodeu, de quem dormiu numa cama e acordou numa imensa poça d’água, na lama, na bosta, no frio, na tristeza, no abandono, na pior espécie de solidão.
E lhe foi assustador que, exatamente naquela noite, quando o noticiário da tragédia do furacão “Katrina” explodia na tela da sua televisão e golpeava tão perto de si tão fundo sua mulher e também a ele, que outra forma de solidão lhe viesse às mãos pelas do filho de 3 anos – uma carta amarelecida e aos pedaços do bisavô, Ricardo Coração dos Outros II, onde ele diz:
“Maria Cristina:
Alguma coisa muito má eu devo ter feito. É assim que me sinto. Foi dedicação demais e, em troca, desdém demais. Nada faz sentido. Sou um homem barbado na frente do espelho, suposto estudante de Direito, ex-noivo, ex-sujeito.
Vou rimar sempre: sou filho de trovador. Pouco me importam esses modernistas de São Paulo, ainda que a eles muito admire, por sua coragem, de desconstruir para melhor reconstruir esta nossa raça.
Fugi do assunto: continuo como quem foi flagrado em crime que não cometeu. Não posso ser chamado de mau amante, sequer: gemias, e gemias com prazer, não me venhas dizer que não, que fingias – porque não fingias. Quem nasceu onde eu nasci conhece de tão perto a verdade, que é capaz como nenhum outro de conhecer a mentira e o fingimento. Não fingiste: gostaste. Gostaste de mim, da minha presença, do meu cheiro, meu contato e tudo o mais que resolvemos juntos arriscar e subverter.
Vai com teu almofadinha; vai e explica a ele tua vergonha. Mostra a ele meus dentes cravados nos bicos dos teus seios, meus dedos, em todos os pedaços do teu corpo.
Não te mando esta carta, porque sou covarde. Porque me sinto como se tivesse partido de mim mesmo, como se ousara rasgar o mundo em três, na frente de seus donos. Como quando quebrei o objeto mais precioso de minha mãe. Como quando, brincando com meu pai, sem querer, quebrei-lhe o braço, quase que para sempre lhe arrancando das mãos o abençoado violão e seu dedilhar encantado.
Não vou morrer; vivo no Século XX. E ainda vou te fotografar sorrindo, porque é sorrindo que te quero mais, ainda que em braços que não são meus – mas a máquina há de ser tão moderna, que há de fotografar por trás dela meu sorriso, maior e mais intenso que o teu.
Não te quero mais, Maria Cristina; já não cometi crime algum; gosto mais de mim e das futuras namoradas e noivas e amantes que amarei, na mesma cama de “república” que te possuí. Saudades de ti. Isso não há como eu negar. Mas, amanhã, farei a revolução e seduzirei a bela criatura que me lava as roupas, que será de mim amada como foste tu.
Talvez eu te mande esta carta. Amanhã saberei.”
- CAPÍTULO VINTE E QUATRO -
Rita assistia atônita ao que a televisão mostrava: a cidade onde quase nascera, praticamente destruída por um furacão. Rita desesperava-se e chorava tanto quantos vários de seus compatriotas naqueles momentos, mas, embora estivesse em uma cidade do interior do Brasil, com poucos recursos e baixos índices de desenvolvimento e qualidade de vida, conseguira o que tantos dos de seu país natal não conseguiam: falar com sua família; com sua mãe - por telefone, de Minaçu a Orlando, tudo começando por uma espiral ridícula pendurada na parede, tantas vidas e coisas terminando em outra espiral, monstrenga, imensa espiral feita de ar.
Ricardo V acompanhava a tragédia de Nova Orleans perguntando-se, secretamente: será que sofro mais quando a dor é de país rico? Todos os dias na TV assisto a Tsunamis, Palestinas, Áfricas, Índias, Paquistães, Nordestes... Percebo mais essa dor que vejo agora. Esforçou-se para abstrair-se do fato de ser casado com uma americana, somente para observar, introspectiva e obsessivamente, tão à sua maneira quanto à de Otávia, de quem viveria, como hoje, em 2020, para sempre viúvo, se esta é que era a sua verdade: dor de rico lhe doía mais. De repente uma idéia lhe caiu no colo, nas fuças, no ventre, na nuca: a cultura norte-americana, de tão difundida, independentemente da proximidade, das características de novo-mundo e país-continente em comum com o Brasil, por mais amigos ou conhecidos judeus, nordestinos, negros, hindus e árabes que tivesse, a dor americana, do jazz de Nova Orleans inundado, saxofones, prostitutas, ricos filhos-da-puta ou não, louras, barbies, negros e negras atuando em filmes por pressão e força e talento, todos na súbita desgraça, era como se Nova Orleans, a New Orleans do French Quarter fosse sua. Como sua era o Rio de Janeiro. Como, já àquela altura, era Minaçu. Tudo tão diferente e distante, no entanto, era seu e por isso doía. Não que não doesse o pavor diário palestino, a desgraceira dos homens-bomba, toda a merdice e desgraceira humana; tudo doía, mas era diário – e voltou a perguntar-se: devo mesmo sofrer mais porque agora, como em setembro de 2001, foi nos Estados Unidos, os grandes fodões, os destruidores, predadores, arrogantes imperadores? Choro a dor dos opressores? Claro que não: choro a dor de quem se fodeu, de quem dormiu numa cama e acordou numa imensa poça d’água, na lama, na bosta, no frio, na tristeza, no abandono, na pior espécie de solidão.
E lhe foi assustador que, exatamente naquela noite, quando o noticiário da tragédia do furacão “Katrina” explodia na tela da sua televisão e golpeava tão perto de si tão fundo sua mulher e também a ele, que outra forma de solidão lhe viesse às mãos pelas do filho de 3 anos – uma carta amarelecida e aos pedaços do bisavô, Ricardo Coração dos Outros II, onde ele diz:
“Maria Cristina:
Alguma coisa muito má eu devo ter feito. É assim que me sinto. Foi dedicação demais e, em troca, desdém demais. Nada faz sentido. Sou um homem barbado na frente do espelho, suposto estudante de Direito, ex-noivo, ex-sujeito.
Vou rimar sempre: sou filho de trovador. Pouco me importam esses modernistas de São Paulo, ainda que a eles muito admire, por sua coragem, de desconstruir para melhor reconstruir esta nossa raça.
Fugi do assunto: continuo como quem foi flagrado em crime que não cometeu. Não posso ser chamado de mau amante, sequer: gemias, e gemias com prazer, não me venhas dizer que não, que fingias – porque não fingias. Quem nasceu onde eu nasci conhece de tão perto a verdade, que é capaz como nenhum outro de conhecer a mentira e o fingimento. Não fingiste: gostaste. Gostaste de mim, da minha presença, do meu cheiro, meu contato e tudo o mais que resolvemos juntos arriscar e subverter.
Vai com teu almofadinha; vai e explica a ele tua vergonha. Mostra a ele meus dentes cravados nos bicos dos teus seios, meus dedos, em todos os pedaços do teu corpo.
Não te mando esta carta, porque sou covarde. Porque me sinto como se tivesse partido de mim mesmo, como se ousara rasgar o mundo em três, na frente de seus donos. Como quando quebrei o objeto mais precioso de minha mãe. Como quando, brincando com meu pai, sem querer, quebrei-lhe o braço, quase que para sempre lhe arrancando das mãos o abençoado violão e seu dedilhar encantado.
Não vou morrer; vivo no Século XX. E ainda vou te fotografar sorrindo, porque é sorrindo que te quero mais, ainda que em braços que não são meus – mas a máquina há de ser tão moderna, que há de fotografar por trás dela meu sorriso, maior e mais intenso que o teu.
Não te quero mais, Maria Cristina; já não cometi crime algum; gosto mais de mim e das futuras namoradas e noivas e amantes que amarei, na mesma cama de “república” que te possuí. Saudades de ti. Isso não há como eu negar. Mas, amanhã, farei a revolução e seduzirei a bela criatura que me lava as roupas, que será de mim amada como foste tu.
Talvez eu te mande esta carta. Amanhã saberei.”
8.30.2005
ImaGINI!
O matemático italiano Conrado Gini inventou uma medida para a distribuição da renda de um determinado grupo, baseada em dada equação que compara o quanto da renda fica com os mais ricos e o quanto dela fica com os mais pobres. Sem entrar no mérito matemático-estatístico, quanto mais próximo de zero for o índice de Gini, mais proporcional é a distribuição; quanto mais perto de 1, maior é a concentração. Assim, se os 20% mais ricos ficarem com 20% da renda e os 20% mais pobres com 20% dela, estaremos em um país economicamente equilibrado.
Entra governo e sai governo, com os mais variados receituários econômicos, de 1960 para cá, o índice de Gini brasileiro situou-se entre 0,5 e 0,6, aproximadamente. Em 2004, era 0,576, 120° do mundo, quando, na Dinamarca, o índice ficava em 0,247, o 2° melhor do mundo; mas não somos dinamarqueses, ora. Pois Portugal estava em 67°, com 0,385. Esses dados ficam somente para comparação – pois o que deve ser observado é que, seja com Jucelino, Jango, militares, Collor, FHC ou Lula, passando por Sarney e Itamar, e seus respectivos macro-economistas, a distribuição da renda nacional fica ali, entre o ruim e o péssimo. Percebeu? Não é de economia que estamos falando – tão somente de curiosa, para não dizer perversa, constatação: se a economia cresce ou desanda, a mandar pra casa ou pra rua um monte de gente; se a inflação é latente ou pungente; se é a esquerda ou a direita quem governa; ou se o regime é aparentemente democrático ou ostensivamente seu oposto, tanto faz: o Brasil é mais concentrado que leite em pó - sendo que, tal como o velho Leite Glória, vive desmanchando sem bater.
E agora? Ora, José! (Saravá, sinhô Carlos.) Não vá você perguntar aos políticos ou aos seus macro-economistas, nem mesmo aos economistas de plantão na tv, com suas respostas e fórmulas prontas, nem ainda aos bons economistas – os há – o que fazer. Ao contrário; responda depressa: se a distribuição da renda brasileira fosse melhor, (1) haveria tantos farsantes na política? (2) Se você, José, é pobre, seria mais pobre do que é? (3) E se você é rico – seria menos rico do que é? Ah! Você, além de não ser José, é rico, sim; e nem vai-se dar ao trabalho de responder esta questão. Afinal, você não é Papai Noel pra sair distribuindo sua renda pros outros e, com o mesmo direito de nós, menos ricos que você, não confia nem um pouco na gestão dos impostos, gordos impostos arrecadados pelo governo brasileiro – seja ele qual for; não é? No entanto, meu amigo ou amiga cujo nome não sei, se a renda fosse melhor distribuída, até os impostos seriam menores, como menor seria sua dor de cabeça, seja ela por causa da indecisão entre atrasar a conta do telefone ou a da luz, seja a de blindar ou não e em que porção seu belo automóvel.
Mas é muito fácil falar, não é? Ora, se de JK a Lula, nada muda? Se o governo não faz, - isso não é coisa pro governo fazer? Se tanto “fera” em economia não resolve, que petulância é essa, - de vir com liçõezinhas rasteiras e perguntinhas sem resposta?
Só nos resta esperar pelas mais novas gerações e sua superior sabedoria. Só que, no meio delas, vai crescendo a legião dos que não pedem; mandam - com o ferro na mão. Sacou? Não? Ele, sim. Ah, nem pense em se armar e sacar antes! Ele é muito mais rápido; e cresce na razão direta do índice de Gini – que nos EUA-2004 era igual a 0,408, ou o 76° mundial.
Entra governo e sai governo, com os mais variados receituários econômicos, de 1960 para cá, o índice de Gini brasileiro situou-se entre 0,5 e 0,6, aproximadamente. Em 2004, era 0,576, 120° do mundo, quando, na Dinamarca, o índice ficava em 0,247, o 2° melhor do mundo; mas não somos dinamarqueses, ora. Pois Portugal estava em 67°, com 0,385. Esses dados ficam somente para comparação – pois o que deve ser observado é que, seja com Jucelino, Jango, militares, Collor, FHC ou Lula, passando por Sarney e Itamar, e seus respectivos macro-economistas, a distribuição da renda nacional fica ali, entre o ruim e o péssimo. Percebeu? Não é de economia que estamos falando – tão somente de curiosa, para não dizer perversa, constatação: se a economia cresce ou desanda, a mandar pra casa ou pra rua um monte de gente; se a inflação é latente ou pungente; se é a esquerda ou a direita quem governa; ou se o regime é aparentemente democrático ou ostensivamente seu oposto, tanto faz: o Brasil é mais concentrado que leite em pó - sendo que, tal como o velho Leite Glória, vive desmanchando sem bater.
E agora? Ora, José! (Saravá, sinhô Carlos.) Não vá você perguntar aos políticos ou aos seus macro-economistas, nem mesmo aos economistas de plantão na tv, com suas respostas e fórmulas prontas, nem ainda aos bons economistas – os há – o que fazer. Ao contrário; responda depressa: se a distribuição da renda brasileira fosse melhor, (1) haveria tantos farsantes na política? (2) Se você, José, é pobre, seria mais pobre do que é? (3) E se você é rico – seria menos rico do que é? Ah! Você, além de não ser José, é rico, sim; e nem vai-se dar ao trabalho de responder esta questão. Afinal, você não é Papai Noel pra sair distribuindo sua renda pros outros e, com o mesmo direito de nós, menos ricos que você, não confia nem um pouco na gestão dos impostos, gordos impostos arrecadados pelo governo brasileiro – seja ele qual for; não é? No entanto, meu amigo ou amiga cujo nome não sei, se a renda fosse melhor distribuída, até os impostos seriam menores, como menor seria sua dor de cabeça, seja ela por causa da indecisão entre atrasar a conta do telefone ou a da luz, seja a de blindar ou não e em que porção seu belo automóvel.
Mas é muito fácil falar, não é? Ora, se de JK a Lula, nada muda? Se o governo não faz, - isso não é coisa pro governo fazer? Se tanto “fera” em economia não resolve, que petulância é essa, - de vir com liçõezinhas rasteiras e perguntinhas sem resposta?
Só nos resta esperar pelas mais novas gerações e sua superior sabedoria. Só que, no meio delas, vai crescendo a legião dos que não pedem; mandam - com o ferro na mão. Sacou? Não? Ele, sim. Ah, nem pense em se armar e sacar antes! Ele é muito mais rápido; e cresce na razão direta do índice de Gini – que nos EUA-2004 era igual a 0,408, ou o 76° mundial.
8.26.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E TRÊS –
A médica terminou o caso, pois percebeu que o amor dele, Ricardo IV, seria sempre de Sérgia. Mas não sem dor para ele, porque algo especial havia acontecido: uma naturalidade que jamais vivera com a mulher. E não sem culpa, porque gostava perdidamente de Sérgia e a ela sentia-se no dever de ser fiel – palavra que não lhe agradava, mas não encontrava outra melhor para definir a monogamia à qual se sentia obrigado. Por que não falavam sobre isso? Se ela era tão liberal, capaz de rever seus pontos de vista com naturalidade? Se ambos eram bem-nascidos e criados no Rio de Janeiro, ainda que com todas as suas mazelas, ainda assim, a terra de Leila Diniz, Vinicius de Moraes e tantos outros libertários, salgados do mar à volta e à beira do caos urbano? Por que não conversava com Sérgia, que era tão inconformista e libertária e irreverente como os ícones da cidade do Corcovado, capaz de desnudar talvez como nenhuma outra toda e qualquer hipocrisia, desde antes do Redentor, desde Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Machado de Assis – desde sempre? Ou Sérgia e ele seriam somente meros teóricos da liberdade e da naturalidade? Entristecia-se ainda um ano depois com o fim do seu caso amoroso com a médica, quando se deu conta de que bebia saborosa cerveja debaixo de uma árvore frondosa, no restaurante Samina, ao meio-dia, em Minaçu, naquele finzinho de 2006. Ele e Sérgia, daquela vez, hospedaram-se no Executivo, na esquina da Rua 2 com a Avenida Maranhão, porque Sarah Shaw Almanendez Chermont, mãe de Rita, ficara na casa de Rita e Ricardo V. Sarah, Sérgia e Rita caminhavam pela Avenida Maranhão, espiando o comércio interiorano.
Depois de deixar a família em frente ao Samina (exceto Ricardo VI, que ficara com as empregadas, em casa), Ricardo V foi ao encontro do Tenente da Polícia Militar, a convite deste. O Tenente lhe disse:
- Encontrei esse caderno no banheiro do La Ventana (bar nas proximidades da praia artificial). Acho que está em Inglês e Espanhol, mas percebi que seu nome e o de Dona Rita estão nele.
Ricardo V pediu para ver o caderno. Disse ao Tenente:
- Está em Inglês e Italiano. Posso ficar com ele?
Depois de hesitar um pouco, o Tenente lhe respondeu:
- Pode. Mas o Senhor vai me prometer que vai me devolver ele. E mais uma coisa: quero que o Senhor traduza ele pra mim, pode ser?
Ricardo disse “Claro que sim”, assinou um termo de responsabilidade e levou o caderno consigo. Entrou no carro, abriu as janelas e começou a ler as anotações. Percebeu ser um relato minucioso dos seus passos logo quando da sua chegada a Minaçu. Ao término do que parecia ser a primeira parte das anotações, estava escrito, em Inglês, “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A segunda parte era escrita em péssima caligrafia, que misturava Inglês rudimentar a um Italiano chulo. Mas o principal objeto era, novamente, ele, Ricardo V (Rita era somente citada como sua mulher). Não conseguiu fazer nenhuma outra conexão com aquele interesse de absurdos espiões seguindo seus passos na longínqua Minaçu que não seus escritos. Estava convencido de que fora a universidade americana que resolvera vigiá-lo. Sentiu-se enganado, um idiota, nas mãos de seus patrocinadores. “Finalidade pretendida”: seria ela a revolução de mentalidade, por ele imaginada e proposta em seus escritos?
Quando juntou-se à família, a sogra perguntou-lhe, em um misto de Inglês, Espanhol e Português:
- “Óculos solar”; li isso num loja. Shouldn’t it be “óculos solares”?
- Sim. Um óculo, dois óculos – respondeu-lhe o genro.
- Por isso, “lentes de contatos” – a sogra deduziu.
- Não, explicou-lhe o genro. O certo é “Lentes de contato”.
Ricardo IV, então, tomou a palavra do filho e iniciou dificílima explicação gramatical para os óculos “solares” e as lentes “de contato” para Sarah, que fez ares de contida desaprovação e ficou em silêncio. Almoçaram “peixe na telha” – um “filhote”, espécie então em extinção dos rios brasileiros, de pesca proibida, que às vezes chegava a pesar mais de cem quilos. A comida estava bem gostosa e, apesar do sol torturante, havia uma brisa e a sombra da árvore era uma benção. Sarah e Sérgia entreolharam-se, meio que perdoando os filhos por morarem naquele fim de mundo. (Mas não muito.) “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A frase e o insólito diário não deixavam Ricardo V em paz. Cruzou seus talheres e disse:
- Vamos ver quem engana quem.
E então ouviu “What?”, “O quê?”, “Como?”. Desculpou-se por ter pensado em voz alta. Ricardo IV pediu e pagou a conta e foram embora, cada qual com seus pensamentos.
- CAPÍTULO VINTE E TRÊS –
A médica terminou o caso, pois percebeu que o amor dele, Ricardo IV, seria sempre de Sérgia. Mas não sem dor para ele, porque algo especial havia acontecido: uma naturalidade que jamais vivera com a mulher. E não sem culpa, porque gostava perdidamente de Sérgia e a ela sentia-se no dever de ser fiel – palavra que não lhe agradava, mas não encontrava outra melhor para definir a monogamia à qual se sentia obrigado. Por que não falavam sobre isso? Se ela era tão liberal, capaz de rever seus pontos de vista com naturalidade? Se ambos eram bem-nascidos e criados no Rio de Janeiro, ainda que com todas as suas mazelas, ainda assim, a terra de Leila Diniz, Vinicius de Moraes e tantos outros libertários, salgados do mar à volta e à beira do caos urbano? Por que não conversava com Sérgia, que era tão inconformista e libertária e irreverente como os ícones da cidade do Corcovado, capaz de desnudar talvez como nenhuma outra toda e qualquer hipocrisia, desde antes do Redentor, desde Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Machado de Assis – desde sempre? Ou Sérgia e ele seriam somente meros teóricos da liberdade e da naturalidade? Entristecia-se ainda um ano depois com o fim do seu caso amoroso com a médica, quando se deu conta de que bebia saborosa cerveja debaixo de uma árvore frondosa, no restaurante Samina, ao meio-dia, em Minaçu, naquele finzinho de 2006. Ele e Sérgia, daquela vez, hospedaram-se no Executivo, na esquina da Rua 2 com a Avenida Maranhão, porque Sarah Shaw Almanendez Chermont, mãe de Rita, ficara na casa de Rita e Ricardo V. Sarah, Sérgia e Rita caminhavam pela Avenida Maranhão, espiando o comércio interiorano.
Depois de deixar a família em frente ao Samina (exceto Ricardo VI, que ficara com as empregadas, em casa), Ricardo V foi ao encontro do Tenente da Polícia Militar, a convite deste. O Tenente lhe disse:
- Encontrei esse caderno no banheiro do La Ventana (bar nas proximidades da praia artificial). Acho que está em Inglês e Espanhol, mas percebi que seu nome e o de Dona Rita estão nele.
Ricardo V pediu para ver o caderno. Disse ao Tenente:
- Está em Inglês e Italiano. Posso ficar com ele?
Depois de hesitar um pouco, o Tenente lhe respondeu:
- Pode. Mas o Senhor vai me prometer que vai me devolver ele. E mais uma coisa: quero que o Senhor traduza ele pra mim, pode ser?
Ricardo disse “Claro que sim”, assinou um termo de responsabilidade e levou o caderno consigo. Entrou no carro, abriu as janelas e começou a ler as anotações. Percebeu ser um relato minucioso dos seus passos logo quando da sua chegada a Minaçu. Ao término do que parecia ser a primeira parte das anotações, estava escrito, em Inglês, “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A segunda parte era escrita em péssima caligrafia, que misturava Inglês rudimentar a um Italiano chulo. Mas o principal objeto era, novamente, ele, Ricardo V (Rita era somente citada como sua mulher). Não conseguiu fazer nenhuma outra conexão com aquele interesse de absurdos espiões seguindo seus passos na longínqua Minaçu que não seus escritos. Estava convencido de que fora a universidade americana que resolvera vigiá-lo. Sentiu-se enganado, um idiota, nas mãos de seus patrocinadores. “Finalidade pretendida”: seria ela a revolução de mentalidade, por ele imaginada e proposta em seus escritos?
Quando juntou-se à família, a sogra perguntou-lhe, em um misto de Inglês, Espanhol e Português:
- “Óculos solar”; li isso num loja. Shouldn’t it be “óculos solares”?
- Sim. Um óculo, dois óculos – respondeu-lhe o genro.
- Por isso, “lentes de contatos” – a sogra deduziu.
- Não, explicou-lhe o genro. O certo é “Lentes de contato”.
Ricardo IV, então, tomou a palavra do filho e iniciou dificílima explicação gramatical para os óculos “solares” e as lentes “de contato” para Sarah, que fez ares de contida desaprovação e ficou em silêncio. Almoçaram “peixe na telha” – um “filhote”, espécie então em extinção dos rios brasileiros, de pesca proibida, que às vezes chegava a pesar mais de cem quilos. A comida estava bem gostosa e, apesar do sol torturante, havia uma brisa e a sombra da árvore era uma benção. Sarah e Sérgia entreolharam-se, meio que perdoando os filhos por morarem naquele fim de mundo. (Mas não muito.) “Lugar totalmente inadequado para a finalidade pretendida.” A frase e o insólito diário não deixavam Ricardo V em paz. Cruzou seus talheres e disse:
- Vamos ver quem engana quem.
E então ouviu “What?”, “O quê?”, “Como?”. Desculpou-se por ter pensado em voz alta. Ricardo IV pediu e pagou a conta e foram embora, cada qual com seus pensamentos.
8.22.2005
O FIO
Ninguém diz o que quer porque todo mundo ouve o que quer. Só seria possível se dizer aquilo que se queria se alguém estivesse disposto a ouvir o que se disse. Mas não é assim que funciona. Pelo antiquado telefone convencional, o fio é o culpado; pelo celular ou pessoalmente, provavelmente, sua ausência é que é – e tudo fica por um fio.
Ela chegou em casa muito contente e ele também não ficou triste, ao vê-la de biquíni fio dental, os cabelos, molhados e salgados da praia. Ela estava de férias, ele, não. Beijaram-se e abraçaram-se e ele gostou muito de pensar que seu terno seria lavado mais de sal que da poeira das ruas; mais do suor dela do que dele próprio. Ela sentiu o corpo tocado pelo tecido do terno e teve arrepios agradáveis, mais ainda no rosto, pela barba que já despontava no rosto dele, pelo cheiro do perfume dele, agora esmaecido no rosto ensaboado várias vezes durante o dia, o sal da pele dele misturado com o do mar, que permanecia em seu corpo, no corpo dela.
Ela procurou um lugar na praia onde não fosse obrigada a conviver com nenhuma das tribos: dos adolescentes que haviam chegado das aulas, dos intelectuais de plantão, das peruas, das turbinadas, dos gringos, dos fortões, dos pivetes. A solução foi caminhar, caminhar, caminhar; só parava para mergulhar, entrar na água devagar, sentindo um friozinho, dobrando os joelhos, fazendo xixi discretamente, até que mergulhava de cabeça, levantava-se, sacudia os cabelos, dava três braçadas de costas, pegava uma onda e saia do mar, para caminhar novamente.
Durante o dia, ele só tinha ficado chateado quando o chefe o chamou para lhe passar uma tarefa, nada demais, um tanto banal, e desandou a falar mal do médico que vinha-lhe tratando da rinite, vivia de nariz entupido, cadê meu lenço?, um horror. Seu aumento ainda não vai sair dessa vez, tenha calma, e muito cuidado com suas propostas, você ainda está longe do poder da empresa, não se meta a besta, fique na sua, que eu sou seu aliado; mas lembre-se: bom cabrito não berra. Ele sossegou-se e pensou, não vou perder meu tempo com babaca. Em casa, ele disse a ela, te amo, você está linda, um tesão.
Depois do abraço e do beijo, ela fungou, disse que devia ser da água do mar, que o sal seca as mucosas e é muito bom contra rinite, mas devia estar acontecendo uma adaptação, uma espécie de choque, afinal, era seu primeiro dia de férias, ainda estava impregnada de escritório, de cheiro de tailleur, não era o do terno dele, não. Ela contou a ele que havia se chateado um pouco ao entardecer, quando já se preparava para voltar pra casa e ouviu de um grupo de caras metidos a fortes, de um gênero que ela detesta, o comentário, essa aí vale a pena, eu até que trabalhava, por ela, eu até vestia um terno. Bom cabrito não berra, foi o que eu pensei, ela, em casa, disse a ele, e completou: não vou perder meu tempo com babaca. Você está um charme, te amo, te adoro, ela disse a ele.
Ele disse a ela, vá logo tomar um banho, você está suja, oleosa, mal-cheirosa do mar. Ela respondeu, quem está sujo, mal-cheiroso e oleoso é você, com essa catinga insuportável de escritório. Daí pra frente, o que se ouviu foi barulho de porta batendo. Depois, um celular tocou. Alguém comentou que um cachorro latiu. Mas havia a sirene, como saber?
Ela chegou em casa muito contente e ele também não ficou triste, ao vê-la de biquíni fio dental, os cabelos, molhados e salgados da praia. Ela estava de férias, ele, não. Beijaram-se e abraçaram-se e ele gostou muito de pensar que seu terno seria lavado mais de sal que da poeira das ruas; mais do suor dela do que dele próprio. Ela sentiu o corpo tocado pelo tecido do terno e teve arrepios agradáveis, mais ainda no rosto, pela barba que já despontava no rosto dele, pelo cheiro do perfume dele, agora esmaecido no rosto ensaboado várias vezes durante o dia, o sal da pele dele misturado com o do mar, que permanecia em seu corpo, no corpo dela.
Ela procurou um lugar na praia onde não fosse obrigada a conviver com nenhuma das tribos: dos adolescentes que haviam chegado das aulas, dos intelectuais de plantão, das peruas, das turbinadas, dos gringos, dos fortões, dos pivetes. A solução foi caminhar, caminhar, caminhar; só parava para mergulhar, entrar na água devagar, sentindo um friozinho, dobrando os joelhos, fazendo xixi discretamente, até que mergulhava de cabeça, levantava-se, sacudia os cabelos, dava três braçadas de costas, pegava uma onda e saia do mar, para caminhar novamente.
Durante o dia, ele só tinha ficado chateado quando o chefe o chamou para lhe passar uma tarefa, nada demais, um tanto banal, e desandou a falar mal do médico que vinha-lhe tratando da rinite, vivia de nariz entupido, cadê meu lenço?, um horror. Seu aumento ainda não vai sair dessa vez, tenha calma, e muito cuidado com suas propostas, você ainda está longe do poder da empresa, não se meta a besta, fique na sua, que eu sou seu aliado; mas lembre-se: bom cabrito não berra. Ele sossegou-se e pensou, não vou perder meu tempo com babaca. Em casa, ele disse a ela, te amo, você está linda, um tesão.
Depois do abraço e do beijo, ela fungou, disse que devia ser da água do mar, que o sal seca as mucosas e é muito bom contra rinite, mas devia estar acontecendo uma adaptação, uma espécie de choque, afinal, era seu primeiro dia de férias, ainda estava impregnada de escritório, de cheiro de tailleur, não era o do terno dele, não. Ela contou a ele que havia se chateado um pouco ao entardecer, quando já se preparava para voltar pra casa e ouviu de um grupo de caras metidos a fortes, de um gênero que ela detesta, o comentário, essa aí vale a pena, eu até que trabalhava, por ela, eu até vestia um terno. Bom cabrito não berra, foi o que eu pensei, ela, em casa, disse a ele, e completou: não vou perder meu tempo com babaca. Você está um charme, te amo, te adoro, ela disse a ele.
Ele disse a ela, vá logo tomar um banho, você está suja, oleosa, mal-cheirosa do mar. Ela respondeu, quem está sujo, mal-cheiroso e oleoso é você, com essa catinga insuportável de escritório. Daí pra frente, o que se ouviu foi barulho de porta batendo. Depois, um celular tocou. Alguém comentou que um cachorro latiu. Mas havia a sirene, como saber?
8.19.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E DOIS–
“Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1922.
Senhores Meus Pais:
Com vosso devido perdão, não entendo como tivestes a coragem de deixar a capital para viverdes como viveis, no meio do nada e sem recursos. (Mesmo sabedor do vosso desgosto com o triste fim de Policarpo Quaresma, padrinho da Senhora Minha Mãe, além de amigo e aluno de violão do Senhor Meu Pai.) Inda que bem me lembre da história que me contastes, isto é, da vontade de Minha Mãe de viver uma aventura, e que compreenda vosso desgosto por terdes, Meu Pai, servido ao exército de Floriano contra vossa vontade, mesmo que inda agora a situação na capital do país esteja tão conturbada, que cidade linda e fervorosa é a vossa! Acabo de assistir às comemorações do centenário da independência, que contaram, inclusive, com a presença do Presidente de Portugal, o Dr. Antônio José de Almeida, dentre outros mui ilustres estrangeiros. Pois que o Conde D´Eu, que vinha da França especialmente para os festejos, reconciliado, desde que, em setembro de 1920, o Sr. Epitácio Pessoa revogou o decreto de banimento da família imperial brasileira, morreu a bordo do navio que o trazia!
Já Dona Chiquinha Gonzaga conta agora com setenta e três anos. Seus chorinhos ainda se ouvem pela cidade e me dão muita alegria; vos agradeço pelos versos que me escrevestes, Meu Pai, aludindo aos choros dessa admirável Senhora. Soube que, em 1903 (eu com meus três anos), Dona Chiquinha Gonzaga viu, em Berlim, composições suas gravadas e editadas por um tal de Fred Figner, sem a devida autorização. Pois o citado Sr. Figner foi processado e, depois de profundas mudanças na legislação brasileira, aos 27 de setembro de 1917, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, foi criada a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, com Dona Chiquinha fazendo parte da Diretoria. Senhor meu pai, mandai-me vossos cadernos musicais, que vou registrá-los na S.B.A.T., para que vossos direitos de compositor sejam preservados para sempre.
Por falar em “direitos”: como me valeram vossas aulas em nossa casa! Ingressei na Universidade do Rio de Janeiro, criada há dois anos por decreto do Presidente da República; formar-me-ei Bacharel em Direito!
Já vos contei? Assisti (estupefato!) à derrubada do Morro do Castelo! Vós acreditais nisso, em tal tresloucada decisão? É o progresso!
Narro-vos agora acerca do “Levante do Forte de Copacabana” - do que li e do que vi.
Creio que mesmo aí em Cavalcante o Senhor Meu Pai e a Senhora Minha Mãe terão acompanhado pelo menos em parte as notícias a respeito. Se assim não for, vos faço sabedores de que, antes, o Marechal Hermes da Fonseca tomara o partido de militares de Pernambuco que haviam hostilizado parentes do Senhor Epitácio Pessoa. Pois que tal fato causou o fechamento do Clube Militar e a prisão do seu Presidente, que vem a ser o próprio Marechal Hermes - simplesmente o ex-Presidente da República! Tudo por causa das "Cartas Falsas", nas quais o Marechal foi chamado de "sargentão sem compostura". (Dizem por aí que tais cartas teriam sido escritas pelo Senhor Artur Bernardes.) Pois que veio o “levante” – o qual foi derrotado. A senha para o início da revolução seria um tiro de pólvora seca - que deveria ser disparado do Forte de Copacabana. Uma contra-senha, então, seria dada por tiros vindos das demais fortificações participantes. O tiro de Copacabana de fato houve, mas sem ouvir resposta que fosse. Assim, às onze da manhã, o Tenente Siqueira Campos comunicou aos seus aliados que haviam perdido a revolução. Em meio ao suspense e antes da marcha para o Palácio do Catete, em dado instante, no Forte, um soldado subiu num mastro para retirar a própria bandeira brasileira, que foi recortada em 28 pedaços! Acreditai, Senhor Meu Pai, Senhora Minha Mãe: a bandeira nacional foi recortada em 28 pedaços!
Despeço-me de vós, meus amados Pai e Mãe, pois agora vou noivar. Meu coração não é mais “dos outros”: já pertence, como sabeis, a Maria Cristina, que conhecereis quando aqui vierdes. Volto a vos escrever em breve; prometo-vos.
Do vosso filho,
Ricardo Coração dos Outros II.”
98 anos após a carta de Ricardo II aos seus pais, permanece a dúvida: seriam 28 os “18 do Forte”? Eduardo Gomes, que participou da revolta quando era um daqueles tenentes, quando já Brigadeiro, declarou que eram apenas 12 – e há registros de que teriam sido 11. Mais recentemente, a história ficou mais fácil e exata, ainda que menos heróica. Com tudo gravado, por exemplo, sabe-se exatamente quantos políticos receberam propina a título de tráfego de votos e outros artigos no chamado “mensalão” de 2005. O que, aliás, não faz como não fez a menor diferença. Pois que a diferença só veio a acontecer de fato depois da Revolução de 2017.
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E DOIS–
“Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1922.
Senhores Meus Pais:
Com vosso devido perdão, não entendo como tivestes a coragem de deixar a capital para viverdes como viveis, no meio do nada e sem recursos. (Mesmo sabedor do vosso desgosto com o triste fim de Policarpo Quaresma, padrinho da Senhora Minha Mãe, além de amigo e aluno de violão do Senhor Meu Pai.) Inda que bem me lembre da história que me contastes, isto é, da vontade de Minha Mãe de viver uma aventura, e que compreenda vosso desgosto por terdes, Meu Pai, servido ao exército de Floriano contra vossa vontade, mesmo que inda agora a situação na capital do país esteja tão conturbada, que cidade linda e fervorosa é a vossa! Acabo de assistir às comemorações do centenário da independência, que contaram, inclusive, com a presença do Presidente de Portugal, o Dr. Antônio José de Almeida, dentre outros mui ilustres estrangeiros. Pois que o Conde D´Eu, que vinha da França especialmente para os festejos, reconciliado, desde que, em setembro de 1920, o Sr. Epitácio Pessoa revogou o decreto de banimento da família imperial brasileira, morreu a bordo do navio que o trazia!
Já Dona Chiquinha Gonzaga conta agora com setenta e três anos. Seus chorinhos ainda se ouvem pela cidade e me dão muita alegria; vos agradeço pelos versos que me escrevestes, Meu Pai, aludindo aos choros dessa admirável Senhora. Soube que, em 1903 (eu com meus três anos), Dona Chiquinha Gonzaga viu, em Berlim, composições suas gravadas e editadas por um tal de Fred Figner, sem a devida autorização. Pois o citado Sr. Figner foi processado e, depois de profundas mudanças na legislação brasileira, aos 27 de setembro de 1917, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, foi criada a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, com Dona Chiquinha fazendo parte da Diretoria. Senhor meu pai, mandai-me vossos cadernos musicais, que vou registrá-los na S.B.A.T., para que vossos direitos de compositor sejam preservados para sempre.
Por falar em “direitos”: como me valeram vossas aulas em nossa casa! Ingressei na Universidade do Rio de Janeiro, criada há dois anos por decreto do Presidente da República; formar-me-ei Bacharel em Direito!
Já vos contei? Assisti (estupefato!) à derrubada do Morro do Castelo! Vós acreditais nisso, em tal tresloucada decisão? É o progresso!
Narro-vos agora acerca do “Levante do Forte de Copacabana” - do que li e do que vi.
Creio que mesmo aí em Cavalcante o Senhor Meu Pai e a Senhora Minha Mãe terão acompanhado pelo menos em parte as notícias a respeito. Se assim não for, vos faço sabedores de que, antes, o Marechal Hermes da Fonseca tomara o partido de militares de Pernambuco que haviam hostilizado parentes do Senhor Epitácio Pessoa. Pois que tal fato causou o fechamento do Clube Militar e a prisão do seu Presidente, que vem a ser o próprio Marechal Hermes - simplesmente o ex-Presidente da República! Tudo por causa das "Cartas Falsas", nas quais o Marechal foi chamado de "sargentão sem compostura". (Dizem por aí que tais cartas teriam sido escritas pelo Senhor Artur Bernardes.) Pois que veio o “levante” – o qual foi derrotado. A senha para o início da revolução seria um tiro de pólvora seca - que deveria ser disparado do Forte de Copacabana. Uma contra-senha, então, seria dada por tiros vindos das demais fortificações participantes. O tiro de Copacabana de fato houve, mas sem ouvir resposta que fosse. Assim, às onze da manhã, o Tenente Siqueira Campos comunicou aos seus aliados que haviam perdido a revolução. Em meio ao suspense e antes da marcha para o Palácio do Catete, em dado instante, no Forte, um soldado subiu num mastro para retirar a própria bandeira brasileira, que foi recortada em 28 pedaços! Acreditai, Senhor Meu Pai, Senhora Minha Mãe: a bandeira nacional foi recortada em 28 pedaços!
Despeço-me de vós, meus amados Pai e Mãe, pois agora vou noivar. Meu coração não é mais “dos outros”: já pertence, como sabeis, a Maria Cristina, que conhecereis quando aqui vierdes. Volto a vos escrever em breve; prometo-vos.
Do vosso filho,
Ricardo Coração dos Outros II.”
98 anos após a carta de Ricardo II aos seus pais, permanece a dúvida: seriam 28 os “18 do Forte”? Eduardo Gomes, que participou da revolta quando era um daqueles tenentes, quando já Brigadeiro, declarou que eram apenas 12 – e há registros de que teriam sido 11. Mais recentemente, a história ficou mais fácil e exata, ainda que menos heróica. Com tudo gravado, por exemplo, sabe-se exatamente quantos políticos receberam propina a título de tráfego de votos e outros artigos no chamado “mensalão” de 2005. O que, aliás, não faz como não fez a menor diferença. Pois que a diferença só veio a acontecer de fato depois da Revolução de 2017.
8.15.2005
A
Amoral: o que não tem moral. Muitas vezes o amoral é tido como espécie de marginal, - mas dos bandidos, não somente por ficar à margem, mas daqueles que ficam à nossa volta, roubando porcos, pérolas e lap-tops, mesmo que não faça nada disso, que não agrida nem avilte a nada ou ninguém.
“Atire a primeira pedra” meio que já diz tudo. É como se os puros fossem aqueles que não o são – pelo menos aqueles que não se dizem puros e que não nos exigem que o sejamos.
“Eis que é chegada a hora dos verdadeiros puros” – foi algo assim que disse Vinicius de Moraes, em livro desaparecido na bagunça de quem vem aqui desafiar as leis e especialmente os dicionários, igualmente distantes, neste momento.
Os verdadeiros puros provavelmente são amorais, por não gostarem da moral; a desprezam, por a saberem dedo a acusar outrem para esconder a própria mão que o traz, que costuma cometer delitos geralmente maiores que os supostamente cometidos pelo acusado.
A partir daqui é que se pretende introduzir um outro grupo, que poderá ser tido como amoral, ou, quem sabe, impuro: o dos afiéis.
Muito interessante observar que, dos gregos, dentre outras analogias, herdamos o αβ-to, que começa por uma negação; o contrário: A - de atemporal, anacrônico, anônimo, antônimo... Amoral.
Afiel.
Não precisamos ir ao dicionário para descobrir que os afiéis não se encontram lá, ao contrário dos fiéis e seu contrário, os infiéis. Mas urge que os afiéis passem a fazer parte das definições catalogadas.
Afiel é quem permanece único na vida de alguém e assim se mantém não por não perceber outras possibilidades e não por assim não se perceber. Tão somente se deixa único na vida de alguém por instinto: amorosamente, apaixonadamente, amoralmente; afielmente.
O resto é contrato, fidelidade, adultério, moral. E não a beleza do seu contrário; a do começo.
Pura, helênica e simplesmente “A”.
“Atire a primeira pedra” meio que já diz tudo. É como se os puros fossem aqueles que não o são – pelo menos aqueles que não se dizem puros e que não nos exigem que o sejamos.
“Eis que é chegada a hora dos verdadeiros puros” – foi algo assim que disse Vinicius de Moraes, em livro desaparecido na bagunça de quem vem aqui desafiar as leis e especialmente os dicionários, igualmente distantes, neste momento.
Os verdadeiros puros provavelmente são amorais, por não gostarem da moral; a desprezam, por a saberem dedo a acusar outrem para esconder a própria mão que o traz, que costuma cometer delitos geralmente maiores que os supostamente cometidos pelo acusado.
A partir daqui é que se pretende introduzir um outro grupo, que poderá ser tido como amoral, ou, quem sabe, impuro: o dos afiéis.
Muito interessante observar que, dos gregos, dentre outras analogias, herdamos o αβ-to, que começa por uma negação; o contrário: A - de atemporal, anacrônico, anônimo, antônimo... Amoral.
Afiel.
Não precisamos ir ao dicionário para descobrir que os afiéis não se encontram lá, ao contrário dos fiéis e seu contrário, os infiéis. Mas urge que os afiéis passem a fazer parte das definições catalogadas.
Afiel é quem permanece único na vida de alguém e assim se mantém não por não perceber outras possibilidades e não por assim não se perceber. Tão somente se deixa único na vida de alguém por instinto: amorosamente, apaixonadamente, amoralmente; afielmente.
O resto é contrato, fidelidade, adultério, moral. E não a beleza do seu contrário; a do começo.
Pura, helênica e simplesmente “A”.
8.13.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE E UM–
No começo, Rita já entendia quase todos os hábitos da cidade e com eles convivia – menos o “salão” (que ela pronunciava – como até hoje pronuncia – sem o til). Tivesse chegado antes da construção da segunda hidrelétrica – ou mesmo durante -, já estaria acostumada, ou ficaria ainda mais espantada com o hábito.
Antes da segunda hidrelétrica, Minaçu era ainda mais provinciana. Durante as obras, eram comuns os bailes organizados em diferentes locais da cidade, especialmente nas noites de sábado. Peões dançavam com engenheiras, engenheiros com sociólogas ou manicures, a população quase que em peso comparecia. Dançavam um ritmo que misturava música regional sertaneja - ou “Brazilian country music” - com alguma coisa parecida com rumba: era assim que parecia aos ouvidos de Rita e de seu conterrâneo Robert Preston Jr., ambos chegados depois da obra pronta e que jamais foram àqueles bailes; mas o ritmo ainda se ouvia em alguns bares e residências, em 2002 – quando Mr. Preston e Rita chegaram, sem nunca se conhecerem - e depois. (Um ano depois, nasceria Ricardo Coração dos Outros VI e Mr. Preston iría de carro até Brasília, fazendo o mesmo percurso de Ricardo V quando, em 2006, foi buscar mulher e filho chegados de Orlando e foi fotografado por Giulio Vincenzo, o falso Dr. Scarpini.) Porém, mesmo quando não havia um único mísero baile para se ir, o encontro vespertino das mulheres era no “salão” – o tradicional “salão de beleza”, tão comum em todas as cidades brasileiras, onde é igualmente comum a conversa entre mulheres, geralmente sobre a vida alheia.
Na Minaçu de depois da segunda hidrelétrica até hoje o hábito se mantém, mas não com a duração e intensidade dos tempos a ela anteriores. As tardes eram imensas – dificilmente havia o que se fazer, a não ser ir ao “salão”, onde duas cabeleireiras-manicures revezavam-se, penteando e “fazendo o pé” ou “fazendo a mão” de – quiçá – todas as mulheres minaçuanas do mundo – mas de uma forma organizada, pois nunca se soube de uma fila. Enquanto duas mulheres eram atendidas, outras esperavam abanando-se e servindo-se de café; e todas falavam ao mesmo tempo. O mesmo Brasil de “Memórias de um sargento de milícias” se repetia naquela vizinhança, onde casos de adultério terminados ou não em morte serviam de assunto por bom tempo.
Rita estava curiosa por conhecer o tal “salão”, ainda pouco compreendendo o sotaque do cerrado. Foi lá acompanhada da assistente social, residente em Minaçu por conta da segunda hidrelétrica e seus reassentamentos, que a levara com o marido, Ricardo V, a uma das comunidades rurais vizinhas. Que era uma tarde muito quente, não era novidade – mas Rita percebeu haver grande excitamento no lugar. Custou a entender: era a mesma história de um estrangeiro que se dissera “turista” por aquelas bandas e acompanhara a assistente social à mesma comunidade e depois fora denunciado por uma jornalista como “falso turista”. Aquela história era repetida em toda parte, inclusive na casa de Rita, tendo sido motivo de brigas do casal, pois Ricardo V desconfiava de planos de dominação da região por comunidades ou instituições norte-americanas – sendo que, às vezes, desconfiava de que o plano fosse do próprio estado americano, do país, os Estados Unidos da América. Ricardo VI já com dois, três anos, em 2005, 2006, e a mesma história ainda amolava a paz do casal – que só viria a conhecer a verdadeira história do falso turista por meio de Giulio Vincenzo, em 2006 – que não deixa de ser relacionada à revolução de 2017, como se verá.
Já em 1920, Ricardo II desembarcava de trem no Rio de Janeiro, capital da República e berço de seus pais, Ricardo Coração dos Outros e Olga, habitantes de Cavalcante, Goiás, onde ele nascera. Era o governo de Epitácio Pessoa. Naquele mesmo ano, foi realizado o recenseamento da população no Brasil, tendo sido contados trinta milhões, seiscentos e trinta e cinco mil, seiscentos e oitenta e cinco habitantes, dos quais um milhão, cento e cinqüenta e sete mil, oitocentos e setenta e três no Rio de Janeiro. Gente pra burro! – Ricardo II, com seus vinte anos, espantou-se. Mais ainda com as tropas na Avenida Rio Branco, perfiladas para receber os reis Alberto I e Elizabeth, da Bélgica. Dois anos depois, testemunharia o levante do Forte de Copacabana. Era demais para um pobre coração dos outros nascido em Cavalcante.
- CAPÍTULO VINTE E UM–
No começo, Rita já entendia quase todos os hábitos da cidade e com eles convivia – menos o “salão” (que ela pronunciava – como até hoje pronuncia – sem o til). Tivesse chegado antes da construção da segunda hidrelétrica – ou mesmo durante -, já estaria acostumada, ou ficaria ainda mais espantada com o hábito.
Antes da segunda hidrelétrica, Minaçu era ainda mais provinciana. Durante as obras, eram comuns os bailes organizados em diferentes locais da cidade, especialmente nas noites de sábado. Peões dançavam com engenheiras, engenheiros com sociólogas ou manicures, a população quase que em peso comparecia. Dançavam um ritmo que misturava música regional sertaneja - ou “Brazilian country music” - com alguma coisa parecida com rumba: era assim que parecia aos ouvidos de Rita e de seu conterrâneo Robert Preston Jr., ambos chegados depois da obra pronta e que jamais foram àqueles bailes; mas o ritmo ainda se ouvia em alguns bares e residências, em 2002 – quando Mr. Preston e Rita chegaram, sem nunca se conhecerem - e depois. (Um ano depois, nasceria Ricardo Coração dos Outros VI e Mr. Preston iría de carro até Brasília, fazendo o mesmo percurso de Ricardo V quando, em 2006, foi buscar mulher e filho chegados de Orlando e foi fotografado por Giulio Vincenzo, o falso Dr. Scarpini.) Porém, mesmo quando não havia um único mísero baile para se ir, o encontro vespertino das mulheres era no “salão” – o tradicional “salão de beleza”, tão comum em todas as cidades brasileiras, onde é igualmente comum a conversa entre mulheres, geralmente sobre a vida alheia.
Na Minaçu de depois da segunda hidrelétrica até hoje o hábito se mantém, mas não com a duração e intensidade dos tempos a ela anteriores. As tardes eram imensas – dificilmente havia o que se fazer, a não ser ir ao “salão”, onde duas cabeleireiras-manicures revezavam-se, penteando e “fazendo o pé” ou “fazendo a mão” de – quiçá – todas as mulheres minaçuanas do mundo – mas de uma forma organizada, pois nunca se soube de uma fila. Enquanto duas mulheres eram atendidas, outras esperavam abanando-se e servindo-se de café; e todas falavam ao mesmo tempo. O mesmo Brasil de “Memórias de um sargento de milícias” se repetia naquela vizinhança, onde casos de adultério terminados ou não em morte serviam de assunto por bom tempo.
Rita estava curiosa por conhecer o tal “salão”, ainda pouco compreendendo o sotaque do cerrado. Foi lá acompanhada da assistente social, residente em Minaçu por conta da segunda hidrelétrica e seus reassentamentos, que a levara com o marido, Ricardo V, a uma das comunidades rurais vizinhas. Que era uma tarde muito quente, não era novidade – mas Rita percebeu haver grande excitamento no lugar. Custou a entender: era a mesma história de um estrangeiro que se dissera “turista” por aquelas bandas e acompanhara a assistente social à mesma comunidade e depois fora denunciado por uma jornalista como “falso turista”. Aquela história era repetida em toda parte, inclusive na casa de Rita, tendo sido motivo de brigas do casal, pois Ricardo V desconfiava de planos de dominação da região por comunidades ou instituições norte-americanas – sendo que, às vezes, desconfiava de que o plano fosse do próprio estado americano, do país, os Estados Unidos da América. Ricardo VI já com dois, três anos, em 2005, 2006, e a mesma história ainda amolava a paz do casal – que só viria a conhecer a verdadeira história do falso turista por meio de Giulio Vincenzo, em 2006 – que não deixa de ser relacionada à revolução de 2017, como se verá.
Já em 1920, Ricardo II desembarcava de trem no Rio de Janeiro, capital da República e berço de seus pais, Ricardo Coração dos Outros e Olga, habitantes de Cavalcante, Goiás, onde ele nascera. Era o governo de Epitácio Pessoa. Naquele mesmo ano, foi realizado o recenseamento da população no Brasil, tendo sido contados trinta milhões, seiscentos e trinta e cinco mil, seiscentos e oitenta e cinco habitantes, dos quais um milhão, cento e cinqüenta e sete mil, oitocentos e setenta e três no Rio de Janeiro. Gente pra burro! – Ricardo II, com seus vinte anos, espantou-se. Mais ainda com as tropas na Avenida Rio Branco, perfiladas para receber os reis Alberto I e Elizabeth, da Bélgica. Dois anos depois, testemunharia o levante do Forte de Copacabana. Era demais para um pobre coração dos outros nascido em Cavalcante.
8.08.2005
LAMENTAMOS INFORMAR, MAS O SÉCULO QUE CHEGOU FOI O XIX
Na capa está escrito que a crise sobe a rampa, mas o que chama a atenção é uma alemã, chamada Judith Mair, que descobriu a fórmula da liberdade: a prisão. (A revista é “Época”, edição de 8 de agosto de 2005.)
Pegue lá um conto ou romance do século dezenove – pode ser inglês ou russo, tanto faz. Perceba o ambiente severo de escritórios e repartições: ar sombrio, atmosfera carregada de silêncio e temor, ninguém fala com ninguém, só despacha, defere, indefere, carimba, molha a pena, assina, levanta, vai ao banheiro, volta, senta-se novamente, olhando de soslaio para o chefe, um sisudo, para ver se ele recriminou o tempo em que seu carimbo deixou de carimbar e sua pena ficou seca. Não é de você que falamos - afinal seu século é outro, o do Monge e o Executivo, do líder no lugar do chefe, o que é amado e respeitado e não temido e obedecido.
Pois Dona Judith, 33 anos, autora do best-seller “chega de Oba-Oba!”, descobriu que as empresas ditas modernas escravizam os indivíduos, exatamente por os encherem de liberdade. A liberdade de conversar com o colega, de deixar ligado o celular, segundo ela, escraviza. Ela faz questão de lembrar também que Sábado é dia de churrasco. É claro: com o pessoal da empresa e o chefe – opa! Chefe não: líder. O que ela propõe e pratica em sua empresa? Celular desligado, conversas, só as essenciais, no lugar de nomes, sobrenomes. Em contrapartida, acabou o expediente? Até amanhã. Nada de “confraternização de fim de semana”; ninguém do trabalho vai ligar convidando você para uma partida de tênis ou uma rapidinha, isto é, reuniãozinha, na tarde de domingo. Ou, como conversam os humildes: “A que horas você pega no serviço?”. “Pego às 8 e largo às 18 e folgo no fim de semana.”.
Acompanhados de Judith, saímos do século XX e chegamos não ao XXI, mas ao XIX; e começamos a achar que fizemos bom negócio: as guerras tão cedo serão atômicas; morreremos de tédio e tuberculose e não de atropelamento e stress. O chato é que o mesmo triste espetáculo se repete: a crise sobe ou desce a rampa, discursos enfadonhos e vazios nos penetram a intimidade e os ouvidos, sofistas e dialéticos se revezam a discutir se precisamos ou não de líderes, se liderar é chefiar, nata qualidade ou aristotélica ou maquiavélica invenção. Se você trabalha, dá graças a Deus e, se está sem trabalho, é a Ele que você pede emprego - logo você, que não crê; logo você, que tanto crê e não compreende.
Voltamos ao XXI? Anime-se: há novas perspectivas para o sexo e o rock’n roll – mesmo porque, com a música e os discursos que andam por aí, melhor reinventar o roque e fazer sexo com bossa nova.
Assim viajamos no tempo, sem precisar de tecnologia. Amanhã é dia de trabalho e, quer apostar? Essa noite você sonhará com Judith.
A não ser que seu subconsciente lhe pregue uma peça e lhe dê de presente uma rampa.
Pegue lá um conto ou romance do século dezenove – pode ser inglês ou russo, tanto faz. Perceba o ambiente severo de escritórios e repartições: ar sombrio, atmosfera carregada de silêncio e temor, ninguém fala com ninguém, só despacha, defere, indefere, carimba, molha a pena, assina, levanta, vai ao banheiro, volta, senta-se novamente, olhando de soslaio para o chefe, um sisudo, para ver se ele recriminou o tempo em que seu carimbo deixou de carimbar e sua pena ficou seca. Não é de você que falamos - afinal seu século é outro, o do Monge e o Executivo, do líder no lugar do chefe, o que é amado e respeitado e não temido e obedecido.
Pois Dona Judith, 33 anos, autora do best-seller “chega de Oba-Oba!”, descobriu que as empresas ditas modernas escravizam os indivíduos, exatamente por os encherem de liberdade. A liberdade de conversar com o colega, de deixar ligado o celular, segundo ela, escraviza. Ela faz questão de lembrar também que Sábado é dia de churrasco. É claro: com o pessoal da empresa e o chefe – opa! Chefe não: líder. O que ela propõe e pratica em sua empresa? Celular desligado, conversas, só as essenciais, no lugar de nomes, sobrenomes. Em contrapartida, acabou o expediente? Até amanhã. Nada de “confraternização de fim de semana”; ninguém do trabalho vai ligar convidando você para uma partida de tênis ou uma rapidinha, isto é, reuniãozinha, na tarde de domingo. Ou, como conversam os humildes: “A que horas você pega no serviço?”. “Pego às 8 e largo às 18 e folgo no fim de semana.”.
Acompanhados de Judith, saímos do século XX e chegamos não ao XXI, mas ao XIX; e começamos a achar que fizemos bom negócio: as guerras tão cedo serão atômicas; morreremos de tédio e tuberculose e não de atropelamento e stress. O chato é que o mesmo triste espetáculo se repete: a crise sobe ou desce a rampa, discursos enfadonhos e vazios nos penetram a intimidade e os ouvidos, sofistas e dialéticos se revezam a discutir se precisamos ou não de líderes, se liderar é chefiar, nata qualidade ou aristotélica ou maquiavélica invenção. Se você trabalha, dá graças a Deus e, se está sem trabalho, é a Ele que você pede emprego - logo você, que não crê; logo você, que tanto crê e não compreende.
Voltamos ao XXI? Anime-se: há novas perspectivas para o sexo e o rock’n roll – mesmo porque, com a música e os discursos que andam por aí, melhor reinventar o roque e fazer sexo com bossa nova.
Assim viajamos no tempo, sem precisar de tecnologia. Amanhã é dia de trabalho e, quer apostar? Essa noite você sonhará com Judith.
A não ser que seu subconsciente lhe pregue uma peça e lhe dê de presente uma rampa.
8.06.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE –
Giulio Vincenzo não gostava de que seu sobrenome fosse um segundo nome próprio, principalmente por tê-lo herdado do pai que jamais conheceu, por mórbida paixão da mãe, Sophia, que desprezou o próprio sobrenome, Lorenzi, para não caracterizar o que era de todo óbvio: Giulio era filho de mãe solteira.
Chegara à profissão de antropólogo por tortuosas vias. Tentara medicina, sem conseguir ingressar na faculdade; depois, veterinária, mas, ao perder o primeiro período por insuficiência, desistiu; conseguiu, com grande dificuldade, uma vaga em sociologia – que abandonou, porque perdia o sono às noites, já que este lhe tomava os dias, nas aulas, quando sua concentração era uma corrente de vento que entrava pela janela, cheia de elos desatados. Ingressou no exército e seguiu em missão de paz para Serra Leoa. Viu tanta desgraça ao lado do renomado antropólogo Dr. Vincenzo (coincidência que, a princípio, tomara como maldita), de sobrenome Scarpini, que, quando este, ainda moço, desabou de febre e de frio e de morte ao lado dele, Giulio, encarregado de zelar pela vida do doutor, numa tarde de calor e poeira insuportáveis, decidiu enterrar-lhe por ali, só que sem a carteira de notas e documentos – que passaram a lhe acompanhar, com a devida troca de retratos e constante renovação das notas, desde a fuga e deserção daquele inferno humano até aqueles momentos, em que se encontrava no cerrado brasileiro, escondendo-se atrás de uma árvore, após ter sido flagrado pelo sujeito pago pela universidade para desenvolver uma tese maluca, a mesma universidade que contratara Giulio para fazer o que eles haviam chamado de “pesquisas paralelas”.
O eterno retorno. Da África, fugira para o Brasil, mais precisamente Rio de Janeiro, que atraía como atraiu e até hoje atrai estrangeiros de toda parte, nas mais diversas fases da sua história. Alguns a procuram quando sua fama é de tranqüilidade; outros, quando, mesmo ou porque, suas notícias são de risco e violência – como naquele 2006. Giulio fora em busca de mar, mulheres e oportunidades de exercer a profissão que conquistara pela morte do homem cuja vida dependera da sua proteção, contra a qual não cometera qualquer violência, morte que se deu ao seu lado, na ausência de outras testemunhas e que entendeu como dádiva divina. Conseguira ler poucas páginas de alguns dos livros do Doutor Scarpini, que agora era ele e, portanto, a ele, Giulio, pertenciam, ora com espanto, ora com a mesma sonolência dos bancos universitários que chegou a freqüentar. Mas o que lhe dava prazer de verdade eram as anotações de Vincenzo Scarpini em um caderno que trazia consigo dentro da mochila pendurada nos ombros e apoiada nas costas quando caiu sem vida. Não pelas desgraças humanas narradas pelo cientista que agora personificava, mas pela riqueza de detalhes, de expressões em latim, além de exclamações de alguém verdadeiramente apaixonado pelo que fazia. Essas exclamações é que entusiasmaram Giulio e que foram por ele incorporadas para compor sua personagem, o tipo que resolveu adotar para si, na pele do Doutor em antropologia, Signore Vincenzo Scarpini.
No Rio não conseguia parar de, às manhãs e tardes, zanzar pelos calçadões de Copacabana, Ipanema e Leblon; de, às noites, deixar-se preso a tulipas de chopes nos bares de Copacabana, abordado por prostitutas que lhe aquietavam os instintos e, às vezes, a alma; de, quando de dia novamente, voltar a caminhar em bermudas e tênis nos calçadões à beira da praia, quando pensava despertar a atenção de mulheres de variadas idades e se engraçava para algumas delas, sem, no entanto, lograr êxito - a não ser uma única vez, que veio a levar-lhe do Rio à Flórida. Namorou Fernanda por uma semana, quando passaram a maior parte do tempo trancados no quarto lateral do hotel de Copacabana, fazendo sexo a mais não poder, a conversar num ritmo de descombinação latina, com poucas e profundas pausas entremeadas por grandes atropelos de caudalosas e desconexas frases, até que ela lhe convidou:
- Vamos para Miami; lá se ganha em dólar.
Pararam mesmo foi em Orlando, onde se desentenderam, pois, lá, conseguiu realizar seu sonho de ser tomado por antropólogo, o renomado Doutor Vincenzo Scarpini, dado como desaparecido em Serra Leoa. Foi contratado, com a instrução de realizar pesquisas paralelas e secretas às de Ricardo Coração dos Outros V, com o mesmo tema, com o seguinte recado, explícito, firme, sem margens para dúvidas:
- Acompanhe os passos de Ricardo. Is that clear?
- Absolutely – Giulio respondeu, como aprendera com Fernanda, que passou a exercer outra profissão em Orlando e por lá permaneceu.
Assim foi o retorno de Giulio Vincenzo, filho de Sophia Lorenzi, vulgo Doutor Vincenzo Scarpini, ao Brasil, agora para a região do cerrado goiano, com escala na capital, Brasília – mesmo percurso que um certo Mr. Robert Preston Jr. fizera, à mando da mesma universidade, três anos antes, quando Ricardo V e Rita eram recém-chegados em Minaçu. Como era o período seco, a poeira estava de matar. “De volta ao pó” – pensou Giulio - ou “aquele merda”, como a ele Ricardo V se referira, sem que Giulio soubesse, ainda que assim se sentisse.
Brasil, 2005
- CAPÍTULO VINTE –
Giulio Vincenzo não gostava de que seu sobrenome fosse um segundo nome próprio, principalmente por tê-lo herdado do pai que jamais conheceu, por mórbida paixão da mãe, Sophia, que desprezou o próprio sobrenome, Lorenzi, para não caracterizar o que era de todo óbvio: Giulio era filho de mãe solteira.
Chegara à profissão de antropólogo por tortuosas vias. Tentara medicina, sem conseguir ingressar na faculdade; depois, veterinária, mas, ao perder o primeiro período por insuficiência, desistiu; conseguiu, com grande dificuldade, uma vaga em sociologia – que abandonou, porque perdia o sono às noites, já que este lhe tomava os dias, nas aulas, quando sua concentração era uma corrente de vento que entrava pela janela, cheia de elos desatados. Ingressou no exército e seguiu em missão de paz para Serra Leoa. Viu tanta desgraça ao lado do renomado antropólogo Dr. Vincenzo (coincidência que, a princípio, tomara como maldita), de sobrenome Scarpini, que, quando este, ainda moço, desabou de febre e de frio e de morte ao lado dele, Giulio, encarregado de zelar pela vida do doutor, numa tarde de calor e poeira insuportáveis, decidiu enterrar-lhe por ali, só que sem a carteira de notas e documentos – que passaram a lhe acompanhar, com a devida troca de retratos e constante renovação das notas, desde a fuga e deserção daquele inferno humano até aqueles momentos, em que se encontrava no cerrado brasileiro, escondendo-se atrás de uma árvore, após ter sido flagrado pelo sujeito pago pela universidade para desenvolver uma tese maluca, a mesma universidade que contratara Giulio para fazer o que eles haviam chamado de “pesquisas paralelas”.
O eterno retorno. Da África, fugira para o Brasil, mais precisamente Rio de Janeiro, que atraía como atraiu e até hoje atrai estrangeiros de toda parte, nas mais diversas fases da sua história. Alguns a procuram quando sua fama é de tranqüilidade; outros, quando, mesmo ou porque, suas notícias são de risco e violência – como naquele 2006. Giulio fora em busca de mar, mulheres e oportunidades de exercer a profissão que conquistara pela morte do homem cuja vida dependera da sua proteção, contra a qual não cometera qualquer violência, morte que se deu ao seu lado, na ausência de outras testemunhas e que entendeu como dádiva divina. Conseguira ler poucas páginas de alguns dos livros do Doutor Scarpini, que agora era ele e, portanto, a ele, Giulio, pertenciam, ora com espanto, ora com a mesma sonolência dos bancos universitários que chegou a freqüentar. Mas o que lhe dava prazer de verdade eram as anotações de Vincenzo Scarpini em um caderno que trazia consigo dentro da mochila pendurada nos ombros e apoiada nas costas quando caiu sem vida. Não pelas desgraças humanas narradas pelo cientista que agora personificava, mas pela riqueza de detalhes, de expressões em latim, além de exclamações de alguém verdadeiramente apaixonado pelo que fazia. Essas exclamações é que entusiasmaram Giulio e que foram por ele incorporadas para compor sua personagem, o tipo que resolveu adotar para si, na pele do Doutor em antropologia, Signore Vincenzo Scarpini.
No Rio não conseguia parar de, às manhãs e tardes, zanzar pelos calçadões de Copacabana, Ipanema e Leblon; de, às noites, deixar-se preso a tulipas de chopes nos bares de Copacabana, abordado por prostitutas que lhe aquietavam os instintos e, às vezes, a alma; de, quando de dia novamente, voltar a caminhar em bermudas e tênis nos calçadões à beira da praia, quando pensava despertar a atenção de mulheres de variadas idades e se engraçava para algumas delas, sem, no entanto, lograr êxito - a não ser uma única vez, que veio a levar-lhe do Rio à Flórida. Namorou Fernanda por uma semana, quando passaram a maior parte do tempo trancados no quarto lateral do hotel de Copacabana, fazendo sexo a mais não poder, a conversar num ritmo de descombinação latina, com poucas e profundas pausas entremeadas por grandes atropelos de caudalosas e desconexas frases, até que ela lhe convidou:
- Vamos para Miami; lá se ganha em dólar.
Pararam mesmo foi em Orlando, onde se desentenderam, pois, lá, conseguiu realizar seu sonho de ser tomado por antropólogo, o renomado Doutor Vincenzo Scarpini, dado como desaparecido em Serra Leoa. Foi contratado, com a instrução de realizar pesquisas paralelas e secretas às de Ricardo Coração dos Outros V, com o mesmo tema, com o seguinte recado, explícito, firme, sem margens para dúvidas:
- Acompanhe os passos de Ricardo. Is that clear?
- Absolutely – Giulio respondeu, como aprendera com Fernanda, que passou a exercer outra profissão em Orlando e por lá permaneceu.
Assim foi o retorno de Giulio Vincenzo, filho de Sophia Lorenzi, vulgo Doutor Vincenzo Scarpini, ao Brasil, agora para a região do cerrado goiano, com escala na capital, Brasília – mesmo percurso que um certo Mr. Robert Preston Jr. fizera, à mando da mesma universidade, três anos antes, quando Ricardo V e Rita eram recém-chegados em Minaçu. Como era o período seco, a poeira estava de matar. “De volta ao pó” – pensou Giulio - ou “aquele merda”, como a ele Ricardo V se referira, sem que Giulio soubesse, ainda que assim se sentisse.
8.03.2005
LINOLOGIA
Os dicionários dirão que a palavra certa é “Limnologia” - ciência que estuda a qualidade das águas doces -, mas o assunto aqui é outro: a Linologia; a lógica do Lino.
Lino tem 104 anos – você não leu errado: cento e quatro anos -, é natural de Florianópolis, não fuma e só bebe quando quer, toca pandeiro e vai, de vez em quando, a São Paulo.
Não vê, não lê e não ouve noticiários sobre crimes; casou uma só vez e enviuvou; é namorador e galanteador.
Lino é uma mistura de bugre com alemão. Bugre: indivíduo dos bugres, tribo indígena do sul do Brasil. Alemão: nascido na Alemanha. De certo descenderá de um inconformado e visionário, que fugiu para um paraíso que aqui se escondia e ainda se esconde, onde nenhum outro branco jamais chegou nem chegará, e casou-se com uma, duas ou três índias - uma das quais deu origem à raça Lino, que veio parar na Ilha de Santa Catarina.
Seu neto dirige um táxi, tem a mesma cor do avô e por volta de quarenta e cinco anos. Vai ao médico e faz os exames recomendados regularmente: de cinco em cinco anos.
Lino planta no quintal da casa onde mora, vai a pé comprar pão, tomate e, uma vez ou outra, cachaça - que bebe aos goles lentos e filosofais, balançando-se em uma cadeira que lhe ensina o movimento da terra em torno do sol com uma precisão que a ciência jamais conhecerá.
Aulas de Linologia deveriam ser ministradas de Florianópolis para o mundo, quem sabe afastando o tráfico e trazendo o mundo de volta, que anda longe e triste, pra lá de Bagdá.
Revisão do original de 26 de julho de 2003. E a guerra continua. Que infantilidade! Ela nunca parou, não é?
Lino tem 104 anos – você não leu errado: cento e quatro anos -, é natural de Florianópolis, não fuma e só bebe quando quer, toca pandeiro e vai, de vez em quando, a São Paulo.
Não vê, não lê e não ouve noticiários sobre crimes; casou uma só vez e enviuvou; é namorador e galanteador.
Lino é uma mistura de bugre com alemão. Bugre: indivíduo dos bugres, tribo indígena do sul do Brasil. Alemão: nascido na Alemanha. De certo descenderá de um inconformado e visionário, que fugiu para um paraíso que aqui se escondia e ainda se esconde, onde nenhum outro branco jamais chegou nem chegará, e casou-se com uma, duas ou três índias - uma das quais deu origem à raça Lino, que veio parar na Ilha de Santa Catarina.
Seu neto dirige um táxi, tem a mesma cor do avô e por volta de quarenta e cinco anos. Vai ao médico e faz os exames recomendados regularmente: de cinco em cinco anos.
Lino planta no quintal da casa onde mora, vai a pé comprar pão, tomate e, uma vez ou outra, cachaça - que bebe aos goles lentos e filosofais, balançando-se em uma cadeira que lhe ensina o movimento da terra em torno do sol com uma precisão que a ciência jamais conhecerá.
Aulas de Linologia deveriam ser ministradas de Florianópolis para o mundo, quem sabe afastando o tráfico e trazendo o mundo de volta, que anda longe e triste, pra lá de Bagdá.
Revisão do original de 26 de julho de 2003. E a guerra continua. Que infantilidade! Ela nunca parou, não é?
7.30.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO DEZENOVE –
Era ainda 2006. Rita voltara de Orlando com Ricardo VI. Encontraram-se no aeroporto de Brasília. Ricardo V beijou a mulher e o filho, desajeitada e apaixonadamente. Haviam optado, em um telefonema, enquanto Rita e Ricardo VI ainda estavam em companhia da mãe de Rita, na Flórida, por fazer o trajeto até Minaçu de automóvel. Uma ponte fora inaugurada no ano anterior, facilitando o acesso de Colinas do Sul a Minaçu, e já havia um bom trecho asfaltado a partir de Brasília para se percorrer o caminho em cerca de quatro a cinco horas.
Na ida de Minaçu a Brasília, enquanto dirigia a camionete moderna e potente para a época, Ricardo V ia-se despedindo da sua solidão. Estava com saudades, como dissera a mais de uma pessoa em Minaçu. Saudades de Rita e do filho.
No trecho não asfaltado, quase bateu de frente com um caminhão, que se deslocava em velocidade totalmente incompatível e incoerente com as condições da estrada e a paisagem. Passado o susto, um felino negro, reluzente, pequeno e bonito, ágil, cruzou seu caminho. Parou para urinar sob o sol desnudo, potente, imponente, a fazer dele, já vencido pela bexiga, homem de cabeça baixa e nuca exposta e submissa aos raios viris da estrela do planeta.
Voltou ao automóvel, abriu a porta traseira da camionete, mastigou um dos sanduíches que uma das empregadas que o mimavam havia preparado, bebeu quase que de um gole só o conteúdo de meia garrafa plástica de água mineral, respirou fundo, arrotou, bateu a porta traseira, abriu a dianteira.
Alguma coisa chamou sua atenção. Estava perdido. Sou mesmo um distraído de merda, como é que vou chegar a tempo? Desesperou-se, pôs o rosto nas mãos, passou as mãos nervosamente nos cabelos, levantou a cabeça novamente. E aí sim surpreendeu-se de verdade: um homem de pé, muito louro e muito alto, camisa branca amarrotada meio solta e meio presa a uma justa calça jeans fotografou-o - a ele, Ricardo Coração dos Outros V, ainda em pleno gozo do anonimato e da recente urinada e subseqüente aflição da sensação de estar perdido no meio da paisagem agreste do cerrado e das chapadas do centro-oeste brasileiro, por trás da camionete de origem japonesa. Vermelha. Como sua nuca e seu rosto, que tanto queriam suar e não conseguiam: não havia umidade suficiente.
Ricardo moveu-se contornando o carro e avançando na direção do fotógrafo - que se fora. Para onde? Ricardo V não sabia. Entretanto, aliviou-se de novo: percebeu que não havia se perdido, apenas por pura memória: é um incorrigível distraído e ao mesmo tempo confiante em excesso da memória visual e sua sensibilidade, revelada principalmente no dom para o violão que herdou de Ricardo Coração dos Outros, que fugiu com Olga, que viveu com ela não muito longe dali, em torno de cem anos antes daqueles momentos em que se sentia exalando e respirando poeira, queijo, trigo e urina, uma espécie de medo dentro de si, no rosto e na nuca, intensa vermelhidão, secura na garganta e o desagradável desconhecimento somado à surpresa de ter sido fotografado por alguém misterioso e fugidio.
De nada disso falou a Rita, no caminho de volta a Minaçu, depois de pernoitar em hotel suntuoso e prematuramente velhusco na capital brasileira. Mas, sem que ela e o pequeno filho pudessem compreender porque, Ricardo Coração dos Outros V, em todo o percurso, falava e ouvia o que lhe era dito movendo a cabeça de um lado ao outro, procurando, muito mais que por caminhões e felinos, ou mesmo um lugar para esvaziar a bexiga, um fotógrafo.
Quem diabos era aquele merda? – assim registrou em seus memoriais no hard-disk do note-book sobre a mesa de seu quarto, assim que chegou de vola para casa.
- CAPÍTULO DEZENOVE –
Era ainda 2006. Rita voltara de Orlando com Ricardo VI. Encontraram-se no aeroporto de Brasília. Ricardo V beijou a mulher e o filho, desajeitada e apaixonadamente. Haviam optado, em um telefonema, enquanto Rita e Ricardo VI ainda estavam em companhia da mãe de Rita, na Flórida, por fazer o trajeto até Minaçu de automóvel. Uma ponte fora inaugurada no ano anterior, facilitando o acesso de Colinas do Sul a Minaçu, e já havia um bom trecho asfaltado a partir de Brasília para se percorrer o caminho em cerca de quatro a cinco horas.
Na ida de Minaçu a Brasília, enquanto dirigia a camionete moderna e potente para a época, Ricardo V ia-se despedindo da sua solidão. Estava com saudades, como dissera a mais de uma pessoa em Minaçu. Saudades de Rita e do filho.
No trecho não asfaltado, quase bateu de frente com um caminhão, que se deslocava em velocidade totalmente incompatível e incoerente com as condições da estrada e a paisagem. Passado o susto, um felino negro, reluzente, pequeno e bonito, ágil, cruzou seu caminho. Parou para urinar sob o sol desnudo, potente, imponente, a fazer dele, já vencido pela bexiga, homem de cabeça baixa e nuca exposta e submissa aos raios viris da estrela do planeta.
Voltou ao automóvel, abriu a porta traseira da camionete, mastigou um dos sanduíches que uma das empregadas que o mimavam havia preparado, bebeu quase que de um gole só o conteúdo de meia garrafa plástica de água mineral, respirou fundo, arrotou, bateu a porta traseira, abriu a dianteira.
Alguma coisa chamou sua atenção. Estava perdido. Sou mesmo um distraído de merda, como é que vou chegar a tempo? Desesperou-se, pôs o rosto nas mãos, passou as mãos nervosamente nos cabelos, levantou a cabeça novamente. E aí sim surpreendeu-se de verdade: um homem de pé, muito louro e muito alto, camisa branca amarrotada meio solta e meio presa a uma justa calça jeans fotografou-o - a ele, Ricardo Coração dos Outros V, ainda em pleno gozo do anonimato e da recente urinada e subseqüente aflição da sensação de estar perdido no meio da paisagem agreste do cerrado e das chapadas do centro-oeste brasileiro, por trás da camionete de origem japonesa. Vermelha. Como sua nuca e seu rosto, que tanto queriam suar e não conseguiam: não havia umidade suficiente.
Ricardo moveu-se contornando o carro e avançando na direção do fotógrafo - que se fora. Para onde? Ricardo V não sabia. Entretanto, aliviou-se de novo: percebeu que não havia se perdido, apenas por pura memória: é um incorrigível distraído e ao mesmo tempo confiante em excesso da memória visual e sua sensibilidade, revelada principalmente no dom para o violão que herdou de Ricardo Coração dos Outros, que fugiu com Olga, que viveu com ela não muito longe dali, em torno de cem anos antes daqueles momentos em que se sentia exalando e respirando poeira, queijo, trigo e urina, uma espécie de medo dentro de si, no rosto e na nuca, intensa vermelhidão, secura na garganta e o desagradável desconhecimento somado à surpresa de ter sido fotografado por alguém misterioso e fugidio.
De nada disso falou a Rita, no caminho de volta a Minaçu, depois de pernoitar em hotel suntuoso e prematuramente velhusco na capital brasileira. Mas, sem que ela e o pequeno filho pudessem compreender porque, Ricardo Coração dos Outros V, em todo o percurso, falava e ouvia o que lhe era dito movendo a cabeça de um lado ao outro, procurando, muito mais que por caminhões e felinos, ou mesmo um lugar para esvaziar a bexiga, um fotógrafo.
Quem diabos era aquele merda? – assim registrou em seus memoriais no hard-disk do note-book sobre a mesa de seu quarto, assim que chegou de vola para casa.
7.28.2005
CADERNO DE BOLSO
Cronistas e poetas às vezes falam de si, de suas vivências, sem pretensão na maioria dos casos senão a de dividi-las. Sexta-feira passada, entrei numa papelaria, porque sou viciado nelas. Não resisto a um caderno, mesmo que quase sempre ele permaneça virgem na minha casa, aguardando pacientemente por um primeiro rabisco. Gostei de um que cabe no bolso de um casaco, em cuja capa está escrito MOB. Perguntei ao vendedor o que significava MOB. Ah, se eu soubesse - foi a resposta, em tom de gozação, que ele me deu. Para quem você vai comprar? Para mim, respondi, sou poeta, gosto de ter um caderno por perto. Então escreve uma poesia para eu dar para minha namorada. E fiquei com o compromisso de escrever uma poesia do Cacau, de 15 anos, para Mayana, de 14. O namoro já tem 10 dias, ele me disse. Pensei em duas possibilidades. Na primeira, ele revelará que quem escreveu foi um outro, alguém que não teve ainda o prazer de conhecer Mayana. Nesta, direi assim:
Mayana
Manhã de inverno
Que sejas também manhã
Do nosso próximo verão.
Mayana querida
Segura minha mão
Que minha mão tem frio
Sem a tua.
Mayana menina
Serei teu menino
Tantos invernos e verões
Que assim me quiseres.
Que o dia seja lindo e a noite mais ainda
Sonhando meu sonho, chamado Mayana.
Na outra possibilidade, na qual ele decidirá dizer que o poema é dele, direi a mesma coisa – pois quem sou eu para decidir por quem me escreveu poesia de muito mais valor, pedindo-me para fazer o que tanto gosto, escrevendo num papel assim:
CACAU = 15 ANOS
MAYANA = 14 ANOS
OBRIGADO.
Nesses tempos de Bagdás destruídas e Londres explosivas, políticos brasileiros a demonstrar que o falso moralismo não existe porque todo moralismo é falso, um presidente comemorando em péssima hora seu feito pessoal quando falsamente prometeu que vitória e comemoração seriam coletivas como nunca antes, que compete ética conosco, bradando imbecil e desagradavelmente “Nesse país, duvido que exista alguém mais ético que eu”, - quem agradece, Cacau, sou eu.
Muito obrigado, Cacau.
Mayana
Manhã de inverno
Que sejas também manhã
Do nosso próximo verão.
Mayana querida
Segura minha mão
Que minha mão tem frio
Sem a tua.
Mayana menina
Serei teu menino
Tantos invernos e verões
Que assim me quiseres.
Que o dia seja lindo e a noite mais ainda
Sonhando meu sonho, chamado Mayana.
Na outra possibilidade, na qual ele decidirá dizer que o poema é dele, direi a mesma coisa – pois quem sou eu para decidir por quem me escreveu poesia de muito mais valor, pedindo-me para fazer o que tanto gosto, escrevendo num papel assim:
CACAU = 15 ANOS
MAYANA = 14 ANOS
OBRIGADO.
Nesses tempos de Bagdás destruídas e Londres explosivas, políticos brasileiros a demonstrar que o falso moralismo não existe porque todo moralismo é falso, um presidente comemorando em péssima hora seu feito pessoal quando falsamente prometeu que vitória e comemoração seriam coletivas como nunca antes, que compete ética conosco, bradando imbecil e desagradavelmente “Nesse país, duvido que exista alguém mais ético que eu”, - quem agradece, Cacau, sou eu.
Muito obrigado, Cacau.
7.23.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGI NOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO DEZOITO –
Descobriram que o ouro ainda existia, mas não era sua vocação a mineração com mercúrio nem a vida para sempre nômade. Cavalcante já alcançara a condição de Comarca. Tinha comércio, importava toucinho, açúcar, aguardente, sal, tecidos; exportava gado. Gado – por que não? A terra do cerrado não é boa, mas viram muitas vacas e muitos bois por lá – magrinhos, mas viram, e gado, tocado, anda; podia chegar na Bahia. Viram que as modinhas de Ricardo ficariam para saraus só dos dois ou de pouquíssimos outros, peregrinos como eles, fazendeiros e sitiantes já estabelecidos, quilombolas kalungas, índios aculturados. Com os não-aculturados, era preciso cuidado – pois davam muito mais trabalho para morrer ou aquietar-se em aldeias que haviam dado os caiapós dos tempos dos Anhangüera.
A fundição do Arraial de São Felix havia sido transferida para Cavalcante. Fabricavam-se machados, enxadas, artefatos. As últimas economias foram para uma porção de terra na beira do rio Tocantins, onde era possível pescar, cultivar a terra, derrubando a mata e a capoeira, fazendo lenha, tocando fogo, tudo de maio a setembro, período seco, de secura na boca e tontura na cabeça, para plantar arroz e milho primeiro e depois feijão durante as chuvas, de outubro até abril. Esse clima é o mesmo até hoje, e o método de cultivo da terra ainda permaneceu até a primeira década deste século XXI, quando cessaram as queimadas do solo brasileiro.
Viram muitos rostos tomados pela bexiga. Deram sorte de terem sido vacinados no Rio de Janeiro, recurso que ficou disponível ainda no império (1804, nem eram nascidos), apesar do pouco caso tanto dos imperadores quanto dos republicanos com a saúde, desde aqueles tempos até bem pouco tempo; apesar da vacinação ter sido hábito ignorado pelas autoridades e população, tão desinformada – mas Olga e Ricardo Coração dos Outros eram esclarecidos.
Viram muitas faces famintas, corpos deformados, mentes débeis, tudo da desnutrição, porque não houve política de abastecimento nem no Segundo Império, nem na República, até a primeira década deste século XXI. Mas houve pelo menos um governante de outrora com visão: Maurício de Nassau, em 15 de abril de 1640, ordenou que nenhum senhor de engenho começasse a produção na safra seguinte (agosto) sem ter primeiro plantado 300 covas de mandioca por cada negro-negra que possuísse. Havia que dar de comer aos escravos, porque, caso contrário, não os haveria.
Casaram-se na Igreja.
Em 1900, Olga teve um desarranjo intestinal que durou dias e noites, tendo sobrevivido não se sabe se por ajuda de prático habilidoso, rezadeira milagrosa ou se por erva de pagé feiticeiro. (Para Olga, viúva de médico.) Passaram bom tempo quase que só comendo peixe, tendo muito ainda a aprender. Comprar vaquinhas e bois, com que dinheiro? Como ter acesso aos bens que pai e marido haviam deixado para Olga, naquele fim de mundo? Compraram fiado, abriram uma venda, venderam roupa feita por Olga, plantaram mais pra comer que vender, pois quase todos plantavam pra comer. Vender para a capital da província ou para a Bahia ou o Pará era tão complicado e caro, que ninguém trabalhava mais para ganhar mais porque, se produzissem mais, desperdiçariam mais. Assim foi em muitos recantos do Brasil, inclusive naquela região, até a primeira década deste século XXI. Na opinião de Ricardo V, como consta em seu best-seller prevendo a revolução de 2017, “A cultura da fome não está na preguiça nem em nenhum outro dos tantos motivos apregoados por profissionais da política, mas na falta de infra-estrutura, na mais óbvia percepção de que é preciso existir mercado que corresponda à produção, descoberta que foi dada ao chamado agro-negócio que despontou na virada dos séculos XX e XXI, inibida a pequenos agricultores, sabe-se lá se por burrice ou maldade.”.
Algum preparo Ricardo e Olga trouxeram da capital da república: sabiam aprender; sabiam ensinar. Nessa troca, que não envolveu moeda alguma, criaram amizades, criaram talentos desconhecidos para comprar um boi e uma vaca, mais duas vacas, dois bois, semear a terra no período seco e plantar no chuvoso, comer peixe com farinha, transportar bois até a Bahia, beber e vender leite das suas vacas, viajar ao Rio e resgatar a herança de Olga e resistir de lá não permanecer e retornar e descobrir dentro de si pessoas que jamais pensaram que existissem. Inovaram: plantaram trigo, comeram pão – incomum, na região, naquele tempo. Associavam-se: a escravatura se fora e o capitalismo ainda não chegara. Família, agregado, era assim que se vivia.
Tiveram Ricardo Coração dos Outros II em clima de grande festa; permaneciam milagrosamente distantes dos conflitos entre mineiros, estancieiros, e entre estes e os índios; por opção, distanciaram-se também da república, das desavenças entre políticos, teorias de uns, baixezas de outros. Descobriram o gosto de morar naquele lugar tão inóspito e ao mesmo tempo deslumbrante, no sopé da Chapada dos Veadeiros. Assim foi.
- CAPÍTULO DEZOITO –
Descobriram que o ouro ainda existia, mas não era sua vocação a mineração com mercúrio nem a vida para sempre nômade. Cavalcante já alcançara a condição de Comarca. Tinha comércio, importava toucinho, açúcar, aguardente, sal, tecidos; exportava gado. Gado – por que não? A terra do cerrado não é boa, mas viram muitas vacas e muitos bois por lá – magrinhos, mas viram, e gado, tocado, anda; podia chegar na Bahia. Viram que as modinhas de Ricardo ficariam para saraus só dos dois ou de pouquíssimos outros, peregrinos como eles, fazendeiros e sitiantes já estabelecidos, quilombolas kalungas, índios aculturados. Com os não-aculturados, era preciso cuidado – pois davam muito mais trabalho para morrer ou aquietar-se em aldeias que haviam dado os caiapós dos tempos dos Anhangüera.
A fundição do Arraial de São Felix havia sido transferida para Cavalcante. Fabricavam-se machados, enxadas, artefatos. As últimas economias foram para uma porção de terra na beira do rio Tocantins, onde era possível pescar, cultivar a terra, derrubando a mata e a capoeira, fazendo lenha, tocando fogo, tudo de maio a setembro, período seco, de secura na boca e tontura na cabeça, para plantar arroz e milho primeiro e depois feijão durante as chuvas, de outubro até abril. Esse clima é o mesmo até hoje, e o método de cultivo da terra ainda permaneceu até a primeira década deste século XXI, quando cessaram as queimadas do solo brasileiro.
Viram muitos rostos tomados pela bexiga. Deram sorte de terem sido vacinados no Rio de Janeiro, recurso que ficou disponível ainda no império (1804, nem eram nascidos), apesar do pouco caso tanto dos imperadores quanto dos republicanos com a saúde, desde aqueles tempos até bem pouco tempo; apesar da vacinação ter sido hábito ignorado pelas autoridades e população, tão desinformada – mas Olga e Ricardo Coração dos Outros eram esclarecidos.
Viram muitas faces famintas, corpos deformados, mentes débeis, tudo da desnutrição, porque não houve política de abastecimento nem no Segundo Império, nem na República, até a primeira década deste século XXI. Mas houve pelo menos um governante de outrora com visão: Maurício de Nassau, em 15 de abril de 1640, ordenou que nenhum senhor de engenho começasse a produção na safra seguinte (agosto) sem ter primeiro plantado 300 covas de mandioca por cada negro-negra que possuísse. Havia que dar de comer aos escravos, porque, caso contrário, não os haveria.
Casaram-se na Igreja.
Em 1900, Olga teve um desarranjo intestinal que durou dias e noites, tendo sobrevivido não se sabe se por ajuda de prático habilidoso, rezadeira milagrosa ou se por erva de pagé feiticeiro. (Para Olga, viúva de médico.) Passaram bom tempo quase que só comendo peixe, tendo muito ainda a aprender. Comprar vaquinhas e bois, com que dinheiro? Como ter acesso aos bens que pai e marido haviam deixado para Olga, naquele fim de mundo? Compraram fiado, abriram uma venda, venderam roupa feita por Olga, plantaram mais pra comer que vender, pois quase todos plantavam pra comer. Vender para a capital da província ou para a Bahia ou o Pará era tão complicado e caro, que ninguém trabalhava mais para ganhar mais porque, se produzissem mais, desperdiçariam mais. Assim foi em muitos recantos do Brasil, inclusive naquela região, até a primeira década deste século XXI. Na opinião de Ricardo V, como consta em seu best-seller prevendo a revolução de 2017, “A cultura da fome não está na preguiça nem em nenhum outro dos tantos motivos apregoados por profissionais da política, mas na falta de infra-estrutura, na mais óbvia percepção de que é preciso existir mercado que corresponda à produção, descoberta que foi dada ao chamado agro-negócio que despontou na virada dos séculos XX e XXI, inibida a pequenos agricultores, sabe-se lá se por burrice ou maldade.”.
Algum preparo Ricardo e Olga trouxeram da capital da república: sabiam aprender; sabiam ensinar. Nessa troca, que não envolveu moeda alguma, criaram amizades, criaram talentos desconhecidos para comprar um boi e uma vaca, mais duas vacas, dois bois, semear a terra no período seco e plantar no chuvoso, comer peixe com farinha, transportar bois até a Bahia, beber e vender leite das suas vacas, viajar ao Rio e resgatar a herança de Olga e resistir de lá não permanecer e retornar e descobrir dentro de si pessoas que jamais pensaram que existissem. Inovaram: plantaram trigo, comeram pão – incomum, na região, naquele tempo. Associavam-se: a escravatura se fora e o capitalismo ainda não chegara. Família, agregado, era assim que se vivia.
Tiveram Ricardo Coração dos Outros II em clima de grande festa; permaneciam milagrosamente distantes dos conflitos entre mineiros, estancieiros, e entre estes e os índios; por opção, distanciaram-se também da república, das desavenças entre políticos, teorias de uns, baixezas de outros. Descobriram o gosto de morar naquele lugar tão inóspito e ao mesmo tempo deslumbrante, no sopé da Chapada dos Veadeiros. Assim foi.
7.18.2005
O PAÍS DO PUDOR
Chico Buarque observou em “Benjamim” a situação do sujeito que vai ao banheiro e evita o mictório porque o do lado já está ocupado e vai ao vaso fazer xixi, mas deixa a porta aberta, por pudor ao pudor.
Somos pudicos. Usamos sungas apertadas, nossas mulheres, biquínis fio-dental, o Gabeira (em outros tempos), sunga de tricô, mas quem fica pelado na praia é europeu. Nós, brasileiros, só ficamos pelados na praia em dia de temporal, de raios mortíferos a nos querer acertar, atingir e matar dentro d’água - porque nós, gozadores incuráveis, principalmente da Divindade, fazemos questão da exposição e risco a eles, raios que nos partam, mas que nos partam nus. Outras raras situações em que ficamos nus? Em total solidão ou intimidade; absoluta pobreza ou ingenuidade.
Nelson Rodrigues disse que toda nudez será castigada, mas, como sabia muito bem, menos no cinema nacional. Nossos filmes são explícitos na nudez, nossas atrizes dão vida a mulheres que tiram a roupa naturalmente para fazer amor, porque fazer amor é natural e amor foi feito para ser feito sem roupa. Em filmes americanos, mulheres fazem sexo de sutiã, a não ser que o cachê seja alto o bastante e muito bem articulado com pesquisas de público e de censura etária, a apontar que mostrar as tetas (teats) da atriz serão compensadoras para atriz e patrocinadores. Quando o filme é sueco, alemão ou dinamarquês, a nudez nada mais é que nudez, ainda que com pitadas filosóficas, fáusticas, gœtianas, dignas de castigos calvinistas (grande Nelson Rodrigues, que, certamente de propósito, errou de país). Já em filmes franceses, a nudez é cheia de noirs, nuances - mas quem saberá de noirs, amor e nuances mais que os misturados, os que geram mulheres de bundas grandes, de sangue indígena, negro e europeu?
Portanto, somos pudicos: temos pudor, a não ser no ato do amor.
A não ser no ato do roubo.
Nórdicos, anglo-saxões, orientais, africanos, indígenas, alguns dos outros latinos, todos têm ladrões entre eles, mas, entre eles, os ladrões, quando descobertos, muito mais se envergonham que qualquer ser desnudado ou mais causam espanto que qualquer América descoberta nua. Matam-se, enfiam em si mesmos facas, flechas, revólveres, caminhões, mares desnudos e vorazes, ônibus, táxis, lápis, viadutos. Aqueles que dentre nós a nós nos roubam, ufanam-se: roubar é certo; é correto; é inteligente.
Não é possível associar o ato de amar ao de roubar. Por mais tentadora seja a metáfora do roubo do olhar e do beijo, é metáfora, nada mais que metáfora. Essa vileza vilipendiosa, nojenta, escancarada, mais que tudo isso, assumida, resolvida, explicada e justificada, a do “Chame o ladrão” do Chico Buarque, a do “Sou, mas quem não é” do outro Chico, o Anísio, é o anti-amor, o anti-Brasil, o anti-naturalidade no ato de amar, o anti-pudor de usar sunga e só se desnudar sob nórdicos raios de Thor. Não é possível, nesses tempos de 2005, que uma vez mais nos limitemos a assistir e achar graça desse pútrido despudor, na pátria dos pudicos, dos amantes de corpo inteiro, do amor descomplicado e brasileiro, da mátria sensual de sangue misturado e bunda grande. Merda!
Somos pudicos. Usamos sungas apertadas, nossas mulheres, biquínis fio-dental, o Gabeira (em outros tempos), sunga de tricô, mas quem fica pelado na praia é europeu. Nós, brasileiros, só ficamos pelados na praia em dia de temporal, de raios mortíferos a nos querer acertar, atingir e matar dentro d’água - porque nós, gozadores incuráveis, principalmente da Divindade, fazemos questão da exposição e risco a eles, raios que nos partam, mas que nos partam nus. Outras raras situações em que ficamos nus? Em total solidão ou intimidade; absoluta pobreza ou ingenuidade.
Nelson Rodrigues disse que toda nudez será castigada, mas, como sabia muito bem, menos no cinema nacional. Nossos filmes são explícitos na nudez, nossas atrizes dão vida a mulheres que tiram a roupa naturalmente para fazer amor, porque fazer amor é natural e amor foi feito para ser feito sem roupa. Em filmes americanos, mulheres fazem sexo de sutiã, a não ser que o cachê seja alto o bastante e muito bem articulado com pesquisas de público e de censura etária, a apontar que mostrar as tetas (teats) da atriz serão compensadoras para atriz e patrocinadores. Quando o filme é sueco, alemão ou dinamarquês, a nudez nada mais é que nudez, ainda que com pitadas filosóficas, fáusticas, gœtianas, dignas de castigos calvinistas (grande Nelson Rodrigues, que, certamente de propósito, errou de país). Já em filmes franceses, a nudez é cheia de noirs, nuances - mas quem saberá de noirs, amor e nuances mais que os misturados, os que geram mulheres de bundas grandes, de sangue indígena, negro e europeu?
Portanto, somos pudicos: temos pudor, a não ser no ato do amor.
A não ser no ato do roubo.
Nórdicos, anglo-saxões, orientais, africanos, indígenas, alguns dos outros latinos, todos têm ladrões entre eles, mas, entre eles, os ladrões, quando descobertos, muito mais se envergonham que qualquer ser desnudado ou mais causam espanto que qualquer América descoberta nua. Matam-se, enfiam em si mesmos facas, flechas, revólveres, caminhões, mares desnudos e vorazes, ônibus, táxis, lápis, viadutos. Aqueles que dentre nós a nós nos roubam, ufanam-se: roubar é certo; é correto; é inteligente.
Não é possível associar o ato de amar ao de roubar. Por mais tentadora seja a metáfora do roubo do olhar e do beijo, é metáfora, nada mais que metáfora. Essa vileza vilipendiosa, nojenta, escancarada, mais que tudo isso, assumida, resolvida, explicada e justificada, a do “Chame o ladrão” do Chico Buarque, a do “Sou, mas quem não é” do outro Chico, o Anísio, é o anti-amor, o anti-Brasil, o anti-naturalidade no ato de amar, o anti-pudor de usar sunga e só se desnudar sob nórdicos raios de Thor. Não é possível, nesses tempos de 2005, que uma vez mais nos limitemos a assistir e achar graça desse pútrido despudor, na pátria dos pudicos, dos amantes de corpo inteiro, do amor descomplicado e brasileiro, da mátria sensual de sangue misturado e bunda grande. Merda!
7.15.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO DEZESSETE –
Aos 55 anos, Ricardo IV estava com um caso complicado. Nada advocatício; nada mais que um caso; um caso de amor, que tinha de esconder de Sérgia, das gêmeas e do filho. (O neto ainda era quase um bebê.) Do outro lado, isto é, do lado dela, da amante, o que Ricardo IV queria era o extremo oposto e exposto: impressionar. Provocará certo desconforto isto ser agora revelado, em 2020, pois ele está vivo, como viva está sua mulher, Sérgia. Mas tudo aconteceu há 15 anos; era 2005 – tempo em que a Internet fazia quase o mesmo papel, já com grande eficiência, que fazem hoje a Tera-portal Mundial (TPM©) e sua concorrente, a 1012.
No motel, Ricardo Coração dos Outros IV acessou a Internet pelo terminal disponível no quarto e devidamente conectado – diferencial oferecido por aquela rede de motéis (pertencente a um partido político, em nome de um de seus avalistas) em relação à concorrência. Durante o banho da amante (seu nome não pode ser revelado), procurou por um tema que ela – médica – precisava pesquisar. (Só para agradar, impressionar, expor-se - no gênero amante-companheiro.) Sem querer, por intrincadas vias, Ricardo IV achou um pouco da história de seu bisavô, Ricardo Coração dos Outros (primeiro e único, em vários aspectos) na rede, levando a ele, Ricardo Coração dos Outros IV, em nave liberta de virtual foguete propulsor, a um passado que relutava em visitar, de sua origem mulata e irregular, aventureira, surgida de um ímpeto da bisavó, Olga, que arrastou o bisavô violonista e compositor até Cavalcante, separada de Minaçu (cidade inexistente no tempo dos bisavós) por serras, planaltos e águas, Minaçu, onde o filho, Ricardo V, resolvera morar, por conta de uma americana curiosa pelo que restara da tribo avá-canoeiro.
Quantos pensamentos se apresentam em tão poucos momentos, quantas lembranças?, perguntava-se em flashes muito rápidos a médica que tomava banho e não queria lembrar do namorado, enquanto seu amante permanecia no quarto da suíte do motel, sem que ela pudesse saber de quantos pensamentos e lembranças se passavam na cabeça dele naqueles instantes, enquanto ela se ensaboava e se ensaboava e se ensaboava, sem saber do que, afinal, queria e precisava tanto limpar-se, purificar-se.
- É como se eu tivesse aprendido a verdadeiramente fazer amor, compreender o sexo, com você.
- Por quê? – ela perguntou a Ricardo IV, na primeira vez em que ficaram juntos e sozinhos e nus, um mês antes, após a consumação do primeiro intercurso entre eles, na terminologia que ele lembrava, não sabia se dos livros de Direito dele, de Sociologia de Sérgia ou de Medicina dela, sua namorada, sonho não sonhado por ele, ele, que bem vivia bom e sensual casamento com a mulher, Sérgia, mãe das gêmeas e do filho, todos tão queridos.
(Toda a teoria libertadora de Sérgia, ele tinha certeza, cairia por terra se e quando ela soubesse do caso dele com... Não se pode revelar o nome.)
- Pela naturalidade que você tem de tirar a roupa, de ficar nua, de me amar, de levantar e sair andando nua pra fazer xixi – Ricardo IV respondeu, naquela primeira vez dos dois.
- Mas não é assim com sua mulher? Não foi assim com suas outras namoradas? Não é assim, não é simples desse jeito, não é normal fazer amor, ficarmos nus, tomar banho, fazer xixi?
Era ainda o tempo da AIDS, mas já havia bons medicamentos para a manter controlada, pelo menos para quem, contraída a doença, tivesse acesso a eles. Eram também os anos do Viagra. Ricardo IV era homem de sorte: ainda não tivera contato com nenhuma das duas terríveis doenças e respectivos medicamentos para o simples ato de amar. E era o tempo áureo da camisinha, o preservativo masculino, que valia mais que a mais benta das águas, mais que a mais benzida das hóstias (Ricardo IV e Sérgia são católicos).
Sentou-se nu, na cama, depois de anotar em uma caderneta de bolso sobre a mesa o endereço da Internet onde encontrara uma tese que podia interessar à namorada, e alisou seus bigodes negros, seus lábios grossos, e pensou: “Gosto de ser mulato.”
Sua amante finalmente saiu de dentro do banheiro, nua, passando uma toalha no corpo e trazendo outra, enrolada nos cabelos. Morena, sexy, muito sexy.
Ricardo IV, sentado na beira da cama, disse:
- Eu te amo.
Ao celular.
- CAPÍTULO DEZESSETE –
Aos 55 anos, Ricardo IV estava com um caso complicado. Nada advocatício; nada mais que um caso; um caso de amor, que tinha de esconder de Sérgia, das gêmeas e do filho. (O neto ainda era quase um bebê.) Do outro lado, isto é, do lado dela, da amante, o que Ricardo IV queria era o extremo oposto e exposto: impressionar. Provocará certo desconforto isto ser agora revelado, em 2020, pois ele está vivo, como viva está sua mulher, Sérgia. Mas tudo aconteceu há 15 anos; era 2005 – tempo em que a Internet fazia quase o mesmo papel, já com grande eficiência, que fazem hoje a Tera-portal Mundial (TPM©) e sua concorrente, a 1012.
No motel, Ricardo Coração dos Outros IV acessou a Internet pelo terminal disponível no quarto e devidamente conectado – diferencial oferecido por aquela rede de motéis (pertencente a um partido político, em nome de um de seus avalistas) em relação à concorrência. Durante o banho da amante (seu nome não pode ser revelado), procurou por um tema que ela – médica – precisava pesquisar. (Só para agradar, impressionar, expor-se - no gênero amante-companheiro.) Sem querer, por intrincadas vias, Ricardo IV achou um pouco da história de seu bisavô, Ricardo Coração dos Outros (primeiro e único, em vários aspectos) na rede, levando a ele, Ricardo Coração dos Outros IV, em nave liberta de virtual foguete propulsor, a um passado que relutava em visitar, de sua origem mulata e irregular, aventureira, surgida de um ímpeto da bisavó, Olga, que arrastou o bisavô violonista e compositor até Cavalcante, separada de Minaçu (cidade inexistente no tempo dos bisavós) por serras, planaltos e águas, Minaçu, onde o filho, Ricardo V, resolvera morar, por conta de uma americana curiosa pelo que restara da tribo avá-canoeiro.
Quantos pensamentos se apresentam em tão poucos momentos, quantas lembranças?, perguntava-se em flashes muito rápidos a médica que tomava banho e não queria lembrar do namorado, enquanto seu amante permanecia no quarto da suíte do motel, sem que ela pudesse saber de quantos pensamentos e lembranças se passavam na cabeça dele naqueles instantes, enquanto ela se ensaboava e se ensaboava e se ensaboava, sem saber do que, afinal, queria e precisava tanto limpar-se, purificar-se.
- É como se eu tivesse aprendido a verdadeiramente fazer amor, compreender o sexo, com você.
- Por quê? – ela perguntou a Ricardo IV, na primeira vez em que ficaram juntos e sozinhos e nus, um mês antes, após a consumação do primeiro intercurso entre eles, na terminologia que ele lembrava, não sabia se dos livros de Direito dele, de Sociologia de Sérgia ou de Medicina dela, sua namorada, sonho não sonhado por ele, ele, que bem vivia bom e sensual casamento com a mulher, Sérgia, mãe das gêmeas e do filho, todos tão queridos.
(Toda a teoria libertadora de Sérgia, ele tinha certeza, cairia por terra se e quando ela soubesse do caso dele com... Não se pode revelar o nome.)
- Pela naturalidade que você tem de tirar a roupa, de ficar nua, de me amar, de levantar e sair andando nua pra fazer xixi – Ricardo IV respondeu, naquela primeira vez dos dois.
- Mas não é assim com sua mulher? Não foi assim com suas outras namoradas? Não é assim, não é simples desse jeito, não é normal fazer amor, ficarmos nus, tomar banho, fazer xixi?
Era ainda o tempo da AIDS, mas já havia bons medicamentos para a manter controlada, pelo menos para quem, contraída a doença, tivesse acesso a eles. Eram também os anos do Viagra. Ricardo IV era homem de sorte: ainda não tivera contato com nenhuma das duas terríveis doenças e respectivos medicamentos para o simples ato de amar. E era o tempo áureo da camisinha, o preservativo masculino, que valia mais que a mais benta das águas, mais que a mais benzida das hóstias (Ricardo IV e Sérgia são católicos).
Sentou-se nu, na cama, depois de anotar em uma caderneta de bolso sobre a mesa o endereço da Internet onde encontrara uma tese que podia interessar à namorada, e alisou seus bigodes negros, seus lábios grossos, e pensou: “Gosto de ser mulato.”
Sua amante finalmente saiu de dentro do banheiro, nua, passando uma toalha no corpo e trazendo outra, enrolada nos cabelos. Morena, sexy, muito sexy.
Ricardo IV, sentado na beira da cama, disse:
- Eu te amo.
Ao celular.
7.12.2005
SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO
“Cinema, para mim, é diversão; de coisa séria, basta a vida.” Você já disse essa frase. Você pode ser um distraído, uma farsante, um medíocre, alguém de alma leve ou de inspirado gosto pelas artes e em especial pela sétima, alguém a quem caibam importantíssimas e transformadoras decisões, capazes de afetar a bolsa de valores ou a de quem se distrai - você já disse essa frase. Não quer confessar? Admita: já quis dizê-la. Também não? Pelo menos não despreze quem já a disse alguma vez. Por quê? Pelos extremos. Se você admira profundamente as artes, perceba ser arte admirar quem a admira e quem a ignora; ou, se a bolsa depende da sua atenção, preste atenção àqueles de cuja desatenção você tira proveito.
Agora, venha conosco. E procure observar a si próprio, por alguns instantes, compreendendo o método e propósito que aqui são propostos. A frase “Cinema, para mim, é diversão; de coisa séria, basta a vida” é associada à mediocridade. Você, de um dos extremos, com essa sensibilidade artística ou decisória, - socrática e dialeticamente, medíocre não é. Mas outros o são - e o método propõe o oposto: no lugar da mediocridade, os extremos. O propósito, você perceberá. Imagine-se, assim, com seu elevado senso de concentração, abstração ou subtração em uma ou mais das seguintes situações a seguir.
1) Todos os dias, você almoça no mesmo lugar;
2) Todas as noites, você janta no mesmo lugar;
3) Seus almoços e jantares se repetem não só nos lugares, mas nos cardápios e companhias;
4) Você estica, dobra e alisa o jornal quando o lê, despertando a atenção de quem não lê o mesmo jornal – ou, pelo menos, o mesmo exemplar de jornal no mesmo instante - que você está lendo;
5) Você vive a situação 4, no lugar de quem não tem o jornal nas mãos. Todos os dias.
Adivinhamos: você é fanático por Hitchcock.
6) Faminto ou não, você quer saber o que comerá logo mais. Resposta: farofa, arroz, salada... Mas, afinal, rúcula? Carne, peixe ou frango? Você fica sem saber;
7) Alguém que exerce qualquer espécie de poder sobre você comunica que haverá um encontro de vocês dois hoje, às 3 da tarde. Agora, são 9 da manhã. Você pergunta qual o motivo e a reposta é: “Às 3.”;
8) Hoje faz sol e, hoje, você precisa de amanhã e, amanhã, você precisa de sol e, hoje, ficou sabendo que poderá fazer sol amanhã, mas há previsão de uma frente fria, acompanhada de possíveis chuvas esparsas, entre amanhã e depois de amanhã;
9) O elevador estava subindo. Apagou a luz e ele parou. Agora, andou;
10) Rumores de um assalto à mão armada e troca de tiros perto de onde você está, mas, perto quanto, ninguém sabe dizer.
E aqui você está. Na locadora de filmes. Agora. Exatamente agora. Você se identificou com uma ou mais das situações 1 a 5, acima, e pegou o mesmo filme de comédia que o sistema informa que você já assistiu 3 vezes.
Quem é você?
Agora, venha conosco. E procure observar a si próprio, por alguns instantes, compreendendo o método e propósito que aqui são propostos. A frase “Cinema, para mim, é diversão; de coisa séria, basta a vida” é associada à mediocridade. Você, de um dos extremos, com essa sensibilidade artística ou decisória, - socrática e dialeticamente, medíocre não é. Mas outros o são - e o método propõe o oposto: no lugar da mediocridade, os extremos. O propósito, você perceberá. Imagine-se, assim, com seu elevado senso de concentração, abstração ou subtração em uma ou mais das seguintes situações a seguir.
1) Todos os dias, você almoça no mesmo lugar;
2) Todas as noites, você janta no mesmo lugar;
3) Seus almoços e jantares se repetem não só nos lugares, mas nos cardápios e companhias;
4) Você estica, dobra e alisa o jornal quando o lê, despertando a atenção de quem não lê o mesmo jornal – ou, pelo menos, o mesmo exemplar de jornal no mesmo instante - que você está lendo;
5) Você vive a situação 4, no lugar de quem não tem o jornal nas mãos. Todos os dias.
Adivinhamos: você é fanático por Hitchcock.
6) Faminto ou não, você quer saber o que comerá logo mais. Resposta: farofa, arroz, salada... Mas, afinal, rúcula? Carne, peixe ou frango? Você fica sem saber;
7) Alguém que exerce qualquer espécie de poder sobre você comunica que haverá um encontro de vocês dois hoje, às 3 da tarde. Agora, são 9 da manhã. Você pergunta qual o motivo e a reposta é: “Às 3.”;
8) Hoje faz sol e, hoje, você precisa de amanhã e, amanhã, você precisa de sol e, hoje, ficou sabendo que poderá fazer sol amanhã, mas há previsão de uma frente fria, acompanhada de possíveis chuvas esparsas, entre amanhã e depois de amanhã;
9) O elevador estava subindo. Apagou a luz e ele parou. Agora, andou;
10) Rumores de um assalto à mão armada e troca de tiros perto de onde você está, mas, perto quanto, ninguém sabe dizer.
E aqui você está. Na locadora de filmes. Agora. Exatamente agora. Você se identificou com uma ou mais das situações 1 a 5, acima, e pegou o mesmo filme de comédia que o sistema informa que você já assistiu 3 vezes.
Quem é você?
7.08.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO DEZESSEIS –
Atravessar o Paranaíba só não foi pior do que teria sido navegá-lo longitudinalmente, na direção norte. “Sabe lá Deus como, conseguimos atravessar o rio e chegar à outra margem, à outra província: Goiás! Para quê e para onde exatamente, não sabemos – e como é bom não saber!”. Pela caligrafia destoante da que se atribui a Ricardo Coração dos Outros e pelo tom romântico e aventuresco, supõe-se que esse trecho dos escritos achados da odisséia de Ricardo e Olga fosse dela e não dele.
Daí para frente, percebe-se que tomaram rumo pelos caminhos rasgados em tempos idos, quando aquele chão era todo tupi-guarani, de algumas de suas diferentes famílias, diferentes aldeias, variadas tribos, e foi virando Anhangüera.
Anhangüera, Bartolomeu Bueno, pai; Anhangüera, Bartolomeu Bueno da Silva, filho - paulistas que atravessaram aquele chão até o rio Araguaia e voltaram e encontraram a tribo do povo Goiá. Goiá; Goiás. Pai e filho fizeram o trajeto em 1682; trajeto que o filho repetiria sem o pai, quarenta anos depois. Anhangüera: Diabo Velho ou Espírito Maligno - assim os teriam batizado os Goiás.
Em outros trechos daqueles escritos, percebe-se o descontentamento e desconforto de Ricardo. Por exemplo: “Uma desgraceira é o que é a vida de gente que não a planeja, que não herda, ou, quando herda, desdenha ou não sabe do tamanho da herança, ou a desafia - seja ela dinheiro, talento ou porcaria.”.
Como conta Lima Barreto, Ricardo era homem da Zona Norte do Rio de Janeiro, mulato, discriminado por causa do violão e, às tantas, após muita insistência e sacrifício e infindáveis saraus, admirado, até em Botafogo, seu grande sonho de conquista, pelas modinhas que compunha, com o mesmo malvisto violão. Metera-se na revolta contra Floriano do lado dele, governista, completamente desconfortável – como provavelmente teria sido, não se sabe se em maior ou menor grau, se tivesse ficado do lado oposto, contra Floriano.
Agora, trilhava caminhos e outros desconfortos jamais imaginados nem desejados, em companhia de mulher que tão somente conhecia, antes do rompante que ambos tiveram ao se encontrarem após deixarem Policarpo à própria sorte em respeito à sua dignidade, com a qual simplesmente compartilhava alguns laços de social convívio, sendo o principal o próprio Policarpo Quaresma, aluno de violão de Ricardo e padrinho de Olga.
Mas - agora - amava aquela mulher; percebera nela uma aventura nunca imaginada e que com ela ia dividindo.
Muito difícil saber qual dos desafios teria sido maior que o outro: se o de Policarpo Quaresma, que, em sua fase entusiástica pelas coisas pátrias, propôs que o Tupi-guarani passasse a ser a língua oficial brasileira (e pagou caro por isso); ou se o deles, que, tão urbanos, cosmopolitas da capital do Brasil, saíram sem rumo ou destino, sem a mínima noção geográfica do país onde nasceram, a penetrar interiores tão inóspitos, indígenas, montanhosos, caudalosos, tenebrosos, a, muito mais que arrancar mato do chão, no chão se agacharem a fazer suas necessidades, a comer com as mãos, a conviver com gente das mais variadas origens, tropeiros tocando boiada, buscando ouro, evitando tocaia, a ficar dias e noites sem banho, a se banharem alucinados na frente de quem quer que fosse, molhando as vestes e, ao mesmo tempo, exibindo seios e bundas e abraços a quem quer que estivesse com e como eles, nas águas de um rio ou debaixo de agressoras e prazerosas e sensuais e adoráveis chuvas.
Uma beira de rio, uma tenda, uma fogueira, uma aguardente, às vezes tudo isso desamedrontava a noite ou aplacava o sol ou uma dor nas entranhas da barriga ou da cabeça ou do próprio medo ou da própria fome.
Amavam-se às noites sem pudor dos gemidos, mais de exaustão que de prazer, várias vezes foi assim, porque assim Ricardo deixou registrado em versos apagados e amarelecidos, pela chuva, pelo sol.
Em uma passagem, está escrito, na mesma caligrafia que se supõe (e só pode ser) de Olga:
“Hoje, soltei um traque na frente dele; acho que ele ouviu. Mas, graças a Deus, ventava!”
E a história do Brasil ia acontecendo – e o que isso importava de fato a eles e àqueles outros tropeiros e aventureiros como eles?
Pois naquelas páginas da insana travessia do Rio Paranaíba à província de Goiás e seu caminhar longitudinal pelos caminhos dos Anhangüera, em meio a desabafos e confidências, Ricardo Coração dos Outros deixou o seguinte sexteto, sem pauta musical:
Morresse eu agora
Morreria em mim agora
Aquilo que mais me foi felicidade:
Essa loucura,
Essa doçuraDesvairada insanidade.
- CAPÍTULO DEZESSEIS –
Atravessar o Paranaíba só não foi pior do que teria sido navegá-lo longitudinalmente, na direção norte. “Sabe lá Deus como, conseguimos atravessar o rio e chegar à outra margem, à outra província: Goiás! Para quê e para onde exatamente, não sabemos – e como é bom não saber!”. Pela caligrafia destoante da que se atribui a Ricardo Coração dos Outros e pelo tom romântico e aventuresco, supõe-se que esse trecho dos escritos achados da odisséia de Ricardo e Olga fosse dela e não dele.
Daí para frente, percebe-se que tomaram rumo pelos caminhos rasgados em tempos idos, quando aquele chão era todo tupi-guarani, de algumas de suas diferentes famílias, diferentes aldeias, variadas tribos, e foi virando Anhangüera.
Anhangüera, Bartolomeu Bueno, pai; Anhangüera, Bartolomeu Bueno da Silva, filho - paulistas que atravessaram aquele chão até o rio Araguaia e voltaram e encontraram a tribo do povo Goiá. Goiá; Goiás. Pai e filho fizeram o trajeto em 1682; trajeto que o filho repetiria sem o pai, quarenta anos depois. Anhangüera: Diabo Velho ou Espírito Maligno - assim os teriam batizado os Goiás.
Em outros trechos daqueles escritos, percebe-se o descontentamento e desconforto de Ricardo. Por exemplo: “Uma desgraceira é o que é a vida de gente que não a planeja, que não herda, ou, quando herda, desdenha ou não sabe do tamanho da herança, ou a desafia - seja ela dinheiro, talento ou porcaria.”.
Como conta Lima Barreto, Ricardo era homem da Zona Norte do Rio de Janeiro, mulato, discriminado por causa do violão e, às tantas, após muita insistência e sacrifício e infindáveis saraus, admirado, até em Botafogo, seu grande sonho de conquista, pelas modinhas que compunha, com o mesmo malvisto violão. Metera-se na revolta contra Floriano do lado dele, governista, completamente desconfortável – como provavelmente teria sido, não se sabe se em maior ou menor grau, se tivesse ficado do lado oposto, contra Floriano.
Agora, trilhava caminhos e outros desconfortos jamais imaginados nem desejados, em companhia de mulher que tão somente conhecia, antes do rompante que ambos tiveram ao se encontrarem após deixarem Policarpo à própria sorte em respeito à sua dignidade, com a qual simplesmente compartilhava alguns laços de social convívio, sendo o principal o próprio Policarpo Quaresma, aluno de violão de Ricardo e padrinho de Olga.
Mas - agora - amava aquela mulher; percebera nela uma aventura nunca imaginada e que com ela ia dividindo.
Muito difícil saber qual dos desafios teria sido maior que o outro: se o de Policarpo Quaresma, que, em sua fase entusiástica pelas coisas pátrias, propôs que o Tupi-guarani passasse a ser a língua oficial brasileira (e pagou caro por isso); ou se o deles, que, tão urbanos, cosmopolitas da capital do Brasil, saíram sem rumo ou destino, sem a mínima noção geográfica do país onde nasceram, a penetrar interiores tão inóspitos, indígenas, montanhosos, caudalosos, tenebrosos, a, muito mais que arrancar mato do chão, no chão se agacharem a fazer suas necessidades, a comer com as mãos, a conviver com gente das mais variadas origens, tropeiros tocando boiada, buscando ouro, evitando tocaia, a ficar dias e noites sem banho, a se banharem alucinados na frente de quem quer que fosse, molhando as vestes e, ao mesmo tempo, exibindo seios e bundas e abraços a quem quer que estivesse com e como eles, nas águas de um rio ou debaixo de agressoras e prazerosas e sensuais e adoráveis chuvas.
Uma beira de rio, uma tenda, uma fogueira, uma aguardente, às vezes tudo isso desamedrontava a noite ou aplacava o sol ou uma dor nas entranhas da barriga ou da cabeça ou do próprio medo ou da própria fome.
Amavam-se às noites sem pudor dos gemidos, mais de exaustão que de prazer, várias vezes foi assim, porque assim Ricardo deixou registrado em versos apagados e amarelecidos, pela chuva, pelo sol.
Em uma passagem, está escrito, na mesma caligrafia que se supõe (e só pode ser) de Olga:
“Hoje, soltei um traque na frente dele; acho que ele ouviu. Mas, graças a Deus, ventava!”
E a história do Brasil ia acontecendo – e o que isso importava de fato a eles e àqueles outros tropeiros e aventureiros como eles?
Pois naquelas páginas da insana travessia do Rio Paranaíba à província de Goiás e seu caminhar longitudinal pelos caminhos dos Anhangüera, em meio a desabafos e confidências, Ricardo Coração dos Outros deixou o seguinte sexteto, sem pauta musical:
Morresse eu agora
Morreria em mim agora
Aquilo que mais me foi felicidade:
Essa loucura,
Essa doçuraDesvairada insanidade.
7.04.2005
A MULHER FATAL
Você, que é mulher e heterossexual, já tem consciência de que ela lhe virou a cabeça. Você, que se acha esperto e resolvido, capaz de escolher quem vai levar para casa hoje à noite, com grandes perspectivas de um desvio favorável, saiba que, na esquina da sua escolha para o argumento mais convincente... é ela que estará esperando por você. Acredite: independentemente do seu sucesso no desvio pretendido, ela estará presente. Você e ela; ou vocês dois e ela; assim será sua noite: com ela. E seu dia também.
Você é fumante?: fumará dois cigarros a mais. Dois copos de cerveja a mais lhe darão a insuportável sensação de uma grotesca barriga. Duas taças de vinho que você não queria lhe trarão uma azia acompanhada de dor na nuca. Duas doses de uisque além da conta ela fará você beber. Mas lhe dará uma espécie de prazer que nenhuma outra será ou foi capaz de dar.
Nenhum homem deu ou dará a você a mesma sensação, de companhia, solidariedade, sofreguidão. E solidão.
Não busque na cabeça fiapos de cabelo branco: ela já os mostrou a você.
Volte de pressa para casa - ela está guardando o que você esqueceu, pouco importa se sua carteira ou consciência.
Engula um quibe a mais, um vento, um cuspe, uma secura indescritível, um ou dois comprimidos a mais – porque ela está com você.
Com você e com ela – os dois, nus, apaixonados, pouco importa: ela, num repente, vai aparecer, acelerando sua respiração, estragando tudo ou melhorando tudo um pouco.
Na cama, o dia seguinte lhe parecerá o inferno, a infinita vergonha, a derrota para o outro ou a outra: é ela que está do seu lado.
Caminhe, passeie de bicicleta, faça ioga, natação, ginástica, morra de fome na África mais brasileira que existir ou na Índia mais santa e promíscua que houver - ela estará por lá.
Navegue e pesque na sua nova lancha, comande o leme, arredonde a terra, ela está.
Apaixone-se pelo mais carismático, se entregue você por inteiro à mais feminina das amantes, assuma a forma de amor para a qual você foi programado ou predestinada em seu DNA, mas convença-se: o adultério é inevitável, a transgressão da sua programada preferência é irrevogável, serão sempre pelo menos três, mais provavelmente, quatro.
Esqueça Deus. Ele pode ou não estar presente – mas, ela, estará. A morte, talvez lhe falte; ela, não. O ar lhe pode faltar; sua ansiedade, não.
Me diga que não.
Você é fumante?: fumará dois cigarros a mais. Dois copos de cerveja a mais lhe darão a insuportável sensação de uma grotesca barriga. Duas taças de vinho que você não queria lhe trarão uma azia acompanhada de dor na nuca. Duas doses de uisque além da conta ela fará você beber. Mas lhe dará uma espécie de prazer que nenhuma outra será ou foi capaz de dar.
Nenhum homem deu ou dará a você a mesma sensação, de companhia, solidariedade, sofreguidão. E solidão.
Não busque na cabeça fiapos de cabelo branco: ela já os mostrou a você.
Volte de pressa para casa - ela está guardando o que você esqueceu, pouco importa se sua carteira ou consciência.
Engula um quibe a mais, um vento, um cuspe, uma secura indescritível, um ou dois comprimidos a mais – porque ela está com você.
Com você e com ela – os dois, nus, apaixonados, pouco importa: ela, num repente, vai aparecer, acelerando sua respiração, estragando tudo ou melhorando tudo um pouco.
Na cama, o dia seguinte lhe parecerá o inferno, a infinita vergonha, a derrota para o outro ou a outra: é ela que está do seu lado.
Caminhe, passeie de bicicleta, faça ioga, natação, ginástica, morra de fome na África mais brasileira que existir ou na Índia mais santa e promíscua que houver - ela estará por lá.
Navegue e pesque na sua nova lancha, comande o leme, arredonde a terra, ela está.
Apaixone-se pelo mais carismático, se entregue você por inteiro à mais feminina das amantes, assuma a forma de amor para a qual você foi programado ou predestinada em seu DNA, mas convença-se: o adultério é inevitável, a transgressão da sua programada preferência é irrevogável, serão sempre pelo menos três, mais provavelmente, quatro.
Esqueça Deus. Ele pode ou não estar presente – mas, ela, estará. A morte, talvez lhe falte; ela, não. O ar lhe pode faltar; sua ansiedade, não.
Me diga que não.
7.01.2005
A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005
- CAPÍTULO QUINZE –
Depois da incompreensível mas incisiva insistência dos patrocinadores americanos de seus escritos para que permanecessem morando em Minaçu, em 2006, Ricardo V passou a caminhar pela cidade em horários variados, sem dar nenhuma satisfação à mulher, Rita – que se magoou com o distanciamento do marido e partiu para Orlando, levando o filho, Ricardo VI, para visitar sua avó americana. Ricardo V ficou exatamente como queria ficar: só.
Percebia aos poucos que gostava de permanecer ali; de andar pelas ruas de casas quase iguais na vila construída pela estatal da primeira hidrelétrica; pelas do centro, que lhe passavam uma inexplicável sensação de escuridão, mesmo às duas da tarde; de visitar comunidades reassentadas pelas hidrelétricas e outras, como vilas de ex-garimpeiros; de observar conflitos entre as empresas das hidrelétricas e movimentos que se postavam como defensores dos atingidos por elas; dos boatos sobre infiltrações de estrangeiros em busca sabe-se lá de que riqueza material ou sociológica ou mística; do permanente questionamento sobre a mina de amianto crisotila, em torno da qual a cidade surgira; de voltar para sua casa de madeira e ar condicionado ligado a toda potência e deitar-se no escuro, incomodado com as notícias locais da poderosa, rica e temida agiotagem, de vendetas, assassinatos a sangue frio, matadores de aluguel. Era um homem local, definitivamente não globalizado, ainda que assistisse à tv.
Custou a compreender intimamente as razões que o levavam a crer tão profundamente que a revolução de idéias, da política amadora, surgiria ali.
As moças de bicicleta e as moças de motocicleta. Gente como ele, às vezes, no meio da tarde, sem fazer nada, encostada num muro. Um lugar parado; uma vegetação parada, seca, àquela época do ano. Mas ainda verde e, quando era verde, a paisagem era muito bonita. Mulheres humildes, de trinta a quarenta anos, aparentando mais, de postura dócil e firme, ao mesmo tempo. Uma geração local de adolescentes criativa, independente. Jovens profissionais, vindos de várias partes do país, mas muito principalmente de Goiânia, com sólida formação. Minaçu: para aquele carioca, um mistério.
Em casa, era mimado, por duas empregadas domésticas educadas e bonitas, uma muito loura e a outra, feita de mistura de imensa felicidade: mulata, índia, alta; “ela tem um bundão” – vivia repetindo em seu íntimo a fala de um personagem de Mar Morto, de Jorge Amado, que lera aos treze anos.
Racionalizava: não queria mais cidades grandes; sentia frio, no Sul; as capitais do Nordeste já eram cidades grandes e as do seu interior, pobres e quentes e áridas mais que suportaria. Havia Orlando, mas era longe, muito longe, Orlando; principalmente, demasiadamente diferente de tudo que podia assimilar como lugar de se morar. Praia: não há mar, em Minaçu! Mas consigo viver sem ele, misteriosamente para mim, que tanto gosto do mar – registrou Ricardo V em alguns de seus desorganizados arquivos eletrônicos. Viajava com freqüência - mas era para Minaçu que voltava.
Publicou seu livro em 2009. Em 2010, Ricardo desapontou-se, ao perceber que a convulsão não era nem de perto a revolução que previra para 2017, nascida do interior do Brasil, do seu Centro-oeste. A convulsão foi o que se sabe: um quebra-quebra generalizado, um trocar de tiros insano nas cidades grandes, mais confrontos armados em regiões rurais, até mais desenvolvidas que aquela. Políticos a se acusarem, a se defenderem e a se esbofetearem sem pudor ou valentia, missões estrangeiras, dinheiro emprestado pelo mundo, campanhas de desarmamento, distribuição emergencial de alimentos, racionamento de energia, acordos com o tráfico, legalização parcial das drogas, empregos para ex-traficantes, um clima falso de falsa trégua. Em Minaçu, nem um tiro sequer, a não ser os costumeiros, das vendetas, etc.. Custou a compreender porque diziam – seu editor, a crítica, várias pessoas em diferentes lugares - que as vendas do livro dispararam exatamente por causa da convulsão, se esta era o oposto do que imaginara: nada de violência; nada de metrópoles inspirando a grande sonhada transformação; idéias, interiores, uma voz de dentro da alma brasileira a sussurrar primeiro e a depois se revelar, uníssona, consistente, macia, bonita - de tão persuasiva e sedutora, convincente a tal ponto que invencível.
Mas ainda não era 2017.
Bares muito diferentes dos que conhecia ao redor do mundo, mas bares; para um boêmio quase abstêmio, como ele, onde tocava seu violão sem qualquer compromisso, eram bons.
E foi em Minaçu que Ricardo Coração dos Outros V foi ficando, às vezes só, às vezes em companhia da mulher e do filho, das empregadas, da pequena sociedade que freqüentava – juiz, transformadora juíza, promotor, prefeito, chefes das usinas e da mineração de amianto, professora de geografia, tenente, empresária de festas, exímia cozinheira; agiotas, matadores, prepotentes. Com estes, bom dia, bom dia; não mais – mas não menos. Os donos e freqüentadores dos bares. A todos via por um filtro de pensamento distante e às vezes próximo; por todos era gostado, mesmo antes do sucesso do seu livro, que possivelmente trouxe alguma curiosidade do resto do país pela região onde seu autor morava.
Mas era a região do cerrado - que sequer precisava de seu livro para chamar atenção.
Mas Minaçu era longe, muito longe, Minaçu.
- CAPÍTULO QUINZE –
Depois da incompreensível mas incisiva insistência dos patrocinadores americanos de seus escritos para que permanecessem morando em Minaçu, em 2006, Ricardo V passou a caminhar pela cidade em horários variados, sem dar nenhuma satisfação à mulher, Rita – que se magoou com o distanciamento do marido e partiu para Orlando, levando o filho, Ricardo VI, para visitar sua avó americana. Ricardo V ficou exatamente como queria ficar: só.
Percebia aos poucos que gostava de permanecer ali; de andar pelas ruas de casas quase iguais na vila construída pela estatal da primeira hidrelétrica; pelas do centro, que lhe passavam uma inexplicável sensação de escuridão, mesmo às duas da tarde; de visitar comunidades reassentadas pelas hidrelétricas e outras, como vilas de ex-garimpeiros; de observar conflitos entre as empresas das hidrelétricas e movimentos que se postavam como defensores dos atingidos por elas; dos boatos sobre infiltrações de estrangeiros em busca sabe-se lá de que riqueza material ou sociológica ou mística; do permanente questionamento sobre a mina de amianto crisotila, em torno da qual a cidade surgira; de voltar para sua casa de madeira e ar condicionado ligado a toda potência e deitar-se no escuro, incomodado com as notícias locais da poderosa, rica e temida agiotagem, de vendetas, assassinatos a sangue frio, matadores de aluguel. Era um homem local, definitivamente não globalizado, ainda que assistisse à tv.
Custou a compreender intimamente as razões que o levavam a crer tão profundamente que a revolução de idéias, da política amadora, surgiria ali.
As moças de bicicleta e as moças de motocicleta. Gente como ele, às vezes, no meio da tarde, sem fazer nada, encostada num muro. Um lugar parado; uma vegetação parada, seca, àquela época do ano. Mas ainda verde e, quando era verde, a paisagem era muito bonita. Mulheres humildes, de trinta a quarenta anos, aparentando mais, de postura dócil e firme, ao mesmo tempo. Uma geração local de adolescentes criativa, independente. Jovens profissionais, vindos de várias partes do país, mas muito principalmente de Goiânia, com sólida formação. Minaçu: para aquele carioca, um mistério.
Em casa, era mimado, por duas empregadas domésticas educadas e bonitas, uma muito loura e a outra, feita de mistura de imensa felicidade: mulata, índia, alta; “ela tem um bundão” – vivia repetindo em seu íntimo a fala de um personagem de Mar Morto, de Jorge Amado, que lera aos treze anos.
Racionalizava: não queria mais cidades grandes; sentia frio, no Sul; as capitais do Nordeste já eram cidades grandes e as do seu interior, pobres e quentes e áridas mais que suportaria. Havia Orlando, mas era longe, muito longe, Orlando; principalmente, demasiadamente diferente de tudo que podia assimilar como lugar de se morar. Praia: não há mar, em Minaçu! Mas consigo viver sem ele, misteriosamente para mim, que tanto gosto do mar – registrou Ricardo V em alguns de seus desorganizados arquivos eletrônicos. Viajava com freqüência - mas era para Minaçu que voltava.
Publicou seu livro em 2009. Em 2010, Ricardo desapontou-se, ao perceber que a convulsão não era nem de perto a revolução que previra para 2017, nascida do interior do Brasil, do seu Centro-oeste. A convulsão foi o que se sabe: um quebra-quebra generalizado, um trocar de tiros insano nas cidades grandes, mais confrontos armados em regiões rurais, até mais desenvolvidas que aquela. Políticos a se acusarem, a se defenderem e a se esbofetearem sem pudor ou valentia, missões estrangeiras, dinheiro emprestado pelo mundo, campanhas de desarmamento, distribuição emergencial de alimentos, racionamento de energia, acordos com o tráfico, legalização parcial das drogas, empregos para ex-traficantes, um clima falso de falsa trégua. Em Minaçu, nem um tiro sequer, a não ser os costumeiros, das vendetas, etc.. Custou a compreender porque diziam – seu editor, a crítica, várias pessoas em diferentes lugares - que as vendas do livro dispararam exatamente por causa da convulsão, se esta era o oposto do que imaginara: nada de violência; nada de metrópoles inspirando a grande sonhada transformação; idéias, interiores, uma voz de dentro da alma brasileira a sussurrar primeiro e a depois se revelar, uníssona, consistente, macia, bonita - de tão persuasiva e sedutora, convincente a tal ponto que invencível.
Mas ainda não era 2017.
Bares muito diferentes dos que conhecia ao redor do mundo, mas bares; para um boêmio quase abstêmio, como ele, onde tocava seu violão sem qualquer compromisso, eram bons.
E foi em Minaçu que Ricardo Coração dos Outros V foi ficando, às vezes só, às vezes em companhia da mulher e do filho, das empregadas, da pequena sociedade que freqüentava – juiz, transformadora juíza, promotor, prefeito, chefes das usinas e da mineração de amianto, professora de geografia, tenente, empresária de festas, exímia cozinheira; agiotas, matadores, prepotentes. Com estes, bom dia, bom dia; não mais – mas não menos. Os donos e freqüentadores dos bares. A todos via por um filtro de pensamento distante e às vezes próximo; por todos era gostado, mesmo antes do sucesso do seu livro, que possivelmente trouxe alguma curiosidade do resto do país pela região onde seu autor morava.
Mas era a região do cerrado - que sequer precisava de seu livro para chamar atenção.
Mas Minaçu era longe, muito longe, Minaçu.
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