5.13.2007

O DIÁRIO DE UM MARIO

MEU QUERIDO DIÁRIO,

o pit-bull perdeu: para duas cirurgias, muita paciência da Rosa, fotos da vítima estampadas no chamado papel de parede do computador da Maria Luiza antes da mordida e meu grito de liberdade, ainda que tardia. Bolinha, quatro meses de prótese na mandíbula, abajur no pescoço, papinhas as mais variadas e caixas e mais caixas de lenços de papel, deixado em manhã precoce na clínica e tomado de volta à tardinha do mesmo dia, foi ressuscitado. Recuperou o pelo, o peso, o apetite, o abanar do rabo desproporcional, o latido fora de hora e as necessidades absolutamente desnecessárias, enfim, o canino senso do inoportunismo. É um cachorro, outra vez.

O Botafogo ganhou e perdeu. Tem um bom time, um técnico que pode não ser um mestre mas é Cuca e fala parecido com o Felipão. Ganhou a Taça Rio e foi vice-campeão estadual do Rio de Janeiro. Deixou de ser campeão por conta de um impedimento inexistente, um apito inaudível, uma expulsão associada a um não-acréscimo de tempo e uma recorrente incompetência para bater pênaltis. Segue, porém, candidato a seguir na Copa do Brasil, e ganhou do gaúcho Internacional, na casa do adversário, na sua estréia no Brasileirão. Aventurar-me-ei a assisti-lo quarta-feira que vem contra o Figueirense, no estádio deste, ainda pela Copa do Brasil, sendo que Maria Luiza quer ir junto, junto com seus treze anos. A vida é assim: um mar de intranqüilidade.

Sigo escritor e engenheiro, levando tudo muito a sério – o que é muito sério. E grave.

Continuo tendo amigos que persistem em assim se manterem: meus amigos. E permaneço casado com mulher que persiste em me modificar – o que me faz pensar que meu casamento vai muito bem. Isso também deve ser grave. E é sério.

Maria Luiza e Rosa continuam se amando, em sua condição de, respectivamente, filha e mãe da filha, necessariamente nesta ordem. Amam-se e brigam calorosamente, especialmente frente a frente. Ao computador e a um tal de orkut. Bolinha me pergunta: - Por quê? E eu, categórico, respondo: - Não sei. E ele – só ele – me compreende.

O Brasil vai mal. E vai bem. Como sempre. A questão é saber em que lado você está: no que vai bem, ou...

Mas você é só um diário – o diário de um Mario - e não de um mago. Apenas um Mario a mais, a brincar com palavras, a tentar desvendar a Física e dela um pouco fazer modesta Engenharia. Desta, extrair o que resta de criativo, como pão, como hóstia pagã, como ciência humana – essencialmente, a anti-ciência; o empirismo nosso de cada dia. Lidar com gente e não com a mãe - a Física. Escrever como quem desenha; digitar como quem toca piano.

E é só, meu querido diário.

Florianópolis, Dia das Mães de 2007, Mario Benevides.

3.29.2007

BBB

Eu fico aqui falando de mim, só pra ver se alguém também fala, não de mim, mas de si – e a frase é mal construída e eu bem que podia por a culpa na língua, a portuguesa, que é charmosa, bonita e difícil.

O boxe havia me deixado várias seqüelas. A maior de todas foi a saudade. Foi por isso que voltei, como volto frequentemente à boemia, e é evidente que esse casal, boxe e boemia, não casa muito bem, não.

Ando nadando – não literalmente, claro. Venho praticando natação, esporte que não deixa seqüela alguma, a não ser quando a gente bebe água, cheia de cloro ou de sal.

Faço ginástica, ando de bicicleta, caminho. Tenho sido cada vez mais o contrário de mim mesmo. A mesma alma boêmia ainda mora dentro de mim, mesmo quando nado e bebo água. Mais até quando bebo água.

Já o blogue precisa mudar. Mudar de cara, de assunto, de endereço. Volto a ele para avisar que ele vai mudar, e em breve. Como em breve farei acontecer minha primeira publicação (agora é pra valer). Uma professora da UFSC – lê-se UFSC – leu meu romance “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros”, e quem gostou fui eu. Agora, vai.

O outro, a novela “Paredes que falam”, continua, mas um pouco fora do blogue, porque carece de uma revisão: as paredes andavam falando demais.

E fico por aqui, porque Rio, São Paulo e Minas ficam muito longe; mas estarei em São Paulo de 4 para 5 de abril – semana que vem. Se alguém se animar, não vou quebrar meu tamborim – é claro. Nem tocar tamborim eu vou – que fiquem tranqüilos meus amigos, que não vou perturbar seu sono, muito menos sua conversa.

Para encerrar, esclareço: ainda não sou tão ao contrário de mim, a ponto de assistir ao BBB global, não. No meu caso, BBB é isto: boxe, boemia e blogue. Já que o casamento dos dois primeiros não vai dar certo mesmo, que seja um triângulo amoroso.

Mas que o blogue precisa mudar, precisa.

Por favor: que alguém fale de si.

mariobenevides.blogspot.com, 29 de março de 2007 (hoje, minha mãe faria 86 anos)

3.05.2007

LÁ LONGE

Hoje era segunda-feira
Dia difícil para quem trabalha
Mais ainda para quem não trabalha
E precisa.

Hoje
Era uma favela
Era uma menina preta
Que levou a irmã para a creche.

Na volta
Ela não voltou.
Ela
- a menina preta da favela
que tinha levado a irmã na creche -
Levou um tiro.

O tiro foi da polícia
O tiro foi do tráfico

Ela não voltou.

Ela era preta
Ela morava na favela
Ela morreu.

Quase íamos esquecendo:
Sua idade era 12 anos.

A mãe dela(preta)
Ficou gritando
Quero minha filha
Quero minha filha
Quero minha filha.

Quase íamos esquecendo:
A que morreu tinha 12 anos.

A irmã dela ficou na creche.

2.21.2007

ATOLADOS

Pode até ter sido de cesariana ou parto normal – mas todos já atolaram, pelo menos uma vez na vida.

Atolamento de carro é o mais comum. A sensação de impotência é inversamente proporcional à de vexame. Se houver dois surfistas e um estivador nas proximidades, eles serão potentes por você, minha amiga, meu amigo; em contrapartida, de nada adiantará passar filtro solar, blush ou óleo de peroba. Quando a solidão for total, prepare-se: o buraco é mesmo mais embaixo.

Quero ver é atolar de avião. Dos pequenos, com nome inocente. Xingu, por exemplo - de seis lugares. A você, coube aquele assento bem à direita de quem entra, atrás da porta, onde, a depender da estatura de quem senta, a posição, de cabeça baixa, mais que resignada, é humilhante; e, sob o banco, encontra-se o vaso sanitário – uma privada que, pela ausência de portas que não a que do acesso às nuvens, é pública. Todos rezam, não para que o avião não caia, mas, sim, para que ninguém precise usá-la durante o vôo.

Nas nuvens, a nave não atolará; apenas chacoalhará. Atolado ficará você, tendo nas mãos o terço, a estrela de David, a figa e o patuá.

Chove lá fora, sem que isso seja verso de samba-canção. O comandante está tranqüilo. Brasileiro, sabe que algumas leis pegam e outras, não. As da Física, por exemplo: na opinião dele, mestre dos ares, principalmente dos ares de quem fez ponta em cinema mudo, poucas devem ser levadas a sério. Por isso ele acende um cigarro, e a cinza vai direto no seu olho esquerdo, que está sentado lá mesmo, no banco sobre o vaso, que você se esforça para não utilizar. Você, que está com as mãos ocupadas: agora, com a Bíblia e o Corão. Você – que se dizia ateu.

Dentro de mais uns minutos estaremos no Galeão – grande Tom Jobim, que só aterrissava em aeroporto grande, com pista asfaltada, sem problemas nem de inundação, onde o que balançava era o corpo da morena.

A pista onde o Xingu vai posar é de saibro.

O intrépido e desafiador comandante apaga seu cigarro sobre o vidro do altímetro e pousa. E evolui, sobre a pista, em linha reta. E vai manobrar. E atola. Pouco importa: você e os demais, que entraram tripulantes, deixam a nave incandescente como sobreviventes. Parabéns.

E você trafega agora dentro de uma camionete traçada, quatro por quatro, e observa galinhas de angola no piso do cerrado do estado do Tocantins e é observado pelas vacas do Nelson Rodrigues a repetir o bordão da piada sobre a hiena: “De quê ri este animal?”.

É de alivio, donas vacas.

Quando do seu retorno, a chuva continua, como continuou pelos dias que você lá permaneceu, em São Salvador do Tocantins, junto com seus bravos 1.500 habitantes, excluídas as vacas e as galinhas, de Angola e outras, com pintas ou não.

O comandante, com cara de pinguço, elogia o avião. Estamos em 2007 – e ele afirma, orgulhoso: “Este modelo é de 1989, ou então de 1988; não me lembro.”. Tudo para tranqüilizar você, que entra por ultimo na aeronave e retoma seu nobre assento sobre o equipamento onde covardes e corajosos se igualam. O avião segue até o fim da pista, vagarosamente, para fazer o retorno e decolar. O comandante, com seu cigarro pendurado no canto da boca, chama a manobra de “pião”. E com toda a razão: atolamos de novo, na pista de saibro.

Quem conta essa historia, se conta, foi porque sobreviveu. A tudo: a dois atolamentos, ao desdenhar profundo e filosófico das vacas, à indiferença absoluta das galinhas, aos cigarros do comandante e ao girar com as mãos do super-treinado co-piloto das pás das – ou serão “dos”? – hélices. Sobreviveu como todos os demais passageiros, incluindo os profissionais generosamente não-enterrados, graças à equipe de resgate: um estivador saudoso de um cais já faz tempo, que cavou e cavou e não nos fez o favor de enterrar em vida piloto e seu co, e, por mais correta que tenha sido a cova que cavou para deixar livre a roda dianteira da, por assim dizer, aeronave, não foi possível ao desafiante das leis naturais, dito comandante, desfazer seu atolamento reincidente; e meninos de treze a quinze anos, um deles pilotando um trator. Avião rebocado, decolado antes do tempo para não atolar de novo, pousamos em Brasília, 19 horas.

Ouvir a Hora do Brasil foi reconfortante.

2.13.2007

NÓS

Monstros
Arrastaram um menino
Pelas ruas do Rio de Janeiro.

Entre nós
Sempre foi natural
Emprateleirar pobres
Ou encaixotá-los
Nas periferias.

Trabalhadores
Honestos
Humildes
Resignados

São gerados
Geração a geração
Emprateleirados nos morros
Ou encaixotados nas periferias.

Monstros
Misturaram-se a eles
- honestos trabalhadores sem trabalho -
Nas mesmas prateleiras nos morros
Nas mesmas caixas de papelão
Das periferias.

Nós
Que compramos guardas de trânsito
Desde sempre em cada esquina.

Nós
Que temos uma conhecida
Que é do Ministério
Que arranja uma vaga
Pro nosso filho
Na escola pública.

Nós
Que desprezávamos negros
Até que as cotas passaram a valer
E aí nos tornamos todos parentes.


Nós
Que erguemos grades
Para proteger o sono
Das crianças que dormem na rua.

Nós
Que convivemos bem
Com os que dentre nós
Blindam seus automóveis.

Nós
Que freqüentamos festas
Onde o pó rola solto
E dizemos aos nossos
De olhos vermelhos
Aí, cara, tudo bem?,
Brigado,
Não tou a fim.

Nós
Que ouvimos os gritos dos nossos
Do apartamento ao lado
E continuamos ouvindo.
(Agora, de janela fechada.)

Nós
Que perdemos nossos empregos
Resignadamente
E que não moramos no morro
Ainda.

Nós
Que temos Deus no meio de nós:
O político.

(E ele é um de nós, necessariamente.)

Nós
Pacíficos
Passivos
Décima-qualquer-coisa
Potência-econômica-mundial.

Nós
Centésima-décima-sétima
Pior-distribuição-de-renda
Mundial.

Nós
Criamos monstros

De uma raça
Dentro da raça
Que mora nos morros
Nas periferias.

De uma outra raça
Dentro da raça
Que freqüenta rodas
Do mais alto
Poder-de-compra.

De uma outra ainda raça
Dentro da raça
Que representa a droga
Que representa o crime
Que freqüenta o congresso
Nacional.

De mais uma outra raça
Que quando se refestela
Do dinheiro público
De fato mastiga e cospe
Vidas de talentos natimortos
Pernas mendigas
De vidas-zumbis.

Nós
Criamos raças
Dentro da nossa
Brasileira raça.

Nós
Criamos monstros
Desde sempre
No nosso quintal.

Monstros
Arrastaram um menino
Pelas ruas do Rio de Janeiro.

1.16.2007

MICO

A partir dos 12 anos, atenção: é proibido pagar mico. Por exemplo, andar de mãos dadas com o pai e a mãe. Aqueles beijos e abraços apertados, só em casa. E olhe lá – porque o vizinho pode estar olhando e, se ele tiver 13 anos...

Do lado de cá, de quem carregava o filho ou a filha pela mão – depois de muito tempo no colo -, não se deixe emocionar em comédia romântica na companhia dela. Na dele, sequer proponha uma. Desandar de dar risada e gargalhada em desenho animado, esteja certo: vão chamar a ambulância.

Tio. Esse é o seu nome – a não ser que seu sexo seja o feminino; nesse caso, oi, Tia, muito prazer.

Prazer inclusive de ver sua sala abarrotada deles e delas, sentados no chão, encostados na parede, chão e parede recheados de bolo para todo o sempre. Antes fosse: esse paraíso acabará e você vai se tornar o maior religioso de todos os tempos. Seu colar – você usará um – trará um crucifixo entre a estrela de David e uma figa, assim que o passeio de quem você trocou as fraldas passar a ser com João ou Maria. Maria tem carteira de motorista; João rouba o carro do pai. Há os gêmeos, também: Rafael e Gabriel, cada qual com sua moto. Lucas não tem dinheiro, mas bicicleta, sim. Primeiro, ele tirou a camisa enquanto pedalava e a danada cismou de enrolar na roda dianteira e ele foi de cara no chão; depois, Matheus, que tem menos dinheiro ainda e casa não tem, mas revolver, sim, levou a bicicleta de Lucas – agora, com uma bicicleta e 3 dentes a menos. Onde anda Salomão?

Melhor parar o relógio e perguntar, sem ofender: quem inventou o mico terá sido alguém com inveja de quem anda de mãos dadas com a filha ou o filho?

Pode até ter sido. Mas isso não lhe dava o direito de ter gritado LINDÃOOOOOOO quando ele fez aquele gol de placa. Menos ainda de ter socado o juiz porque o gol de placa foi com a mão e, consequentemente, anulado. Está ouvindo, agora? A sirene é a mesma da ambulância; mudou foi a cor do carro.

Mico.

1.11.2007

O MAIS FORTE

Escondia-se. Exibia-se. Aparecia porque grande era sua cabeleira. Claro, era ela que lhe mantinha protegido; escondido. Veio um corte de cabelo indesejado e o que ele gostava de esconder ficou à mostra; aquilo que exibia fora embora. Veio uma mudança. Era da casa antiga o seu aconchego. Foi ficando triste. Vieram umas férias, uma viagem – ele gostou. Foi quando o mais forte sentiu-se incomodado e partiu pra cima dele e ele quase morreu. Poderia ter acontecido com qualquer um: o mais forte se incomoda e o mais fraco é que se muda – ou morre. Hoje ele anda jururu, mascando seus bigodes, impedido de coçar a mandíbula, temporariamente reforçada por uma prótese, por um anteparo. Espécie de noviço rebelde, assim ficou o poodle depois de atacado pelo pit-bull. Este, por sua vez, ninguém sabe como ficou. Apenas se sabe que continua sendo o mais forte.

1.09.2007

VIVAS E MANIFESTOS

A visita de um poeta é sempre bem vinda. O poeta Aldo Votto ainda nos visita; mais: manifesta-se - a nós. E a nós ultramarinos. Vivas a ele, que, como bom poeta, nos mantêm vivos, interessados, ativos. Em resposta nos manifestamos nós (plural e, portanto, covardemente):

Fui ator não vou ao teatro.
Escrevo poemas não leio poetas.
Que pretensão será esta
Egoísmo será este
Fazer e não querer saber
Do que fazem os outros – os de verdade?
Leio Equador
De autor português contemporâneo
A narrar fios e meadas de dom Carlos
Rei
Que viria a ser morto por revoltosos
Idos de 1905-8
São Tomé e Príncipe
Ilhas
Colônias portuguesas
Equatoriais.
Lá
Descubro-me navegador
Ansioso por aventura
Engenharia e poesia incapazes dela.
Novas e naufragadas Friburgos
Encharcados Rios geralmente praianos
Metralhados e incendiados inocentes
Respondei:
Há lugar
Longe do naufrágio
A salvo do incêndio
Perto da aventura?
Haverá lugar a inda
Para sonhadores
Que sonham tão somente transformar? Sem o saber?
Sigamos.
Vendas nos olhos
Vendavais nos ouvidos
Chuvas torrenciais
Sóis cegadores
Preconceitos e medos e seus desastrosos consertos
Sigamos.
A fazer e pouco ler poesia.
Mais a representar que assistir a intérpretes.
A nos alimentar de manifestos
Mais que nos manifestar.
Vivas a eles manifestos.
Vivamos.

1.05.2007

IRREGULAR

Eis aqui um lugar
Freqüentado por poucos
Todos de idoneidade assegurada
Ainda que freqüentadores
Deste lugar
Que,
De tão pouco freqüentado,
Mal dá o que falar.
Serve este espaço
Muito mais para organizar
Aquilo que não pode:
A obra errática, anti-sistemática
De seu ocupante-anfitrião.
Que não se exija dele portanto nada
Que não a mais completa irregularidade.
Tudo que sai na capa só foi verdade por indeterminado tempo:
Hoje é dia de crônica
Amanhã ou quem sabe quando,
Um capítulo.
Que dia é hoje?
Por aqui, não se sabe.
Se, ainda assim, você, de idoneidade assegurada ou não,
Quiser visitar este lugar,
Será um prazer.
Deixe sua queixa, por favor:
Será sempre bem-vinda.
Queixe-se do assunto e da sua falta; da forma; do des-conteúdo.
Mas venha sempre – até que uma multidão nos separe,
Uma frente fria,
Um crime hediondo,
Uma roubalheira infame
Nos separe.
Ou nos una.
Irregularmente.
Como deve ser.

12.29.2006

VALORES - UMA CRÔNICA INACABADA

A bolsa ou a vida! - ameaçava o assaltante à senhora, que, sem hesitar, entregava a bolsa e ficava com a vida. Trocava seus valores pela manutenção da vida, por mais sem graça que ela fosse. Pouco importava se era uma desprezada e humilhada por se ter desquitado; ou se tinha ou não marido e era uma entre milhares de mal-amadas, salve-salve. Os valores eram aqueles: os da bolsa - que se ía, com os valores dentro. A vida ficava. Enquanto isso, uma outra, morro acima, carregava uma lata d'água na cabeça.
Não muito tempo depois, era engraçadinho dizer-se, Que pena, o Rio, uma cidade tão bonita e... tão violenta. O veneninho corria pelo canto da boca e o carioca se saía com uma resposta, ora irônica, às vezes ressentida.
Depois foi São Paulo, paralizada, atônita, em estado de guerra, nas mãos do crime, do terror sem bandeira nem credo, de dentro, mais que das cadeias, de não se sabe de onde, só se pode imaginar.
No final de 2006, o Rio, de novo: um homem vai dar queixa do vizinho e morre metralhado; uma vendedora ambulante salva a vida do filho de seis anos e morre do mesmo jeito, sem chance de nenhuma queixa; quem viajava de ônibus, adeus: mil queimaduras, morte ou morte em vida.
Cheiramos, nos injetamos, fumamos, ou não: e, em qualquer doas casos, estamos à mercê.
No tempo da bolsa ou a vida, sabíamos onde estavam nossos valores. O problema é que sempre foram poucos: os da bolsa e, para os mais afortunados, os guardados no banco.
Futebol, café, Pelé, samba, chorinho, bossa-nova, religião, exportações, volei, top-models - pense em algo que seja, verdadeiramente, um valor brasileiro: não fica um. E daí? - questionará você, argumentando que os americanos, por exemplo, cheios de moral e nacionalismo, são uma ilha cercada de guerras por todos os lados, e hipocrisias, além de pobrezas e misérias e racismos pornograficamente desnudados, ultimamente por furacões; os europeus, na sua maior parte, encontram-se imersos em um pote até aqui de mágoa de seus ex-colonizados, e tome bombas e incêndios e depredações, pouco importa se sua cultura, latu / strictu sensu, lhes seja um real valor; e que os ultra-religiosos matam-se entre eles, aos outros e a quem estiver por perto, cheios de seus valores históricos e além-túmulo.
Nós não temos valores; e daí? Talvez por isso vivamos placidamente, até que um tiro ou incêndio ou enforcamento num subterrâneo ou numa subida de morro nos alce a um outro tipo de inferno. Talvez daí nos seja natural a combinação explosiva da economia forte e vegetativa com uma das piores distribuições de renda do planeta e suas crias - crianças morrendo e nos matando nos sinais de tráfego, classe média desesperada, gente pobre e gente rica cheirando bosta branca, movimentos supostamente representativos apenas expondo as cáries e a gengivite de nossos campos férteis, a seca, a enriquecer boçais e a matar desgraçados, e, principalmente, a política, sim, verdadeiramente representativa da alma brasileira: eu quero o meu e o resto, ora, que se...
Talvez esteja aí nossa grande possibilidade: nós não temos valor algum.
E quem quiser que acabe a crônica.

12.18.2006

DE VOLTA PRA CASA

De volta ao padrão; à normalidade. Às Terças, um avulso, um texto desconexo do antes e do depois.

Havia uma canção que dizia: Paraíba não é Chicago não. Já uma repórter bem conhecida da TV uma vez disse que Miami parece o Rio, só que no Primeiro Mundo. Se a primeira afirmativa é correta, a segunda parece que não é - e não é mesmo. As praias de Miami começam por uma pista sólida, mal-coberta de areia. Depois, a areia é cheia de cascalho e há tanto cascalho debaixo d’água que é recomendável entrar no mar de sapatas holandesas. As praias do Rio também passaram por aterros, no seu caso, para privilegiar os automóveis, a andar em oitava marcha, característica dos cágados, nas pistas de asfalto duplicadas. No caso de Miami, era tudo pântano; aterro de pântano não pode mesmo dar certo, nem no Primeiro Mundo. Lugar, aliás, onde Miami não fica: seu comércio é legitimamente paraguaio. A repórter só acertou muito indiretamente em aspectos de indiscutível semelhança: o oceano continua sendo, lá e cá, o Atlântico; e a liberdade é atlântica. O comércio é paraguaio, a sandália é havaiana, a Giselle é Büntschen, e os casais se namoram escancaradamente, héteros, homos, bis.

De volta à Pátria, visitei o norte de Goiás rodeado de belgas por todos os lados. A comunicação é mais atlântica que o próprio oceano e nos entendemos em arremedos de Inglês, Francês, Portunhol, fome de comida e de viver, sede de beber o que fosse líquido. Mato pra que te quero, festa pra que te quero, trabalho. O Congo poderia ter sido aqui; e teríamos colonizado a Bélgica.

Deixei de morar com vista para o mar, em Florianópolis. Não ouço mais o vento nordeste implicando com toda razão contra minhas janelas, como não ouço mais os automóveis se espatifando uns contra os outros, na avenida Beira Mar. Minha janela agora é indiscreta e nem precisei quebrar a perna. Minhas mulher e filha foram para o Rio – vou na Sexta que vem, de férias – e o cachorro poodle muito mais delas que meu amigo mudou-se para a casa da nossa empregada de serviços domésticos, de férias – o cachorro, por ora. Grande Bolinha! Bom sujeito, às vezes parecendo Nietzche, mais recentemente grama – segundo sua mais querida, Maria Luiza, depois de uma tosa infeliz. Ela ainda não sabe, mas, na sua colônia de férias, Bolinha foi atacado por um Pit Bull. Patrícia, nossa nobre empregada, contou-me que saiu no jornal a notícia de crianças atacadas por Pit Bulls nas praias catarinenses, no último fim de semana. Bolinha terá que operar o maxilar. Não sei o que foi das crianças, não li o jornal. Impressionante como a técnica do transplante funciona magistralmente: cada vez mais fica provado que transplantar cérebros de Pit Bull para cabeças humanas transforma os possuidores dessas cabeças de cérebros transplantados em Pit Bulls, capazes de adquirir e deixar soltos semelhantes a eles, montados sobre quatro patas. Declarei à nossa empregada, voluntária e provisoriamente tutora do Bolinha, que vou processar o animal responsável pelo animal que agrediu nosso amigo poodle – sem ter a menor idéia de como processar alguém. Muito menos um portador de miolos transplantados de uma raça que se supõe canina.

De volta ao padrão; à normalidade.

11.26.2006

IMPERDOAVEL

Aos meus, mais que raros, cari'ssimos leitores, informo que ate' o pro'ximo dia 6/12/2006 me sera' praticamente impossivel publicar alguma coisa para diverti-los ou entedia'-los (claro que a intencao e' sempre a primeira, mas nao ha' qualquer tipo de garantia para esse tipo de produto). Como pode ser visto, nem acentuar eu posso e escrever em Portugue^s sem acento, mais que desconfortavel, e' perigoso. Por exemplo, se digo que peco, posso estar pecando ou pedindo e, neste caso, nao necessariamente para pecar. Estou fora do ar, fora do clima ameno brasileiro, enfrentando frios feitos com exclusividade para ursos - e ursos polares, naturalmente - e sem acento. E me recuso a escrever "eh" quando quero dizer "e'" e, quando escrevo "e'", fica a pobre da letra em tempo de verbo com duas aspas de um lado e tre^s do outro, em insustentavel assimetria.

Gravi'issimos pedidos de desculpas e at'e breve, com as cro^nicas, os poemas e os capi'tulos de PAREDES QUE FALAM (momentaneamente mudas - mas so' momentaneamente).

Abracos,

Mario.

11.14.2006

MOVIMENTOS

Agenda positiva
Ação afirmativa
Posição assertiva
Palavras expressões contemporâneas
Todas
Querendo dizer não.

Modismos.
Toda hora surge uma bobagem qualquer
Que quando dita pela boca de um dito
Representante
Do povo
Assume seu ar solene
De grossa porcaria.

Protestos.
Nunca se protestou tanto
Inutilmente
Exatamente
Porque nunca se protestou tanto.

Contemporaneamente
O ato de amar
Contra tudo de charlatanismo burrice hipocrisia
Boçalidade
Inclusive o movimento de carros
Transportando vazios
A lugar algum

Plenamente consciente
Da total inutilidade do seu gesto

Permanece protestando.

Assim lhe batizaram sacanagem.

11.08.2006

DE MÉDICOS E MONSTROS

Matemáticos poderão ficar horas discutindo com grande precisão sobre o espaço enésimo. Ficarão aflitos se pelo menos um dos enésimos espaços não servir para que esbocem suas curvas e conforme-queríamos-demonstrar equações. Um deles, só para não ficar de fora, sacará de um computador de bolso a enésima casa decimal de pi.

A Lei das Probabilidades afirma que um físico entrará na roda – que desprezará o espaço onde os matemáticos andaram rabiscando e o próprio planeta Terra surgirá das suas mãos. Em torno dele – é um erro pensar ser correto o contrário – girará todo o infinito espaço, a deixar o enésimo encabulado.

Inevitavelmente invadirá a estratosfera um economista, a desenhar seus gráficos do eixo dos y para o dos x, invertendo tudo – porque foram os ingleses que desenterraram a Economia das valas dos escravos e trabalhadores vinte-e-quatro-horas e, como se sabe, ingleses são canhotos: não à toa, mas solenemente, seus automóveis andam na contra-mão. O recém-chegado recitará debêntures, déficits, superávits e sonetos.

Um contador apresentará a mais perfeita exatidão: aquela onde ativo e passivo se igualam. Na seqüência, um cientista político afirmará: direita e esquerda também.

Quando for a vez das doenças, chegarão os médicos - e muitos: haverá um congresso. Um matemático, após consultar a língua, tornar-se-á sócio do economista, deixando o contador sem palavras: demonstrarão que sintomas multiplicam-se em diagnósticos e estes, em receitas, na razão direta do número de médicos e na inversa do inverso da razão.

Que ninguém queira prever o final – pois, ao invés de advogados, quem chegará serão advogadas.

Exércitos, extra-terrestres, estudantes, desesperados, pacifistas, lixeiros, políticos, aproveitadores e jornalistas vão-se juntar à grande discussão acerca do que seja realmente exato – e apontarão como capazes da resposta os matemáticos, não só por estes dominarem a única ciência humana exata, mas por estarem, desde o princípio – e não era este o verbo – em maior número. Após o incômodo suspense do silêncio que antecede as grandes revelações, aquele do computador de bolso revelará:

- A enésima decimal de pi só é conhecida como enésima. Seu valor não se conhece. A única ciência exata que temos não é exata o bastante para que a última decimal de pi – do velho pi – se revele em seu exato valor, no seu exato e único último lugar.

O silêncio que sucederá o desapontamento será quebrado pela língua, a traduzir-se em infinitos-enésimos idiomas:

- O último não é o primeiro, porque este, dado o generalizado desconhecimento daquele, não se faz conhecido.

Pi.

10.30.2006

UMA ESTRANHA FREQÜÊNCIA

Silêncio. Parece que os automóveis perderam suas buzinas. A festa da democracia é um tanto barulhenta. A festa acabou e que alguém faça o favor de lembrar o poema do Drummond.

Silêncio. Possivelmente será feito silêncio das investigações em curso: já não interessam a mais ninguém.

Silêncio. Governo e Oposição começaram a tramar ruidosamente contra nós.

Silêncio. A bomba norte-coreana começou a explodir. Silenciosamente.

Silêncio. Do lado de cá do planeta, tão somente se contam as mortes e explosões que acontecem do outro lado; por aqui, são silenciosas.

Silêncio. No morro e no apartamento. Jamais a bala perdida foi tão silenciosa.

Silêncio. Muito silêncio, porque a briga da família vizinha é como punhais cortando a nossa carne e, nos nossos ouvidos, o som da nossa morte.

Silêncio. Faz-se necessário um minuto de silêncio para que você possa ouvir o zumbido insuportável que não lhe deixa os tímpanos – que, bom, Drummond, se o zumbido fosse a falsa vienense.

Silêncio. Uma rosa nasceu – faz tempo que ela nasceu num verso do Chico Buarque, mas rosas são como estrelas: somente percebemos seus sons e luzes quando já não mais existem.

O que ainda nos faz lembrar Cartola e Olavo Bilac.

Para quê tanta ciência?

Silêncio.

10.16.2006

MARGINAIS

Poeta e poesia
São marginais sempre
Ainda que raramente cometam crimes
E quando os cometem
Geralmente é contra a língua
E dificilmente contra o beijo.
Gente de teatro quando mata
No mais das vezes é de rir.
Médicos, generais e engenheiros
- uns quando erram, outros quando acertam –
Podem matar de verdade.
Já entre poeta e poesia
Quem morre é sempre o poeta
E nem sempre no final:
Há poetas apressados
Que apressam seu final.
Tudo assim impreciso
Porque poeta e poesia não combinam muito
Com precisão
A não ser de dinheiro.
Se poesia é palavra gasta
Rima fácil de samba-enredo
Poeta é pejorativo.
Pois mesmo sendo assim
E quase sempre sendo poesia verso
Todo poeta vira prosa
Quando revela sua condição marginal:
- Prazer. Poeta.

10.09.2006

TÁXI

Poderíamos falar de...
Política?
Melhor não.
Futebol, então...
Nem pensar.
Melhor não falar do tempo
Que é sobre ele que todo mundo fala
É banal.
Um samba,
Minha vida por um samba,
Um reggae,
Uma opereta
Mas nada disso toca em rádio de táxi.
O motorista cheira mal
E o carro cheira ao motorista.
O cinto de segurança do banco traseiro
Se achado foi roubado.
Se você tivesse um carro, hein?
Mas você não viria com seu carro a Amsterdã
Você mora longe
Você fica lá do outro lado
Só que veio parar aqui.
Parar, nada: andar de táxi
Neste lugar
Que nada tem de Amsterdã.
Ela bem que podia facilitar as coisas
Puxar assunto
Mas parece que a ponta do cabelo dela
Tem muito mais assunto que você.
O motorista não fala nem ouve
Fede.
A palavra já é horrível
E não traduz exatamente o cheiro
De quem dorme e acorda e se droga dentro desse carro
Ele mora no carro,
Percebeu?
Tudo parado e é noite
Atenção todos os carros
Fiquem parados –
A ordem veio de Marte.
Um disco voador! –
Você quis e não viu
E não disse.
Você está prestes a explodir de tristeza
Tem um sonho acordado
Está numa tribo pelado
Dança com eles
Você que detesta índio
Transporta-se
Respira fundo
(O carro todo cheira ao motorista que não dorme)
Vira-se pra ela
Consegue que ela deixe a ponta do cabelo
Por um instante infinito
Solto e sem a mão dela.
Você toma dessa mão
Que é da freira
Da sua mãe
Da sua irmã
Da sua moribunda avó
Quem sabe da sua mulher
Da sua tia de Guaratinguetá
Sua namorada
Sua empregada
A namorada do melhor amigo
A mulher grávida do motorista
Você é o motorista.
Quem é ela?
Sua catinga.

10.07.2006

24 – CAVERN CLUB

“RITMOS DE BOATE” e “CAVERN CLUB” foram dois programas de rádio no Rio de Janeiro, com o “DJ” Big Boy, nos anos setenta do século passado – conta Maria Eduarda à irmã caçula, por telefone. “Big Boy rides again” – era assim que ele abria seus programas. Flávia está aflita: ninguém gosta do nome “Lennon e Vinicius” nem aceita que exista uma canção do brasileiro cuja letra se assemelhe em utopia a “Imagine” – sendo que seria de todo absurda qualquer hipótese de um ter influenciado o outro, fosse na ordem que fosse, tal a distância de ritmos, trajetória e linguagem dos dois, ainda que tenham sido contemporâneos e que coincidências, determinações divinas ou sincronismos lhes tenham tirado as vidas no mesmo ano: 1980. Maria Eduarda sugere à irmã que Vinicius se junte a Louis Armstrong e Pixinguinha no atual Satchmo e Pixinguinha e que o “Lennon e Vinicius” passe a se chamar “Cavern Club”, nome do lugar onde os Beatles se apresentavam na sua distante Liverpool em seu início de carreira e que batizou um dos programas do “DJ”, um dia encontrado morto em um quarto de hotel no Rio.

- Isso dará identidade ao bar que está fracassando e um “gancho” para um relançamento do complexo como um todo – é o que opina Maria Eduarda, e Flávia admite que a irmã mais velha teve uma boa idéia.

- Qual passará a ser o nome do “Satchmo e Pixinguinha”? – querem saber as sócias de Flávia: Rita, Renata e Cláudia. Flávia, que viveu alguns namoros, tendo sido um deles desses que deixam marcas de difícil cicatrização; Rita, que foi estuprada e quem morreu foi o estuprador – de parada cardíaca; e ninguém apareceu para reclamar o sumiço dele, como contou a Renata o policial que investiga a morte do velho cujo cadáver foi encontrado de calças arriadas, perto de uma etiqueta deste complexo onde estamos inseridos, NOITE E DIA, LIVRO E FANTASIA; Renata, que, como Flávia, conhece características físicas do assassino do advogado, crime que vem sendo há alguns meses investigado pela Polícia Federal e também pela Civil (Renata chegou a conhecer-lhe a voz e a proximidade); e Cláudia, que tem ciúmes permanentes do marido Angus, indivíduo de características físicas nada ou pouco atraentes para a maioria das mulheres e que foi capaz de atrair – momentaneamente – a amiga e sócia Rita - sem que Cláudia e o escocês descendente de celtas sequer tenham desconfiado disso.

(Como de todo e presumivelmente, nenhum celta deve ter desconfiado – a não ser que um de seus druidas seja capaz de não só desconfiar como tramar e provocar esse tipo de situação.)

Flávia pensa em criar mais um bar, dividindo o “Satchmo e Pixinguinha” em dois; Renata e Rita são contra - este vem fazendo sucesso e se mantendo cheio com o tamanho que tem – e propõem que o “Lennon e Vinicius” é que seja dividido em dois; Cláudia reage, De jeito nenhum, a ilha é um santuário de “covers” dos Beatles, vai encher sempre e exatamente no seu atual tamanho, especialmente com a nova personalidade - ela argumenta, enfaticamente.

Depois de fumaçadas do cigarro de Cláudia e correspondentes abanares das demais, as quatro decidem que o “Satchmo e Pixinguinha” vai continuar se chamando assim; e que aqui, doravante, vamos nos chamar “Cavern Club”. Agora é reformar e divulgar e assunto encerrado – Cláudia diz e se levanta, esmagando o que sobrou de um cigarro no cinzeiro.

É quando Flávia mergulha em profundos pensamentos e sai daqui sem mesmo se despedir das amigas, como se estivesse em uma espécie de transe, triste da saudade e dos traumas do amor fracassado, confusa com o rumo da sua vida, que vem sendo rondada de perto por duas mortes, uma presenciada por ela, a outra, vivenciada por Rita.

10.02.2006

REFLEXOS

O mar hoje reflete um céu cinzento.
Pensando bem
O céu nem tem tanta culpa assim
Nem o mar é tão reflexivo assim
Tanto que o céu está se azulando
E o mar vai se acinzentando por conta própria.

Não me resta saída
Senão associar idéias
Evidentemente estapafúrdias:

Serão os votos reflexo do país
Ou terão os votos vida própria?

9.26.2006

POR FAVOR, DISCORDE

De tanta auto-ajuda, finalmente a humanidade vai se tornar o conjunto de seres que se ajudam.

Sociedade fraterna é aquela fundada por Caim e Abel.

Amor conjugal: quem saberá conjugar esse verbo?

Amor filial é aquele que se expressa pela transferência de lucros para a matriz.

Dois pares de tapas nas costas: dois amigos se encontrando depois de longo tempo. Quando fazem ruído: dois políticos que passaram a tarde juntos.

Jantar à Americana é buffet. Sair à Francesa é deixar o jantar à Americana sem que ninguém perceba.

Os Estados Unidos, depois de acabarem com o Segundo Mundo, claramente mostram que estão descambando para o Terceiro. Tanto assim que eu vi um filme americano onde a atriz aparece sem sutiã e fazendo sexo. Ao mesmo tempo.

Filme francês de suspense agora é thriller. Globalização.

Estamos na reta final das eleições. Há eleitores de rádio de pilha no ombro e há outros de paletó e gravata e outros ainda de smoking. No universo feminino, enquanto umas ficaram em casa de pano na cabeça, outras se fizeram presentes; no lugar de panos, chapelões. Os candidatos usam tapa-olhos.

No ano em que o Brasil perdeu, inteligente mesmo é propor ao eleitor que tenha a mesma empolgação que teve na Copa. Mas, faz sentido: fazer o que na cozinha?

O avanço tecnológico vertiginoso que se configura no mundo de hoje é a introdução preferida de artigos que retratam algo que já se passou. Especialmente nos anais.

Anais: palavra sem singular.

Fazer frases não é monopólio de ninguém. E se alguém patenteou, foi o Barão de Itararé, que, quando vivo, queria mesmo era cair no domínio público.

Generosamente.