9.04.2017

ASSIM CAMINHA A BRASILIDADE

Assim caminha a brasilidade – pelo menos a minha. Aos quase 62, quando finalmente me olhei no espelho e me disse o mesmo que meus amigos trintões dizem para si e todo mundo – “estou ficando velho”-, resolvi mentir pra mim mesmo: ingressei na faculdade de direito. Entre as pesquisas que já fiz por obrigação e gosto, uma chegou a um encontro entre Miguel Reale e Norberto Bobbio, este a convite do primeiro, em Brasília, 1983. Segundo Reale, Bobbio se dizia a favor do socialismo liberal (Bobbio, na juventude, foi marxista). Reale (integralista quando jovem), contando essa história, defende o liberalismo social - e afirma que a solução, superando a disputa ideológica, de toda forma estaria no centro. Eis que, ontem, em O Globo, leio sobre uma segunda bomba do jornalista Lauro Jardim: o DEM vai se chamar Centro. Poucos dias antes, vi Rodrigo Maia dizer que o Democratas era um partido de direita liberal, ou de centro-direita. Por essa linha, eleitores de direita liberal vão declarar seu voto no Centro – e como hoje, literalmente, falamos pelos dedos, eleitores de centro dirão que votarão no centro, mas não no Centro. Para acabar com a discussão, dois novos partidos serão inventados: Esquerda e Direita. Repetindo a história, virá a Revolução Francesa. Ou então, a saída é que será à francesa.

MARIO BENEVIDES / FACEBOOK.

8.07.2017

DEZ PASSOS PARA CONSTRUIR UMA POTÊNCIA ECONÔMICA DESIGUAL, VIOLENTA, GOVERNADA POR INCONSEQUENTES



1.     Deus é brasileiro. E Deus disse: Vocês vão ver o povo que eu vou por aí.
2.     A culpa é dos portugueses e suas capitanias hereditárias.
3.     A culpa é do imperialismo, do comunismo, do catolicismo.
4.     Quem sabe faz, quem não sabe ensina.
5.     O problema é a classe média.
6.     O problema é a classe dominante.
7.     O problema é o Zé Povinho.
8.     O brasileiro não sabe votar.
9.     O brasileiro não tem memória.
10.  Repetir de 1 a 9 de geração em geração.
***

Sempre quis saber quem é o “outro” na expressão “Como diz o outro”. Desnecessariamente, claro. Basta que seja o outro.

5.20.2017

Poderes

Ilusão pensar que temos três poderes. Em pelo menos todo o mundo ocidental, de democracia ocidental, há mais três além dos formais: a mídia, o povo e o dinheiro. Nesses episódios mais recentes, especulações à parte, a mídia fez e faz seu papel: divulga informação e opinião, desde a tradicional, passando pelas que já foram apelidadas de nanicas ou alternativas, até esse fenômeno recente, chamado mídias sociais. O povo, em matéria estritamente política, está como sempre esteve: confuso e dividido, de maneira, pelo menos e por enquanto, sem a agressividade oratória e mesmo física de há muito pouco tempo. O dinheiro, ora, o dinheiro se multiplicou para uns poucos, diminuiu ou desapareceu para outros muitos mais. Digo isso para provocar uma reflexão. Que bom pensarem em reformas, baseadas em um possível maior número de empregos e na necessidade de se contar com uma expectativa de vida maior. Que lástima não se pensar que essa expectativa é sujeita a, mais que pontos, consideráveis porções fora da curva, por exemplo por mortes entre jovens por causa de um aparelho celular ou equivalente coisa. Que espantoso se esqueça que tipo de vida terá a gente que viverá mais tempo, tantos, a tirar por hoje, heroicos idosos vivendo de um salário mínimo, ou, pasmem, isso é possível, menos do que isso. Errei quando disse que os poderes sejam seis. Faltou um, chamado consciência. Que se não vier do povo, ora, de que outro poder virá?

5.06.2017

CIÊNCIA, PRA QUE TE QUERO


Quanto mais convivo, quanto mais estudo Filosofia, Ciência Política e suas célebres frases – o homem é um ser racional, o homem é um ser gregário, o homem é um ser político, o homem é o lobo do homem -, mais percebo o óbvio. O homem é um ser emocional. Emotivo. Ou artistas não seriam desprezados, execrados, idolatrados. Um deles disse: Seja feliz e faça os outros felizes. Bom fim de semana.

2.13.2017

Bom Dia

Uma voz amada me deseja bom dia.
Outra a ela se junta e me diz Bom dia.
As duas conversam e dizem
Uma à outra
Bom dia.
Todo barulho urbano
Será somente percussão
Ora afinada ora desastrada
Dessa melodia.
Que vozes amigas
Amadas sempre nos digam
Bom dia.

2.08.2017

O LADRÃO DE AMIGOS

Eu tenho um amigo que rouba amigos. Ele não rouba nada dos amigos, mas os propriamente ditos. Qualquer amigo que eu apresente a ele passa a vê-lo mais que a mim, e tenho certeza de que isso acontece com todo mundo que é amigo dele. Acontece que um ladrão de amigos, que rouba amizades, é alguém generoso: compartilha as amizades roubadas. Quando estamos perto, nos convida a estar com elas. Estando longe, manda fotos, mensagens, telefona. Daí me ter ocorrido uma ideia: mandar esse meu amigo pra Brasília. Lá, ele reuniria os corruptos dos três poderes e, de olhos vendados, os levaria a um lugar onde eles continuassem exercitando o que gostam: roubar, não amigos, mas dinheiro, qualquer bem material, seja de amigos, inimigos, desconhecidos, de quem tem e de quem não tem. Só que agora somente entre eles, roubando uns aos outros, em um lugar só conhecido por eles. Não existem os primos entre si? Corruptos passariam a ser os ladrões entre si. Os honestos, meu amigo manteria em Brasília. Quando esses tivessem uma vontade danada de roubar, por certo herdada do convívio com aquela outra rede social, já teriam aprendido com meu amigo a roubar somente amigos – amizades -, incluindo o compartilhamento, entre eles e, até, quem sabe, conosco. Não mereço o Nobel pela ideia? Claro que não. O Nobel é do Rubens.

6.26.2016

Desconhecidas Bocas

Aos catorze quinze anos teria dito
Janis Joplin não se drogue fique
Aqui conosco.
E teria lhe beijado a boca
Se ela quisesse.
Muitos o teríamos feito
Carinhosamente.
Amy Winehouse filha
De outra Janis
A ela teria dito
Me irrita seu suicídio
Tão anunciado
Óbvio.
A ponto de desgostar
Do que de fato eu gostava,
Da sua voz
Canção.
E teria lhe beijado a boca
Se ela quisesse.
Muitos o teríamos feito
Carinhosamente.
Não necessariamente conhecemos
Quem nos lê.
Não há como conhecer beijar
Tantas desconhecidas bocas.
Não afaste ou despreze as nossas
Principalmente não nos irrite
Com a obviedade.
Experimente o prazer
A onda
Do elevador prédio ônibus errado
Para o bairro longe
Dos óbvios e também
Da sua casa
Possivelmente chata.
Peça-nos exija nossas
Bocas.
A sua
Se você quiser beijaremos
Carinhosamente.

Bela e querida Inglaterra

"A União Europeia, uma instituição que ajudou a manter a paz na Europa por meio século, sofreu um duro golpe" - The Economist - A tragic split - 24/6/2016.
Bela e querida Inglaterra,
Como no título brasileiro
de England made me,
de Graham Greene,
Te separaste da Europa
Levando contigo teu reino
(até quando?) unido.
Uma mulher perdeu a vida por isso
Porque era contrária à tua separação
Como contrário era The Economist.
Parece ter pesado mais
que a Economia
A imigração.
(Às favas séculos de domínio.)
Bela e querida Inglaterra,
Uma Europa desunida tantas vezes
Tanto sofrimento
Que desta vez
Pelo menos
Assim não seja.
Bela e querida Inglaterra,
Deste distante
Muito mais que crítico
Teu admirador,
Minha tristeza
Pela tua
Se
Pa
Ra
Ção.