11.04.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO TRINTA E TRÊS –

Depois da assim chamada reforma eleitoral e partidária de 2007, dizem muitos que, nas eleições de 2010, a convulsão social foi determinante para a vitória do PIB – Partido Idealista Brasileiro -, formado por vários ex-integrantes tanto do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) como do PT (Partido dos Trabalhadores). Se em 2002 Anthony Garotinho tivesse chegado ao segundo turno contra Lula no lugar de José Serra, era tido como certo que o PSDB apoiaria o PT no segundo turno da eleição presidencial daquele ano; e a passagem do cargo de FHC para Lula, naquele ano, foi tida como pacífica e até mesmo elegante. Portanto, não foi grande surpresa quando a rixa de anos entre os dois partidos terminasse por resultar na formação de um terceiro e sem que os originais que lhe deram origem se extinguissem e mesmo deixassem de apoiar o PIB - como sucedeu. Tampouco foi surpreendente que as acusações de corrupção havidas principalmente no período em que ambos se alternaram nas posições de situação e oposição de parte a parte fossem esquecidas, ainda que lembradas pelos outros partidos, de oposição à coligação PIB-PT-PSDB de 2010 – mesmo porque tinham também contra si outras tantas suspeitas.

Outro fato é que as cassações de alguns mandatos em 2005, ainda que em número inferior ao que gostaria grande parte da população, tiraram de cena alguns dos mais que suspeitos de uso da caixa dois e / ou suborno, muito embora algumas das renúncias tenham trazido de volta ao Parlamento, em 2006, alguns não só dos suspeitos como até dos comprovadamente culpados, tenha sido por desinformação ou por uma espécie de fé inabalável que pareciam merecer dos seus eleitores.

“Contra a convulsão, a união” – esse foi o slogan da chapa vitoriosa em 2010.

O artigo 2° do Capítulo II do estatuto do PSDB (“Dos Objetivos e dos Princípios Programáticos”) definia: “O PSDB tem como base a democracia interna e a disciplina e, como objetivos programáticos, a consolidação dos direitos individuais e coletivos; o exercício democrático participativo e representativo; a soberania nacional; a construção de uma ordem social justa e garantida pela igualdade de oportunidades; o respeito ao pluralismo de idéias, culturas e etnias; e a realização do desenvolvimento de forma harmoniosa, com a prevalência do trabalho sobre o capital, buscando a distribuição equilibrada da riqueza nacional entre todas as regiões e classes sociais.”

Já o do PT, em seu capítulo I (“DA DURAÇÃO, SEDE E FORO), artigo 1°, estabelecia: “O Partido dos Trabalhadores (PT) é uma associação voluntária de cidadãs e cidadãos que se propõem a lutar por democracia, pluralidade, solidariedade, transformações políticas, sociais, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais, destinadas a eliminar a exploração, a dominação, a opressão, a desigualdade, a injustiça e a miséria, com o objetivo de construir o socialismo democrático.”

O programa de governo da coligação liderada pelo PIB, a grande vitoriosa das eleições de 2010, continha propostas diferentes mas absolutamente convergentes, não sendo difícil identificar de que vertentes partiram suas respectivas propostas - desde que se conheça um pouco da história dos mandatos e da prática política, como situação e oposição, dos partidos que deram origem ao PIB e a ele se aliaram em 2010, PSDB e PT, que propriamente seus estatutos. Por exemplo:

“AMPLIAÇÃO DE MERCADOS – favelas e periferias constituem-se excelentes oportunidades de rápida ampliação de mercados de diferentes produtos e serviços, mas muito especialmente para concessionárias de água e esgoto. Sob a liderança do Governo, Estado, empresas privadas e sociedade em geral deverão fomentar a capacitação para o trabalho e o empreendedorismo dos habitantes de favelas e periferias para que estes possam se tornar consumidores, pagando suas contas, eliminando conexões irregulares e ilegais (“gatos”), com ganhos de escala e conseqüentemente diminuição da tarifa, eliminação de perdas, menores gastos públicos com saúde e menores tensões sociais. Para tanto, é preciso vencer o tráfico de drogas, visto ser uma atividade cujas oferta e demanda são contrárias ao interesse da maioria.”

“INCLUSÃO SOCIAL – é preciso desmarginalizar o favelado e o habitante das periferias das grandes cidades. Para isso, é necessário levar as redes de água e esgoto às suas casas, permitindo a eles alcançar o direito constitucional da cidadania e da saúde, o que poderá ser conquistado criando-se para eles oportunidades de justa e lícita auto-geração de renda, através do emprego, da formação de cooperativas e de pequenas empresas, afastando a criança, o adolescente e o adulto da marginalidade, do tráfico e do consumo de drogas.”

Ricardo V percebeu a afinidade daquelas idéias com as suas, contidas em seu best-seller “A Revolução Brasileira de 2017”, publicado um ano antes da vitória da coligação e seu programa de governo. Por isso, filiou-se ao PIB e passou a freqüentar algumas das suas reuniões e convenções, em Brasília, em Goiânia, no Rio e em São Paulo, além das havidas em Minaçu, muito raras e pouco freqüentadas, diga-se de passagem. Ricardo V sofreu forte resistência à sua filiação, além de feroz crítica por parte de escritores, intelectuais de plantão, cientistas políticos e outros setores. Com o sucesso do livro, já alcançara autonomia financeira para não depender da universidade que o mantivera por um bom tempo, à guisa de que desenvolvesse suas teses. Queria conhecer a política profissional para melhor chegar ao seu oposto: a sua sonhada política amadora.

10.31.2005

O HOMEM, A MULHER E SEUS SUBS

Mulher é o engenheiro do homem.

Homem gosta da mulher.
Mulher gosta do projeto.
Ao ver um homem do seu agrado
A mulher dirá

ESSE TEM CHANCE
PODE FICAR DO JEITINHO QUE EU GOSTO.

O homem
Percebendo o interesse da fêmea
Sendo humano - isso é: tolo -
Encherá o peito e pensará

ESSA TÁ NO PAPO.

Namoro iniciado e
Principalmente
Continuado

Desde seus sapatos
Á barriga
Passando pela quantidade do que bebe e come
Chegando ao caráter
À vontade de vencer
Que antes nem era tanta
Ao penteado e à pasta de dentes

Tudo será modificado.

Ao perceber o interesse da mulher
O homem não deverá jamais se achar o tal.
Melhor fará se pendurar uma placa no próprio peito
Onde esteja escrito

EM OBRAS.

Assim e só assim
- Inacabado -
O homem será desejado pela mulher.

Ou será mero interesse
Da sub-mulher
Pelo sub-homem.

10.29.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO TRINTA E DOIS –

Naqueles dias de 2005, de crise política e referendo à proibição das armas – amplamente recusado -, as sensações variavam do espanto à revolta, passando pela indiferença pela repetição das reportagens e cenas de acareações e interrogatórios conduzidos pela comissão parlamentar mista de inquérito então constituída. Quanto ao referendo, houve quem dissesse que o “não”, que venceu ao “sim”, não fosse restrito à proibição da venda de armas, mas significando também repulsa à “caixa dois” - a própria caixa de Pandora, que foi a primeira mulher feita por Zeus e entregue a Epimeteu, que possuía a misteriosa caixa, que Pandora abriu, sem saber que assim deixaria escapar da caixa a inveja, a vingança e o reumatismo, deixando lá dentro somente a esperança - a mesma da população brasileira de quinze anos antes desse relato, de que a política se transformasse, ainda que ruidosa, tediosa e dolorosamente. Sabe-se agora que a conhecida e por vezes desprezada esperança brasileira – não tão diferente da de outros povos, como os gregos - não foi em vão: hoje, em 2020, a política, a partir e por conta da revolução pacífica de 2017, mantém-se elevada.

Dez anos antes da revolução, Giulio Vincenzo, o falso Vincenzo Scarpini, assumira estratégia semelhante ao daquele “our man in Havana”, de Graham Greene – com muito menos imaginação. Como não encontrava mais o que dizer sobre seu vigiado, passou a enviar aos seus chefes nos Estados Unidos relatórios inventados; como este, por exemplo (já com a ortografia e a gramática corrigidas):

“R V continua dizendo à polícia que está escrevendo sobre turismo no cerrado. Tive acesso aos seus escritos em arriscada operação. Está marcando regiões em mapas de Goiás e Tocantins, que, na verdade, comunidades americanas vão ocupar, criando novas fronteiras dentro do Brasil. Abadiânia e Cavalcante são as mais riscadas a caneta hidrográfica, em vermelho e amarelo, mas também em azul.”

Ricardo V depois contaria à mulher e ao filho que simulara telefonemas em código de seu celular a supostos cúmplices enquanto dava suas caminhadas, notoriamente seguido por Giulio Vincenzo, sempre na garupa de uma moto-taxi. Dizia, por exemplo, assim:

“Para os mórmons, há boas terras no trajeto de Cavalcante a Minaçu. Já para a Third Millennium Civilization, que acredita que o calor dos trópicos seja a única força capaz de arrancar o demônio dos corpos, já adquiri duas em Palmeirópolis. Há projetos de hidrelétricas em andamento por lá, o que encareceu os preços, mas essas propriedades ficam distantes delas, em locais praticamente inabitados, perfeitos para nossos propósitos.”

Numa dessas simulações, Ricardo V foi ouvido por Pedrosa, agente do Tenente, o que lhe levou a dar explicações, inclusive para a Polícia Federal. Ricardo V foi visitado em Minaçu por um investigador daquela instituição, sob suspeita de traição da pátria. O detetive, depois de passar alguns dias vigiando e inquirindo Ricardo V, prendeu Giulio Vincenzo. Ao perceber o quão despreparado era seu prisioneiro por suspeita de espionagem internacional; depois de ouvir súplicas de Marita, a prostituta dona de um trailer de cerveja e churrasquinho, que lhe garantira na cama do motel que ficava na estrada para Goiânia que o italiano era um homem bom; ainda que obviamente o tal Vincenzo fosse grosseiro impostor, que de cientista não tinha nem sombra, o investigador foi embora. A partir daí, Giulio passou a inventar uma história sem qualquer nexo para a universidade que o contratara, baseada nos riscos que Ricardo V continuava a fazer em mapas que jogava nas lixeiras públicas da cidade, só para manter o estranho ocupado. Os agentes do Tenente, Figueiredo e Pedrosa, foram transferidos para Porangatu. Ricardo V pode enfim trabalhar e caminhar e freqüentar cidade e região em paz - coisa que nenhum habitante de Minaçu tinha em época de eleições, como a que se deu no segundo semestre de 2006, para deputados, senadores, governadores e Presidente; mas só até 2017, pois, em 2018, o sistema eleitoral seria radicalmente modificado, como se sabe.

Já em 1945, a humanidade comemorava o fim da Segunda Grande Guerra enquanto sofria suas dores. Maria Cristina chorava a morte do marido Ricardo II e, para completar o drama, o fato de estar com quarenta anos e quatro filhos para criar sozinha: Ricardo III, com treze; Ricardo Maria, com nove; Ricardina Cristina com sete; e Olga Cristina com cinco, que se tornaria poetisa concretista e que viria a morrer em 1972, aos trinta e dois anos. O que a viúva não sabia era que o mais velho, Ricardo III, viria a se tornar o salvador da família, com seus dotes musicais herdados do avô e muito cedo revelados, logo se tornando famoso, ainda adolescente, apresentando suas canções na Rádio Nacional com sua voz macia e em baixo volume (quase que um prenúncio de João Gilberto). Emilinha Borba gravou dois de seus sambas, mas cortou relações com ele publicamente quando soube que ele dera para Marlene gravar a marchinha “Minhas moléculas estão no teu sangue para sempre”. A versão em Inglês dessa marchinha – “My cheek is your cheek”, ou “Minha bochecha é sua bochecha” -, foi grande sucesso de Carmen Miranda.

10.25.2005

POESIA, COISA DESVAIRADA, DE POETA E DE QUEM DELA SE APOSSA E GOSTA

Nesses tempos de frangos gripados e vacas febris
O que devemos fazer? Tomar Vitamina C?
De bucha e de bruxa,
Vendavais tão covardemente viris
O que fazer?
Nos esconder? Inverter? Reverter?
Em que ética e pragmatismo
Engalfinham se socam sem luvas em
Pusilânime pugilismo
O que fazer?
Desencavar um ismo?
(Catolicismo? Espiritismo? Capitalismo? Comunismo?)

E se a gente conversasse e se mudasse a gente
E se amasse urgente e de repente?

10.22.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005


- CAPÍTULO TRINTA E UM –

Da porta aberta da casa putridamente decadente, via-se o Ogro somente de short, sem sapatos e sem camisa. Sua cabeça branca de cabelos rentes e seu sorriso lhe davam um ar simpático, e despertaram no visitante em trajes civis, que batera à porta, um forte sentimento de pena. O Ogro, ainda demonstrando surpresa com a inesperada e desconhecida visita, empurrando com os pés uma cadela vira-latas muito suja, convidou-o a entrar e sentar-se. Ricardo Coração dos Outros II apresentou-se, esclarecendo que era um correspondente de guerra brasileiro, em razoável italiano. Ainda de pé, examinou mais detidamente o Ogro: uma enorme e despencada barriga, lanhada de feridas vermelhas; o tórax, muito suado, como o gordo pescoço; a canela da perna direita com uma ferida exposta, sem curativo e aspecto nojento; o olho esquerdo sem cor nem expressão; o direito, azul e arregalado, ainda perfeitamente capaz de expressar os sentimentos do Ogro, além de uma aterrorizante vivacidade, quem sabe, própria do olho e não dele, Ogro.

Ele ofereceu um cigarro que Ricardo II aceitou. Insuportável: cada tragada era um soco dentro de cada um dos pulmões. O Ogro disse assim:

- Vejo você como se estivéssemos dentro d’água. Não vejo seus olhos, apenas seu vulto. Não se impressione com meu olho, tive um derrame de manhã dentro dele, o que não causou nenhuma diferença: já via todo mundo como se todos estivéssemos dentro d’água o tempo todo, nada mudou, tudo continuou igual como estava antes.

(Não para ele, Ricardo II, como confessaria mais tarde ao seu amigo, trisavô de Danilo S., um dos mais conhecidos PCR da atualidade. Ricardo II, ainda que houvesse presenciado a algumas das barbáries da guerra, homens cujas pernas tinham sido arrancadas, outros, os braços ou a cabeça, não conseguia encarar o Ogro e seu olho derramado. Nem fumar seu terrível cigarro.)

O Ogro deu uma profunda tragada, coçou e arranhou um pouco mais o ventre e perguntou a Ricardo II:

- O que você quer comigo?

- Entrevistá-lo.

- Por quê?

- O Senhor desde o começo dessa guerra disse que Mussolini era nada mais que um fantoche de Hitler.

O Ogro suspirou profundamente e balançou a cabeça. Explicou que não usava mais os cinzeiros da casa porque não conseguia enxergá-los, e deixou Ricardo II à vontade para se desfazer das cinzas no chão. Ricardo, discretamente, largou e pisoteou no chão o cigarro que lhe dera o Ogro e acendeu um dos seus, que trouxera no bolso da camisa.

- Você é quem? O que é que você veio fazer aqui? – quis saber o Ogro.

- Sou um correspondente de guerra brasileiro - repetiu. Admiro seu idealismo, sua repugna ao fascismo e ao nazismo. Deu um largo sorriso e completou: - Admiro sua esperteza em manter-se escondido aqui mesmo, na Itália, nas barbas de Mussolini e de Hitler, depois de ter feito ataques tão contundentes e brilhantes contra o fascismo, o eixo e o nazismo. Seus textos, suas falas, seus discursos e conferências, logo no começo... Quanta coragem e precisão!

O Ogro levantou-se, “Você me dá licença um instante?”, ao que Ricardo respondeu, “Claro, claro que sim”.

O Ogro não demorou muito; voltou com uma Lugger, pistola alemã, e, diante do olhar atônito do correspondente de guerra brasileiro, disse a ele:

- Detesto idealistas - e meteu uma bala em Coração dos Outros II. Depois, deu um tiro em seu próprio olho, o opaco, atacado por um derrame na manhã daquele dia, caindo fulminado sobre seu corpo obeso e cheio de feridas. Seu olho bom continuou aberto e vivaz, mirando o teto, de dentro d’água.

A caminho de uma enfermaria de guerra da Força Expedicionária, a FEB, Ricardo II morreu - não sem antes dar seu relato ao amigo, trisavô de Danilo S., do que lhe acontecera na tentativa de entrevistar o Ogro, opositor de primeira hora a Mussolini. Fora chamado de Ogro pela imprensa por causa do olho direito, sempre azul e vivaz, e não pelo esquerdo, derrotado por um derrame de manhã e um tiro à tarde. O homem que passara a ver o mundo totalmente fora de foco por conta de um avançado estado de diabetes, que permanecera o tempo todo escondido na própria casa, na sua própria e derrotada Itália. O Ogro. Que se matara, depois de dar início ao fim da vida também de Ricardo Coração dos Outros II, quando este mal completara seus quarenta e cinco anos, pai de quatro filhos. Não fosse Danilo S. e ninguém saberia de nada disso.

10.18.2005

O GLOBO E O DIÁRIO

O GLOBO desse Domingo teve a seguinte manchete:

“REFERENDO CAUSA CORRIDA POR ARMAS E MUNIÇÃO”.

Quem acompanha este Diário de um Mario leu na semana passada o seguinte:

“Quem jamais pensou em comprar uma arma deve agora estar vivendo a aflição dos últimos dias: tem que ser agora, pois, após o dia 23, poderá estar impedido de adquirir uma arma legal (no sentido de dentro da lei – claro). É possível que quem já possui uma arma esteja formando um verdadeiro exército dentro de casa, também possuído pela mesma aflição dos últimos dias. (...) se você é um aflito dos últimos dias, não perca tempo: vá à loja mais próxima e arme-se. Por causa desses aflitos, é de se imaginar que o comércio de armas legais esteja faturando como nunca”.

Melhor não insistir no assunto – mas não deixa de dar um certo gostinho que esse Diário tenha antecipado o óbvio (nada mais que o óbvio) e sua publicação.

Pra comemorar, esse futurismo há de não ser do óbvio – e se arrisca a prever que um dia acontecerá o que previu Chico Buarque, em sua Valsinha:

E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais... Que o mundo compreendeu... E o dia amanheceu... Em paz.

Para que isso aconteça, é preciso antes de tudo lembrar da velha terceira Lei de Newton.

Bush vai se armando e ameaçando e vendo fantasmas no mundo todo e também ao sul do seu país. Seus olhos de ave de rapina miram tanto na tríplice fronteira - que lembra a tríplice aliança de tempos idos e que serviu a re-arrumações na mesma tríplice fronteira de hoje, então a serviço de outros da mesma origem de Bush, anglo-saxônica - como na Amazônia, principalmente na Venezuela – onde a referida lei newtoniana é apimentada por uma apaixonada formação militar e propalada como ideológica, de Hugo Chaves, que vai se armando e ameaçando e vendo fantasmas no mundo todo e também ao norte do seu país, em processo assustadoramente re-alimentador daquela lei – que foi ninada no mesmo berço dos primeiros anglo-saxões.

Nos tempos de Dom Pedro I e Simon Bolívar, nosso então imperador, sábia, política e diplomaticamente soube deixar de meter nossos antepassados em intermináveis turras na região que Bolívar chamava de Grã-Colômbia (que ia até a Venezuela). Talvez esse, quem sabe, tenha sido ensinamento mais profundo que possa ser profundo qualquer debate sobre (des-)armamento.

E é só. Melhor: lembrar também de Vinicius de Moraes com Tom Jobim:

Vai e canta a última esperança, esperança divina, de amar em paz...

10.15.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005


- CAPÍTULO TRINTA –

O movimento orbital de um corpo celeste é uma revolução, como o de uma coisa qualquer em torno de um eixo. Por que será que meu pai imaginou uma revolução para o ano que vem? Em torno de que eixo? Que órbita será iniciada por esse movimento que ele imagina que será pacífico? E que tem que ser insurgente, pois, senão, não será uma revolução?

Contra o quê é fácil de se perceber.

Houve progressos consideráveis desde a última década do século passado. Toda e qualquer farsa, tenha vindo de que força que tenha sido - comunicações, poder público, tráfico, toda e qualquer farsa -, se assim não se revelou de imediato, assim foi logo desvendada, farsa como farsa que era e sempre foi desde a origem; fosse por outra das forças ou pela simples percepção que se consolidou do que seja e do que deixe de ser farsa.

Sublevação, rebelião, subversão, revolta, insurreição – nada disso é parecido com paz, movimento pacífico, sequer orbital. Engano meu: orbital, sim, pode ser – e deve, deve ser esta a fixação de meu pai. Orbital em torno de uma idéia. Meu pai jamais foi marxista, aliás, nunca consegui saber quem influencia meu pai, ou com quem ele se identifica. Tantos meu pai leu! Deve ser ele um misturador de idéias e ideais. Da minha parte, sempre me deu mais prazer escrever e escrever e escrever, pelo simples especular. Perguntar. Observar. Orbitar! Mas sem saber em torno de que eixo...

Minhas tias gêmeas e meu avô lá fora se perguntam, mas afinal, o que ele escreve, um diário? Mais curioso ainda: ainda não perceberam que encontrei escritos e discursos e pautas musicais da terceira geração dos Dos Outros, que nasceu de Maria Cristina e Ricardo II, morto na guerra de Hitler e Mussolini.

Mais interessante ainda – e espero que meu pai não perceba – é que, momentaneamente, enquanto passo esse tempo aqui no Rio, roubei dele curiosas anotações. Procurei por elas em seu livro famoso e não as encontrei – quando muito, alguma coisa parecida, alguma idéia que ele desenvolveu desses rascunhos. Mas não deixa de ser interessante que possam se tornar realidade. A revolução pacífica, que transforme o Brasil não em um país igualitário e totalitário, mas inclusivo, do socialismo surgido do próprio capitalismo. Ou vice-versa? Posso muito bem usufruir do início da minha adolescência. Posso, aliás, inventar palavras, como adulescência, a essência da adulação adolescente. Regina Célia é puxa-saco – puxa, que decepção! Adulando o professor Henrique, de Português – e pelo telefone! Pan-babaca!

Meu pai, Ricardo V, escreveu assim, já faz bastante tempo:

Muito me admira a capacidade de alguns desses agricultores dessa terra seca e poeirenta a maior parte do tempo e encharcada durante o resto não só de arrancar o que seja do chão, seja milho ou pasto ou vegetação a lhes curar a dor de barriga, mas de conseguir vender e escoar a produção deles nessa cultura secularmente isolacionista, individualista, que usa tapa-olhos laterais e só enxerga a tela da televisão. Mais vai me admirar – e há de acontecer – quando essa gente arrancar dos olhos desses cavalos de carga humanos seus tapa-olhos. Só que suavemente, muito suavemente.

Escrevo essas notas para jogá-las fora depois, revoltado de perceber que me falta a competência de difundir o óbvio: as organizações não-governamentais explodem em resposta à incapacidade das governamentais e no entanto com os mesmos vícios de origem, de origem, de origem.

Muito me admira essa gente que arranca planta e pasto e comida da própria merda da terra. Não tenho a menor dúvida de que será essa gente a fazer a Revolução, que será pacífica, pois camponês de verdade jamais quis saber de arma alguma, a não ser a de fazer comer, e quando percebem o gosto de fazer os outros comerem, vendendo o que produzem, ora, da única arma que querem é a que fizer que vendam mais para trabalhar mais e vender mais.

Investimento no social: eis uma expressão idiota. Idiota porque está sempre na boca de idiotas. No dia em que for percebido e desejado que o investimento no desenvolvimento social seja igual a qualquer investimento, isto é, dinheiro para se ganhar mais dinheiro, aí sim. A inclusão social trará consumidores, produtores, mão de obra, criadores, artistas; mas não é a política profissional que a fará, como não serão ONGs, nem ideologias. Será a mentalidade de quem empreende, principalmente dos sem dentes na boca. Vai lhes cair a ficha!

Eu preciso me cuidar para não enlouquecer, como aconteceu com Maria Otávia. Amanhã, acordarei e escreverei tudo isso de novo de novo de novo, mas com outras palavras. No computador.

10.11.2005

O SIM E O NÃO

Cronistas gostam dessas polêmicas: o assunto vem até eles espontaneamente, sem que seja necessário procurar por um dentre vários ou inventar um.

Curiosa discussão. Quem jamais pensou em comprar uma arma deve agora estar vivendo a aflição dos últimos dias: tem que ser agora, pois, após o dia 23, poderá estar impedido de adquirir uma arma legal (no sentido de dentro da lei – claro). É possível que quem já possui uma arma esteja formando um verdadeiro exército dentro de casa, também possuído pela mesma aflição dos últimos dias. É muito pouco provável que ações judiciais não sejam capazes de jogar por terra possível obrigação legal de se devolverem as armas que se tiver em casa depois da proibição do seu comércio; portanto, se você é um aflito dos últimos dias, não perca tempo: vá à loja mais próxima e arme-se. Por causa desses aflitos, é de se imaginar que o comércio de armas legais esteja faturando como nunca; mas pode ser que nunca mais possa faturar tanto, pois, após o dia 23, quem sabe seja obrigado a restringir suas vendas às forças armadas e outras atividades que permitem a posse e até o porte de armas.

Desarmar o cidadão não é a solução – diz a campanha do não. Claro que não. Entretanto, armar o cidadão – é a solução?

Há quem diga que proibir o comércio seja dar ao bandido a certeza de que você não tem arma em casa. Falso: a menos que ele faça rigorosa investigação prévia, não terá como saber se você comprou uma ou muitas antes do dia 23 ou se você não é da polícia ou do exército ou da marinha ou da aeronáutica ou fiscal da receita – e tanto pode ter como portar armas legais; ou do tráfico – caso em que comprar as ilegais é nada vexatório. A incerteza permanecerá, apenas e talvez, menor – o que poderá, inclusive, diminuir o apetite do bandido – o qual, segundo a campanha do sim, muitas vezes tem como alvo do seu furto exatamente armas.

Apregoam outros defensores do não que quem mora em lugar ermo tem que ter uma arma, para espantar ou mesmo matar um invasor indesejado. Mas, como saber se o invasor é de fato indesejado? E se você for um atlético e solitário valentão e o invasor da sua erma propriedade for uma invasora – Luma de Oliveira, com súbita e irresistível vontade de fazer xixi, com medo de abelhas e cansada de tocar a campainha da porteira do seu sítio, que você não ouviu, tão preocupado que está em ouvir invasores indesejados?

Outro argumento a favor do não: o rico pode contratar segurança armada, o pobre, não. Ora, mas se o pobre é pobre, quem vai querer assaltá-lo? E que dinheiro o pobre terá para comprar uma arma?

A grande covardia, como bem observou o irmão deste cronista internético, foi por no nosso colo a decisão. O Estado, além de incapaz de nos defender, deu uma de Pilatos: se vocês disserem sim, problema de vocês; se disserem não, também.

Não senhor. Dizendo sim, a população estará devolvendo ao Estado a responsabilidade que lhe cabe e é exclusiva – a de defendê-la. Definitivamente.O

10.09.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005

- CAPÍTULO VINTE E NOVE –

Era 2005. Hugo Chaves, presidente da Venezuela, com exemplar capacidade de comunicação e persuasão, defendia seu governo como democrático; salientava ter desenvolvido programa de medicina comunitária com auxílio de Cuba, e afirmava que cada favela venezuelana passara a contar com um médico residente; propunha uma aliança latino-americana muito mais ampla que o combalido Mercosul, com troca de investimentos entre os países; dizia-se um soldado, para sempre soldado, que vivia para a família, sem grandes ambições, até que um dia despertou para a pobreza da sua gente. Um político-pastor americano propôs publicamente seu assassinato pelo governo dos Estados Unidos, alegando ser Hugo Chaves um agente do terrorismo internacional. Hugo Chaves dizia com todas as letras que estava armando a população para defender o país de um provável ataque americano – pois, ao invés de rechaçar a proposta de assassinato daquele chefe de estado, Bush, presidente dos Estados Unidos, prestigiara o pastor-político, encarregando-o como um dos responsáveis pelo projeto de reconstrução de Nova Orleans.

No Brasil, poucos anos antes, no governo de Fernando Henrique Cardoso, em dado momento, todos comentavam que o homem com mais poder de Estado não era ele, mas sim um senador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães. Um publicamente desafeto de Antônio Carlos, senador pelo Pará, Jader Barbalho, passou a denunciar atos que tinha como pouco elegantes do seu colega baiano. E vice-versa. Fernando Henrique governou até o final do seu segundo mandato, final este já sem a presença dos dois senadores desafetos, que renunciaram, cada um por seus motivos, tidos por muitos como não muito elegantes.

Antes ainda, na primeira eleição direta para a presidência após a ditadura militar e o mandato civil de José Sarney, Fernando Collor tinha um homem forte em seu governo, chamado PC Farias. Uma desavença entre Fernando e seu irmão, Pedro Collor, que se disse prejudicado em negócios familiares de comunicações e iniciou uma série de denúncias de extorsões e corrupção, redundou por fazer cair o governante, por impeachment. Já no governo Lula, o homem forte foi, por bom tempo, José Dirceu. Ao chegarem ao noticiário denúncias de corrupção e extorsão comandadas dos escritórios do Correio Nacional, que envolviam diretamente um político com exemplar capacidade de comunicação e persuasão, chamado Roberto Jéferson, este não teve dúvidas: denunciou o “mensalão”, pago a vários deputados de diferentes partidos como condição para que votassem a favor dos projetos governistas. José Dirceu perdeu seu cargo no governo e Roberto Jéferson, seu mandato.

Ricardo Coração dos Outros IV, enquanto lia os primeiros rascunhos do que viria a ser o grande best-seller do seu filho, “A Revolução Brasileira de 2017”, publicado em 2009, revolução que, segundo o autor, aconteceria “pela influência da simbiose da fidalguia européia, da nobreza africana e da estirpe ameríndia na gênese da sua plebe e a involuntária conspiração de Newton e Gauss”, relembrava não só daqueles acontecimentos, então muito recentes, mas de outros que a história da humanidade tinha para contar, e comentou com as filhas gêmeas, Ricardina e Olga – esta, na companhia da pessoa com quem se casou, e Ricardina com o sobrinho Ricardo VI dormindo no seu colo, então com 3 anos:

- A descoberta mais importante do irmão de vocês não foi dele, mas de Newton: a sua Terceira Lei, ação e reação. A humanidade é isto: nada mais que isso.

As filhas e a pessoa com quem Olga se casou o olharam como quem nem concordava nem discordava; ainda não haviam lido os rascunhos do irmão e geralmente não prestavam atenção quando ele comentava qualquer coisa, quando vinha ao Rio. Ricardo IV concluiu, ao levantar-se com os papéis nas mãos e dirigir-se ao banheiro:

- A curva de Gauss vá lá, se aplica; mas faltou uma quarta dimensão: a arrogância. Que é gêmea da ignorância. Todo arrogante se defende da ignorância que lhe é própria. E os arrogantes caem por terra – assim disse o pai de Ricardo V e saiu e trancou-se no banheiro. Diria depois ter-se angustiado com as seguintes perguntas que se fez: “Chaves e Bush eram arrogantes? Ignorantes? Cairiam um dia derrotados por isso? E Lula – era arrogante? Teria sido arrogante quando discursou em Davos, na Suíça, para artistas como a Sharon Stone (atriz de cinema que ficara muito famosa por uma cruzada de pernas), falando em ‘um mundo mais justo, mais equânime’? Ou quando discursou na ONU, sobre a fome? Ou quando sempre e tanto faz da fome seu refrão? Ou quando afirmou que nenhum cidadão é mais ético que ele? Arrogante? Ignorante? Ou sincero?”.

Era Domingo de tarde. Ricardo IV foi ao espelho de cristal da sala envolto em seu roupão, tendo por baixo o pijama que usara na sesta e, perfilado, perguntou-se:

- Ricardo Coração dos Outros IV: sois um arrogante?

E retirou-se.

10.05.2005

CIDADE ADULTA

Há Roma, de Fellini, cidade aberta, de Rosselini, como há Cidade oculta, com Carla Camurati - a São Paulo onde Fernando Pessoa toma ritmo e conteúdo especiais com Arrigo Barnabé: Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada. Haverá também para sempre Olha a pista chegando e vamos nós, com Tom Jobim.

Para quem não sabe, Florianópolis, em boa parte, é uma ilha açoriana cercada de restaurantes italianos por todos os lados.

Da sua porção insular, por trás dos prédios que ficam bisbilhotando o contorno dos morros continentais do lado de lá da baía e ouvindo a zoeira incessante de motos e automóveis ensandecidos na Avenida Beira Mar, há coisa-muito-boa à vista.

Pizza Mia.

Há muitos pingüins no lugar onde eles vivem; um deles será aquele a olhar nos olhos do estranho que vai parar por lá, a dar de cara com muitos pingüins que vivem na terra dos pingüins e percebe o olhar de um só deles, o pingüim afim, com afinidade no olhar com o olhar do estranho que chega por lá.

As pizzas do Pizza Mia são daquelas de massa fininha. A cobertura é sempre delicada, às vezes doce, outras, salgada, mais comumente salgada e doce ao mesmo tempo, e sempre leve, de bom gosto e gosto bom. Os vinhos, competentes, como o são as sobremesas. Quem serve é mais: bem educado; gentil; oportuno.

De uma tela de Modigliani, sai a flutuar no ambiente sua regente - cujo nome só será desvendado quando o artista que a inventou assim o quiser.

Para jamais esquecer que a vida há de ser feita de poesia, os banheiros do Pizza Mia ficam por trás e à esquerda de uma porta com escotilha e se distinguem um do outro por sutis e angelicais carinhas, que ocupam cada qual um dos quadrantes de respectivos quadrinhos com ares infantis. Como se fossem os morros do outro lado da baía entre a ilha e o continente, olhando por trás da escotilha à procura do pingüim afim, lá está um quadro que Modigliani gostaria muito de ter pintado, assinado por Karem, datado de 2005.

Vá lá - e veja e admire duas figuras femininas a deixar pingüins a ver navios; e homens e mulheres a ver o que há de belo e poesia.

Floripa, cidade adulta, teu nome é Pizza Mia.

10.02.2005

EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA

Meu caro Pasquali,Antes de mais nada, fiquei muito honrado com sua visita ao "Diário de um Mario", apelido do blog onde exponho opiniões e fantasias, o mariobenevides.blogspot.com. Propagandas à parte, transcrevo o que o Pasquali me escreveu:
"Mario,Concordemos com a sua posição ou não, é sempre bom discutir. Se esse referendo de nada adiantar para a questão das armas, pelo menos nos restará o exercí­cio da democracia.Um abraço,Pasquali."
Como se vê, o Pasquali foi na mosca. Esse exercício da democracia nos levará a uma das seguintes situações: (a) A maioria se dirá contrária à proibição do comércio legal das armas. Neste caso, estará dizendo claramente que não considera o armamento oficial, o das forças do Estado, suficiente para nos defender; (b) No caso oposto, a maioria estará dizendo que está depositando nas mãos do Estado toda e qualquer perspectiva da defesa da sociedade contra a violência, auferindo ao Estado uma responsabilidade que, via de regra, este não assume.
Qualquer que seja a opção da maioria, o que estará e já está em cheque é a responsabilidade/capacidade do Estado, mantido por nós - o conjunto formado por maioria e minoria de opção - de nos defender. Este, sim, é o maior valor dessa discussão. Pouco importa seu resultado de sim ou não, mas sim a exposição de que não estamos nem um pouco à vontade no que se refere à nossa segurança; caso contrário, não estaríamos discutindo o assunto - discussão que nos há de levar a outras, mais profundas, das causas e como acabar com tanta violência no Brasil. Assim, palmas a quem abriu a discussão - que, salvo engano, foi o movimento chamado "Viva Rio" -; e obrigado ao Pasquali, por me ter dado a oportunidade de voltar ao assunto.
Abraços,
Mario Benevides.

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:

UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU
Romance Inédito de Mario Benevides
Brasil, 2005

- CAPÍTULO VINTE E OITO –

Ricardo II morreu na segunda guerra mundial. Resolveu que seria correspondente de guerra para desespero de Maria Cristina, com quem se casou depois que ela se arrependeu de ceder às pressões familiares para deixar o plebeu Coração dos Outros II e enamorar-se de um rico filho mais moço de um nobre e já ligeiramente velho amigo de Alfredo D\'Escragnolle (Visconde de) Taunay - com o qual o antepassado do ex-quase-noivo de Maria Cristina teria estado na “heróica retirada da Laguna”.

Da mesma forma que pode soar estranho que tenha sido heróica uma retirada, muito estranho era, para muitos, que Ricardo II e Maria Cristina se dessem tão bem, como deixou registrado o amigo dele do qual descende um conhecido Profissional de Comunicações e Reportagens desses nossos dias de 2020. Talvez, aliás, bastasse saber que Ricardo II deixou a viúva com dois filhos, Ricardo III e Ricardo Maria, e duas filhas, Ricardina Cristina e a poetisa, que morreria concretista, Olga Cristina Bastos Coração dos Outros – embora, é claro, filhos, ainda que em número significativo, nem sempre sejam sinal de amor verdadeiro. Mas o deles era.

Convém fazer logo outro registro de interrupção de trajetória visível a olhos meramente humanos: Olga e Ricardo Coração dos Outros, de cuja fuga do Rio de Janeiro dos tempos do Marechal de Ferro nasceria a dinastia da qual aqui livremente se fala e que participou de importantes e nem sempre heróicos episódios da história pátria, especialmente a Revolução de 2017, simplesmente desapareceram, sem deixar nenhum sinal que fosse, em mais um percurso de Cavalcante ao Rio – exatamente quando o objetivo da viagem era conhecer a nora, Maria Cristina. Deixaram em Cavalcante a única irmã de Ricardo II, Ricardina Olga Tavares e Silva, casada com o Coronel Eurípides Ovídio Tavares e Silva, que não foi a nenhuma guerra não por outro motivo que não fosse o de que seu título militar tenha sido obtido pela sua atividade de dono de mina de ouro – alguém que explorava não só minério, mas mão de obra também (tudo indica que com alguma correção pecuniária, mas com certo excesso de autoridade).

A atividade de exploração mineral ainda perduraria por muitos anos na região, para onde o fluxo de nortistas do Pará e nordestinos do Maranhão foi bastante intenso, até ainda depois da fundação de Minaçu, em 1976. Por exemplo, no centro mesmo de Cavalcante, havia uma mina que foi passando de mão em mão a cada vez que dava sinais de exaustão até idos já deste século XXI. O garimpo a base de mercúrio e bateia na beira dos rios e diferentes formas de mineração de algum modo legalmente constituídas conviveram por séculos, gerando um pouco de tudo que há na história humana: povoados, cidades, riqueza, pobreza, miséria, fidalguia, covardia, famílias, desavenças, disputas judiciais, matança de índios, abruptos desemprego e perda irrecuperável de renda, vida nômade, outras matanças, sangue - mais sangue, até, que ouro.

Porém, tal e qual nem toda riqueza vem do ouro – em sentido largo e estrito -, nem sempre foi o ouro que causou sangramento e desgraça na região.

Dentre algumas das anotações do falso antropólogo italiano, a serviço dos empregadores de Ricardo V a seguir e reportar seus passos, porque este desenvolvia na época suas primeiras idéias de uma revolução social pacífica, achou-se a seguinte:
“R V cismou de fazer caminhadas. Debaixo desse sol acachapante, o louco sai andando desde a casa dele, na Vila de Furnas, perto da esquina de Porto Colômbia com a Av Maranhão, até o centro da cidade, percorrendo a mesma Av M de ida e volta, numa distância total superior a 10 kM. Isso às 4 ou 5 da tarde, mama mia!, quando o sol ainda está fervendo e do chão de asfalto sai o bafo do demônio. Ainda bem que está terminando a estação seca, quando só se respira poeira quente e a gente nem precisa de cachaça pra sentir tonteira, porque seguir o camarada debaixo de muita água é desgraça um pouco menor que ficar debaixo desse sol daqui. Hoje dei sorte de pegar o moto-taxi certo, uma mocinha gostosinha de apertar na cintura e que respeita os quebra-mola, não é que nem uns doido que tem por aqui e ultrapassa os cruzamento sem nem olhar. Hoje, como estava chovendo, o maluco resolveu mudar o trajeto e ficar subindo e descendo a Porto Colômbia pra cima e pra baixo e fiquei que nem um idiota atrás dele, na garupa da motoca. Tá na cara que ele já sabe que eu estou na cola dele, mas não tenho o que fazer, os americano querem assim, depois invento umas bobagem e eles fica satisfeito. Vi umas meninada interessante saindo do colégio, valeu a maluquice diária. Os menino de chinelo de dedo, aqui não parece chinelo que a modelo famosa usa, é chinelo de dedo mesmo, nem dá pra chamar de flip-flop que nem os americano. As menina, que graça, fala umas palavra bonita e de repente uns ‘caralho!’, esses brasileiro parece italiano. Mas que pena: Sábado passado, de noite, já era quase Domingo, um meninote que reclamou que um outro tinha roubado o boné dele foi espancado pelos amigo do ladrão do boné na porta do baile onde eu estava, boa parte da cidade estava no baile. O rapazola que levou porrada foi em casa e voltou com uma faca de cozinha e, mama mia, tem um que ficou sem o braço e outro que perdeu os dedo e um terceiro foi a orelha esquerda que deixou ele. Pena que o quarto foi furado no fígado, morreu na hora, uma pena, tudo uns garoto, tudo com cara de anjo. Tem uns dois paisano na minha cola, já saquei, todos os dia.”.

9.27.2005

A PROIBIÇÃO DA VENDA DE ARMAS; UMA DISCUSSÃO EM TEMPO REAL

A discussão tem sua razão. Andam se matando por aí a troco de troco. Depois, ao entrar numa loja e pedir uma Parabelum, ninguém lhe perguntará se é com açúcar ou adoçante.

Você já passou pelo teste e afirmou: armas usadas pelos bandidos não são compradas na loja. Além disso, você já se viu no espelho a dizer que tem todo o direito de se defender e portanto portar uma arma. E mais. Você já repassou aos amigos a mensagem da Internet que alerta: - Atenção, você não terá arma em casa e seu vizinho também não e o bandido terá certeza disso e você estará indefeso e não poderá pedir socorro a ninguém, somente à polícia, que está mal armada e impotente. (Ou mal amada e impotente.)

Você não se conhece o suficiente e não comprará uma arma porque tem medo de ficar triste e resolver acabar com a tristeza com um tiro na própria testa ou na de quem você mais ama. Teme também que limpar a arma lhe dê uma mortal dor de cabeça. Você também conhece seu filho e sua filha e sabe muito bem que eles poderão brincar de bang-bang ou traficante-mirim e bang-bang, pronto, um dos dois foi ao chão com uma bala no coração ou na mão que chateação ter que ir ao hospital na hora do Fantástico.

Mas a proibição leva à contravenção - basta lembrar da Lei Seca, nos Estados Unidos de Al Capone; por outro lado, deixar como está poderá manter tudo como está ou incentivar a quem jamais pensou em comprar uma arma, a adquirir uma ou duas.

A quem interessar possa, vou continuar não tendo nem comprando armas e votarei pela proibição da sua venda, porque: (i) acho perigoso demais ter-se dentro de casa o risco da facilidade mortífera que uma arma de fogo proporciona; (ii) trancá-la a sete chaves é o mesmo que não possuí-la; (iii) o bandido sempre terá mais motivos e destreza que a vítima em usá-la, especialmente quando se sentir por ela ameaçado; (iv) gritar “socorro” aos vizinhos quando se está ameaçado por alguém armado, nos dias e no Brasil de hoje, me parece mais provável como auto-sentença de morte que real perspectiva de socorro; (v) sou otimista: caso vença a proibição, os fabricantes de armas as continuarão fabricando – só que exclusivamente para as forças armadas, e estas serão mais cobradas por uma sociedade desarmada; (vi) o argumento de que o referendo à proibição do comércio seja manobra para um golpe de estado, primeiramente desarmando a população e depois via associação com o tráfico, é esquecer que a história mostra que nenhum golpe de estado surgiu e prevaleceu sem amparo de significativa parcela da população, no mínimo em poder relativo na sociedade – e, por pior que esteja o crédito dos políticos, há claras demonstrações de que o que a maioria quer é aperfeiçoar a democracia e não jogá-la fora, além de não haver nenhum real poder ameaçado a ponto de se arriscar em aventura desse tipo. E, otimista que sou, ainda que o tráfico possa ter representantes dis-farc-çados no Congresso, não consigo imaginar nem esquerda nem direita brasileira, com efetiva representatividade, sócia do tráfico para alçar o poder à força.

Assim, com todo respeito a quem pensar diferente e sem nenhuma pretensão idiota de defender uma bandeira, se me perguntassem Vai um diet Colt aí?, minha resposta seria Não, obrigado.

9.24.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS:


UM BRASILQUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADVINHOU
ROMANCE INÉDITO DE MARIO BENEVIDES
BRASIL, 2005
- CAPÍTULO VINTE E SETE –

Mamãe, mamãe! Papai, papai! A Coluna passou por aqui! A Coluna Prestes passou em Cavalcante!

Ricardo VI estava com dez anos (era 2013). Cavalcante, àquela altura, já contava com boa parte da sua população formada por europeus e americanos, que para lá haviam se mudado para abrir pousadas e outras formas de comércio de turismo ecológico. A terra mais valiosa era, agora, a NÃO agricultável - que não tivesse sido preparada para pastagem ou cultivo e que guardasse o que não existia mais em outros lugares: pedra e mata virgem. Ainda assim, era grande ainda a distorção social no município.

No começo do século XXI, quando Ricardo V estava iniciando seus escritos que terminaram por prever a Revolução de Mentalidade de 2017, Cavalcante detinha o segundo índice de desenvolvimento humano do Estado de Goiás – isto é: o segundo pior. Não era muito diferente em 2013. Município de área muito grande, com a maior comunidade quilombola do Brasil – os Kalungas -, e dez mil habitantes, Cavalcante possuía, em 2005, o privilégio de uma proporção de habitantes por quilômetro quadrado muito mais favorável que São Paulo e outras capitais; também por isso, já naquele tempo, começou um fluxo migratório interessante de grandes cidades brasileiras e estrangeiras, aumentando o contraste de traços de cultura, origem e condições sócio-econômicas.

Freudianamente, é comum homens se envolverem com mulheres que, de algum modo, se parecem com suas mães. Maria Otávia, ex-namorada de Ricardo V, cujo apelido era Opinião Pública, morta prematuramente, obcecava-se por uma determinada idéia e a repetia e repetia e repetia. Em 2005, Ricardo V, já casado com a americana Rita e morando na cidade vizinha a Cavalcante, Minaçu, Sérgia estava obcecada em demonstrar que as diferenças sociais do Brasil independiam da situação econômica ou política. Fosse em palestras, chás beneficentes ou almoços, Sérgia insistia:

- De JK a Lula, passando pelos militares, Collor e FHC, com ou sem inflação, com ditadura ou democracia, crescimento ou recessão, estatização ou privatização, de cada cem moedas produzidas no Brasil, dez porcento da população ficam com quarenta das cem moedas. O resto – os outros noventa porcento – ficam com o resto: sessenta moedas são repartidas por noventa, enquanto quarenta, pelos dez mais ricos.

O panorama, como se sabe, só mudaria há três anos, em 2017.

Em 2013, a obsessão do filho de Ricardo V e Rita era a Coluna Prestes – isso porque seu pai dissera a ele que o trisavô de Ricardo VI, Ricardo Coração dos Outros II, participara da longa e emblemática caminhada liderada pelo Cavaleiro da Esperança – como ficaria para sempre conhecido Luís Carlos Prestes.

Pois em 2005, a obsessão de Ricardo V era Cavalcante, para desvendar o passado dos trisavós dele, Ricardo V, que haviam iniciado aquela plebéia dinastia: Olga e Ricardo Coração dos Outros – no que era muito incentivado por Rita, entusiasmada com o clima mais ameno que Minaçu e especialmente pela paisagem. A Chapada dos Veadeiros é das mais deslumbrantes paisagens que podem existir – Rita afirma até hoje, e tenta explicar porque:

- As montanhas de pedra cercam as cidades, as trilhas, os povoados pobres que moram em casas de adobe e sapê, os bichos que correm na frente do carro quando a gente está vindo pra cá, veados, onças, cobras, siriemas...

Quando, no começo deste Século XXI, Rita ainda trazia Ricardo VI no ventre e voltavam pela primeira vez de uma viagem a Cavalcante, a camionete derrapando e pulando na estrada de terra, Rita teve um pequeno sangramento e temeu perder o filho em formação na sua barriga; Rita, que apesar de descendente de espanhóis e franceses, não era católica, nem tinha qualquer outra religião, ali, naquele momento, mirando a chapada, desandou a rezar "Holy Mary" e "Our Father" sem parar.

Era disso que Rita se lembrava quando, em 2013, Ricardo VI, com dez anos, chegou correndo à mesa onde estavam com um casal seu conterrâneo, dono de uma pousada, dizendo Mamãe, mamãe, papai, papai, a Coluna passou por aqui, a Coluna Prestes passou em Cavalcante. Depois, foram até uma das muitas cachoeiras, a pé, molhar os corpos e sacudir os cabelos.

9.19.2005

DA ATLÂNTIDA E DE TAPETES

Estive em Nova Orleans em 1987, no Mardi Gras – a terça-feira gorda, o carnaval em ritmo de jazz. Mais que do jazz carnavalesco, me ficou na lembrança uma orquestra de músicos velhinhos, bacaninhas, de gravatas borboleta, tocando o Dixieland Jazz. A alegre sucessão de bares e mais bares sempre com músicos tocando maravilhosamente; a Bourbon Street, de tantas canções, como a do Sting, que lembra uma outra, Falling Leaves, gravada imortalmente por Net King Cole; a comida criolla, o French Quarter, o rio Mississipi, as casas sem muro na frente – tudo isso trago para sempre guardado no porta-retrato da minha memória mais afetiva. Turista deslumbrado com aquela musicalidade, com a mistura de cores, raças e culturas, a história sofrida dos escravos das plantações de algodão me era passado; não conheci o lado pobre da cidade – que apareceu agora, paradoxalmente, com o seu desaparecimento, tão triste, como se já não fosse tristeza bastante a pobreza em si.

Naquele carnaval, um americano, ex-mariner, quando soube que éramos brasileiros (eu e meu irmão), fez questão de nos dizer: “Já estive em Trinidad Tobago”. O mapa dele deve ser o mesmo do atual presidente americano e daquele outro, que confundiu o Brasil com a Bolívia. Não deixa de ser preocupante perceber que esse sistema de coordenadas deles poderá, em dado instante, nos transformar em imensa Venezuela de seu desafeto Hugo Chaves - principalmente se este tornar assíduo de jantares com nosso principal executivo.

A boa notícia é que a Coréia desistiu do seu programa nuclear. A má notícia é que a mudança de postura foi decorrente de uma negociação com o governo Bush. A notícia oficial é que ela se deu porque a Coréia está precisando de ajuda do Ocidente. Bem que a tática pode valer de sugestão para a Venezuela – perdão - para o Brasil: nossos governantes deveriam iniciar um projeto de bomba nuclear e continuá-lo até que incomodasse nosso Grande Irmão nortista; quando isso acontecesse, o Haiti – perdão – o Brasil estaria em condições de barganhar alguma coisa, como o tal assento no Conselho de Segurança da ONU – desde que, é claro, Severino nele se sentasse, já que tudo indica que ele ficará sem emprego, e nosso executivo-mor não admitirá que um brasileiro fique sem emprego – já que presidentes só admitem que muitos brasileiros fiquem sem emprego, porque aí vira mera questão estatística.

Voltando à Atlântida de nossos dias, há que se torcer para que os arquitetos da sua reconstrução fiquem longe de Bush e Dick Cheney. Essa gente não foi capaz de prestar socorro, como não será capaz de reconstruir uma cidade tão delicada, habitada por negros e brancos de todas as idades tocando todos os sopros e cordas, ainda que escondesse debaixo do tapete a pobreza e a exploração de outras formas de pobreza. Bush e companhia vão faturar a reconstrução de Nova Orleans, como pretendem fazer com Bagdá e seus tapetes um dia voadores – é o inevitável. Mas que seu imenso mau gosto não se manifeste.

Quanto a nós, do país de Severino, personificação do ticket-refeição, é claro que não esquecemos seu nome: aqui é o mesmo Brasil de sempre, onde se tocam também tantos sopros e tantas cordas, mas com uma fundamental diferença: o tapete é curto.

Cada vez mais curto.

9.16.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO VINTE E SEIS -

Contou-nos um PCR que um trisavô seu, jornalista (como se chamou a profissão de Profissional de Comunicação e Reportagens durante muitos anos), passou de geração a geração um desabafo que ouviu de Ricardo Coração dos Outros II na Bolívia, onde a Coluna Prestes, à qual se engajara, encerrara sua invicta (ainda que não propriamente vitoriosa) caminhada de 25 mil quilômetros:

- Fui idiota de largar a roça, onde o aperto de mão tem na pureza e na sinceridade o mesmo peso e a mesma pega da rugosidade dos calos feitos na lida permanente com a terra sedenta ou encharcada, para me enfeitiçar pela capital, onde o aperto de mão tem a leveza da imunda falsidade e da débil futilidade; mas recuperei-me e vinguei meu pai: se ele entrou na guerra do lado dos opressores, tive a honra de seguir o Cavaleiro da Esperança e o general Miguel Costa contra Artur Bernardes e sua Lei Infame e a opressão da roça e da cidade. Mas fui mais idiota ainda e mais enfeitiçado ainda pela futilidade personificada chamada Maria Cristina. E ainda sou. Sim senhor, aquela senhorinha de nariz que não pode tomar chuva sob o risco de matá-la afogada em sua própria imbecilmente suposta superioridade sobre todas as coisas e os mortais, principalmente os plebeus e mestiços, como eu, me enfeitiçou, e parece que para sempre. Que idiota eu sou!

E se, muitos anos depois, Ricardo V se sentia um idiota por se perceber seguido por quatro idiotas, dois mandados dos Estados Unidos e dois pelo Tenente, anos depois ainda Ricardo IV, seu pai, diria de si a mesma coisa ao neto, Ricardo VI:

- Sou um idiota a misturar idealismo com negócios, coisas que não se misturam, e desandei a misturar uisque com hepta-endorfina, para ver se era possível o impossível, misturar o que não se mistura, como água e óleo, como costumava dizer meu avô. Às favas com os negócios ou com o idealismo, porra! Desculpe, meu neto, desculpe.

O mesmo Ricardo VI, ainda menino, uma noite, ouviu a avó, Sérgia, medindo-se com a mãe dele, Rita, no mesmo quesito, na sala de visitas da avó, no Rio de Janeiro, já havia muito não mais capital federal como no tempo de seu trisavô, Ricardo II:

- Idiota sou eu. Ora, você deixou seu país movida por um ideal, uma pesquisa científica.

- Que não deu em nada.

- Não por culpa sua.

- Sim, por culpa meu, culpa minha, porque fiquei comovida com a história dos avá-canoeiros sem possibilidade de cruzamento, quer dizer, casamento, procriamento, quer dizer, procriaçau, e pesquisadora não pode ficar comovida, tem que pesquisar e estudar e entender e escrever, e eu não escrevi, não escrevi nada.

- Mas seu marido escreve e você o ajuda, não é?

- Mas me anulei, sou mãe e pronto. Rita ficou em silêncio, refletindo um pouco, e disse, depois:

- Mas eu gosto de ser mãe e mulher, mulher de seu filho. Me faz bem.

- Mesmo morando numa cidade como Minaçu, sem recursos, provinciana?

- Cidades americanas são quase sempre provincianas, não faz mal. A não ser as grandes, que eu não gosto. Recursos, quer dizer, cultura, hospital, remédio, a gente arruma viajando e a gente pode viajar sempre, a toda hora, não é problema.

Depois de outra pausa, Rita voltou ao assunto, como quem havia provado alguma coisa à sogra:

- Viu como a idiota sou eu? Sérgia inspirou profundamente e respondeu:

- Minha filha, ninguém é mais idiota que eu, me escondendo atrás de um disfarce babaca e cretino de culta e educada e refinada e politizada. Sabe do que eu gosto, mesmo? Eu gosto é de...

- Não precisa dizer. Eu também gosto. Todo mundo gosta.

E aí riram um pouco das suas idiotices.

Já Dona Luzia, reassentada por uma das hidrelétricas que superou a praga da cultura da dependência e da subsistência e plantou e planta de tudo e se alimenta e se veste e pagou os estudos dos netos do que produziu e produz, e que hoje caminha em torno da plantação dando instruções e depois senta-se em uma velha cadeira de balanço e repete que quem crama da vida é porque não trabaia e desanda a contar como foi sua participação na Revolução de 2017, de vez em quando lembra do que ouvia de vizinhos, o que eles assistiam numa televisão não sabia de quem, isso no tempo em que a tv mostrava o presidente fazendo um discurso por dia, um dia para operários, outro para camponeses, outro ainda para fazendeiros, às vezes para assembléias de nações ou artistas de Hollywood ou da tv, até para estudantes e também para empresários ou então bispos ou domésticas ou donas de casa, ou quando as notícias eram pré-fabricadas para satisfazer ditadores ou interesses, e pensava, Deus, quanta idiotice.

9.12.2005

AS MATEMÁTICAS

Matemática não é uma só.

Matemática é matéria complicada para muita gente, especialmente quando quem ensinou era muito complicado.

Matemática, quando é financeira, bota complicado nisso: deixa de ser ciência exata e se torna fixação, insônia ou, ainda, a soma inexata das duas coisas.

Bom mesmo é quando a Matemática é coisa simples, aritmética, e não matéria complicada; quando nem matéria é. Exemplos:

Dois mais dois igual a quatro - ninguém seria superficial e tosco a ponto de dizer “isso é Descartes”. Mas que tem vontade, tem;

Um sobre zero tende a infinito e um sobre infinito tende a zero: ciência política;

A quarta dimensão é Freud. A quinta, Jung;

Espaço enésimo? Freqüente aí uma mesa de bar por volta das duas da manhã e depois nos conte;

Tábua logarítmica: o mesmo que Latim;

Multiplicar por menos um é muito utilizado por quem usou o cheque especial uma única vez e não consegue entender porque foi que passou a usar para sempre;

Raiz quadrada: (1) jamais fique embaixo de um radical; (2) o resultado é mais ou menos.

E assim fica demonstrado o corolário de que, em tempos em que a descoberta é de escândalos políticos em série de Fourier, deve-se, com todo e devido respeito ao seu criador e sua admirável “transformada”, transformá-la em resultado que fique na nossa memória para sempre, em todas as eleições. E delas, jamais abrir mão.
Nem das Matemáticas.

9.10.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO VINTE E CINCO -

Porca miséria. Onde foi que eu deixei o maldito diário, com as anotações daquele Preston e as minhas? E agora? Vá, é preciso começar tudo de novo, lembrar do que estava lá, anotado pelo desgraçado do americano e por este imbecil, aqui.

Giulio – o falso Doutor Vincenzo Scarpini - saiu pela Avenida Maranhão e entrou na primeira papelaria que encontrou. Não percebeu, mas, atrás dele, estava um policial fardado, que escutou o forte sotaque italiano encomendando um caderno. O Tenente afastou-se e atravessou a rua. Quando Giulio saiu, sem que percebesse, foi discretamente seguido. Giulio estava hospedado em um hotel chamado Cadoro. O Tenente telefonou do seu celular para Ricardo Coração dos Outros V:

- O senhor me disse que o diário que eu emprestei pro senhor traduzir pra mim estava em que línguas, mesmo?

- Inglês e italiano.

- Gostaria de ir à sua casa agora, pode ser?

Ricardo estava escrevendo e teve vontade de dizer que não; mas logo lhe ocorreu que o assunto deveria ser sobre o diário encontrado no La Ventana pelo Tenente. Respondeu que sim, escreveu mais um pouco e foi para a sala, aguardar pelo Tenente, enquanto Rita passeava pela cercanias rurais da cidade com o filho, Ricardo VI. O Tenente desligou e, em seguida, deu uma ordem, ainda pelo celular:

- Figueiredo, você venha à paisana até o Cadoro e se apresente ao gerente como fiscal de qualquer coisa. Inventa o que você quiser, monta uma carteira daquelas padronizadas, mas venha à paisana e rápido. Peça o livro de contas do hotel e depois o de hóspedes. Nesse de hóspedes, pegue e anote o nome e o apartamento de um italiano. É, um italiano, só sabemos disso, por enquanto. Anote também a data em que ele se hospedou, positivo? E aí fique de plantão no saguão do hotel, peça para ver todos os livros de controle, ganhe tempo, mas fique, para ver se o italiano deixa o quarto dele; se ele sair do hotel, siga o elemento, positivo? Seja criativo, mas não faz besteira, combinado?

Na sala de Ricardo V, o diálogo deu-se mais ou menos assim:

- O diário tem uma primeira parte com anotações em Inglês, descrevendo meus movimentos pela cidade – disse Ricardo.

- O senhor fez alguma coisa de errado? Tá devendo dinheiro, ou coisa parecida?

- Não. Apenas escrevo textos para uma universidade americana e também um livro.

O Tenente ficou em silêncio, mexendo a colher na xícara do cafezinho que lhe fora servido por Lindalva, a empregada loura da casa. Depois perguntou a Ricardo:

- Seus escritos falam de quê?

Ricardo mentiu:

- Sobre possibilidades de turismo no cerrado.

- Ah, que interessante. Mas isso não é motivo para ser seguido, não é, doutor?

- Não.

- E o que foi que o italiano escreveu, na parte dele do diário?

- A mesma coisa: está seguindo meus passos - respondeu. O Tenente disse:

- Pode deixar, doutor. Do americano eu não sei, pode ser que tenha alguma coisa a ver com aquele camarada que ficou falado por aqui, na época que o senhor e Dona Rita vieram pra cá. Mas esse italiano já está na minha mira.

- Tenente, se o senhor puder fazer o favor de não... Quer dizer, de não deixar esse italiano ser molestado e depois arranjar um jeito da gente conversar com ele...

- Esse é o meu trabalho. O senhor pode voltar pro seus escritos.

O Tenente despediu-se e, depois de telefonar para seu subordinado Figueiredo, deu outro telefonema do celular:

- Pedrosa, a partir de hoje, você deixa a farda em casa e cola no Senhor Ricardo. Aquele com jeito meio maluco, casado com a americana, Dona Rita. Sabe quem é? Isso mesmo: Ricardo não-sei-o-quê quinto. Pode vir agora e passa a rondar a casa do elemento, positivo? Tem que ser discreto. Eu sei: esse é o teu trabalho. Mas toma nota, presta atenção em tudo e vai me informando, tá me entendendo?

Pedrosa respondeu que sim.

9.06.2005

IMPRESSÕES AO DIRIGIR

Nova Lima fica entre Belo Horizonte e Ouro Preto, em Minas Gerais. Estou hospedado em um hotel de negócios, criado especialmente em função de uma instituição de ensino, a Fundação Dom Cabral, ligada à PUC de Minas. Dom Cabral foi um bispo preocupado em aproximar a Universidade às empresas; daí ter surgido um curso com o nome dele para administração de negócios - um MBA (lê-se emm-bi-ei), como cunhado em todo o mundo. O hotel e o prédio onde acontecem as aulas (uma semana, de domingo a sábado, a cada dois meses) ficam num condomínio de casas em torno de uma lagoa, onde já foi uma mineração. Antes das aulas, a Fundação organiza caminhadas, precedidas e encerradas por exercícios de alongamento – destes que a gente tem a impressão de que a real intenção é a de nos preparar para outra profissão, de um mercado disputadíssimo: a dos artistas de circo.

Era aí onde eu queria chegar: essas caminhadas são conduzidas por belas e competentes e simpáticas e pacientes profissionais. E o ar é de montanha e hoje de manhã estava friozinho, parece ter chovido um pouco de madrugada. É bom demais! Demais da conta, sô.

Na ginástica de encerramento da caminhada de hoje, um amigo (Cascaes, natural de Florianópolis) comentou ter visto um gavião pousado em um transformador de poste, acrescentando que, de certo, não era um gavião qualquer, pois o condomínio é de luxo. Aí nossa professorinha (Graziela) disse que uma sua tia uma vez tirou do congelador um pedaço de carne e o pôs na janela e depois flagrou um gavião “de todo tamanho” se fartando daquela natureza morta. Expressões como “de todo tamanho”, dentre outras tão especialmente mineiras, dão bem o tom dessas Minas Gerais, de montanhas e profundezas feitas por coisas desconhecidas de nós, pobres mortais, mas percebidas por alguns como muito mais preciosas que o minério que batizou a província que virou Estado.

E onde terminar essa crônica preguiçosa? Numa canção que fiz em parceria com outro amigo e colega de MBA, que se chama Luís Henrique Vieira Vaqueiro, que, no começo da madrugada passada, em típica situação de república de estudantes, dedilhando num bar para uns poucos de nós seu belo violão, tocou uma melodia e me desafiou: Mario, faz a letra. Depois eu faço, respondi. E ele: Não. Tem que ser agora. Afinal, a letra foi feita em papéis de anotações de bolso que sempre trago comigo, na hora, como proposto, e ficou assim:

Fosse um país qualquer / se fosse uma mulher / se fosse uma bandeira / se fosse uma canção / um rosto, uma nação.
Era um país qualquer / um rosto, uma mulher / um morro, uma ladeira / amor, declaração / de paz, de escravidão.
Audácia de viver / em um país assim / audácia de te amar / de te ver nascer / de dentro de mim.

Tudo isso não passa de um punhado de meras impressões ao dirigir durante alguns momentos a própria vida. Coisa que, convenhamos, é de todo tamanho.

9.02.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO VINTE E QUATRO -

Rita assistia atônita ao que a televisão mostrava: a cidade onde quase nascera, praticamente destruída por um furacão. Rita desesperava-se e chorava tanto quantos vários de seus compatriotas naqueles momentos, mas, embora estivesse em uma cidade do interior do Brasil, com poucos recursos e baixos índices de desenvolvimento e qualidade de vida, conseguira o que tantos dos de seu país natal não conseguiam: falar com sua família; com sua mãe - por telefone, de Minaçu a Orlando, tudo começando por uma espiral ridícula pendurada na parede, tantas vidas e coisas terminando em outra espiral, monstrenga, imensa espiral feita de ar.

Ricardo V acompanhava a tragédia de Nova Orleans perguntando-se, secretamente: será que sofro mais quando a dor é de país rico? Todos os dias na TV assisto a Tsunamis, Palestinas, Áfricas, Índias, Paquistães, Nordestes... Percebo mais essa dor que vejo agora. Esforçou-se para abstrair-se do fato de ser casado com uma americana, somente para observar, introspectiva e obsessivamente, tão à sua maneira quanto à de Otávia, de quem viveria, como hoje, em 2020, para sempre viúvo, se esta é que era a sua verdade: dor de rico lhe doía mais. De repente uma idéia lhe caiu no colo, nas fuças, no ventre, na nuca: a cultura norte-americana, de tão difundida, independentemente da proximidade, das características de novo-mundo e país-continente em comum com o Brasil, por mais amigos ou conhecidos judeus, nordestinos, negros, hindus e árabes que tivesse, a dor americana, do jazz de Nova Orleans inundado, saxofones, prostitutas, ricos filhos-da-puta ou não, louras, barbies, negros e negras atuando em filmes por pressão e força e talento, todos na súbita desgraça, era como se Nova Orleans, a New Orleans do French Quarter fosse sua. Como sua era o Rio de Janeiro. Como, já àquela altura, era Minaçu. Tudo tão diferente e distante, no entanto, era seu e por isso doía. Não que não doesse o pavor diário palestino, a desgraceira dos homens-bomba, toda a merdice e desgraceira humana; tudo doía, mas era diário – e voltou a perguntar-se: devo mesmo sofrer mais porque agora, como em setembro de 2001, foi nos Estados Unidos, os grandes fodões, os destruidores, predadores, arrogantes imperadores? Choro a dor dos opressores? Claro que não: choro a dor de quem se fodeu, de quem dormiu numa cama e acordou numa imensa poça d’água, na lama, na bosta, no frio, na tristeza, no abandono, na pior espécie de solidão.

E lhe foi assustador que, exatamente naquela noite, quando o noticiário da tragédia do furacão “Katrina” explodia na tela da sua televisão e golpeava tão perto de si tão fundo sua mulher e também a ele, que outra forma de solidão lhe viesse às mãos pelas do filho de 3 anos – uma carta amarelecida e aos pedaços do bisavô, Ricardo Coração dos Outros II, onde ele diz:

“Maria Cristina:

Alguma coisa muito má eu devo ter feito. É assim que me sinto. Foi dedicação demais e, em troca, desdém demais. Nada faz sentido. Sou um homem barbado na frente do espelho, suposto estudante de Direito, ex-noivo, ex-sujeito.

Vou rimar sempre: sou filho de trovador. Pouco me importam esses modernistas de São Paulo, ainda que a eles muito admire, por sua coragem, de desconstruir para melhor reconstruir esta nossa raça.

Fugi do assunto: continuo como quem foi flagrado em crime que não cometeu. Não posso ser chamado de mau amante, sequer: gemias, e gemias com prazer, não me venhas dizer que não, que fingias – porque não fingias. Quem nasceu onde eu nasci conhece de tão perto a verdade, que é capaz como nenhum outro de conhecer a mentira e o fingimento. Não fingiste: gostaste. Gostaste de mim, da minha presença, do meu cheiro, meu contato e tudo o mais que resolvemos juntos arriscar e subverter.

Vai com teu almofadinha; vai e explica a ele tua vergonha. Mostra a ele meus dentes cravados nos bicos dos teus seios, meus dedos, em todos os pedaços do teu corpo.

Não te mando esta carta, porque sou covarde. Porque me sinto como se tivesse partido de mim mesmo, como se ousara rasgar o mundo em três, na frente de seus donos. Como quando quebrei o objeto mais precioso de minha mãe. Como quando, brincando com meu pai, sem querer, quebrei-lhe o braço, quase que para sempre lhe arrancando das mãos o abençoado violão e seu dedilhar encantado.

Não vou morrer; vivo no Século XX. E ainda vou te fotografar sorrindo, porque é sorrindo que te quero mais, ainda que em braços que não são meus – mas a máquina há de ser tão moderna, que há de fotografar por trás dela meu sorriso, maior e mais intenso que o teu.

Não te quero mais, Maria Cristina; já não cometi crime algum; gosto mais de mim e das futuras namoradas e noivas e amantes que amarei, na mesma cama de “república” que te possuí. Saudades de ti. Isso não há como eu negar. Mas, amanhã, farei a revolução e seduzirei a bela criatura que me lava as roupas, que será de mim amada como foste tu.

Talvez eu te mande esta carta. Amanhã saberei.”