3.31.2021

DE COMO SER PAI - V- SEXO, DROGAS E ROCK 'N' ROLL

 Ao chegar em casa, a sala cheia de adolescentes, Rosa me telefona e conta que o cheiro é de tênis com chiclete. Minha resposta foi:

- Que bom que o cheiro é de tênis com chiclete. Que continue assim por um bom tempo.

Ainda quando Maria Luiza fez 16 anos, um dos convidados trouxe outra questão:

- Maria Luíza, essa cerveja é sem álcool, não é?

O medo dos pais em relação às drogas é tão lícito quanto ilícita é a maioria delas.

A legalização de todas as drogas precisa ser discutida, e precisa ser discutida com a participação de especialistas nos riscos que as drogas representam para a saúde dos indivíduos e nos riscos que elas representam para a saúde da sociedade – mas sem tapar olhos, ouvidos e bocas para isto que a proibição e o combate armado às drogas têm representado para a sociedade. Na opinião deste pai, muito mais do que ganhos, perdas, principalmente de vidas.

O que não se pode é deixar de debater o tema. Como não se pode generalizar, é claro: cada droga tem seus efeitos e consequências. Mas o debate necessariamente tem que acontecer, ser aberto à sociedade, em linguagem compreensível para a maioria, e – tudo isso é sugestão – começando por se tentar responder a algumas perguntas:

- Por que há tantas drogas ilícitas?

- Por que há tantas drogas?

- Por que algumas são lícitas e outras não?

- Por que desde sempre, na maioria das sociedades, a grande maioria das pessoas prova e permanece experimentando bebidas alcóolicas e diferentes tipos de fumos?

- Por que as pessoas se drogam, por que algumas abusam, por que outras se viciam, por que, outras ainda, preferem as proibidas?

- Todas as proibidas devem permanecer proibidas?

- Uma vez legalizada uma droga, que tipo de esclarecimento haverá sobre efeitos e possíveis consequências do seu uso? Quem vai explorá-la e quem irá vendê-la?  

Enquanto a discussão não vem, dentro de casa a melhor droga de todas se chama diálogo. Se a criança ou o jovem não traz o assunto, seus pais ou responsáveis devem trazer, é o que sugere a experiência. Alertar com sinceridade, com informação, buscando se informar para poder informar e orientar, sem medo de revelar seus gostos e fraquezas; sempre com abertura para discutir o assunto, sem jamais tratar deste ou qualquer outro assunto como algo que represente vergonha ou tabu.

Pois há quem se envergonhe de ter um filho drogado, como há quem diga preferir que o filho ou a filha se drogue a que ele ou ela seja homossexual.

Como assim?

A teoria de que o homossexualismo é doença e tem cura é própria de charlatães. Não precisa refletir muito para perceber que desejo é descoberta, muito mais que escolha, tendência ou mesmo orientação. Basta que a própria pessoa reflita sobre a primeira vez em que sentiu atração sexual por alguém, e em todas as outras em que essa atração aconteceu por aquela, essa ou outra pessoa, e assim continua acontecendo: terá sido racional ou instintiva a atração? O desejo, terá sido escolha? Ora. Seja feliz e faça os outros felizes, como disse um cronista e compositor chamado Antônio Maria.

Todo mundo sabe que a droga que se compra na farmácia serve para curar ou controlar alguma coisa, de coriza a hipertensão. A droga que se compra no botequim ou no mercado se chama cigarro, cachaça, uísque, cerveja, vinho... Todas podem dar prazer e dor – de cabeça a outras bem piores. Mas estão lá, à sua, à minha, à nossa disposição. Outras drogas só podem ser encontradas em pontos de drogas. O vício em uma droga que se encontra no botequim ou no mercado só se difere do outro, que se manifesta por uma droga ilícita, porque este último traz um risco a mais, que se chama polícia, além de um outro, chamado traficante.

Nesse ponto, o que se pretende meramente observar é que vício é vício, vício é doença, que precisa de tratamento. Quem prefere ter filho viciado a ter filho homossexual está dizendo que prefere ter filho doente a ter filho saudável.

Sexo é assunto para se tratar com a mesma naturalidade que qualquer outro. Religiões proibitivas de sexo só por prazer, que Deus representam? Se as religiões defendem que Deus existe e a tudo criou, como seria Ele capaz de proibir o prazer que Ele mesmo criou, às criaturas que Ele criou?

Se foi Deus ou não que nos dotou de inteligência e capacidade de comunicação, o que se sugere é fazer uso intensivo e extensivo de uma e de outra. Seria fazer pouco de uma e de outra discorrer sobre de como se comunicar para fazer sexo e de como fazê-lo sem procriar, sem se expor a doenças, e assim por diante, não é mesmo? Deixar de conversar com a filha e o filho sobre sexo e deixar de falar sobre sexo nas escolas é disseminar desinformação, desorientação, medo, preconceito, tudo próprio de charlatães e de manipuladores. O que é para ser saudável pode virar doença, da alma, do corpo, da mente. Vamos de Antônio Maria de novo?

Eu nasci em novembro de 1955. Nos anos 60 do século passado eu era um garoto, 10 ou 15 anos mais moço do que aquele que amava os Beatles e os Rolling Stones e foi para a guerra do Vietnã. Sexo, drogas e rock ‘n’ roll é um jargão dos anos 60, dos hippies, dos Beatles, Rolling Stones e tantas outras bandas. Janis Joplin, Jimmy Hendrix e muitos outros, ilustres ou não, se foram por causa das drogas. Sim, havia a ideia de que drogas fossem libertadoras, mas elas já existiam desde muito antes; e o que havia mesmo naqueles anos, por trás do jargão, no original em inglês, sex, drugs and rock ‘n’ roll, eram mensagens como paz e amor; faça amor, não faça a guerra; liberdade, liberdade, liberdade – de ir e vir, de se vestir, de como usar os cabelos, de se expressar, de como trabalhar e amar, de como viver.

Falando em bandas, nas bandas de cá, Mutantes com Rita Lee, Chico, Gil, Caetano, Gal, Bethânia, Milton Nascimento e o Clube da Esquina, Tom, Vinicius, Edu Lobo, Jovem Guarda... e a ditadura.

Como fechamento desta série, ou pelo menos da sua primeira parte – ou temporada -, fica mais do que nunca a vontade de sugerir e repetir o que Antônio Maria deixou como título de um apanhado das suas crônicas. Em vez de comemorar a ditadura, em vez de se calar...

Seja feliz e faça os outros felizes.

3.29.2021

DE COMO SER PAI – IV – ORGULHO, PORQUE NÃO TE QUERO

 

Há variados significados para orgulho e vergonha, mas, em vez dele e dela, prefiro prazer e dor, alegria e tristeza, contentamento e descontentamento. Orgulho fica muito perto da soberba, e vergonha, para começar, é para quem tem vergonha. Tímidos – palavra de quem já foi muito tímido – têm vergonha de algo que não sabem o que é, e ninguém sabe o que é que faz o tímido ter vergonha quando em dado momento está em algum lugar onde talvez até tivesse vontade de estar. Mas a mais extrovertida das pessoas há de já ter sonhado em se ver nua em um ambiente em que todas as outras estão vestidas, e acordará com muita vergonha, que logo dará lugar ao prazer de perceber que foi apenas um sonho. Onde ficou o orgulho nisso tudo?

O orgulho do novo cargo, do novo emprego, da nova roupa, de algo conquistado por si - ou pela filha ou pelo filho. Por quê? Não será o sentimento mais imediato e espontâneo o do prazer, o da alegria, o do contentamento? Por que seria o orgulho o sentimento a aflorar de alguma conquista? O de quem pensa “Eis-me aqui em posição de superioridade, de destaque, por minha causa ou por causa da minha cria”? MINHA cria. Quando a cria se sai de algum modo mal, o mal deixa de ser relativo e passa a ser absoluto.

- Ah! Que vergonha da minha cria! Nem parece filha minha ou filho meu!

Se fosse de um lado contentamento e não orgulho, se fosse do outro descontentamento e não vergonha, a comemoração seria certa, pela vitória no primeiro caso, pela possibilidade de virar o jogo no segundo. A risada viria do prazer da vitória e de achar graça do tombo que se levou e do qual se pode levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima, como na canção de Paulo Vanzolini, o mesmo de Ronda (e que ninguém passe vergonha por não saber disso).

Orgulho é um paletó roto que nos veste mal, que só serve para quem tiver a grandeza de um Carlitos. Vergonha é para quem tem vergonha, não é coisa de desavergonhados, de sem-vergonhas. Para quem tem vergonha, ela passa com um sorriso, com um gesto de quem limpa as mãos, porque tem a alma limpa. Grande. Quando tudo vale a pena, e você acertou ao lembrar de Fernando Pessoa.

Filhos, filhas não são para nos fazer sentir orgulho nem vergonha. São para compartilhar conosco alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, conquistas e fracassos, todos sentimentos genuínos e espontâneos. Imediatos. Orgulho e vergonha são elaborados na oficina da incompreensão da real dimensão do que seja sentimento. Prazer e dor, não. Esses não precisam de elaboração nem de fórmula. São genuínos, conhecidos de pronto, saboreados na espuma do primeiro gole do chope bem tirado, com todo prazer. Prazer é o gozo. Orgulho é a lembrança do momento fugaz do egoísmo duradouro. Vergonha, se você a tem, parabéns. Você não é um sem-vergonha. Mas experimente trocá-la pelo descontentamento. Vai embora logo. Volta o gozo, se vai o egoísmo, o egoísmo da vergonha.

Filhas, filhos, que prazer, contentamento, alegria. Filhas, filhos, que a dor passe logo, que logo dê passagem à boa lembrança, ao bom porvir.

Quanto ao orgulho, prefiro a distância dele. Quando dele me aproximo, fico à beira de um abismo solitário, lá embaixo à minha espera a soberba que não quero conhecer.

Prefiro a nudez do sonho, com todos vestidos à minha volta.

Prefiro a timidez que já não tenho na intensidade que já foi.

Prefiro a alegria de ser pai.

3.22.2021

DIRETO DO BRASIL DA PANDEMIA

 

Todos os dias acordo brasileiro morando no Brasil.

Quem me acorda é o bem-te-vi.

Duvido

Sou bem-visto

Logo existo.

 

Às vezes me excedo

Outras me omito

Saber o tempo certo

É quando não grito.

 

Preso entre quatro paredes

Tento navegar nas redes.

Não estou só.

Não estava só, fomos milhões -

Não nos ouviram.

Agora se perguntam: - O que fazer? Esperar?

As pesquisas mostram uma insatisfação crescente

Falta ar oxigênio cilindro leito agulha seringa remédio

Falta tudo

Falta empatia

Respeito -

Mas como haveria - da parte de quem nunca teve?

Mas como viria - de onde nunca houve?

Que nunca mais acreditem que MILITARES resolvem tudo

Que nunca mais pensem que armas pagas pelo povo devam se voltar contra o povo

Ou idiotamente pensem ou cinicamente digam que as armas só se voltarão contra os

maus.

Quem são os maus? Os comunistas? Os não-brancos-héteros-homens?

Por quê? São muitos? Violentos?

Se armam ou armam outros contra prefeitos e governadores?

Ou os maus são os que roubam?

Quem usa nossas armas e as volta contra nós SABE distinguir os que roubam? Melhor

que a LEI?

Quem usa nossas armas e as volta contra nós QUER distinguir os que roubam?

Como, se quem usa nossas armas e as volta contra nós nos rouba a LEI?

Que nunca mais venham com a patetice

De não-quero-nada-disso-que-está-aí

Que política se faz sem política

Que governos se fazem com técnicos somente técnicos nada mais do que técnicos

De preferência militares

Ou que evoquem o AI 5.

Agora um tribunal autoriza que se comemore o golpe de 64 em 31 de março.

Chamar o golpe de 64 de – abre aspas - marco da democracia brasileira – fecha aspas -, segundo consta, - abre aspas - não ofende os postulados do Estado Democrático de Direito nem os valores constitucionais da separação dos Poderes ou da liberdade – fecha aspas.

Morremos todos os dias aos milhares de uma pandemia fortalecida pela negação;

Mas o importante é comemorar o golpe

Porque de golpe em golpe vão nos levando a vida e a democracia.

Mesmo esses que nos roubam a democracia cooptados ou abduzidos

Que acordem e percebam que, hoje, quem dá as cartas não são as Armas

Não é a mídia

O STF

O Congresso

Empresários

Trabalhadores

Os ricos os pobres a classe média

Os que passam fome e têm mais, muito mais sabedoria

do que idiotas de salão balançando uma taça de vinho

a professar

O importante é a economia.

Nem o Mercado dá as cartas hoje.

Quem dá as cartas hoje são os pseudopastores.

A Igreja perdeu o passo

A Igreja perdeu a vez

O Rei

É cínico.

Voltando aos ainda não cooptados ou abduzidos:

Acordai.

Usai vossa inteligência

Hoje e amanhã.

Usai vossa empatia

Vossa humildade

Usai vossa indignação

Usai vossa coragem

Usai vossos olhos ouvidos bocas.

Narizes usai para algo além do buquê do vinho caro

do rótulo que exibireis nas redes amanhã.

Acordai. Por favor

Acordai.

 

Quem me acorda é o bem-te-vi.

Duvido

Sou bem-visto

Logo existo.

 

Às vezes me excedo

Outras me omito

Saber o tempo certo

É quando não grito.

3.18.2021

DE COMO SER PAI – III – DE VOLTA PARA O PASSADO

 

Quem acredita em sereias sabe os segredos do mar, Fagner e o MPB4 cantaram e deixaram gravado para quem quiser ouvir. Quem não ouve, nem estrelas ouve, e Olavo Bilac vai raspar os bigodes, mas não os dele. Não é nada difícil ser pai e por isso é tão difícil compreender um pai que abandona um filho ou quem veja um filho como um estorvo, incômodo ou alguém a temer.

(Para quem não souber, Fagner e MPB4 (acho) permanecem na ativa. Fagner ficou famoso quando musicou e cantou uma poema da Cecília Meireles (Quando penso em você... fecho os olhos de saudade...), e o MPB4 pode ser visto em "Uma noite em 67", disponível (acho) no Youtube, que vale a pena ser visto - mais que um documentário, é um documento. Já o verso "Olha direis ouvir estrelas" é o mais célebre de Olavo Bilac, poeta que viveu de 1865 a 1918, um clássico da nossa poesia, e que usava bigodes.)

De como ser mãe, nada sei. Mas talvez possa ser útil a jovens mães e pais lembrar mais um pouquinho do comportamento materno durante e após a gravidez. Não me atrevo a falar sobre distúrbios como depressão pós-parto, se não sirvo pra mãe, menos ainda para charlatão. Já falei antes de como Rosa, mãe da Maria Luiza, estava se sentindo na véspera de nossa filha nascer. Tudo a incomodava. No primeiro ano de vida do presente que ganhamos, a história foi outra, com poucos traços de semelhança com a que antecedeu o parto. Rosa era toda atenção à Maria Luiza, em permanente estado de alerta. Naqueles anos ainda se fotografava com máquina fotográfica e se filmava com filmadora. Rosa é fotógrafa amadora de excepcional sensibilidade e precisão, e tem até hoje câmeras fotográficas de alta qualidade, tanto analógicas quanto digitais. Mas a filmadora teve que alugar, e passou um fim de semana inteiro filmando Maria Luiza e tudo ao redor da casa em que morávamos. Dois momentos da filmagem revelam como a mãe recente se sentia. Rosa, além do cuidado com a filha, dirigia e narrava as cenas. Em dado momento, já cansado das suas orientações e alertas, perguntei sugerindo:

- Já filmou ali?

“Ali” era suficientemente longe de mim, com Maria Luiza no colo, e assim distraí um pouco a diretora. Em outro momento, sugeri que pedíssemos uma pizza; também funcionou.

Outro “ali” era “lá”, em Teresópolis, em um belo hotel-fazenda num lugar chamado Quebra Frasco, onde costumávamos nos hospedar em fins de semana de inverno. O jantar de um sábado foi fondue, com aqueles espetos para espetar os nacos de carne e mergulhá-los no óleo quente, que depois são espetados por um garfo, que levamos a um dos 817 molhos postos à nossa frente e depois à boca para mastigar. Maria Luiza sentadinha numa cadeira para bebês, não parava quieta. Desde aquela noite, Rosa se senta na ponta da cadeira, como eu já disse, em permanente estado de alerta. Não me lembro o que foi que a bebezinha fez que chamou tanto a atenção da mãe, que, em vez do garfo, levou à boca o espeto com a carne, espeto e carne muito quentes, e em seguida se levantou para sequestrar nossa filha e fugir com ela para o quarto.  Não dei parte à polícia, mas tive que terminar o fondue às pressas e sozinho. No domingo, já de malas prontas para voltarmos para o Rio, Maria Luiza não parava de chorar, de pura manha. Dizem que carioca é esperto, e, pelo menos naquele dia, este aqui foi. Enquanto Rosa pagava a conta do hotel, eu fui para o jardim com a chorona no colo e fiquei gritando paracabum! umas tantas vezes, e mais uma vez a tese de que mãe é propriedade e pai é brinquedo da criança, no lugar do choro veio uma risadinha, e a volta foi tranquila, com Maria Luiza tirando um soninho naquela cadeira que o presidente do Matai-vos uns aos outros e Ama o torturador como a ti mesmo coerentemente quer banir.

(Entre outras razões, Rosa sugeriu esta série de reminiscências sobre minha experiência como pai para que eu falasse menos sobre política. Mas o atual presidente não deixa, exatamente por querer não deixar que falemos.)

Havia um outro “lá”, que era mais longe ainda, e aquele outro paraíso se chamava Vila Maria, no sul de Minas Gerais, na fronteira com Campos do Jordão, em São Paulo. Foi lá que, antes mesmo de andar com seus pezinhos, Maria Luiza andou a cavalo. Não comigo: tenho um respeito por cavalos do tamanho de um cavalo. Todas as vezes em que tentei cavalgar, me senti desconfortável por estar em cima do cavalo e percebi seu desconforto por estar embaixo de mim. Mas centauros existem, e um deles pegou nossa bebezinha com nossa ajuda e a pôs sentadinha no dorso do seu lado cavalo, e ela achou uma graça que nem na fotografia se pode perceber em tamanho e dimensão, a não ser para quem estava presente quando aquilo aconteceu. Um mês depois, no aniversário de um ano do amigo Bobe, que se chama Rubens mas para ela o nome dele era e sempre será Bobe, lá foi o pai da Maria Luiza andar depressa atrás dela - começando a andar, como o neguinho da canção de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, só que sem apanhar.

Agora é hora de falar da Miriam, que Maria Luiza até hoje chama de Mimi. Mimi trabalhava lá em casa e se tornou a babá da Maria Luiza. Até hoje é nossa amiga e a chama de caçulinha, embora Maria Luiza seja filha única. Não, ela não é nem nunca foi mimada, sempre viveu rodeada de amigas e amigos e logo aprendeu a dividir e somar.

No dia seguinte ao da sua curta cavalgada, no Baden Baden de Campos do Jordão, Maria Luiza de repente saiu do colo da mãe e escalou meu ombro, e eu fiquei tão alegre e surpreso que a chamei de minha periquitinha. Que periquito voa, até quem não acredita em sereias sabe. Alguns nascem em gaiolas, eu sei, é triste, mas há sempre alguém que nos dá um par de periquitos em uma gaiola. Mimi um dia foi alimentar os periquitos que alguém nos tinha dado e um deles voou. Aquilo foi o sinal para que eu contratasse outra espécie de ser alado para instalar uma tela, presa em umas cantoneiras metálicas, na mureta de uma ampla varanda da cobertura onde morávamos; afinal, minha periquitinha não tinha asas.

Por falar em bichos, jamais aceite um coelho de presente. Coelho não quer seu convívio, e gosta de ler bordas de livros com os dentes. Miriam deu um coelho para a Maria Luiza, e o que deixou a Mimi muito mais braba do que eu por causa dos meus livros foi compartilhar sua calça nova com os dentes do coelho.

Filho não é incômodo, é prazer. Um dia difícil ficava mais fácil só de pensar que logo mais à tardinha eu iria ao encontro da minha filha. Isso pode parecer piegas, mas não para quem já passou por isso. Não é piegas não, quando for a hora de ser pai, apenas seja.

Outra alegria que coelho não dá: criança fala.

- Rosa, me passa a batata, por favor.

- Babata!

Essa foi talvez a primeira palavra que a menininha de menos de dois anos disse depois de mamã e algo parecido com papai (além de Bobe, naturalmente). Uns dias depois, outra surpresa.

- Bala, papai.

Ela não gostava de bala, como então me pedia para trazer bala quando eu voltasse do trabalho? Ela insistiu, bala, papai, mexendo os braços. Claro! Ela me lembrou que eu ia pro trabalho sem levar a mala. Eu sei, você não acredita, embora tenha certeza de que cachorro lê nosso pensamento (eu também tenho).

Quer outra? Eu estava na cozinha tentando consertar qualquer coisa que até eu sou capaz de consertar, quando fui interrompido.

- Papai, papai.

- Filha, agora eu não posso, estou procurando a chave de fenda.

- Ali, papai, ali.

Pois é. Não são só os cachorros. Crianças também leem nosso pensamento.

Com três anos, a história é outra, cheia de palavras. Em um casamento na capela do Palácio Guanabara, de dia, Maria Luiza, em pé no banco da igreja, pergunta:

- Gente, aqui tem balanço?

No Natal, a tal da gente tem certeza de que Papai Noel existe, quando, por exemplo, a criança diz:

- Mas esse Papai Noel é muito legal, ele sabia que eu queria ganhar isso e ele me deu isso!

Quem acredita em sereias sabe os segredos do mar, Fagner e o MPB4 cantaram e deixaram gravado para quem quiser ouvir. Quem não ouve, nem estrelas ouve, e Olavo Bilac vai raspar os bigodes.

Mas não os dele.

3.11.2021

SE OUTUBRO DE 2022 FOSSE HOJE

Depois do discurso de Lula em 10 de março (ontem), o jornalista Octávio Guedes disse hoje de manhã o que eu gostaria de dizer. Extremistas são o Bolsonaro e o PCO (Partido da Causa Operária). Um prega Pinochet, Stroessner e Medici, o outro a ditadura do proletariado. Ainda nas palavras do jornalista, pode-se gostar ou não do PT, mas em 13 anos de poder respeitou a democracia. Sofreu impeachment e saiu, o líder foi condenado e se entregou à polícia. Lula atrai o povão que quer emprego, picanha e cerveja. O outro, o povão ressentido com a vida, com a própria vida, contra o sistema, precisa de um líder contra tudo. Palavras do jornalista, e eu assino embaixo.

Falando por mim, eu sempre pensei dessa maneira em relação ao eleitor-raiz do Bolsonaro: frustrado, ressentido, revoltado; o líder ofende, desrespeita, ele se vinga. (Recentemente, o Cidadão Mario veiculou um pequeno texto que diz: “Quem ainda apoia esse governo está de mal com si mesmo e os outros”). Já o eleitor-raiz do PT é o do chão de fábrica.

Voltando ao jornalista, a quem respeito muito, a terceira via também teria que ter – palavras dele - cheiro de povo, falar a língua do povo, e ele, neste momento, acha que só se teria o Luciano Huck com essa característica.

Da minha parte, prefiro um partido, e não vejo no momento outro partido com cheiro e cara de partido que não o PT. Não foi Lula nem Bolsonaro nem Dilma nem Haddad que me convenceu disso. O PSDB não é mais socialdemocrata e se desmoralizou por várias razões. O PT teve líderes corruptos que foram punidos, e permanece fiel às suas propostas para o País, que no fim das contas são dentro e não fora da democracia.

Mil restrições ao PT, mas ainda é um partido, com muito mais cara de socialdemocracia do que o PSDB. A Constituição Federal é socialdemocrata, típica de um Estado do Bem Estar Social. Como quarto fundamento desta nossa República, defende os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.

A suposta solução Luciano Huck, com uma base necessariamente fisiológica, a mim não convence. Tampouco acredito em teorias liberais capazes de servir ao Brasil como se fossem luvas. Assistencialismo sem superação também não serve, e isso deve ser cobrado ao PT e aos demais.

Fiz, faço e farei críticas ao PT e ao Lula. Mas o primeiro é partido e outro é político - que sabe se articular, mesmo que  arrogante e demagogo em vários momentos, mas ainda é capaz de alguma grandeza; e levanta, sacode a poeira, dá volta por cima.

Se for outro do PT, se a eleição tiver essa configuração, terá meu voto. Eu quero um partido com cara de partido político e o PT é isso. O resto é fascismo ou fisiologismo (sim, o PT entrou nessa durante alguns anos, assim como o PSDB).

Se a eleição fosse hoje, o PT teria meu voto.

Assim penso hoje.

3.04.2021

DE COMO SER PAI – II – ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS

 

Todo homem sabe que nasceu para coadjuvante. Por isso os idiotas são machistas e os outros aprendem a não ser. A mulher é que nasceu para o estrelato. Isso fica evidente por exemplo na cerimônia de casamento, quando a noiva é a esperada, e o noivo, mais um a esperar por ela.

Nos primeiros anos de vida de uma criança, a mãe, por ser uma estrela, é propriedade da criança, enquanto o pai, quando muito um planeta fora de órbita, o seu brinquedo. Antes do nascimento, a barriga da mãe é a casa; depois, a criança muda de casa e vai morar no colo e nos seios da mãe. Brincar com o quê? Com bichinhos de pelúcia e penduricalhos do berço? Ora, pra que, se o pai está por perto? O colo da mãe é o melhor lugar para chorar e chorar até exasperar; o do pai, para achar graça das sacudidas, dos barulhos e das caretas que ele faz.

Quando Maria Luiza nasceu, havia um clube de futebol chamado Botafogo. Já quando o pai da Maria Luiza era garoto, havia um esporte chamado futebol, quando o Botafogo teve dois timaços, um logo depois do outro. De Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo e Zagalo a Carlos Roberto e Gerson, Rogério (depois Zequinha), Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar. Isso sem falar em todos os outros jogadores daqueles dois assombros aos olhos dos competidores e admiradores de todo o mundo. Já lá em 1995, o Botafogo se sagraria campeão brasileiro, e o prenúncio disso foi o ano de véspera, quando Maria Luiza nasceu. Entre muitas e grandes qualidades, seu avô tinha lá seus defeitos e torcia para o Flamengo, algo que passou para a mãe da Maria Luiza. Aos três anos de idade, ela provou que pai é brinquedo e mãe propriedade.

- Mamãe, você tem que torcer pelo Botafogo.

- Mas eu sou Flamengo, filha.

Era hora do beiço tomar o lugar do lábio.

- Você tem que ser Botafogo, mãe!

- Tá bom, filha, eu sou Botafogo, pronto.

- De verdade, mãe?

- De verdade, filha. (Por alguns anos, somente.)

Ser botafoguense nada tem de sofredor, mais uma que aprendi por ser pai da Maria Luiza. Hora de falar de outro alvinegro: o Figueirense, de Florianópolis, onde moramos desde que o mundo acabou, em 2000. Enquanto o Botafogo tem na camisa a poética estrela solitária, o Carlitos daqui traz em seu escudo a bela figueira-símbolo da Ilha da Magia (embora seu estádio fique no continente, mas isso é pra ser dito pelos torcedores do Avaí). Tanto do Botafogo quanto do Figueirense, nenhum torcedor se esquece da semifinal da Copa do Brasil de 2007. Uma bandeirinha anulou injustamente dois gols do Glorioso, que, apesar de assim mesmo ter vencido por 3 a 1, foi desclassificado com o resultado (coisas do futebol, coisas do Botafogo). Maria Luiza viu o jogo ao meu lado por um tempo, até que foi para o quarto, teria que acordar cedo. Da sala, furibundo, protestei. Ainda acordada, Maria Luiza, na estrada dos louros, um facho de luz, a estrela (que não é solitária) que me conduz, me fez constatar:

- Nós ganhamos, pai. Fizemos cinco e eles um.

Tal como cantaram Emilinha Borba e Gal Costa, assim se passaram dez anos, dos três aos treze da Maria Luiza. Se voltaremos ou avançaremos no tempo nos próximos capítulos, todo flamenguista sabe: só o tempo dirá.

(Aqui cabe um PS, ainda por cima entre parênteses. Ao ler esse texto, Carine Bergmann, produtora do Cidadão Mario, espantou-se pelo apreço da minha família pelo futebol. Rosa nunca se interessou pelo tema, e Maria Luiza só até certo ponto, e já não mais: descobriu coisas bem mais interessantes, como a Medicina, entre outras. Da minha parte, prefiro fazer do futebol o mesmo que ela fazia comigo em seus primeiros anos de vida: um brinquedo.)

2.25.2021

DE COMO SER PAI – I – EU E O DIABO NA TERRA DO SOL

 

A sugestão para o tema foi da psicóloga Rosamaria Areal, minha namorada desde 1990, com quem me casei duas vezes sem nenhuma separação (mas isso é outra história). Logo se verá por que a alusão ao filme do Glauber Rocha neste primeiro capítulo de uma série, que não se sabe ainda quantos capítulos terá, apesar da vontade de concorrer com a Netflix.

Sem qualquer rigor científico, em dias de céu aberto e muito sol, pode-se afirmar que Bangu é um dos lugares mais quentes do mundo. Mas nem só de calor e penitenciárias vive o bairro. Por exemplo, lá morava (e talvez ainda more) meu amigo Paulo Barba. Fui à casa dele quando seu primeiro filho nasceu, lá no século passado, uns nove anos antes de eu conhecer a Rosa. Paulo, com sua barba cerrada que lhe rebatizou e o sorriso mais para uma boa risada, me recebeu e me chamou para ver o bebê, que estava no quarto, no colo da avó, sogra do meu amigo. Fiz uma graça qualquer para o neném e ele chorou. A explicação veio da vovó:

- Recém-nascidos percebem o diabo atrás de quem chega perto.

 O genro ficou sem graça e me puxou pelo braço. De volta à sala, me consolou:

 - Liga não, a velha é maluca mas gente boa.

Incorporando Adoniran Barbosa, logo em cima eu falei:

- Eu não tenho habilidade com crianças.

Pouco depois fui pra casa, dirigindo de volta calorentos quilômetros no meu Fusca até Botafogo, onde eu morava.

A sensação de não me entender com crianças e bebês dissipou-se quando recebi de presente um manual feito sob medida para mim. No dia 23 de março de 1994 nasceu nossa filha, única em vários aspectos, Maria Luiza. Acho que ela não vai se aborrecer por eu compartilhar tudo que ela me ensinou para que eu me tornasse seu pai desde quando ela estava na barriga da mãe. 

Por causa de uma endometriose, para engravidar, Rosa teve que tomar um remédio, desses em que a bula deveria dizer: Não leia a bula. Mas o remédio funcionou, e até o nascimento tivemos alguns momentos marcantes. O primeiro de que me lembro foi a ultrassonografia que revelou o sexo do bebê que nasceria alguns meses depois. Saindo da clínica, fomos direto a um orelhão para que Rosa desse a notícia à mãe dela. Se a sogra do Paulo Barba queria ter um neto ou uma neta eu não sei; mas a minha, ao saber que teríamos uma menina, demonstrou que sogras tudo sabem de Deus e do diabo, e que, também por isso, devem ser sempre bem tratadas.

- Louvado seja a Deus – dona Olga proclamou.

Outro momento foi quando dissemos ao meu irmão, Luiz, igualmente único em muitos aspectos, também todos positivos, que seria feito um exame do líquido amniótico. Esse exame serve para que se saiba se há alguma alteração genética no bebê ou complicações por causa de alguma infecção adquirida pela mãe durante a gravidez. Provavelmente preocupado com o que faríamos se alguma coisa fosse detectada naquele exame, meu irmão trouxe para casa um videocassete com o filme Óleo de Lorenzo. (Se você não sabe o que é orelhão e videocassete, isso não tem nada de divindade ou malignidade: apenas você nasceu bem depois de mim.) O filme conta a história verídica de um casal que resolve travar uma luta incessante contra uma doença rara, degenerativa e incurável que acomete seu filho, Lorenzo, de seis anos. Em meio a consultas a médicos e pesquisas desenvolvidas por conta própria, o pai e a mãe do menino acabam desenvolvendo um óleo, batizado com o nome do filho, à base de extrato de ácidos de azeites de oliva e de colza - que não era a cura, mas atrasava a evolução da doença.

O exame do líquido amniótico, que acomoda o bebê e o nutre do que precisa para nascer, no caso da gravidez da Maria Luiza, nada acusou. O nome dela foi dado na porta da garagem da casa onde morávamos no Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Quando eu me preparava para sair do carro e abrir a porta com cuidado para que pai e filho pastores alemães não saíssem rua afora, assim Rosa decidiu e me participou:

- Ela vai se chamar Maria Luiza. Você é Mario, seu irmão Luiz, e esse é também o nome da sua tia.

- Tem também a outra Maria Luiza, neta da minha tia, filha da Ana Luiza – eu fiz questão de lembrar. Rosa foi novamente resoluta:

- Melhor ainda.

Naquela mesma casa, houve uma noite em que Rosa, já bem grávida, implicou comigo de tal maneira que eu fui para o andar debaixo convencido de que a menina nasceria de pais separados. Se eu respirava, menos oxigênio para a bebê; se eu expirava, poluía o quarto. Na manhã seguinte, enquanto eu estava tomando banho, Rosa bateu na porta do banheiro, e eu pensei, o que virá agora? Ela esclareceu:

- Mario, a bolsa estourou.

Quando a bolsa estoura não faz barulho, mas o líquido amniótico escorre pelas pernas da mãe, avisando que o neném vai nascer. A outra bolsa com tudo que deveria ser levado para a maternidade já estava pronta. Ao chegarmos lá, o ginecologista e obstetra veio falar comigo com ar de preocupado:

- O parto será de cesariana, porque o bebê já pode estar em sofrimento.

- E o bebê, vai ser normal? – eu perguntei.

- Não – doutor Napoleão respondeu.

- O bebê não vai ser normal? – eu, assustado, quis confirmar negando.

- O bebê vai, o parto é que não – respondeu doutor Napoleão e partiu célere para mais uma batalha.

Fui convidado a participar dela. Me vestiram numa roupa de astronauta e me sentaram em um canto na sala cirúrgica, não sem antes terem que trocar tudo de novo, do lençol à minha roupa de astronauta, todos os apetrechos do cirurgião, porque eu tinha esbarrado na maca onde Rosa seria deitada.

Maria Luiza nasceu, chorou e parou de chorar, quando, nos braços da enfermeira, me viu.

Ali começava minha leitura daquele adorável manual vivo, de como ser pai, chamado Maria Luiza. Se o Paulo Barba tiver conhecimento de ter participado do seu preâmbulo, que me dê o prazer de uma visita em Florianópolis, ou então seu endereço, para que eu vá até lá, revê-lo, agora com minha filha e o filho dele já adultos. Por causa da Maria Luiza, garanto que irei sem o diabo.

1.24.2021

NÃO SE PODE FALAR EM POLÍTICA: COMO ASSIM?

 O que dizer, o que calar, a quem querer, assim falou Gilberto Gil. Redes sociais viraram clubes de concordância. Discordar é brigar. Briga-se no Face Book, no Instagram e no clube mais fechado de todos: o WhatsApp. Grupos familiares brigam, se ofendem, porque todos têm que pensar igual. Não se pode falar em política. Como assim? Política se faz todos os dias, dentro e fora de casa. Política é negociação, debate, quem não negocia e não debate o que faz? A política de Estado incomoda e nesse caso os que não se incomodam que se mudem. Que se calem. Ou que fiquem aplaudindo para sempre os erros e canalhices de quem teve seu voto. Fui criado em um ambiente em que se falava de política o tempo todo. À moda brasileira, defendiam-se nomes e não ideias, programas, partidos, o que era e continua sendo muito ruim. Juscelinistas, Brizolistas, Lacerdistas, Janguistas, todos conversavam entre si, com suas paixões e crenças e decepções expostas, mas nunca se deixava de falar de política em família ou entre amigos. Não se brigava propriamente, se discordava, mas se lia, se debatia. Sim, nas ruas era, como é e será, diferente. Ninguém é ingênuo aqui. Nas ruas primeiro se discursa, depois se marcha, depois se luta. Voltando aos anos pré e durante os de chumbo, era comum as famílias compartilharem quatro, cinco jornais, de linhas políticas divergentes, e se falava. Inclusive durante a ditadura, quando apenas a conversa era mais reservada por causa da truculência e da prepotência, mas nem por isso se deixava de falar em política dentro de casa, no trabalho, nos botecos. E aí chegamos ao século XXI. Cansei de criticar o PT e nenhum amigo petista meu deixou de ser meu amigo. Ninguém me mandou calar a boca, ninguém me disse para que eu não falasse em política. Houve desconfortos, silêncios, mas fomos em frente e continuamos amigos. Debatemos, e devo dizer que eles foram muito mais elegantes que eu. Ninguém tinha razão propriamente, mas me deixei levar pela histeria coletiva que tomou conta do país. Quando eu era garoto, havia um personagem chamado O Abominável Homem da Neve. Pois fui tolo a ponto de defender a candidatura do Inominável Aécio das Neves. Em dado momento fui mal interpretado, quando me referi ao projeto de poder pelo voto comprado como um projeto de ditadura. Eu não me referia a um projeto bolchevique, mas sim à ditadura do voto comprado, que começou no governo FHC. Quando se discutia sobre a reeleição, li um artigo do Raymundo Faoro em que ele repetia o bíblico “Pai, perdoai-vos, eles não sabem o que fazem”. Ler nos abre os olhos. Caí fora daquela tramoia, fiquei do lado dos vencidos. Agora o próprio FHC se queixa da praga que nos deixou. É o caso de perguntar a ele: Foi bom pra você? Se a maioria que seguiu o que há de pior na sociedade tivesse lido “Como as democracias morrem” não teria votado em Bolsonaro. Antes que alguém me pergunte, eu NÃO votei nele e além de textos postados nas redes gravei um depoimento tentando abrir os olhos de quem declarava aquele voto. Defendi a candidatura de um bacharel em direito, mestre, doutor, professor, oito anos ministro da educação e ex prefeito de São Paulo. Em vão. Outro erro: aderi ao impeachment da Dilma, ainda que por causa do Dr. Hélio Bicudo, fundador do PT junto com Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, três Admiráveis Homens do Pensamento. Se um dos mais ilustres fundadores do PT se voltava contra quem dirigia seu partido eu deveria aderir, foi o que pensei e fiz. “Nunca ceder ao arrependimento, e sim dizer imediatamente a si próprio: ‘isto significa juntar uma segunda estupidez à primeira’. Tendo-se feito um mal, cuide-se para fazer um bem”, assim falou Nietzsche. Pois me arrepender de ter aderido ao impeachment da Dilma faz bem pelo menos a mim, um arrependimento decorrente de grave erro de avaliação. Eu sabia que havia fascistas ao meu lado, mas achei que eram poucos. Eram e são muitos, e ainda que fossem poucos, um único fascista pode destruir minimamente uma convivência. Eles estão aí. Pois agora não se pode criticar o mais fascista, corrosivo e destrutivo governo da história do Brasil. Ou nos dizem que não se pode falar em política ou que a esquerda destruiu a Venezuela e a Argentina (que não está destruída e novamente optou pela esquerda, diga-se de passagem). Esquerda e direita são capazes de boas ideias e de bons e maus governos. Não são esquerda e direita que destroem países. O que destrói países é a mitologia, a idolatria. O que destrói países é o cala a boca, a apatia. O que destrói países é a letargia. O não reconhecer o erro. O não dizer, o calar, o não querer.

Obrigado, Gil, você é sempre inspirador.

 

 

1.18.2021

MATAI-VOS UNS AOS OUTROS

"Quem decide se o povo vai ter uma democracia ou ditadura são as forças armadas". "Quero a população armada para se voltar contra prefeitos e governadores". Voltar as armas da República,  pagas pela população, contra ela, é coisa de covardes e canalhas. Ameaçar com elas é típico de acuados que desprezam a Constituição e a Democracia. Incitar revolta contra poderes legalmente constituídos é característica de bandidos. Ponha isso tudo num liquidificador, tempere com desprezo pela vida alheia e deboche sobre vacinas. Adicione incompetência a gosto. Pronto. Esse é o seu presidente.  Quem prega matai-vos uns aos outros e ama o torturador como a ti mesmo não pode ser presidente. Não pode ser deputado. Não pode ser candidato.

12.10.2020

DUAS CARTAS NUMA SÓ

 Caro Papai Noel,

Caro Papai do Céu,

Que vocês caprichem no Natal, a começar pela véspera da véspera da véspera. Estamos exaustos do vírus e da maldade dos malas. Pode ser que um dia até eles percebam que não há nada mais divino do que a ciência, o respeito e a paz. Mas não dá para esperar muito por esse dia não, tá? Vocês bem que podiam dar uma forcinha.

Com essa cartinha, nós, do Cidadão Mario, nos despedimos de 2020. Voltaremos em 25 de janeiro de 2021. Deixamos aqui abraços largos e apertados a todas as pessoas que sabem da nossa existência e nos prestigiam, e também a todas as demais que se importem com a vida.

Acima de tudo,

A vida.

Ah. Aproveitamos para endereçar outra carta.

 

Caro 2021,

Convenhamos que seus antecessores não foram lá essas coisas. Seu avô 2019 começou com Brumadinho destroçado, dirigindo-se em súplicas à irmã e vizinha Mariana. Já seu pai 2020 escancarou de vez a fragilidade humana, a começar pelos descaminhos que a própria humanidade traçou para si, muito mais destruindo que construindo. Aqui no Brasil, convivemos com a agravante do desdém absoluto pela vida, seja ela qual for, vegetal, animal ou humana, perdoe as repetições e rimas incidentais. Mas o que nos mantém como espécie, e como povo, acima de tudo, é nossa capacidade de indignação. Ao nos indignarmos com o que nos enfraquece, questionamos, até decidirmos enfrentar quem nos subjuga, seja nossa ignorância, nossa preguiça mais mental do que física, ou ainda a canalhice de uns poucos a afrontar a maioria. Mas é preciso, 2021, que você nos traga ventos de poeira solar e chuvas benfazejas de outras galáxias, a nos afastar o desânimo, a nos ressuscitar a esperança, a nos brindar a alegria de viver em sociedade, a nos aplacar a raiva, para que possamos outra vez nos indignar e reagir, com toda a elegância que seus ventos e chuvas nos puderem trazer. Que no mundo se repense nosso modo de viver, que no Brasil se repense o modo de fazer política. Que o povo daqui e de qualquer lugar perceba que a história está nas suas mãos. Que não se aceitem mais a acomodação e infundadas certezas a cederem espaço à vileza, à apatia e à idiotia. Que a certeza dê lugar à dúvida e à inquietude, a nos fazer partir para a descoberta e à reinvenção da humanidade.

Se isso for pedir demais, 2021, que pelo menos uma brisa e uma orvalhada você nos ofereça, a nos abençoar e esperançar.

Esperar, caro 2021, é que já não pode ser, e sim, sabemos que isso não depende de você.

Um abraço e até breve,

Cidadão Mario.   

11.25.2020

BEM VINDO, MARADONA

 Da próxima, que me convidem para o nascimento do Maradona, não para o velório. Que me arrastem a brindar um gol dele, não a acompanhar seu velório. Que a vida seja sempre festejada e a morte adiada. Mais que o sofrimento, a fraqueza, a queda, muito mais dói o velório. Da próxima vez, me convidem para o nascimento, o gol, a glória. Que o velório fique para quem propague e idolatre a morte, a quem a ela dê de ombros. Fico do lado de quem nasce, do lado de quem sobrevive. De quem vai, a saudade é tanta que é como se não tivesse ido. Bem vindo, Maradona. Bem vindo.

O SERMÃO DO ASFALTO

 

Em verdade vos digo, em economia, Deus não há.

Naquele tempo, Smith, Marx, Mises, Keynes, Hayek criaram teorias baseadas em determinados contextos, e as discutiram, às vezes entre si, outras com outros teóricos, e, mais frequentemente, sós.

Irmãs e irmãos, não deis ouvidos nem tempo àquele que oferece teorias como roupas a vestir territórios de regiões e tamanhos distintos, a agasalhar povos de origens, histórias e culturas diferentes.

Em verdade vos digo, prêt-à-porter, prontas para usar, em qualquer tempo e lugar, somente roupas de estação e moda feitas em série, a um preço para quem possa pagar.

Viremos agora a página.

Naquele tempo, Conrado Gini criou um coeficiente, um índice para medir a concentração de renda. Gini então disse: quanto mais vizinho de zero for esse índice, menor a concentração; quanto mais perto de um, ou de cem ou de mil se por cem ou mil for multiplicado, maior ela é.

E a que explicava explicou: quando e onde o coeficiente de Gini é baixo e a renda média por cidadão é alta; quando e onde a concentração de renda é baixa e o PIB per capita é alto, e há educação para compreender o que são essas coisas, se está perto da civilização.

E o que citava e dava exemplos exemplificou e citou: por exemplo, Holanda; para citar, Noruega.

E a que explicava explicou: quando e onde o coeficiente de Gini é alto e a renda média por cidadão é baixa; quando e onde a concentração de renda é alta e o PIB per capita é baixo, e não há educação para compreender o que são essas coisas, se está perto da barbárie.

E o que citava e dava exemplos exemplificou e citou: o Brasil.

Em verdade vos digo, a discussão entre Estado Mínimo e Estado Máximo é um barco afundado no oceano da realidade. Holanda e Noruega têm participações do Estado na economia totalmente desproporcionais entre si, e assim o é nas duas maiores economias do mundo.

Em verdade vos digo, cada povo, mais do que deve, tem que encontrar soluções próprias para suas próprias e únicas realidades.

Viremos a página mais uma vez.

Naquele tempo, a Constituição da República Federativa do Brasil era do Estado do Bem Estar Social. O Estado, por meio de Governos, garantiria direitos, como à vida, à educação e à saúde, e teria como três dos seus cinco fundamentos a cidadania; a dignidade; e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.

Em verdade vos digo, em vez de se discutir em Bizâncio teorias que geralmente sequer são conhecidas por quem as professa; ao invés de proferi-las no deserto para seres soterrados pelo egoísmo dos imbecis,

Praticar os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa bem poderia pôr o Brasil no Mundo.

Palavra da reflexão.

 

11.17.2020

RELIGIÃO

 

A começar que sou herege, porque sou grego. Politeísta. Acho muita responsabilidade deixar tudo nas costas de um só. Ou de uma só. Nascemos de mulheres, deus é deusa. Zeus é Afrodite, acredite se quiser.

A continuar que sou hebreu expurgado sem nunca ter sido. Panteísta. Como Baruch Spinoza. Deus está, em toda parte, não propriamente é. Vá dizer isso em inglês ou francês e depois fale mal da nossa língua.

A permanecer que sou africano. Há espíritos do bem e do mal. Incorporam na gente sem que a gente perceba.

A enlouquecer todos os dias que sou católico luterano. Peço desculpas e que Jesus leve consigo minha culpa. E que Maomé só expresse o que for amor e paz.

A ficar que sou budista, desapegado de quase tudo, menos das gentes.

A ilustrar que sem ter nenhuma tenho infinitas religiões indianas que sequer conheço.

A confundir que sou kardecista, com a diferença de que reencarno todos os dias em outro planeta, cheio de sol, de lua, de mar e montanha, de canções, de vinhos e de mulheres-deusas interessantes e inteligentes, todas minhas amigas. Uma será minha amante, que dará luz à nossa filha. Haverá homens, somente aqueles que me são amigos.

A terminar que não haverá um final.

11.06.2020

HOMEM E MULHER

O texto a seguir foi postado em 9 de setembro de 2017. O atual título era subtítulo de "Cortinas de fumaça". À exceção de ter sido retirada a última frase - Ou não tem nada a ver? (que não tem nada a ver) -, tudo permanece igual, pois parece que foi hoje.

Dizem que religião é um dos assuntos proibidos, mas, se não nos falarmos, aí mesmo é que não vamos nos entender, e dar de bandeja para quem ganha com isso.

Há bons religiosos, que desempenham seu papel com a intenção de fazer o bem, de trazer conforto, esperança, consolo, remédio e comida. Uma coisa é o religioso; outra, o manipulador.
Se tivermos sorte e determinação; se conseguirmos protestar e discordar civilizadamente, mantendo as amizades acima das nossas paixões e supostas verdades em matéria política, teremos eleições em 2018. (Que ninguém se iluda, isso depende de nós.) É bastante provável que alguns candidatos de 2014 o sejam novamente. Lembro-me de mais de um que falava sobre qualquer coisa e depois concluía: “Para mim, casamento é entre homem e mulher”. Pouco importava se a questão era o panorama político, beirando à ruína; o andar para trás da economia; a cruel e burra distribuição de renda – a 76a entre 136 países; a violência a passos largos para a barbárie; ou as hordas de desgraçados vendendo ou se entupindo de drogas, principalmente a mais barata e vil, por absoluta desesperança e falta de oportunidades, a grande maioria desde o nascimento. Nada disso importava, o que realmente importava para aqueles candidatos era o bordão que os conectava: “Para mim, casamento é entre homem e mulher”. Não se elegeram, nem se esperava por isso, mas alcançaram o que queriam: abocanhar mais poder. Seus eleitores não pensam sobre si - suas péssimas condições de vida, seus filhos fora da escola ou a frequentando sem condições de aprendizagem, podendo ser mortos dentro da escola, enquanto os nossos filhos, tomara – Deus queira - que voltem para casa, sãos e salvos.
Os eleitores dos que levam livros religiosos para o lugar errado, apenas para abocanhar mais e mais poder, mera, covardemente fisiológico, convivem conosco, em nossas casas, em nossos trabalhos, nas lojas, nas ruas. Mas não os vemos, somos de mundos diferentes. Eles nos veem. E nos escutam. Como falar com eles? 

10.20.2020

A ONU E OS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

A ONU e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

 

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade. Estes são os objetivos para os quais as Nações Unidas estão contribuindo a fim de que possamos atingir a Agenda 2030 no Brasil.

Do website da ONU.

 

A Organização das Nações Unidas foi fundada em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Atualmente é composta por 193 Estados Membros. O preâmbulo da Carta da sua criação, disponível em seu website[1], afirma:

Nós, os povos das nações unidas, determinamos salvar as gerações seguintes do flagelo da guerra, que duas vezes em nossas vidas trouxe tristeza incalculável para a humanidade, e reafirmar a fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos de homens e mulheres e de nações grandes e pequenas, estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito pelas obrigações decorrentes dos tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e promover o progresso social e melhores padrões de vida em maior liberdade.

 

Foi com esse espírito que em 2015 foram lançados pela ONU os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Também conhecidos como Agenda 2030, sucederam os Objetivos do Milênio (ODM), que tiveram como prazo o ano de 2015.

Enquanto os ODM eram oito, os ODS são 17. Mais específicos que os seus antecessores, cada um possui metas, com respectivos indicadores para que possam ser alcançadas em todo o mundo. Vale a pena listá-los aqui: ODS 1 - Erradicação da Pobreza; 2 - Fome Zero e Agricultura Sustentável; 3 - Saúde e Bem Estar; 4 - Educação de Qualidade; 5 - Igualdade de Gênero; 6 - Água Potável e Saneamento; 7 - Energia Limpa e Acessível; 8 - Trabalho Descente e Crescimento Econômico; 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura; 10 - Redução das Desigualdades; 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis; 12 – Consumo e Produção Responsáveis; 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima; 14 - Vida na Água; 15 – Vida Terrestre; 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes; e 17 – Parcerias e Meios de Implantação.

Embora a prioridade seja a ação de governos, os ODS também têm servido para pautar uma agenda de desenvolvimento sustentável para o mundo empresarial. Como divulgado no website da Bolsa de Valores – a B3 -, o “Raio X” da carteira de ações componentes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) de 2020 da Bolsa aponta que 98% das companhias, segundo suas próprias declarações, usam a Agenda 2030 e os ODS como referências para a sustentabilidade em seus negócios; e 93% declaram ter realizado uma análise de materialidade para identificar os ODS prioritários para suas atividades[2].

O conceito de desenvolvimento sustentável foi lançado oficialmente em 1987, no relatório da ONU chamado “Nosso futuro comum”, após muitos anos de discussões entre desenvolvimentistas e ecologistas, que, como se sabe, ainda perduram: desenvolvimento sustentável é o capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de suprir as necessidades das futuras gerações. Logo, o desenvolvimento sustentável é o que não esgota os recursos para o futuro, aquele em que se busca harmonizar o desenvolvimento econômico com a conservação ambiental, como se lê no website da WWF[3].

Infelizmente, em que pesem esforços de líderes de nações e compromissos firmados nas Conferências das Partes, como a de 2015 em Paris – a COP 21 -, há quem não os respeite e até desdenhe deles.

Aqui no Brasil, neste ano de 2020, em meio a uma pandemia que tem como sua mais comum e grave consequência problemas respiratórios, houve recorde de queimadas. Não deixa de ser curioso que a preocupação mais repetida seja a de que países estrangeiros poderão diminuir ou mesmo evitar investimentos em nosso país por causa do descaso com o Meio Ambiente. Muito mais do que isso, esse descaso, mentirosamente negado, vai na contramão do desenvolvimento sustentável, justamente comprometendo a disponibilidade de recursos já no presente. Basta ver o que diz a Embrapa[4]:

Sabe-se que a queimada altera, direta ou indiretamente, as características físicas, químicas, morfológicas e biológicas dos solos, como o pH, teor de nutrientes e carbono, biodiversidade da micro, meso e macrofauna, temperatura, porosidade e densidade. Sem falar no aumento do efeito estufa, na redução da qualidade do ar e da água, e da saúde.

 

Ainda segundo a Embrapa, “as queimadas podem ser abolidas pelo uso de tecnologias como práticas conservacionistas de solo e água e sistemas de produção sustentada”.

Sejamos otimistas. É de se esperar que em breve voltemos à civilização adequada ao século XXI. Voltando aos ODS, em sua opinião, qual ou quais deveriam ser priorizados no Brasil?

 

Sua opinião é muito importante. Sempre.

 

Um abraço,

 

Cidadão Mario.



[1]https://www.un.org/en/about-un/index.html.

[2][2][2] Fonte: http://www.b3.com.br/pt_br/noticias/b3-divulga-a-15-carteira-do.htm.

[3]https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/desenvolvimento_sustentavel/..

[4]Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Publicação de 2012, em https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/956695/impactos-das-queimadas-na-qualidade-do-solo---degradacao-ambiental-e-manejo-e-conservacao-do-solo-e-agua.

Todos os websites acessados em 19.10.2020.

 

9.11.2020

O MITO

 I – A operação Lava Jato

Mito é o primo rico da mentira e fato o primo pobre da verdade. Mito é fábula: a mentira criativa. Verdade cada um pode ter a sua, e o fato é a constatação.

Nada do que se fala aqui serve de consolo, nem de longe tem essa intenção, que é apenas mostrar como frequentemente mitos se passam por fatos.

O fato de que existe corrupção no Brasil há muitos anos criou uma série de mitos. Seria um traço cultural do Brasil, decorrente da colonização portuguesa. Há pesquisas que evidenciam fatos a desfazer esse mito. Em vez de lançar mão de algumas delas, vamos buscar o caminho da arte, que, mito ou fato, ora imita a vida e ora é por ela imitada. Erêndira, personagem de Gabriel Garcia Márquez, é obrigada por uma tia a se prostituir, e Tereza Batista, de Jorge Amado, é vendida por uma tia para satisfazer os ímpetos e crueldades sexuais de um homem. Dois exemplos a nos deixar, como em vários outros, presos ao dilema de quem imita quem. Voltando ao mito do ha ha hu hu, a corrupção é nossa, assista-se por exemplo à série e/ou ao filme SUBURRA, para conhecer um pouco da corrupção italiana contada por meio da ficção, mas com fatos de sobra, históricos e atuais, a embasá-la. Alguém será capaz de dizer, ora, italianos são latinos como nós, e por isso são corruptos. Assista-se então ao filme norte-americano A LAVANDERIA, com Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Bandeiras, baseado em fatos reais, que conta a história feita de muitas outras de corrupção, todas reais, fáticas, de empresas não só dos Estados Unidos da América como de uma, sim, brasileira. Ah, então a corrupção é do Novo Mundo e/ou latina. Uma das pedras que teimam em não sair desse sapato é o caso Lockheed, nome de uma empresa, sim, norte-americana, que nos anos 70 do século passado corrompeu poderosos alemães, holandeses e japoneses. A corrupção não tem pátria nem etnia, não faz parte de uma cultura, embora seja ela mesma, a corrupção, uma cultura.

Cuidado é preciso também quando se diz “somos corruptos”, a não ser nos casos de confissão disfarçada de justificativa.

A corrupção nunca tinha sido sistêmica. Fato ou mito, como saber? Ficamos sabendo da  sistemática da corrupção por meio da combinação de alguns fatores, alguns deles recentes em nosso país. No mundo inteiro, a investigação de práticas criminosas se torna a cada minuto mais dotada de ciência e tecnologia; no Brasil, a liberdade de comunicação e o jornalismo investigativo só foram ressuscitados entre 1985 e 1988, anos que ficaram marcados pelo fim do regime militar e ditatorial iniciado em 1964 e pela promulgação da atual Constituição da República Federativa do Brasil; e foi em 2013, há poucos sete anos, que entrou em vigor a Lei  nº 12.850, que define organização criminosa, e enuncia, em seu artigo 3º, que, em qualquer fase da persecução penal, serão permitidos, sem prejuízo de outros já previstos em lei, determinados meios de obtenção da prova - entre eles o da colaboração premiada (sim, colaboração e não propriamente delação, que deve ser compreendida como uma das espécies da primeira). Tecnologia, liberdade e método de investigação permitiram que conhecêssemos tamanho, abrangência e profundidade da corrupção em nosso país. A operação Lava Jato fez uso intensivo e extensivo dessa combinação.

O mérito da Lava Jato, uma operação policial, foi desbaratar esquemas e permitir à Justiça investigar, julgar e  - finalmente, e com base na Lei, algo próprio da democracia - punir corruptos. Infelizmente, esse mérito teve a empaná-lo o sensacionalismo, a vaidade e a falta de limites de alguns, a generalização conceitual em relação à política e a necessidade de muitos de acreditar em mitos. Promotores, procuradores e juízes não se confundem com heróis, e via de regra, heróis são mitos.

Agora, o gosto amargo da desilusão e decepção com respeito à Lava Jato bate na boca dos que acreditaram na mitologia que se criou em torno dela, que foi e é nada mais, nada menos que uma operação policial de investigação de suspeitos de corrupção.

II – O “Mito”

A disputa entre razão e emoção tem um dos seus momentos mais acirrados e perigosos nas eleições. A avaliação de riscos e oportunidades se fragiliza diante de verdades daquelas que cada um tem a sua, de raivas, medos e preconceitos, dos truques do marketing político e do estresse de um noticiário que se vale disso tudo, desde o racionalismo da avaliação até a exaustão da emoção, que também invade corações e mentes de quem dá as notícias.

Um dos mitos fabricados para nos diminuir como povo e enfraquecer nossa democracia é: o brasileiro não sabe votar. Ora. O mundo não sabe votar e por isso todo mundo vota, essa é a lógica da escolha, que se baseia como sempre na humana mistura de razão e emoção, a mesma lógica da democracia e do voto. Assim não se deve julgar o voto de ninguém. Nem por isso devemos deixar de analisá-lo, pelo menos para tentar evitar repetições muito perigosas.

As eleições de 2018 no Brasil foram mitológicas. A começar pelo “mito”. Mito é aquilo ou aquele que não existe, mas que se materializa na mente de algumas e às vezes de muitas pessoas. Há os que se identifiquem com o presidente eleito, mas mostram as pesquisas que não são a maioria. A bem da verdade, a com V maiúsculo, a omissão e mesmo a pusilanimidade de algumas lideranças políticas foram a causa mais importante e revoltante do que aconteceu em outubro de 2018. Mas outra de decisiva importância foi uma série de mitos capazes de iludir a maioria.

Meu partido é o Brasil, como se o Brasil fosse um único ser, de pensamento uníssono. Quem pautou sua vida pelo desrespeito seria o bastião da ética. Um expulso do Exército por indisciplina seria um disciplinado. Um evangélico que prega matai-vos uns aos outros e ama o torturador como a ti mesmo. Existiria uma nova política. Os militares seriam mais capacitados que as outras classes  – sim, para a defesa, mas para governos, que se visite a história, daqui e do mundo. Todo político é corrupto, todos os partidos são corruptos, habitados cem por cento por corruptos. Um partido que tenha membros corruptos é e será um partido corrupto. Houve aparelhamento do Estado – como se houvesse alguma agremiação política que ao chegar ao poder não fizesse isso. Um outsider, com sete mandatos de deputado. Um economista de quem nunca se tinha ouvido falar seria um gênio, um superministro. Militares seriam partidários do liberalismo econômico. O liberalismo e o Estado mínimo seriam a solução para o Brasil - mito morto infelizmente junto com mais de uma centena de milhares de pessoas, até o momento (e o presidente diz, E daí?). O defensor e enaltecedor de ditaduras, ditadores, tortura e torturadores não traria nenhum risco à democracia (e não diria “E daí?”), ou a ditadura seria melhor que a democracia, exceto a cubana e a venezuelana – pois veja-se o que está acontecendo aqui e agora: há suspeitas de cooptação de membros da justiça e do judiciário, exatamente como aconteceu na Venezuela. A ditadura foi boa para o Brasil – logo ela, que, entre outras sequelas, deixou uma colossal dívida externa e inflação sem controle, só derrotadas, a duras penas, pela democracia. O patriotismo, liderado, desde a campanha, por um fiel seguidor do presidente dos Estados Unidos.

Mito é o primo rico da mentira e fato o primo pobre da verdade. Nas próximas eleições, optemos todos pelos fatos, ainda que a fúria das nossas emoções se esforce a nos fazer perdê-los de vista.