6.29.2013

O MOVIMENTO



Há fascistas no movimento. E neonazistas. E vândalos. Sou capaz de apostar que há marxistas e até estalinistas. Houve quem dissesse que há belgas, mas indianos não - paradoxalmente com insinuações de que somente determinadas castas e etnias estariam presentes.

Algo que não se discute: há apartidários e partidários.

Curioso é que não costumam falar de proporções e ninguém comenta que pelo menos um gênio esteve presente: aquele que disse a quem estava ao seu lado depredando uma placa, Maluco, essa placa é tua.

Era uma vez 1978, eu tinha 22 anos, era recém-formado em engenharia e havia uma ditadura. Um colega de faculdade e trabalho me perguntou se eu preferia o capitalismo ou o comunismo. Eu respondi, A democracia. Ele debochou de mim e me explicou que uma coisa era o regime político e outra o econômico.

Perdoem se insisto na minha redundantemente teimosa burrice: até hoje, entre o capitalismo e o comunismo, continuo preferindo a democracia.

Tão patético quanto propor uma constituinte específica, a ponto de ter que desistir dela no dia seguinte, é querer o impeachment de quem a propôs apenas por não aprovar seu governo. Eu não votei nela nem me tornei fã e talvez além de burro eu seja ignorante, mas me parece que não foi essa senhora que inventou a corrupção, como até o momento não houve indícios de que desta fosse cúmplice. Pelo contrário: com presteza, destituiu aqueles sobre os quais pesavam graves suspeitas e sobre seus cargos tinha o poder de fazê-lo. Há quem se esqueça de que, no Brasil, a democracia tem três poderes.

Outra passagem que acho pertinente é o comentário de um amigo meu, que, sabendo que há saudosos da ditadura, me disse, Eu sempre quis ser rei. Ora, digo eu, até para ser súdito a democracia é melhor.

Há quem exalte esse movimento como inédito, se esquecendo de que a história recente como a nem tão recente (1968) teve semelhantes, aqui e no mundo inteiro, inclusive com a percepção de mais de uma causa ao mesmo tempo. Nem a novidade da rapidez da comunicação deveria ser tida como aquilo de mais especial que ele trouxe, porque esse lugar está para sempre guardado para a acachapante desaprovação da (provavelmente) mais calhorda proposta de emenda constitucional surgida depois de 1988, ano em que o Brasil festejou a redescoberta do quanto é bom possuir uma constituição democraticamente construída.

Li no jornal que a senhora presidente pretende conversar com os estudantes pelas redes sociais. Melhor assim, presidente: conversar é melhor que pensar que se entende de tudo, porque também patética é a prepotência. E tão certo quanto eu jamais vá me dirigir à senhora como presidenta é que jamais vou chamá-la de prepotenta.

A causa sempre foi uma só.

Democracia, um beijo pra você.

6.19.2013

A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO – ROMANCE DE 2007 (MARIO BENEVIDES) – TRECHOS:

“Nada mais chamava a atenção de ninguém. Era normal a sucessão de guerras, desgraças, vilezas, grosserias explícitas e outras disfarçadas. Movimentos, protestos, marchas, armas de todo tipo, tudo (...) somente imagens coloridas. (...) O que fazer para chamar a atenção dos outros, ainda mais a ponto de provocar uma revolução? (...) Seria pacífica, sem tiros ou golpes de estado: uma revolução de mentalidade.”


“As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. (...) [A política] caíra em terreno ainda mais árido de interesse do que o experimentado pelas comunicações. (...) Nada mais parecia despertar o mais vago patriotismo – nem mesmo o velho futebol.”

“A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso. (...) Lá fora, indigentes, estudantes, burocratas, sobreviventes da vida nas ruas, atores e atrizes do Cerrado e arredores, índios e suas vestimentas características, índias inteiramente nuas, padres, freiras, estrangeiros radicados no país, profissionais de comunicação do mundo todo, militares, prostitutas, travestis, mulheres-crentes e suas tranças desalinhadas até a cintura, mulheres de pano na cabeça e no rosto, mulheres de tailleur e de minissaias e de calças despojadas e homens de terno e gravata e de bermuda, tipos os mais variados, alguns andando de um lado para o outro, enquanto outros preferiam sentar-se no chão e outros, ainda, deitaram-se. Todos em silêncio.”

(...)

“Desânimo nunca mais; imposições nunca mais; demagogia nunca mais; corporativismo nunca mais; inclusão, progresso econômico, financeiro e humano, sempre. Democracia sempre. Esclarecimento sempre. Cultura, educação, capacitação; respeito; ética - sempre. Punição por meio de prisão e/ou prestação de serviços comunitários, banimento e constrangimento por meio do mais absoluto ostracismo aos corruptos e corruptores. Assim foi.”

5.04.2013

UM APERTO


Eram nove e meia da noite de terça-feira, véspera do feriado do Dia do Trabalho. Eu esperava um taxi em uma rua erma, escura, onde se encontram modernos prédios de escritórios. O final da rua dá acesso a uma comunidade de pessoas pobres e suas casas pobres. Eu estava contente, havia acabado de cumprir uma tarefa difícil, dentro do prazo. O taxi demorava a chegar. Um sujeito de uns trinta anos, alto e magro, passando pela calçada do outro lado, me disse assim:

- Aí só trabalha gente rica, não é doutor? Só vejo entrar e sair carrão daí.

Ele atravessou, mas não inteiramente, parando no meio da rua sem movimento de carros.

- Deve ter gente de muito talento aí, não é, doutor?

Eu respondi que sim.

- O senhor sabia que tem pobre com talento, doutor?

Eu respondi que claro que sim, que eu sabia muito bem disso.

- Aqui perto, não sei se o senhor sabe, logo ali, virando a rua, tem uma comunidade. Nessa comunidade mesmo, doutor, tem muita gente de talento, que podia ter mais oportunidades.

- Eu sei disso – eu falei, não sem certo incômodo, mas pensei que, se ele quisesse algum ato violento, já o teria feito. Ele queira era conversa. Queria a oportunidade de dizer o que estava me dizendo.

- Posso me aproximar do senhor?

Eu disse que claro que sim. Ele chegou bem perto de mim. Vi que ele estava de camisa esporte, paletó e calça beges, calçando tênis. Ele passou a me falar me olhando nos olhos.

- Doutor. Já quiseram comprar a comunidade. Mas as pessoas não querem sair daí. Já moram faz muito tempo, querem...

- Que melhorem as condições de vocês e que deem mais oportunidades a vocês.

- Doutor, só tem gente boa aí.

Uma mulher bem humilde passou por mim e me cumprimentou, com o olhar baixo. Boa noite, doutor, ela me disse.

- Boa noite, eu respondi. O homem de paletó e calça beges me disse, em voz baixa e respeitosa:

- Não falei? Só gente boa, doutor. Depois:

- Não sei o que tem nesses prédios, se é hotel, shopping, não sei. Acho que as pessoas que trabalham aí também não sabem da nossa comunidade e que tem gente de talento bem aqui, bem ao lado desses prédios. Mas elas sabem, sim. Elas nos veem das janelas delas, devem ver.

Enquanto me fazia um convite para que eu um dia viesse visitar a comunidade, me assegurando de que eu seria muito bem recebido, o sujeito, me consultando antes se podia e depois de eu ter aceitado, me deu um firme, educado, caloroso aperto de mão.

Ele foi para a sua comunidade; eu continuei esperando o taxi.

3.30.2013

O PRIVILÉGIO

Quem me indicou o filme tem entre vinte e vinte cinco anos, mas as personagens são homens e mulheres aposentados, todos ingleses – aliás, bem ingleses, desses que até hoje ainda não entenderam como o império britânico ficou sem colônias. Uma viúva, que descobre que o falecido deixou dívidas; um marido e uma mulher frustrados (principalmente ela), porque, depois de uma vida dedicada ao serviço público, ficaram sem dinheiro para luxos; um juiz solteiro; outro solteiro que, com seus sessenta ou mais anos, marca encontros dizendo que tem menos de quarenta; uma solteira que se considera nobre; e outra, mais velha, que precisa fazer uma cirurgia na bacia e se acha ainda mais importante que a primeira. Todos vão parar no Hotel Marigold, “para idosos e bonitos”, que fica em uma das ex-colônias britânicas: a Índia. O dono, administrador, marqueteiro e faz-tudo do hotel é um bem-humorado indiano de uns vinte anos. Sua bela namorada não é a nora que a mãe dele gostaria de ter e tem um irmão que é metido a tomar conta dela. Se você ainda não assistiu a O Exótico Hotel Marigold, seja qual for a sua idade, fica a sugestão. Além da boa história e do elenco - por exemplo, quem faz a viúva é Judi Dench, a M do 007 na Operação Skyfall -, o filme traz uma preciosa observação: para os indianos, a vida é um privilégio, e não um direito.

Qualquer um de nós é um ser entre sete bilhões de outros seres de uma espécie entre sete bilhões de outras espécies. Um privilégio. A maior parte de nós não tem a maior parte do que os poucos de nós temos: onde morar, comida, roupa, medicina, estudo, liberdade de ir e vir, cultura, laser, trabalho. Estudar não é um saco – é privilégio. Trabalhar não é obrigação – é privilégio.

Provavelmente, a única coisa que não é privilégio é ter um governo, mas isso é um pensamento Marxista. Groucho Marxista: do Groucho Marx, que nos deixou pérolas como “Não entraria para um clube que me aceitasse como sócio”, ou “A humanidade, partindo do nada e com seu próprio esforço, alcançou as mais altas cotas de miséria". (É dele também a que diz “Esses são os meus princípios; se você não gostar, tenho outros”. A liberdade de associação de ideias é sua, não vou eu me meter a besta de tirar de você esse privilégio.)

A vida é um privilégio e assistir a filmes como os do Groucho Marx e os aqui citados é outro, que faz parte do primeiro. Boa vida pra você. E bons filmes.

3.23.2013

NO ANIVERSÁRIO DE 19 ANOS DE MARIA LUIZA

Hoje, Maria Luiza faz 19 anos. Assim que ela nasceu, fiz uma canção com um amigo meu, o engenheiro, violonista e compositor Sebastião Coelho. Faz tempo que não vejo o Tião. Ele deve continuar lá no Rio, mais precisamente na sua Maricá, enquanto que eu, em 2000, me mudei com a família para Florianópolis, onde moro até hoje. Os primeiros versos que fiz para a nossa Sonata de Maria Luiza dizem assim:

Quando a bruxa, no alçapão,
Traiçoeira me calar e me prender,
Minha voz, nessa canção,
Dirá bem mais do que eu tinha a dizer.

Enquanto Dona Bruxa não vem, eu e Maria Luiza temos compartilhado muita coisa. Acho que um ano depois que chegamos a Florianópolis, ela, com seus oito anos, escreveu uma frase que deverá ser a epígrafe do romance que pretendo lançar este ano, e que saiu num mural do Colégio Catarinense:

Bonita cidade, quero menos velocidade.

Tenho certeza de que vários desejos de Maria Luiza foram atendidos, mas esse, particularmente, não: os carros aqui estão cada vez mais velozes, a não ser quando parados em engarrafamentos, que vão se tornando uma triste constante nessa ilha tão bonita.

Outro desejo não atendido da Maria Luiza foi montarmos a peça que eu escrevi quando ela estava com os mesmos oito anos, chamada “Oh! Cacatua!”. Na peça, a cacatua do título chega a Florianópolis trazida da Austrália por fortes ventos: ventosamente. Não tive medida no número de personagens e o resultado é que a peça nem chegou a ser ensaiada. Mas deixamos gravado um trecho, onde eu imito as vozes de outros personagens e Maria Luiza diz as falas da cacatua com grande convicção e ótima entonação. É só uma questão de acharmos a fita gravada e o texto, que começamos tudo outra vez – mas só se Maria Luiza quiser.

Um pouco depois, foi ela que escreveu um livro infantil, que temos até hoje em casa e que um dia, se Maria Luiza quiser, publicaremos, com os mesmos desenhos feitos por ela para ilustrar o texto.
Já no ano retrasado, quando estava se preparando para o vestibular, Maria Luiza escreveu um conto, que publiquei no mariobenevides.blogspot.com e foi bastante elogiado, inclusive por profissionais das letras.
Podemos não ter montado até hoje “Oh! Cacatua!”, mas vivemos um monte de coisa juntos. Assistimos a seriados americanos de comédia, retratados por ela em caprichados desenhos em mais de um Dia dos Pais ou de meus aniversários. Quando ela estava ainda com dois anos, passeamos de mãos dadas pelo acostamento da estrada para São Lourenço, enquanto Rosa, minha mulher e mãe dela, descansava um pouco da bela mas tortuosa sucessão de curvas da estrada.

Dividimos, eu e Maria Luiza, muitos e cabeludos exercícios de matemática e português. Houve um certo binômio de Newton que não quis se revelar na noite dos estudos, mas, na manhã seguinte, indo para o aeroporto, eu consegui passar a solução para ela, que me disse, eu achei o mesmo resultado, papai.

Houve uma época em que eu viajava tanto, que Maria Luiza me desenhou em um avião da TAM com um telefone e um fio espiral saindo da janela do avião até chegar a ela na terra.
Na viagem que os três fizemos juntos no começo deste ano, Rosa nos fotografou de costas, caminhando por uma rua de Paris, eu com minha mão esquerda no ombro esquerdo da minha filha. Não fosse a foto feita por Rosa, jamais me seria possível ver essa cena, que tanto diz dessa nossa relação de pai e filha.

Hoje Maria Luiza faz 19 anos. Está cursando o segundo ano de medicina, faz balé na Escola Arte-Dança trabalho voluntário em uma clínica. Tem um namorado que é gentil com ela, o que nos deixa muito felizes, porque gentileza é algo muito precioso. Que o namoro deles dure o que durar, sempre com essa gentileza que percebemos entre os dois.

A última estrofe da minha sonata com Tião Coelho, feita para Maria Luiza assim que ela nasceu, se parece com a primeira, mas com uma pequena diferença:

Quando a bruxa, no alçapão,
Traiçoeira me fizer de seu refém,
Minha voz, nessa canção,
Dirá do tanto que eu te quero bem.

Enquanto Dona Bruxa não vem, digo eu mesmo: minha amada filha Maria Luiza, teu pai te quer muito, muito bem. Todo o que houver no mundo, todo o que for de todo mundo, todo o que for merecidamente somente teu.

3.06.2013

HERÓIS



Uma volta em um quarteirão de São Paulo.
Indignados sacos de lixo esperam o caminhão que os carregue
Dali.
Entre duas esquinas,
Um restaurante italiano e um botequim
Me lembram Adoniran Barbosa.
Outro Barbosa, Joaquim,
Não sem depois se desculpar,
Me lembrou (não Carlitos) Carvana.
Vai chafurdar, vagabundo.
Não posso. Não podemos, Senhor Ministro.
Assim como Vossa Excelência,
Vamos todos trabalhar.

12.08.2012

NIEMEYER, JOBIM, NELSON RODRIGUES... E UM PEQUENO TRATADO SOBRE A BURRICE


Em meu poema “O Burro”, expresso minha opinião de que a burrice humana se difere da do animal propriamente dito, por ser este uma espécie de José Régio em seu “Cântico negro”: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. Acontece que ambas têm este ponto em comum: a vontade.  O burro empaca por vontade, a digna vontade de não ser montado ou carregar coisas para ele inúteis. Pessoas, geralmente sem passar nem perto de alguma expressão da dignidade, optam pela burrice – aquela que é exclusivamente humana.

Quando eu era professor particular de Matemática e Física, mais de uma vez tive alunos cujos pais me diziam para que eu não perdesse meu tempo, porque o aluno ou a aluna – a filha ou o filho deles – era uma pessoa burra. Aqueles pais escolheram que seus filhos fossem burros. Nesses casos, meu trabalho não era exatamente ensinar Matemática ou Física, mas convencer aquele ou aquela adolescente (será que eu deveria dizer adolescenta?) de que ele ou ela não sofria de modo algum de burrice. Modestamente, ajudei-os a passar de ano e também a que fizessem a opção certa: a de não imitar seus pais, já que seus pais, por opção deles, pai e mãe, eram os verdadeiros burros, humanamente burros.

Uma das célebres frases do amigo do Oscar Niemeyer Tom Jobim é: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Pela vontade de alguns, Oscar Niemeyer seria condenado à forca depois de morto, porque era comunista. Pior ainda: Niemeyer era comunista e rico – coisa que não pode ser admitida pelos idiotas da objetividade. (Sua benção, Nelson.) Eu nunca fui comunista, por pensar que Marx e Engels, em seu Manifesto, acertaram no diagnóstico mas erraram na receita. Porém sou capaz de adivinhar que o igualitarismo sonhado por Oscar não era o da mediocridade. Li numa das mensagens que recebi que ele teria mamado nas tetas do poder público. Funcionários, empregados, profissionais autônomos, empresários, uni-vos! Ser pago pelo trabalho que se faz é mamar nas tetas de outrem! Outra pérola: alguém que não conheço, cuja mensagem me foi repassada por um amigo de quem costumo discordar e por isso sempre me faz lembrar Voltaire, disse que não podia opinar sobre a obra de Niemeyer por não ser arquiteto. Atenção. Se você estiver ouvindo Mozart ou Beatles neste momento, se não for músico, desligue o som. Se não é jogador de futebol, quem é você, que não sabe o que diz, alô Noel, para chamar Pelé e Messi de craques? E não venha me dizer que gosta da Maia Desnuda, a não ser sem roupa e com óleo e pincel no bolso.

Pior do que a clara opção pela burrice de não sentir o prazer de ter nascido no mesmo país do Niemeyer – que equivaleria a de um argentino de debochar de Jorge Luís Borges – é a covardia. Esperaram o ancião morrer para cuspir e espalhar uma medíocre, típica inveja do sucesso. Tom Jobim neles.

Claro: desde que sejam músicos. O que, convenhamos, é pouco provável.

10.14.2012

EU NO FACEBOOK

Eu no facebook
acabo de dizer o que estou pensando
o que deve representar certa gravidade:
faço paralelos entre o lançamento de um livro e a gravidez.

Eu no facebook já me adicionei e fui adicionado.
Sou um sinal de mais
Progressão Geoaritmétrica e com linha do tempo
O que deve representar certa gravidade

Porque o tempo é esse desconhecido
Quarta dimensão de quem terá sido
Não mais que um embrião.

Agora fico aqui e fico lá
Pasmo de mim mesmo em outros lugares fora de mim
Mesmo fazendo sonetos que dizem de mim.

9.25.2012

NÓS E A SUSTENTABILIDADE - CONVITES




NÓS E A SUSTENTABILIDADE


 
Por mais de dois anos venho trabalhando em um livro com temas da sustentabilidade, em parceria com Silvia Valdez, que divide comigo a organização, e mais catorze autores. Desde a concepção do livro, o convite aos autores e demais colaboradores, o recebimento, o projeto gráfico, a revisão e a diagramação para impressão dos textos, até seu envio para impressão, um extraordinário trabalho em equipe, que não deixou de ter alguns momentos de fortes emoções – por exemplo, o fechamento de um dos locais previstos para o lançamento, que está confirmado para 4, 8 e 9 de outubro, respectivamente em Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo. Já, já, aqui e em muitos outros lugares e meios, os convites, com locais e horários. Meus emocionados agradecimentos a todos que dividiram conosco essa realização.

mariobenevides.blogspot.com, 25 de setembro de 2012.

7.21.2012

FRIO


Com esse frio
Quem não tosar um bicho
Vai ter que vestir jornal.
Com um noticiário que
Capaz de pegar doença.

7.07.2012

HÉLIO DE LA PEÑA, OS DEZESSETE DA KOMBI E OS DEZOITO DO FORTE


Sábado ventoso em Florianópolis, minha mulher, gripada, enquanto nossa filha ainda está a caminho, de férias, voltando da serra gaúcha, e de ônibus, pedimos um peixe para almoçar em casa. Para acompanhar, ela, um tinto, eu, um Chardonnay, que se encontravam entocados e intocados na adega do apartamento, verdadeira personagem de novela moderna: artificial e sincera. A rádio FM tocava boas músicas, até que, às tantas, um David Byrne que, com minhas indevidas desculpas a ele e ao Caetano Veloso, ultimamente não me tem agradado. Por isso, depois do almoço, a TV. Eis que Angélica entrevista o Casseta Hélio de La Peña, vestido com a camisa do Botafogo. Nada contra qualquer outro sotaque - pelo contrário, sou viciado neles –, mas o carioca me inebria, muito mais que um tango, que um Malbec ou um Chardonnay. Nada contra qualquer time, a não ser o Boca Juniors, esse antijogo da modernidade - mas o Botafogo, na i-ne-nar-rá-vel narrativa do locutor Casseta, é o de 1967 e 68, o de 1989, o de 1995 e o de 2010; é o de um barão holandês, que, como o Bafo da Onça, acabou de chegar, cujo nome não sei - mas sei que é casado com uma brasileira e que seus antepassados vieram a nado da África para que ele nascesse na Guiana; é o de uma van, com samba da Beth Carvalho e hino alvinegro primeiro e único cantado pelo Zeca Pacodinho, em companhia de Edson Celulari, Marisa Monte, Ed Mota e mais alguns outros notáveis botafoguenses, que se perguntam: - Mas não éramos dezoito? De pronto, um deles esclarece: - Não, os dezoito eram os do Forte.
Pois é de longe que grito e tento por eles ser notado:
- Jesus Cristo, estou aqui! Somos, sim, dezoito! E atenção! Loco Abreu a vista! O branco-e-preto é outro, mas, nos pênaltis, em se cavando, tudo dá!
E assim me despeço: vou à livraria procurar o livro do Hélio de La Peña, que conta o Botafogo para crianças. Ele está certo: o Botafogo sempre será para crianças.

6.18.2012

O POETA E QUEM SENTE, MATEMATICAMENTE


Fernando Pessoa, um dos seus para sempre. O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. O que o poeta não disse, por falta de vontade (mais provavelmente), é que o hipócrita é o fingidor que finge tão completamente, que chega a não saber que é dor a dor que deveras sente. Que o cruel é um sofredor, persegue e subjuga tão repetida, tenazmente, que sabe e tem prazer na dor, a dor que deveras sente. A troco de que isso agora? zero, matematicamente.

5.29.2012

ANÚNCIO DE JORNAL


Agora é que o cara conseguiu me reinicializar e ainda não consultei certos sites que conheço. Não sei se as ilhas gregas foram vendidas, se as Falklands se tornaram Malvinas ou se Falklands e Malvinas abraçaram a Grécia, mergulharam com ela e encontraram sem braços uma estátua de mulher nua em dorso e nariz. Outra uma lanterna, outra uma castanhola, outra um ritmo a se desdobrar em muitos. Talvez a alemã ainda tenha saldo no banco, espero que a brasileira também. Que o mundo de repente se perceba desarmado e goste. Que os aviões planem em silêncio e lágrimas, suas asas acolham crianças e as ninem longe de barulhos. Que os generais não queiram guerras. Nem poder. Que este seja público. Cheio de vergonhas escancaradas. Que gurus não existam. Que a verdade não exista, que a maioria sim. Eu notebook. Aceito e-mails.

2.21.2012

ENQUANTO VOCÊ DORME

Enquanto você dorme, eu escrevo. Sou um inquieto. Um ansioso. Parafraseando Louis Armstrong, High anxi... high anxiety...

Enquanto vejo você dormindo, me aquieto.

Quando você acordar, isto será mais uma declaração de amor a você.

Mesmo com o cão fungando nervosamente deitado no chão ao meu lado.

Hoje é feriado. O dia nasce quase em silêncio. Um outro cão late, pássaros comemoram o sol, um ou outro carro passa na rua lá embaixo.

Ontem à noite, você me perguntou: - Você está ouvindo o helicóptero?

Ontem à noite, voavam um helicóptero e um ventilador. Que permanece voando, seu zumbido é como o de um avião pequeno. Menor que um helicóptero, claro.

O cão ao meu lado está em silêncio, agora, enquanto, lá fora, um pássaro se destaca dos outros, avisa que vai se afastar e se afasta. Vai para longe, uma outra árvore, que deve estar longe da primeira. Não vou à janela, mesmo porque, agora, todo momento é um novo agora, há uma sirene.

Isto será necessariamente uma declaração de amor, seja em que formato for, seja com que conteúdo for. Uma declaração de amor a você, que dorme profundamente.

Minha ansiedade passou. Há vezes em que ela passa. Há outras em que ela se passa.

Você dorme bonita como sempre – e como sempre, lembro, em prece, Vinicius e Tom:

“Pra que ela acorde como o dia... oferecendo beijos de amor...”

Um sorriso. Me bastará um sorriso seu. Alguém dirá, Mas ele não tem mais nada pra fazer, que escrever uma banalidade?

Eu poderia fazer o Tratado Geral das Banalidades. Tratado Geral das Coisas Banais – por Mario Benevides. Antropólogo, sociólogo, farmacêutico e hermeneuta. O antropólogo, sociólogo, psicólogo e hermeneuta Mario Benevides acaba de lançar o seu Tratado Geral sobre Coisa Nenhuma. Grande confusão causou a repórter, ao chamar o autor do tal Tratado de proxeneta, desculpando-se depois: - Eu queria dizer astronauta.

Dorme, meu amor, embora o alarme do estacionamento tenha se sobreposto ao canto do pássaro. Há todo um mar, ainda. Poluiu-se recentemente por causa das chuvas, porque se misturam, nas chuvas que caem, excrescências de excrescentes que ligam as excrescências deles nas redes fluviais e pluviais. O rio, o mar, a chuva, o sol, enquanto houver sol e for feriado, iremos à praia. Leremos um livro e uma revista, nos alternando entre uma e outro, entre umas e outras, que serão poucas, moderadas, pode acreditar em mim. Rabiscarei mais umas linhas do meu tratado inútil e depois dormirei, à tarde, enquanto você fará uma visita ou uma caminhada.

Assim somos, fomos feitos, sonhos, sonos, planos. Ansiedades. E calmarias.

O CONSELHEIRO

- Quando eu contei pra ele, ele chorou.
- Qualquer maneira que ele reagisse, você não iria gostar.
- Eu preferia que ele gritasse.
- Se ele gritasse, batesse em você, se ele saísse batendo a porta, se respirasse fundo e dissesse palavras racionais ou mesmo bonitas... se ele ficasse em silêncio, profundo, misterioso, indiferente ou desdenhoso... nada, nada iria agradar a você.
- Não sei.
- Pode ter certeza, é assim que nós somos. A gente quer que aceitem o que a gente diz, não importa o que. Nem a quem. Somente se ele concordasse com você...
- Não era uma questão de concordar, mas de aceitar, de achar natural, sabe, até achar... bonito.
- Poucas pessoas acham isso bonito.
- Mas faz parte da vida.
- Tem muita coisa que faz parte da vida que não é nada bonita.
- Ah, mas não valem comparações com crimes, violência, isso não tem nada a ver com essas coisas.
- Concordo. Mas é algo que, para a maioria, ainda não é normal.
- E o que é normal?
- Um dos sentidos é estar de acordo com uma determinada norma. Ainda que hoje a norma – a lei - seja aceitar, incluir... a norma social de muitos ainda é contrária. Já foi pior, você sabe.
- Eu fiquei muito chateada.
- De qualquer jeito você ficaria. É normal.
- O que é que eu devo fazer?
- Tentar de novo. Vá lá e volte a conversar com ele.
- Pra você é fácil.
- Claro.
- Não é com você, não é? Não tá nem aí... Conselho, se...
- Pague a conta. E vamos embora.

1.22.2012

PERGUNTAS, SAMBAS E FOTOGRAFIAS

Meu amigo Luiz Mauro Beethoven, em resposta a uma mensagem minha, gentilmente me chama de Lima Barreto e me pergunta se a letra de um samba que escrevi há alguns anos tem música. Sim, eu respondo, mas, como foi feita por mim, que não sou Beethoven nem sambista, pode se parecer com a de um outro samba, como saber? E como grafá-la, se não sou pianista como os dois Luíses Beethovens? Meu amigo, que já desfilou numa escola de samba, me manda uma foto de um quarto (será uma sala?) que fica numa cidade chamada Modesto, na Califórnia, da casa de um amigo dele, onde, numa estante, se encontra um exemplar do meu romance “A revolução do silêncio”. Essa revolução nasceu “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros”, nome do professor de violão de Policarpo Quaresma, claro, de Lima Barreto, primeiro e único. Luiz Mauro me pergunta se haverá outro livro meu no oeste americano. Modesto, pergunto: haverá uma Califórnia? Ou tudo não passou de um sonho de um dia de inverno, quando alguém entrou numa igreja e fingiu rezar? E uma Liverpool onde um baixista canhoto pergunta de onde todas as pessoas solitárias vêm e a quem elas pertencem, haverá? Onde metade do que um míope diz é sem sentido, mas ele diz assim mesmo, para alguém de olhos de concha e cabelos de céu flutuante, enquanto uma guitarra suavemente chora? Um submarino amarelo, uma banheira, haverá uma banheira com duas cantoras e dois cantores dentro, alguém sabe? Eu e meu irmão, que também se chama Luiz e, como eu, nada sabe de piano, já fomos vizinhos do Luiz Mauro, na Rua Álvaro Ramos, em Botafogo, em frente ao Barbas, um bar do Nelsinho Rodrigues e outros barbudos, para onde eu sempre fugia de uma empregada que não gostava de mim, por mera questão de reciprocidade. Luiz Mauro, na mesma mensagem, me manda um link com fotos do aniversário da Rosa, quando estivemos com ele. Ela me diz, Salva as fotos, grava! Rosa supõe que links sejam como banheiras com cantoras e cantores dentro: passageiros. Eu acho que ela tem razão. Algo que eu nunca tive. Com meu especial abraço para o Luiz Mauro Gomes Silveira, meu amigo Beethoven II, aí vão a letra, a foto e o link.

EU, GRANDE GATSBY

O meu pai é barítono,
eu nasci tenor.
A mãe é Flamengo, eu,
tricolor.
Pedi uma Coca,
só tinha Pepsi,
eu, grande Gatsby,
já não tenho glamour.
Mon amour toujours,
vou fazer uma tour
na Paciência,
por causa da Hortência,
que não joga basquete,
que é garçonete
no bar do Nestor.

O meu pai é barítono,
eu nasci tenor.
Ela é vascaína, eu,
sofredor.
Pedi uma Pepsi,
só tinha diet,
eu, da society,
já não tenho glamour.
Mon amour toujours,
vou fazer uma tour
na Piedade,
fiquei na saudade,
nem mesmo a Adelaide
me quer como amor.

O meu pai é barítono...





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1.14.2012

O INTERNÁUFRAGO E AS VISITAS

É sempre um prazer receber visitas, principalmente de quem me reconhece neste espaço, que geralmente não me via faz tempo e me pergunta: "Mas é você mesmo? Lembra de mim?". Não só sou eu mesmo como sempre me lembro, e muito gostaria de responder às mensagens que chegam em meu endereço de e-mail - que, como vêm via comentário no blog, não contêm o respectivo do autor ou autora, meus muito bem-vindos visitantes. Fico eu sem poder responder, a ver navios, que ainda por cima são virtuais, não me permitem sequer a tradicional mensagem dentro de uma garrafa. Assim (e pela segunda vez), seguem meus dois endereços para correspondência, os quais vou incluir também no campo do meu perfil (o que, evidentemente, já devia ter sido feito há muito tempo): mariocsbenevides@hotmail.com / mariocsbenevides@gmail.com.

Da ilha de Santa Catarina, Florianópolis, hoje com chuvas e céu cinzento,

Mario, o internaúfrago.

1.07.2012

PAUSAS

Haverá inspiração para quarenta minutos de sobra de lan-house?
Em Búzios?
Depois da primeira frase, uma pausa; restam trinta e três minutos.
Há uma falha na barra de espaço e este de repente se ausenta,
implica, requer que eu replique, reclique, reaperte, reaplique
a barra de espaço, para produzir uma pausa,
simples espaço entre duas palavras.
Pausa maior, só se for um

parágrafo.

Reticências, uma pausa maior que um espaço,
menor que um

parágrafo.

Se o texto for uma peça de teatro,
a pausa se pede por extenso: pausa.
Longa ou curta,
pau-sa.

Vinte e quatro minutos.
Menos,muito menos que vinte e quatro horas,
Hoje,
um belo dia de sol em Búzios.
Dia de vagabundos,
de quem está de férias,
o que não é o caso da lan-house e seu ad-
ministrador,
que trabalha onde eu divago,
passeio com palavras,
brincando com o tempo,
não é sempre assim,
raro isso é
possível.

Fico por aqui,
quando ainda me restam vinte minutos.

Pelo menos de lan-house.

Pelo menos nesta lan-house
que fica em Búzios.

12.27.2011

LUZ DE ELEVADOR

O espelho e a luz do elevador
provam nossa existência depois da morte.
Todos ficamos cadavéricos
debaixo da luz descolorida que sobe ou desce
no reflexo magnético do espelho mórbido.
Vizinhos que se cumprimentam e se olham no espelho sabem:
naquele momento não são, estão de passagem,
espectros de si mesmos.
Comentam seus espectros
que houve um tempo dos pais ou avós em que a luz
era de abajur.
Se um deles aceitar o convite para trocar de luz
de elevador para de abajur, a viagem será no tempo
desde que não se fale da cor – lilás. Neste caso
a viagem será também de bairro.
Chegamos ao térreo,
não houve o convite, somos nós mesmos
vivos
em si mesmos.