9.25.2012

NÓS E A SUSTENTABILIDADE - CONVITES




NÓS E A SUSTENTABILIDADE


 
Por mais de dois anos venho trabalhando em um livro com temas da sustentabilidade, em parceria com Silvia Valdez, que divide comigo a organização, e mais catorze autores. Desde a concepção do livro, o convite aos autores e demais colaboradores, o recebimento, o projeto gráfico, a revisão e a diagramação para impressão dos textos, até seu envio para impressão, um extraordinário trabalho em equipe, que não deixou de ter alguns momentos de fortes emoções – por exemplo, o fechamento de um dos locais previstos para o lançamento, que está confirmado para 4, 8 e 9 de outubro, respectivamente em Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo. Já, já, aqui e em muitos outros lugares e meios, os convites, com locais e horários. Meus emocionados agradecimentos a todos que dividiram conosco essa realização.

mariobenevides.blogspot.com, 25 de setembro de 2012.

7.21.2012

FRIO


Com esse frio
Quem não tosar um bicho
Vai ter que vestir jornal.
Com um noticiário que
Capaz de pegar doença.

7.07.2012

HÉLIO DE LA PEÑA, OS DEZESSETE DA KOMBI E OS DEZOITO DO FORTE


Sábado ventoso em Florianópolis, minha mulher, gripada, enquanto nossa filha ainda está a caminho, de férias, voltando da serra gaúcha, e de ônibus, pedimos um peixe para almoçar em casa. Para acompanhar, ela, um tinto, eu, um Chardonnay, que se encontravam entocados e intocados na adega do apartamento, verdadeira personagem de novela moderna: artificial e sincera. A rádio FM tocava boas músicas, até que, às tantas, um David Byrne que, com minhas indevidas desculpas a ele e ao Caetano Veloso, ultimamente não me tem agradado. Por isso, depois do almoço, a TV. Eis que Angélica entrevista o Casseta Hélio de La Peña, vestido com a camisa do Botafogo. Nada contra qualquer outro sotaque - pelo contrário, sou viciado neles –, mas o carioca me inebria, muito mais que um tango, que um Malbec ou um Chardonnay. Nada contra qualquer time, a não ser o Boca Juniors, esse antijogo da modernidade - mas o Botafogo, na i-ne-nar-rá-vel narrativa do locutor Casseta, é o de 1967 e 68, o de 1989, o de 1995 e o de 2010; é o de um barão holandês, que, como o Bafo da Onça, acabou de chegar, cujo nome não sei - mas sei que é casado com uma brasileira e que seus antepassados vieram a nado da África para que ele nascesse na Guiana; é o de uma van, com samba da Beth Carvalho e hino alvinegro primeiro e único cantado pelo Zeca Pacodinho, em companhia de Edson Celulari, Marisa Monte, Ed Mota e mais alguns outros notáveis botafoguenses, que se perguntam: - Mas não éramos dezoito? De pronto, um deles esclarece: - Não, os dezoito eram os do Forte.
Pois é de longe que grito e tento por eles ser notado:
- Jesus Cristo, estou aqui! Somos, sim, dezoito! E atenção! Loco Abreu a vista! O branco-e-preto é outro, mas, nos pênaltis, em se cavando, tudo dá!
E assim me despeço: vou à livraria procurar o livro do Hélio de La Peña, que conta o Botafogo para crianças. Ele está certo: o Botafogo sempre será para crianças.

6.18.2012

O POETA E QUEM SENTE, MATEMATICAMENTE


Fernando Pessoa, um dos seus para sempre. O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. O que o poeta não disse, por falta de vontade (mais provavelmente), é que o hipócrita é o fingidor que finge tão completamente, que chega a não saber que é dor a dor que deveras sente. Que o cruel é um sofredor, persegue e subjuga tão repetida, tenazmente, que sabe e tem prazer na dor, a dor que deveras sente. A troco de que isso agora? zero, matematicamente.

5.29.2012

ANÚNCIO DE JORNAL


Agora é que o cara conseguiu me reinicializar e ainda não consultei certos sites que conheço. Não sei se as ilhas gregas foram vendidas, se as Falklands se tornaram Malvinas ou se Falklands e Malvinas abraçaram a Grécia, mergulharam com ela e encontraram sem braços uma estátua de mulher nua em dorso e nariz. Outra uma lanterna, outra uma castanhola, outra um ritmo a se desdobrar em muitos. Talvez a alemã ainda tenha saldo no banco, espero que a brasileira também. Que o mundo de repente se perceba desarmado e goste. Que os aviões planem em silêncio e lágrimas, suas asas acolham crianças e as ninem longe de barulhos. Que os generais não queiram guerras. Nem poder. Que este seja público. Cheio de vergonhas escancaradas. Que gurus não existam. Que a verdade não exista, que a maioria sim. Eu notebook. Aceito e-mails.

2.21.2012

ENQUANTO VOCÊ DORME

Enquanto você dorme, eu escrevo. Sou um inquieto. Um ansioso. Parafraseando Louis Armstrong, High anxi... high anxiety...

Enquanto vejo você dormindo, me aquieto.

Quando você acordar, isto será mais uma declaração de amor a você.

Mesmo com o cão fungando nervosamente deitado no chão ao meu lado.

Hoje é feriado. O dia nasce quase em silêncio. Um outro cão late, pássaros comemoram o sol, um ou outro carro passa na rua lá embaixo.

Ontem à noite, você me perguntou: - Você está ouvindo o helicóptero?

Ontem à noite, voavam um helicóptero e um ventilador. Que permanece voando, seu zumbido é como o de um avião pequeno. Menor que um helicóptero, claro.

O cão ao meu lado está em silêncio, agora, enquanto, lá fora, um pássaro se destaca dos outros, avisa que vai se afastar e se afasta. Vai para longe, uma outra árvore, que deve estar longe da primeira. Não vou à janela, mesmo porque, agora, todo momento é um novo agora, há uma sirene.

Isto será necessariamente uma declaração de amor, seja em que formato for, seja com que conteúdo for. Uma declaração de amor a você, que dorme profundamente.

Minha ansiedade passou. Há vezes em que ela passa. Há outras em que ela se passa.

Você dorme bonita como sempre – e como sempre, lembro, em prece, Vinicius e Tom:

“Pra que ela acorde como o dia... oferecendo beijos de amor...”

Um sorriso. Me bastará um sorriso seu. Alguém dirá, Mas ele não tem mais nada pra fazer, que escrever uma banalidade?

Eu poderia fazer o Tratado Geral das Banalidades. Tratado Geral das Coisas Banais – por Mario Benevides. Antropólogo, sociólogo, farmacêutico e hermeneuta. O antropólogo, sociólogo, psicólogo e hermeneuta Mario Benevides acaba de lançar o seu Tratado Geral sobre Coisa Nenhuma. Grande confusão causou a repórter, ao chamar o autor do tal Tratado de proxeneta, desculpando-se depois: - Eu queria dizer astronauta.

Dorme, meu amor, embora o alarme do estacionamento tenha se sobreposto ao canto do pássaro. Há todo um mar, ainda. Poluiu-se recentemente por causa das chuvas, porque se misturam, nas chuvas que caem, excrescências de excrescentes que ligam as excrescências deles nas redes fluviais e pluviais. O rio, o mar, a chuva, o sol, enquanto houver sol e for feriado, iremos à praia. Leremos um livro e uma revista, nos alternando entre uma e outro, entre umas e outras, que serão poucas, moderadas, pode acreditar em mim. Rabiscarei mais umas linhas do meu tratado inútil e depois dormirei, à tarde, enquanto você fará uma visita ou uma caminhada.

Assim somos, fomos feitos, sonhos, sonos, planos. Ansiedades. E calmarias.

O CONSELHEIRO

- Quando eu contei pra ele, ele chorou.
- Qualquer maneira que ele reagisse, você não iria gostar.
- Eu preferia que ele gritasse.
- Se ele gritasse, batesse em você, se ele saísse batendo a porta, se respirasse fundo e dissesse palavras racionais ou mesmo bonitas... se ele ficasse em silêncio, profundo, misterioso, indiferente ou desdenhoso... nada, nada iria agradar a você.
- Não sei.
- Pode ter certeza, é assim que nós somos. A gente quer que aceitem o que a gente diz, não importa o que. Nem a quem. Somente se ele concordasse com você...
- Não era uma questão de concordar, mas de aceitar, de achar natural, sabe, até achar... bonito.
- Poucas pessoas acham isso bonito.
- Mas faz parte da vida.
- Tem muita coisa que faz parte da vida que não é nada bonita.
- Ah, mas não valem comparações com crimes, violência, isso não tem nada a ver com essas coisas.
- Concordo. Mas é algo que, para a maioria, ainda não é normal.
- E o que é normal?
- Um dos sentidos é estar de acordo com uma determinada norma. Ainda que hoje a norma – a lei - seja aceitar, incluir... a norma social de muitos ainda é contrária. Já foi pior, você sabe.
- Eu fiquei muito chateada.
- De qualquer jeito você ficaria. É normal.
- O que é que eu devo fazer?
- Tentar de novo. Vá lá e volte a conversar com ele.
- Pra você é fácil.
- Claro.
- Não é com você, não é? Não tá nem aí... Conselho, se...
- Pague a conta. E vamos embora.

1.22.2012

PERGUNTAS, SAMBAS E FOTOGRAFIAS

Meu amigo Luiz Mauro Beethoven, em resposta a uma mensagem minha, gentilmente me chama de Lima Barreto e me pergunta se a letra de um samba que escrevi há alguns anos tem música. Sim, eu respondo, mas, como foi feita por mim, que não sou Beethoven nem sambista, pode se parecer com a de um outro samba, como saber? E como grafá-la, se não sou pianista como os dois Luíses Beethovens? Meu amigo, que já desfilou numa escola de samba, me manda uma foto de um quarto (será uma sala?) que fica numa cidade chamada Modesto, na Califórnia, da casa de um amigo dele, onde, numa estante, se encontra um exemplar do meu romance “A revolução do silêncio”. Essa revolução nasceu “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros”, nome do professor de violão de Policarpo Quaresma, claro, de Lima Barreto, primeiro e único. Luiz Mauro me pergunta se haverá outro livro meu no oeste americano. Modesto, pergunto: haverá uma Califórnia? Ou tudo não passou de um sonho de um dia de inverno, quando alguém entrou numa igreja e fingiu rezar? E uma Liverpool onde um baixista canhoto pergunta de onde todas as pessoas solitárias vêm e a quem elas pertencem, haverá? Onde metade do que um míope diz é sem sentido, mas ele diz assim mesmo, para alguém de olhos de concha e cabelos de céu flutuante, enquanto uma guitarra suavemente chora? Um submarino amarelo, uma banheira, haverá uma banheira com duas cantoras e dois cantores dentro, alguém sabe? Eu e meu irmão, que também se chama Luiz e, como eu, nada sabe de piano, já fomos vizinhos do Luiz Mauro, na Rua Álvaro Ramos, em Botafogo, em frente ao Barbas, um bar do Nelsinho Rodrigues e outros barbudos, para onde eu sempre fugia de uma empregada que não gostava de mim, por mera questão de reciprocidade. Luiz Mauro, na mesma mensagem, me manda um link com fotos do aniversário da Rosa, quando estivemos com ele. Ela me diz, Salva as fotos, grava! Rosa supõe que links sejam como banheiras com cantoras e cantores dentro: passageiros. Eu acho que ela tem razão. Algo que eu nunca tive. Com meu especial abraço para o Luiz Mauro Gomes Silveira, meu amigo Beethoven II, aí vão a letra, a foto e o link.

EU, GRANDE GATSBY

O meu pai é barítono,
eu nasci tenor.
A mãe é Flamengo, eu,
tricolor.
Pedi uma Coca,
só tinha Pepsi,
eu, grande Gatsby,
já não tenho glamour.
Mon amour toujours,
vou fazer uma tour
na Paciência,
por causa da Hortência,
que não joga basquete,
que é garçonete
no bar do Nestor.

O meu pai é barítono,
eu nasci tenor.
Ela é vascaína, eu,
sofredor.
Pedi uma Pepsi,
só tinha diet,
eu, da society,
já não tenho glamour.
Mon amour toujours,
vou fazer uma tour
na Piedade,
fiquei na saudade,
nem mesmo a Adelaide
me quer como amor.

O meu pai é barítono...





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1.14.2012

O INTERNÁUFRAGO E AS VISITAS

É sempre um prazer receber visitas, principalmente de quem me reconhece neste espaço, que geralmente não me via faz tempo e me pergunta: "Mas é você mesmo? Lembra de mim?". Não só sou eu mesmo como sempre me lembro, e muito gostaria de responder às mensagens que chegam em meu endereço de e-mail - que, como vêm via comentário no blog, não contêm o respectivo do autor ou autora, meus muito bem-vindos visitantes. Fico eu sem poder responder, a ver navios, que ainda por cima são virtuais, não me permitem sequer a tradicional mensagem dentro de uma garrafa. Assim (e pela segunda vez), seguem meus dois endereços para correspondência, os quais vou incluir também no campo do meu perfil (o que, evidentemente, já devia ter sido feito há muito tempo): mariocsbenevides@hotmail.com / mariocsbenevides@gmail.com.

Da ilha de Santa Catarina, Florianópolis, hoje com chuvas e céu cinzento,

Mario, o internaúfrago.

1.07.2012

PAUSAS

Haverá inspiração para quarenta minutos de sobra de lan-house?
Em Búzios?
Depois da primeira frase, uma pausa; restam trinta e três minutos.
Há uma falha na barra de espaço e este de repente se ausenta,
implica, requer que eu replique, reclique, reaperte, reaplique
a barra de espaço, para produzir uma pausa,
simples espaço entre duas palavras.
Pausa maior, só se for um

parágrafo.

Reticências, uma pausa maior que um espaço,
menor que um

parágrafo.

Se o texto for uma peça de teatro,
a pausa se pede por extenso: pausa.
Longa ou curta,
pau-sa.

Vinte e quatro minutos.
Menos,muito menos que vinte e quatro horas,
Hoje,
um belo dia de sol em Búzios.
Dia de vagabundos,
de quem está de férias,
o que não é o caso da lan-house e seu ad-
ministrador,
que trabalha onde eu divago,
passeio com palavras,
brincando com o tempo,
não é sempre assim,
raro isso é
possível.

Fico por aqui,
quando ainda me restam vinte minutos.

Pelo menos de lan-house.

Pelo menos nesta lan-house
que fica em Búzios.

12.27.2011

LUZ DE ELEVADOR

O espelho e a luz do elevador
provam nossa existência depois da morte.
Todos ficamos cadavéricos
debaixo da luz descolorida que sobe ou desce
no reflexo magnético do espelho mórbido.
Vizinhos que se cumprimentam e se olham no espelho sabem:
naquele momento não são, estão de passagem,
espectros de si mesmos.
Comentam seus espectros
que houve um tempo dos pais ou avós em que a luz
era de abajur.
Se um deles aceitar o convite para trocar de luz
de elevador para de abajur, a viagem será no tempo
desde que não se fale da cor – lilás. Neste caso
a viagem será também de bairro.
Chegamos ao térreo,
não houve o convite, somos nós mesmos
vivos
em si mesmos.

12.04.2011

PROGRESSO

Se me querem poeta,
por favor uma rede,
uma mulher,
um mar,
uma vila de pescadores,
peixe, cerveja, cachaça,
lápis, papel, borracha.

Se me precisam engenheiro,
me bastam lápis, papel,
borracha.

11.02.2011

DO EXÍLIO DE QUEM FICOU

Nem Gonçalves Dias nem Lulu Santos
nem a Ipanema de Vinicius.
Preferiram Jack Kerouac, O. Henry,
Paul Auster, Woody Allen,
Carlitos, Tom Jobim.
Partiram para Nova Iorque,
Ela, Michele e Renata.
Foram ver de perto se
é mesmo quando já não se espera
que o trompetista começa
a música que surge do nada.
Foram ser poetas, filósofas, descobridoras,
inventar
a própria
Manhattan.
Entrarão na fila do teatro,
sairão de lá melindrosas e
haverá uma conta de um aluguel que
não será pago e
a dívida
não será delas.
Andarão de charrete no Central Park,
verão Nova Iorque de cabeça pra baixo,
porque assim recomendava o maestro
que lia Drummond.
Verão lojas chiques, lojas baratas, museus,
árvores sentindo frio, cantinas
italianas, bares
plenos de jazz.
No domingo,
um desempregado e seu violão e sua gaita
soarão numa Washington Square no Greenwich
Village. Um violino
Soará no Soho.
Nós, em preto-e-branco, ficamos aqui.
Na tela da TV, O Garoto;
na do computador,
sob sisudas atentas louras sobrancelhas,
os olhos da nossa garota,
que um dia dirá
este, o DNA
de Nova Iorque.
Assim mesmo, ela e quem mais puder,
todos
iremos
a Nova Iorque. Poetas,
veremos o mundo
como o viu o maestro.
De cabeça pra baixo.

VASOS CHINESES

O blog quebra meus versos como quer
como quem quebra vasos chineses
como quem desenhasse um poema
desdenhando de fato
da busca
do poeta
pelo ritmo
que sapateia em sua cabeça enlouquecida
de poeta.
Como o traço
de quem pinta
tentando imitar o traço
pintado na cabeça de um jeito
que só quem o pintou
de fato o percebeu.
Comentários, leio aqui.
Opiniões que eu possa ter,
que possam se parecer com as que sapateiam
em minha cabeça enlouquecida de poesia,
que quem as queira saber,
parafraseando, a um só tempo,
Vinicius e Oscar Wilde -
riscos, melhor corrê-los -,
por favor,
mariocsbenevides@gmail.com,
mariocsbenevides@hotmail.com.

10.30.2011

DE PALAVRAS E NÚMEROS, COM DIREITO A PROUST E BAUDELAIRE

Peço desculpas e ela me diz
Imagina!
Agradeço e ela me responde
Imagina!
Já que é assim, eu imagino
a cena da nossa amiga Isabel em Aracaju.
Isabel chamou o garçom, que prontamente a atendeu:
Pois sim?
Inusitada cena,
pois não?
Pelo telefone,
Peço ao taxista
que me apanhe pontualmente às 8:00;
ele, que me respondeu Não, não,
pontualmente às 8:00 está me esperando.
Digo tchau a ela. Ela,
Tchau, tchau.
Tento dar dois beijos nela;
o segundo fica no ar. Eu,
feito um colibri à la recherche du fleurs du mal perdu.
E me pergunto, afinal: que mal cometi?

10.01.2011

AS CORES DAS LEMBRANÇAS: UM CONTO DE MARIA LUIZA BENEVIDES

É branco, é limpo, é vazio. De hora em hora moças entram, mexem aqui e ali, reconfortam meu pai com as cobertas. Uma ou outra me oferece um copo d’água, nunca aceito. Desdenho o incolor, o inodoro e o insípido; eles já são suficientes ao meu redor. O hospital sem cores, meu pai deitado sobre e sob lençóis alvos, que dão continuidade à sua palidez. Ele está por fora como está por dentro: ausente. Sua doença levou sua memória e trouxe a minha. O descolorido daqui me faz buscar a pigmentação da minha infância.

Saudade tem cor. É uma tinta misturada com o verde fraco do verão e o bege forte das secas do inverno. Torna-se turva quando junto a ela vêm reflexões presentes. O que me é estranho, pois, nessa hora, o branco não traz clareza, mas escurece. É o alvo medo de perder meu pai. O sertanejo que deixou seu coração no campo, fugiu da sede e encontrou a cidade. Dorme agora, sonha talvez, enquanto eu, acordado há dias, me lembro do que passou.

Vem sombra fresca, vem cheiro doce, vem gosto azedo. Pita–pitangueira–eira–beira-beiradinha, me dá uma mordidinha. Eu, menino, cantarolava assim para arrancar-lhe um pequeno vermelho. Papai ria de mim, enrugava a pele maltratada pelo sol do canto de seus olhos e mostrava-me seus dentes amarelos. Envergonhado pela música de rimas bobas, eu mordia logo uma pitanga e respondia sua expressões com caretas azedas. Ríamos juntos. Nossa melhor amiga.

Éramos muito unidos e, para o desespero de minha mãe, travessos. Roubávamos suas bolas de meia para jogar futebol, seus grampos de cabelo para pinçar minhocas no quintal, seus ovos recém-chegados da feira para jogar nas paredes detrás da casa. Ela nos punha de castigo. Sempre embaixo da nossa árvore. Uma delícia. Aprontávamos tudo de novo.

Aos poucos, o sabor azedo da pitanga, o cheiro seco dos dias quentes e a sonoridade da risada do meu pai desintegram-se no ar desinfetado do hospital. É tudo água novamente. Como aprendi na escola, quando viemos para a cidade, incolor, inodoro, insípido. Acorda logo, pai, colore as lembranças comigo.

Maria Luiza Benevides.

9.21.2011

SUA SOMBRA

Se você mora em uma casa com quintal, pode ter um ou mais cães de guarda, com a certeza de que todos protegerão você, sua família e seu patrimônio contra esses terríveis potenciais agressores: as plantas. Depois de muito adestramento, que incluirá um investimento em cercas, as plantas não mais serão protegidas – isto é, agredidas - pelos seus cães adestrados, os quais, por terem sido tornados destros, forçados, portanto, a deixar seus hábitos de animais canhotos, desenvolverão tiques e passarão por isso a enfeitar seu quintal com belas esculturas – ou, a depender do estilo, instalações. (Lembre-se: o contrário de destro, o vulgar canhoto, é sinistro.) Como já dizia Oscar Wilde, toda arte é inútil: suas novas obras de arte não servirão como adubo, somente como campo minado exclusivo para você, especialmente quando chegar apertado para ir ao banheiro.

Mudando-se para um apartamento, sofrendo de remorsos, você já terá doado seus pastores alemães-belgas-rottweilers e terá adquirido um poodle. Quando você chegar esbaforido, ele reagirá em seu favor, latindo esbaforido; se deprimido for o seu estado, ele murmurará Freud; se alegre se encontrar sua alma, pedindo por uma cerveja gelada, o xixi já estará à sua espera no sofá. Cães se cumprimentam pelos fundos e é com eles que deixam suas marcas; portanto, entre sempre pelos fundos do apartamento, sabendo que instalações estarão esculpidas à espera do seu caminho até a área de serviço, local onde deixar seu guarda-chuva, que pretensamente nos protege daquilo que não nos ataca, somente nos molha: a chuva, que, mesmo ácida, é melhor que o guarda-chuva, principalmente se você tiver um poodle em seu apartamento.

Você pode optar por gatos, mas sempre no plural, porque gatos de pardos não têm nada, são tigrados, brancos, pretos e marrons, e muito dóceis, desde que você goste de colecionar testículos felinos. Prefira os incertos, os fugidios, os rebeldes, que saem de noite para brigar com cães. Pode ser que assim o vitorioso seja você.

Em qualquer situação, cuide bem da sua sombra: é ela que estará pairando no piso do quintal e da área de serviço, no assento do sofá, no choramingar e no latido do cão, no ronronar e no miar do gato, no silêncio da madrugada interrompido pelo triturador do caminhão de lixo, pela campainha do despertador, ou por um interminável e invisível chiclete mascado pelo poodle - que, agora, você leva para o seu quarto, para que ele pare de latir para a sombra alheia. Admita: a sua é uma sombra egoísta.

Palavra de canhoto.

9.12.2011

VARANDAS

Eu preciso roubar alguma coisa de você, não porque não goste de você, pelo contrário, por gostar demais. Com seu consentimento, já invadi seu corpo e sua vida, e será consentido que vou roubar seu relógio e só usá-lo quando estivermos juntos. Na cozinha, percebi que sou capaz de enxergar com seus óculos. Não me caem bem, não me ficam bem, mas me cabem no bolso. Mesmo assim, melhor que eu continue usando os que são meus e carregue comigo seu olhar, seu modo de ver o mundo, as pessoas, de perceber a si. Levo seu olhar emprestado por saber que ele continuará em seus olhos. Com o relógio que roubei de você no pulso, eu só vou se você me levar pela mão.

A bailarina agora tem namorado, desejo, continua dançando quando pode e estudando muito. Pensou em mudar de rumo, engenharia química, não mais medicina. O que ela mais quer para o futuro dela, que dela é próprio, é pesquisa. Pensou, repensou, tornou a querer medicina. Dezessete anos e já é necessário tomar uma decisão do tamanho da sobrevivência e do sonho. Foi fotografada por você em um momento de dançarina, esguia, atenta, questionadora, tudo ao mesmo tempo e do tamanho do sonho, esperando por uma nova instrução da coreógrafa, com a meia rasgada na altura da coxa. A foto em preto e branco mostra o que sabemos dela, que continua cristalina, verdadeira, olhos nos olhos, com a vontade que dela é própria, com a leveza que só as bailarinas têm.

Vamos lá fora, onde bate o sol em varandas que veremos da calçada e que estarão vazias, porque frequentadas por quem estará por perto, enquanto eu falarei de outras, outras varandas.

Uma já faz um tempão que estive lá. Três semanas. Bar Urca, no Rio. Em cima, um restaurante, embaixo, um botequim, em frente, a baía de Guanabara. É preciso começar por baixo, onde o mundo é caótico, todos pedem cerveja, empadas e pastéis gritando junto o próprio nome ou o de alguém que tenha autorizado outros a fazê-lo. Meus outros são amigos de muito tempo, André e Gyzelle, Rubens e Henriette, Ramon e nosso Botafogo, Sandra e Murilo Haydt. Como o Botafogo não nos passou procuração para pedir cervejas em seu glorioso nome e sempre imprevisível campanha, que ganharia mais tarde do Atlético Mineiro e que ontem (hoje já é segunda-feira) perdeu de goleada, em terras cariocas, entre Haydts, Henriettes e Gyzelles com sobrenome húngaro, melhor que o meu fosse o nome a ser gritado, em total confiança aos muitos desconhecidos presentes. A mesa é a mureta que nos separa do mar, onde os barcos são generosos conosco: mesmo ancorados, balançam por nós, que bebemos de pé, continentes e emocionados. Fechamos sem questionamentos a primeira conta da tarde no bar e subimos. Quando subimos, sentados, comemos pescados. A imensa baía, com seus morros felinos, femininos, de lá de fora da janela, nos espiando, cuidando de nós. Quando veio a segunda conta e o Ramon estranhou a quantidade de cervejas, o garçom nos disse, Vocês beberam bem. Nada como um elogio para terminar uma tarde em uma varanda assim.

Outra parece que foi ontem. Ficava entre Araruama e Cabo Frio, onde aportamos, eu e o mesmo Rubens que estava comigo no Bar Urca há três semanas, primeiro na calçada, onde eu dormi com a cabeça sobre minha sacola de viagem e o Rubens passou a noite em claro, esperando que nossos amigos, que não sabiam que viríamos, voltassem para a casa em que estavam hospedados. Outro Murilo e que conheço há mais tempo ainda, o Drummond, e o Venâncio, que hoje mora em São Luís do Maranhão, já tinham feito dezoito anos, ao contrário de mim e do mesmo André, que estávamos com dezessete, ao contrário do Rubens, que já tinha chegado na frente de todo mundo aos dezoito e nunca quis saber de carro (aliás, nem de bicicleta). Pois o André recentemente achou uma foto dessa varanda, onde eu e Murilo estamos sentados em um barco de pescadores na areia da praia. Porque era um dia de tempo instável, ora chovia, ora era friozinho, eu e Murilo estávamos de camisas, sapatos e calças compridas, em plena praia. Por que minha filha, quando viu a foto, disse, Que horror, papai, só porque as calças eram de boca de sino, é um mistério insolúvel, que apenas se repete a cada geração, como as calças com bocas de sino se repetem a cada duas.

Outra faz um mês que visitamos. Era 13 de agosto. Nesta, você estava comigo. A bailarina e o namorado dela também. Fica numa ilha cercada de Lagoa Rodrigo de Freitas, Copacabana e Ipanema por todos os lados, onde meu irmão fez uma festa que será para sempre inesquecível. O apartamento onde ele mora, com livros e antepassados nos livros e nas fotos por todos os lados, foi tomado de parentes e amigos por todos os lados. Porque fazemos parte deles e porque somos pais da bailarina, dancei com você a noite inteira, com meus sapatos de Fred Astaire que ganhei do meu irmão, quando o aniversário era o dele, o dos cinquenta anos dele.

Outras ficam no verso de uma canção: tios na varanda. Tios do Cosme Velho, de Petrópolis, de Laranjeiras.

E toda essa história de varandas veio por causa de uma que, de tão especial, deixei no ar em um texto de quando a filha do André se casou e o irmão mais velho dele, Antônio Julio, recentemente achou esse texto e me perguntou, Quando é que você vai falar dessa varanda? (E perguntou por escrito.) Pois era uma varanda onde todo fim de Natal uma turma de loucos se reunia e cantava e conversava, enquanto Dr. André e Dona Mariana, os donos daquela varanda, nos olhavam, ora de perto, ora de longe. Os dois sabiam da nossa loucura; e gostavam dela. Gostavam tanto, tanto da nossa loucura, que fizemos como fazemos questão de continuar assim, loucos, flanando de varanda em varanda. Por isso é que assim prossigo, uma ilha cercada de livros a me proteger de mim, nossos amigos a me proteger de mim, enquanto a bailarina estuda e fala com o namorado, o Antônio Julio brinca com a neta, o André espera que a dele nasça da filha Luciana, o Murilo Drummond veio nos visitar com suas bailarinas Eliana e a filha deles Alessandra, Julio, André e Venâncio permanecem tricolores, o Rubens e o Murilo Drummond flamenguistas, o Haydt, vascaíno, eu, meu irmão e o Ramon insistentes, você, Sandra, Henriette, Eliana, Gyzelle... nos guiando em segurança.

Por isso eu permaneço com o relógio de pulso que roubei de você, esperando que você me leve pela mão até a próxima varanda.

Desde já, esteja avisada: irei com meus sapatos de Fred Astaire.

8.05.2011

VISITAS

Quem pouco abre a porta e se mostra
Quem não anda pelas ruas cumprimentando gente
Nem entra na padaria
Nem toma chope nem café

Quem não anda de ônibus
E não vê de manhã rostos esperançosos e sonolentos
E à tarde-noite não os vê exaustos e desesperados

Quem não escreve poemas
Não se expõe ao frio gelado da varanda de um bar
Quem não recebe amigos em casa
E quando os tem não os percebe
Não espia nem expia pela janela seus medos,

Não recebe visitas
Por exemplo, da Maria Beatriz
De nove anos, que faz dia 17 e quer ser médica e atriz,

Não conversa longamente com uma professora
Sobre filmes, séries, livros, aos chopes e relentos
Enquanto, lá dentro, gritos
Entusiasmados
Por um jogo de futebol,

Não recebe visitas inesperadas distantes
no tempo.

É preciso se expor
Mostrar a cara e os dentes
Sentir frio e correr outros riscos
Sentir frio

Até que depois ela chegue
A coriza
Insistindo que veio com o relento
Que melhor teria sido esperar que ela aparecesse
Quando quisesse
Do vento frio de uma fresta de uma janela
Hermeticamente
Fechada.