10.26.2010

GOOGLE-ME

Se me perguntaram se eu queria nascer, evidentemente esqueci.
Quis ser criança e fui.
Quis escrever, escrevi.
Quis calcular, calculei.
Quis amar, amei.
Quis casar, casei.
Quis separar, separei.
Quis namorar, namorei,
Quis pagar, paguei,
Quis me embriagar, me embriaguei.
Quis beber, bebi, quis ter fome, comi, quis comer, comi mal,
Comi bem, comi.
Quis dormir, dormi.
Quis amar de novo, amei.
Quis não dormir, tive insônia,
Quis acordar, não consegui.
Quis achar graça, desgracei,
Quis fazer graça, consegui,
Quando fiquei sem graça,
Todo mundo vi.
Quis ser pai, sou.
Quis amar e amar, sou.
Irmão quando fui amigo sou.
Não quis desgraça, vivo
A própria
Dos outros
Portanto minha
Quis poesia, fiz,
Quis a morte, a minha
Foi outra que presenciei
A vida, só a minha quis
A fome, privilégio, não foi,
Ainda não é minha
A pobreza não é minha
É minha sim tudo isso
A riqueza também não.
A inutilidade
O vazio
Negado
No elevador
Oi, querido.
Fico aqui
Exposto
Quem quiser
Google-me.

10.20.2010

CÉU E INFERNO, MINEIROS E JANTARES

As imagens da TV mostraram o que havia para ser mostrado e todas as metáforas possíveis foram feitas. Eles provaram que o inferno existe, fica nas profundezas da Terra e que é possível sobreviver a ele. Provaram que andar na superfície da Terra pode ser mais emocionante até que pisar na Lua, que olhar para ela de longe dizendo sonetos à pessoa amada ainda vale a pena. Provaram e provarão da fama e seus desdobramentos, provaram que estrelas sempre usam óculos escuros e experimentaram ver as verdadeiras novamente à noite. Provaram do inferno e do renascimento a fórceps disfarçado de sonda. Provaram que, na língua de Lima Barreto, mais do que um quarto de hora, mais do que quinze minutos na de Andy Warhol, é mais do que as eleições brasileiras podem esperar. O que esperar dessas eleições, da diferença da mudança de faixa de FHC para Lula, com direito a jantar dos casais na residência oficial, para o que se acompanha agora, do que se desenrola nesses dias e do que ainda virá, só o tempo dirá. Que não será de quinze minutos digitalmente cronometrados, como não equivalerá ao quarto de hora girado no relógio de bolso de Lima Barreto. Superará aos sessenta e oito dias a setecentos metros da superfície da Terra, no inferno, longe do céu e das estrelas, vivenciados e sobrevividos pelos mineiros chilenos. Jamais em matéria de grandeza de alma e de espírito. Neste quesito, perderá até para o mais banal jantarzinho entre casais.

9.21.2010

FELICIDADE

É quando a melancolia fica doente e não vem.
Quando a tristeza levanta
De saia curta e belas pernas
Entrega a prova antes da hora
E vai embora.
Tudo tem gosto de uva no ar
Um cheiro de chuva.
Quando a janela é grande e lá fora faz sol.
Quando a gente vai quando venta,
Quando a gente entra em casa e chove,
Quando tem goteira e é assunto.
É quando a melancolia ficou na esquina.
Quando a curva deixou a tristeza no cruzamento
Da estrada de barro esquina do asfalto.
Quando é quase noite e toca o telefone
Era ela não era
Era o amigo era ele era sexta era sábado.
Quando era de manhã parecia sábado
E era sábado.
Era domingo de manhã e fazia sol e depois choveu e a cama
Virou com a gente para o outro lado e ainda era
Ainda era sábado.
Quando toda noite era véspera
Quando toda noite era beijo
Quando a notícia não veio
Quando o vento parece que arrasta que transforma
Tanto assim que nem tem carro nem freada nem buzina
Tem uma riqueza diferente e a riqueza é o mar.
É quando
Não é como
Não tem motivo
Não é conjunto
Estatística
País.
Felicidade é quando.

Momentinho caipira
Bom pra daná.

8.04.2010

BOM HUMOR, MAU HUMOR

O Freud foi antes de tudo um libertador. Gente que era isolada pela família, trancada e amarrada, passou a ser compreendida por suas neuroses, psicoses, traumas, e conquistou o direito pelo menos a um divã. Passaram-se os tempos e a humanidade chegou ao auge da autocompreensão: passamos por bons e maus momentos. Temos dois humores: o bom humor; e o mau humor. Não estamos aqui a desprezar miséria, preconceitos, rejeições, discriminações, guerras, invejas, ciúmes, complexos, túneis, medos do escuro e de baratas, doenças, campos de concentração, ignorância e a sua manipulação, a opção pela burrice, tudo de terrível que há nesta convivência entre semelhantes, dessemelhantes e para sempre diferentes. Tudo principalmente que há nesta vivência, no ato de estar vivo, especialmente a morte e o desconhecimento que dela guardamos e guardaremos sempre, por mais estudos, por mais fé que tenhamos, incluindo a combinação dos dois, nada disso aqui se esquece ou é desprezado. Mas o auge da percepção humana foi este: cada indivíduo perceber-se de bom humor ou de mau humor. De lá pra cá, a decadência. De lá pra cá, elas e a TPM; de lá pra cá, elas e nós somos bipolares, eufóricos, deprimidos, psicóticos, neuróticos, sonolentos, hiperativos, insones. Somos não mais que um diagnóstico, não mais que uma combinação de pílulas alo / homeopáticas, auto-ajuda, consultórios, igrejas, partidos, quadrilhas, grupinhos e grupões, ambições, ideologias, gurus, pilhas de livros e não mais os livros, mundos e profissionais da e de explicações, I pode e I não pode, ah, o divã, ah, o bar, ah, a TV, o ansiolítico, o antidepressivo, o anti DDA, o anti...
O Freud foi antes de tudo um libertador. Há que aparecer agora um simplificador. Bem me quer, mal me quer. Bom humor, mau humor.

8.01.2010

EU E DEGAS

(Para que não restem dúvidas, “Degá”, o artista plástico)

Eu e Degas
Nós e as bailarinas.

Ninguém jamais as perceberá
Como ele, Degas.

A mim, faltam me restam palavras.
É com elas que comemoro.

Eu e Degas
Nós e as bailarinas.

Joinville, Festival da Dança, 2010.

7.21.2010

MELHOR IDADE

Do alto deste edifício, 54 anos vos contemplam. Os meus. Pela legislação, seis me separam do estatuto do idoso e uns 112 da aposentadoria. Ainda não atingi a melhor idade, não sei se vou chegar lá e já me antecipo: melhor porque? Não questiono se de fato a chamada terceira idade é ou não a melhor, mas a forma como a retratam. A La Paralamas do Sucesso, pare e repare. Não faz muito tempo, um anúncio de seguros mostrava senhoras e senhores idosos: eles lutando espadas de madeira e elas jogando amarelinha. O anúncio saiu do ar e sorte do Gérson que desta vez não foi o locutor de uma mensagem tão ruim quanto injusta e infeliz. Claro que ninguém deve matar a criança que traz dentro de si pela vida inteira; é ela que nos mantém vivos, mas fazer idosos de idiotas não parece a melhor estratégia para vender seguros. Pare e repare mais. Vá a um aeroporto e escute a moça que trabalha na chamada de voos – que, pelo emprego que tem, conquistará estatuto e aposentadoria aos 25 anos – dizendo que pessoas da melhor idade terão preferência. No mesmo aeroporto, ao fazer o check-in você reparou: o símbolo do idoso é um corcunda de bengala. Melhor idade é isto: a mais clara demonstração de um certo talento para se desrespeitar a quem se finge conhecer. Talento que pode até existir mundo afora; mas que aqui se manifesta como um produto genuinamente nacional.

7.10.2010

NOSSO QUASE SEMPRE EQUILIBRADO MARIO

Recebi uma mensagem do meu amigo de infância Murilo, com a seguinte introdução:
“Muita injusta a eliminação da nossa seleção. Um time vencedor, com craques indiscutíveis. São coisas de uma verdadeira ‘caixinha de surpresas’. Vamos receber a nossa equipe como verdadeiros heróis, com aplausos para a seleção dos sonhos. Aí é que está o problema: estou falando da seleção de 82, comandada pelo nosso Falcão, que custou ao amigo que escrevo uma porta de Blindex quebrada, no momento daquele famigerado gol italiano. Nosso quase sempre equilibrado Mario deu um ‘bico’ em alguma coisa e acertou nada menos que a porta da sua própria varanda...”
Murilo, o referido “bico” foi de canhota em um copo de base indiscutivelmente sólida, pois o copo, ao contrário da porta, resistiu, e chutei-o e foi de canhota na hora em que o Falcão fez o segundo gol contra a Itália com a respectiva canhota, Falcão que é uma exceção a canhotos do meu naipe e merecia ser por mim especialmente homenageado, pois canhotos do meu naipe não conseguem atingir o estágio de quase sempre equilibrados e disso tenho provas, a começar pela Copa de 70, quando eu tinha 14 anos e quebrei a cama do meu irmão comemorando aos pulos sobre ela o gol de empate contra o Uruguai e por sorte meu irmão não estava deitado, senão teríamos tido grave caso de agressão familiar, absolutamente inaceitável entre irmãos que inclusive são amigos e torcem para o mesmo time, que perdeu recentemente um tetra-vice-campeonato para o Flamengo, e lembro e compartilho que em 1981 eu assistia a um jogo do Botafogo contra o São Paulo em uma casa em Poços de Caldas e no gol do Perivaldo o meu sapato foi na parede que era branca e ficou preta e nem por isso o dono da casa comemorou, acho que ele era São Paulo ou Flamengo, e contra este o Botafogo se sagrou campeão em 1989 e eu abracei e caí junto com meu já mencionado único irmão na arquibancada, e uma vez eu ganhei uma garrafa de vinho e um saca-rolhas e quando sozinho resolvi beber o vinho, o cabo do saca-rolhas saiu e a broca ficou presa na rolha e esta no gargalo e eu tinha ganho também duas chaves de fenda e um martelo e primeiro tentei com uma chave de fenda puxar a rolha e esta ficou presa na rolha, depois tentei com a outra a mesma coisa porque a primeira ficou presa e depois tentei empurrar a rolha para dentro batendo o martelo no cabo de uma das chaves de fenda na rolha e ela teimosa não entrou e eu fiquei com duas chaves de fenda e a broca tudo preso na rolha e esta ainda dentro do gargalo e aí eu fui para o banho de sandálias havaianas por precaução para quebrar e quebrei a garrafa para recuperar minhas chaves de fenda e a garrafa quebrou embaixo do gargalo e eu tive que desistir e jogar fora os restos da garrafa e o gargalo com rolha, broca e duas chaves de fenda, tudo preso, tudo junto, sem ter bebido um só gole do vinho, e na semana passada eu estava em uma usina hidrelétrica com 3 amigas especialistas em saúde e segurança que foram comigo às 2 horas da tarde a um lugar onde o rio desaparece debaixo de uma ponte de pedra para só aparecer alguns quilômetros depois e eu caí nas pedras da ponte e me levantei poucos metros depois e fui socorrido às gargalhadas por uma delas e aí voltamos para a usina e quando eu, que dirigia o carro desde a vinda, me aproximava da cancela da usina, como poucos minutos antes eu tinha perguntado ao guarda por ela responsável onde ficava a tal ponte de pedra, naturalmente que inconscientemente devo ter pensado que o guarda era bom de matemática e física e ele aliás comprovou que era e é, pois eu passei direto pela cancela e o guarda pimba, saiu da guarita e comandou a cancela com uma rapidez de Falcão e uma precisão de Einstein e estamos todos vivos e o automóvel e a cancela intactos. Murilo, de futebol não entendo nada, mas achei prudente contar essas coisas, porque, se me convidarem para futebol, copos sobre a mesa, se o jogo for de vôlei, por favor, longe de mim e, se tiver cancela, gritem, Mario, olha a cancela.

5.16.2010

O FINAL DE UM ROMANCE E A FÁBRICA DE SINCEROS

Acabo de terminar de escrever um novo romance. Nem o título vou contar aqui, embora ele já tenha estado alguns meses pairando neste espaço cibernético. Vamos à luta, agora, atrás de uma publicação; e vamos retomar outros projetos, incluindo o de, de vez em quando, deixar algo registrado por aqui.

Por aqui acho que estamos todos. Começou a temporada de criação de seres sinceros, simpáticos, educados, gentis, honestos, competentes, sorridentes, enérgicos, ternos, terninhos e gravatas: eleições, especialmente a presidencial. A "festa da democracia". Pena que o convite não nos permita ingressar nos salões de bailes e estratagemas e que frequentemente dancemos de tolos e sejamos pegos de surpresa com os tais estratagemas, sempre pagando a conta, de baile e estratagema. Claro, Churchill estava coberto de razão:a democracia é o pior regime político, à exceção de todos os outros. Só podiam parar um pouco era com esta fábrica de perfeitos que nos querem fazer engolir e fazer com que o respeito - e tudo o que ele significa - passasse a prevalecer.

Admitamos: já foi bem pior.

Sigamos. A Inglaterra voltará a ser conservadora - isto é: mais conservadora. A Grécia, bem, a Grécia e a Espanha e Portugal... De vez em quando o virtual se mostra concreto, real, assustador; aí, é hora de rearrumar a casa, fazendo a população pagar pelo que não fez, como sempre, através da história. Se não der em guerra, já será um avanço - e, por enquanto, não há indícios de que uma esteja a caminho, a não ser as terrivelmente ininterruptas, incessantes, massacrantes. Seremos os apaziiguadores do oriente médio e pediremos que o oriente médio apazigue nossas cidades; está me parecendo ser esta, a lógica do momento. Ou estou enganado e vivemos em clima de paz permanente?

Prosperamos. Temos dinheiro em caixa. Corruptos são punidos. Décadas de covardia, prepotência, sacrifício, desemprego, salários aviltados, a troca da inflação por juros cavalares é que nos fizeram chegar a este novo panorama brasileiro. Bacana. Vale a pena esperar para ver o quanto de concreto e virtual há nisso; esperemos, sim, mas atentos, olho no lance, mais no que ocorre na política e na economia do que o que acontece na Copa. Difícil, não? De 4 em 4 anos, Copa e eleições. Eis aí um dos estratagemas; eis aí um dos bailes a que fomos convidados.

Quem for vivo irá - e à vera; a rigor.

5.05.2010

GRÉCIA: 2010?

Olá, meu blogue amigo,
A Grécia, outra vez, a navegar,
Dorso estátua Vênus derramada
Sem rumo
Com ela o mundo inteiro -
Viria junto
Desta vez
Roma
Desta vez
Junto viria a Itália?
Olá, meu blogue abandonado,
Caderno virtual, exposto e escondido,
Afundaremos - ou navegaremos - neste mar
De petróleo derramado
Neste golfo México?
Não foi ele um dia pérsico?
Olá, meu blogue de poucos
Incontáveis visitantes,
Podemos fazer o seguinte:
Da terra, do horizonte, amantes;
Da história, sempre, um pouco
Antes?

2.28.2010

FUNDAÇÃO, TERREMOTO, PALAFITA

Você pode ser desses que pensam tudo ser acaso, explosão da casca de ovo, universo, viver e fazer a opção de fazê-lo com ou sem ética por viver, apenas porque nasceu e é preciso sobreviver, e vive sem qualquer pretensão a conexões com algo que não seja visível, sem prece, ideia ou crença ou necessidade de uma continuidade, nada, e quando se depara com um terremoto e faz parte dele, não reza, apenas diz, pronto, agora, acaba tudo para mim ou consigo passar por mais esta.

Ou você pode ser desses que pensam tudo ser obra Divina, explosão da casca de ovo, universo, viver e fazer a opção de fazê-lo com ou sem ética por viver o sonho do Criador, porque nasceu e é preciso sobreviver, e vive sem qualquer pretensão a perfeições mas com a esperança – fé - de conexões com algo que não seja visível; preces, você faz orações, continuidade, sim, você a quer e nela crê e dela precisa, e quando se depara com um terremoto e faz parte dele, reza e apenas diz, pronto, agora, acaba tudo para mim ou consigo passar por mais esta.

A diferença está muito menos na crença do que na opção. Seja por medo do acaso, seja por medo do Divino. Melhor ainda – se não for medo, mas de fato opção. Melhor fundação que palafita. Com ou sem terremoto.

12.12.2009

OS OLHOS DELAS (para Maria Luiza, minha filha)

A atriz sai de cena de cara lavada. Passa por todos apressada, não olha para ninguém, não quer tirar fotos nem autografar nada, quer a solidão ou a companhia de iguais. Seu melhor momento foi há pouco, no palco, uma atriz e seus olhos, uma atriz é seus olhos. E nada mais, se de fato for atriz. O resto, para ela, é acessório.

A bailarina sai de cena toda sorriso, o cabelo preso e os olhos com a mesma pintura que usou no palco. No palco, ninguém conseguia ver seus olhos embora todos os procurassem, admirando nela o mesmo sorriso de agora, seus saltos no ar, seus giros e o rosto fixo, a volta ao chão sempre firme, segura, leve, como leve é nos braços do par. No palco, era um corpo de baile inteiro, uma orquestra embaixo, - onde os olhos da bailarina? Só agora os vemos, pintados, lindos, o cabelo preso, o sorriso, agora, de perto.

Do que precisa um sonhador, um pragmático, um gênio, um rude, um gentil, o mais completo imbecil arrogante, do que precisa a paz, senão dos olhos de uma atriz durante, senão dos olhos de uma bailarina depois?

11.22.2009

OB

Eu sei que você às vezes me visita sem deixar cartão ou comentário. Sei de outros que também passam por aqui, só que por meios sinistros, aracnídeos, troianos e seus tentáculos, deixando comentários ininteligíveis e algum tipo de vírus - como este, de uma ligeira gripe, das tradicionais, da garganta arranhando. Sei muito bem distinguir um dos outros - e é a você, que me visita apenas para ver se há novidades por aqui, que me dirijo. E com muito prazer.

Morreu um corrupto. Pelo menos isto: eles também morrem. Dirá você que mortes não devem ser comemoradas. Aliás, é praxe, no Brasil, canonizar todo e qualquer morto. Este, que morreu ontem, é muito pouco provável que seja canonizado por alguém. Mas faltam muitos e não vamos matá-los nem ficar esperando que eles morram. Falemos da vida - da alheia, naturalmente.

Hoje é domingo e de vez em quando chove, mais pra chuva do Tom Jobim, "prazenteira", e não dessas que, ultimamente, têm causado tantos terríveis estragos. Já no sábado passado, do fim de semana passado, um dia de quase-sol, fomos à praia, em um ponto badalado de Jurerê, Florianópolis. Uma moça parecia ter cola nas mãos: uma delas trazia colada uma garrafa long-neck de cerveja; a outra, um cigarro. Do seu biquini, saía o rabinho de um OB, só que este não estava grudado: ele tremulava ao sabor do vento. Senti saudades da personagem da Camila Pitanga e sua "catigoria", como senti saudades da mulher de classe - que não necessariamente é a classuda. Uma classuda pode até ter classe, mas vive em uma atmosfera de ex-modelo - e modelos, como se sabe, podem ou não ter classe, ainda que sejam classudas, do mesmo modo que saudade nada tem a ver com saudosismo.

Saudades desta expressão - "modelo" - que deu lugar à de "top model". Saudades do Tom Jobim e saudades - eu era um garoto - de quando a Leila Diniz exibiu sua barriga de grávida, tão natural quanto a menstruação da moça do OB e seu rabinho esvoaçante.

Saudades de você, que me visita com ou sem comentários.

Se você é a moça da praia do sábado passado, do fim de semana passado, algumas sugestões: largue o cigarro; de vez em quando, deixe a long-neck dentro do isopor ou jogue-a fora no lixo, assim que a cerveja acabar ou ficar em temperatura desagradável; vá até o mar, dê um belo de um mergulho, nade um pouco e ponha o rabinho do OB pra dentro do biquini, porque ele não combina, assim, com esta postura de rabinho tremulante ao sabor do vento; e, mais importante, mantenha este seu sorriso, genuíno como barriga de grávida, genuíno como sua menstruação, genuíno como genuína é esta sua alegria, que me deixou aqui, neste domingo de chuva prazenteira, cheio de saudades.

11.04.2009

X TUDO

Esse é o nome abrasileirado de um sanduiche que leva de tudo: da maionese à rúcula, passando pelo bife de carne muída prensada e queijo mussarela. Aceita tudo. Foi assistindo na tv a cenas deprimentes da política japonesa, nas quais congressistas se esbofeteiam e vão ao chão de terno e gravata, causando inveja aos lutadores de sumô, que mais uma vez me convenci do óbvio: não só o brasileiro não sabe votar: ninguém no mundo sabe votar, pois, se um e somente um o soubesse, todos diriam a ele - ou ela -: "Vá e vote por todos nós". Como ninguém sabe votar, todos votam; esse, o elementar princípio das eleições - ou mesmo dela: da democracia.
E o X Tudo com isso? Quem aceita tudo e leva de tudo é o nosso popular eXcluído de Tudo - o X Tudo. Se eleitores majoritariamente esclarecidos - caso presumível dos japoneses - se miram em seus representantes democraticamente eleitos reduzindo aos tapas seus supostos, esperados, talvez inexistentes argumentos, nossa imensa maioria de X Tudos, aceitando desde café da manhã requentado com o prefeito até vale-combustível em troca de voto, naturalmente que não espera por argumentos, mas comida, escola, emprego, etc. - dando margem a toda espécie de canalha, que quer é ver a conta de X - vezes - se tornar exponenciação de X Tudos, carentes a ponto de suportar sua canalhice e inutilidade e de multiplicá-los, a eles, os vis, os abutres, os que se distinguem de todo e qualquer corrupto, porque roubam de quem não tem e, por causa deles, os vermes, não terá.
Ultimamente, não raramente tenho sido convidado a palestrar por aí. X Tudo é a imagem que tenho usado nessas oportunidades. X Tudo, na esperança de que nosso gosto se modifique, nossa vontade de aceitar qualquer coisa se apague, nossa exigência tome o lugar da mistura sem gosto e indigesta de tudo que junto não combina, de tudo que é tão diferente de quem gosta de eleição, democracia, respeito; de inclusão e multiplicação de oportunidades e perspectivas, incluindo a de escolha, ao invés de exclusão de gente e sua dignidade.
X Tudo, nem light.

9.20.2009

EM NOME DA DÚVIDA

Curiosa gente
Que se pensa mais inteligente
Por crente
Por descrente.

Esta, que desfralda bandeiras
Despreza vendavais
Oferece-nos mamadeiras
Seus desrítmicos ruidosos anticarnavais.

Inoportuno é o pregador
Inoportuno é o negador.

Pregadores
Negadores
Deixem-nos a nós
Com nossos nós

Aos ventos
Aos mares
A sós.

9.13.2009

GUARACIABA, UM ESTADO E SEUS MUNICÍPIOS

Nós não existimos. Se você quiser continuar a nos ler assim mesmo, para nós, os inexistentes, será um prazer. Bem vindo ao Estado de Guaraciaba, cuja capital também se chama Guaraciaba. Alguns dos nossos demais municípios são o Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis. Se você duvida, basta lembrar de uma coisa: nós não existimos.

Morávamos no Rio, chamado de cidade maravilhosa porque, de qualquer lugar, se não for o mar ou a montanha, é o céu que se vê, quase sempre azul e, talvez por isso, o povo de lá é alegre até quando tem motivos para ficar triste. Lá, quando chovia muito, quando nossa casa deslizava morro abaixo, a culpa era nossa. Costumavam dizer que nós não sabíamos o que fazer do lixo e que o espalhávamos por toda parte e, por isso, nossa casa desabava. Se isso era verdade ou não, pouco importa, porque o que a gente diz não tem a menor importância – pois não existimos. Naquele tempo, nós éramos pretos e diziam que ser preto não era bom. Hoje em dia, sabemos de gente que passa por preto ou negro para entrar na faculdade. Como não sabíamos que um dia seríamos valorizados por ser pretos, viramos nordestinos e nos mudamos para São Paulo.

Em São Paulo, cada vez que chovia muito, alagava tudo e nossa casa ficava inundada até o teto e nós aparecíamos na televisão, andando com a água pela cintura, remando um barco improvisado ou chorando pelos cantos. (Nós, os inexistentes, desde quando nosso barraco lá no Rio deslizava morro abaixo, vira e mexe aparecemos na TV.) Começamos a perceber que São Paulo é um município sem limites, que se espalha para todas as direções: para os lados, para cima e também para baixo – quando é para debaixo d’água que São Paulo vai. Todo mundo um dia acaba se mudando para São Paulo porque lá é onde há muitas oportunidades, quando poucas são as que existem em outros lugares - por exemplo na parte do Nordeste onde costuma não chover, mas, quando chove, chove muito. Prova disso é que existe uma música chamada Súplica Cearense, na qual o cantor pede perdão a Deus porque reza errado e de tanto rezar errado para que chovesse, Deus entendeu que era para mandar todas as águas do céu em cima do Ceará. Os autores da música se chamam Gordurinha e Nelinho e não sabemos se eles existem, mas a canção foi gravada pelo Fagner, e o Fagner existe, embora ele também apareça na televisão. Nós éramos retirantes nordestinos sempre crescendo pro lado debaixo da água de São Paulo e por isso resolvemos nos mudar para Florianópolis.

Agora, somos descendentes de italianos, alemães, açorianos, pretos e índios; alguns de nós são chamados de bugres, outros, de manezinhos. Florianópolis é uma gracinha, de tão delicada que é, com suas montanhas, o mar por toda parte, a ponte pênsil e as outras duas de concreto, cheias de automóveis parados em cima delas. A cidade quer atrair turistas, mas não prepara para isso as pessoas que trabalham como garçons, motoristas de táxi, serventes em hotéis e outras atividades; pessoas que, como nós, não existem – portanto, se elas não existem, porque prepará-las? Percebemos também que não só as pontes começaram a ficar cheias de automóveis parados em cima: todas as ruas foram ficando assim, não sem antes os automóveis passarem a toda velocidade e se baterem uns nos outros, principalmente quando chovia e em Florianópolis também chove, parece que é assim por toda parte, e percebemos que em Florianópolis, quando chove muito, é uma mistura de Rio com São Paulo: alaga tudo e algumas casas desabam. Foi quando viramos somente descendentes de alemães e italianos e nos mudamos para a capital do nosso Estado, que, como já dissemos, tem o mesmo nome que ele: Guaraciaba.

Pois na capital Guaraciaba também chove e, por aqui, os ventos às vezes são tão fortes que se chamam tornados. Este último arrancou os telhados das casas dos ricos, arrancou do chão as casas dos pobres e arrancou dos ginásios seus telhados - os quais, por sua vez, arrastados pelo tornado, arrancaram os telhados das outras casas que ainda tinham telhados em cima delas. Aí nos mudamos para dentro de um ônibus, que está e vai continuar parado por algum tempo: ele virou a nossa casa e também a casa de muitas outras pessoas, algumas brancas como agora somos e outras bugres, manezinhas, cariocas, paulistas, nordestinas, pretas, cafuzas, mamelucas, negras, como já fomos antigamente, nós, os inexistentes do Estado e agora da cidade de Guaraciaba, que acabamos de aparecer na TV, deitados em nossos colchões, dentro do ônibus.

Depois, vimos uma porção de acontecimentos no país vizinho, o Brasil: os Jogos Panamericanos, a promessa das Olimpíadas e a Copa do Mundo que vai ter por lá e os governadores e os presidentes e... Foi na TV que também assistimos sobre vários pactos, sendo que alguns os representantes oficiais do vizinho do Estado de Guaraciaba, o Brasil, assinaram: pacto do G20, protocolo de Kyoto, Princípios do Equador, Rodada do Uruguai, Fórum Mundial de Davos, Rodada de Doha, Objetivos do Milênio...

Nós, que aparecemos toda hora na TV porque não existimos; que não somos representantes de povo nenhum, porque somos o próprio povo de Guaraciaba, sua capital e seus municípios, Rio, São Paulo, Florianópolis e outros; que não somos os que se perderam e que aparecem na TV com suas cabeças baixas e as mãos algemadas ou com os olhos vendados ou ainda dentro de um caixão pequenininho; que somos os pretos, os brancos, os cafuzos, os mamelucos, os índios e os loucos; que somos os despreparados e os doutores; nós e nossos diferentes sotaques, vistos na TV quando nossas casas desaparecem, após assistirmos sobre tantos pactos e nós mesmos deitados dentro do ônibus, pensamos o seguinte.

Por que não fazer um pacto de Guaraciaba? Do nosso Estado, o Estado de Guaraciaba, que vai lá no Rio de Janeiro, se estende ao Nordeste até o Maranhão, passa por Manaus e por Belém e por Brasília e pela Belém-Brasília, passa pelo Acre e pelo Goiás e pelo Espírito Santo e por Campos e pelo Pré-Sal, passa por Minas e inclui São Paulo, atravessa Curitiba, vai até Porto Alegre e se muda para Florianópolis e culmina pela nossa capital, a capital do Estado de Guaraciaba, tão parecido com o país vizinho, o Brasil? Por que não um protocolo onde nossos representantes oficiais e seus partidos, os de situação e oposição, assumissem compromissos igualmente oficiais de planejamento das cidades, suas moradas e moradias, suas pontes, seus morros, suas drenagens, seus automóveis, seu transporte coletivo, suas fontes de renda, seu preparo para receber turistas e novos moradores e suas defesas contra aquilo tão longe, tão acima de nós, mas que tantas vezes se repete, como os ventos, as chuvas e os tornados? Se os representantes do Brasil assinam tantos pactos internacionais, porque nós, os do Estado de Guaraciaba, não fazemos nossos governantes e candidatos firmarem, sob pena da perda do mandato se não cumprirem suas metas, compromissos para conosco, que não existimos? (Não sabemos como é no Brasil, mas, em Guaraciaba, compreendidos o Estado e seus municípios, nós, os inexistentes, é que pagamos os salários dos políticos - às vezes com nossos impostos, outras, com nossa credulidade.)
Mas, que ninguém leve nada disso a sério: afinal, somos aqueles que não existem; somos apenas e tão somente o povo do Estado de Guaraciaba.

8.07.2009

ELIANA DINIZ

Não tenho propriamente uma fé. Tive um catecismo católico muito agradável, menino de Laranjeiras, Rio de Janeiro, em um convento, com árvores, tamarindo, passarinhos e, naturalmente, freiras. Minha primeira comunhão foi franciscana, diferente das usuais naqueles anos, os mesmos quando vi, trazido pelas mãos de pai e mãe, soldados fardados e armados e os dois me dizendo, O Jango caiu e vai sair do Brasil. Meus pais não eram religiosos. Ela, de um internato de um rigor absurdo e crenças assustadoras, a ponto de ser obrigada a tomar banho vestida e dormir com a certeza de que o diabo estava embaixo da cama; ele, do Colégio Zacarias, no Catete, ao qual ia a pé, desde a Rua Umari, nas proximidades do Convento onde fui catequizado, já por falta de dinheiro – meu avô era um aristocrata, de família tradicional, talvez fino, seguramente falido – e saiu sem completar o curso, exatamente por esse motivo. Seguiram suas vidas, tinham curiosidade, liam tudo, os tempos eram outros, de uma forma um pouco diferente da de hoje, não era o diploma que fazia a diferença, a não ser para a tríade medicina-engenharia-direito. Foi assim que fui crescendo, indo às vezes à missa, já no Leme, começo de Copacabana, levando na gozação o “coração ao alto”, sentindo certo alívio quando percebia que a missa ia chegando ao fim. Depois, fui conhecendo a história, preceitos, preconceitos, dogmas, cheguei ao ponto de me sentir espécie de paria no mundo dos crentes, dos que tinham fé. Li Morris West, Nelson Rodrigues e Graham Greene, católicos de diferentes gradações, seus profundos encantamentos e desencantamentos, questionamentos, particularizações. Disso tudo, o que me restou foi uma sensação de ilógica e semelhança entre o Gênesis e o Big Bang e a esperança, mais do que crença, na transformação pós-morte, igualmente ilógica e semelhante às possíveis sucessivas transformações de ameba em quadrúpede, bípede implume, hominídeo, até o homo sapiens. Com relação à Igreja Católica, uma desconexão, uma não-aceitação de certas inflexibilidades, imposições, e a leitura de Em que crêem os que não crêem, troca de correspondências de Humberto Eco – mais um ilustre desiludido e desgarrado - com um cardeal. Ficou-me a mesma admiração dos escritores que citei, mais – muito mais - pelo humano que a instituição; mais por conhecer de perto alguns sacerdotes, sinceros, devotos, convictos e ao mesmo tempo conscientes de tanta incoerência, da defesa do tantas vezes indefensável, do distanciamento do poder do Vaticano corporativo e a dura realidade de crentes e descrentes, a maioria dos habitantes do planeta ainda excluídos, desgraçados, desesperados.

Em que crêem os que não crêem? – permanece a pergunta-título do livro já citado.

Da minha parte, passei a crer na perseverança de Eliana Diniz.

Ela cuida de um lugar que não existe, a não ser em certo gênero de filme americano. Em uma sala de mesas coloridas, há estantes, crianças lendo livros, querendo contar histórias. Noutra, meninos – meninos – tecem colchas, tapetes, panos de prato. Na terceira, meninas e meninos reaproveitam jornais velhos, lidos ou não, e fazem cestos e porta-retratos. Na quarta sala do lugar inexistente, só imaginado em filme americano sobre escolas de música, dança e teatro, três teclados, em cujas teclas se encontram escritas as notas, dó, ré, mi... abrindo o caminho para mais uma sala, onde oito jovens, de todas as misturas étnicas possíveis e sua beleza espontânea, bruta e ingênua, dos dois sexos, aprendem a tocar violino. Sete violinos para oito jovens, fazendo com que um deles fique esperando, olhando para o chão, pensando no que não queria, no mundo que deixou e o espera lá fora. Melhor esperar a vez do violino.

O maestro-professor, como os alunos, tem vida dupla. Os alunos e alunas da casa inexistente estudam em um turno e, no contra-turno, freqüentam o lugar imaginário. O maestro-professor, quando não está lá, conserta relógios.

Meninas e meninos, dos que querem ler e contar histórias aos que aprendem teclado, tecelagem, reciclagem e violino, se dividem entre os que costumam dormir debaixo da mesa da sala das casas onde moram e os que dormiam na rua e hoje vão para o abrigo municipal tentar dormir e sonhar com seus instrumentos, livros e agulhas.

Às vezes, quero desistir, diz Eliana Diniz, é miséria demais, é cada coisa que a gente vê... E dizemos a ela, mas aqui se conseguem resultados tão bons, esses meninos, essas mocinhas, estão encontrando seus caminhos, sonham, aprendem, vão querer se desenvolver, se encontrar em suas vidas, têm sua auto-estima recuperada...

Mas querem que eu tire o almoço deles, ela nos conta, tinha uma verba estadual que acabou e aí eles me disseram que eu tirasse o almoço e continuasse o projeto. Mas como eu vou tirar a refeição deles? Eles comem direitinho, todos em fila, depois eles mesmos tiram e lavam os pratos.

Este lugar de mentirinha fica em Quedas do Iguaçu, interior do Paraná. Só quem vai lá percebe que isso, o lugar que não existe, guarda ilógica e semelhança com o Gênesis, o Big Bang, Adão, Eva e o primata-ameba hermafrodita, o desaparecimento absoluto e a alma, ou seu equivalente, o espírito, partindo para outra, quiçá um paraíso.

Esta a minha falta de fé. Esta a minha crença. A insistência, a perseverança, crer no que não é crível, esperar o que não deve nem pode ser esperado. Mais que qualquer coisa espiritual, lógica ou ilógica, cética ou crédula, sábia ou pseudo-intelectual.

Eu tenho a mais absoluta certeza de que esta mulher, Eliana Diniz, a irmã Eliana, existe.

7.23.2009

UM HOMEM E SEUS CAPÍTULOS

O que há de mais interessante na vida não é a compreensão, mas o seu exato contrário. A esperança persiste porque o contrário não consegue ser tão exato quanto se esperava dele. A célebre foto do menino africano à beira da morte à beira do lixo enquanto um urubu observa a cena, que rendeu um prêmio e um suicídio ao fotógrafo, a tudo resume e explica e confunde. Há quem interprete a cena, se esquecendo de que não é uma cena e sim um fato que já deixou de ser e virou passado. Há quem use a foto, há quem explique a posição de espera do urubu, quem se prenda à engenhoca chamada urubu. Há finalmente quem sofra pelo menino. Entendimento houvesse e conversa não haveria. Engenho seria palavra jamais pronunciada. Arte é que nem o lixo entre o menino e o urubu, se revela no espaço da incompreensão, da multiplicidade de impercepções, do raso ao supostamente profundo, aquilo que poderia ser abrangente e não passa de espaçoso, que se torna sensibilidade porque esta não se manifesta. Quem levanta e anda muito provavelmente está mesmo morto. Vivo é o estático: perplexo, menino, lixo, urubu.

7.16.2009

DA ARTE POR PROFISSÃO E DE TANTAS OUTRAS COISAS

Cronistas profissionais, por exemplo. Famoso colunista afirma ter conversado com escritora irlandesa que por sua vez diz ter conversado com dois escritores brasileiros e se ter espantado com o desconhecimento deles sobre escritores. O famoso colunista citado conta que mencionada escritora disse que um dos dois escritores com quem conversou é uma fraude. Nesse quem é quem mais para fofoca que página policial fica público e notório quem de fato é fraude. Assim eu diria se colunista social fosse de modo que o leitor supusesse – não me deixei trair por ignorante perigosa rima – que de algum modo estivesse querendo me favorecer escondendo nomes extorquindo vantagens. Igualmente escondi vírgulas por profissional não ser.

Poucos dias depois, chefe da receita federal é demitida com subsequentes eloquentes desmentidos de que suposições de manipulações contábeis da estatal mor tivessem de fato provocado sua demissão e graças ao diabo há uma crise a justificar a demissão e graças a leis há leis que dizem que a receita é órgão técnico impermeável a pressões políticas profissionalismo é isso aí.

De tantas outras coisas, pelo consagrado argumento de que a medicina não é ciência exata é que fazemos exames científicos à exaustão cujos laudos são escritos por técnicos a debochar de outros técnicos autores daqueles que deram origem ao n elevado a n mais 1 somado a mais 1 exame que nada conclui e ao mesmo tempo e paradoxalmente tem definitivo laudo que é ridicularizado pelo médico que o lê enquanto examina o negativo à luz fluorescente e interpreta aquilo tudo laudo e imagem e condena o paciente à morte ou às vezes pior à vida como se poderoso fosse profissional que é.

Mais que tudo isso, acima de qualquer coisa ou laudo, vírgulas ora direis, não se chega em casa e sim a casa. E sem crase. Em casa é que se fica amador amadora assim não for meu amigo minha amiga a história acabou seu sorriso se foi sua oportunidade de afagar o cão e chutar o bidê e gritar isso doeu e o vizinho ouvir e a vizinha reclamar acaba por acabar com a carreira do síndico da síndica profissional.

Assim foi que hoje cheguei, que amanhã me vou, que um dia irei, amador sou rei.

7.08.2009

CARAS

Não no referimos à revista, mas aos rostos humanos, vulgarmente chamados de caras. Há matrizes – e isso Darwin, seus seguidores e também seus detratores poderiam afirmar com propriedade; mas, dessa verdade, sejamos apenas passageiros inquilinos.

Um rosto de uma menina atravessando uma rua de Santo Amaro da Imperatriz é o mesmo de uma outra avistada em Florianópolis, em tempo decorrido que não permitiria que ambas fossem uma só e com diferenças o bastante para sabermos que não são gêmeas e sequer foram geradas pelos mesmos pai e mãe. O mesmo ocorrerá com meninos, senhoras, homens e mulheres de meia idade e, pior, de meias puídas ou – mais grave - de meias verdades.

Claro, você já se lembrou dos sósias. Há um maestro em Florianópolis a quem só não chamamos de Getulio Vargas por óbvias razões, sendo a principal o fato de ser ele um maestro, regente de orquestras, pouco afeito a movimentações que não as das cordas e notas musicais, que transmite a meninos e meninas de pais e mães que lhes são próprios, com traços, prognatismos, sorrisos, olhares vesgos, sobrancelhas juntas, olhos separados, queixos, lóbulos e narinas que nos fazem lembrar de pessoas distantes, até de outras gerações, de Darwinianas ou Divinas originais fôrmas (o acento, neste caso, mesmo que abolido ou proscrito, é fundamental).

Agora, sim, falando de uma revista, quem folhear uma Veja de alguns meses atrás encontrará uma reportagem sobre Darwin e suas explicações, até, para o soluço – e como ele e seus estudos encontram até hoje fortes resistências. Diz o artigo que há duas correntes: a que acredita que sejamos todos tailor-made, feitos um a um, sob medida; e a Darwiniana, das tantas transformações e gerações ao passar dos milênios, séculos, dias. Esta segunda, de acordo com o artigo lido às pressas e tardiamente, acreditaria ser tudo obra do acaso.

A questão, de fato, não é como nem quando, e - ousa-se aqui afirmar – nem mesmo quem, mas... Por que?

Por que pertencemos a matrizes e, mais, muito mais, gostamos do cheiro da rosa e desgostamos de outros tantos? Este encantamento pelo mar, o vento, a escalada e a visão da montanha, se tudo isso nos veio atavicamente através de múltiplas transformações e numerosas gerações, muito bem, Darwin; se não foi assim, se de fato somos, cada um, encomenda, feitura, experimento e refeitura de Deus – que diferença isso faz, se o motivo continua escondido por trás de uma nuvem que não se vê?

Pois se soubéssemos o motivo dessa confusão toda, dessa coincidência, dessa falta de acordo e, admitamos, de assunto, ora, sem querer ofender a ninguém, poderíamos louvar a Deus ou ao Santo Acaso, sem culpa nenhuma nem a necessidade de desferir truculentos e orgulhosos socos em nossos próprios peludos ancestrais peitos.

Meninas de Santo Amaro da Imperatriz e Florianópolis, ainda se eu fosse outro Mário, o Quintana - mas não. A verdade é que seus rostos, suas caras, sua matriz amada e desconhecida causaram essa enorme confusão nesta minha cabeça, tão saudosa de cabelos, de poesia, de certezas.

6.21.2009

LEIS

Há as fáceis e as difíceis
De entender e de cumprir
Aquelas que o Poder ignora
Se esquece
Apenas impõe
Aos de fora da sua esfera.

Leis do trânsito
As do tráfego

As leis do tráfico

E as da razão.

As que não pegam.

Lei a mais difícil
Nos tira objetos das mãos
Nos atira na cabeça no chão
Pedaços de marquise
Pesados frascos
De esmalte de espuma de xampu.

Lei da gravidade
Que tu nada mais severo
Nada mais grave

A nos manter presos
À prisioneira do sol
À nossa nave esfera.

Pior que os canalhas
Mesmo que a permanente ameaça da substituição destes
Por outros constitucionalmente armados

Só mesmo tu
Amada poderosa invencível gravidade
A nos derrubar na calçada
Embrulhos sacos de compras nas mãos
Agendas impossíveis na cabeça
A bunda
Humilhada
No chão.