5.30.2009

AS RESPOSTAS E SEUS SILÊNCIOS

Escreva cartas
Mande e-mails
Torpedos.

Exprima-se
Expresse-se
Manifeste-se.

Quando a favor
Repercutirão.
Quando contra

À voz corrente
À linha traçada
Definida

Sempre nítida
Óbvia
Dominante

O silêncio se fará presente
Conquistado
Não portanto se frustre.

Senão a vida
Senão a morte
A arte

Muito de silêncio tem.
Mande e-mails
Torpedos

Cartas
Repostas
Perceba

Algumas
Se respondem
Silenciosamente.

5.19.2009

3 PENSADAS MAIS QUE SÚBITAS REAÇÕES

(1) À VEJA, SOBRE A ENTREVISTA DO PREFEITO DO RIO DE JANEIRO

O JEITO CARIOCA

VEJA, no último domingo, perguntou ao prefeito do Rio de Janeiro: “Esse ‘tudo pode’ é determinado também pelo jeito de ser do carioca?” Eduardo Paes respondeu: “Sem dúvida. Essa coisa do carioca, do seu jeito de ser, da malandragem cantada em prosa e verso, também acaba servindo ao ‘tudo pode’. Em nome de um certo carioquismo, cometeram-se equívocos e abusos. A cidade está maltratada tanto pelo romantismo social das autoridades como pelo que se convencionou chamar de ‘jeitão do carioca’.” [...] “Adoro samba, toco na bateria da Portela, gosto de chope, de boteco, de praia. Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem e sem perder a alegria típica da nossa cidade”. Ora. Esse tipo de consideração é o que transforma qualidade em defeito. O característico bom humor carioca – por extensão, brasileiro – não traz em si o gosto pela demagogia nem pelo que o prefeito chamou de “romantismo social”. Aliás, que romantismo é este - o da exclusão, do medo e das balas de fuzil? Curiosamente, o prefeito dá a entender que é dotado do mesmo “jeitão carioca”, pois afirma gostar de chope, de praia e batucada, mas se considera superior ao resto da população, quando faz a ressalva: “Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem...”. Caro prefeito: com ou sem jeitão carioca, a população do Rio já enfrentou de tudo e poderia parecer ufanismo tolo citar alguns nomes e feitos da sua história. Fato é que, sim, a demagogia de vários da classe que o senhor representa tem causado danos a esta cidade e ao país como um todo de difícil reversão. Entretanto, o senhor não é pago para cunhar jargões como o tal “jeitão”, perigosos a ponto de se ter até hoje o nome de um jogador de futebol para sempre associado a atitudes incorretas, por ele ter gravado há muitos anos um anúncio com um texto medíocre – o qual, evidentemente, não foi escrito por ele. Transformar bom humor em defeito é o mesmo que assistir aos filmes com Al Pacino e comentar: “Mas ele tem tanto talento para gangster, porque resolveu ser ator?”. E para que o senhor não pense ser o único capaz de ter alegria e preocupação social, sem mergulhar na desordem; se o senhor afirma que nasceu em uma cidade que não já era mais maravilhosa, ao invés de se achar melhor que o resto da população, faça parte dela, faça jus a ela e à cidade maravilhosa. É para isso que o senhor foi eleito; e é para isso que o senhor é pago.

(2) À FOLHA DE SÃO PAULO, SOBRE, ACIMA DE TUDO, PORTAS

QUANDO VAGABUNDAGEM SE TORNOU PROFISSÃO


É com estarrecimento que se lê, na FOLHA DE SÃO PAULO de domingo, 17/05/2009, que o governo federal vai passar a distribuir cestas básicas para acampados do MST. Aliás, como um representante do governo explica, ao invés das cestas básicas, existirá um cartão de compras, de modo que a economia local, isto é, próxima aos inscritos no “Bolsa Família”, deste também se beneficie. Explica a reportagem que o mesmo governo fará um mapeamento desses acampados, de modo a incluí-los dentre os que já recebiam as cestas e passarão também a receber os cartões de compra.

Quem reagiu antes de qualquer outro foi um coordenador do MST, que avistou o óbvio: esta medida não vai resolver o problema dos sem-terra.

É de se lembrar também que, no momento em que sua reeleição estava garantida, Lula, entrevistado pelo Fantástico, a respeito do “Bolsa Família”, disse que era preciso achar a porta de saída para o assistencialismo.

Ora. Se ao invés de fazer a mais que atrasada reforma agrária de maneira clara, competente e justa, o governo Lula vai ampliar o assistencialismo a acampados – os quais o que pretendem, ou deveriam pretender, é terra – e é de também se supor e desejar que seu real intento seja terra para trabalhar e, desse trabalho, sobreviver e, porque não, progredir -, esse mesmo governo não está achando, nem querendo achar, nenhuma porta de saída. Mas de entrada.

A agir dessa maneira, ainda que sofisticando a forma, o governo Lula estará criando uma nova e confortável carreira: a de vagabundagem, mantida pela parcela da população que paga impostos. Isso mesmo: uma parcela dos impostos que pagamos serve para viciar cidadãos a buscar a maneira mais fácil de ganhar o necessário e suficiente para um vida medíocre. Basta ter filhos na escola ou demonstrar que eles a freqüentam e pronto: ganha-se um cartão de crédito, que permite morar em um acampamento ou barraco ou de favor na casa de alguém e (sub-) viver sem trabalhar.

Que nenhum demagogo de plantão venha a nos lembrar que poder pagar impostos no Brasil é um privilégio. Claro que é. Em um país em que o desrespeito, a demagogia e a burrice conseguem superar históricas injustiças, nada mais conforme que aqueles que conseguiram emergir desse pântano – a maioria deles, trabalhando, e muito - sustentem vagabundos, além de alguns políticos, principalmente os que não estão nem aí para nossa opinião.

Aliás e para encerrar, sabe porque eles não estão nem aí?

Porque a maioria de nós, que paga impostos, parece demonstrar que também não está.

Mas isso é outra cesta básica.

(3) A QUEM NÃO ESTÁ NEM AÍ PARA A OPINIÃO PÚBLICA

A NOSSA E O DELES

Ser ou não ser ou estar ou não estar, na língua do Sheakspeare, são ditos (e escritos) do mesmo jeito. Na língua falada no Brasil, ainda que agora mais próxima da que se fala em Portugal e suas outras ex-colônias, os sentidos são cada vez mais distintos.

Já houve um ministro que dizia estar – e não ser – ministro. Para dizer isso em Inglês, não seria tão simples assim. Anos depois, um presidente da nossa república (nossa?) viria a dizer mais ou menos a mesma coisa, um tanto blasé, às margens do rio Sena.

Mais recentemente, certo congressista disse que não está nem aí para a opinião pública.

O que me ocorreu foi o seguinte. Quando eu encontrar com gente como ele, que não está nem aí para quem votou neles e paga os salários deles; que descaradamente se apodera do que não lhe pertence; que se aproveita da carência quase que absoluta da maioria, o que resulta em despreparo, tornando-a presa fácil desses asquerosos, já sei o que vou fazer. Vou tacar-lhe nas fuças um livro bem pesado, que não será do Sheakspeare, não: será do (deles) acadêmico José Sarney.

Quero ver se ele vai ter a coragem de revidar.

E ler.

4.29.2009

AGORA, FALANDO SÉRIO

Bandalheiras à parte - sem perdoá-las ou esquecê-las jamais -, alguns momentos da História recente não são de se jogar fora. O primeiro deles foi ter à frente da Economia um político: FHC. Depois, à frente do Banco Central, um e depois outro banqueiro. A falsa impressão de que o brasileiro não tem memória, que pode ter sido reforçada pela reaparição de indigestas figuras cheias de poder novamente, claro que acontece pela manipulação covarde da turma da bandalha, que dela se beneficia e se locupleta e se vomita. Um faminto de tudo - da comida à instrução, à mais rudimentar capacidade de discernir - acreditará em qualquer hipócrita que se apresente oferecendo migalhas, trazendo consigo santinhos com o retrato de si próprio, de seus padrinhos - as referidas indigestas figuras - e, destas, seus mais recentes pares, a permanentemente renovar o que há de pútrido na pátria amada. No meio disso tudo, dois políticos que sabem disso tudo e - impossível não reconhecer - se saem muito bem disso - e nisso - tudo: o já citado FHC e, evidentemente, Lula. Pouco provável que o próximo seja alguém capaz de destruir o que foi conseguido a duras penas pela brava gente. De resto, é fortalecer o faminto de saber e comida, para que ele saiba distinguir retrato de canalha de rosto de gente de alma grande, gente que lava o rosto na pia e faz cocô na privada. E não o contrário.

4.28.2009

LUNETAS POUCO PRECISAS PORQUE ANTIGAS

As DIRETAS JÁ ficaram nos comícios, o Tancredo, no hospital, o Collor, no impeachment, a inflação, muito acima da capacidade do estádio. Por isso é que foi substituída por juros muito acima da capacidade do estádio. Depois que fomos a pique, descobriram a pólvora e puseram um banqueiro à frente do Banco - o Central - que, depois, foi substituído por outro banqueiro. Privatizaram, não privatizaram, privatizaram de novo e estamos aí. Aqui. Firmes. Nós e o cara. A cara. E os outros. A abundância, a falta, o pingo, a torneira, a lata. Assim funcionamos: quando abundantes queremos abundar mais, quando temos falta nos viramos para matar a sede, transbordamos de vez em quando, nos vendemos por um pingo, na cabeça, a cabaça. Não foi terra o que avistaste, Cabral. Foi água.

4.19.2009

MUROS

Segundo o livro CIDADE PARTIDA, de Zuenir Ventura, do início do século XX até o seu final, a quantidade de favelas no Rio passou de uma para 500. Há que diga que, hoje, são 700 ou quase 1.000 - e que, por exemplo, em Florianópolis, com seus cerca de 400 mil habitantes, já são dezenas.

O governo do estado do Rio de Janeiro começou a construir muros nas favelas cariocas - em 13 delas -, totalizando 14,6 km lineares e o custo de 40 milhões de reais.

Há algumas questões que se levantam por si:

1. Se o número é de 500, 700 ou 1.000 favelas, enquanto construírem muros em 13 restarão 487, 687 ou 987 sem muros;
2. Mesmo quem defende a construção – por exemplo, a revista VEJA – afirma que os muros por si, sem fiscalização, serão incapazes de impedir a expansão das favelas;
3. Morros sempre são acessíveis por mais de um caminho - e o projeto não prevê, como chegaram a pensar – e temer - alguns daqui e de fora, muros poligonais coibindo ou dificultando todo e qualquer acesso às favelas;
4. A um custo unitário que, segundo especialistas, seria viável, de 20 mil reais, a quantia que dizem que custarão os 14,6 km de muros em 13 das 500, 700 ou 1.000 favelas cariocas seria a mesma para construir 2.000 (duas mil) casas populares.

Portanto, antes de qualquer juízo ético, é fácil de ser percebido que a construção desses muros é injustificável por qualquer rudimentar e simplista raciocínio prático, econômico, ou mera, pobre, tosca, minimamente lógico.

Saindo do terreno pragmático e adentrando em outro cuja subjetividade é quase nula, a dedicação brasileira à persistência e à manutenção de construções feitas pelo poder público é igualmente quase nula; é de se apostar que esses muros, se sua construção chegar ou não ao final, muito em breve serão ruínas.

Agora vamos deixar de vez a obviedade e pular o muro brasileiro da hipocrisia.

Em um país cuja sociedade achou prático e natural que em um século fossem construídas 500 ou mais favelas na cidade que, durante cerca de 60 anos do mesmo século, foi sua capital; que considerou igualmente prático e natural que em outras cidades de perfil montanhoso fossem construídos barracos e mais barracos em seus morros e, nas planas, que parte da população se espremesse em caixotes de madeira ou papelão montados à beira de estradas; que se comporta como o paciente de psicanálise que inicia seu tratamento falando da mãe e acaba por tratar da, às vezes, já falecida mãe e não de si, como aqui se faz, culpando eternamente os portugueses e suas capitanias hereditárias; que em grande parte acha bonito e natural entupir as narinas de pó e empinar as mesmas narinas a exigir segurança e direitos; que sabe que os políticos são de baixo nível porque a população em sua maior parte é facilmente manipulável, porque desesperada, encantada pelo primeiro santinho acompanhado de cesta básica, vale-combustível, torneira, escada ou proximidade à corja pútrida, - em um país assim, com uma sociedade assim, nada mais natural que se prefira construir muros à volta de pobres ao invés de pensar em alternativa que, mesmo e ainda que minimamente, se baseasse em orientação, educação, diálogo, leis, inclusão. À brasileira, é melhor construir, justificar, pichar e deixar ruir um muro.

Principalmente, ficar em cima dele. E – prático e natural - atrás da moita.

4.12.2009

CARTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Caro Senhor Presidente da República:

Talvez o Sr. não se lembre. Raymundo Faoro foi contrário ao projeto da reeleição assim que iniciada sua defesa, quando o reeleito viria a ser o seu antecessor, Sr. Fernando Henrique Cardoso. Como em tantas outras vezes, o saudoso jurista e historiador estava com a razão.

Sem recorrer aos argumentos dele, é de impressionar o quanto o Poder é mesmo capaz de transformar indivíduos e quanto maior é a transformação à medida em que o tempo passa. Difícil imaginar o corajoso líder sindical de outrora, que conduziu uma greve em plena ditadura militar, comparando obras da envergadura das do "PAC" com o corte das suas unhas ou o batom da sua candidata e ministra.

Quanto a ser ou não chique emprestar dinheiro ao FMI, duas afirmações podem ser feitas, Sr. Presidente: (1) o dinheiro não lhe pertence; e (2) não há nada que seja ou possa vir a ser chique nesta crise. Quanto a esta ser espécie de marolinha, pergunte a alguém que esteja desempregado se pensa assim - é o que se lhe pode sugerir, Sr. Presidente.

Ainda sobre o empréstimo ao FMI, adicionalmente, é de se arriscar duas suposições. A primeira: como o Brasil é membro do Fundo e, este, um órgão destinado a emprestar a países-membros em risco de insolvência, deve, sim, ter havido uma proposição de que fosse feito o empréstimo, e não, deste, uma oferta expontânea por parte dos nossos representantes. A segunda: por várias razões que poderiam ser supostas em extensão, é bem pouco provável que a proposição pudesse ser recusada pelos mesmos mencionados nossos representantes.

Voltando agora um pouco no tempo - porque é do tempo, no Poder, que se tem aqui como tema -, quando os aeroportos e vôos comerciais se tornaram um caos, é de se esclarecer, Sr. Presidente, que se a classe média nunca tomou banho frio, tampouco quente era a ela possível tomar - posto que não há chuveiros nos aeroportos, nem mesmo naquele em que o personagem do Tom Hanks fica detido. A classe que viajava, média ou não, incluía empresários, trabalhadores da iniciativa privada e estatais, religiosos, artistas, políticos, ministros...

Sr. Presidente, quando o Sr. fala da Petrobrás ou do Banco do Brasil, essas empresas têm como acionistas (a) investidores em ações da Bolsa de Valores e (b) esse conjunto difuso, pouco visível de longe, o povo.

Suas palavras são sempre poderosas, dado ao cargo que o Sr. ocupa, Sr. Presidente da República.

Sr. Presidente, o que também é certo é que o Sr. sabe disso tudo; apenas e lamentavelmente, o tempo no Poder tornou distante a imagem de bravura e coragem do líder sindical, trocada, como se fosse figurinha de álbum de criança,
pela de alguém que já não sabe mais distinguir que papel de fato desempenha, onde e quando. Principalmente quando. Raymundo Faoro estava com a razão.

4.02.2009

ORIGEM - E EVOLUÇÃO

Do mar à praia
Até as estepes

Pela relva
Até a montanha

A casa.

Depois
O cerco.

3.29.2009

DO FUTEBOL E OUTRAS AMEAÇAS

Para Lygia e José Estácio Corrêa de Sá e Benevides (ambos flamenguistas).

O sujeito assiste a um jogo ruim, é interrompido para sair para jantar com a família. Quando volta, seu time está vencendo por 1 a 0, o outro vira o placar e o jogo termina: Fluminense 2, Botafogo 1. “A culpa foi minha?”. Mesmo sabendo que isso é uma impossibilidade, ele, que não é nenhum garoto, se lembra de vários outros jogos a que assistiu e que seu time ganhou, convencendo-se do contrário. “Por que, o dia inteiro, eu sabia que o Botafogo perderia?”.

Houve um campeonato em que o Fluminense ganhou o primeiro turno, garantindo a vaga para a disputa da final, perdeu quase todas as partidas do segundo, foi à final e foi campeão. Aquilo pareceu uma estratégia, do mesmo clube que, numa outra vez, assim que acabou de ganhar o campeonato, demitiu o técnico – Paulo Amaral, que viveu grande parte da sua diversificada e vitoriosa carreira no Botafogo. Pois este acabou de ganhar a Taça Guanabara, se classificou para a final do campeonato e desandou a sofrer derrotas e empatar jogos “ganhos” - de passagem, do Vasco, ora na segunda divisão do campeonato brasileiro, tomou de 4 a 1. Nada disso é estratégia - nem síndrome de “sofredor”.

Exemplos de fracassos de Botafogo e Fluminense e desastres que a eles se sucederam são recentes. Botafogo e Juventude no Maracanã teve um resultado que deu o título ao time gaúcho - e tome anos de sofrimento, até que o clube do Rio voltasse a conquistar um título. O técnico do Botafogo não se preocupou por não terem saído gols nos treinos; ao Juventude, bastava um empate para sair com o título; e o técnico do Botafogo assistiu ao 0 x 0 até o fim, apenas sem torcer como torceram os 100 mil botafoguenses que lá estavam. Ano passado, o Fluminense perdeu a final da Libertadores da América, no mesmo mais que carioca Maracanã; e tome trauma, até que os nervos e a moral do clube, de técnico novo, o Parreira, da sofrida Copa de 94 e da nem é bom lembrar de 2006 – e isso é outra história –, vão-se recuperando. (Tá bom, flamenguistas, ontem vocês se vingaram do Resende.)

O que acontece com o Botafogo neste momento é algo muito mais que botafoguense ou restrito ao futebol. É sabido: poucos sabem lidar não só com o fracasso - mas com o sucesso. Não por outra razão algumas estrelas, do futebol como das artes, de repente se esborracham; se acabam; ou desaparecem. “Ganhamos a Taça Guanabara. Ganhamos a Taça Guanabara! Ganhamos, a Taça Guanabara?”.

Não no futebol, mas na vida, perder, para a maioria dos brasileiros, infelizmente e por várias razões, ainda é corriqueiro. Nos Estados Unidos, ser chamado de “loser” é pior do que, para nós, ter a mãe xingada ou ser derrotado em um jogo de futebol. Pelo que isto representa para eles e pelo que a História conta, é muito pouco provável que eles saiam dessa como “losers”. Se será bom ou não para nós, isso é outra história.

Hoje tem Brasil e Equador, lá em Quito, com Robinho e seu dedo na boca. Mas só se sair gol, não é, Dunga? E, antes que me culpem ou somente perguntem, não, nenhuma premonição; não, eu não vou assistir ao jogo.

3.27.2009

MANCHETES

Medicina & Estética: o aparar das unhas e o batom serão poupados por causa das obras de infra-estrutura.

Infra-estrutura: as obras de infra-estrutura serão poupadas por causa das unhas e do batom.

Futebol: os brancos de olhos azuis são os culpados pelo mau desempenho da seleção da Escócia.

Tênis: mil rifles na fronteira da Venezuela com a Rocinha.

Fórmula um: fórmula dois.

Cinema: de Zapata a Zapatero, de Bolívar a Hugo Chaves, de Evo a Morales, por favor, não perca.

Ciência: Malba Tahan se revolta, porque senador que calculava afirma que 138 = 31.

Arquitetura: casas populares tomam lugar de castelo.

Política: a situação se torna cada vez mais ucraniana.

Previsão do tempo: trevas, com brumas ao fim do período.

Obama: yes, não temos banana.

Da redação,

Excalibur.

3.08.2009

BLOGUE VELHO, MUNDO BURRO

Como vai, blogue amigo velho?
Faz tempo não nos falamos.
Aqui do lado de fora é domingo,
Está chovendo, está ventando.
Na caixa da televisão
Tem um programa em nona edição
Que aqui ignoramos
Sem qualquer solenidade.
Ainda dentro da caixa da tv
Agora temos um arcebispo
Que excomongou os médicos
E perdoou o estuprador
De uma menina de 9 anos
De uma menina de 9 anos
De uma menina de 9 anos.

O Vaticano apoiou.

Blogue velho,
O mundo é mais velho que nós
E não aprende nunca.

Ê blogue velho,
Ê mundo burro.

2.09.2009

PRAIA E ARREDORES

Para Isabel, Flávio, Isabela.
Vera.
Minha filha, minha mulher.
Meu irmão.
E outros bons amigos de uma praia inteira.


Muito se diz que a praia é democrática, tanto quanto que nela se formam guetos, turmas, tribos. Se as duas situações são simultâneas e verdadeiras, a explicação é muito simples: a praia é anárquica. Não é democrática. Nem altruísta nem ditadora. Ninguém vota e ninguém manda. Não há poder nem golpe de tomada de. Quando ocorre o arrastão, seja dos pescadores ou dos favelados, o golpe não é dado na praia nem no mar: vem de antes; dos arredores. Vem da miséria que, a essa altura, ao nível do mar, neste século vinte e um - mais tantos outros antes do início da sua contagem cristã -, que ninguém duvide, não vem da anarquia nem da democracia. Vem do desgoverno. E de toda sua conveniência a quem ele convém.

Sacos cheios fora, se há vida depois da morte, reencarnação, vida em outro planeta ou sistema ou universo paralelo ou transversal, que a minha, se me é ou for dado o direito de escolha, que seja numa praia. Que eu mergulhe vivo depois da morte e de óculos; e que eles me permitam ver o fundo do mar, sua água, sua areia, com ou sem peixes, algas, tubarões, águas-vivas ou serpentes. Conchas. Baleias. Dêem-me o mar e a areia e viverei, morto e feliz.

Solidão, desta, não faço a menor questão. Uns pescadores, umas belas, eternas e verdadeiras amizades, um grande e um pequeno amor. Um bar. Um livro. Não, não: mais de um. Uma pedra, um morrote de pedra que, se eu tiver coragem, vou escalar ou contornar, pelo mar ou pela terra em volta, para ver se há outra praia depois dele.

De resto, vamos à praia, mesmo ou principalmente se estiver chovendo, mesmo e ainda que de noite, só não vale debaixo de raio - porque, debaixo de governo, seja ele qual for, temos que conviver com ele, viver com ele, apesar ou, lamentavelmente, quem poderá dizer se verdade ou mentira, por causa dele.

Mas não na praia. Na praia, ninguém manda. Na praia, mando eu.

Em ninguém.

1.01.2009

2009

Quem foi na frente, de tão querida, nos guardará um bom lugar.

Estamos no Rio. Meu irmão, que nos hospeda, se mudou para um apartamento em frente à Praça Eugênio Jardim, onde começa e termina o Corte de Cantagalo. À frente, a Lagoa; atrás, o mar de Copacabana; à esquerda, onde Ipanema começa a se desenhar.

Todas as manhãs, temos caminhado: ida e volta ao Leme; Posto Seis, Ipanema, Lagoa, Corte de Cantagalo; ou Corte, Lagoa, Ipanema, Copacabana. Fomos a uma festa em uma cobertura, na Avenida Atlântica, convidados de um primo e convidado, Mario Oswaldo, feita a devida consulta prévia aos anfitriões - que nos receberam muito bem, obrigado.

Nunca tinha assistido ao espetáculo de fogos ao vivo. Navios atrás das balsas de onde eles partiam me olhavam de longe. Um conjunto, uma gravação de Tom Jobim, depois, do Tim Maia. A contagem regressiva, uma valsa, um samba, uma guitarra, uma cantora. Os fogos se aproximavam e se afastavam. Depois, fumaça. Lá embaixo, a multidão. Comentei que, se estivéssemos lá embaixo também, igualmente nos encantaríamos – e antes e depois, nos juntamos e nos encantamos outra vez, não podia ser diferente.

Na vinda, a pé, somente um momento de tensão, totalmente ilusória. Passado o descabido susto, tive que perguntar onde ficava uma rua, onde teríamos nosso primeiro encontro, para depois irmos à festa: Domingos Ferreira – eu, que já soube dessas ruas de Copacabana todas, de cor, mapeadas na memória; acontece que oito anos são tempo suficiente para embaçar meus mapas mentais.

Nenhum outro susto, nem na ida nem na volta, a pé, junto à multidão que voltava para casa, o metrô, ou simplesmente zanzava. Às vezes, tonto, às vezes, tonta. Já fui um deles, sei como é. E acordamos e andamos outra vez, Posto Seis, Ipanema...

Quem inventou o automóvel era ruim da cabeça ou doente do pé. Não digo o mesmo do taxi, do metrô, do trem, nem do ônibus – mas todos perdem para o melhor meio de transporte, que já nasce com a gente, que a gente calça quando quer, que a gente descalça na areia e molha no mar.

Já quem faz a guerra é de uma arrogância que parece grande – entretanto, é tão somente menor que a menor das sensibilidades.

Feliz Ano Novo.

11.13.2008

5 SENTIDOS

Que expliquem isso tudo como quiserem, mas o fato é que a maioria de nós é sensível à beleza, à lua por trás das nuvens, se entristece quando a chuva fica por tempo demais, toma banho de sol artificial no lado do globo que permanece mais tempo no escuro que no claro. Cães nos respiram. Por que seus olhos miram fundo nos nossos enquanto isso, ainda que cientistas encontrem razões químicas, magnéticas, biológicas, permanecerá outro fato: cães nos respiram e nos miram no fundo dos nossos olhos. Melhor ouvir químicos de perfumes. Fundamental será frequentar floriculturas, perguntar onde colhem suas flores vendidas pelos olhos da cara em suas lojas. Literalmente, porque são eles, os olhos da cara, que se fascinam pelas flores, antes, logo depois ou ao mesmo tempo que nossos olfatos. As cores. Leia aí Platão ou Stephen Hawking, pregue o Gênesis na sua mesa de cabeceira, acelere as partículas, beba chá ou vinho. Principalmente, explique o deslumbramento e a afinidade que você tem com o mar. A lua, o ser que não é, que somente reflete uma explosão que dizem vai durar ainda por algum tempo, está lá, visível, clara, cheia, as nuvens saíram da sua frente e ela se exibe inteira, distante, fria. Fria? Uma moça toca um trompete. Um idiota está ao lado de outro em um carro em alta velocidade e põe a cara para fora da janela do carro e grita uma imbecilidade qualquer. Uma outra moça raspa uma tigela do chocolate que sobrou do bolo que a mãe fez. Uma velha excita-se, porque amanhã é dia de ir ao centro, centro do quê, alguém saberia dizer? Existe um? Crimes passionais, armas passionais, jogadores passionais, corretores passionais, investidores frios. Neste momento, em controlado desespero; mas frios. Quentes são os executivos a seu comando, ambiciosos, incestuosos, fazendo-se de frios. Medrosos. Poderosos. Diplomáticos, serão alguns. Outros, não: raivosos. Outros, não: estrategistas. Cartas. A lua? Apenas o ser que não é, que reflete, é um espelho, uma prisioneira, a girar em torno da outra bola que gira em torno da explosão que perdurará por algum tempo. E as explicações virão da aceleração, da fusão, da fissão, e você não saberá porque ficou excitado com o que viu, cheirou, ouviu, tocou, provou. Se assim for, parabéns.

11.09.2008

O RATO. E O CURSOR.

O rato eletrônico
Fica à minha espreita.
O teclado à espera
Dos meus dedos.
Dois três deles batem nas teclas
O resto à espreita. Todos tortos.
Tanto os que batem como os que olham. Esperam.
O cursor piscando na tela
Que ele diga o que eu gostaria de dizer
Que outros gostariam de dizer e ler.
As palavras me faltam.
Não é diferente quando leio
Quando um livro uma revista uma bula
De remédio é o que eu escolho
Como não diferente é quando assisto a um filme
Um show humorístico
Um show de música
Uma peça
Um balé
Um jogo de futebol.
Em algum instante minha raiva
Minha ira incontida inconfessa
Meu humor
Meu amor sufocado
Há de respirar.
Miro o cursor piscando
Me falta o ar.
Sede tenho pela água a cerveja o vinho
Pelo corpo da amada
Pela mão da filha
Pela palavra do amigo
Pela baforada do cigarro dele
Pelo bom dia do vizinho
Do porteiro do farmacêutico.
De bairro.
De barro.
De mato.
De chão.
De mar.
Nesses tempos de GPS comprei uma bússola
Como todas
Defeituosa: aponta somente o Norte.
Não é do Norte que preciso nem do Sul
Não quero a latitude longitude.
Cursor! me traga
Meu rumo.
Garçom, por favor:
- Palavras.

10.30.2008

MARIA DO REASSENTAMENTO

Outubro de 2008, viagem ao sul do Brasil, com meu amigo Julio Pavese

Dürrenmatt, que pronúncia tenha seu nome,
Que palavras tenha usado,
Pensando em quem pensa em Deus,
Disse assim:
Tudo o que o homem sabe ouviu de outro homem,
O homem precisa do homem.

Maria concreta
Maria da catequese
Maria que já não é.
Maria do Movimento
Maria que já não se sabe se é.

Que é casada se sabe,
Que é bonita se vê,
Que fala um quase italiano se percebe.

Naquilo em que Maria crê
Só seus olhos dizem,
Mas, o que dizem os olhos de Maria?

Maria chegou da chuva
Descalçou suas botas na varanda – botas de borracha -
Entrou na casa da irmã,
Sentou, cruzou suas pernas nuas, contou:

Minha mãe se matou.
Quando viemos pra cá.
De depressão.

O que Maria não disse
Foi que a depressão tinha nome
O nome do pai de Maria.

Foi à polícia e deu queixa:
Meu pai abusa de mim.

O pai de Maria foi preso.

O pai de Maria está solto,
Longe, distante de Maria,
Longe, da irmã e do irmão de Maria.
Faz 20 anos que eles, irmão e irmã de Maria,
Toda noite, dormindo, sussurram:
Ave.
Maria.

10.28.2008

DEFUNTO, REDIVIVO E FURTADO

Eu já deveria estar na cama, pronto para dormir, mas, como interromper e, depois, deixar de comentar? Camila Pitanga, Deus do céu, o que foi que o Senhor fez, além da Perfeição? Paulo José, quantas profissões e sotaques mais você vai experimentar para se convencer de que você é ator, porque será que você não experimenta essa profissão, fica aí, tentando fabricar beliches? Fernanda Torres e Wagner Moura, por favor, me expliquem, afinal, o que é ficção? Será que o Tonico Pereira algum dia soube? Este Bruno Garcia, que não olha e olha para a câmera nas mãos do Zico do cinema de Bento Gonçalves disfarçado de Lázaro Ramos, vocês querem me fazer o favor de me explicar porque foi que a Janaina (Kremer) saiu do rio e não do mar? Ora, seu Jorge Furtado, você, seu menino com o isqueiro no bolso, a freira que sabe de seios, o papel jogado no chão para a propaganda, a lata, no rio não, mas no mato, sim, o clique, a idéia, o despertar e não a porcaria enlatada em discurso, e tudo isso lá, inclusive o discurso. A iluminada Marina, isto aqui, este fim de mundo vai atrair atenção, investimento, acho que os meninos vão gostar da deusa se parecendo com a Eva (foi o que pensou o Joaquim), a beleza vai salvar a natureza, ou sei lá. Da primeira tentativa, eu estava com sono, desisti de assistir. Meu irmão me perguntou, como, como pode? Agora, não. Sai da tumba, renasci. Saneamento Básico, seu Furtado, o senhor só por favor me devolva o sono, Furtado, o sono, que amanhã é dia de trabalho.

10.25.2008

PROTESTOS

Para começar, este blogue existe há mais de 3 anos. Só eu o visitei muito mais que 3 x 12 x 4 = 144 vezes. Portanto, não posso aceitar que, ao revisitá-lo, encontre: “1 visitas”. Pelo menos o contador poderia ter acertado no erro, informando: “1 visita”. E aí, perguntaríamos, nós, os não contados: - Quem foi?

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Melhor que sejamos avisados, antes da próxima crise, que o dinheiro sempre esteve, está e estará à nossa disposição nos bancos centrais do mundo. Do contrário todos ficaremos outra vez perdendo o sono, tolamente, sobre nossos colchões recheados de dinheiro.

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Todas as crises acabam. Graças a Deus, nós, não.

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No litoral, o verão tem sido fiel: começa e termina regularmente, sempre à segundas-feiras. Já no interior fica o ano inteiro, ora com muita chuva, ora sem nenhuma. Deus é brasileiro; só não faz questão é de ir à praia.

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Na TV, uma autoridade explicando que, nas eleições de amanhã, daremos mais um passo na consolidação da democracia. Democraticamente, desligamos a TV.

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A História acabou. A História não acabou. Do Estado, para o Estado, pelo Estado. Do Mercado, pelo Mercado, para o Mercado. A Terceira Via. E você, que não vendeu sequer um único exemplar de livro defendendo qualquer dessas teses, ainda por cima, comprou muitos defendendo todas.

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Caminhe pensando no futuro, se lembre do passado, analise o presente. Se não conseguir, entupa os ouvidos com fones. Ao olhar para trás para saber se a retaguarda corresponde ao front, não se esqueça dos postes, do tráfego e da vizinhança. Especialmente aquela que vê sem ser vista.

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Ninguém é mais verdadeiro do que aquele que afirma agir de modo totalmente transparente. Ele – o transparente – é o vidro. De tão transparente, não aparece. Você não o vê, quebra a cara, e ainda pergunta ao porteiro se ele vai bem.

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1 visitas: mariobenevides.blogspot.com.

10.21.2008

HETERÔNIMOS E INTERVALOS

Intervalo de jogo, intervalo de vida. Segundo Clarisse Lispector, a vida é isto, principalmente: a insatisfação dos intervalos. Não é racional ser torcedor. Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Meu time é bissexto e único - a deter maior história e mais histórias do que títulos. É oportuno dizer seu nome; e inconveniente.

Heterônimos não são um privilégio do Fernando Pessoa – ou dele, a eles, dar vida. Privilégio dele e seus heterônimos é ter definido o que o poeta é.

Por favor, torcedor, complete a frase:

O poeta é um fingidor. Finge...

Segunda questão. O poeta é:

a) Isso mesmo: um fingidor;
b) Um sonhador;
c) Fora da realidade;
d) O albatroz, do Baudelaire (príncipe das alturas, no chão, em meio à corja (!) impura, as asas de gigante impedem-no de andar);
e) Um mercador, em botequins;
f) Aquele que o engenheiro quer ser (todos os direitos reservados: Pablo Neruda);
g) O engenheiro, quando engenhoso;
h) Idem, quando menino de engenho (Viriato Correia, perdão pela metáfora; metáfora?);
i) Um botafoguense;
j) O que faz o laboratório da língua (João Cabral de Melo Neto);
k) Nem alegre, nem triste;
l) Uma parte, linguagem, outra, vertigem;
m) Um heterônimo.

Que o poeta Aldo Votto e seu heterônimo nos expliquem o que é um heterônimo, um poeta, um torcedor, um botafoguense.

E, principalmente, um intervalo.

E que acerte na resposta.

Que – principalmente – erre.

Arre!

mariobenevides.blogspot.com - o pseudônimo de um heterônimo.

10.11.2008

DEPOIS DESTA, EU JURO QUE EU PARO

Só mais uma. Uma só, e vamos embora, eu prometo. Depois desta, a realidade, o dia seguinte, de manhã e de tarde.

O brasileiro não tem memória. Por isso ele confunde nomes como Pelé e Garrincha, Gerson e Jairzinho, Zico e Falcão, Romário e Bebeto, Ronaldo e Ronaldinho. Por isso, confunde faces de Zezé Mota e Dina Sfat, Marília Pera e Fernanda Montenegro, Paulo José e Armando Bogus, Wagner Moura e Natchergale. Confunde Marta Rocha com Gisele Bunchen, Jorge Amado com Dorival Caymi, Chico Buarque com Caetano Veloso, Milton Nascimento com Fernando Brant, Sérgio Buarque de Holanda com Vinicius de Moraes, Tom Jobim com Villa Lobos, Darcy Ribeiro com Josué de Castro.

O brasileiro não tem memória está gravado no consciente coletivo, talvez porque Getúlio Vargas tenha voltado nos braços do povo, eleito em vários lugares ao mesmo tempo, desafiando a física e o razoável. O povo que o trouxe nos braços até o caixão é retratado por Jorge Amado em O país do carnaval, Cacau e Suor, por João Cabral de Melo Neto em Morte e vida Severina, coisa de quem confunde passado e presente, pois, se você, que não tem memória, reparar bem, esse povo continua andando por aí.

Brasileiro não tem memória a ponto de trazer de volta o Collor. Quem o trouxe de volta foi quem votou nele na primeira vez e de algum modo se deu bem, trocou de carro, foi para os Estados Unidos, se vingou intimamente de uns caras que lhe cuspiam na face teoria, cargo comissionado ou arrogância de rico ou pretendente a.

Brasileiro não tem memória a ponto de não se esquecer que o Getúlio foi um ditador, com direito a Polícia Especial, hedionda tanto quanto a tortura do regime militar. Não tem memória porque não esquece que o Collor implantou o regime da arrogância, confiscou depósitos bancários, liquidou com a liquidez e devolveu empregos perdidos em dezoito meses sem juros.

Brasileiro não sabe votar. Como se alguém no mundo soubesse. Imagine se dinamarquês soubesse votar e faria eleição assim mesmo. Imagine se houvesse um único indivíduo no mundo que todos dissessem, este, sim, sabe votar, ora, a ele delegaríamos o poder do voto único e coletivo; diríamos, vá lá, meu bom francês, inglês, americano, venezuelano, japonês ou brasileiro, vote por todos nós, porque só você sabe votar. Porque a democracia é exatamente o regime de quem NÃO sabe votar e, por isso, TODOS votam. Seu contrário - a ditadura - é definitivamente aceitar essa insuportável verdade e entregar os pontos, adorando temer e pendurando na parede um par de botas, coturnos.

Rimando coturnos com soturnos, paro por aqui, meu amor, como prometido; a saideira fica para outro dia, outra noite. Doravante, inventarei histórias ou as roubarei do cotidiano, legitimamente, eu juro. Na despedida, provo não ter exagerado e faço um quatro:

1 - O brasileiro não sabe votar;
2 - O mundo não sabe votar;
3 - Foi por isso que os gregos inventaram a democracia;
4 - O brasileiro TEM memória.

A ênfase, meu amor, fica por conta de, esta, ter sido a última desta noite. A saideira, como prometido, fica para outra. Vamos para casa; ao cotidiano; e tiremos dele o que houver de romântico, irônico, sem valor algum. Assim como essa, a última, que, na verdade, é e será sempre a penúltima.

A saideira fica pra depois.

10.07.2008

MACACOS NA PRAIA

Depoimentos de pessoal de cinema que filmou no Brasil apresentados no documentário "Olhar estrangeiro" incluem algumas pérolas, como a de quem pôs um macaco a passear entre beldades na praia de Ipanema. Questionado, o diretor retrucou: - Não há macacos em no Brasil? - e ouviu o, para nós, óbvio: na praia, não. Mas nenhum se compara ao comentário do ator Michael Cane: "Se vocês querem ser levados a sério, parem de fazer gente bonita e de ser alegres. Meu país faz um monte de gente feia, dificilmente demonstra alegria e sempre é levado muito a sério".

(Enquanto, por exemplo, uma Ana Miranda, para escrever Boca do Inferno, vai às últimas para pesquisar, narrar e recriar, o "olhar estrangeiro" sobre nós chuta, mistura lingua espanhola com a portuguesa, selva com praia, e... ganham mais dinheiro.)

Michael Cane, em seu comentário, foi, mais que qualquer outra coisa, inglês: usou do humor e da gentileza para se expressar e se desculpar por gafes cometidas por colegas seus de arte e profissão, das quais inclusive fez parte. Muito mais do que isso: tocou numa ferida exposta; num recorrente mal genuinamente brasileiro.

Não à toa a associação de alegria e sensualidade com falta de seriedade nas coisas vem de fora e associada ao Brasil - porque ela começa é aqui, no Brasil. A brincadeira do ator inglês mostra que humor pode ser muito bem associado a seriedade e, mais ainda, a deter poder, permanecer no poder, ser visto como civilizado e rico, ainda que os tempos do british empire já se tenham ido, sem sequer deixar, esquecidos, fraques, cartolas e bermudas com meias três quartos na Índia do Ghandi. A falta de seriedade, especialmente na condução da coisa pública, no Brasil, nada tem a ver com humor. Não passa de deboche, e deboche não pode ser confundido nem mesmo com humor ruim. É deboche, nada mais que deboche: desrespeito; sensação de impunidade.

Portanto, que não venham os debochados a nos roubar nosso genuíno e mundo afora admirado humor. Muito menos você, gente instruída, culta, ilustrada, a se deixar levar nessa onda debochada e desrespeitosa. Caso contrário, aguente firme - e pague para ver filme inglês com macaco passeando em Ipanema. Pague por isso mesmo: mico.