2.09.2009

PRAIA E ARREDORES

Para Isabel, Flávio, Isabela.
Vera.
Minha filha, minha mulher.
Meu irmão.
E outros bons amigos de uma praia inteira.


Muito se diz que a praia é democrática, tanto quanto que nela se formam guetos, turmas, tribos. Se as duas situações são simultâneas e verdadeiras, a explicação é muito simples: a praia é anárquica. Não é democrática. Nem altruísta nem ditadora. Ninguém vota e ninguém manda. Não há poder nem golpe de tomada de. Quando ocorre o arrastão, seja dos pescadores ou dos favelados, o golpe não é dado na praia nem no mar: vem de antes; dos arredores. Vem da miséria que, a essa altura, ao nível do mar, neste século vinte e um - mais tantos outros antes do início da sua contagem cristã -, que ninguém duvide, não vem da anarquia nem da democracia. Vem do desgoverno. E de toda sua conveniência a quem ele convém.

Sacos cheios fora, se há vida depois da morte, reencarnação, vida em outro planeta ou sistema ou universo paralelo ou transversal, que a minha, se me é ou for dado o direito de escolha, que seja numa praia. Que eu mergulhe vivo depois da morte e de óculos; e que eles me permitam ver o fundo do mar, sua água, sua areia, com ou sem peixes, algas, tubarões, águas-vivas ou serpentes. Conchas. Baleias. Dêem-me o mar e a areia e viverei, morto e feliz.

Solidão, desta, não faço a menor questão. Uns pescadores, umas belas, eternas e verdadeiras amizades, um grande e um pequeno amor. Um bar. Um livro. Não, não: mais de um. Uma pedra, um morrote de pedra que, se eu tiver coragem, vou escalar ou contornar, pelo mar ou pela terra em volta, para ver se há outra praia depois dele.

De resto, vamos à praia, mesmo ou principalmente se estiver chovendo, mesmo e ainda que de noite, só não vale debaixo de raio - porque, debaixo de governo, seja ele qual for, temos que conviver com ele, viver com ele, apesar ou, lamentavelmente, quem poderá dizer se verdade ou mentira, por causa dele.

Mas não na praia. Na praia, ninguém manda. Na praia, mando eu.

Em ninguém.

1.01.2009

2009

Quem foi na frente, de tão querida, nos guardará um bom lugar.

Estamos no Rio. Meu irmão, que nos hospeda, se mudou para um apartamento em frente à Praça Eugênio Jardim, onde começa e termina o Corte de Cantagalo. À frente, a Lagoa; atrás, o mar de Copacabana; à esquerda, onde Ipanema começa a se desenhar.

Todas as manhãs, temos caminhado: ida e volta ao Leme; Posto Seis, Ipanema, Lagoa, Corte de Cantagalo; ou Corte, Lagoa, Ipanema, Copacabana. Fomos a uma festa em uma cobertura, na Avenida Atlântica, convidados de um primo e convidado, Mario Oswaldo, feita a devida consulta prévia aos anfitriões - que nos receberam muito bem, obrigado.

Nunca tinha assistido ao espetáculo de fogos ao vivo. Navios atrás das balsas de onde eles partiam me olhavam de longe. Um conjunto, uma gravação de Tom Jobim, depois, do Tim Maia. A contagem regressiva, uma valsa, um samba, uma guitarra, uma cantora. Os fogos se aproximavam e se afastavam. Depois, fumaça. Lá embaixo, a multidão. Comentei que, se estivéssemos lá embaixo também, igualmente nos encantaríamos – e antes e depois, nos juntamos e nos encantamos outra vez, não podia ser diferente.

Na vinda, a pé, somente um momento de tensão, totalmente ilusória. Passado o descabido susto, tive que perguntar onde ficava uma rua, onde teríamos nosso primeiro encontro, para depois irmos à festa: Domingos Ferreira – eu, que já soube dessas ruas de Copacabana todas, de cor, mapeadas na memória; acontece que oito anos são tempo suficiente para embaçar meus mapas mentais.

Nenhum outro susto, nem na ida nem na volta, a pé, junto à multidão que voltava para casa, o metrô, ou simplesmente zanzava. Às vezes, tonto, às vezes, tonta. Já fui um deles, sei como é. E acordamos e andamos outra vez, Posto Seis, Ipanema...

Quem inventou o automóvel era ruim da cabeça ou doente do pé. Não digo o mesmo do taxi, do metrô, do trem, nem do ônibus – mas todos perdem para o melhor meio de transporte, que já nasce com a gente, que a gente calça quando quer, que a gente descalça na areia e molha no mar.

Já quem faz a guerra é de uma arrogância que parece grande – entretanto, é tão somente menor que a menor das sensibilidades.

Feliz Ano Novo.

11.13.2008

5 SENTIDOS

Que expliquem isso tudo como quiserem, mas o fato é que a maioria de nós é sensível à beleza, à lua por trás das nuvens, se entristece quando a chuva fica por tempo demais, toma banho de sol artificial no lado do globo que permanece mais tempo no escuro que no claro. Cães nos respiram. Por que seus olhos miram fundo nos nossos enquanto isso, ainda que cientistas encontrem razões químicas, magnéticas, biológicas, permanecerá outro fato: cães nos respiram e nos miram no fundo dos nossos olhos. Melhor ouvir químicos de perfumes. Fundamental será frequentar floriculturas, perguntar onde colhem suas flores vendidas pelos olhos da cara em suas lojas. Literalmente, porque são eles, os olhos da cara, que se fascinam pelas flores, antes, logo depois ou ao mesmo tempo que nossos olfatos. As cores. Leia aí Platão ou Stephen Hawking, pregue o Gênesis na sua mesa de cabeceira, acelere as partículas, beba chá ou vinho. Principalmente, explique o deslumbramento e a afinidade que você tem com o mar. A lua, o ser que não é, que somente reflete uma explosão que dizem vai durar ainda por algum tempo, está lá, visível, clara, cheia, as nuvens saíram da sua frente e ela se exibe inteira, distante, fria. Fria? Uma moça toca um trompete. Um idiota está ao lado de outro em um carro em alta velocidade e põe a cara para fora da janela do carro e grita uma imbecilidade qualquer. Uma outra moça raspa uma tigela do chocolate que sobrou do bolo que a mãe fez. Uma velha excita-se, porque amanhã é dia de ir ao centro, centro do quê, alguém saberia dizer? Existe um? Crimes passionais, armas passionais, jogadores passionais, corretores passionais, investidores frios. Neste momento, em controlado desespero; mas frios. Quentes são os executivos a seu comando, ambiciosos, incestuosos, fazendo-se de frios. Medrosos. Poderosos. Diplomáticos, serão alguns. Outros, não: raivosos. Outros, não: estrategistas. Cartas. A lua? Apenas o ser que não é, que reflete, é um espelho, uma prisioneira, a girar em torno da outra bola que gira em torno da explosão que perdurará por algum tempo. E as explicações virão da aceleração, da fusão, da fissão, e você não saberá porque ficou excitado com o que viu, cheirou, ouviu, tocou, provou. Se assim for, parabéns.

11.09.2008

O RATO. E O CURSOR.

O rato eletrônico
Fica à minha espreita.
O teclado à espera
Dos meus dedos.
Dois três deles batem nas teclas
O resto à espreita. Todos tortos.
Tanto os que batem como os que olham. Esperam.
O cursor piscando na tela
Que ele diga o que eu gostaria de dizer
Que outros gostariam de dizer e ler.
As palavras me faltam.
Não é diferente quando leio
Quando um livro uma revista uma bula
De remédio é o que eu escolho
Como não diferente é quando assisto a um filme
Um show humorístico
Um show de música
Uma peça
Um balé
Um jogo de futebol.
Em algum instante minha raiva
Minha ira incontida inconfessa
Meu humor
Meu amor sufocado
Há de respirar.
Miro o cursor piscando
Me falta o ar.
Sede tenho pela água a cerveja o vinho
Pelo corpo da amada
Pela mão da filha
Pela palavra do amigo
Pela baforada do cigarro dele
Pelo bom dia do vizinho
Do porteiro do farmacêutico.
De bairro.
De barro.
De mato.
De chão.
De mar.
Nesses tempos de GPS comprei uma bússola
Como todas
Defeituosa: aponta somente o Norte.
Não é do Norte que preciso nem do Sul
Não quero a latitude longitude.
Cursor! me traga
Meu rumo.
Garçom, por favor:
- Palavras.

10.30.2008

MARIA DO REASSENTAMENTO

Outubro de 2008, viagem ao sul do Brasil, com meu amigo Julio Pavese

Dürrenmatt, que pronúncia tenha seu nome,
Que palavras tenha usado,
Pensando em quem pensa em Deus,
Disse assim:
Tudo o que o homem sabe ouviu de outro homem,
O homem precisa do homem.

Maria concreta
Maria da catequese
Maria que já não é.
Maria do Movimento
Maria que já não se sabe se é.

Que é casada se sabe,
Que é bonita se vê,
Que fala um quase italiano se percebe.

Naquilo em que Maria crê
Só seus olhos dizem,
Mas, o que dizem os olhos de Maria?

Maria chegou da chuva
Descalçou suas botas na varanda – botas de borracha -
Entrou na casa da irmã,
Sentou, cruzou suas pernas nuas, contou:

Minha mãe se matou.
Quando viemos pra cá.
De depressão.

O que Maria não disse
Foi que a depressão tinha nome
O nome do pai de Maria.

Foi à polícia e deu queixa:
Meu pai abusa de mim.

O pai de Maria foi preso.

O pai de Maria está solto,
Longe, distante de Maria,
Longe, da irmã e do irmão de Maria.
Faz 20 anos que eles, irmão e irmã de Maria,
Toda noite, dormindo, sussurram:
Ave.
Maria.

10.28.2008

DEFUNTO, REDIVIVO E FURTADO

Eu já deveria estar na cama, pronto para dormir, mas, como interromper e, depois, deixar de comentar? Camila Pitanga, Deus do céu, o que foi que o Senhor fez, além da Perfeição? Paulo José, quantas profissões e sotaques mais você vai experimentar para se convencer de que você é ator, porque será que você não experimenta essa profissão, fica aí, tentando fabricar beliches? Fernanda Torres e Wagner Moura, por favor, me expliquem, afinal, o que é ficção? Será que o Tonico Pereira algum dia soube? Este Bruno Garcia, que não olha e olha para a câmera nas mãos do Zico do cinema de Bento Gonçalves disfarçado de Lázaro Ramos, vocês querem me fazer o favor de me explicar porque foi que a Janaina (Kremer) saiu do rio e não do mar? Ora, seu Jorge Furtado, você, seu menino com o isqueiro no bolso, a freira que sabe de seios, o papel jogado no chão para a propaganda, a lata, no rio não, mas no mato, sim, o clique, a idéia, o despertar e não a porcaria enlatada em discurso, e tudo isso lá, inclusive o discurso. A iluminada Marina, isto aqui, este fim de mundo vai atrair atenção, investimento, acho que os meninos vão gostar da deusa se parecendo com a Eva (foi o que pensou o Joaquim), a beleza vai salvar a natureza, ou sei lá. Da primeira tentativa, eu estava com sono, desisti de assistir. Meu irmão me perguntou, como, como pode? Agora, não. Sai da tumba, renasci. Saneamento Básico, seu Furtado, o senhor só por favor me devolva o sono, Furtado, o sono, que amanhã é dia de trabalho.

10.25.2008

PROTESTOS

Para começar, este blogue existe há mais de 3 anos. Só eu o visitei muito mais que 3 x 12 x 4 = 144 vezes. Portanto, não posso aceitar que, ao revisitá-lo, encontre: “1 visitas”. Pelo menos o contador poderia ter acertado no erro, informando: “1 visita”. E aí, perguntaríamos, nós, os não contados: - Quem foi?

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Melhor que sejamos avisados, antes da próxima crise, que o dinheiro sempre esteve, está e estará à nossa disposição nos bancos centrais do mundo. Do contrário todos ficaremos outra vez perdendo o sono, tolamente, sobre nossos colchões recheados de dinheiro.

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Todas as crises acabam. Graças a Deus, nós, não.

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No litoral, o verão tem sido fiel: começa e termina regularmente, sempre à segundas-feiras. Já no interior fica o ano inteiro, ora com muita chuva, ora sem nenhuma. Deus é brasileiro; só não faz questão é de ir à praia.

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Na TV, uma autoridade explicando que, nas eleições de amanhã, daremos mais um passo na consolidação da democracia. Democraticamente, desligamos a TV.

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A História acabou. A História não acabou. Do Estado, para o Estado, pelo Estado. Do Mercado, pelo Mercado, para o Mercado. A Terceira Via. E você, que não vendeu sequer um único exemplar de livro defendendo qualquer dessas teses, ainda por cima, comprou muitos defendendo todas.

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Caminhe pensando no futuro, se lembre do passado, analise o presente. Se não conseguir, entupa os ouvidos com fones. Ao olhar para trás para saber se a retaguarda corresponde ao front, não se esqueça dos postes, do tráfego e da vizinhança. Especialmente aquela que vê sem ser vista.

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Ninguém é mais verdadeiro do que aquele que afirma agir de modo totalmente transparente. Ele – o transparente – é o vidro. De tão transparente, não aparece. Você não o vê, quebra a cara, e ainda pergunta ao porteiro se ele vai bem.

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1 visitas: mariobenevides.blogspot.com.

10.21.2008

HETERÔNIMOS E INTERVALOS

Intervalo de jogo, intervalo de vida. Segundo Clarisse Lispector, a vida é isto, principalmente: a insatisfação dos intervalos. Não é racional ser torcedor. Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Meu time é bissexto e único - a deter maior história e mais histórias do que títulos. É oportuno dizer seu nome; e inconveniente.

Heterônimos não são um privilégio do Fernando Pessoa – ou dele, a eles, dar vida. Privilégio dele e seus heterônimos é ter definido o que o poeta é.

Por favor, torcedor, complete a frase:

O poeta é um fingidor. Finge...

Segunda questão. O poeta é:

a) Isso mesmo: um fingidor;
b) Um sonhador;
c) Fora da realidade;
d) O albatroz, do Baudelaire (príncipe das alturas, no chão, em meio à corja (!) impura, as asas de gigante impedem-no de andar);
e) Um mercador, em botequins;
f) Aquele que o engenheiro quer ser (todos os direitos reservados: Pablo Neruda);
g) O engenheiro, quando engenhoso;
h) Idem, quando menino de engenho (Viriato Correia, perdão pela metáfora; metáfora?);
i) Um botafoguense;
j) O que faz o laboratório da língua (João Cabral de Melo Neto);
k) Nem alegre, nem triste;
l) Uma parte, linguagem, outra, vertigem;
m) Um heterônimo.

Que o poeta Aldo Votto e seu heterônimo nos expliquem o que é um heterônimo, um poeta, um torcedor, um botafoguense.

E, principalmente, um intervalo.

E que acerte na resposta.

Que – principalmente – erre.

Arre!

mariobenevides.blogspot.com - o pseudônimo de um heterônimo.

10.11.2008

DEPOIS DESTA, EU JURO QUE EU PARO

Só mais uma. Uma só, e vamos embora, eu prometo. Depois desta, a realidade, o dia seguinte, de manhã e de tarde.

O brasileiro não tem memória. Por isso ele confunde nomes como Pelé e Garrincha, Gerson e Jairzinho, Zico e Falcão, Romário e Bebeto, Ronaldo e Ronaldinho. Por isso, confunde faces de Zezé Mota e Dina Sfat, Marília Pera e Fernanda Montenegro, Paulo José e Armando Bogus, Wagner Moura e Natchergale. Confunde Marta Rocha com Gisele Bunchen, Jorge Amado com Dorival Caymi, Chico Buarque com Caetano Veloso, Milton Nascimento com Fernando Brant, Sérgio Buarque de Holanda com Vinicius de Moraes, Tom Jobim com Villa Lobos, Darcy Ribeiro com Josué de Castro.

O brasileiro não tem memória está gravado no consciente coletivo, talvez porque Getúlio Vargas tenha voltado nos braços do povo, eleito em vários lugares ao mesmo tempo, desafiando a física e o razoável. O povo que o trouxe nos braços até o caixão é retratado por Jorge Amado em O país do carnaval, Cacau e Suor, por João Cabral de Melo Neto em Morte e vida Severina, coisa de quem confunde passado e presente, pois, se você, que não tem memória, reparar bem, esse povo continua andando por aí.

Brasileiro não tem memória a ponto de trazer de volta o Collor. Quem o trouxe de volta foi quem votou nele na primeira vez e de algum modo se deu bem, trocou de carro, foi para os Estados Unidos, se vingou intimamente de uns caras que lhe cuspiam na face teoria, cargo comissionado ou arrogância de rico ou pretendente a.

Brasileiro não tem memória a ponto de não se esquecer que o Getúlio foi um ditador, com direito a Polícia Especial, hedionda tanto quanto a tortura do regime militar. Não tem memória porque não esquece que o Collor implantou o regime da arrogância, confiscou depósitos bancários, liquidou com a liquidez e devolveu empregos perdidos em dezoito meses sem juros.

Brasileiro não sabe votar. Como se alguém no mundo soubesse. Imagine se dinamarquês soubesse votar e faria eleição assim mesmo. Imagine se houvesse um único indivíduo no mundo que todos dissessem, este, sim, sabe votar, ora, a ele delegaríamos o poder do voto único e coletivo; diríamos, vá lá, meu bom francês, inglês, americano, venezuelano, japonês ou brasileiro, vote por todos nós, porque só você sabe votar. Porque a democracia é exatamente o regime de quem NÃO sabe votar e, por isso, TODOS votam. Seu contrário - a ditadura - é definitivamente aceitar essa insuportável verdade e entregar os pontos, adorando temer e pendurando na parede um par de botas, coturnos.

Rimando coturnos com soturnos, paro por aqui, meu amor, como prometido; a saideira fica para outro dia, outra noite. Doravante, inventarei histórias ou as roubarei do cotidiano, legitimamente, eu juro. Na despedida, provo não ter exagerado e faço um quatro:

1 - O brasileiro não sabe votar;
2 - O mundo não sabe votar;
3 - Foi por isso que os gregos inventaram a democracia;
4 - O brasileiro TEM memória.

A ênfase, meu amor, fica por conta de, esta, ter sido a última desta noite. A saideira, como prometido, fica para outra. Vamos para casa; ao cotidiano; e tiremos dele o que houver de romântico, irônico, sem valor algum. Assim como essa, a última, que, na verdade, é e será sempre a penúltima.

A saideira fica pra depois.

10.07.2008

MACACOS NA PRAIA

Depoimentos de pessoal de cinema que filmou no Brasil apresentados no documentário "Olhar estrangeiro" incluem algumas pérolas, como a de quem pôs um macaco a passear entre beldades na praia de Ipanema. Questionado, o diretor retrucou: - Não há macacos em no Brasil? - e ouviu o, para nós, óbvio: na praia, não. Mas nenhum se compara ao comentário do ator Michael Cane: "Se vocês querem ser levados a sério, parem de fazer gente bonita e de ser alegres. Meu país faz um monte de gente feia, dificilmente demonstra alegria e sempre é levado muito a sério".

(Enquanto, por exemplo, uma Ana Miranda, para escrever Boca do Inferno, vai às últimas para pesquisar, narrar e recriar, o "olhar estrangeiro" sobre nós chuta, mistura lingua espanhola com a portuguesa, selva com praia, e... ganham mais dinheiro.)

Michael Cane, em seu comentário, foi, mais que qualquer outra coisa, inglês: usou do humor e da gentileza para se expressar e se desculpar por gafes cometidas por colegas seus de arte e profissão, das quais inclusive fez parte. Muito mais do que isso: tocou numa ferida exposta; num recorrente mal genuinamente brasileiro.

Não à toa a associação de alegria e sensualidade com falta de seriedade nas coisas vem de fora e associada ao Brasil - porque ela começa é aqui, no Brasil. A brincadeira do ator inglês mostra que humor pode ser muito bem associado a seriedade e, mais ainda, a deter poder, permanecer no poder, ser visto como civilizado e rico, ainda que os tempos do british empire já se tenham ido, sem sequer deixar, esquecidos, fraques, cartolas e bermudas com meias três quartos na Índia do Ghandi. A falta de seriedade, especialmente na condução da coisa pública, no Brasil, nada tem a ver com humor. Não passa de deboche, e deboche não pode ser confundido nem mesmo com humor ruim. É deboche, nada mais que deboche: desrespeito; sensação de impunidade.

Portanto, que não venham os debochados a nos roubar nosso genuíno e mundo afora admirado humor. Muito menos você, gente instruída, culta, ilustrada, a se deixar levar nessa onda debochada e desrespeitosa. Caso contrário, aguente firme - e pague para ver filme inglês com macaco passeando em Ipanema. Pague por isso mesmo: mico.

9.25.2008

O EXPLICÁVEL, O INEXPLICÁVEL E MINAS GERAIS

Cada vez mais se conhece dos dinossauros e menos de Minas Gerais. As pesquisas e escavações ainda não permitem saber se os dinossauros, seus parentes e contra parentes se reuniam ao redor de um fogão a lenha preparando um feijão e se provavam de uma cachaça do alambique do quintal do vizinho, enquanto as mulheres-dinossauros comentavam que os homens estavam bebendo demais e, por isso, bebiam licor de jenipapo, e se daí é que surgiu o conceito de Estado Nação. Também não se explica porque, no atual Estado Nação conhecido por Brasil, o maior de todos os parentes e contra parentes dos dinossauros nele encontrados o tenha sido em Uberaba, cidade que se encontrou - como se encontra -, não no divã do analista, mas em Minas Gerais.

Tudo tão inexplicável quanto o que ocorre em Varginha, que, apesar de Paris, é a preferida dos discos voadores, desde os mais espetaculares e amedrontadores aos mais carismáticos e aproximadores. É de se presumir que dentro deles também se achem fogões a lenha, meninos sujos de barro entrando de repente, derrubando leme, timão, panela e cachaça, meninas e suas bonecas de pano, senhoras e senhoritas dizendo NÓ!, rapazes e senhores de sobrancelhas juntas jogando sinuca e exclamando SÔ!.

O explicável, o compreendido, o tácita como explicitamente aceito, típico dos Estados Nações, é exibido na incontável série de dias e noites, inimagináveis até pela mais criativa das Sherazades, perdidos com crises e supostas soluções, barbáries expostas ao Estado inoperante, tudo dando a sensação de que melhor seria se o noticiário fosse exibido única e exclusivamente ao Estado; ao Império e seu desgoverno; às fronteiras invisíveis, suas crenças e ambições para e desde sempre incompatíveis; à irresponsabilidade, ora legal, ora à margem da Lei e, portanto, do seu arcabouço, que permite que indivíduos portem armas – e de fogo -, tornando-os capazes de homicídios e suicídios, da Finlândia à Flórida à Rocinha. Passando, aliás, por Paris.

Profissionais da notícia têm o dever, o direito e o ganha-pão de a nós nos denunciar as barbáries e irregularidades, para que todos delas saibamos e o Estado de Direito as coíba e as corrija; porque, se nós delas não soubéssemos, o Estado Nação de Direito não iria cumprir com seu dever, coibindo a barbárie, corrigindo as irregularidades e a ambas punindo. Somos as testemunhas fundamentais, aquelas que a tudo vêem, que a tudo escutam, que com tudo pasmam e sofrem.

Bernard Shaw diria: somos a consciência do Poder, - pois consciência é a sensação de que alguém vê o que estamos fazendo. Um novo Churchill surgiria, e afirmaria, com nova e emblemática frase, com outras palavras – in English, of course - que esta propaganda eleitoral gratuita-imposta-forçada-decorada-boçalizada está mais para anti que democracia.

Hoje, não. Hoje, pelo menos hoje, optemos por testemunhar a réplica montada no Rio de Janeiro do maior dinossauro encontrado aqui, antes que fôssemos Uberaba, Minas, Rio ou Brasil; que fôssemos fogão, barro, feijão, boneca de pano, cachaça; Nação Estado. Optemos hoje pelo próximo pouso em Varginha de uma nave de outra galáxia, carregada de compadres e contra parentes nossos e dos dinossauros; e tentemos, de uma vez por todas, explicar Minas Gerais.

9.22.2008

A CRISE

Do pré-sal ao colapso financeiro mundial, passando por Bolívia e Venezuela aqui ao lado, há um leque de opiniões e manifestações, de sábias a sabidas, sem esquecer a dos sabichões – sempre de grande impacto emocional, revestindo o mesmo conteúdo das mais sábias opiniões sobre a crise e o aquecimento global: ninguém sabe ao certo onde isso tudo vai dar. A não ser as capas de algumas revistas, cujas manchetes garantem que sabem, que mostram caminhos e soluções, a nos deixar perplexos quanto à burrice da maioria, especialmente a sabida, que ou não lê as revistas ou as lê e não as compreende.

O vendaval do crédito era mesmo feito de vento e, afinal de contas, de que são feitos os vendavais? E o que fazem os vendavais, a não ser nos dar a esperança de uma boa transformação e de verdade nos jogar areia e poeira nos olhos?

A crise de 1929 é o fantasma que arrasta suas correntes aos pés das camas dos casais e das mesas dos financistas e investidores, além de levar de roldão cama e mesa dos duros de sempre, Opa, cadê meu prato? Ih, minha casa voltou no mesmo caminhão do prêmio que a trouxe, Querida, aonde vai você, ah, aonde não importa, e sim com quem, tudo bem, mas de algemas, bem?

Somos ou não à prova de crise – é a questão do momento. Onde é que estávamos em 1929, alguém produziu um manual dela, que servisse para outras que viessem depois?

Há. Um romance de William Kennedy que virou um filme de Hector Babenco. Ironweed. No filme, Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais, dramas particulares, antigos, revividos nos anos da terrível depressão, e um magistral Tom Waits, figurante, interpreta um sujeito que, logo no começo, comemora: descobriu que tem um câncer.

A associação do pré-sal brasileiro com o câncer do personagem de Tom Waits seria de todo precipitada, ou pior: rasa - ao contrário das profundezas do óleo, não se sabe ainda se tão promissor quanto, desde já e tanto, festejado.

Mas uma coisa é certa: se as crises são dos bancos, quem sofre de medo, de dor, quem se dobra aos ventos, é arrancado e atirado às pedras pelos vendavais, somos nós.

Alguns, de algemas; outros, sem.

9.17.2008

DUAS MÃOS

Ela saiu poderosa do salão de beleza. De óculos escuros, jogou os cabelos para trás e atravessou a rua. Sem olhar para os lados. O barulho trouxe à janela cães e seus latidos, mulheres e suas rezas, senhores e seus jornais, adolescentes engolindo apressados e gordos sanduíches. Pouco movimento nas calçadas. No asfalto, sinais fechados nas duas transversais que dão início e fim à rua: momentaneamente, nenhum movimento de veículos. O motorista do táxi pôs a mão na cabeça, perguntou a ninguém, O que é que eu faço?

Em frente, um hospital de emergência, suas ambulâncias à porta. Um carro da PM estacionou atrás do carro velho do taxista com o pisca-alerta ligado. Um guarda se aproximou da mulher deitada no asfalto. Um outro dirigiu-se ao hospital. Ventou um pouco, folhas caíram das árvores. Os poucos transeuntes nas calçadas formaram pequenos grupos aqui e ali, à exceção dos que passavam com pressa ou indiferença. Carros que vinham na mão do atropelamento primeiro buzinavam indignados e, depois, ligavam o pisca-alerta e aguardavam a chance de desviar do acidente, lentos e furibundos. Na outra mão, os veículos dobravam a esquina em velocidade e, depois, a diminuíam, espiando detidamente o guarda, o taxista, a mulher no chão.

Enfermeiros portando maca e guarda-paletós metálicos, trazendo, ao invés de roupas vindas do trabalho, tubos com líquidos coloridos e incolores, atravessaram a rua e ajoelharam-se ao lado da mulher. Um deles a pegou no pulso, outros a puseram sobre a maca e a levaram para dentro do hospital. O PM que voltara com os enfermeiros de lá começou a apitar, mandando curiosos de carro ou a pé para onde bem quisessem, desde que longe dali; o outro e o motorista por profissão estacionaram seus automóveis, um à frente do outro, paralelos à calçada. E foram para o hospital.

Seis meses, três hospitais e algumas cirurgias depois, ela voltou ao mesmo salão. De beleza. Adoraram seu nariz novo. Desta vez, ao sair, não atravessou a rua. Seguiu pela calçada até a esquina mais distante e entrou na farmácia, porque estava com um pouco de coriza. De óculos escuros, jogando os cabelos para trás, saiu da drogaria e esperou sua vez de atravessar na faixa. Carros, apressados ou indiferentes, ignoravam sua presença esguia de mulher bonita e poderosa. Nas duas mãos.

9.06.2008

AINDA SOBRE A GUERRA

É gente ilustre que defende que o Brasil só progredirá se aqui houver uma guerra.

Curioso, porque gente ilustre teve – e tem - acesso à escola, à História, Geografia, Matemática...

A guerra uniria. Pense aí em supostas uniões decorrentes das guerras: a soviética; a alemã (isto é, sua desunião, só recuperada mais de 40 anos depois da Segunda Grande Guerra); tente, tente, vá em frente, você, acompanhado dessa porção de gente ilustre que quer – prega - a guerra.

A guerra desenvolveria tecnologia; ocorre que, sua ausência, também. Assim tem sido – ou não?

Mas, vamos ao Brasil, veja se o que falta ao país são mesmo as guerras: à sua história.

Foi guerra entre português e índio, português e francês, português e holandês, branco e preto; índios fuzilados nos anos sessenta e setenta do Século, qual, mesmo?, Vinte (ou agorinha mesmo, no Vinte e Um?); Guerra do Paraguai, Guerra dos Farrapos – com direito a degolas em série -, Guerra de Canudos; Revolta da Armada, Dezoito do Forte, Revolução Constitucionalista; o Brasil foi à Segunda Guerra, você sabia, gente ilustre? Sabia que morreu gente, naquela guerra? E gente brasileira, rapaz! Morre gente em guerra, ih, você nem sabia disso, - e morre violentada, decepada, sem perna, explodida, queimada. Duas ditaduras; guerrilha urbana e rural, repressão, tortura, meninas deitadas em um campo de futebol e soldados fazendo xixi em cima delas. Você sabia, gente ilustre? Se sabia...

Essa “gente ilustre” costuma dizer também que o brasileiro é passivo, que o brasileiro não tem memória; e tome estudantes pernambucanos, Tiradentes aos pedaços pendurados por aí, passeata dos cem mil, porões, edsons, vladimires enforcados, caras pintadas, tudo isso é passivo e sem memória, porque a história oficial a elimina, como elimina autores brasileiros das bibliotecas das escolas; igualmente porque há essa suposta gente ilustre que a tudo ridiculariza - mas, esta, atenção: já está devidamente catalogada nas bancas, livrarias e em laboratórios especialistas em parasitas.

A história acabou coisíssima alguma, porque a do Brasil, pelo menos, continua. Balas perdidas, balas achadas - em corpos infantis, inclusive. A guerra continua, percebe, gente ilustre? Pobreza medida a duzentos e cinqüenta reais por mês: quem ganha isso é pobre; menos que isso, miserável. Seja pobre com duzentos e cinqüenta reais por mês e grite, alto e bom som, Eu quero uma guerra!

O Brasil pode precisar de um monte de coisas para progredir; mas não é de guerra que o Brasil precisa, porque já a teve e a continua tendo. Não é de guerra, nem dessa gente que diz que a deseja, confortavelmente, em seus pufes, frente às câmeras, sorrindo, debochada, balançando-se, como a sofrer de hemorróidas ou a tentar, inutilmente, unir, sem guerra, seus dois únicos e inúteis neurônios. Não, não é de guerra, nem desse tipo de ilustre que o Brasil precisa.

8.31.2008

A GUERRA É NECESSÁRIA

A afirmativa sempre é feita por quem não está de capacete nem na linha de frente.

Pense em um verso de amor e o suponha inspirado pela separação causada pela guerra, ou mesmo com a certeza de que assim o tenha sido. Agora, pense nele novamente, eliminando da sua gênese ou essência a guerra. O verso sobreviveu - e me prenda se assim não tiver sido.

Picasso não deixaria de ser Picasso sem Guernica – nem Guernica y Luno deixaria de existir sem Picasso. Ou Franco. Nem Lorca sem este e nem a Galícia sem eles.

Pense em um ato de tortura e perceba que, da guerra, ele não depende. Em um estupro. Pense nele - você, capaz ou não de o cometer – e verá que a guerra não lhe é ingrediente indispensável.

Em uma invenção. Vale a pena investir um pouco mais, aqui. Reflita: afora tanques, bombardeiros, me responda, sem pressa, se navios, aviões, automóveis, cavalos, camelos, bicicletas, lambretas, pontes, bengalas, chapéus, uniformes, sapatos, botas, computadores, muletas, se da imaginação teriam sido esquecidos se dela a guerra não fizesse parte.

Homens sofrendo de abstenção sexual deixariam de invadir uma casa se não houvesse a guerra? Mulheres precisando de dinheiro e percebendo a chama sem fogo nas entranhas aguardariam a guerra para sua satisfação? Filhos bastardos surgem somente na guerra? O que você vê na tv, longe, bem longe do seu cotidiano, tapas, socos ingleses, cabeças vivas dentro de sacos plásticos asfixiadas até que, delas, indissociáveis bocas balbuciam o que o dono do saco quer ouvir; sacos, seios queimados por cigarros, humilhações as mais imaginosas, algo disso precisava de uma guerra?

Um tarado, um tratado, uma traição, uma conversação, uma fronteira, uma convenção, tal e qual um verso, da guerra não precisam - e me prenda se eu estiver errado (mas me prove).

Uma grande indústria fabrica armas em escala mundial. Evidentemente, não há parasita sem quem o alimente. O que seria da indústria armamentista se não fosse a guerra? Chore você por essa perspectiva, a da morte sem guerra da indústria da guerra – e perceberá que, até mesmo ela e seus produtos, tanques e bombardeiros, seus empregados, sem a guerra, todos sobreviveriam. A maldade sobreviveria, assim sua ameaça. O progresso permaneceria, tal e qual o atraso. O respeito e o desrespeito: tudo resistiria à ausência da guerra.

Quem defende a guerra como algo indispensável – ou pontualmente necessário – precisa fazê-lo com o capacete certo, adequado àquilo que lhe ocupa o cérebro.

Um pinico.

8.21.2008

MADE IN BRAZIL

Meu caro amigo Enrique:

Eu, na praia do Leme, com menos de 15 anos, como se fosse, agora, amigo de escola das nossas filhas, de peito, de cabeça, de letra ou sem querer, colocava na gaveta e afirmaria que, se Nelson Rodrigues houvesse consultado o Sobrenatural de Almeida, não teria afirmado, como afirmou, que Antônio Callado era o único inglês de verdade. Lá, onde a coruja dorme, teria deixado escrito:

- Há um segundo: ele se chama Enrique.

Fato é que você, London, London, no centro do mundo financeiro, comandante de transações transnacionais, sempre correto, sempre rigorosamente observando e respeitando as leis e as leis de mercado, como inglês de verdade e Made in Brazil, não consegue deixar de ser notorious às vistas da Scotland Yard. As a matter of fact, sequer se esforça a escondê-lo.

Você foi flagrado: um raro como legítimo botafoguense.

O agente da Scotland, de súbito revelando o secreto chapéu coco sob o arranjo de jardim que secularmente brotou na cabeça dele, sobrepondo-se ao rubro tórax cheio de dourados botões, guardiões do palácio de Buckingham, brande sobre sua brasileira e botafoguense face o britânico distintivo - que venta terríveis, tamisentos, brumosos ventos. Acintosamente, ele acusa:

- Filipão is ours, thank you very much, sir.

E você, inglês de verdade, segundo e único, altivo, seguro, afirma:

- O Botafogo está no G4 do brasileirão. Ocupa agora o 3° lugar. Hoje, quem perdeu do fogão foi o Cruzeiro; domingo passado, quem, mesmo? I bag your pardon, Mr. Policeman: I do not remember.

Mr. Scotland joga ao chão seu chapéu coco e se retira. Nelson Rodrigues entra em cena trazendo Shakespeare pelo braço, um, em tricolores, outro, em rubro-negras vestes. Uma faixa preta com uma cruz vermelha surge do nada, cheia de bigodes. Baixa o pano e, neste, se lê, preto no branco:

FIM DO PRIMEIRO ATO.

Alvinegros abraços,

Mario.

8.02.2008

SÁBADO, HOJE, AGORINHA MESMO

A previsão era chuva e de fato o dia começou com um vento Sul daqueles, chuva, frio. De repente, o Nordeste – o vento que leva seu nome porque é de lá que ele vem. Mudou tudo: um início de tarde ensolarada, quente, o apartamento se torna opressor, vamos para a rua, caminhar na Beira Mar.

Devagar, por favor. Se a caminhada tem como um dos objetivos queimar gorduras e toxinas, hoje, tudo o que menos se quer é objetivo. É dia de adjetivo, dos mais banais, batidos - lindo dia, lindo mar, puxa, que sol maravilhoso. Uma gaivota tem seus dois pés de gaivota sobre as costas de outra gaivota, um duplex de gaivotas na areia mirando o mar da Baía Norte de Florianópolis. Mais adiante, uma outra sobre a pedra admira a regata, lá fora, perto do continente; estamos na imensa Ilha de Santa Catarina.

De repente, um casal visivelmente humilde, duas crianças, seu cão, que desconhece humildade e soberba, sabe o que é bom: o mar. Poluído? Para ele, não - negro cão, pelo curto, descendente de labradores, invejável vagabundo. O pai de família, seu casaco quadriculado de descendente de lavradores, fora de lugar; a mulher, mestiça, a corrente que serve de guia ao cão quando ele precisa pertencer à outra raça – a humana – brandindo nas mãos. Ele, o pai:

- Um tarado, filho da puta, com o pinto na mão, estava no banco se exibindo para menino pequeno. Um tarado, filho da puta, desrespeitou minha família, tem que prender.

- Onde ele está?

- Foi embora, foi pra lá, tem que prender ele.

A mulher:

- Eu dei com essa corrente nas costas dele, ele saiu correndo.

Vamos embora, vamos em frente, vamos, porque já íamos, na mesma direção do tarado, que já deve ter sumido. Cadeia, para ele, será pena de morte; manicômio judiciário, o que seria? Cortar o pinto dele, seria boa sugestão? Mutilar seu cérebro?

Anos antes, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, um camarada masturbava sobre o banco da bicicleta parada. Uma moça, despachada e revoltada, disse a ele:

- Cara, vai procurar uma mulher de verdade! – e o tal cara pôs seu objeto de prazer solitário e ostensivo, invasivo, para dentro das calças e se foi, pedalando – não se sabe se para, de fato, procurar uma mulher de verdade.

Uma água de coco. Um gaúcho, muito educado, é quem conta que a manhã começou tenebrosa e depois veio o vento Nordeste, mudando sua história. Um policial passa devagar com sua moto na ciclovia; é notificado. Sobre o tarado. Sobre a família ultrajada e ameaçada, seu nobre cão vagabundo e contente, sua mais marcante referência.

É hora do almoço.

7.19.2008

LINGUAGEM CIFRADA

Pode estar certo de uma coisa. Se alguém começar uma conversa com um “Eu sou muito franco”, você não vai gostar do que vai ouvir. O que está a caminho, na seqüência, é maldade. Se o tom for de pergunta – “Posso ser franco?” – você ainda terá a oportunidade de responder: - Não. Gosto mais da sua costumeira hipocrisia.

Outra coisa. Quando você for chamado de “você” por um estranho, estranhará a intimidade. Já se for chamado de “senhor”, pedirá, Por favor, me chame de “você”.

Meu caro: quando você for chamado de “Meu caro” – pessoalmente, cara a cara, na bucha, olho no olho, na lata, ou, mais ainda, quando o olhar de quem dispara o “Meu caro” mirar o infinito ou o esgoto da vida – tenha certeza de que “caro” é o que você não é.

Uma pergunta: algum amigo seu dirigiu-se a você começando a frase com “Meu amigo...”?

“Meu amigo”, muitas vezes, começa com um “Escuta aqui” ou “Olha aqui” – e sua vontade - diga a verdade - é de perguntar, “Aqui, onde? No meu punho fechado?”. Ou não é?

Já viu mulher se dirigindo a outra com “Oi, amiga”? Pode trocar o “amiga” por “querida”, como somar “mm”, “mm”, de uma troca de dois beijos nas bochechas, e continuar à espreita, porque a troca entre elas é de flechas e está só no começo – e arcos femininos podem ter todos os defeitos, mas são os mais bem feitos da natureza.

De modo que... Posso ser franco? “Pois sim” é não e “Pois não” é sim. E você, o senhor, você, tio, que sabe disso desde sempre, ainda acredita que eles serão presos?

Ora, francamente...

7.12.2008

UMA ENTREVISTA

Aos nossos caríssimos amigos de Florianópolis e arredores,

hoje, às 21h30, com repetições tb hoje às 23h30, amanhã, domingo, às 16h15, terça às 17h30 e quinta, 00h30, será exibida uma entrevista minha para o jornalista Fernando Mansur, no programa Momento Temperado, TVCOM, canal 36, sobre meu livro "A revolução do silêncio". Será uma honra tê-los do outro lado da sala. Maiores informações sobre o programa no site www.momentotemperado.com.br.
À Adriana Prates, que me apresentou ao Fernando e agendou a entrevista, mais uma vez, muito obrigado.
Abraços,
Mario.

TRISTE FIM DE QUIDE-QUEDE-O-QUÊ

Quide, um brasileiro,
Partia para o abraço,
Percebeu a chegada aflita
Da comparsa, doce amada.

Metralharam um menino de três anos
- Ela disse a ele.
Ele, que era metáfora,
Virou realidade, assim, súbita, cruelmente.

Encerrou sua jornada,
Voltou com sua cúmplice namorada
Pacífica, estarrecidamente, para casa,

Triste casa,
Pátria
Dos apátridas.