Foi no sábado. Ela deixou seu telefone celular cair no gramado em frente ao prédio do casal de amigos que visitara e não percebeu. Muito distraída, tinha certeza de que o aparelho estava em casa ou então no carro. Somente na segunda-feira à noite é que se convenceu de tê-lo mesmo perdido e foi na operadora providenciar o bloqueio e a substituição por um novo - mais moderno, até -, que saiu de graça - isto é: pago pelos pontos acumulados pelo uso freqüente da linha. Claro, deveria ter providenciado o bloqueio assim que deu pela falta do aparelho e, se depois o achasse, reabilitaria a linha - o que também não renderia nenhuma história.
Na quarta-feira de manhã, um desconhecido, que sabia seu nome, telefona para seu novo celular, que teve mantido o número do perdido, e informa a ela que este fora achado por ele, no tal gramado. Ela anota o número do sujeito e fica de ligar depois.
No sábado seguinte, ela pede ao marido que ligue para o sujeito - que diz que dentro de meia hora estará em casa, “depois de deixar meu serviço”, e dá seu endereço. O marido vai com ela ao encontro do indivíduo, residente na mesma rua onde fica o prédio que visitaram havia uma semana. Olham bem em volta antes de parar o carro, para ver se não seriam surpreendidos por uma armadilha (“Isto é um assalto!”). Um rapaz sobre uma bicicleta a chama pelo nome.
- Como é que você sabe meu nome?
- Estava na tela do aparelho, junto com tua foto – o rapaz explica. – A memória do telefone celular tem também o número da linha, por isso te liguei. Peço desculpas, mas eu apaguei tua agenda.
- Por quê você apagou minha agenda?
- Porque eu pretendia ficar com o celular para mim. Mas, aí, me arrependi, eu pensei, afinal, o celular é dela, ela vai precisar dele. Peço desculpas também por ter apagado a foto.
- Você usou o celular? Fez alguma ligação?
- Não – ele responde. Depois: - Só duas vezes. No sábado mesmo.
- Você ligou para o exterior? – o marido dela pergunta ao rapaz. Rindo, o rapaz diz que não, claro que não. Foi para aqui mesmo, só duas ligações. Peço desculpas por isso também.
E vai embora, na bicicleta, que se supõe seja dele, que a ele pertença.
Marido e mulher entram no carro e perguntam-se: - Terá sido mesmo arrependimento? Ou o pai ou a mãe dele foi quem ordenou a devolução, com ameaças de polícia e outros castigos? Devolveu só porque - e depois que - percebeu que o aparelho havia sido bloqueado? Mas, se assim tinha sido, devolver porque? Por que não deixá-lo perdido em algum outro lugar, ou mesmo no mesmo gramado onde fora encontrado? Minha foto na tela – ela continuou a conjeturar – era ao seu lado, era uma foto de nós dois, um casal; ele esperava por alguma recompensa, ou uma perspectiva de mais um furto, se dar bem; e – ela constata e conclui - não foi nada disso.
Mas houve uma recompensa – que quase não aconteceu, depois da confissão do roubo e do arrependimento. Se é que um livro (com dedicatória e autógrafo) possa ser considerado uma recompensa. Livro que o rapaz saiu lendo, seguro por uma das mãos; com a outra, manejava a bicicleta.
O DIÁRIO DO MARIO contém crônicas e poemas de Mario Benevides, além do embrião do romance A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO, do mesmo autor, publicado em 2007 pela Design Editora, aqui no blog com o título A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS.
2.10.2008
2.03.2008
CAVALOS
Em Petrópolis, a charrete percorre as ruas entre automóveis esparsos. O condutor também é guia, mostra a casa de Santos Dumont, a do príncipe recém falecido, aquela onde Fernando Henrique se hospedava, “Lula nunca veio aqui”. Mostra a estátua do arquiteto e, atrás, a Catedral. De quando em quando, dá uma chicotada nos cavalos da parelha, que apressam o trote preguiçoso e servil. Submissos, os olhos, tampados nas laterais. Sacos amarrados nos seus lombos recolhem seus rejeitos alimentares transformados nas suas tripas em dejetos. O guia pronuncia “coêler” ao invés de “quéler”. No término do passeio, ele, novamente condutor, puxa as rédeas e pára no sinal fechado. Um dos cavalos torna a cabeça na direção do seu par e parece dizer alguma coisa a ele. Provavelmente, algo como “De noite, a gente pára e descansa”, ou “Um dia, isso acaba”.
Em Florianópolis, chove demais. Uma catástrofe, ruas inundadas, casas inundadas, pessoas jogadas na lama, em abrigos, o aeroporto, fechado. No caminho dessa descoberta, uma pastagem; por trás, a baía. O cavalo, amarrado a um toco no chão, a cabeça baixa, o dorso sob a chuva, debaixo do temporal, a céu aberto, céu cinzento, chuva, chuva, chuva, no lombo do cavalo. “Uma hora, isso passa”.
No apartamento, um vento, para ela, é tufão; uma chuvinha fina, temporal; um espirro do filho, pneumonia. Tudo é pretexto para dar uma desculpa no trabalho e faltar e ficar em casa. A tempestade é tão verdadeira e intensa que dispensa a desculpa. “Uma hora, isso passa”.
Em Florianópolis, chove demais. Uma catástrofe, ruas inundadas, casas inundadas, pessoas jogadas na lama, em abrigos, o aeroporto, fechado. No caminho dessa descoberta, uma pastagem; por trás, a baía. O cavalo, amarrado a um toco no chão, a cabeça baixa, o dorso sob a chuva, debaixo do temporal, a céu aberto, céu cinzento, chuva, chuva, chuva, no lombo do cavalo. “Uma hora, isso passa”.
No apartamento, um vento, para ela, é tufão; uma chuvinha fina, temporal; um espirro do filho, pneumonia. Tudo é pretexto para dar uma desculpa no trabalho e faltar e ficar em casa. A tempestade é tão verdadeira e intensa que dispensa a desculpa. “Uma hora, isso passa”.
1.26.2008
RETRATO 3 POR 4
Reenquadre-se
De corpo inteiro
Dentro de um retrato
3 por 4.
Perceba-se
Tristeza e alegria
Tudo e nada que lhe pertence
Cabe no retrato 3 por 4.
A moldura são os outros
Seu ganha-pão
Seu perde e ganha
Nesta vida 3 por 4.
Dentro da foto
Dentro das paredes
Sob teto e chão
Do retrato 3 por 4
É você.
É aquilo de que você realmente gosta
O que você venera e admira
Quem você realmente quer - e quer bem.
A profundidade -
Suas múltiplas dimensões
Sem frente nem verso
Nem pra frente nem pra trás
O espaço em que você transita
Sem começo nem fim
Sem finalidade
Sem rumo -
É você.
Saindo pra fora da moldura
Que envolve seu corpo
Numa foto 3 por 4.
Reinvente-se
E caia fora
Para frente ou para trás
Do retrato de corpo inteiro
Da moldura
Dos limites
Desta vida 3 por 4.
De corpo inteiro
Dentro de um retrato
3 por 4.
Perceba-se
Tristeza e alegria
Tudo e nada que lhe pertence
Cabe no retrato 3 por 4.
A moldura são os outros
Seu ganha-pão
Seu perde e ganha
Nesta vida 3 por 4.
Dentro da foto
Dentro das paredes
Sob teto e chão
Do retrato 3 por 4
É você.
É aquilo de que você realmente gosta
O que você venera e admira
Quem você realmente quer - e quer bem.
A profundidade -
Suas múltiplas dimensões
Sem frente nem verso
Nem pra frente nem pra trás
O espaço em que você transita
Sem começo nem fim
Sem finalidade
Sem rumo -
É você.
Saindo pra fora da moldura
Que envolve seu corpo
Numa foto 3 por 4.
Reinvente-se
E caia fora
Para frente ou para trás
Do retrato de corpo inteiro
Da moldura
Dos limites
Desta vida 3 por 4.
1.22.2008
O ESCRITOR AMÓS OZ E UMA SÓ PERGUNTA
Parati, julho, 2007,
Programa Roda Viva,
Uma entrevista e suas perguntas.
O escritor israelita Amós Oz
Irresistível
Seu humor irresistível
E suas respostas.
Não gosta de computador
Escreve com duas canetas.
Com a primeira opina
Com a segunda, conta histórias.
Ao contar uma história
Tem mais imaginação que memória
Sem saber quanto desta vem naquela.
Ao opinar
Se dedica à História.
Ao contar histórias
Não é sua vontade que prevalece:
Querem, nelas, perceber fatos.
Caro Amós Oz:
Quando se escreve um romance
- Romance?
Uma novela
- Novela?
O que se conta é lembrança
- Lembrança?
Uma história
- Uma história?
Uma ficção
- Ficção?
Que se distingue da História
- História?
Por não contar fatos?
Não a vontade
Mas é a pergunta
Uma só pergunta
Que permanece:
- O que são fatos?
Programa Roda Viva,
Uma entrevista e suas perguntas.
O escritor israelita Amós Oz
Irresistível
Seu humor irresistível
E suas respostas.
Não gosta de computador
Escreve com duas canetas.
Com a primeira opina
Com a segunda, conta histórias.
Ao contar uma história
Tem mais imaginação que memória
Sem saber quanto desta vem naquela.
Ao opinar
Se dedica à História.
Ao contar histórias
Não é sua vontade que prevalece:
Querem, nelas, perceber fatos.
Caro Amós Oz:
Quando se escreve um romance
- Romance?
Uma novela
- Novela?
O que se conta é lembrança
- Lembrança?
Uma história
- Uma história?
Uma ficção
- Ficção?
Que se distingue da História
- História?
Por não contar fatos?
Não a vontade
Mas é a pergunta
Uma só pergunta
Que permanece:
- O que são fatos?
1.16.2008
AGENDA CARIOCA - UMA ANACRÔNICA
Um camelô vendendo agendas na Rua da Quitanda, Rio de Janeiro, sim, janeiro de 2008. Quem as compraria? Quem precisaria de hora e dia marcados em uma agenda de camelô? Alguém como ele, camelô, certamente que não; seus horários são poucos: o de acordar e o de fugir do rapa. Não difere ele dos outros comerciantes, que não consomem aquilo que vendem. Donos de bares não são bebedores, os de papelaria, se viciados em lapiseiras, a quem as venderia?, um hipocondríaco farmacêutico, ora, falência seria sua morte e não a anorexia. Comprará uma agenda do camelô não alguém igual a ele, mas alguém tão marginal quanto ele, especialmente nos horários, marcados na margem da agenda e não nos impressos – porque, nestes, apenas registrará aquilo que nada descreverá da sua vida: o crediário, o dia do salário, o aniversário, o nome do credor e do devedor, além do próprio, de esperto, de otário. Seu endereço e o tipo sanguíneo que mereceu e merece de nascença constarão, para que, no caso de perda da agenda – sua própria vida –, esta possa lhe ser devolvida; e no da súbita e sempre inesperada fuga daquela que corre debaixo do relógio de pulso - comprado de um camelô – sua própria vida -, para que apareça um outro portador de agenda comprada de um camelô, que se torne, da noite para o dia, da vida, um doador.
Eu comprei uma; você não compraria?
Eu comprei uma; você não compraria?
1.01.2008
ÁRVORES
Árvores. Há uma, no quintal do prédio onde mora meu irmão
Que parece um bicho esticando o pescoço,
O tronco, inclinado,
Duas raízes que são como pernas,
A cabeça – o cabelo revolto de uma árvore –
Procurando, lutando para encontrar
O sol. Ou a chuva. O céu.
Seu chapéu.
Árvores perdidas nas calçadas do Rio de Janeiro,
Ruas, suas ruas são indiscutivelmente arborizadas,
Suas ruas são metralhadas,
Em algum momento era tudo óbvio e não quiseram perceber.
Uma árvore permaneceu árvore.
Árvore de Natal.
Que parece um bicho esticando o pescoço,
O tronco, inclinado,
Duas raízes que são como pernas,
A cabeça – o cabelo revolto de uma árvore –
Procurando, lutando para encontrar
O sol. Ou a chuva. O céu.
Seu chapéu.
Árvores perdidas nas calçadas do Rio de Janeiro,
Ruas, suas ruas são indiscutivelmente arborizadas,
Suas ruas são metralhadas,
Em algum momento era tudo óbvio e não quiseram perceber.
Uma árvore permaneceu árvore.
Árvore de Natal.
12.23.2007
CERVANTES, O BAR, OU LAPAS-BRASIS
No lançamento do meu romance “A revolução do silêncio”, na Livraria Argumento do Leblon, Rio, 20 deste dezembro, ganhei de presente a visita e um livro de autoria do poeta Ronaldo Werneck, carinhosamente autografado por ele. Na orelha, Geraldo Carneiro o chama de poeta do bas fond. Inevitavelmente, me lembrei de uma canção que fiz há uns vinte anos (letra e música), a qual chamei de “Cervantes, o bar” e, alguns anos depois, inseri na peça “Lapas Brasis”, que escrevi a quatro mãos com Carlos Sérgio Bittencourt. Reproduzo a seguir a letra da canção, deixando meu abraço para alguns poetas amigos meus, especialmente o Ronaldo, pela gentileza, pela re-inspiração:
À porta, três atores
Do diretor, dizendo horrores
Balcão, sanduíche, salpicão,
Schmidt, schinit, uisque, Nietzche,
Fredericos no balcão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
Na esquina, moças-vagalumes
Meninas-bolsas com perfumes
Salão, cerveja, salsichão
Magros e godos, visi-gordos
Sincretismos no salão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
Todas as tardes, quarto andar
Faço um doente caminhar
Depois, de noite, eu vou dançar
O funk da galeria
C’os negros da galeria
Na boate, finjo alegria
C’os brancos sem companhia
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
E de manhã, quantos amores
Quantas saudades de manhã
Jornal, cigarro, macarrão,
Ministro arisco, tão malquisto
Desligo a televisão.
Que o mundo morra sem saber
Que eu fui poeta olhando
Eu
Olhando no fundo do copo
Eu...
À porta, três atores
Do diretor, dizendo horrores
Balcão, sanduíche, salpicão,
Schmidt, schinit, uisque, Nietzche,
Fredericos no balcão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
Na esquina, moças-vagalumes
Meninas-bolsas com perfumes
Salão, cerveja, salsichão
Magros e godos, visi-gordos
Sincretismos no salão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
Todas as tardes, quarto andar
Faço um doente caminhar
Depois, de noite, eu vou dançar
O funk da galeria
C’os negros da galeria
Na boate, finjo alegria
C’os brancos sem companhia
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
E de manhã, quantos amores
Quantas saudades de manhã
Jornal, cigarro, macarrão,
Ministro arisco, tão malquisto
Desligo a televisão.
Que o mundo morra sem saber
Que eu fui poeta olhando
Eu
Olhando no fundo do copo
Eu...
12.13.2007
O QUE FICARÁ DE NÓS
(De uma triste constatação de Rosamaria)
Ficarão reportagens sobre gente que a gente detesta
Corruptos, bandidos, prepotentes, mentirosos
Catástrofes
Muito futebol
Alguma coisa parecida com música
Mulheres nuas
Aberrações
Big Brother -
Mas verdadeiramente de nós
Não ficará nada.
Nossas fotos
Nossos textos
Nossas mensagens cifradas
- TXT, ABÇ, BJS -
Tudo será lixo digital.
HDs, será que alguém guarda os seus?,
Disquetes já são coisa do passado
CDs também já são
Nada ficará.
Nem no provedor; nem na CIA.
Nem as florestas
Com as quais nos preocupamos tanto
E por isso deixamos de imprimir
Nossas fotos
Nossos textos
Ficarão: todas serão torradas
Para nos empanturrarmos de carne bovina
Alface e etanol
Enquanto muitos de nós continuarão passando fome
Alguns poucos, andando a pé.
Ficarão fotos esmaecidas
Cartas amareladas
Dos nossos avós.
Nada de nós.
Nada.
Ficarão reportagens sobre gente que a gente detesta
Corruptos, bandidos, prepotentes, mentirosos
Catástrofes
Muito futebol
Alguma coisa parecida com música
Mulheres nuas
Aberrações
Big Brother -
Mas verdadeiramente de nós
Não ficará nada.
Nossas fotos
Nossos textos
Nossas mensagens cifradas
- TXT, ABÇ, BJS -
Tudo será lixo digital.
HDs, será que alguém guarda os seus?,
Disquetes já são coisa do passado
CDs também já são
Nada ficará.
Nem no provedor; nem na CIA.
Nem as florestas
Com as quais nos preocupamos tanto
E por isso deixamos de imprimir
Nossas fotos
Nossos textos
Ficarão: todas serão torradas
Para nos empanturrarmos de carne bovina
Alface e etanol
Enquanto muitos de nós continuarão passando fome
Alguns poucos, andando a pé.
Ficarão fotos esmaecidas
Cartas amareladas
Dos nossos avós.
Nada de nós.
Nada.
11.16.2007
HOJE FOI ASSIM:
Pode não ter feito sol onde você mora e você não foi à praia nem à cachoeira, mas dormiu até o sono acabar. Não tocou o despertador. Bem verdade que o vizinho resolveu recolocar o telhado, arrancado pelo vendaval da noite passada, e você acordou antes e diferente do que gostaria; mas teve um dia inteiro para fazer o que bem quis, a ponto de se esquecer de que, para tudo, há uma moeda – redundante dizer “de troca”.
Você ficou na moita. O tiroteio vai ficar para amanhã – ou, se você não for banqueiro nem bancário, comerciante ou comerciário, para segunda-feira.
Você ficou em casa. Aparou a grama, fez ginástica, amor, alongamento, consertou o encanamento, pegou um filme, uma onda, namorou, telefonou, escreveu, se esqueceu.
Você foi ao cabeleireiro, fez as unhas, pintou-se, acomodou-se, foi ao cinema, inclusive e principalmente se trabalha na bilheteria.
Viu tv. E viu tv. E desligou a tv.
É que hoje é quinta-feira, você mora no Brasil e – em 1889 – um marechal de pijamas foi informado de ter ele mesmo proclamado a República. Um imperador foi embora com sua coroa e sua família e você não compreende porque, afinal, isso, essa partida, causa em você essa tristezazinha. Simpático, aquele sujeito, de barba branca, andam falando muito bem, dele. Do marechal, sabe que nem tanto? Da República, também não, da Monarquia, também não, da Ditadura e da Ditadura, também não.
Fato é que você acordou quase no mesmo momento em que seu sono acordou e virou dia e você se deu conta de que a vida não deve mesmo ser levada muito a sério não. Porque aqui é o Brasil. Mesmo essa tristezazinha - com vários outros maiores motivos que a partida do velhinho de barba branca - não é capaz de desfazer a certeza de que a vida não pode ser levada a sério e a de que o lugar da sua celebração é aqui: o Brasil. E a do privilégio que isso significa.
O que não significa que você esteja realmente convencido de que devesse ter deixado de reclamar com a polícia que seu vizinho desrespeitou a Lei, martelando o telhado neste feriado nacional, interrompendo seu sono de feriado, sono de feriado nacional.
Você ficou na moita. O tiroteio vai ficar para amanhã – ou, se você não for banqueiro nem bancário, comerciante ou comerciário, para segunda-feira.
Você ficou em casa. Aparou a grama, fez ginástica, amor, alongamento, consertou o encanamento, pegou um filme, uma onda, namorou, telefonou, escreveu, se esqueceu.
Você foi ao cabeleireiro, fez as unhas, pintou-se, acomodou-se, foi ao cinema, inclusive e principalmente se trabalha na bilheteria.
Viu tv. E viu tv. E desligou a tv.
É que hoje é quinta-feira, você mora no Brasil e – em 1889 – um marechal de pijamas foi informado de ter ele mesmo proclamado a República. Um imperador foi embora com sua coroa e sua família e você não compreende porque, afinal, isso, essa partida, causa em você essa tristezazinha. Simpático, aquele sujeito, de barba branca, andam falando muito bem, dele. Do marechal, sabe que nem tanto? Da República, também não, da Monarquia, também não, da Ditadura e da Ditadura, também não.
Fato é que você acordou quase no mesmo momento em que seu sono acordou e virou dia e você se deu conta de que a vida não deve mesmo ser levada muito a sério não. Porque aqui é o Brasil. Mesmo essa tristezazinha - com vários outros maiores motivos que a partida do velhinho de barba branca - não é capaz de desfazer a certeza de que a vida não pode ser levada a sério e a de que o lugar da sua celebração é aqui: o Brasil. E a do privilégio que isso significa.
O que não significa que você esteja realmente convencido de que devesse ter deixado de reclamar com a polícia que seu vizinho desrespeitou a Lei, martelando o telhado neste feriado nacional, interrompendo seu sono de feriado, sono de feriado nacional.
10.27.2007
A MULHER NUA QUE EU VI
Ela se apresentou de repente
Imensa de beleza e luz
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.
Continuou me fitando de longe
Nua
Depois cobriu-se de panos
Me dizendo,
Calma, coração,
A vida é um dia de cada vez.
Era uma banal,
Com uma bandeira fincada no colo
Meramente material.
Banal é quem pensa
Que a lua é somente uma banal
Com uma bandeira fincada no colo
Somente
Passivamente
Refletindo a luz do sol.
Ela se apresentou de repente
Imensa em sua beleza e luminosidade
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.
Florianópolis, tarde-noite de sexta-feira, 26/10/2007.
Imensa de beleza e luz
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.
Continuou me fitando de longe
Nua
Depois cobriu-se de panos
Me dizendo,
Calma, coração,
A vida é um dia de cada vez.
Era uma banal,
Com uma bandeira fincada no colo
Meramente material.
Banal é quem pensa
Que a lua é somente uma banal
Com uma bandeira fincada no colo
Somente
Passivamente
Refletindo a luz do sol.
Ela se apresentou de repente
Imensa em sua beleza e luminosidade
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.
Florianópolis, tarde-noite de sexta-feira, 26/10/2007.
10.24.2007
QUE TÍTULO VOCÊ DARIA?
Uma canção será berço do meu verso. Uma prosa será verso do entendimento. Meu idealismo será dito sem palavras. Rasgos imensos desses desde sempre feitos por mãos e ferramentas calarão vozes milionárias e as parasitas. Rasgos deixarão de ser feridas, deles brotarão botos, peixes, baleias, árvores as mais frondosas, crias - ricas crias. Livros. Será o dia da minha morte, a noite do meu dia. Minha mulher dirá, Que triste!
Eu direi:
- Não, mulher.
Poesia.
Eu direi:
- Não, mulher.
Poesia.
BARATAS E LAGARTOS
Houve uma noite em que minha filha estava com amigas lá em casa. Enquanto eu já estava dormindo, todas se preparavam para dormir. De repente, gritos, agudos e carregados de decibéis, muito mais que os usuais dentre as mulheres de 13 a 130 anos, mais ainda que os aceitos pela Organização Mundial de Saúde, Organização das Nações Unidas e a Organização do Tratado do Atlântico Norte - todas organizadas demais para aceitar tudo que não sejam guerras. E não era uma guerra e os gritos não eram nada organizados: eram histéricos. Sonâmbulo como de meu direito, levantei-me da cama preparado para um sermão. Não sou bom de sermões, nunca quis ser padre nem juiz, nem mesmo de futebol; mas fui lá.
Claro: era uma barata – e voadora.
Já morei sozinho e deixei uma barata dormir na minha casa enquanto me dirigi ao hotel mais próximo, para não incomodá-la. No mesmo período, houve uma que chegou pela janela, de asa delta e prancha de surfe debaixo da asa; aniquilei-a a doses cavalares de spray venenoso e, resoluto, dirigi-me, primeiro, ao necrotério, para me certificar da morte da invasora e, depois, ao hospital, para me certificar da minha própria.
Ocorre que pai de adolescente é outra pessoa; cheguei a pensar em mudar de nome, Alfredo, Pessoa, Eustáquio; mas não: uma vez Mario, sempre Mario (e não me perguntem “Que Mario”, por favor). Adentrei o quarto da minha filha munido de vassoura – como já disse, era outra voadora, Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, impressionante – e matei-a. Engano: caída ao chão, ela ressuscitou – e foi batizada, por uma das presentes, de Barata Jesus.
Heresias à parte, eis que uma amiga advogada me conta de seu embate com um lagarto, no morro atrás do quintal da sua casa. Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, é impressionante, praia, morro, só muda de assaltante pra lagarto (pelo menos, por enquanto). Por um lagarto! Aquele ser pré-histórico, jurássico, inspirador do dragão, com suas papas laterais, cor de lagarto quando ataca, língua de sogra, digo, cobra, soltando fogo pelas ventas. Me disse a amiga – minha, não do lagarto – que ele, o lagarto, foi para um lado e, ela, para o outro. A troca de olhares foi tão fulminante que acarretou uma de pernas, e minha amiga rolou morro abaixo, ralando-se como se fosse criança, uma alegria só – para não dizer o contrário, claro. Escoriações na perna, nos braços, no corpo todo – e o lagarto, tranqüilo, na dele, passeando pelo morro da casa dela, até agora. “Lá em casa, a gente não mata nada”. Pois, na minha, eu mato. Desde sempre. Aula, por exemplo; quem nunca matou uma aulinha na vida, hein?
Minha filha não mata aula.
Alfredo, Pessoa, Eustáquio...
Vou pensar.
Claro: era uma barata – e voadora.
Já morei sozinho e deixei uma barata dormir na minha casa enquanto me dirigi ao hotel mais próximo, para não incomodá-la. No mesmo período, houve uma que chegou pela janela, de asa delta e prancha de surfe debaixo da asa; aniquilei-a a doses cavalares de spray venenoso e, resoluto, dirigi-me, primeiro, ao necrotério, para me certificar da morte da invasora e, depois, ao hospital, para me certificar da minha própria.
Ocorre que pai de adolescente é outra pessoa; cheguei a pensar em mudar de nome, Alfredo, Pessoa, Eustáquio; mas não: uma vez Mario, sempre Mario (e não me perguntem “Que Mario”, por favor). Adentrei o quarto da minha filha munido de vassoura – como já disse, era outra voadora, Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, impressionante – e matei-a. Engano: caída ao chão, ela ressuscitou – e foi batizada, por uma das presentes, de Barata Jesus.
Heresias à parte, eis que uma amiga advogada me conta de seu embate com um lagarto, no morro atrás do quintal da sua casa. Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, é impressionante, praia, morro, só muda de assaltante pra lagarto (pelo menos, por enquanto). Por um lagarto! Aquele ser pré-histórico, jurássico, inspirador do dragão, com suas papas laterais, cor de lagarto quando ataca, língua de sogra, digo, cobra, soltando fogo pelas ventas. Me disse a amiga – minha, não do lagarto – que ele, o lagarto, foi para um lado e, ela, para o outro. A troca de olhares foi tão fulminante que acarretou uma de pernas, e minha amiga rolou morro abaixo, ralando-se como se fosse criança, uma alegria só – para não dizer o contrário, claro. Escoriações na perna, nos braços, no corpo todo – e o lagarto, tranqüilo, na dele, passeando pelo morro da casa dela, até agora. “Lá em casa, a gente não mata nada”. Pois, na minha, eu mato. Desde sempre. Aula, por exemplo; quem nunca matou uma aulinha na vida, hein?
Minha filha não mata aula.
Alfredo, Pessoa, Eustáquio...
Vou pensar.
10.04.2007
CRÔNICA SENTIMENTAL
Na TV
Reportagem
Arquivo N
Pelé.
Copa de 70
Meus pais vivos.
Meu pai assistia comigo Brasil contra Inglaterra
E minha mãe também.
Este o inusitado:
Minha mãe também,
Numa poltrona perto da TV,
Chutando,
Soltando a perna e o pé no tapete da sala,
Querendo acertar o gol que não saía.
Tostão-Pélé-Jairzinho,
Gol do Brasil.
Antes, uma cabeçada do Pelé nas profundezas do Inferno
E Gordon Banks pegou.
Eu tinha 14 para 15 anos.
Meu irmão por perto.
O melhor jogo de futebol a que assisti.
Jamais assistirei a outro tão bom.
Nem minha mãe.
***
Peter O'Toole,
Venus,
A morte chegando,
A delicadeza cúmplice
Do desejo explícito
Impudico
Depravado
Defasado
Anos de diferença
Filme imperdível.
Ela: "Você acredita em alguma coisa?"
Ele: "No prazer.".
***
Pelé a Lucas Mendes
(cheio de cabelos pretos):
No Brasil, o racismo não é racial. É social.
Preto rico entra em qualquer lugar.
Branco pobre não entra em lugar nenhum.
Lucas Mendes: Mohamed Ali,
Há quem cobre de você uma postura equivalente,
Defendendo o negro no Brasil.
Pelé: - Eles devem ter suas razões.
Cassius Clay teve uma infância discriminada,
Preto de um lado, branco de outro.
Eu, não. Vivi minha infância no meio de pretos e brancos.
Minha primeira namorada foi uma japonesa.
Julguem Pelé
Pelos seus atos,
Seu futebol,
Suas palavras.
Julguem Peter O'Toole
Mais ainda, a personagem vivida por ele
Em Venus.
Julguem: sejam juízes.
Sabendo que eles
Continuarão o jogo.
Eles fazem.
Eles são.
O jogo.
Reportagem
Arquivo N
Pelé.
Copa de 70
Meus pais vivos.
Meu pai assistia comigo Brasil contra Inglaterra
E minha mãe também.
Este o inusitado:
Minha mãe também,
Numa poltrona perto da TV,
Chutando,
Soltando a perna e o pé no tapete da sala,
Querendo acertar o gol que não saía.
Tostão-Pélé-Jairzinho,
Gol do Brasil.
Antes, uma cabeçada do Pelé nas profundezas do Inferno
E Gordon Banks pegou.
Eu tinha 14 para 15 anos.
Meu irmão por perto.
O melhor jogo de futebol a que assisti.
Jamais assistirei a outro tão bom.
Nem minha mãe.
***
Peter O'Toole,
Venus,
A morte chegando,
A delicadeza cúmplice
Do desejo explícito
Impudico
Depravado
Defasado
Anos de diferença
Filme imperdível.
Ela: "Você acredita em alguma coisa?"
Ele: "No prazer.".
***
Pelé a Lucas Mendes
(cheio de cabelos pretos):
No Brasil, o racismo não é racial. É social.
Preto rico entra em qualquer lugar.
Branco pobre não entra em lugar nenhum.
Lucas Mendes: Mohamed Ali,
Há quem cobre de você uma postura equivalente,
Defendendo o negro no Brasil.
Pelé: - Eles devem ter suas razões.
Cassius Clay teve uma infância discriminada,
Preto de um lado, branco de outro.
Eu, não. Vivi minha infância no meio de pretos e brancos.
Minha primeira namorada foi uma japonesa.
Julguem Pelé
Pelos seus atos,
Seu futebol,
Suas palavras.
Julguem Peter O'Toole
Mais ainda, a personagem vivida por ele
Em Venus.
Julguem: sejam juízes.
Sabendo que eles
Continuarão o jogo.
Eles fazem.
Eles são.
O jogo.
9.14.2007
ÀS MÚSICAS E AOS MUSICAIS
Acabo de assistir a um show de Ney Matogrosso e Pedro Luiz e a Parede, com direito a alguns músicos convidados. Na TV. (Canal Brasil, 66, da Net. De vez em quando, Ariano Suassuna e sua amizade com Chico Science.) Percussionistas, um violonista de outro planeta, um guitarrista, um baixista, instrumentistas de sopro, todos verdadeira origem do big-bang são a Parede. Um deles corre o palco devagarzinho, Pedro Luiz toca uma guitarra cortadinha na ponta, uma verdadeira atriz, que só se afina escondida pelo braço da guitarra, seu camarim. Ney Matogrosso e um figurino que não pode ser pirata, porque legítimo, como seu gingado único, sua voz de dezesseis anos, seu dom de descobrir maravilhas, Rafaéis Rabellos, Pedros Luizes e suas Paredes e por aí vai. No intervalo do programa, Zeca Baleiro é a próxima atração.
No rádio do carro, ouço assim: “Tranqüila / eu levo a vida tranqüila / não tenho medo do mundo / não tenho medo do mundo / a inveja que me passe / o olho grande que me passe...” – não consegui saber quem era, na hora; depois, na loja, me disseram Thalma... Thalma de quê? Não baixo músicas da Internet, quero o CD com capa, aquela de plástico, que quebra logo da primeira vez que a gente vai tirar ou guardar o disco. Não tem. Na loja.
Nem só de Chega de Saudade vivemos, como se vê. Ou se ouve. Nem só de Beatles – aliás, ouvir Sergeant Peppers fazendo quarenta anos e prestar atenção em todos seus sons e letras é nascer de novo. Rita Lee cantando I want to hold your hand com uma sanfoninha ao fundo, que bonitinho, que contrário do Renan Calheiros, da Ideli Salvatti, do falso argumento em-cima-do-muro do Mercadante (ou será Mercante?).
Pedro Luiz, Parede e Ney Matogrosso cantam de tudo, de Faca Amolada, passando por Martinho da Vila, chegando à maravilha “O mundo tá muito doente, o homem que mata, o homem que mente”. (Impossível não perceber que a mistura de ritmo brasileiro com guitarra, ora, ora, nasceu foi mesmo com a Tropicália. Ariano Suassuna e sua amizade com Chico Science, também. Nem só de Ministério vive Gilberto Gil nem só de fala empolada ele e Caetano Veloso vivem.)
Jack Johnson. Bom também o anúncio do cara que teve as roupas roubadas por uma garota que usava sandálias havaianas (“Quer uma aguinha coma açúcar?”). O que é que isso tem de música? As garotas – é claro. E o humor – que é musical.
Assim deveriam ser homens e mulheres: eles, musicais; elas, músicas.
O que acaba de acontecer no Senado nada tem nem de homem, nem de mulher.
Por isso é que não temos medo do mundo; durmamos tranqüilos.
No rádio do carro, ouço assim: “Tranqüila / eu levo a vida tranqüila / não tenho medo do mundo / não tenho medo do mundo / a inveja que me passe / o olho grande que me passe...” – não consegui saber quem era, na hora; depois, na loja, me disseram Thalma... Thalma de quê? Não baixo músicas da Internet, quero o CD com capa, aquela de plástico, que quebra logo da primeira vez que a gente vai tirar ou guardar o disco. Não tem. Na loja.
Nem só de Chega de Saudade vivemos, como se vê. Ou se ouve. Nem só de Beatles – aliás, ouvir Sergeant Peppers fazendo quarenta anos e prestar atenção em todos seus sons e letras é nascer de novo. Rita Lee cantando I want to hold your hand com uma sanfoninha ao fundo, que bonitinho, que contrário do Renan Calheiros, da Ideli Salvatti, do falso argumento em-cima-do-muro do Mercadante (ou será Mercante?).
Pedro Luiz, Parede e Ney Matogrosso cantam de tudo, de Faca Amolada, passando por Martinho da Vila, chegando à maravilha “O mundo tá muito doente, o homem que mata, o homem que mente”. (Impossível não perceber que a mistura de ritmo brasileiro com guitarra, ora, ora, nasceu foi mesmo com a Tropicália. Ariano Suassuna e sua amizade com Chico Science, também. Nem só de Ministério vive Gilberto Gil nem só de fala empolada ele e Caetano Veloso vivem.)
Jack Johnson. Bom também o anúncio do cara que teve as roupas roubadas por uma garota que usava sandálias havaianas (“Quer uma aguinha coma açúcar?”). O que é que isso tem de música? As garotas – é claro. E o humor – que é musical.
Assim deveriam ser homens e mulheres: eles, musicais; elas, músicas.
O que acaba de acontecer no Senado nada tem nem de homem, nem de mulher.
Por isso é que não temos medo do mundo; durmamos tranqüilos.
9.01.2007
UMA QUESTÃO DE TEMPO
A calçada ou o atropelamento.
O parto interminável ou a cesariana.
As escaras ou a cura.
A janela ou o dia seguinte.
A maca ou o lençol.
O tiro; ou a persuasão.
O insulto e o auto-controle.
O arremeter ou o aterrissar.
O parar na hora certa ou avançar, arriscar, bater. No cruzamento.
Umazinha a mais. Só umazinha. Ou ir embora ou dormir.
Apertar o cinto ou afrouxar a gravata.
Ir de tonta, com. Ou sem. Camisinha.
Remoer uma vingança e alimentar um câncer.
Enfrentar um câncer
Vindo ou não da vingança remoída
Vindo sabe-se lá da pureza
De tão pura que não suporta a si e a si tenta destruir -
Ou se deixar levar.
A morte não é uma questão de tempo.
A morte é escolha.
Apenas nunca somente sua.
O parto interminável ou a cesariana.
As escaras ou a cura.
A janela ou o dia seguinte.
A maca ou o lençol.
O tiro; ou a persuasão.
O insulto e o auto-controle.
O arremeter ou o aterrissar.
O parar na hora certa ou avançar, arriscar, bater. No cruzamento.
Umazinha a mais. Só umazinha. Ou ir embora ou dormir.
Apertar o cinto ou afrouxar a gravata.
Ir de tonta, com. Ou sem. Camisinha.
Remoer uma vingança e alimentar um câncer.
Enfrentar um câncer
Vindo ou não da vingança remoída
Vindo sabe-se lá da pureza
De tão pura que não suporta a si e a si tenta destruir -
Ou se deixar levar.
A morte não é uma questão de tempo.
A morte é escolha.
Apenas nunca somente sua.
8.17.2007
O AEROPORTO NOSSO DE CADA DIA
A INFRAERO informa: cama redonda é boa para quem se movimenta dormindo que nem ponteiro de relógio; no chão do aeroporto, você vira para o lado que quiser e sintoniza na rádio oficial a canção Tô nem aí, tô nem aí.
A INFRAERO informa: seu vôo sairá a qualquer hora ou em edição extraordinária.
A INFRAERO informa: o vencedor da licitação para o trem bala brasileiro foi o modelo AR-15.
A INFRAERO informa: a duplicação do aeroporto de Congonhas duplicará também a marginal Tietê, a marginal Pinheiros, a marginalidade será toda duplicada.
A INFRAERO informa: se acabar a bebida em Cumbica, dirija-se a Viracopos.
A INFRAERO informa: respeito é bom e a gente não gosta.
A INFRAERO informa: não seja comunista, socialista, capitalista nem anarquista: seja um ANAQUISTA, desgraças a Deus.
A INFRAERO informa: o que restava de respeito foi esquecido no Raio X.
A INFRAERO informa: a classe média não sabe o que é tomar banho frio. Nem quente, porque no aeroporto não tem chuveiro.
A INFRAERO informa: Na voz de Tom – desculpem - Nelson Jobim, Dentro de mais umas horas talvez sairemos no Galeão.
A INFRAERO informa: seu vôo está previsto para está previsto para está previsto para...
A INFRAERO informa: é proibido deixar este aeroporto.
A INFRAERO informa: seu vôo sairá a qualquer hora ou em edição extraordinária.
A INFRAERO informa: o vencedor da licitação para o trem bala brasileiro foi o modelo AR-15.
A INFRAERO informa: a duplicação do aeroporto de Congonhas duplicará também a marginal Tietê, a marginal Pinheiros, a marginalidade será toda duplicada.
A INFRAERO informa: se acabar a bebida em Cumbica, dirija-se a Viracopos.
A INFRAERO informa: respeito é bom e a gente não gosta.
A INFRAERO informa: não seja comunista, socialista, capitalista nem anarquista: seja um ANAQUISTA, desgraças a Deus.
A INFRAERO informa: o que restava de respeito foi esquecido no Raio X.
A INFRAERO informa: a classe média não sabe o que é tomar banho frio. Nem quente, porque no aeroporto não tem chuveiro.
A INFRAERO informa: Na voz de Tom – desculpem - Nelson Jobim, Dentro de mais umas horas talvez sairemos no Galeão.
A INFRAERO informa: seu vôo está previsto para está previsto para está previsto para...
A INFRAERO informa: é proibido deixar este aeroporto.
7.06.2007
Meu Rio
O Rio que passa na TV é o da bala perdida, do PAN, da bunda, do Cristo Redentor, da Baía de Guanabara, do Pão de Açúcar, da Garota de Ipanema. É Copacabana. É o Funk, o Rap, o Tom Jobim, o Chico Buarque, o Cartola. É a Ana Maria Botafogo de atriz de novela. É um Rio de grã-finos, de novos ricos, de Barra da Tijuca, de pobretões, de uma mulher chorando a filha morta quando ela ia para a escola que fica na favela ou então no sinal, uma bala achada e não perdida, numa cabeça adolescente.
Um dia vou dizer do meu Brasil. Hoje eu quero é dizer do meu Rio, que não é o da TV. Não é o do Vinicius de Moraes nem o do Carlinhos Niemeyer, do Paulo ou do Oscar Niemeyer. Meu Rio é tão pessoal que não é nem Leila Diniz. Não é Fernanda Montenegro nem Banda de Ipanema nem Ponte Rio-Niterói. Não é Zezé Mota, como não é Sérgio Porto nem Nelson Rodrigues. Paulinho da Viola meu Rio não é, do mesmo jeito que não é torcida do Flamengo nem do Botafogo. Nem regata nem camisa de regata. Nem pivete nem garoto lavando o pára-brisa sem a gente pedir, nem sujeito vendendo amendoim de paletó e gravata, nem o rifle apontado para a minha cabeça. Não é Luma de Oliveira, não é Camila Pitanga, não é a sede do Jóquei Clube nem a serra de Petrópolis. A rua do Lavradio fica lá, o beco do Manoel Bandeira é perto, o gasômetro; nada disso é meu Rio.
Porque meu Rio é a cidade onde eu nasci. É um cheiro de peixe misturado com cheiro de asfalto. É um par de pés femininos caminhando à minha frente descalços. É uma areia de praia fazendo um barulhinho que deixou de fazer faz tempo, quando fazia um frio danado às sete da manhã dentro do mar e eu esperando onda pra descer de jacaré para ir pro colégio depois. De noite, uma bola de meia na calçada. Um pedaço de pizza no Beco da Fome, que em tempos que eu não vivi foi o das Garrafas, onde uma nata musical se formou. Lá, só fui capaz de comer pizza e puta. (Graças a Deus e graças às putas.) Meu Rio é meu pai serrando qualquer coisa, minha mãe fazendo sanduíche domingo à noite, uma mulher no prédio em frente trocando a roupa, loura, menos onde ela está sem roupa. Um par de seios e seus bicos. Uma barriga e seu umbigo. Um cão. Um doente que morde minha prancha de isopor e meu pai pergunta a ele, Você gostou? Meu irmão de tênis rasgado no bico; foi tropeção ou porta de elevador?
O câncer da minha mãe é meu Rio. E sua morte. A formatura do meu irmão, o nascimento da minha filha, meus tropeços nos cadarços dos meus sapatos. Escadas de uma casa no Cosme Velho e um sótão na Rua Umari. Bares proibidos, manhãs de dores de cabeça colossais, amigos e sua incomensurável tolerância para com meus vôos sem nave, minhas presenças ausentes. Meus amigos a não me ouvir porque miram uma face, uma bunda, um sorriso, uma possibilidade. Garçom, mais um chope, por favor. Meu primeiro casamento, seu desfecho sem morte, meus namoros. Uma inimaginável Florianópolis. Ou Minaçu. Ou Nova Iorque. São Salvador de El Salvador - ou do Tocantins. Poços de Caldas, Salvador, Bahia.
Minha mulher eterna.
O Rio não passa na televisão e nenhuma cidade passa e nenhuma vida passa. O que passa é o que fica. A cidade onde se nasce. O cheiro, o peixe, o cão, a mulher. A filha, o filho, os filhos. A opção: solidão ou companhia. Deus é a cidade onde se nasce.
Um dia vou dizer do meu Brasil. Hoje eu quero é dizer do meu Rio, que não é o da TV. Não é o do Vinicius de Moraes nem o do Carlinhos Niemeyer, do Paulo ou do Oscar Niemeyer. Meu Rio é tão pessoal que não é nem Leila Diniz. Não é Fernanda Montenegro nem Banda de Ipanema nem Ponte Rio-Niterói. Não é Zezé Mota, como não é Sérgio Porto nem Nelson Rodrigues. Paulinho da Viola meu Rio não é, do mesmo jeito que não é torcida do Flamengo nem do Botafogo. Nem regata nem camisa de regata. Nem pivete nem garoto lavando o pára-brisa sem a gente pedir, nem sujeito vendendo amendoim de paletó e gravata, nem o rifle apontado para a minha cabeça. Não é Luma de Oliveira, não é Camila Pitanga, não é a sede do Jóquei Clube nem a serra de Petrópolis. A rua do Lavradio fica lá, o beco do Manoel Bandeira é perto, o gasômetro; nada disso é meu Rio.
Porque meu Rio é a cidade onde eu nasci. É um cheiro de peixe misturado com cheiro de asfalto. É um par de pés femininos caminhando à minha frente descalços. É uma areia de praia fazendo um barulhinho que deixou de fazer faz tempo, quando fazia um frio danado às sete da manhã dentro do mar e eu esperando onda pra descer de jacaré para ir pro colégio depois. De noite, uma bola de meia na calçada. Um pedaço de pizza no Beco da Fome, que em tempos que eu não vivi foi o das Garrafas, onde uma nata musical se formou. Lá, só fui capaz de comer pizza e puta. (Graças a Deus e graças às putas.) Meu Rio é meu pai serrando qualquer coisa, minha mãe fazendo sanduíche domingo à noite, uma mulher no prédio em frente trocando a roupa, loura, menos onde ela está sem roupa. Um par de seios e seus bicos. Uma barriga e seu umbigo. Um cão. Um doente que morde minha prancha de isopor e meu pai pergunta a ele, Você gostou? Meu irmão de tênis rasgado no bico; foi tropeção ou porta de elevador?
O câncer da minha mãe é meu Rio. E sua morte. A formatura do meu irmão, o nascimento da minha filha, meus tropeços nos cadarços dos meus sapatos. Escadas de uma casa no Cosme Velho e um sótão na Rua Umari. Bares proibidos, manhãs de dores de cabeça colossais, amigos e sua incomensurável tolerância para com meus vôos sem nave, minhas presenças ausentes. Meus amigos a não me ouvir porque miram uma face, uma bunda, um sorriso, uma possibilidade. Garçom, mais um chope, por favor. Meu primeiro casamento, seu desfecho sem morte, meus namoros. Uma inimaginável Florianópolis. Ou Minaçu. Ou Nova Iorque. São Salvador de El Salvador - ou do Tocantins. Poços de Caldas, Salvador, Bahia.
Minha mulher eterna.
O Rio não passa na televisão e nenhuma cidade passa e nenhuma vida passa. O que passa é o que fica. A cidade onde se nasce. O cheiro, o peixe, o cão, a mulher. A filha, o filho, os filhos. A opção: solidão ou companhia. Deus é a cidade onde se nasce.
6.18.2007
O OUTRO
Nada de teorias psicanalíticas ou filosóficas será abordado aqui. E agora. Porque, agora, o outro é aquele tão popular quanto desconhecido. Aquele que diz tudo, principalmente ditados populares. O popular outro da expressão “É como diz o outro”.
Quem será esse outro, que tanto diz? Vira e mexe e alguém o cita: “É como diz o outro: mais vale um pássaro na mão que um caixa dois voando.”. Geralmente – preste atenção – o outro embaralha ditados, cria novos, um danado de imaginativo – inovador – é esse tal de outro.
Por um tempo acreditou-se que outro era nome próprio: - Prazer; eu sou o Outro. De quê? Ele – que, de tão especial, é o Outro – não responderia; omitiria o sobrenome de família – que é outra família, por ser a família do Outro.
A entrevista com o ser que, de tão espetacular, é Outro, continuaria:
- Outro, o que você diria hoje, hein?
- Sobre o quê?
- Sobre esse – sabe como é, esse que, como diz o outro...
- Outro sou eu.
- Pois é: o que você tem a dizer sobre esse outro, esse aí, que...
Entretanto, lamentamos informar que a identidade do Outro acaba de ser revelada. No interior do Tocantins, existe um indivíduo muito popular, que vamos fingir que se chama Fulano de Tal. Alguém o encontrou e exclamou: - Ah! Então, o senhor é que é o Fulano de Tal! Pois que, para surpresa do alguém citado, Seu Fulano respondeu:
- Eu não sou esse que você está pensando, não: eu sou o outro.
O que dizem é que o espanto do alguém que foi apresentado ao outro - mais famoso até que o tal fulano, o Fulano de Tal -, passou a se apresentar, mais modesto que qualquer outro, da seguinte maneira:
- Muito prazer: Ninguém.
Enfim, para ser ninguém, basta ser alguém. É como diz o outro.
Quem será esse outro, que tanto diz? Vira e mexe e alguém o cita: “É como diz o outro: mais vale um pássaro na mão que um caixa dois voando.”. Geralmente – preste atenção – o outro embaralha ditados, cria novos, um danado de imaginativo – inovador – é esse tal de outro.
Por um tempo acreditou-se que outro era nome próprio: - Prazer; eu sou o Outro. De quê? Ele – que, de tão especial, é o Outro – não responderia; omitiria o sobrenome de família – que é outra família, por ser a família do Outro.
A entrevista com o ser que, de tão espetacular, é Outro, continuaria:
- Outro, o que você diria hoje, hein?
- Sobre o quê?
- Sobre esse – sabe como é, esse que, como diz o outro...
- Outro sou eu.
- Pois é: o que você tem a dizer sobre esse outro, esse aí, que...
Entretanto, lamentamos informar que a identidade do Outro acaba de ser revelada. No interior do Tocantins, existe um indivíduo muito popular, que vamos fingir que se chama Fulano de Tal. Alguém o encontrou e exclamou: - Ah! Então, o senhor é que é o Fulano de Tal! Pois que, para surpresa do alguém citado, Seu Fulano respondeu:
- Eu não sou esse que você está pensando, não: eu sou o outro.
O que dizem é que o espanto do alguém que foi apresentado ao outro - mais famoso até que o tal fulano, o Fulano de Tal -, passou a se apresentar, mais modesto que qualquer outro, da seguinte maneira:
- Muito prazer: Ninguém.
Enfim, para ser ninguém, basta ser alguém. É como diz o outro.
6.04.2007
PAULO JOSÉ, FALCÃO E QUANDO MENOS VALE MAIS: QUANDO?
O ator Paulo José, administrando bem os sobre-movimentos que lhe são exigidos (mal de Parkinson), com a mente e o caráter tão caracteristicamente seus – brilhantes - a lhe saírem pelas palavras e silenciosas e rápidas e fulminantes pausas, com seus jovialíssimos setenta anos de vida, é entrevistado no Programa Roda Viva. Às tantas descreve uma cena do filme adaptado e homônimo do romance de Fernando Sabino, “Faca de dois gumes” - ainda que não exatamente com essas palavras:
“Eu fazia o pai de um jovem seqüestrado que acabava de receber um estojo com o pedaço do dedo do filho dentro. Como reagir? Como fazer a cena?”.
O ator, então, faz umas duas ou três tentativas de uma possível dramatização do choque de um pai vivendo tamanha tragédia, repetindo a mesma frase com diferentes entonações (todas dignas do grande ator que é): “MEU FILHO.”. “MEU FILHO!”. “MEU... FILHO...”.
E conclui por dizer o seguinte:
“Em certas horas, o melhor é não fazer nada.”.
Agora – dirá você, para este narrador de entrevistas alheias -, lá vem você falar de futebol e – pior - de mais de vinte anos atrás.
Brasil contra Rússia, Copa de 1982. Um jogador brasileiro dispara um chutão, da intermediária, de frente para o gol. Falcão está na meia-lua, esperando pela bola. O que ele faz? Não faz; abre as pernas e a bola passa, ligeira, implacável, reta: gol do Brasil.
Na mesma Copa, em um outro fatídico e inesquecível jogo, o Brasil precisa de um empate, contra a Itália. Está 2 a 1 para a que viria se sagrar campeã; só que, naquele momento, ninguém sabe disso (a não ser o Sobrenatural de Almeida - não é, Nelson Rodrigues?). Da mesma meia-lua, o mesmo Falcão dispara, de canhota, um chute mortal: gol do Brasil.
Era hora de fazer - e não de não fazer.
Depois, como se sabe, o time deixou de fazer quando deveria ter feito e Paolo Rossi marcou o terceiro gol da Itália, que tirou o Brasil da Copa, com uma das suas melhores seleções de todos os tempos.
Voltando à entrevista do Paulo José: em outro momento, ele comenta sobre o desejo de muitos da presença de soldados do Exército nas ruas, para combater a violência; e pergunta:
“E se eles gostarem de ficar nas ruas?”.
Pois é, Sheakspeare: há momentos em que ser ou não ser vira fazer ou deixar de fazer. E a questão passa a ser: - Quando?
“Eu fazia o pai de um jovem seqüestrado que acabava de receber um estojo com o pedaço do dedo do filho dentro. Como reagir? Como fazer a cena?”.
O ator, então, faz umas duas ou três tentativas de uma possível dramatização do choque de um pai vivendo tamanha tragédia, repetindo a mesma frase com diferentes entonações (todas dignas do grande ator que é): “MEU FILHO.”. “MEU FILHO!”. “MEU... FILHO...”.
E conclui por dizer o seguinte:
“Em certas horas, o melhor é não fazer nada.”.
Agora – dirá você, para este narrador de entrevistas alheias -, lá vem você falar de futebol e – pior - de mais de vinte anos atrás.
Brasil contra Rússia, Copa de 1982. Um jogador brasileiro dispara um chutão, da intermediária, de frente para o gol. Falcão está na meia-lua, esperando pela bola. O que ele faz? Não faz; abre as pernas e a bola passa, ligeira, implacável, reta: gol do Brasil.
Na mesma Copa, em um outro fatídico e inesquecível jogo, o Brasil precisa de um empate, contra a Itália. Está 2 a 1 para a que viria se sagrar campeã; só que, naquele momento, ninguém sabe disso (a não ser o Sobrenatural de Almeida - não é, Nelson Rodrigues?). Da mesma meia-lua, o mesmo Falcão dispara, de canhota, um chute mortal: gol do Brasil.
Era hora de fazer - e não de não fazer.
Depois, como se sabe, o time deixou de fazer quando deveria ter feito e Paolo Rossi marcou o terceiro gol da Itália, que tirou o Brasil da Copa, com uma das suas melhores seleções de todos os tempos.
Voltando à entrevista do Paulo José: em outro momento, ele comenta sobre o desejo de muitos da presença de soldados do Exército nas ruas, para combater a violência; e pergunta:
“E se eles gostarem de ficar nas ruas?”.
Pois é, Sheakspeare: há momentos em que ser ou não ser vira fazer ou deixar de fazer. E a questão passa a ser: - Quando?
NU
NU
Era muito especializado
Vivia de bico de boca do que desse e viesse
Namorava quem se desse
Não tinha nome não tinha cara
Nem cara de pau ele tinha
Cara nenhuma
Parecia disfarce topete chapéu capa guarda-chuva
Não era moleque nem bandido
Marginal no sentido literal
Vivendo à margem
Do rio
Da linha do trem
Da sala de visitas
Do anfiteatro
Da pista
De alta velocidade
Ia lento
Ritmo
De quem passa a vida observando e deixando
Não mais que a própria sombra
Na lembrança de quem fosse
Que tivesse encontrado
Beijado
Esbarrado
Ninguém sabe se deixou filhos mulheres amantes viúvas
Diplomas
Deixou sapatos sua capa e o guarda-chuva
Sumiu de repente
Ninguém sabe se morreu
Ou se foi embora nu
Pela porta dos fundos
Da vida.
Era muito especializado
Vivia de bico de boca do que desse e viesse
Namorava quem se desse
Não tinha nome não tinha cara
Nem cara de pau ele tinha
Cara nenhuma
Parecia disfarce topete chapéu capa guarda-chuva
Não era moleque nem bandido
Marginal no sentido literal
Vivendo à margem
Do rio
Da linha do trem
Da sala de visitas
Do anfiteatro
Da pista
De alta velocidade
Ia lento
Ritmo
De quem passa a vida observando e deixando
Não mais que a própria sombra
Na lembrança de quem fosse
Que tivesse encontrado
Beijado
Esbarrado
Ninguém sabe se deixou filhos mulheres amantes viúvas
Diplomas
Deixou sapatos sua capa e o guarda-chuva
Sumiu de repente
Ninguém sabe se morreu
Ou se foi embora nu
Pela porta dos fundos
Da vida.
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