6.28.2005

VAIDADE

Vaidade,vaidade. Não depende de idade nem sexo ou temperamento: todo mundo tem. Por exemplo, um sujeito sessentão, com barba por fazer, cabelo desgrenhado, seu rosto, querendo ele ou não, transmitindo idéia de pouco asseio, manifestou em sala de espera de um médico sua grande vaidade pela coleção de sapatos que possui. Contou que ganhara de uma amigo dois novos pares, cujas solas eram de borracha. Inadmissível! Foi obrigado a confessar ao amigo que só usa sapatos com sola de madeira e que teria que trocar os presenteados.

Penteados. Mulheres saem do cabeleireiro com penteados às vezes complexos, que podem no entanto ser desfeitos e redesenhados com rápidos movimentos das próprias mãos, fazendo-as muito mais bonitas do que quando saíram do salão. Carecas com restos de fios capilares se esmeram em cuidadosamente arrumá-los; desgrenhá-los; ou raspá-los. Houve tempo em que gente de cabeça raspada era calouro de universidade, presidiário ou louco, internado em hospício ao lado do presídio. Hoje, não: tanto pode ser um craque do basquete ou futebol como um louco, do lado de fora do hospício. Nem sempre, é claro: há os mais jovens, que podem raspar a cabeleira com lâmina de barbear, deixá-los rentes, à escovinha, só que sem usar essa expressão, do tempo dos seus avós ou bisavós, como desenhá-los a deixar morrendo de inveja o último dos moicanos ou o primeiro dos siouxies. Já xucarramâni, ninguém quer imitar.

Homens que pintam os cabelos têm preconceito de cor: não gostam de branco. Continuam tendo a mesma aparência que lhes confere a idade, só que de cabelo pseudo-louro. É bem verdade que há os que preferem levar seus penteados aos engraxates, para, é claro, fazê-los parecidos com sapatos.

Cargos. Carros. Casas. Namoradas e namorados. Filhos. Cães. Tudo isso entra no liquidificador da vaidade, especialmente nesses tempos das celebridades, que, como se sabe, são as pessoas que aparecem na tv. Mas, atenção: é preciso aparecer na tv falando alguma coisa importante, como, por exemplo, acho tudo isso um absurrrrrrrrrrrrrrdo, seja lá o que o tal “isso” for. Mulheres-celebridades devem cruzar e descruzar as pernas e ter cabelos longos, puxando-os de um lado para o outro e jogando a cabeça na mesma direção – senão, celebridades não são. Homens-celebridades devem usar terno ou capote com bermuda até a canela. Quando de terno, manter as pernas cruzadas de um jeito que só os eunucos conseguem; de capote e bermudão, sacudir o tronco, especialmente os ombros, ligeiramente curvados para a frente, bem agitados – mas o indispensável é dizer que tudo isso é um absurrrrrrrrrrrrrrdo.

Mendigos fazem a barba com uma lâmina e um espelho quebrado encontrados no lixo. Mendigos são a expressão máxima da vaidade: voltaram as costas para a sociedade e desandam por aí, com seus casulos nas costas. Meninos de rua se banham nos chafarizes e penteiam-se e ensaboam-se e correm atrás de você e roubam sua bolsa e tiram lá de dentro o dinheiro e o mais importante: seu estojo de maquiagem - que usarão para mascarar seus rostos, demonstrando um talento artístico que foi ignorado por quem passa, por quem os jogou a morar na rua.

Ferraris deixam em dúvida os que escolheram Mercedes ou BMW. Vaidade. Monges budistas e outros religiosos pregam seu oposto: o mais extremo desprendimento pela matéria. Menos a publicada no jornal, que conta de suas lutas contra o materialismo e a vaidade e a quantidade de seus fiéis seguidores.

Mas ninguém é mais vaidoso que quem escreve. Que tola vaidade imaginar que outros lerão o que escreve, gostarão do que escreve, suspirarão ou morrerão de rir ou de tédio.

Vaidade, vaidade.

6.24.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO CATORZE –

Naquela manhã de 2016, Ricardo IV engoliu meio comprimido de Beta-fluoxetina, procurando melhorar o humor; chupou uma pastilha do tradicional hidróxido de alumínio; pôs na boca seu habitual comprimido de bi-metmorfina, para controle do peso; rechaçou o de alprazolam comparado, com medo de alguma perniciosa interação medicamentosa; mas não resistiu a uma doble-aspirina cubana, Garcia & Levitz’s Laboratories, porque estava com uma dor de cabeça em regime de ascensão. Tudo isso depois de beber café com leite vagarosamente, um suco de uva em pó concentrado diluído em água e mastigar sem apetite uma torrada e meia de pão. Não havia ninguém em casa, estava atrasado para a reunião com sua equipe de trabalho - mas era o sócio majoritário e sênior do escritório: que esperassem. O neto queria vir para o Rio para morar com ele e Sérgia. Seu maior cliente revelara-se um picareta, na véspera. O país beirava ao caos político outra vez. O buldogue deixara uma prenda molenta aos pés da sua cama, a qual ele calçara, pensando que fossem seus chinelos. E o filho, Ricardo V, não queria deixar de morar em Minaçu. Lá, seu filho famoso era tão famoso quanto o juiz, o prefeito... talvez fosse essa a estratégia do filho.

Foi para o banho como se o chuveiro fosse um tribunal de ética, que o condenaria por defender calhordas. Ou por ser egoísta - por não querer o neto por perto. Mas queria o filho, e o filho com o neto; pronto: tudo bem. Se assim fosse. A água quente e turbinada deu-lhe alívio, mas a desesperança persistia. Um desânimo, um súbito medo, como se fosse perder tudo de uma hora para outra, o apartamento, a conta no banco, as gêmeas. Uma solteira, a outra, casada – com aquela pessoa. De quem ele não gostava. Pior! – deu-se conta: de quem começava a gostar. Duro, admitir: era preconceituoso. Cheio de teorias, suas e de Sérgia; mas, os dois, preconceituosos. Duro, admitir.

Que diabos de camisa escolher? Sérgia, cadê você, esse serviço de arrumação, lavagem e passagem de roupa deveria incluir uns escolhedores, ou fornecer um cardápio de roupas a usar a cada dia da semana! Clean and Stuff. Bom nome. O país, essa cidade, ontem vi um dos empregados da Clean and Stuff sair daqui com aquele absurdo capacete, aquela ridícula armadura, as ruas em guerra, novamente! Coitado de quem tem que passar por elas, de andar pelas calçadas! Coitada dessa gente! Este armário, precisava ser tão grande? Que calça, Meu Deus, que calça?...

Um despreparado. É o que eu sou. Velho e despreparado, nem fui no estúdio, hoje, correr parado, me flexionar e alongar nos aparelhos. Estou um traste! Que saudade da fisioterapeuta, não devia tê-la ajudado a montar sua empresa, que imbecil eu fui, troquei a melhor fisioterapeuta do planeta por uma empresária que me vendeu essas merdas de aparelhos! Self-gym; que babaquice!

Resolveu que não iría ao escritório, que conversaria com todos por vídeo-conferência. Sua Π-ex-em (Personal Executive Manager – a letra grega Π recuperara seu território e se tornara um padrão para o P em Inglês - “pi”, exatamente naquele ano) lhe dissera para não fazer isso: - Os encontros presenciais serão fundamentais para que você amplie sua marca de liderança fundamentada na contextualização do seu carisma.

Só que, hoje, não vai dar. Como ir trabalhar sem calças? Na vídeo-conferência, poderei ficar sentado atrás da mesa o tempo todo; se bem que não é tão trabalhoso assim escolher um reles par de calças – e essa tecnologia toda há de me desnudar sem calças por trás da mesa. Senão essa tecnologia de merda, a vontade de ir ao banheiro! Como agora!

Finalmente vestiu-se e foi vagarosamente até o escritório do apartamento; conectou-se com a secretária dois minutos antes do horário da reunião e disse a ela:

- Vou me atrasar. Peça que me esperem por mais meia hora. Diga que, se eu não aparecer dentro de meia hora, foi porque algo de muito sério me aconteceu. Não, nada me aconteceu, por favor, fique calma. Respire fundo, isso passa. Não, não me aconteceu nada, tampouco diga a ninguém que algo me aconteceu, diga que... Olha, eu hoje estou doente, não estou passando bem. Façamos o seguinte: convoque todo mundo para uma vídeo-conferência, dentro de... doze minutos. Melhor assim. Depois decido se vou ou não ao escritório. Quer saber? Ainda não me acostumei com essa modernice de salão de trabalho, sinto falta da minha sala, minha grande mesa, meu computador de mesa, mesmo de meu lap top eu sinto saudades. Esses pontos de conexão tão... impessoais! Sem privacidade! O único lugar onde me sinto à vontade no escritório, atualmente, é na privada. Me desculpe a indiscrição, mas esse negócio de receber cliente numa sala de visitas com todo mundo em volta - ainda que a hipo-acústica impeça que nos escutem e a virtual-image nos mostre sorridentes mesmo quando a ponto de nos esfaquear -, sinceramente, que saudade de um bom escritório! Me conecte com eles, tá? Hoje eu não vou. Mas, antes, me conecte com a Geórgia, por favor. Ela mesma: minha Π-ex-em.

Sentiu o sinal da conexão. Ficou em dúvida: com quem eu gostaria de recuperar agora um pouco da minha auto-confiança perdida em três desesperadas corridas à privada?

Minha mulher ou a ex-em?

6.21.2005

DELAS E DELES

(1) DELAS

Delas, só se deve falar quando estiverem ausentes. De preferência, antes. Depois, não.

Cuidado: as portuguesas nos fazem suar muito; francesas exigem aquecimento; e as japonesas são quadradas.

Polonesas são diferentes das russas e as duas teimam em competir com as finlandesas.

Em certa medida, as escocesas são tão boas quanto as mineiras. Mas as nordestinas não ficam atrás, não; tampouco, dadas gaúchas e algumas catarinenses.

As fluminenses são capazes.

Cariocas, só as bebemos.

De aguardentes, só devemos falar pelas costas.

Se você se confundiu, lembre-se de não ser tão específico da próxima vez.

Ou preconceituoso...

(2) DELES

Vinicius de Moraes, na juventude, era preconceituoso. Não gostava do Jorge Amado, para depois viver e morrer amigo e fã dele. Endividava-se com os amigos e, depois, pedia desculpas. Dava o dinheiro que ganhava com seus shows a uma das ex-mulheres - talvez “aquela amada mais amada pra valer”, de todas que teve.

Rubem Braga, segundo Paulo Mendes Campos, era o lavrador do ar. Rubem morava em uma cobertura em Ipanema, onde possuía uma horta, onde Paulo fazia sua feira. Rubem, que foi correspondente de guerra e, em dada medida, causador de uma das separações e de um novo casamento de Vinicius; Paulo, que, segundo Drummond, era a lamparina capaz de acender outras - o poeta para poetas; Drummond, que era levado de carro por Vinicius para visitar uma amada proibida.

Fernando Sabino teve tantos encontros marcados que deixou um homem nu, do lado de fora.

Todos os citados, em maior ou menor medida, gostavam delas.

Que bom que seu preconceito ficou do lado de fora.

Junto com o homem nu.

6.17.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO TREZE –

Mais pela novidade da estrada de ferro, cujo trecho de São Pedro de Uberabinha (Uberlândia, a partir de 1929) até Araguary havia sido inaugurado em 15 de novembro de 1896, iam deixando para o Leste Canudos e Ouro Preto e mais se aproximavam de Goiás. Araguary foi a estação final do trem da Mogyana, que haviam tomado em Campinas.

Alvará de 4 de abril de 1816 é que desanexara da Capitania de Goiás a região posteriormente conhecida por Triângulo Mineiro; de certa forma, já estavam em Goiás.

Quem desbravou a região foi Bartolomeu Bueno da Silva – o Anhanguera –, cujo objetivo era, exatamente, chegar a Goiás. Era a região dos Caiapós, que viviam emboscando os brancos, o que prejudicava a comunicação da província de Goiás com São Paulo. Em 1748, expedição que contou com ditos índios mansos expulsou os então donos da terra, caiapós. Formaram-se dezoito aldeias, ao longo da estrada que ligava São Paulo a Goiás: Anhanguera. Naquele 1897, se Ricardo e Olga soubessem que seu destino seria Goiás, teriam cortado caminho; mas sonhavam era com Minas.

Antônio Resende Costa, o Major do Córrego Fundo, foi quem demarcou as Sesmarias do Serrote e da Pedra Preta e apossou-se de um terreno entre as duas, que depois doou à Igreja, como patrimônio da Freguesia de Brejo Alegre, que ali se estabeleceu e se tornou Vila em 31 de Março de 1884 e, em 4 de agosto daquele ano, cidade. Na sessão da Assembléia Legislativa Provincial de 5 de agosto, emenda do Deputado Severino Navarro deu à cidade o nome que Ricardo e Olga conheceram: Araguary – assim sancionado por lei, pelo Barão de Camargos.

Ricardo Coração dos Outros e Olga viveram alguns meses em Araguary, antes de atravessar a fronteira para Goiás, ainda em 1897 - ano que, em 12 de dezembro, Ouro Preto perderia a condição da capital da Província de Minas Geraes para Cidade de Minas – que viria a se chamar, a partir de 1901, Belo Horizonte.

Como se vê, tudo era muito rápido, naquele tempo.

Para quem sabe e quem não sabe; e para que se estabeleça senão discórdia, pelo menos desconfiança deste relato – é para isso que servem relatos -, relembra-se mais.

Em 4 de março daquele 1897, Biriba – ou Prudente de Moraes -, recuperado, voltou ao seu cargo de Presidente da República. Se Floriano (falecido em 1895) deixara saudosos florianistas, a vertente jacobina da Revolução Francesa (1789) teve sua genealogia ideológica continuada em vários cantos, pelo menos aqui, no Brasil.

Os jacobinos brasileiros, que queriam uma república forte e capaz de enfrentar os fantasmas monarquistas que alimentavam seus pesadelos noturnos e acidezes estomacais diurnas, tiveram no soldado Marcelino seu mais exaltado herói. Em 5 de novembro, quando Biriba foi recepcionar o Espírito Santo, vindo da Bahia trazendo à bordo os primeiros vitoriosos contra Antônio Conselheiro, e a torcida era pró Floriano e Vitorino - um de seus saudosos, vice que mudara o governo a seu próprio contentamento durante a doença de Prudente -, Marcelino sacou de uma garrucha, que – dizem - falhou cinco vezes. Biriba afastou a garrucha – dizem – com sua cartola. Marcelino, antes de ser preso, esfaqueou mortalmente o Ministro da Guerra de Moraes, Marechal Bittencourt.

Tal noticiário chegava pelo telégrafo ou por passantes, migrantes, perdidos na história de suas vidas e permanentemente surpreendidos pela de seu país, tão recente e sangrenta república, aos olhos e ouvidos de Olga e Ricardo Coração dos Outros.

Já se haviam decidido por Goiás – a fronteira, tão próxima, os seduzia -, mas permaneciam por ali, vivendo de bordados de Olga e novas ou renovadas modinhas de Ricardo – que também desenvolvera especial talento para ferrar e selar burricos e cavalos.

Partiram, enfim. Cavalcante seria seu destino, mas ainda não o sabiam. Cavalcante, que, naquele tempo, era tão central, na Província de Goiás. Goiás, em 1988, já Estado da federação, teria parte de seu território convertida em outro Estado: Tocantins – que, em 1821, tivera um governo autônomo e, em 1920, houve quem tentasse de novo sua autonomia.

Ao cruzar a fronteira entre Minas e Goiás é que souberam das duas mortes: primeiro, de Armando, que deixava Olga oficialmente viúva, livre para se casar de direito com Ricardo; depois, do pai de Olga. As duas lhes foram noticiadas e transmitidas por telégrafo, por contatos, secretos em sua fantasia de casal apaixonado e fugitivo, que mantinham no Rio de Janeiro, capital da República. Escritos encontrados sem pauta musical com a caligrafia de Ricardo Coração dos Outros assim registraram aqueles momentos:

Rio Paranaíba,
Separaste
Duas vidas que começam
De duas outras que se findam
Nas minhas modestas contas,
Enquanto tantas são contadas
Em contas que não domino!
Ai, Rio Paranaíba,
Que tormentos e alegrias
Nos aguarda nosso destino?
És capaz de nos dizer,
Rio que vamos deixando

Às tontas ventanias
Deste nosso desatino?

6.14.2005

O DELTA-DOIDÃO

Um triângulo, com as estratégias Produto, Soluções e Lock-in em seus vértices, representa o Modelo Delta, criado por especialistas em competitividade empresarial. Por respeito a eles, seus nomes serão omitidos, para que não haja confusão – pois, aqui, se falará do Delta-Doidão – modelo cujos vértices são trabalho, prazer e criatividade, com a peculiaridade de que suas arestas são aparadas e, por isso, os vértices, vira e mexe, se desunem.

Por extensão, quem se enquadra no modelo é Delta-Doidão - independentemente de ser uma ou um, tal e qual um ou uma chefe (pois, se chamam você de “chefa”, querem puxar algo de que você é desprovida; caso contrário, é deboche).

Pode ser que você seja alguém com sorte e goste do que faz: você tem prazer no seu trabalho - o que também permite que sua criatividade seja exercida em plenitude. Quando está se divertindo, não pensa no trabalho, mas se pensa, é com prazer. Criando alguma coisa - uma canção, refeição ou confusão -, terá uma enorme sensação de prazer e não de trabalho – mas se também for, nenhum problema: você gosta do que faz. Você não é um Delta-Doidão: seus vértices estão lá, unidos pelas suas arestas.

Você adora seu trabalho, mas, hoje, o telefone tocou mais do que devia. Seu chefe lhe chamou e, no lugar de um problema, lhe trouxe uma encrenca – tirando você daquele lugar que ele chama de zona de conforto, onde ele vive dizendo que não gosta que você fique. A sensação de prazer se foi e a criatividade ficou em casa, de ressaca. Mesmo sem ser um deles ou delas, bem vindo ao mundo Delta-Doidão. Tudo o que você quer agora é prazer – prazer criativo, como, por exemplo, comer pipoca de micro-ondas – sem nenhum trabalho.

Você é mesmo alguém de sorte: o Domingo chegou e você vai à praia com quem você mais gosta. Seu carro está lindo, com os faróis acesos. A bateria descarregou. Com sua criatividade, você, que é mais forte, pede a quem mais gosta e tem idade pra isso que fique ao volante, enquanto você vai chamar o porteiro para que ele o ajude a empurrar o carro. O porteiro, ontem, sentiu imenso prazer criativo comendo uma buchada de bode e, hoje, não veio trabalhar. Serão seus braços e suas pernas os únicos a se esforçar a fazer o carro pegar no embalo. Portanto, as costas serão as suas. Resultado?: dor. Nas costas. Não faz mal: depois do oitavo empurrão, o carro pegou e vocês vão mesmo para a praia.

Você retorna prazerosamente ao útero do mundo, quiçá do universo: o mar! Que sensação! O trabalho é nadar, mergulhar, ficar de barriga pra cima, olhar o céu, imaginar órbitas ainda mais criativas que as dos olhos de quem você mais gosta. Mas, atenção: se você desandar a nadar com espalhafato, além da volta da dor nas costas, todos dirão: é Delta-doidão.

E se, numa sexta-feira, você dançar freneticamente e ficar se esgoelando pensando que está cantando até as três da manhã depois de um simples happy-hour, você pode, até, ser presidente ou presidenta de uma empresa, mas - irremediavelmente - é Delta-Doidão.

Calma: não é nada grave. Palavra do CDDA – Criador do Delta-Doidão, Anônimo. Ou você pensou que era o Carlos Drummond de Andrade? Puxa, obrigado, hein.

6.11.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO DOZE –

Em 2016, Ricardo V e Rita tinham condições para morar em qualquer lugar do mundo. Por que, então, ainda Minaçu?

Ricardo V chegou à fama com seu livro “A Revolução Brasileira de 2017”, lançado em 2009, quatro anos após a súbita inspiração que teve quando foi visitado por seus pais, em 2005. conseguiu concentrar-se e desenvolver o tema da revolução – que, segundo ele, aconteceria “pela influência da simbiose da fidalguia européia, da nobreza africana e da estirpe ameríndia na gênese da sua plebe e a involuntária conspiração de Newton e Gauss”; e seria pacífica, sem tiros ou golpes de estado: uma revolução de mentalidade. Escolheu 2017 em óbvia alusão à revolução comandada por Lênin um século antes. (Essa alusão lhe rendeu a ofensa de alguns críticos, por um (por eles) deduzido desrespeito do autor àqueles ideais, e a de outros, por um (por eles) suposto apoio de Ricardo àqueles ideais.)

Na Convulsão de 2010, as vendas dispararam; depois, como se sabe, a revolução de 2017 efetivamente aconteceu – e, ainda que diferente da que ele imaginou, Ricardo V foi considerado por muitos um visionário.

Em auto-crítica, Ricardo se diz um afortunado, por ser filho de casal com reserva financeira – o que lhe permitiu a tranqüilidade para se dedicar a desenvolver e escrever suas idéias – e por se ter envolvido amorosamente com duas mulheres de grande valor e companheirismo: a falecida namorada, Maria Otávia; e sua mulher, Rita.

Apesar do sucesso que vinha obtendo junto à universidade, Rita desencantara-se com sua pesquisa sobre índios brasileiros, o que lhe custou muito caro: perdeu a bolsa de estudos e a carreira de pesquisadora. Seu desencanto foi, segundo ela, porque, ao invés de enxergar a questão como cientista, teria-se apaixonado pela causa indígena (ou causas; percebeu uma infinidade delas no contato com as diferentes tribos). E, como apaixonada, alimentou dentro de si terrível conflito: nascida nos Estados Unidos, mesmo com descendência latina de pai e de mãe e por mais que fizesse parte de outra tribo – a dos defensores da natureza e da preservação da vida humana principalmente em seus traços culturais -, pela veia desenvolvimentista característica da sua nação, passou a imaginar que obra como a ligação do Brasil ao Oceano Pacífico, rasgando caminhos por terras indígenas, ajudaria a tirar do sub-desenvolvimento outras tribos, descendentes das três raças formadoras da brasileira. Perdeu-se do foco em suas apaixonadas e confusas divagações. Resolveu ocultar-se no anonimato e ajudar o marido a escrever o livro dele, mas libertando-o também dos rigores acadêmico-científicos.

Quando foi tomada essa decisão, Rita já havia perdido sua bolsa, mas Ricardo ainda conseguia manter a sua, pela curiosidade que despertaram, nos mestres originalmente de Rita, suas idéias de uma possível revolução brasileira. Para sua surpresa, a universidade americana se recusou a caçar-lhe a bolsa e deu-lhe plena liberdade de expressão, sem nenhum rigor científico, mas com a condição de que mantivesse a residência em Minaçu.

- Por que Minaçu? Não poderia ser outra cidade, no mesmo Estado de Goiás? – ele perguntou aos seus patrocinadores americanos. E foi além: ousou afirmar que poderia fixar-se em qualquer lugar do mundo, comprometendo-se a visitar, de vez em quando e estrategicamente, a região por ele imaginada para o despertar de uma revolucionária consciência. (Ricardo queria voltar a morar no Rio, em um grande e conturbado centro, além de ser a sua cidade de nascimento.) A resposta foi não, sem nenhuma explicação: esta era a condição para que a universidade continuasse a bancar seu projeto de pensamento: que morasse em Minaçu. Para não voltar a depender dos pais, Ricardo V ficou por lá, com seus livros, violão e família.

Isso foi em 2006. Porque em 2016 - Ricardo V já um “best-seller”, que alcançara a independência financeira e há muito deixara de ser bolsista -, ainda permaneciam todos morando em Minaçu? Era o que se perguntava seu filho, Ricardo VI, aos treze anos de idade, enquanto lia sobre Tutancamon - faraó egípcio desde os nove e até os dezenove anos, quando morreu -, e sonhava poder ajudar o pai a concretizar sua profetizada revolução. O Ricardo adolescente ainda estava hospedado na casa da tia, no Rio de Janeiro. Seu pai, retornando da Índia com Rita, entre outros escritos e dedilhados, dedicava-se a pesquisar sobre assunto prioritariamente familiar: a história de vida dos seus trisavós, Ricardo Coração dos Outros e Olga. A pergunta permanecia parcialmente sem resposta: que caminhos e motivos os teriam levado a Cavalcante, na virada dos séculos XIX e XX? E como viveram por lá?

6.07.2005

DAS MOSCAS, PARA AS MOSCAS, PELAS MOSCAS

(I)

Pois é, meu bem: neste jornal-tablóide, sobre o qual comemos essas migalhas, lê-se que os homens - seus machos e fêmeas - entendem que o sexo, tão genital, não seja gene - e, sim, moral. Científicos que são, inocularam em nós, moscas, genes de moscas masculinas em moscas femininas e genes de moscas femininas em moscas masculinas. Agora percebo que meu gene foi para você – e por isso, você já não me quer. Você agora prefere alguém como você e diferente de mim. Já meu ser ficou incompleto do meu gene que me foi subtraído - e percebo que, quem antes era igual a mim e recebeu um gene de alguém igual a você, agora se interessa por mim. Traduzindo em miúdos - que para nós, moscas, são graúdos -, agora você prefere as moscas do seu sexo. Quanto a mim, fiquei às moscas; só que às moscas que, antes, gostavam das moscas do seu sexo, e agora preferem o meu.

Mas o que é que nós, moscas, temos a ver com a ciência e a moral dos homens? É que os homens – seus machos e fêmeas - dão à moral um valor excepcional, a ponto, até, de nos reduzir a moscas; tanto que dizem que existe, inclusive, um falso moralismo. Entretanto, perceba, meu bem e ex-amor genital, natural e genial, que se a moral dos homens existe não para a ciência deles e sim para que eles e elas, homens e mulheres, criem preconceitos e se afastem - uns dos outros - pelo sexo, pela cor, pela origem e, até, pela religião deles - é de se deduzir que não exista uma falsa moral, pois - se for mesmo assim – toda moral será falsa.

Moral da história? O falso moralista não existe, porque todo moralista é falso.

Mas isso é palavra de mosca; quem, afinal, nos levaria a sério?

(II)

Nietzche: Mas você não veio ao mundo para espantar moscas.

(III)

Uma canção roubada
(Sobre a melodia de Menino do Rio, de Caetano Veloso, com alusão a Nelson Rodrigues)

(i) Menino de rua / com a bunda virada pra lua / tu és o avesso da sorte / roubaram teu sul e teu norte / Coração / de eterno espanto / de desencanto / Menino vadio / sem cabra ou terreno baldio / talento perdido e sem nome. (ii) Que o Haiti / é aqui: / nada pra sonhares / nem todos os mares / ou a sombra dos lares / E quando eu te vejo eu tenho medo do teu medo... (iii) Menino arredio / na chuva, no vento, no frio / roubei a canção em teu nome...

(IV)

O poeta vive de alusões.

6.04.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO ONZE –

O último capítulo da última novela de televisão foi ao ar em novembro de 2016. A estratégia foi forçar a mudança do hábito da população antes que esta o abandonasse. Pesquisas demonstravam que o descontentamento não era só com o tradicional (profissional) exercício da política. Da mais sofisticada mansão ao mais miserável casebre, se instalava um desinteresse pelo gênero. Até 2010, minimamente dois ou três atores e atrizes contracenavam com dez ou doze decoradores de falas e caretas; de lá para depois, extinguiram de vez os talentos e impingiram ao público uma grande quantidade de textos ruins e figurantes péssimos; entretanto, a fórmula ia vingando: o deixa pra lá conseguia sufocar o azedume da revolta com a repetição, tanto de fatos, como de fantasias, desagradáveis, imbecis e vis.

Ricardo VI estava com treze anos. Seus pais, Ricardo V e Rita, passavam uma temporada na Índia, onde os banhos coletivos eram cada vez mais inacreditavelmente coletivos e a riqueza se projetava e se distribuía - para eles, inacreditavelmente, porque, no Brasil, ainda era grande a quantidade de casebres miseráveis. Ricardo VI ficara com os avós, no Rio. Ricardo IV estava muito moço, ainda: 66 anos. Sérgia era tida, pelos amigos do neto, como um tesão - aos 62. Das gêmeas suas tias, Ricardina e Olga, que estavam com 42, Ricardo VI gostava mais da primeira, que ficara solteira e morava sozinha e alternava namorados, com displicência e alegria.

Naquele sábado de dezembro, Ricardo VI estava na casa da outra tia, sua madrinha, Olga – que havia saído com a pessoa com quem era casada; ele estava só. Lia e assistia ao que podia, nos livros que encontrava, na tri-tv, na Rede. Olhava a imagem das câmeras que filmavam desde o corredor do vigésimo quinto andar onde estava, passando pelos elevadores, o hall, as calçadas, até dois, três quarteirões de distância. Lia e relia em seu micro-palm-top textos que seu pai escrevera nove, dez, onze anos antes, prevendo a revolução de 2017. Pensava: nada mais chama a atenção de ninguém.

Era normal a sucessão de guerras, desgraças, vilezas, grosserias explícitas e outras disfarçadas. Movimentos, protestos, marchas, armas de todo tipo, tudo eram somente imagens coloridas, tridimensionais, ultra-sonoras e com seu cheiro artificial presente, bastava acionar a micro-tecla smellittm.

O que fazer para chamar a atenção dos outros, ainda mais a ponto de provocar uma revolução? – perguntava-se. Não estou aqui para fazer a apologia do suicídio, nem do espetacular nem de qualquer outro – Ricardo VI continuou pensando, com seus treze anos. Um texto espetacular dura dois ou três dias, os que duram mais tempo ou é porque já duram há MUITO tempo ou é porque ativam a hiperimbecílica, sub-glândula da hipófise, descoberta em 2012 pelos sócios Handerson Suamhy & Silva Soares, endocrinologista hindu-americano e publicitário brasileiro, respectivamente. Matar alguém é banal, também, há muito tempo. Como provocar a revolução que meu pai sonhou há tanto tempo?

Noites de sábado são terríveis quando se tem treze anos e se está só, na casa de uma tia, ausente e lá não muito querida. Sentiu saudades do pai e da mãe, mas não teve coragem de conectar-se na imediato-sensorial-rede e falar com eles. Conectou-se, então, com a tia Ricardina.

- Tia, quero fazer uma revolução.

- Para quê, filho do seu pai e neto da sua avó?

- Quero realizar o sonho do meu pai. Gosto dele, do sonho dele, até mais do que de meu próprio e querido pai. Gosto da idéia da política amadora. Até as novelas chegaram ao fim – é verdade que o que entrou no lugar delas seja muito pior ainda -, mas acho que dá pra fazer alguma coisa que chame a atenção e acorde todo mundo, tia. O que é que eu faço, tia?

- Volte para Minaçu.

- Tia, o que é que eu vou fazer em Mi-na-çu?

- Sua revolução. Ou você pensa que ela vai acontecer no Rio? Nunca! Essa revolução que seu pai quer tem que acontecer de dentro pra fora; do interior para o litoral, a partir daquele lugar absurdo onde vocês moram, até chegar aqui. E não falo do centro de Minaçu, mas daqueles cantões, com cara de fim do mundo, onde mora aquela gente que até hoje prefere se isolar. Essa gente é que desistiu da novela – ou você pensa que fui eu ou sua avó?

5.30.2005

O HOMEM QUE FEZ NIETZCHE

Pode ser que você ache o Nietzche um chato, mas, creia: ele nunca existiu. Ninguém anterior ao vídeo-cassete existiu. Quem conheceu o super-oito sabe que isso é verdade. Baudelaire foi uma invenção, como Dostoievski e Tolstoi. E Machado de Assis também. Suas obras, não: são de verdade. Mas Shakespeare? Como Nietzche, nunca existiu.

Nietzche sequer foi inventado: foi feito. Um ator atreveu-se a fazer Nietzche – mais: Nietzche nu. Nietzche nu a dançar como foi encontrado, como ficou registrado, como a situação foi contada e recontada. Nada foi inventado - a não ser Nietzche. Inventado, não: feito.

O nome do ator é Fernando Eiras. Este existe: você o viu, em algum filme ou novela. Se você assistiu a Dias de Nietzche em Turim, cuidado: pode ser que você pense que Nietzche tenha existido; que tenha sido alguém de verdade e não uma ficção de suas obras; mas é o que ele foi - e nada mais.

Pode ser que você ache o filme Dias de Nietzche em Turim chato. Insista, por favor, insista, porque não é. Seja lá como for, tenha a certeza: Nietzche só existe a partir dele; porque um ator o fez. De verdade.

***

Semana passada, o blog deformou um soneto, de versos, muito mais que alexandrinos, quilométricos. Aí ele vai de novo, repartido em barras, para quem o queira reconhecer como soneto. Como soneto é coisa anterior ao vídeo-cassete, acredite: as barras são de chocolate.

Que de tudo eu sei, que o mundo continua girando em torno do sol,/ Que jornais e revistas e estações de rádio e tv publicaram aquilo tudo,/ Que gente se abraça e se mata por aí,/ Que há automóveis e cientistas que insistem que retas são curvas de raio infinito, o// Que faz o universo capotar de vez em quando,/ Que há corruptos e ditadores, alguns, inclusive, soltos, alguns, exclusive, presos,/ Que amanhã será dia e depois será noite,/ Que se chover vamos usar nossos guarda-chuvas de manhã e perdê-los à tarde,// Que se fizer sol e tivermos emprego trabalharemos e/ Que sem emprego assaltaremos um banco ou deitaremos em outro ou sentaremos naquele/ Que nos deixará esperando por uma entrevista,// Que de tudo isso eu sei, mas, hoje, só queria dar parabéns aos meus amigos/ Que vão completando cinqüenta anos, parabéns, Murilo, Dr. Murilo Drummond,/ Que eu tenha a mesma sorte de novembro próximo descobrir por e para quê tantos quês.

5.27.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO DEZ –

Prudente de Morais – o Biriba - afastara-se do governo por motivos de saúde. Era novembro de 1896. Enquanto Ricardo Coração dos Outros avançava com Olga de São Paulo a Minas (depois, Goiás), recuava a terceira expedição contra Antônio Conselheiro. De Campinas, nos trilhos da Companhia Mogyana de Estradas de Ferro e Navegação, Ricardo e Olga adentravam o país. Ao jeito do seu tempo, fincavam suas bandeiras. Permaneceram em São Paulo mais tempo que planejaram, não se sabe se por medo da turbulência em tantos cantos do país, se por descuido ou deslumbramento. Ao que consta, viveram por lá, em boa parte, das modinhas de Ricardo. Naquele período, cartas de Armando eram remetidas a um falso endereço e desconexamente respondidas por Olga, a qual, por sua vez, do endereço verdadeiro, trocava notícias com o pai (ainda vivo, ainda cúmplice).

Por falta de qualquer planejamento, Ricardo V e Rita iam permanecendo em Minaçu. Receberam a visita dos pais dele, Ricardo IV e Sérgia, quando Ricardo VI estava com dois anos. As gêmeas, irmãs mais velhas de Ricardo V, Ricardina e Olga, não foram. Depois de comentários ora pedantes ora infelizes de Sérgia sobre a cidade; de embriagado desabafo de Ricardo IV (que trouxera de presente seis garrafas de uisque doze anos, tendo sido a primeira liquidada por ele, Sérgia e Rita naquela noite – Ricardo V pouco ou nada bebe), queixando-se da dificuldade em convencer clientes seus europeus a investir mais no Brasil e a si mesmo de que existiria um caminho para a prosperidade da maioria via capitalismo; do contraponto de Sérgia – “O socialismo é a farsa com outra roupagem”; dos desapontamentos de Rita com sua estada com os avá-canoeiros – “Não consiga acrescentar nada ao meu tese”; de complementos treslouqüentes de Ricardo IV – “O mundo já foi governado por Hitler, Stalin e Mussolini, ao mesmo tempo!”; de Rita provocar o marido, sem resposta - “Ricardo sonha com discos voadores americanos invadindo Brasil”; de Ricardo VI finalmente pegar no sono e de todos se retirarem para dormir, Ricardo V foi até a rua deserta, olhou o céu, teve um sobressalto, voltou às pressas para casa e escreveu um título, em seu computador portátil: “A Revolução Brasileira de 2017 pela influência da simbiose da fidalguia européia, da nobreza africana e da estirpe ameríndia na gênese da sua plebe e a involuntária conspiração de Newton e Gauss”. (Era ainda 2005.)

Na manhã seguinte, confessou a Rita:

- Dormi deprimido. Rita respondeu-lhe:

- Estou de ressaca.

Movimentos sociais ocupavam terras produtivas e improdutivas, usinas hidrelétricas, estradas. Seu discurso era por uma reforma agrária, por respeito ao meio ambiente, pelo modelo de sociedade do Estado, para o Estado, pelo Estado. Revistas de grande circulação os acusavam de má fé e retratavam um governo Lula aos tropeços de uma conciliação entre investidores e movimentos, encurralado nos cantos do fisiologismo e acuado pelos escândalos das propinas. Descrença. Alguns jornais (de extrema-esquerda?) insinuavam sintonias entre setores militares e descontentes defensores do Estado, para o Estado, pelo Estado, cujo ícone de então era Hugo Chavez, presidente da Venezuela (que era ridicularizado pelas revistas de grande circulação).

Quando seu pai acordou, Ricardo V comentou, talvez, infantilmente:

- Papai, a América Latina continua a mesma dos tempos do Bolívar. Lembra da biografia dele, escrita pelo Moacir Werneck de Castro? “O melhor a fazer em relação à América é se afastar dela”. Lembra dos sonhos dele, Bolívar, de fundar a Grã-Colômbia?

Ricardo IV respondeu:

- Filho, estou de ressaca.

Ricardo V retirou-se, foi a folhear desordenadamente outra biografia, a de Policarpo Quaresma, na qual seus trisavós são tantas vezes citados. Descrença. Depois de tanto idealismo. Passou no corredor pela mãe (“Filho, estou de ressaca”), foi até o quarto do filho, que ainda dormia, sentou-se na cama dele e deu-lhe apaixonados beijos no rosto. O garoto afastou o pai com os braços; Ricardo voltou à sala, onde encontrou a família ainda sorvendo fumegantes cafés, cada qual olhando para pontos improváveis no espaço dentro da sala, o ar, refrigerado. Perguntou a eles:

- O uisque do meu pai é ruim? Sérgia foi quem respondeu:

- Naquela quantidade...

Ricardo IV levantou-se, aproximou-se do filho, deu-lhe um beijo desajeitado na bochecha e propôs:

- Vamos pescar? Não há um barco que possamos alugar? O que mais há para fazer aqui?

“A Revolução. Que não será nem de direita nem de esquerda, nem popular nem elitista. Nem mesmo anarquista e, para que não seja perigosamente anárquica, faremos a revolução amadora: a da política por amadores.” – Foi o que Ricardo V pensou mas não disse, naquele momento, quando Ricardo VI chegou à sala e disse:

- Mãe, tô com fome.

- E a vovó, de ressaca - Sérgia emendou.

5.23.2005

SONETO DE VINTE E QUATRO DE MAIO DE DOIS MIL E CINCO

Que de tudo eu sei, que o mundo continua girando em torno do sol,
Que jornais e revistas e estações de rádio e tv publicaram aquilo tudo,
Que gente se abraça e se mata por aí,
Que há automóveis e cientistas que insistem que retas são curvas de raio infinito, o

Que faz o universo capotar de vez em quando,
Que há corruptos e ditadores, alguns, inclusive, soltos, alguns, exclusive, presos,
Que amanhã será dia e depois será noite,
Que se chover vamos usar nossos guarda-chuvas de manhã e perdê-los à tarde,

Que se fizer sol e tivermos emprego trabalharemos e
Que sem emprego assaltaremos um banco ou deitaremos em outro ou sentaremos naquele
Que nos deixará esperando por uma entrevista,

Que de tudo isso eu sei, mas, hoje, só queria dar parabéns aos meus amigos
Que vão completando cinqüenta anos, parabéns, Murilo, Dr. Murilo Drummond,
Que eu tenha a mesma sorte de novembro próximo descobrir por e para quê tantos quês.

5.21.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO NOVE –

Ainda que tardio, telegrama da sede da FUNAI, em Brasília, endereçado ao responsável do posto de Minaçu, finalmente permitiu que Rita partisse para a terra dos avá-canoeiros, já gestando em seu ventre Ricardo Coração dos Outros VI, ao mesmo tempo em que deixava em casa – compraram uma, de madeira, com ar condicionado e bem conservada, numa vila formada anos antes pela estatal que iniciara e era sócia da primeira hidrelétrica -, o pai dele e já marido dela, Ricardo V, mergulhado menos em livros que em confusos pensamentos.

Haviam discutido com alguma agressividade sobre sociedades formadoras de sociedades. Ali, na região, quantas sociedades formavam aquela? Em Cavalcante, município com dimensões de estado e população 15 vezes menor que a da favela da Rocinha (no Rio – então com 150 mil habitantes), no centro, uma fila indicava uma das maiores fontes de renda da cidade: a do Instituto da Previdência oficial; nas proximidades, outro significativo centro de renda: a prefeitura. Carrões de donos de terra ou herdeiros de extintas minas de ouro circulavam em meio à população majoritariamente negra. Juizes, promotores, comerciantes e comerciários; trabalhadores e trabalhadores rurais completavam, muito a grosso modo, aquela sociedade, que contava ainda com mercado e pousadas, uma delas de duas mineiras, “cozinheiras de mão cheia, com um estoque de cachaças de fazer inveja a qualquer destilaria da Escócia” – como Ricardo V escreveu, brincando, ao pai, por “e-mail”. Na região rural, os Kalungas, quilombolas, periodicamente redescobertos por culpas herdadas de violências herdadas de gerações passadas; nômades habitando casebres de adobe, como outros, nativos, descendentes de sobreviventes indígenas - distantes vizinhos, separados por fazendas e estradas rurais. Paisagem exuberante. Próxima, Alto Paraíso, cidade da região mais associada à Chapada dos Veadeiros, naquele tempo, em permanente e vigilante culto a discos voadores, que diziam ser freqüentes por lá. Minaçu, com uma população de cerca de três vezes a de Cavalcante, sem o apelo de cidade histórica, também concentrava uma enorme quantidade de empregos em sua prefeitura, e possuía uma elite de pensamento formada por um padre (teólogo e filósofo, com passagens em Roma, Rio, São Paulo e Goiânia), muitos pastores, juíza, juiz, tenente, promotor, políticos e representantes das empresas ali constituídas: as duas hidrelétricas, a mineradora de amianto, o comércio. Engenheiros, sociólogos, assistentes sociais – todos e todas de sólida formação e experiência, alguns itinerantes, outros, residentes. Reassentados pelas hidrelétricas; vaqueiros, fazendeiros, adolescentes de brava, consistente e inquietante formação e postura; pistoleiros; agiotas. E em toda a região, como em qualquer lugar do mundo, prostitutas. E em toda a região, como em muitas outras do Brasil de então, diferentes formas de pobreza, de pobreza extrema, de miséria.

Um pouco mais distante, Abadiânia, pólo turístico de americanos interessados em “Intuitive Astrology” e “Healing Journeys to Brazil” (para quem não está usando a pastilha multilingüe, “to heal” quer dizer “curar”).

- Esses grupos são é projetos de ocupação territorial endêmica por seus conterrâneos – Ricardo V insinuava, provocando Rita.

- Querem ocupar o Brasil de dentro pra fora, das vísceras para a derme e a epiderme! – insistia.

- Como se explica, por exemplo, o falso e sumido turista flagrado por uma jornalista? Ora, quem, do “primeiro mundo”, estaria, de verdade, interessado em se meter nesses cantos, senão para ocupá-los? Para, quem sabe, montar uma Disney de montanhas russas na Chapada? – debochava, talvez, complexado, ou, quem sabe, só para ferir a mulher amada, fosse por saudades inconfessáveis de Maria Otávia ou porque amava seu país a ponto de não o conseguir explicar e exigir dela possíveis culposas explicações.

Rita partiu em silêncio, deixando-o só, com seus remorsos.

Quanto aos trisavós dele, Ricardo Coração dos Outros e Olga, acabaram por realizar seu devaneio inicial, de reviver as entradas e bandeiras dos tempos coloniais. Não foram pelo mar para, depois, retornar à terra; ainda que simbolicamente, arrancaram mato do chão foi refazendo roteiros daqueles tempos: do sudeste ao centro-oeste, mas sem matar um único índio. Só choraram duas mortes, no percurso: a de Armando, mais pelos sonhos que ela não viveu que pela realidade que compartilhou com ele; e a do pai dela - esta, sim, muito chorada. Ambas chegaram ao conhecimento deles por telegramas, semelhantes ao da licença para que Rita, mais de cem anos depois, pudesse conhecer de perto os avá-canoeiros.

Já da morte de Policarpo Quaresma, ninguém desta morte jamais soube. Talvez ele viva em Abadiânia – de novo idealista; eterno; e terreno.

5.17.2005

ATRASO E VANGUARDA

Se bem prestei atenção à aula que não assisti, depois da invenção do micro-ondas, uma pipoca que dispensasse óleo para estourar na panela seria a vanguarda do atraso.

Já o atraso da vanguarda são alguns blogues, como este: mídia supostamente alternativa (aliás, antes, mídia supostamente mídia) que, vira e mexe, fala de notícia velha.

Semana passada, a Veja trouxe na capa um par de pés, com uma etiqueta dizendo “volto já” pendurada num dos dedões, aludindo à vida depois da morte.

Pés simbolizam morte e vida, Severina (seu perdão e sua benção, João Cabral). A geração que chegou na Terra dez anos antes da minha, que tirou da bicicleta e do bambolê meus companheiros de berçário, Rock’n Roll e Bossa-nova, e os reinventou, nos tais anos sessenta, usava a mesma imagem da capa da Veja da semana passada (sem a etiqueta do “volto já”), só que para representar o Amor Livre – que nasceu e quase morreu pisoteado em uma poeirenta Woodstock. Pés entrelaçados ou alternados ou lado a lado ou sobrepostos embalavam Amor Livre em seu berço, de onde ele mostrava amorosos e pacifistas indicadores e dedos médios das mãos em vê, supostamente alienados de outros vês, que eram vistos a arrotar sangrentas e enganosas vitórias.

Pés de bebês são sempre gordinhos, fofinhos, parecem pãezinhos onde gostaríamos de passar uma manteiguinha sem colesterol e comê-los. Acabamos por deixar nosso canibalismo a pé e preferimos agasalhá-los, com botinhas que só as avós conseguem fazer.

Pés que sempre nos assustarão – expostos, agora, são os dorsos, não suas bases - são os pregados nos pés de uma cruz. Quantos outros pés pregados nos pés de outras cruzes, antes, ao mesmo tempo e depois daqueles, há? Quantos se encontram impedidos de andar e amar por aí ?

Pés às vezes rurais, outras, urbanos, são às vezes conexos e outras, não, à pergunta acima.

Pés sujos, infantis e adultos, desnudos, debaixo de viadutos. Por quê? Por quem? Medrosos, corremos com os nossos a buscar pelos de nossos amores, para que a eles se misturem, entrelaçados ou alternados ou lado a lado ou sobrepostos.

Pés são nossa contra-capa; nosso verso; nossa poesia. Somos bípedes: a vanguarda - mas metemos os pés pelas mãos.

As cócegas nos salvarão. Mas, se não houver quem as faça... Façamos graça.

5.13.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO OITO –

Hoje, em 2020, o Português é tão compreendido quanto o Inglês e o Chinês não porque tenha havido a equiparação econômica dos países que falam essas línguas, ou a dos principais países cujas línguas de origem sejam essas – todo mundo sabe disso. A micro-eletrônica é que superou a micro-inteligência – e hoje temos a pastilha multilingüe que implantamos em nós mesmos e em nossos bebês e estes se fazem poliglotas desde suas primeiras palavras - desde que as línguas dos diferentes países não sejam desprezadas por seus líderes ou diplomatas, claro: como seria traduzir línguas desconhecidas por opção? Como estabelecer uma linguagem comum se as originais fossem desprezadas – por opção? Pois já houve tempo em que a opção era desprezar a língua dos outros, como já houve tempo em que a opção era desprezar a língua própria.

Nem sempre a maioria se dá conta de que em Cavalcante e Minaçu, hoje em dia, também seja possível expressar-se e ser compreendido em, praticamente, qualquer idioma, porque a maioria sequer ouviu falar dessas cidades. Hoje, a pastilha multilingüe já incorpora a LUZ – Língua Universal da raZão – que não existia no tempo em que Rita desenvolvia sua pesquisa dos avá-canoeiros. Falar disso há quinze anos era fazer questão de ser chamado de tolo – para dizer o mínimo.

Em 2005, Ricardo Coração dos Outros VI estava com dois anos. Seus pais permaneciam em Minaçu, apesar dos protestos de seus avós, Sérgia e Ricardo IV e a viúva Sarah Shaw Almanendez Chermont, mãe de sua mãe, Rita - que levou seis meses e meio para conseguir uma autorização de visita aos avá-canoeiros, em parte por zelo da FUNAI, em parte por causa do sotaque (não existiam as pastilhas multilingües em nenhum lugar do mundo; e houvera um turista suspeito, recentemente, por lá – até por ser estrangeiro e turista “por lá”).

Índices que mediam o desenvolvimento humano colocavam Minaçu um pouco acima e Cavalcante um pouco abaixo da divisória entre o bem estar comum e o mal estar generalizado. Quando se media o quanto o país produzia em relação ao resto do mundo, o Brasil ficava entre os quinze primeiros de um total de cento e vinte; quando a medida era do quanto do produto da produção ficava com quantos de um mesmo país, o Brasil ficava entre os três dos mesmos cento e vinte, só que em escala inversa – com enorme quantidade de pobres e miseráveis: o país era um dos campeões da produção e simultaneamente da “burra maldade” – expressão cunhada por Ricardo V, que acabou por desenvolver sua tese “A influência da simbiose da fidalguia européia, da nobreza africana e da estirpe ameríndia na gênese da plebe brasileira” com nítidos vieses da que gostaria de ter escrito (“A sociedade brasileira e a perversa e involuntária conspiração de Newton e Gauss”). Ricardo V, aliás, livrou-se da dependência dos pais quando Rita propôs à instituição que patrocinava sua pesquisa aos avá-canoeiros que também patrocinasse a tese dele; mas com a exigência de que ele e ela se mantivessem na desconhecida Minaçu. O prazo para conclusão das pesquisas foi se renovando à medida em que seus respectivos conteúdos foram se tornando cada vez mais distantes dos objetivos contratados – porque muito mais interessantes.

Já quando Ricardo Coração dos Outros e Olga hospedaram-se como falsos marido e mulher no Hotel Bandeirantes do Arouche, tiveram muita timidez e recato um do outro, até que um calor insuportável fez com que ela, já no quarto, arrancasse de si cada pedaço de sua complexa e empoeirada e suada vestimenta, deixando à mostra peitos colossais e pontiagudos e pelos pubianos mais colossais ainda, a ponto de deixar Ricardo proporcionalmente pontiagudo, peninsular ao seu Coração dos Outros, também a arrancar seu terno amarfanhado de seu corpo mal lavado na casa de cômodos onde se hospedara até que ela chegasse a São Paulo. Não foi ali que iniciaram sua dinastia; mas o que ficou registrado daquele desequilíbrio climático e sua simbiótica apoteose bioquímica, numa empolgada caligrafia (em quartetos musicalmente pautados) de Coração dos Outros, por muitos anos, em acervo de família paulistana das mais tradicionais, hoje é acessado por quem quer que seja no idioma que for, tanto na 1012 como na TPM©:

Dos mapas não sabemos,
Como chegar às Minas,
Menos,
E já nos conhecemos

Intimamente.
Calorosamente,
Pubicamente.
Publicamente,

Que ninguém nos ouça
Essa modinha moça
Que te faço
Perdidamente.

Apaixonadamente
Teu,
O teu,
Dos Outros.

5.09.2005

A EDUCAÇÃO

Para começo de conversa, façamos a seguinte abstração: a demagogia não existe.

Muita gente, de esquerda ou direita, há muito tempo fala da importância da educação. Dão-se como exemplos a Europa, os Estados Unidos e os tigres asiáticos, para demonstrar que a educação é que faz a diferença. No Brasil, as discussões giram entre privatizar ou não a Universidade; e garantir ou não as cotas para os negros.

A primeira grande questão é: educação é custo ou investimento? Ora, se todos concordam que é investimento, porque custear o ensino básico através da privatização da Universidade? Por outro lado, porque manter a Universidade pública a custos altíssimos – custos no lugar de investimentos, porque a grande queixa é de que o Brasil está décadas atrasado, porque a Universidade – pública - é ineficiente?

As cotas são defendidas como a única forma de promover a inclusão social dos negros, marginalizados desde o tempo de seus antepassados escravos. Os que contra-atacam a idéia dizem que ela tão somente reafirmará o racismo e que a solução seria melhorar o ensino básico. Este contra-ataque, ainda que embasado por nobres intenções (qualquer intenção de inclusão é nobre – e, mais que isto, inteligente, tanto para o Capital como para o Social), reforça, querendo ou não seus defensores, a tese de que custear o ensino básico via privatização da Universidade é a solução. Mas educação é custo? Ou investimento? Por que não tornar a Universidade – pública - eficiente? Será que não interessa? A quem?

A carga tributária é alta porque a concentração de renda é alta e, como a concentração de renda é alta, a carga tributária será cada vez mais alta. E a Universidade e o ensino básico irão para as profundezas dos infernos que as religiões garantem existir, porque não haverá impostos suficientes para custear o que não é custo; é investimento, e quem investe quer retorno, e retorno só se tem quando se olha para o investimento como quem vigia seus porcos quando eles são sua subsistência; sua sobrevivência; permanecer ou não no jogo da vida – ou dele sair; dançar.

E, ao invés de imitar o modelo americano das cotas (americanos são modelo para tratar do racismo?), porque não investir de imediato em cursos de nivelamento para aqueles que vêm do ensino público, negros ou não, sem distinção de cor, a real morte do cafajeste e imbecil racismo - a ponto de os deixarem prontos para competir com os que vêm do ensino pago e de qualidade? E, a médio prazo, ensino gratuito básico competitivo, preparando gente para a Universidade pública ou privada eficiente para a empresa pública ou privada eficiente para a ciência eficiente para o País eficiente, inteligente, justo? Ou não é isso que se quer?

Nenhuma pretensão de ter razão ou ganhar qualquer discussão, mas sabe qual é o real problema? A premissa é falsa: a demagogia existe e é muito amiga da safardagem. Minha amiga, meu chapa, lamento informar:

Saímos; dançamos.

Ou, que tal vigiar nossos porcos?

5.06.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO SETE –

Faltou bom senso. Como é que Ricardo e Olga imaginaram ir para Minas ou o que dela se estendesse, pois mal sabiam da existência de Goiás (e pelo mar!), depois de Olga, com suas ditas meias verdades, dizer ao pai e ao marido que iría para São Paulo? O que fazer? O inevitável: Ricardo tomou o trem para lá. Na semana seguinte, foi a vez de Olga, que, acompanhada de um ausente Armando, compareceu à Estação da Estrada de Ferro Central do Brasil para fazer o mesmo percurso. Ricardo despediu-se em definitivo de seus vizinhos e senhorio; Olga, supostamente, temporariamente, do pai – com sinceros remorsos - e do marido – com falsíssimos remorsos.

Antes de encontrar um hotel descente para quando ela chegasse, Ricardo morou como estava habituado: alugou um cômodo em uma casa no centro, com janela para a rua, e teve mais sorte ainda – pois a casa era uma raridade no local e à época: nela, todos os dias, ele podia se lavar e, uma ou duas vezes naquela semana, até banho tomou. Juntou-se a estudantes, boêmios do jeito como ele se encontrava, ali, com seu violão e apaixonado coração, que – às vezes, chegava a acreditar – era dos outros na mesma medida que seu.

Já em 2002, Ricardo V e Rita finalmente desembarcaram em Minaçu. Era um dia de sol de rachar, como costuma ser por lá. Hospedaram-se em um hotel no centro, asseado, com apartamentos de quarto e banheiro conjugados, piso de cerâmica e chuveiro elétrico. (Fosse 1980 e não encontrariam propriamente um hotel; procurassem uma casa, teriam sorte se encontrassem uma com banheiro interno.) Saíram pelas ruas. Apesar do sol, tiveram a sensação de estar em um local escuro e, após o almoço, um grande mal estar, não da comida, mas porque era o período seco. Ficaram tontos, cansados, de nada estranharam ver homens largados em bancos, mulheres com sombrinhas. Uma cidade parada – era esta a sensação, ainda que passassem por lojas, mercados, óticas. Cerca de 33 mil habitantes, Ricardo lembrava do número que vira na Internet, a rede de então. Algumas árvores; ruas com nomes de estados (Maranhão, Bahia...); casas de alvenaria e de madeira; casebres pobres, na periferia; de vez em quando, bicicletas, mulheres pilotando pequenas motos, poucos automóveis, um caminhão. Um bar com homens em volta de mesas na calçada, muitos sem nada beber ou comer. Depois saberiam: ali, realizavam-se diversas transações: gado, agiotagem, vendetas. Uma praia na beira do reservatório da segunda hidrelétrica que havia sido recentemente inaugurada, no rio Tocantins. Um trapiche, onde pobres pescavam com linhas, amarradas em esferográficas baratas. No fim da tarde, visitaram uma feira livre. Ficaram bem impressionados com os vegetais, seus preços baixos, e chocaram-se com a exposição de carne bovina rodeada de moscas.

Na manhã seguinte, Rita não conseguiu contato com o encarregado da FUNAI – Fundação Nacional do Índio – para agendar a visita aos avá-canoeiros. No refeitório do hotel, interessaram-se pela conversa de um sociólogo sulista com uma sua colega e uma assistente social da região que foram tomar café com ele. Falavam de uma comunidade onde desenvolviam um programa de geração de renda, por conta da recente hidrelétrica. Rita e Ricardo apresentaram-se, disseram do propósito de cada um, naquela visita a Minaçu. Perguntaram se podiam acompanhá-los à tal comunidade. Não fazia muito, uma jornalista dissera àquela equipe de um falso turista estrangeiro, cujo objetivo real ela não conseguira descobrir. Apesar disso, os três acharam que, por parte daquele casal, havia sinceridade e concordaram. Rita e Ricardo V conseguiram alugar uma camionete e seguiram a da equipe, em viagem de hora e meia, boa parte em estrada de terra. Lá, um morador de uns sessenta anos indagou a um despreparado Ricardo:

- É verdade que no computador tem uma tal de intramete, e que por ela a gente consegue falar até com o Japão?

De novo no hotel, confusos com tantos contrastes, tantos cafuzos, mesmo para um nativo do Rio, com suas favelas e Ipanema, descendente de um mulato do século XIX; mesmo para uma americana da Flórida, descendente de franceses por parte de pai e espanhóis por parte de mãe, aportados havia tempo na Louisiana, Minaçu já não lhes parecia feia nem parada. Ricardo tomou banho, voltou ao quarto e, enquanto esperava pelo banho de Rita, dedilhou seu violão. Depois, namoraram e geraram Ricardo Coração dos Outros VI.

5.02.2005

MODESTA HOMENAGEM À MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

(DE UM MEMBRO DA TRIBO DOS TRASEIROS SENTADOS)


Mario Benevides, Florianópolis, Primeiro de Maio de 2005.


Eu nem li o jornal. Nem toda brasileira é bunda. Assim inicia-se este espetáculo musical, de um membro da tribo dos traseiros sentados - a dos imóveis, incapazes de ir à feira barganhar, na hora da xepa, por juros mais baixos. Nós somos as cantoras do rádio; aumenta que isso aí é rock’n roll.

O que será que será que os papas da crônica atual disseram a respeito do desrespeito presidencial? (Aliás, se você morreu na mesma semana que o Papa, melhor não comentar, mas ninguém ficou sabendo.)

Eu, você, você e eu. Fomos ofendidos, não por ter o presidente se referido aos nossos traseiros – afinal, são parte da nossa anatomia e nos servem de inspiração: homens e mulheres, especialmente do Brasil, não ficariam nada aborrecidos se nascessem com discretos retrovisores, a lhes evitar o movimento para trás com a cabeça, olhando um traseiro que vem e que passa, no doce balanço a caminho do mar.

Agora, falando sério: o Governo é o mais desgovernado endividado da nação. Os juros são altos porque alto é o déficit do Governo, eu e você, você e eu sabemos disso. Como vivemos ameaçados por uma volta da ditadura (você pensava que falaríamos da inflação?), os políticos se dão ao direito da politicagem no lugar da política. Eu, você, nós dois, sozinhos nesse bar à meia luz, sabemos muito bem que quem governa o Brasil não são os teóricos da social-democracia, tampouco idealistas marxistas, trotskistas ou seguidores de Keynes. Quem nos governa são os que pensam nos fazer pensar que se alugam para, de fato, nos alugar, tomar conta, comprar e vender.

Nosso presidente, vendido em clorofila e botox como operário vencedor, não é nada diferente do anterior, o super-acadêmico: já se esqueceram faz tempo do guarda-pó e da beca. Talvez por isso não consigam distinguir o que é derrotado pelas contas do que delas faz pouco.

E a gente ainda paga por isso. Por exemplo, por embates e interesses de chefes de tribo. É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte - e “isso” custa muito caro.

Ponha uma pouco de amor numa cadência e verá que ninguém no mundo vence a beleza que tem num samba não. Se você vier pro que der e vier, lembrar-se que quem espera nunca alcança e que quem sabe faz a hora, aí... A gente faz um país.

Que país é esse?

Por exemplo: hoje vai ter festa no apê e vai rolar bunda-lelê.

Ou não.

4.30.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO SEIS –

Ricardo Coração dos Outros mirava a enseada de Botafogo, numa tarde de sol estupendo. Trazia o violão numa das mãos como se o instrumento fosse um traste e o largava em pé, no chão, para passar um lenço já suado na testa. Esperava por Olga. Martelava-lhe a cabeça seu arroubo de suposta coragem (“Vamos por aí, desfraldar bandeiras, arrancar mato do chão...”) e perguntava-se: “Arrancar mato de que chão? Para onde ir com aquela insana, que quer dar as costas ao marido e ao mundo?”

Foi quando Olga lhe tocou o braço (como ele contou muito depois a seu filho, e este, a uma filha, e assim foi, de geração em geração, até que tudo se pudesse contar agora, em 2020). Ricardo sentiu o coração a lhe dar socos no peito e a ele dirigiu-se em pensamento: “Que pena que não és dos outros de verdade!” .

- Falou com teu pai? Que foi que disseste a ele? – perguntou.

- A verdade – ela disse. E completou: - Uma parte da verdade.

- Uma parte? Como é que se conta só uma parte da verdade?

- Disse a meu pai que preciso ir a São Paulo, só, por uns dias, para não morrer de tédio.

- É para São Paulo que vamos? – perguntou-lhe Ricardo, provocando nela um desapontamento:

- Pensei que tinhas uma sugestão.

- Não tenho a menor idéia! – disparou Coração dos Outros. Aliviou-se quando Olga, docemente, disse assim:

- Nem eu. Resolveremos isso depois.

Ricardo pegou do violão e o dedilhou, com suas longas e asseadas unhas. Um belo dedilhado, ainda que rápido. Nervoso, depositou outra vez o instrumento no chão, usou do lenço outra vez numa tentativa inútil de enxugar o suor das mãos e, enquanto procurava por uma inexistente e indesejada testemunha que os pudesse (e quisesse) ouvir, quis saber, quase sussurrando:

- E teu marido? Já falaste com ele? O que disseste a ele? Também só uma parte da verdade?

- Disse que precisava ir de encontro a familiares de meu pai, que acabaram de chegar a São Paulo.

- Eles existem? Estão mesmo por lá?

- Não, combinei esse enredo com meu pai; meu cúmplice, ainda que só conhecendo parte da verdade. Armando me perguntou, “Teu pai vai contigo?”; eu disse que não, que meu pai anda muito cansado. E isso, infelizmente, é verdade: a saúde de meu pai me preocupa.

- Queres desistir? – perguntou Ricardo.

- Não. Com muito remorso é que vou, mas preciso ir, para longe de Armando e desta vida insossa. Não pretendo ser mais uma a ir morrendo, minguando, magra e infeliz.

Ricardo teve que tomar coragem e inspirar fundo:

- Olga, de que viveremos? Do meu violão? Tenho parcas economias... Podíamos ir para o Sul, para perto...

- Não é momento de ir para o Sul. Quanto ao dinheiro... Meu pai me deu algum.

- Seu pai? E por que não São Paulo?

- Quero ir mais longe.

- Aonde???

- Em busca do ouro! Gostei tanto quando me disseste que iríamos arrancar mato do chão!

- Minas, então? Haverá ouro ainda por lá? Ricardo inspirou o ar da Baía profundamente, o violão a lhe pertencer novamente, e arriscou: - Quem sabe não seria melhor o litoral, Salvador, Recife, ares marinhos a nos benzer diariamente?

- Vamos em busca do ouro pelo litoral! – ela sonhou e falou e redundou, com a voz e os braços e as mãos: - Depois de aportarmos, entraremos terra adentro, cidades adentro, até encontrarmos mato para arrancar do chão. Pode ser em busca do ouro ou da própria terra. Mas que seja da vida. Em busca da vida.

Ricardo tomou do violão e, desta vez, emprestou versos ao seu dedilhado:

Adorável insana,
Apaixonei-me por ti.
Terás saudades
De quem nasceste;
De mim já sei
Por quem foi que nasci.

4.25.2005

MACHO E FÊMEA

Rosa é danada (e não me refiro à governadora do Rio): sempre aparenta dez anos menos dos que tem e, portanto, pelo menos quinze menos que eu. Pois que Rosa me veio com um desafio: - Fale de homem e de mulher.

A primeira definição que me ocorre é a bíblica: “Macho e Fêmea Deus os criou.”. Somos macho e fêmea da mesma raça: a desgraçada; a divina; a humana. Acho pouco provável que sejamos tão diferentes como andam dizendo. Mas, se o somos, os franceses já acertaram a conta faz tempo: - Viva a diferença.

Fiz um destes testes que, recentemente, foram publicados na imprensa sobre as descobertas – ditas científicas - das tais diferenças. Pois é: ao invés de cavalo, deu zebra. Meu cérebro é, se ele não me falha na sua porção de memória, cerca de 80% feminino. Ih, rapá! Olha o Mario se entregando! Pois me entrego sem susto: não troco lâmpada nem pneu; gosto de poesia; só não sei dizer “chiq-quérrrrrrrrrrrrrrrri-ma”.

Homens são protocolares. “E aí, meu irmão? Tudo bem?” – um pergunta. O outro responde: “Tudo bem. E aí?”. Já um diálogo entre duas mulheres e você não será capaz de captar quem pergunta e quem responde: “E aí, tudo bem?, tudo bem, e você, bem, querida, saudades de você, eu também, lin-da essa sua blusa!, meu Deus, você está chiq-quérrrrrrrrrrrrrrrri-ma!, viu a cotação da bolsa, menina, o que é isso??? (Cuidado: “isso” pode ser a referida cotação, o Brad Pit ou uma bunda desproporcional.)

Talvez porque meu teste deu zebra, o fato é que, aqui em casa, o único defeito inadmissível recai sobre ela (que come rúcula): o bom senso. Por mim, moraríamos numa praia, iríamos trabalhar de bicicleta, à noite, beberíamos uns muitos e bons chopes, comeríamos bifes, batatas fritas, ostras, pipoca, peixadas e, principalmente, moscas: ainda não sei o nome do novo Papa.

E daí? E você com isso? Pois é: gente como eu se mete a falar daquilo que não interessa. Fazer o quê? Por exemplo, este negócio de casamento entre homossexuais. Você é a favor ou contra? Quer saber minha opinião? Não? Então tá: sou a favor. Os dez mandamentos, se não me falha a memória de novo e como não sofro de bom senso, são dois: Não matarás; não roubarás. (Não venha você me dizer que se a mulher do próximo for a Luma ou a Gisele ou a Pitanga que a não desejará, tá bom?) Senão, preste atenção. Se homossexualismo é questão moral – vergonha! -, você só não é porque tem... vergonha!

Não perca seu tempo conjeturando, comparando, sofrendo por causa da diferença.

E perceba: a arte vem primeiro; a ciência, depois - e tão somente a confirmá-la.

Você pensa diferente?

Viva a diferença.

4.23.2005

A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: UM BRASIL QUE LIMA BARRETO IMAGINOU E QUASE ADIVINHOU

Romance Inédito de Mario Benevides - Brasil, 2005

- CAPÍTULO CINCO –

Havia vôos “a jato” de uma hora do Rio a Brasília e, de lá, pegava-se um outro, de mesma duração, em um monomotor “Caravan”.

A vida, às vezes, é um cotovelo. Foi o que disse a Ricardo V o funcionário da INFRAERO, estatal de infra-estrutura aeroportuária, no aeroporto de Brasília, quando Rita atendeu seu celular e gritou “This is not true!”.

Ao telefone, sua mãe, lá de Orlando, disse a ela:

- Seu pai morreu. Levantou-se de madrugada dizendo ter sonhado que remava fugindo de dragões e por isso tinha dores insuportáveis no ombro. Os dragões, minha filha, foram mais fortes.

Foi assim que a viagem Rio-Minaçu ganhou inesperada e longa escala, em Orlando.

Isto o aborrecia, mas Ricardo V dependia dos pais. Não houvera nem monografia nem violão capaz de lhe dar um sopro de capital para empreender a viagem até Minaçu, que diria com aquela escala. Mas seu visto – como era exigido, na época - estava em plena validade: por conta de um de seus trabalhos acadêmicos, estivera havia pouco nos Estados Unidos.

Sérgia gostou da idéia e Ricardo IV concordou: Ricardo V acompanhou a namorada a Orlando para os funerais do pai dela, católico, descendente de franceses que, muito tempo antes, haviam desembarcado na Lousiana. Em 1982 mudaram-se de Nova Orleans, porque a empresa onde ele trabalhava abrira um centro de controle de termelétricas em Orlando.

Do funeral e da tristeza alheia não se falará – e sim de uma visita que Ricardo fez, sozinho, a alguns dos parques da Disney e da Universal. Rita garante que foi dali que surgiram várias das aflições que se tornaram teses de Ricardo V e foram à discussão no cenário político brasileiro. Até hoje, em 2020, parece leviandade, bobagem ou coisa pior a mais tênue sugestão de que parques temáticos norte-americanos tenham influenciado a política brasileira. Mas são detalhes assim, a esse ponto constrangedores, que nenhuma projeção macro-sócio-econômica poderia jamais captar.

A psicopedagoga Sérgia Jacobina Neves, casada com o advogado Ricardo Coração dos Outros IV, freqüentemente, entre uma garfada e outra de abacaxi, na sobremesa dos jantares em família, com o olhar sempre embevecido pelas primogênitas e gêmeas Ricardina e Olga, provocava sua família com a seguinte pergunta:

- Por que todos são bem educados no metrô? Por que a mesma pessoa que pega o trem da Central e faz surfe no teto do trem ou quebra o que resta da janela do trem, ao chegar à plataforma do metrô vira bem-educada, civilizada, polida, incapaz de jogar ponta de cigarro no chão – alíás, sequer de acender um cigarro? Ficava orgulhosa quando uma das gêmeas ou seu costumeiramente calado filho Ricardo V respondia:

- Porque é bem tratado.

Nas filas dos estacionamentos e brinquedos dos parques temáticos de Orlando, Ricardo ficou estupefato: bastava que o guia dissesse “ O primeiro deve se deslocar até ocupar o último lugar vago”, que todos – e eram uma multidão! – obedeciam. E de bom grado. E lembrou-se da gravação das estações do metrô do Rio: “Não fume. Não jogue lixo no chão. Não ultrapasse a faixa amarela.” Lembrou-se do “ORDEM E PROGRESSO” da bandeira brasileira e da fama do brasileiro de mal educado, desrespeitador, metido a esperto - o da “Lei do Gerson”: que, como seu pai lhe contou, foi craque de futebol dos anos sessenta (do século XX) que teve a infelicidade (ou felicidade?) de gravar um comercial de televisão, onde dizia “Leve vantagem você também; leve Vila Rica.” Publicitários são muito, muito espertos. Foi aí que Ricardo deu um salto no barco que simulava uma viagem por entre tubarões e a guia chegou a pensar que ele pensasse que os tubarões fossem de verdade. Ricardo falou, em alto e bom som, tendo sido exclusivamente compreendido (não entendido) por outros brasileiros que estavam no barco:

- Se a política se preocupasse com a psicologia mais do que com a sociologia, a população, que é feita de indivíduos, seria muito mais feliz.

E completou:

- Ah, se a política não fosse feita por marqueteiros e políticos de plantão!

Aí sim: foi compreendido, entendido e aplaudido, por todos os presentes.