ROMA, um nome de mulher: este, o título do filme no Brasil. Na versão original, ROMA. Roma é portenha, descendente de italianos, mulher de um boêmio, de carne e osso, ela, professora de piano, mãe libertária de um futuro escritor, que se muda para a Espanha nos anos 70, ditaduras militares em curso na América do Sul. O que se conta é o passado, - a parte mais especial da vida do escritor em sua Buenos Aires, quando, já há muito radicado em Madrid, tem mais do que os seus sessenta anos, é homem difícil, rabugento - e bom. Eles existem; como existem belos filmes.
Dizer mais, não digo, porque não quero contar o filme; porque não tenho mais nada a dizer, a não ser que assisti a um belo filme, com excelente elenco, roteiro inteligente, passada sensível, espanhol bem falado, castiço e portenho, diferenças sutilmente sublinhadas.
Em DVD.
Buenas noches.
O DIÁRIO DO MARIO contém crônicas e poemas de Mario Benevides, além do embrião do romance A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO, do mesmo autor, publicado em 2007 pela Design Editora, aqui no blog com o título A DINASTIA DE RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS.
5.13.2008
5.11.2008
DIAS DAS MÃES
Pois é, meu blog amigo,
Meu Rio antigo,
Faz tempo não nos falamos.
Permaneço aqui, nesta ilha imensa,
Onde o mar
Felizmente
Imenso
Permanece.
Anoitece.
Hoje – agora - é noite de domingo.
Por isso,
Rimo;
Remo
Contra a maré
Do frio,
Do inverno.
Quando rima é o que eu quero,
Rima é o que não me vem.
Hoje
É dia das mães.
Almoçamos fora,
Fomos a um restaurante -
Privilégio, blog amigo,
Saudades, Rio antigo.
Rio moderno
Da Rua do Lavradio
Rio
Das soluções
Tardio.
Vencido,
Rio,
Vencido?
Não pode ser,
Hoje
É domingo
É dia das mães,
Rio,
Você, Rio, minha mãe.
E meu pai.
Florianópolis,
Deus te abençoe,
Te faça percorrer caminhos
Que te levem à semelhança com o Rio
Só naquilo
Que o Rio tem de bom.
Fale mal do Rio,
Florianópolis,
Mas nos faça um favor:
Faça diferente.
Não empilhe pobre no morro,
Não seja assim tão brasileira
De mera observação.
Seja brasileira
De criatividade.
Invente-se a si,
Florianópolis,
Reinventando até o Rio,
Reinventando até o Brasil.
Rio,
Florianópolis,
Brasil,
Façam-nos o favor
Do nosso renascimento:
Afinal
Hoje
É dia das mães.
Queremos renascer
No colo amado.
No lugar da rima,
O impensável:
O mar
Moldura
Da dignidade
Individual
E coletiva.
Hoje -
É dia das mães.
Meu Rio antigo,
Faz tempo não nos falamos.
Permaneço aqui, nesta ilha imensa,
Onde o mar
Felizmente
Imenso
Permanece.
Anoitece.
Hoje – agora - é noite de domingo.
Por isso,
Rimo;
Remo
Contra a maré
Do frio,
Do inverno.
Quando rima é o que eu quero,
Rima é o que não me vem.
Hoje
É dia das mães.
Almoçamos fora,
Fomos a um restaurante -
Privilégio, blog amigo,
Saudades, Rio antigo.
Rio moderno
Da Rua do Lavradio
Rio
Das soluções
Tardio.
Vencido,
Rio,
Vencido?
Não pode ser,
Hoje
É domingo
É dia das mães,
Rio,
Você, Rio, minha mãe.
E meu pai.
Florianópolis,
Deus te abençoe,
Te faça percorrer caminhos
Que te levem à semelhança com o Rio
Só naquilo
Que o Rio tem de bom.
Fale mal do Rio,
Florianópolis,
Mas nos faça um favor:
Faça diferente.
Não empilhe pobre no morro,
Não seja assim tão brasileira
De mera observação.
Seja brasileira
De criatividade.
Invente-se a si,
Florianópolis,
Reinventando até o Rio,
Reinventando até o Brasil.
Rio,
Florianópolis,
Brasil,
Façam-nos o favor
Do nosso renascimento:
Afinal
Hoje
É dia das mães.
Queremos renascer
No colo amado.
No lugar da rima,
O impensável:
O mar
Moldura
Da dignidade
Individual
E coletiva.
Hoje -
É dia das mães.
5.01.2008
POEMELHO NO ESPELHO
Quem vence a inflação
A recessão
Toda porcaria
Quem fica sem emprego
E vota
Ou não vota
Quem suporta
Quem agüenta
Principalmente a hipocrisia
A demagogia
Quem vai à guerra
Morre por Deus
Ou a Democracia
As estupradas
Os violentados
Os de pernas arrancadas
Os de barriga vazia
Os que assistem à TV
Todos
Que aplaudem
Vitórias suas
Postas
Nas estatísticas,
Nos índices,
Nos discursos,
Pode ser que um dia
Bem cedo acordem
Como fazem todo dia
Se olhem no espelho e digam
- Cada um às suas próprias remelas -
Todas essas vitórias são
Foram
Minhas.
A recessão
Toda porcaria
Quem fica sem emprego
E vota
Ou não vota
Quem suporta
Quem agüenta
Principalmente a hipocrisia
A demagogia
Quem vai à guerra
Morre por Deus
Ou a Democracia
As estupradas
Os violentados
Os de pernas arrancadas
Os de barriga vazia
Os que assistem à TV
Todos
Que aplaudem
Vitórias suas
Postas
Nas estatísticas,
Nos índices,
Nos discursos,
Pode ser que um dia
Bem cedo acordem
Como fazem todo dia
Se olhem no espelho e digam
- Cada um às suas próprias remelas -
Todas essas vitórias são
Foram
Minhas.
4.27.2008
CRÔNICA DE UM CASAMENTO – E DE PRIVILÉGIOS
Começa que, na casa do Luiz, almocei um estrogonofe preparado pela Beatriz, só comparável ao da Lygia, da Tereza e da Glorinha. Saber quem são essas personagens, como outras aqui citadas, é privilégio de poucos – e os que não o têm, claro que têm o de conhecer outras que nós não conhecemos; portanto, deu empate: vamos em frente. (Algo que anda esquecido por aí: personagem é feminina, como imagem, reportagem...)
A igreja foi a da Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Rio de Janeiro. É mesmo de se lamentar que o descaso das – ditas - autoridades vá a tal ponto de não perceberem que a geografia privilegiada mereça reverência, respeito e cuidado - o exato contrário de pobreza, falta de educação, crime e dengue. Mas nem de estrogonofe nem de dengue, muito menos, de malditas autoridades é do que se fala aqui – e, sim, do casamento da Luciana e do Ricardo. E de certos privilégios. Por exemplo, o da companhia da avó da noiva, Dona Mariana, e seus 80 e alguns e generosos anos - para com os outros, sempre. Na casa dela, há uma varanda onde... Fica pra outra, esta, imensa de histórias, varanda.
Chegando na Glória do Outeiro - moro em Florianópolis -, justifiquei a ausência da minha mulher e da minha filha e comentei que a primeira comprou um CD do Zeca Pagodinho e, ao invés de ouvi-lo alto e bom som no aparelho da sala, preferiu tocá-lo num desses portáteis, só encontráveis atualmente em fundos de armários e feiras suspeitas. Fui mal interpretado e fiz questão de deixar claro: eu e ela gostamos muito do Zeca Pagodinho – e eu, mais ainda do que ela, de torresmo e farofa.
Privilégios.
Antes da noiva chegar, começou aquilo que, se fosse um filme, seria chamado de trilha sonora. Eu estava ao lado do meu irmão – o Luiz – e da Gisele, a mulher do pai da noiva – que disse assim: “É Vivaldi, não?”. Eu respondi: “Sim - as 3 estações”. Meu irmão, prontamente, me corrigiu: “Mario, as estações são 4”. Eu justifiquei: “Os aparelhos lá de casa só pegam 3”.
Chegou a mãe da noiva, bonita, e eu a pensar, mas este meu amigo André, pai da noiva, é mesmo um privilegiado, de ex e atual mulher tão lindas. Não vou citar aqui tantas mais personagens e suas inconfundíveis personalidades, porque não caberiam – na crônica, sim, caberiam, mas, na minha memória, falta um pouquinho mais de espaço (o de uma varanda, mais precisamente).
A noiva chegou. Linda, sim, senhoras e senhores. Seu pai, meu amigo de quase infância, nervoso, deu duas tragadas em um cigarro e o engoliu aceso. Um padre simpático, que, segundo o Luiz me disse, ultimamente vem freqüentando tv e arredores, inclusive encontros onde ninguém entende a língua do outro e, por isso, todos se comunicam em Latim, mencionou a data da fundação da Igreja e comentou que, no apagão energético mais recente – não confundi-lo com o ainda mais recente aéreo, mesmo que este fosse, como se verá, pertinente -, disse que a luz do Redentor, naquele apagão energético, ficou parcialmente acesa por ter a estátua fincada no Corcovado se tornado, já tão cheia de significados, também uma referência para os pilotos de aviões. Depois, desculpou-se: “Eu sei que o departamento, aqui, é outro”.
Explique-se, para quem não estava lá: o noivo, Ricardo, é oficial da Marinha.
E poeta.
Quem pensa que este negócio de engenheiro se meter a escrever poesia tem alguma coisa de interessante, pode embainhar a espada: Ricardo, com seu uniforme azul-marinho, cheio de botões dourados, o sotaque devidamente usurpado da corte portuguesa e melhorado, recitou belo poema de sua autoria para sua amada, enquanto corria solto e bem servido coquetel.
Antes, porém, Billy, cunhado do André, cumprimentou, ainda no pátio da Igreja, o Rubens. Este, ligeiramente indignado, perguntou ao Billy: “Por que você não falou com a Henriette?”. Billy, prontamente, respondeu: “Rapaz, eu pensei que ela fosse uma desconhecida japonesa”. E, pensando bem, Billy estava certo: Henriette, namorada do Rubens, é, de fato, uma gueixa. Naturalmente que Sartre e Simone de Beauvoir estranhariam: “Uma gueixa francesa, como?”. Ocorre que, como bem Simone disse, todos os homens são mortais, - muitos deles, inclusive, flamenguistas - e ele, Sartre, muito gostaria de ter dito, uma gueixa que se chama Henriette é a prova máxima do existencialismo.
Assim partimos, da Igreja para a recepção, na OAB – Ordem dos Advogados do Brasil -, eu, Luiz, Rubens e sua gueixa francesa. Lá chegando, serviço de primeira, Erasmo e Fátima (irmã do André) a me cobrar, “Como você não trouxe a Rosa e a Maria Luiza?”, e eu, de novo, a tentar explicar que somos escravos de agendas, trabalho e milhagens, Luiza, mulher do Antônio Júlio (irmão do André), a fazer campanha para presidente, não me lembro se do Jóquei ou da República e, pensando bem, não faz muita diferença, já que o desta já tem seu terceiro inconstitucional mandato garantido, a depender apenas de uma inconstitucional alteração da Constituição, Lúcia (irmã do André), sem disfarçar sua expressão de mais para Santos Dumont que Congonhas, Marina (irmã – adivinha – do André) e seu marido Billy a dançar – e acho que a música era dos Beatles - Charles Aznavour – que o Billy garante ter encontrado no Rio Sul, e, mais, que não o confundiu com japonês nem japonesa -, André, pai da noiva, aproximou-se de mim, do Murilo e do Rubens, Gisele, mulher do André, nos acompanhando. O filho do Murilo veio com a namorada: ele, surfista, futuro engenheiro de produção, e ela, futura arquiteta, espaço que te quero humano, assim brindei e brinquei com eles.
Murilo bebericava seu uisque, e sua mulher, loura de olhos azuis, Eliana, depois de me dizer que eu ganhei na loteria ao me casar com a Rosa, e eu, como sempre, concordei, apenas ainda não fui buscar meu prêmio na CEF por ser um tanto distraído, Eliana disse ao marido Murilo que moderasse nas doses do Grant’s. Eu disse a ela o que já digo faz tempo à minha loteria, digo, mulher, Rosa: “Beba o necessário para não perceber o que seu marido bebe e o suficiente para depois dirigir nosso automóvel”.
Neste exato instante, Antônio Júlio, o irmão mais velho do André, fez questão de tirar uma foto nossa: de mim, André, Rubens e Murilo, amigos de mais de 40 anos – de amizade: de idade, passamos pouco mais de 10 desse número. Sentindo falta do Venâncio, que mora em São Luiz do Maranhão e não veio, eu disse: “Sou o Dartagnan dos 4 mosqueteiros”. Meu irmão, mais uma vez, me corrigiu: “Mario, os mosqueteiros eram 3”. Eu expliquei: “Lá em casa, os aparelhos pegam 4”.
Quem duvidar de tudo isso, que pergunte ao general Grant’s. Aliás, general, não: almirante. Almirante Grant’s.
Felicidades e agradecimentos por tantos privilégios aos noivos,
Mario.
A igreja foi a da Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Rio de Janeiro. É mesmo de se lamentar que o descaso das – ditas - autoridades vá a tal ponto de não perceberem que a geografia privilegiada mereça reverência, respeito e cuidado - o exato contrário de pobreza, falta de educação, crime e dengue. Mas nem de estrogonofe nem de dengue, muito menos, de malditas autoridades é do que se fala aqui – e, sim, do casamento da Luciana e do Ricardo. E de certos privilégios. Por exemplo, o da companhia da avó da noiva, Dona Mariana, e seus 80 e alguns e generosos anos - para com os outros, sempre. Na casa dela, há uma varanda onde... Fica pra outra, esta, imensa de histórias, varanda.
Chegando na Glória do Outeiro - moro em Florianópolis -, justifiquei a ausência da minha mulher e da minha filha e comentei que a primeira comprou um CD do Zeca Pagodinho e, ao invés de ouvi-lo alto e bom som no aparelho da sala, preferiu tocá-lo num desses portáteis, só encontráveis atualmente em fundos de armários e feiras suspeitas. Fui mal interpretado e fiz questão de deixar claro: eu e ela gostamos muito do Zeca Pagodinho – e eu, mais ainda do que ela, de torresmo e farofa.
Privilégios.
Antes da noiva chegar, começou aquilo que, se fosse um filme, seria chamado de trilha sonora. Eu estava ao lado do meu irmão – o Luiz – e da Gisele, a mulher do pai da noiva – que disse assim: “É Vivaldi, não?”. Eu respondi: “Sim - as 3 estações”. Meu irmão, prontamente, me corrigiu: “Mario, as estações são 4”. Eu justifiquei: “Os aparelhos lá de casa só pegam 3”.
Chegou a mãe da noiva, bonita, e eu a pensar, mas este meu amigo André, pai da noiva, é mesmo um privilegiado, de ex e atual mulher tão lindas. Não vou citar aqui tantas mais personagens e suas inconfundíveis personalidades, porque não caberiam – na crônica, sim, caberiam, mas, na minha memória, falta um pouquinho mais de espaço (o de uma varanda, mais precisamente).
A noiva chegou. Linda, sim, senhoras e senhores. Seu pai, meu amigo de quase infância, nervoso, deu duas tragadas em um cigarro e o engoliu aceso. Um padre simpático, que, segundo o Luiz me disse, ultimamente vem freqüentando tv e arredores, inclusive encontros onde ninguém entende a língua do outro e, por isso, todos se comunicam em Latim, mencionou a data da fundação da Igreja e comentou que, no apagão energético mais recente – não confundi-lo com o ainda mais recente aéreo, mesmo que este fosse, como se verá, pertinente -, disse que a luz do Redentor, naquele apagão energético, ficou parcialmente acesa por ter a estátua fincada no Corcovado se tornado, já tão cheia de significados, também uma referência para os pilotos de aviões. Depois, desculpou-se: “Eu sei que o departamento, aqui, é outro”.
Explique-se, para quem não estava lá: o noivo, Ricardo, é oficial da Marinha.
E poeta.
Quem pensa que este negócio de engenheiro se meter a escrever poesia tem alguma coisa de interessante, pode embainhar a espada: Ricardo, com seu uniforme azul-marinho, cheio de botões dourados, o sotaque devidamente usurpado da corte portuguesa e melhorado, recitou belo poema de sua autoria para sua amada, enquanto corria solto e bem servido coquetel.
Antes, porém, Billy, cunhado do André, cumprimentou, ainda no pátio da Igreja, o Rubens. Este, ligeiramente indignado, perguntou ao Billy: “Por que você não falou com a Henriette?”. Billy, prontamente, respondeu: “Rapaz, eu pensei que ela fosse uma desconhecida japonesa”. E, pensando bem, Billy estava certo: Henriette, namorada do Rubens, é, de fato, uma gueixa. Naturalmente que Sartre e Simone de Beauvoir estranhariam: “Uma gueixa francesa, como?”. Ocorre que, como bem Simone disse, todos os homens são mortais, - muitos deles, inclusive, flamenguistas - e ele, Sartre, muito gostaria de ter dito, uma gueixa que se chama Henriette é a prova máxima do existencialismo.
Assim partimos, da Igreja para a recepção, na OAB – Ordem dos Advogados do Brasil -, eu, Luiz, Rubens e sua gueixa francesa. Lá chegando, serviço de primeira, Erasmo e Fátima (irmã do André) a me cobrar, “Como você não trouxe a Rosa e a Maria Luiza?”, e eu, de novo, a tentar explicar que somos escravos de agendas, trabalho e milhagens, Luiza, mulher do Antônio Júlio (irmão do André), a fazer campanha para presidente, não me lembro se do Jóquei ou da República e, pensando bem, não faz muita diferença, já que o desta já tem seu terceiro inconstitucional mandato garantido, a depender apenas de uma inconstitucional alteração da Constituição, Lúcia (irmã do André), sem disfarçar sua expressão de mais para Santos Dumont que Congonhas, Marina (irmã – adivinha – do André) e seu marido Billy a dançar – e acho que a música era dos Beatles - Charles Aznavour – que o Billy garante ter encontrado no Rio Sul, e, mais, que não o confundiu com japonês nem japonesa -, André, pai da noiva, aproximou-se de mim, do Murilo e do Rubens, Gisele, mulher do André, nos acompanhando. O filho do Murilo veio com a namorada: ele, surfista, futuro engenheiro de produção, e ela, futura arquiteta, espaço que te quero humano, assim brindei e brinquei com eles.
Murilo bebericava seu uisque, e sua mulher, loura de olhos azuis, Eliana, depois de me dizer que eu ganhei na loteria ao me casar com a Rosa, e eu, como sempre, concordei, apenas ainda não fui buscar meu prêmio na CEF por ser um tanto distraído, Eliana disse ao marido Murilo que moderasse nas doses do Grant’s. Eu disse a ela o que já digo faz tempo à minha loteria, digo, mulher, Rosa: “Beba o necessário para não perceber o que seu marido bebe e o suficiente para depois dirigir nosso automóvel”.
Neste exato instante, Antônio Júlio, o irmão mais velho do André, fez questão de tirar uma foto nossa: de mim, André, Rubens e Murilo, amigos de mais de 40 anos – de amizade: de idade, passamos pouco mais de 10 desse número. Sentindo falta do Venâncio, que mora em São Luiz do Maranhão e não veio, eu disse: “Sou o Dartagnan dos 4 mosqueteiros”. Meu irmão, mais uma vez, me corrigiu: “Mario, os mosqueteiros eram 3”. Eu expliquei: “Lá em casa, os aparelhos pegam 4”.
Quem duvidar de tudo isso, que pergunte ao general Grant’s. Aliás, general, não: almirante. Almirante Grant’s.
Felicidades e agradecimentos por tantos privilégios aos noivos,
Mario.
4.18.2008
A HISTÓRIA DE UM PASSARINHO
Ela gritava demais, interferiu, na hora errada. Nós não estávamos nos entendendo, gritávamos um com o outro, e ela chorava, gritava, berrava. Insuportável. E aí você perdeu a cabeça, o que foi aquilo, você, suas mãos, seus pulsos retesados, sua unhas? Nunca vi você assim. Ela parou de gritar, está esquisita, o que fazer? Agora, ela ficou quietinha, finalmente. Quietinha. Um buraco, vamos, joga ela, joga lá embaixo, alguém jogou ela daqui de cima, foi ela que se jogou. Ela caiu. Alguém entrou aqui quando ninguém estava, foi isso o que aconteceu. O supermercado, alguém fez isso, não fomos nós. A mãe dela, olha a mãe dela, na tv. Um monte de gente, na tv. Não fomos nós. Não fomos. Nós.
4.17.2008
TRINCHEIRA
Quieto.
Fique
Quieto.
Permaneça
Quieto
Absoluto
Silêncio
Absoluta
Inoperância
Quieto.
A vida às vezes é uma trincheira.
O inimigo à espreita
Somente espera
Que você se mexa.
Quieto
Permaneça
Quieto.
Geralmente as granadas
São feitas de merda;
Não vá se sujar à toa.
Fique
Quieto.
Permaneça
Quieto
Absoluto
Silêncio
Absoluta
Inoperância
Quieto.
A vida às vezes é uma trincheira.
O inimigo à espreita
Somente espera
Que você se mexa.
Quieto
Permaneça
Quieto.
Geralmente as granadas
São feitas de merda;
Não vá se sujar à toa.
AGORA, ANTIGAMENTE
E porque somos dois solitários
E nada sabemos um do outro
Porque me dás alívio
Só ao te perceber daqui de longe
Porque não és a lua
E com ela penso rivalizas
Porque te imagino
Imaginando a mim
Tão longe
Tendo o vento noturno como único amigo
Solitário amigo feito nós dois
Fico antigo desse jeito
Moderno tão somente
Porque te vejo de um apartamento
Casa em cima de casa
Vênus planeta feminino
Fingindo-se de estrela
Solitária estrela
Te agradeço e te venero
Boa noite
Solitária amiga
Que se finge de planeta.
E nada sabemos um do outro
Porque me dás alívio
Só ao te perceber daqui de longe
Porque não és a lua
E com ela penso rivalizas
Porque te imagino
Imaginando a mim
Tão longe
Tendo o vento noturno como único amigo
Solitário amigo feito nós dois
Fico antigo desse jeito
Moderno tão somente
Porque te vejo de um apartamento
Casa em cima de casa
Vênus planeta feminino
Fingindo-se de estrela
Solitária estrela
Te agradeço e te venero
Boa noite
Solitária amiga
Que se finge de planeta.
4.02.2008
ENTRANDO NA POLÍTICA
Entrar na Política é fácil. Há três portas de entrada: uma à esquerda, outra à direita e uma bem no meio das duas, onde está escrito “CENTRO”.
Escolhida qualquer uma das portas, é acessado um corredor que inevitavelmente leva o ingressante a um salão oval – que não deve ser confundido com aquele que fica em Washington: estamos em Brasília.
No salão oval, há uma porta onde se lê “COZINHA”. O cheiro de pizza é inconfundível. Numa segunda e contígua porta, lê-se “BANHEIRO”. É necessária alguma atenção ao transpô-la, pois só lá dentro é que é feita a tradicional sub-divisão “MASCULINO” e “FEMININO”. Porém, não é este o maior cuidado a ser tomado: é que há uma terceira porta lá dentro, onde o cheiro de certos projetos é, tal e qual o da pizza da cozinha, inconfundível.
Retornando-se ao salão oval, a porta “CPI” apresenta invariavelmente espetáculos de comédia pastelão, onde o palhaço, também invariavelmente, é quem assiste. Ao lado, uma passagem secreta leva a um esconderijo onde somente portadores de um crachá especial podem ter acesso. Ao que tudo indica, dependerá somente de uma e somente uma característica que o pretendente ao acesso a esse ambiente deverá ter - só que esta nunca é explicitamente revelada. Assim, caso o ingressante ainda não tenha obtido antecipadamente de alguns já tradicionais freqüentadores o referido crachá e desejá-lo profundamente, convém que leia o noticiário, assista a algumas das comédias-pastelão na sala “CPI” e procure por um daqueles tradicionais mencionados que freqüentam um e outro desses espaços com bastante freqüência, quase sempre na posição de entrevistado-destaque, apresentando fortes suspeitas de portar o crachá e, principalmente, a característica que a ele dá direito. Mas, cuidado: uma vez dentro, nunca mais fora – embora, suspeite-se, exista uma ligação inevitável do esconderijo com a cozinha e, nela, apesar de algumas frituras, dizem haver uma passarela de onde se vislumbra o cartaz “RIQUEZA E PODER”, logo atrás do forno a lenha.
Onde se lê “PORTA DOS FUNDOS”, só entre se sua pretensão for subalterna, mesmo sabendo que, se quiser, poderá ter direito a um prato cujo nome se parece com um diminutivo de “mensal”. Seu criador foi muito elogiado recentemente.
Existe ainda um outro corredor, no formato de um duto, saindo de um ponto que não se sabe em que porão fica, que liga o salão oval ao Palácio do Planalto - onde, para se ter ingresso, é mais difícil: há que se ter outras habilidades. Por exemplo: falar diversos idiomas, todos em Português; dizer a mesma coisa de maneiras diferentes e coisas contraditórias como se fossem a mesma coisa; divergir como quem converge e convergir como quem diverte.
Voltando ao salão oval: onde se encontrarem 3 ou 4 gatos pingados, não dê importância ao fato de não haver uma placa na porta; fique apenas sabendo que, nela, estava escrito “IDEALISTAS”. Mas, como são só 3 ou 4...
E não desanime não: a alternativa já andou armada – e vivem nos lembrando disso, a torto e a direito.
Ou, melhor dizendo, à esquerda e à direita.
Escolhida qualquer uma das portas, é acessado um corredor que inevitavelmente leva o ingressante a um salão oval – que não deve ser confundido com aquele que fica em Washington: estamos em Brasília.
No salão oval, há uma porta onde se lê “COZINHA”. O cheiro de pizza é inconfundível. Numa segunda e contígua porta, lê-se “BANHEIRO”. É necessária alguma atenção ao transpô-la, pois só lá dentro é que é feita a tradicional sub-divisão “MASCULINO” e “FEMININO”. Porém, não é este o maior cuidado a ser tomado: é que há uma terceira porta lá dentro, onde o cheiro de certos projetos é, tal e qual o da pizza da cozinha, inconfundível.
Retornando-se ao salão oval, a porta “CPI” apresenta invariavelmente espetáculos de comédia pastelão, onde o palhaço, também invariavelmente, é quem assiste. Ao lado, uma passagem secreta leva a um esconderijo onde somente portadores de um crachá especial podem ter acesso. Ao que tudo indica, dependerá somente de uma e somente uma característica que o pretendente ao acesso a esse ambiente deverá ter - só que esta nunca é explicitamente revelada. Assim, caso o ingressante ainda não tenha obtido antecipadamente de alguns já tradicionais freqüentadores o referido crachá e desejá-lo profundamente, convém que leia o noticiário, assista a algumas das comédias-pastelão na sala “CPI” e procure por um daqueles tradicionais mencionados que freqüentam um e outro desses espaços com bastante freqüência, quase sempre na posição de entrevistado-destaque, apresentando fortes suspeitas de portar o crachá e, principalmente, a característica que a ele dá direito. Mas, cuidado: uma vez dentro, nunca mais fora – embora, suspeite-se, exista uma ligação inevitável do esconderijo com a cozinha e, nela, apesar de algumas frituras, dizem haver uma passarela de onde se vislumbra o cartaz “RIQUEZA E PODER”, logo atrás do forno a lenha.
Onde se lê “PORTA DOS FUNDOS”, só entre se sua pretensão for subalterna, mesmo sabendo que, se quiser, poderá ter direito a um prato cujo nome se parece com um diminutivo de “mensal”. Seu criador foi muito elogiado recentemente.
Existe ainda um outro corredor, no formato de um duto, saindo de um ponto que não se sabe em que porão fica, que liga o salão oval ao Palácio do Planalto - onde, para se ter ingresso, é mais difícil: há que se ter outras habilidades. Por exemplo: falar diversos idiomas, todos em Português; dizer a mesma coisa de maneiras diferentes e coisas contraditórias como se fossem a mesma coisa; divergir como quem converge e convergir como quem diverte.
Voltando ao salão oval: onde se encontrarem 3 ou 4 gatos pingados, não dê importância ao fato de não haver uma placa na porta; fique apenas sabendo que, nela, estava escrito “IDEALISTAS”. Mas, como são só 3 ou 4...
E não desanime não: a alternativa já andou armada – e vivem nos lembrando disso, a torto e a direito.
Ou, melhor dizendo, à esquerda e à direita.
3.31.2008
PAS DE DEUX
Da platéia, o que se vê é a leveza, a destreza, o treino, a habilidade, o talento. A música, o cenário, a iluminação, o figurino, o pano, tudo é o pano de fundo. Inclusive o erro. Ninguém respira o suor, ninguém sente a aflição no ventre, a conta que vence amanhã, uma vontade de ir ao banheiro súbita e autoritária, premente, urgente, a inveja, o ciúme, a carência, a dor do preconceituado, o tersol, a sinusite, a verruga, a rinite, a vagina, o pênis, o saco oprimido, o calo, a ponta mal feita, a roupa apertada, o desejo reprimido. Ninguém na platéia sabe o que é percebê-la na testa de cada espectador, nunca o olhar, porque, no olhar, bate a luz do iluminador. Como saber se o aplauso foi pela descoberta, a técnica, o malabarismo, o sofrimento ou o erro? O salário é bom, o salário é ruim, atrasado ou adiantado, quanto ele importa? Tanto quanto saber que amanhã é outro dia, que virá ou não. O palco vazio, para a platéia, pode ser tão ou mais bonito, instigante, que a nossa presença. Eles olham o relógio, perguntam-se, Quanto tempo falta para acabar? A dor no joelho, a ponta mal feita, o suor, a vagina e o pênis, seus líquidos, a premência, a urgência adiada do banheiro e da pizza, só nós dois, pas de deux, sabemos. Pas de deux. Os aplausos foram ótimos. Sua ausência, também.
3.25.2008
SONETOS CONCORRENTES
(1)
Minha filha fez catorze anos
Concorrendo com a Páscoa.
Aprendi tardiamente:
Páscoa é passagem.
Do que já foi infância
Pelo que agora é dúvida,
Quinta de trevas,
Sexta da paixão,
Sábado, Aleluia,
Grave, profano, inculto, garanto,
Não há só endoenças,
Filha.
Há enremédios;
Há encuras.
(2)
Caminhadas à beira mar,
Pedras,
Areia fofa, areia dura,
Asfalto.
Nuvens no céu ora presentes-ausentes,
Asas de todo jeito, tempestades, vento,
Automóveis, pedestres, cães,
Bicicletas,
Atletas,
Moças bonitas,
Senhoras, senhores,
Onde anda minha cabeça
Que nada percebo, nada disso
Nada?
Minha filha fez catorze anos
Concorrendo com a Páscoa.
Aprendi tardiamente:
Páscoa é passagem.
Do que já foi infância
Pelo que agora é dúvida,
Quinta de trevas,
Sexta da paixão,
Sábado, Aleluia,
Grave, profano, inculto, garanto,
Não há só endoenças,
Filha.
Há enremédios;
Há encuras.
(2)
Caminhadas à beira mar,
Pedras,
Areia fofa, areia dura,
Asfalto.
Nuvens no céu ora presentes-ausentes,
Asas de todo jeito, tempestades, vento,
Automóveis, pedestres, cães,
Bicicletas,
Atletas,
Moças bonitas,
Senhoras, senhores,
Onde anda minha cabeça
Que nada percebo, nada disso
Nada?
3.07.2008
NOTÍCIAS DA DINAMARCA
O clima tem andado instável. A bolsa, estável. O dólar, até o fim do ano, estará valendo menos que nossa moeda. Renato Machado continua provando vinho, inclusive pondo o nariz dentro da taça. O programa Saia Justa ainda não passa na estação Maria, Maria, que não vive, apenas agüenta, mas essa é uma canção antiga e, depois, Maria, Maria não mora na Dinamarca. Diogo Maynardi continuará morando na antiga capital da Dinamarca, vai votar no John McCain e lutar no Iraque, morando em Veneza.
O programa Big Brother está novamente no ar e muitos dinamarqueses assistem, com grande preferência pelo paredão. Fidel Castro saiu de cena; por isso, alguns ficaram alegres, outros, tristes. Isso prova que nós, dinamarqueses, somos pessoas com opinião própria, muito embora existam veículos de comunicação que são chamados Formadores de Opinião – e, de fato, necessário admitir que, dentre nós, há os que portem antenas de tv nas respectivas testas, outros, cabos fazendo as vezes de rabos, e outros ainda que, quando abrem suas bocas, nos mostrem, ao invés de dentes e palavras, a capa e a contra-capa de uma revista. Isso sem esquecer os que tomam café com nosso rei-presidente, geralmente em lugares longínquos ou montanhosos dessa nossa imensa Dinamarca.
Os filmes Tropa de Elite e Meu nome não é Johnny contam um monte de mentiras e essa história de bombas em jogos de futebol no sul-maravilha da Dinamarca evidentemente que não é verdadeira. Se nossa tv estatal já estivesse no ar, nada disso seria divulgado, porque, nela, só a verdade será transmitida.
A tv aberta mostra umas barbaridades de vez em quando, mas, logo em seguida, transmite um pronunciamento do nosso rei-presidente nos tranqüilizando, pondo a culpa em quem de fato a tem: a ignorância do povo, a classe média e as elites (não confundir com a da supra referida Tropa) - verdadeiros anacronismos deste nosso país.
Dona Marisa é que está certa: em boca fechada, não entra mosquito – embora, como se saiba, na Dinamarca não haja mosquitos. É que – Dona Marisa sabe muito bem - prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Já o marido dela, nosso rei-presidente, que antes não sabia de nada, agora sabe de tudo e diz com todas as letras que a porrada – sic – come solta nos presídios deste país. Há algo de podre no reino da Dinamarca? É claro que não: Sheakspeare nem dinamarquês era.
Aquele senador continua no Senado, pois lugar de senador é no Senado, embora o padrinho dele, ex-presidente, tenha se retirado para escrever suas memórias, as quais, se a nossa não falhar como de praxe, deverá trazer atos de grandeza - algumas, inflacionárias, outras, inflamatórias; pois, por exemplo, seu genro talvez não se tenha lembrado de esterilizar aquele dinheiro que apareceu dentro de um cofre e que depois desapareceu, já que nossa mídia, competente e dinamarquesa que é, nunca mais falou a respeito.
Na longínqua América do Sul há uma ameaça de guerra, mas nosso rei-presidente – que talvez permaneça no cargo por mais alguns anos, a depender do que for noticiado na tv aberta e na estatal e do que ele disser durante seu café da manhã - intermediou o diálogo entre as nações em conflito; por causa desta intermediação é que já está garantido que não haverá guerra nenhuma. Um pouco de se estranhar é que aquele amigo dele de boina vermelha que fala pelos cotovelos tenha mandado umas tropas para a fronteira daquele outro país, como é mesmo o nome?, que fica tão longe da Dinamarca que a gente nem se lembra. Aquele continente é muito complicado, tem FARCS, traficantes, ih, nem é bom falar. Os indicadores econômicos e o índice de aprovação do nosso rei-presidente bem demonstram: tudo vai bem na nossa Dinamarca. O clima é que tem andado instável.
O programa Big Brother está novamente no ar e muitos dinamarqueses assistem, com grande preferência pelo paredão. Fidel Castro saiu de cena; por isso, alguns ficaram alegres, outros, tristes. Isso prova que nós, dinamarqueses, somos pessoas com opinião própria, muito embora existam veículos de comunicação que são chamados Formadores de Opinião – e, de fato, necessário admitir que, dentre nós, há os que portem antenas de tv nas respectivas testas, outros, cabos fazendo as vezes de rabos, e outros ainda que, quando abrem suas bocas, nos mostrem, ao invés de dentes e palavras, a capa e a contra-capa de uma revista. Isso sem esquecer os que tomam café com nosso rei-presidente, geralmente em lugares longínquos ou montanhosos dessa nossa imensa Dinamarca.
Os filmes Tropa de Elite e Meu nome não é Johnny contam um monte de mentiras e essa história de bombas em jogos de futebol no sul-maravilha da Dinamarca evidentemente que não é verdadeira. Se nossa tv estatal já estivesse no ar, nada disso seria divulgado, porque, nela, só a verdade será transmitida.
A tv aberta mostra umas barbaridades de vez em quando, mas, logo em seguida, transmite um pronunciamento do nosso rei-presidente nos tranqüilizando, pondo a culpa em quem de fato a tem: a ignorância do povo, a classe média e as elites (não confundir com a da supra referida Tropa) - verdadeiros anacronismos deste nosso país.
Dona Marisa é que está certa: em boca fechada, não entra mosquito – embora, como se saiba, na Dinamarca não haja mosquitos. É que – Dona Marisa sabe muito bem - prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Já o marido dela, nosso rei-presidente, que antes não sabia de nada, agora sabe de tudo e diz com todas as letras que a porrada – sic – come solta nos presídios deste país. Há algo de podre no reino da Dinamarca? É claro que não: Sheakspeare nem dinamarquês era.
Aquele senador continua no Senado, pois lugar de senador é no Senado, embora o padrinho dele, ex-presidente, tenha se retirado para escrever suas memórias, as quais, se a nossa não falhar como de praxe, deverá trazer atos de grandeza - algumas, inflacionárias, outras, inflamatórias; pois, por exemplo, seu genro talvez não se tenha lembrado de esterilizar aquele dinheiro que apareceu dentro de um cofre e que depois desapareceu, já que nossa mídia, competente e dinamarquesa que é, nunca mais falou a respeito.
Na longínqua América do Sul há uma ameaça de guerra, mas nosso rei-presidente – que talvez permaneça no cargo por mais alguns anos, a depender do que for noticiado na tv aberta e na estatal e do que ele disser durante seu café da manhã - intermediou o diálogo entre as nações em conflito; por causa desta intermediação é que já está garantido que não haverá guerra nenhuma. Um pouco de se estranhar é que aquele amigo dele de boina vermelha que fala pelos cotovelos tenha mandado umas tropas para a fronteira daquele outro país, como é mesmo o nome?, que fica tão longe da Dinamarca que a gente nem se lembra. Aquele continente é muito complicado, tem FARCS, traficantes, ih, nem é bom falar. Os indicadores econômicos e o índice de aprovação do nosso rei-presidente bem demonstram: tudo vai bem na nossa Dinamarca. O clima é que tem andado instável.
3.06.2008
EU, JOGADOR
Ao som da Spok Frevo Orquestra, mariobenevides.blogspot.com, 6 de março de 2008.
Eu jogo.
Pelo empate
Pela continuidade
Da ilusão.
Sei lá o que é vitória,
O que é derrotar alguém ou perder,
Nada disso me interessa.
Não me interessa mesmo competir.
Jogo pela existência
Pelo prazer de permanecer
Vivo.
Espero o computador se ajustar
Como esperam ator e platéia pelo terceiro toque.
Admiro
Profundamente
Músicos
De orquestras.
Sua disciplina
Seu prazer
De dividir com tantos
O palco
De não ter um nome
De não mesmo ter
Dinheiro.
Sou um jogador.
Quem joga não o faz pelo dinheiro
O faz pela embriaguez da ilusão
Nem prazer isso é
Somente é um jogo.
O meu, de continuar vivo,
O de deixar lembranças
O de levar lembranças
Para o travesseiro.
E criar novas.
Novas lembranças.
Amanhã
Nem quero saber
Do que vai ser.
Que apenas seja.
Esse é o jogo que eu jogo.
E que compartilho.
Eu jogo
Pelo empate:
Continuar
Vivo.
Eu jogo.
Pelo empate
Pela continuidade
Da ilusão.
Sei lá o que é vitória,
O que é derrotar alguém ou perder,
Nada disso me interessa.
Não me interessa mesmo competir.
Jogo pela existência
Pelo prazer de permanecer
Vivo.
Espero o computador se ajustar
Como esperam ator e platéia pelo terceiro toque.
Admiro
Profundamente
Músicos
De orquestras.
Sua disciplina
Seu prazer
De dividir com tantos
O palco
De não ter um nome
De não mesmo ter
Dinheiro.
Sou um jogador.
Quem joga não o faz pelo dinheiro
O faz pela embriaguez da ilusão
Nem prazer isso é
Somente é um jogo.
O meu, de continuar vivo,
O de deixar lembranças
O de levar lembranças
Para o travesseiro.
E criar novas.
Novas lembranças.
Amanhã
Nem quero saber
Do que vai ser.
Que apenas seja.
Esse é o jogo que eu jogo.
E que compartilho.
Eu jogo
Pelo empate:
Continuar
Vivo.
2.10.2008
ACHADO, ROUBADO E DEVOLVIDO
Foi no sábado. Ela deixou seu telefone celular cair no gramado em frente ao prédio do casal de amigos que visitara e não percebeu. Muito distraída, tinha certeza de que o aparelho estava em casa ou então no carro. Somente na segunda-feira à noite é que se convenceu de tê-lo mesmo perdido e foi na operadora providenciar o bloqueio e a substituição por um novo - mais moderno, até -, que saiu de graça - isto é: pago pelos pontos acumulados pelo uso freqüente da linha. Claro, deveria ter providenciado o bloqueio assim que deu pela falta do aparelho e, se depois o achasse, reabilitaria a linha - o que também não renderia nenhuma história.
Na quarta-feira de manhã, um desconhecido, que sabia seu nome, telefona para seu novo celular, que teve mantido o número do perdido, e informa a ela que este fora achado por ele, no tal gramado. Ela anota o número do sujeito e fica de ligar depois.
No sábado seguinte, ela pede ao marido que ligue para o sujeito - que diz que dentro de meia hora estará em casa, “depois de deixar meu serviço”, e dá seu endereço. O marido vai com ela ao encontro do indivíduo, residente na mesma rua onde fica o prédio que visitaram havia uma semana. Olham bem em volta antes de parar o carro, para ver se não seriam surpreendidos por uma armadilha (“Isto é um assalto!”). Um rapaz sobre uma bicicleta a chama pelo nome.
- Como é que você sabe meu nome?
- Estava na tela do aparelho, junto com tua foto – o rapaz explica. – A memória do telefone celular tem também o número da linha, por isso te liguei. Peço desculpas, mas eu apaguei tua agenda.
- Por quê você apagou minha agenda?
- Porque eu pretendia ficar com o celular para mim. Mas, aí, me arrependi, eu pensei, afinal, o celular é dela, ela vai precisar dele. Peço desculpas também por ter apagado a foto.
- Você usou o celular? Fez alguma ligação?
- Não – ele responde. Depois: - Só duas vezes. No sábado mesmo.
- Você ligou para o exterior? – o marido dela pergunta ao rapaz. Rindo, o rapaz diz que não, claro que não. Foi para aqui mesmo, só duas ligações. Peço desculpas por isso também.
E vai embora, na bicicleta, que se supõe seja dele, que a ele pertença.
Marido e mulher entram no carro e perguntam-se: - Terá sido mesmo arrependimento? Ou o pai ou a mãe dele foi quem ordenou a devolução, com ameaças de polícia e outros castigos? Devolveu só porque - e depois que - percebeu que o aparelho havia sido bloqueado? Mas, se assim tinha sido, devolver porque? Por que não deixá-lo perdido em algum outro lugar, ou mesmo no mesmo gramado onde fora encontrado? Minha foto na tela – ela continuou a conjeturar – era ao seu lado, era uma foto de nós dois, um casal; ele esperava por alguma recompensa, ou uma perspectiva de mais um furto, se dar bem; e – ela constata e conclui - não foi nada disso.
Mas houve uma recompensa – que quase não aconteceu, depois da confissão do roubo e do arrependimento. Se é que um livro (com dedicatória e autógrafo) possa ser considerado uma recompensa. Livro que o rapaz saiu lendo, seguro por uma das mãos; com a outra, manejava a bicicleta.
Na quarta-feira de manhã, um desconhecido, que sabia seu nome, telefona para seu novo celular, que teve mantido o número do perdido, e informa a ela que este fora achado por ele, no tal gramado. Ela anota o número do sujeito e fica de ligar depois.
No sábado seguinte, ela pede ao marido que ligue para o sujeito - que diz que dentro de meia hora estará em casa, “depois de deixar meu serviço”, e dá seu endereço. O marido vai com ela ao encontro do indivíduo, residente na mesma rua onde fica o prédio que visitaram havia uma semana. Olham bem em volta antes de parar o carro, para ver se não seriam surpreendidos por uma armadilha (“Isto é um assalto!”). Um rapaz sobre uma bicicleta a chama pelo nome.
- Como é que você sabe meu nome?
- Estava na tela do aparelho, junto com tua foto – o rapaz explica. – A memória do telefone celular tem também o número da linha, por isso te liguei. Peço desculpas, mas eu apaguei tua agenda.
- Por quê você apagou minha agenda?
- Porque eu pretendia ficar com o celular para mim. Mas, aí, me arrependi, eu pensei, afinal, o celular é dela, ela vai precisar dele. Peço desculpas também por ter apagado a foto.
- Você usou o celular? Fez alguma ligação?
- Não – ele responde. Depois: - Só duas vezes. No sábado mesmo.
- Você ligou para o exterior? – o marido dela pergunta ao rapaz. Rindo, o rapaz diz que não, claro que não. Foi para aqui mesmo, só duas ligações. Peço desculpas por isso também.
E vai embora, na bicicleta, que se supõe seja dele, que a ele pertença.
Marido e mulher entram no carro e perguntam-se: - Terá sido mesmo arrependimento? Ou o pai ou a mãe dele foi quem ordenou a devolução, com ameaças de polícia e outros castigos? Devolveu só porque - e depois que - percebeu que o aparelho havia sido bloqueado? Mas, se assim tinha sido, devolver porque? Por que não deixá-lo perdido em algum outro lugar, ou mesmo no mesmo gramado onde fora encontrado? Minha foto na tela – ela continuou a conjeturar – era ao seu lado, era uma foto de nós dois, um casal; ele esperava por alguma recompensa, ou uma perspectiva de mais um furto, se dar bem; e – ela constata e conclui - não foi nada disso.
Mas houve uma recompensa – que quase não aconteceu, depois da confissão do roubo e do arrependimento. Se é que um livro (com dedicatória e autógrafo) possa ser considerado uma recompensa. Livro que o rapaz saiu lendo, seguro por uma das mãos; com a outra, manejava a bicicleta.
2.03.2008
CAVALOS
Em Petrópolis, a charrete percorre as ruas entre automóveis esparsos. O condutor também é guia, mostra a casa de Santos Dumont, a do príncipe recém falecido, aquela onde Fernando Henrique se hospedava, “Lula nunca veio aqui”. Mostra a estátua do arquiteto e, atrás, a Catedral. De quando em quando, dá uma chicotada nos cavalos da parelha, que apressam o trote preguiçoso e servil. Submissos, os olhos, tampados nas laterais. Sacos amarrados nos seus lombos recolhem seus rejeitos alimentares transformados nas suas tripas em dejetos. O guia pronuncia “coêler” ao invés de “quéler”. No término do passeio, ele, novamente condutor, puxa as rédeas e pára no sinal fechado. Um dos cavalos torna a cabeça na direção do seu par e parece dizer alguma coisa a ele. Provavelmente, algo como “De noite, a gente pára e descansa”, ou “Um dia, isso acaba”.
Em Florianópolis, chove demais. Uma catástrofe, ruas inundadas, casas inundadas, pessoas jogadas na lama, em abrigos, o aeroporto, fechado. No caminho dessa descoberta, uma pastagem; por trás, a baía. O cavalo, amarrado a um toco no chão, a cabeça baixa, o dorso sob a chuva, debaixo do temporal, a céu aberto, céu cinzento, chuva, chuva, chuva, no lombo do cavalo. “Uma hora, isso passa”.
No apartamento, um vento, para ela, é tufão; uma chuvinha fina, temporal; um espirro do filho, pneumonia. Tudo é pretexto para dar uma desculpa no trabalho e faltar e ficar em casa. A tempestade é tão verdadeira e intensa que dispensa a desculpa. “Uma hora, isso passa”.
Em Florianópolis, chove demais. Uma catástrofe, ruas inundadas, casas inundadas, pessoas jogadas na lama, em abrigos, o aeroporto, fechado. No caminho dessa descoberta, uma pastagem; por trás, a baía. O cavalo, amarrado a um toco no chão, a cabeça baixa, o dorso sob a chuva, debaixo do temporal, a céu aberto, céu cinzento, chuva, chuva, chuva, no lombo do cavalo. “Uma hora, isso passa”.
No apartamento, um vento, para ela, é tufão; uma chuvinha fina, temporal; um espirro do filho, pneumonia. Tudo é pretexto para dar uma desculpa no trabalho e faltar e ficar em casa. A tempestade é tão verdadeira e intensa que dispensa a desculpa. “Uma hora, isso passa”.
1.26.2008
RETRATO 3 POR 4
Reenquadre-se
De corpo inteiro
Dentro de um retrato
3 por 4.
Perceba-se
Tristeza e alegria
Tudo e nada que lhe pertence
Cabe no retrato 3 por 4.
A moldura são os outros
Seu ganha-pão
Seu perde e ganha
Nesta vida 3 por 4.
Dentro da foto
Dentro das paredes
Sob teto e chão
Do retrato 3 por 4
É você.
É aquilo de que você realmente gosta
O que você venera e admira
Quem você realmente quer - e quer bem.
A profundidade -
Suas múltiplas dimensões
Sem frente nem verso
Nem pra frente nem pra trás
O espaço em que você transita
Sem começo nem fim
Sem finalidade
Sem rumo -
É você.
Saindo pra fora da moldura
Que envolve seu corpo
Numa foto 3 por 4.
Reinvente-se
E caia fora
Para frente ou para trás
Do retrato de corpo inteiro
Da moldura
Dos limites
Desta vida 3 por 4.
De corpo inteiro
Dentro de um retrato
3 por 4.
Perceba-se
Tristeza e alegria
Tudo e nada que lhe pertence
Cabe no retrato 3 por 4.
A moldura são os outros
Seu ganha-pão
Seu perde e ganha
Nesta vida 3 por 4.
Dentro da foto
Dentro das paredes
Sob teto e chão
Do retrato 3 por 4
É você.
É aquilo de que você realmente gosta
O que você venera e admira
Quem você realmente quer - e quer bem.
A profundidade -
Suas múltiplas dimensões
Sem frente nem verso
Nem pra frente nem pra trás
O espaço em que você transita
Sem começo nem fim
Sem finalidade
Sem rumo -
É você.
Saindo pra fora da moldura
Que envolve seu corpo
Numa foto 3 por 4.
Reinvente-se
E caia fora
Para frente ou para trás
Do retrato de corpo inteiro
Da moldura
Dos limites
Desta vida 3 por 4.
1.22.2008
O ESCRITOR AMÓS OZ E UMA SÓ PERGUNTA
Parati, julho, 2007,
Programa Roda Viva,
Uma entrevista e suas perguntas.
O escritor israelita Amós Oz
Irresistível
Seu humor irresistível
E suas respostas.
Não gosta de computador
Escreve com duas canetas.
Com a primeira opina
Com a segunda, conta histórias.
Ao contar uma história
Tem mais imaginação que memória
Sem saber quanto desta vem naquela.
Ao opinar
Se dedica à História.
Ao contar histórias
Não é sua vontade que prevalece:
Querem, nelas, perceber fatos.
Caro Amós Oz:
Quando se escreve um romance
- Romance?
Uma novela
- Novela?
O que se conta é lembrança
- Lembrança?
Uma história
- Uma história?
Uma ficção
- Ficção?
Que se distingue da História
- História?
Por não contar fatos?
Não a vontade
Mas é a pergunta
Uma só pergunta
Que permanece:
- O que são fatos?
Programa Roda Viva,
Uma entrevista e suas perguntas.
O escritor israelita Amós Oz
Irresistível
Seu humor irresistível
E suas respostas.
Não gosta de computador
Escreve com duas canetas.
Com a primeira opina
Com a segunda, conta histórias.
Ao contar uma história
Tem mais imaginação que memória
Sem saber quanto desta vem naquela.
Ao opinar
Se dedica à História.
Ao contar histórias
Não é sua vontade que prevalece:
Querem, nelas, perceber fatos.
Caro Amós Oz:
Quando se escreve um romance
- Romance?
Uma novela
- Novela?
O que se conta é lembrança
- Lembrança?
Uma história
- Uma história?
Uma ficção
- Ficção?
Que se distingue da História
- História?
Por não contar fatos?
Não a vontade
Mas é a pergunta
Uma só pergunta
Que permanece:
- O que são fatos?
1.16.2008
AGENDA CARIOCA - UMA ANACRÔNICA
Um camelô vendendo agendas na Rua da Quitanda, Rio de Janeiro, sim, janeiro de 2008. Quem as compraria? Quem precisaria de hora e dia marcados em uma agenda de camelô? Alguém como ele, camelô, certamente que não; seus horários são poucos: o de acordar e o de fugir do rapa. Não difere ele dos outros comerciantes, que não consomem aquilo que vendem. Donos de bares não são bebedores, os de papelaria, se viciados em lapiseiras, a quem as venderia?, um hipocondríaco farmacêutico, ora, falência seria sua morte e não a anorexia. Comprará uma agenda do camelô não alguém igual a ele, mas alguém tão marginal quanto ele, especialmente nos horários, marcados na margem da agenda e não nos impressos – porque, nestes, apenas registrará aquilo que nada descreverá da sua vida: o crediário, o dia do salário, o aniversário, o nome do credor e do devedor, além do próprio, de esperto, de otário. Seu endereço e o tipo sanguíneo que mereceu e merece de nascença constarão, para que, no caso de perda da agenda – sua própria vida –, esta possa lhe ser devolvida; e no da súbita e sempre inesperada fuga daquela que corre debaixo do relógio de pulso - comprado de um camelô – sua própria vida -, para que apareça um outro portador de agenda comprada de um camelô, que se torne, da noite para o dia, da vida, um doador.
Eu comprei uma; você não compraria?
Eu comprei uma; você não compraria?
1.01.2008
ÁRVORES
Árvores. Há uma, no quintal do prédio onde mora meu irmão
Que parece um bicho esticando o pescoço,
O tronco, inclinado,
Duas raízes que são como pernas,
A cabeça – o cabelo revolto de uma árvore –
Procurando, lutando para encontrar
O sol. Ou a chuva. O céu.
Seu chapéu.
Árvores perdidas nas calçadas do Rio de Janeiro,
Ruas, suas ruas são indiscutivelmente arborizadas,
Suas ruas são metralhadas,
Em algum momento era tudo óbvio e não quiseram perceber.
Uma árvore permaneceu árvore.
Árvore de Natal.
Que parece um bicho esticando o pescoço,
O tronco, inclinado,
Duas raízes que são como pernas,
A cabeça – o cabelo revolto de uma árvore –
Procurando, lutando para encontrar
O sol. Ou a chuva. O céu.
Seu chapéu.
Árvores perdidas nas calçadas do Rio de Janeiro,
Ruas, suas ruas são indiscutivelmente arborizadas,
Suas ruas são metralhadas,
Em algum momento era tudo óbvio e não quiseram perceber.
Uma árvore permaneceu árvore.
Árvore de Natal.
12.23.2007
CERVANTES, O BAR, OU LAPAS-BRASIS
No lançamento do meu romance “A revolução do silêncio”, na Livraria Argumento do Leblon, Rio, 20 deste dezembro, ganhei de presente a visita e um livro de autoria do poeta Ronaldo Werneck, carinhosamente autografado por ele. Na orelha, Geraldo Carneiro o chama de poeta do bas fond. Inevitavelmente, me lembrei de uma canção que fiz há uns vinte anos (letra e música), a qual chamei de “Cervantes, o bar” e, alguns anos depois, inseri na peça “Lapas Brasis”, que escrevi a quatro mãos com Carlos Sérgio Bittencourt. Reproduzo a seguir a letra da canção, deixando meu abraço para alguns poetas amigos meus, especialmente o Ronaldo, pela gentileza, pela re-inspiração:
À porta, três atores
Do diretor, dizendo horrores
Balcão, sanduíche, salpicão,
Schmidt, schinit, uisque, Nietzche,
Fredericos no balcão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
Na esquina, moças-vagalumes
Meninas-bolsas com perfumes
Salão, cerveja, salsichão
Magros e godos, visi-gordos
Sincretismos no salão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
Todas as tardes, quarto andar
Faço um doente caminhar
Depois, de noite, eu vou dançar
O funk da galeria
C’os negros da galeria
Na boate, finjo alegria
C’os brancos sem companhia
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
E de manhã, quantos amores
Quantas saudades de manhã
Jornal, cigarro, macarrão,
Ministro arisco, tão malquisto
Desligo a televisão.
Que o mundo morra sem saber
Que eu fui poeta olhando
Eu
Olhando no fundo do copo
Eu...
À porta, três atores
Do diretor, dizendo horrores
Balcão, sanduíche, salpicão,
Schmidt, schinit, uisque, Nietzche,
Fredericos no balcão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
Na esquina, moças-vagalumes
Meninas-bolsas com perfumes
Salão, cerveja, salsichão
Magros e godos, visi-gordos
Sincretismos no salão
Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
Todas as tardes, quarto andar
Faço um doente caminhar
Depois, de noite, eu vou dançar
O funk da galeria
C’os negros da galeria
Na boate, finjo alegria
C’os brancos sem companhia
- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz
E de manhã, quantos amores
Quantas saudades de manhã
Jornal, cigarro, macarrão,
Ministro arisco, tão malquisto
Desligo a televisão.
Que o mundo morra sem saber
Que eu fui poeta olhando
Eu
Olhando no fundo do copo
Eu...
12.13.2007
O QUE FICARÁ DE NÓS
(De uma triste constatação de Rosamaria)
Ficarão reportagens sobre gente que a gente detesta
Corruptos, bandidos, prepotentes, mentirosos
Catástrofes
Muito futebol
Alguma coisa parecida com música
Mulheres nuas
Aberrações
Big Brother -
Mas verdadeiramente de nós
Não ficará nada.
Nossas fotos
Nossos textos
Nossas mensagens cifradas
- TXT, ABÇ, BJS -
Tudo será lixo digital.
HDs, será que alguém guarda os seus?,
Disquetes já são coisa do passado
CDs também já são
Nada ficará.
Nem no provedor; nem na CIA.
Nem as florestas
Com as quais nos preocupamos tanto
E por isso deixamos de imprimir
Nossas fotos
Nossos textos
Ficarão: todas serão torradas
Para nos empanturrarmos de carne bovina
Alface e etanol
Enquanto muitos de nós continuarão passando fome
Alguns poucos, andando a pé.
Ficarão fotos esmaecidas
Cartas amareladas
Dos nossos avós.
Nada de nós.
Nada.
Ficarão reportagens sobre gente que a gente detesta
Corruptos, bandidos, prepotentes, mentirosos
Catástrofes
Muito futebol
Alguma coisa parecida com música
Mulheres nuas
Aberrações
Big Brother -
Mas verdadeiramente de nós
Não ficará nada.
Nossas fotos
Nossos textos
Nossas mensagens cifradas
- TXT, ABÇ, BJS -
Tudo será lixo digital.
HDs, será que alguém guarda os seus?,
Disquetes já são coisa do passado
CDs também já são
Nada ficará.
Nem no provedor; nem na CIA.
Nem as florestas
Com as quais nos preocupamos tanto
E por isso deixamos de imprimir
Nossas fotos
Nossos textos
Ficarão: todas serão torradas
Para nos empanturrarmos de carne bovina
Alface e etanol
Enquanto muitos de nós continuarão passando fome
Alguns poucos, andando a pé.
Ficarão fotos esmaecidas
Cartas amareladas
Dos nossos avós.
Nada de nós.
Nada.
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