6.29.2013

O MOVIMENTO



Há fascistas no movimento. E neonazistas. E vândalos. Sou capaz de apostar que há marxistas e até estalinistas. Houve quem dissesse que há belgas, mas indianos não - paradoxalmente com insinuações de que somente determinadas castas e etnias estariam presentes.

Algo que não se discute: há apartidários e partidários.

Curioso é que não costumam falar de proporções e ninguém comenta que pelo menos um gênio esteve presente: aquele que disse a quem estava ao seu lado depredando uma placa, Maluco, essa placa é tua.

Era uma vez 1978, eu tinha 22 anos, era recém-formado em engenharia e havia uma ditadura. Um colega de faculdade e trabalho me perguntou se eu preferia o capitalismo ou o comunismo. Eu respondi, A democracia. Ele debochou de mim e me explicou que uma coisa era o regime político e outra o econômico.

Perdoem se insisto na minha redundantemente teimosa burrice: até hoje, entre o capitalismo e o comunismo, continuo preferindo a democracia.

Tão patético quanto propor uma constituinte específica, a ponto de ter que desistir dela no dia seguinte, é querer o impeachment de quem a propôs apenas por não aprovar seu governo. Eu não votei nela nem me tornei fã e talvez além de burro eu seja ignorante, mas me parece que não foi essa senhora que inventou a corrupção, como até o momento não houve indícios de que desta fosse cúmplice. Pelo contrário: com presteza, destituiu aqueles sobre os quais pesavam graves suspeitas e sobre seus cargos tinha o poder de fazê-lo. Há quem se esqueça de que, no Brasil, a democracia tem três poderes.

Outra passagem que acho pertinente é o comentário de um amigo meu, que, sabendo que há saudosos da ditadura, me disse, Eu sempre quis ser rei. Ora, digo eu, até para ser súdito a democracia é melhor.

Há quem exalte esse movimento como inédito, se esquecendo de que a história recente como a nem tão recente (1968) teve semelhantes, aqui e no mundo inteiro, inclusive com a percepção de mais de uma causa ao mesmo tempo. Nem a novidade da rapidez da comunicação deveria ser tida como aquilo de mais especial que ele trouxe, porque esse lugar está para sempre guardado para a acachapante desaprovação da (provavelmente) mais calhorda proposta de emenda constitucional surgida depois de 1988, ano em que o Brasil festejou a redescoberta do quanto é bom possuir uma constituição democraticamente construída.

Li no jornal que a senhora presidente pretende conversar com os estudantes pelas redes sociais. Melhor assim, presidente: conversar é melhor que pensar que se entende de tudo, porque também patética é a prepotência. E tão certo quanto eu jamais vá me dirigir à senhora como presidenta é que jamais vou chamá-la de prepotenta.

A causa sempre foi uma só.

Democracia, um beijo pra você.

6.19.2013

A REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO – ROMANCE DE 2007 (MARIO BENEVIDES) – TRECHOS:

“Nada mais chamava a atenção de ninguém. Era normal a sucessão de guerras, desgraças, vilezas, grosserias explícitas e outras disfarçadas. Movimentos, protestos, marchas, armas de todo tipo, tudo (...) somente imagens coloridas. (...) O que fazer para chamar a atenção dos outros, ainda mais a ponto de provocar uma revolução? (...) Seria pacífica, sem tiros ou golpes de estado: uma revolução de mentalidade.”


“As comunicações se haviam tornado insossas, repetitivas e sem crédito. (...) [A política] caíra em terreno ainda mais árido de interesse do que o experimentado pelas comunicações. (...) Nada mais parecia despertar o mais vago patriotismo – nem mesmo o velho futebol.”

“A tecnologia avançava em seu ritmo já assimilado mundialmente, ou seja, vertiginoso. (...) Lá fora, indigentes, estudantes, burocratas, sobreviventes da vida nas ruas, atores e atrizes do Cerrado e arredores, índios e suas vestimentas características, índias inteiramente nuas, padres, freiras, estrangeiros radicados no país, profissionais de comunicação do mundo todo, militares, prostitutas, travestis, mulheres-crentes e suas tranças desalinhadas até a cintura, mulheres de pano na cabeça e no rosto, mulheres de tailleur e de minissaias e de calças despojadas e homens de terno e gravata e de bermuda, tipos os mais variados, alguns andando de um lado para o outro, enquanto outros preferiam sentar-se no chão e outros, ainda, deitaram-se. Todos em silêncio.”

(...)

“Desânimo nunca mais; imposições nunca mais; demagogia nunca mais; corporativismo nunca mais; inclusão, progresso econômico, financeiro e humano, sempre. Democracia sempre. Esclarecimento sempre. Cultura, educação, capacitação; respeito; ética - sempre. Punição por meio de prisão e/ou prestação de serviços comunitários, banimento e constrangimento por meio do mais absoluto ostracismo aos corruptos e corruptores. Assim foi.”

5.04.2013

UM APERTO


Eram nove e meia da noite de terça-feira, véspera do feriado do Dia do Trabalho. Eu esperava um taxi em uma rua erma, escura, onde se encontram modernos prédios de escritórios. O final da rua dá acesso a uma comunidade de pessoas pobres e suas casas pobres. Eu estava contente, havia acabado de cumprir uma tarefa difícil, dentro do prazo. O taxi demorava a chegar. Um sujeito de uns trinta anos, alto e magro, passando pela calçada do outro lado, me disse assim:

- Aí só trabalha gente rica, não é doutor? Só vejo entrar e sair carrão daí.

Ele atravessou, mas não inteiramente, parando no meio da rua sem movimento de carros.

- Deve ter gente de muito talento aí, não é, doutor?

Eu respondi que sim.

- O senhor sabia que tem pobre com talento, doutor?

Eu respondi que claro que sim, que eu sabia muito bem disso.

- Aqui perto, não sei se o senhor sabe, logo ali, virando a rua, tem uma comunidade. Nessa comunidade mesmo, doutor, tem muita gente de talento, que podia ter mais oportunidades.

- Eu sei disso – eu falei, não sem certo incômodo, mas pensei que, se ele quisesse algum ato violento, já o teria feito. Ele queira era conversa. Queria a oportunidade de dizer o que estava me dizendo.

- Posso me aproximar do senhor?

Eu disse que claro que sim. Ele chegou bem perto de mim. Vi que ele estava de camisa esporte, paletó e calça beges, calçando tênis. Ele passou a me falar me olhando nos olhos.

- Doutor. Já quiseram comprar a comunidade. Mas as pessoas não querem sair daí. Já moram faz muito tempo, querem...

- Que melhorem as condições de vocês e que deem mais oportunidades a vocês.

- Doutor, só tem gente boa aí.

Uma mulher bem humilde passou por mim e me cumprimentou, com o olhar baixo. Boa noite, doutor, ela me disse.

- Boa noite, eu respondi. O homem de paletó e calça beges me disse, em voz baixa e respeitosa:

- Não falei? Só gente boa, doutor. Depois:

- Não sei o que tem nesses prédios, se é hotel, shopping, não sei. Acho que as pessoas que trabalham aí também não sabem da nossa comunidade e que tem gente de talento bem aqui, bem ao lado desses prédios. Mas elas sabem, sim. Elas nos veem das janelas delas, devem ver.

Enquanto me fazia um convite para que eu um dia viesse visitar a comunidade, me assegurando de que eu seria muito bem recebido, o sujeito, me consultando antes se podia e depois de eu ter aceitado, me deu um firme, educado, caloroso aperto de mão.

Ele foi para a sua comunidade; eu continuei esperando o taxi.

3.30.2013

O PRIVILÉGIO

Quem me indicou o filme tem entre vinte e vinte cinco anos, mas as personagens são homens e mulheres aposentados, todos ingleses – aliás, bem ingleses, desses que até hoje ainda não entenderam como o império britânico ficou sem colônias. Uma viúva, que descobre que o falecido deixou dívidas; um marido e uma mulher frustrados (principalmente ela), porque, depois de uma vida dedicada ao serviço público, ficaram sem dinheiro para luxos; um juiz solteiro; outro solteiro que, com seus sessenta ou mais anos, marca encontros dizendo que tem menos de quarenta; uma solteira que se considera nobre; e outra, mais velha, que precisa fazer uma cirurgia na bacia e se acha ainda mais importante que a primeira. Todos vão parar no Hotel Marigold, “para idosos e bonitos”, que fica em uma das ex-colônias britânicas: a Índia. O dono, administrador, marqueteiro e faz-tudo do hotel é um bem-humorado indiano de uns vinte anos. Sua bela namorada não é a nora que a mãe dele gostaria de ter e tem um irmão que é metido a tomar conta dela. Se você ainda não assistiu a O Exótico Hotel Marigold, seja qual for a sua idade, fica a sugestão. Além da boa história e do elenco - por exemplo, quem faz a viúva é Judi Dench, a M do 007 na Operação Skyfall -, o filme traz uma preciosa observação: para os indianos, a vida é um privilégio, e não um direito.

Qualquer um de nós é um ser entre sete bilhões de outros seres de uma espécie entre sete bilhões de outras espécies. Um privilégio. A maior parte de nós não tem a maior parte do que os poucos de nós temos: onde morar, comida, roupa, medicina, estudo, liberdade de ir e vir, cultura, laser, trabalho. Estudar não é um saco – é privilégio. Trabalhar não é obrigação – é privilégio.

Provavelmente, a única coisa que não é privilégio é ter um governo, mas isso é um pensamento Marxista. Groucho Marxista: do Groucho Marx, que nos deixou pérolas como “Não entraria para um clube que me aceitasse como sócio”, ou “A humanidade, partindo do nada e com seu próprio esforço, alcançou as mais altas cotas de miséria". (É dele também a que diz “Esses são os meus princípios; se você não gostar, tenho outros”. A liberdade de associação de ideias é sua, não vou eu me meter a besta de tirar de você esse privilégio.)

A vida é um privilégio e assistir a filmes como os do Groucho Marx e os aqui citados é outro, que faz parte do primeiro. Boa vida pra você. E bons filmes.

3.23.2013

NO ANIVERSÁRIO DE 19 ANOS DE MARIA LUIZA

Hoje, Maria Luiza faz 19 anos. Assim que ela nasceu, fiz uma canção com um amigo meu, o engenheiro, violonista e compositor Sebastião Coelho. Faz tempo que não vejo o Tião. Ele deve continuar lá no Rio, mais precisamente na sua Maricá, enquanto que eu, em 2000, me mudei com a família para Florianópolis, onde moro até hoje. Os primeiros versos que fiz para a nossa Sonata de Maria Luiza dizem assim:

Quando a bruxa, no alçapão,
Traiçoeira me calar e me prender,
Minha voz, nessa canção,
Dirá bem mais do que eu tinha a dizer.

Enquanto Dona Bruxa não vem, eu e Maria Luiza temos compartilhado muita coisa. Acho que um ano depois que chegamos a Florianópolis, ela, com seus oito anos, escreveu uma frase que deverá ser a epígrafe do romance que pretendo lançar este ano, e que saiu num mural do Colégio Catarinense:

Bonita cidade, quero menos velocidade.

Tenho certeza de que vários desejos de Maria Luiza foram atendidos, mas esse, particularmente, não: os carros aqui estão cada vez mais velozes, a não ser quando parados em engarrafamentos, que vão se tornando uma triste constante nessa ilha tão bonita.

Outro desejo não atendido da Maria Luiza foi montarmos a peça que eu escrevi quando ela estava com os mesmos oito anos, chamada “Oh! Cacatua!”. Na peça, a cacatua do título chega a Florianópolis trazida da Austrália por fortes ventos: ventosamente. Não tive medida no número de personagens e o resultado é que a peça nem chegou a ser ensaiada. Mas deixamos gravado um trecho, onde eu imito as vozes de outros personagens e Maria Luiza diz as falas da cacatua com grande convicção e ótima entonação. É só uma questão de acharmos a fita gravada e o texto, que começamos tudo outra vez – mas só se Maria Luiza quiser.

Um pouco depois, foi ela que escreveu um livro infantil, que temos até hoje em casa e que um dia, se Maria Luiza quiser, publicaremos, com os mesmos desenhos feitos por ela para ilustrar o texto.
Já no ano retrasado, quando estava se preparando para o vestibular, Maria Luiza escreveu um conto, que publiquei no mariobenevides.blogspot.com e foi bastante elogiado, inclusive por profissionais das letras.
Podemos não ter montado até hoje “Oh! Cacatua!”, mas vivemos um monte de coisa juntos. Assistimos a seriados americanos de comédia, retratados por ela em caprichados desenhos em mais de um Dia dos Pais ou de meus aniversários. Quando ela estava ainda com dois anos, passeamos de mãos dadas pelo acostamento da estrada para São Lourenço, enquanto Rosa, minha mulher e mãe dela, descansava um pouco da bela mas tortuosa sucessão de curvas da estrada.

Dividimos, eu e Maria Luiza, muitos e cabeludos exercícios de matemática e português. Houve um certo binômio de Newton que não quis se revelar na noite dos estudos, mas, na manhã seguinte, indo para o aeroporto, eu consegui passar a solução para ela, que me disse, eu achei o mesmo resultado, papai.

Houve uma época em que eu viajava tanto, que Maria Luiza me desenhou em um avião da TAM com um telefone e um fio espiral saindo da janela do avião até chegar a ela na terra.
Na viagem que os três fizemos juntos no começo deste ano, Rosa nos fotografou de costas, caminhando por uma rua de Paris, eu com minha mão esquerda no ombro esquerdo da minha filha. Não fosse a foto feita por Rosa, jamais me seria possível ver essa cena, que tanto diz dessa nossa relação de pai e filha.

Hoje Maria Luiza faz 19 anos. Está cursando o segundo ano de medicina, faz balé na Escola Arte-Dança trabalho voluntário em uma clínica. Tem um namorado que é gentil com ela, o que nos deixa muito felizes, porque gentileza é algo muito precioso. Que o namoro deles dure o que durar, sempre com essa gentileza que percebemos entre os dois.

A última estrofe da minha sonata com Tião Coelho, feita para Maria Luiza assim que ela nasceu, se parece com a primeira, mas com uma pequena diferença:

Quando a bruxa, no alçapão,
Traiçoeira me fizer de seu refém,
Minha voz, nessa canção,
Dirá do tanto que eu te quero bem.

Enquanto Dona Bruxa não vem, digo eu mesmo: minha amada filha Maria Luiza, teu pai te quer muito, muito bem. Todo o que houver no mundo, todo o que for de todo mundo, todo o que for merecidamente somente teu.

3.06.2013

HERÓIS



Uma volta em um quarteirão de São Paulo.
Indignados sacos de lixo esperam o caminhão que os carregue
Dali.
Entre duas esquinas,
Um restaurante italiano e um botequim
Me lembram Adoniran Barbosa.
Outro Barbosa, Joaquim,
Não sem depois se desculpar,
Me lembrou (não Carlitos) Carvana.
Vai chafurdar, vagabundo.
Não posso. Não podemos, Senhor Ministro.
Assim como Vossa Excelência,
Vamos todos trabalhar.

12.08.2012

NIEMEYER, JOBIM, NELSON RODRIGUES... E UM PEQUENO TRATADO SOBRE A BURRICE


Em meu poema “O Burro”, expresso minha opinião de que a burrice humana se difere da do animal propriamente dito, por ser este uma espécie de José Régio em seu “Cântico negro”: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. Acontece que ambas têm este ponto em comum: a vontade.  O burro empaca por vontade, a digna vontade de não ser montado ou carregar coisas para ele inúteis. Pessoas, geralmente sem passar nem perto de alguma expressão da dignidade, optam pela burrice – aquela que é exclusivamente humana.

Quando eu era professor particular de Matemática e Física, mais de uma vez tive alunos cujos pais me diziam para que eu não perdesse meu tempo, porque o aluno ou a aluna – a filha ou o filho deles – era uma pessoa burra. Aqueles pais escolheram que seus filhos fossem burros. Nesses casos, meu trabalho não era exatamente ensinar Matemática ou Física, mas convencer aquele ou aquela adolescente (será que eu deveria dizer adolescenta?) de que ele ou ela não sofria de modo algum de burrice. Modestamente, ajudei-os a passar de ano e também a que fizessem a opção certa: a de não imitar seus pais, já que seus pais, por opção deles, pai e mãe, eram os verdadeiros burros, humanamente burros.

Uma das célebres frases do amigo do Oscar Niemeyer Tom Jobim é: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Pela vontade de alguns, Oscar Niemeyer seria condenado à forca depois de morto, porque era comunista. Pior ainda: Niemeyer era comunista e rico – coisa que não pode ser admitida pelos idiotas da objetividade. (Sua benção, Nelson.) Eu nunca fui comunista, por pensar que Marx e Engels, em seu Manifesto, acertaram no diagnóstico mas erraram na receita. Porém sou capaz de adivinhar que o igualitarismo sonhado por Oscar não era o da mediocridade. Li numa das mensagens que recebi que ele teria mamado nas tetas do poder público. Funcionários, empregados, profissionais autônomos, empresários, uni-vos! Ser pago pelo trabalho que se faz é mamar nas tetas de outrem! Outra pérola: alguém que não conheço, cuja mensagem me foi repassada por um amigo de quem costumo discordar e por isso sempre me faz lembrar Voltaire, disse que não podia opinar sobre a obra de Niemeyer por não ser arquiteto. Atenção. Se você estiver ouvindo Mozart ou Beatles neste momento, se não for músico, desligue o som. Se não é jogador de futebol, quem é você, que não sabe o que diz, alô Noel, para chamar Pelé e Messi de craques? E não venha me dizer que gosta da Maia Desnuda, a não ser sem roupa e com óleo e pincel no bolso.

Pior do que a clara opção pela burrice de não sentir o prazer de ter nascido no mesmo país do Niemeyer – que equivaleria a de um argentino de debochar de Jorge Luís Borges – é a covardia. Esperaram o ancião morrer para cuspir e espalhar uma medíocre, típica inveja do sucesso. Tom Jobim neles.

Claro: desde que sejam músicos. O que, convenhamos, é pouco provável.

10.14.2012

EU NO FACEBOOK

Eu no facebook
acabo de dizer o que estou pensando
o que deve representar certa gravidade:
faço paralelos entre o lançamento de um livro e a gravidez.

Eu no facebook já me adicionei e fui adicionado.
Sou um sinal de mais
Progressão Geoaritmétrica e com linha do tempo
O que deve representar certa gravidade

Porque o tempo é esse desconhecido
Quarta dimensão de quem terá sido
Não mais que um embrião.

Agora fico aqui e fico lá
Pasmo de mim mesmo em outros lugares fora de mim
Mesmo fazendo sonetos que dizem de mim.

9.25.2012

NÓS E A SUSTENTABILIDADE - CONVITES




NÓS E A SUSTENTABILIDADE


 
Por mais de dois anos venho trabalhando em um livro com temas da sustentabilidade, em parceria com Silvia Valdez, que divide comigo a organização, e mais catorze autores. Desde a concepção do livro, o convite aos autores e demais colaboradores, o recebimento, o projeto gráfico, a revisão e a diagramação para impressão dos textos, até seu envio para impressão, um extraordinário trabalho em equipe, que não deixou de ter alguns momentos de fortes emoções – por exemplo, o fechamento de um dos locais previstos para o lançamento, que está confirmado para 4, 8 e 9 de outubro, respectivamente em Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo. Já, já, aqui e em muitos outros lugares e meios, os convites, com locais e horários. Meus emocionados agradecimentos a todos que dividiram conosco essa realização.

mariobenevides.blogspot.com, 25 de setembro de 2012.

7.21.2012

FRIO


Com esse frio
Quem não tosar um bicho
Vai ter que vestir jornal.
Com um noticiário que
Capaz de pegar doença.

7.07.2012

HÉLIO DE LA PEÑA, OS DEZESSETE DA KOMBI E OS DEZOITO DO FORTE


Sábado ventoso em Florianópolis, minha mulher, gripada, enquanto nossa filha ainda está a caminho, de férias, voltando da serra gaúcha, e de ônibus, pedimos um peixe para almoçar em casa. Para acompanhar, ela, um tinto, eu, um Chardonnay, que se encontravam entocados e intocados na adega do apartamento, verdadeira personagem de novela moderna: artificial e sincera. A rádio FM tocava boas músicas, até que, às tantas, um David Byrne que, com minhas indevidas desculpas a ele e ao Caetano Veloso, ultimamente não me tem agradado. Por isso, depois do almoço, a TV. Eis que Angélica entrevista o Casseta Hélio de La Peña, vestido com a camisa do Botafogo. Nada contra qualquer outro sotaque - pelo contrário, sou viciado neles –, mas o carioca me inebria, muito mais que um tango, que um Malbec ou um Chardonnay. Nada contra qualquer time, a não ser o Boca Juniors, esse antijogo da modernidade - mas o Botafogo, na i-ne-nar-rá-vel narrativa do locutor Casseta, é o de 1967 e 68, o de 1989, o de 1995 e o de 2010; é o de um barão holandês, que, como o Bafo da Onça, acabou de chegar, cujo nome não sei - mas sei que é casado com uma brasileira e que seus antepassados vieram a nado da África para que ele nascesse na Guiana; é o de uma van, com samba da Beth Carvalho e hino alvinegro primeiro e único cantado pelo Zeca Pacodinho, em companhia de Edson Celulari, Marisa Monte, Ed Mota e mais alguns outros notáveis botafoguenses, que se perguntam: - Mas não éramos dezoito? De pronto, um deles esclarece: - Não, os dezoito eram os do Forte.
Pois é de longe que grito e tento por eles ser notado:
- Jesus Cristo, estou aqui! Somos, sim, dezoito! E atenção! Loco Abreu a vista! O branco-e-preto é outro, mas, nos pênaltis, em se cavando, tudo dá!
E assim me despeço: vou à livraria procurar o livro do Hélio de La Peña, que conta o Botafogo para crianças. Ele está certo: o Botafogo sempre será para crianças.

6.18.2012

O POETA E QUEM SENTE, MATEMATICAMENTE


Fernando Pessoa, um dos seus para sempre. O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. O que o poeta não disse, por falta de vontade (mais provavelmente), é que o hipócrita é o fingidor que finge tão completamente, que chega a não saber que é dor a dor que deveras sente. Que o cruel é um sofredor, persegue e subjuga tão repetida, tenazmente, que sabe e tem prazer na dor, a dor que deveras sente. A troco de que isso agora? zero, matematicamente.

5.29.2012

ANÚNCIO DE JORNAL


Agora é que o cara conseguiu me reinicializar e ainda não consultei certos sites que conheço. Não sei se as ilhas gregas foram vendidas, se as Falklands se tornaram Malvinas ou se Falklands e Malvinas abraçaram a Grécia, mergulharam com ela e encontraram sem braços uma estátua de mulher nua em dorso e nariz. Outra uma lanterna, outra uma castanhola, outra um ritmo a se desdobrar em muitos. Talvez a alemã ainda tenha saldo no banco, espero que a brasileira também. Que o mundo de repente se perceba desarmado e goste. Que os aviões planem em silêncio e lágrimas, suas asas acolham crianças e as ninem longe de barulhos. Que os generais não queiram guerras. Nem poder. Que este seja público. Cheio de vergonhas escancaradas. Que gurus não existam. Que a verdade não exista, que a maioria sim. Eu notebook. Aceito e-mails.

2.21.2012

ENQUANTO VOCÊ DORME

Enquanto você dorme, eu escrevo. Sou um inquieto. Um ansioso. Parafraseando Louis Armstrong, High anxi... high anxiety...

Enquanto vejo você dormindo, me aquieto.

Quando você acordar, isto será mais uma declaração de amor a você.

Mesmo com o cão fungando nervosamente deitado no chão ao meu lado.

Hoje é feriado. O dia nasce quase em silêncio. Um outro cão late, pássaros comemoram o sol, um ou outro carro passa na rua lá embaixo.

Ontem à noite, você me perguntou: - Você está ouvindo o helicóptero?

Ontem à noite, voavam um helicóptero e um ventilador. Que permanece voando, seu zumbido é como o de um avião pequeno. Menor que um helicóptero, claro.

O cão ao meu lado está em silêncio, agora, enquanto, lá fora, um pássaro se destaca dos outros, avisa que vai se afastar e se afasta. Vai para longe, uma outra árvore, que deve estar longe da primeira. Não vou à janela, mesmo porque, agora, todo momento é um novo agora, há uma sirene.

Isto será necessariamente uma declaração de amor, seja em que formato for, seja com que conteúdo for. Uma declaração de amor a você, que dorme profundamente.

Minha ansiedade passou. Há vezes em que ela passa. Há outras em que ela se passa.

Você dorme bonita como sempre – e como sempre, lembro, em prece, Vinicius e Tom:

“Pra que ela acorde como o dia... oferecendo beijos de amor...”

Um sorriso. Me bastará um sorriso seu. Alguém dirá, Mas ele não tem mais nada pra fazer, que escrever uma banalidade?

Eu poderia fazer o Tratado Geral das Banalidades. Tratado Geral das Coisas Banais – por Mario Benevides. Antropólogo, sociólogo, farmacêutico e hermeneuta. O antropólogo, sociólogo, psicólogo e hermeneuta Mario Benevides acaba de lançar o seu Tratado Geral sobre Coisa Nenhuma. Grande confusão causou a repórter, ao chamar o autor do tal Tratado de proxeneta, desculpando-se depois: - Eu queria dizer astronauta.

Dorme, meu amor, embora o alarme do estacionamento tenha se sobreposto ao canto do pássaro. Há todo um mar, ainda. Poluiu-se recentemente por causa das chuvas, porque se misturam, nas chuvas que caem, excrescências de excrescentes que ligam as excrescências deles nas redes fluviais e pluviais. O rio, o mar, a chuva, o sol, enquanto houver sol e for feriado, iremos à praia. Leremos um livro e uma revista, nos alternando entre uma e outro, entre umas e outras, que serão poucas, moderadas, pode acreditar em mim. Rabiscarei mais umas linhas do meu tratado inútil e depois dormirei, à tarde, enquanto você fará uma visita ou uma caminhada.

Assim somos, fomos feitos, sonhos, sonos, planos. Ansiedades. E calmarias.

O CONSELHEIRO

- Quando eu contei pra ele, ele chorou.
- Qualquer maneira que ele reagisse, você não iria gostar.
- Eu preferia que ele gritasse.
- Se ele gritasse, batesse em você, se ele saísse batendo a porta, se respirasse fundo e dissesse palavras racionais ou mesmo bonitas... se ele ficasse em silêncio, profundo, misterioso, indiferente ou desdenhoso... nada, nada iria agradar a você.
- Não sei.
- Pode ter certeza, é assim que nós somos. A gente quer que aceitem o que a gente diz, não importa o que. Nem a quem. Somente se ele concordasse com você...
- Não era uma questão de concordar, mas de aceitar, de achar natural, sabe, até achar... bonito.
- Poucas pessoas acham isso bonito.
- Mas faz parte da vida.
- Tem muita coisa que faz parte da vida que não é nada bonita.
- Ah, mas não valem comparações com crimes, violência, isso não tem nada a ver com essas coisas.
- Concordo. Mas é algo que, para a maioria, ainda não é normal.
- E o que é normal?
- Um dos sentidos é estar de acordo com uma determinada norma. Ainda que hoje a norma – a lei - seja aceitar, incluir... a norma social de muitos ainda é contrária. Já foi pior, você sabe.
- Eu fiquei muito chateada.
- De qualquer jeito você ficaria. É normal.
- O que é que eu devo fazer?
- Tentar de novo. Vá lá e volte a conversar com ele.
- Pra você é fácil.
- Claro.
- Não é com você, não é? Não tá nem aí... Conselho, se...
- Pague a conta. E vamos embora.

1.22.2012

PERGUNTAS, SAMBAS E FOTOGRAFIAS

Meu amigo Luiz Mauro Beethoven, em resposta a uma mensagem minha, gentilmente me chama de Lima Barreto e me pergunta se a letra de um samba que escrevi há alguns anos tem música. Sim, eu respondo, mas, como foi feita por mim, que não sou Beethoven nem sambista, pode se parecer com a de um outro samba, como saber? E como grafá-la, se não sou pianista como os dois Luíses Beethovens? Meu amigo, que já desfilou numa escola de samba, me manda uma foto de um quarto (será uma sala?) que fica numa cidade chamada Modesto, na Califórnia, da casa de um amigo dele, onde, numa estante, se encontra um exemplar do meu romance “A revolução do silêncio”. Essa revolução nasceu “A dinastia de Ricardo Coração dos Outros”, nome do professor de violão de Policarpo Quaresma, claro, de Lima Barreto, primeiro e único. Luiz Mauro me pergunta se haverá outro livro meu no oeste americano. Modesto, pergunto: haverá uma Califórnia? Ou tudo não passou de um sonho de um dia de inverno, quando alguém entrou numa igreja e fingiu rezar? E uma Liverpool onde um baixista canhoto pergunta de onde todas as pessoas solitárias vêm e a quem elas pertencem, haverá? Onde metade do que um míope diz é sem sentido, mas ele diz assim mesmo, para alguém de olhos de concha e cabelos de céu flutuante, enquanto uma guitarra suavemente chora? Um submarino amarelo, uma banheira, haverá uma banheira com duas cantoras e dois cantores dentro, alguém sabe? Eu e meu irmão, que também se chama Luiz e, como eu, nada sabe de piano, já fomos vizinhos do Luiz Mauro, na Rua Álvaro Ramos, em Botafogo, em frente ao Barbas, um bar do Nelsinho Rodrigues e outros barbudos, para onde eu sempre fugia de uma empregada que não gostava de mim, por mera questão de reciprocidade. Luiz Mauro, na mesma mensagem, me manda um link com fotos do aniversário da Rosa, quando estivemos com ele. Ela me diz, Salva as fotos, grava! Rosa supõe que links sejam como banheiras com cantoras e cantores dentro: passageiros. Eu acho que ela tem razão. Algo que eu nunca tive. Com meu especial abraço para o Luiz Mauro Gomes Silveira, meu amigo Beethoven II, aí vão a letra, a foto e o link.

EU, GRANDE GATSBY

O meu pai é barítono,
eu nasci tenor.
A mãe é Flamengo, eu,
tricolor.
Pedi uma Coca,
só tinha Pepsi,
eu, grande Gatsby,
já não tenho glamour.
Mon amour toujours,
vou fazer uma tour
na Paciência,
por causa da Hortência,
que não joga basquete,
que é garçonete
no bar do Nestor.

O meu pai é barítono,
eu nasci tenor.
Ela é vascaína, eu,
sofredor.
Pedi uma Pepsi,
só tinha diet,
eu, da society,
já não tenho glamour.
Mon amour toujours,
vou fazer uma tour
na Piedade,
fiquei na saudade,
nem mesmo a Adelaide
me quer como amor.

O meu pai é barítono...





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1.14.2012

O INTERNÁUFRAGO E AS VISITAS

É sempre um prazer receber visitas, principalmente de quem me reconhece neste espaço, que geralmente não me via faz tempo e me pergunta: "Mas é você mesmo? Lembra de mim?". Não só sou eu mesmo como sempre me lembro, e muito gostaria de responder às mensagens que chegam em meu endereço de e-mail - que, como vêm via comentário no blog, não contêm o respectivo do autor ou autora, meus muito bem-vindos visitantes. Fico eu sem poder responder, a ver navios, que ainda por cima são virtuais, não me permitem sequer a tradicional mensagem dentro de uma garrafa. Assim (e pela segunda vez), seguem meus dois endereços para correspondência, os quais vou incluir também no campo do meu perfil (o que, evidentemente, já devia ter sido feito há muito tempo): mariocsbenevides@hotmail.com / mariocsbenevides@gmail.com.

Da ilha de Santa Catarina, Florianópolis, hoje com chuvas e céu cinzento,

Mario, o internaúfrago.

1.07.2012

PAUSAS

Haverá inspiração para quarenta minutos de sobra de lan-house?
Em Búzios?
Depois da primeira frase, uma pausa; restam trinta e três minutos.
Há uma falha na barra de espaço e este de repente se ausenta,
implica, requer que eu replique, reclique, reaperte, reaplique
a barra de espaço, para produzir uma pausa,
simples espaço entre duas palavras.
Pausa maior, só se for um

parágrafo.

Reticências, uma pausa maior que um espaço,
menor que um

parágrafo.

Se o texto for uma peça de teatro,
a pausa se pede por extenso: pausa.
Longa ou curta,
pau-sa.

Vinte e quatro minutos.
Menos,muito menos que vinte e quatro horas,
Hoje,
um belo dia de sol em Búzios.
Dia de vagabundos,
de quem está de férias,
o que não é o caso da lan-house e seu ad-
ministrador,
que trabalha onde eu divago,
passeio com palavras,
brincando com o tempo,
não é sempre assim,
raro isso é
possível.

Fico por aqui,
quando ainda me restam vinte minutos.

Pelo menos de lan-house.

Pelo menos nesta lan-house
que fica em Búzios.

12.27.2011

LUZ DE ELEVADOR

O espelho e a luz do elevador
provam nossa existência depois da morte.
Todos ficamos cadavéricos
debaixo da luz descolorida que sobe ou desce
no reflexo magnético do espelho mórbido.
Vizinhos que se cumprimentam e se olham no espelho sabem:
naquele momento não são, estão de passagem,
espectros de si mesmos.
Comentam seus espectros
que houve um tempo dos pais ou avós em que a luz
era de abajur.
Se um deles aceitar o convite para trocar de luz
de elevador para de abajur, a viagem será no tempo
desde que não se fale da cor – lilás. Neste caso
a viagem será também de bairro.
Chegamos ao térreo,
não houve o convite, somos nós mesmos
vivos
em si mesmos.

12.04.2011

PROGRESSO

Se me querem poeta,
por favor uma rede,
uma mulher,
um mar,
uma vila de pescadores,
peixe, cerveja, cachaça,
lápis, papel, borracha.

Se me precisam engenheiro,
me bastam lápis, papel,
borracha.

11.02.2011

DO EXÍLIO DE QUEM FICOU

Nem Gonçalves Dias nem Lulu Santos
nem a Ipanema de Vinicius.
Preferiram Jack Kerouac, O. Henry,
Paul Auster, Woody Allen,
Carlitos, Tom Jobim.
Partiram para Nova Iorque,
Ela, Michele e Renata.
Foram ver de perto se
é mesmo quando já não se espera
que o trompetista começa
a música que surge do nada.
Foram ser poetas, filósofas, descobridoras,
inventar
a própria
Manhattan.
Entrarão na fila do teatro,
sairão de lá melindrosas e
haverá uma conta de um aluguel que
não será pago e
a dívida
não será delas.
Andarão de charrete no Central Park,
verão Nova Iorque de cabeça pra baixo,
porque assim recomendava o maestro
que lia Drummond.
Verão lojas chiques, lojas baratas, museus,
árvores sentindo frio, cantinas
italianas, bares
plenos de jazz.
No domingo,
um desempregado e seu violão e sua gaita
soarão numa Washington Square no Greenwich
Village. Um violino
Soará no Soho.
Nós, em preto-e-branco, ficamos aqui.
Na tela da TV, O Garoto;
na do computador,
sob sisudas atentas louras sobrancelhas,
os olhos da nossa garota,
que um dia dirá
este, o DNA
de Nova Iorque.
Assim mesmo, ela e quem mais puder,
todos
iremos
a Nova Iorque. Poetas,
veremos o mundo
como o viu o maestro.
De cabeça pra baixo.

VASOS CHINESES

O blog quebra meus versos como quer
como quem quebra vasos chineses
como quem desenhasse um poema
desdenhando de fato
da busca
do poeta
pelo ritmo
que sapateia em sua cabeça enlouquecida
de poeta.
Como o traço
de quem pinta
tentando imitar o traço
pintado na cabeça de um jeito
que só quem o pintou
de fato o percebeu.
Comentários, leio aqui.
Opiniões que eu possa ter,
que possam se parecer com as que sapateiam
em minha cabeça enlouquecida de poesia,
que quem as queira saber,
parafraseando, a um só tempo,
Vinicius e Oscar Wilde -
riscos, melhor corrê-los -,
por favor,
mariocsbenevides@gmail.com,
mariocsbenevides@hotmail.com.

10.30.2011

DE PALAVRAS E NÚMEROS, COM DIREITO A PROUST E BAUDELAIRE

Peço desculpas e ela me diz
Imagina!
Agradeço e ela me responde
Imagina!
Já que é assim, eu imagino
a cena da nossa amiga Isabel em Aracaju.
Isabel chamou o garçom, que prontamente a atendeu:
Pois sim?
Inusitada cena,
pois não?
Pelo telefone,
Peço ao taxista
que me apanhe pontualmente às 8:00;
ele, que me respondeu Não, não,
pontualmente às 8:00 está me esperando.
Digo tchau a ela. Ela,
Tchau, tchau.
Tento dar dois beijos nela;
o segundo fica no ar. Eu,
feito um colibri à la recherche du fleurs du mal perdu.
E me pergunto, afinal: que mal cometi?

10.01.2011

AS CORES DAS LEMBRANÇAS: UM CONTO DE MARIA LUIZA BENEVIDES

É branco, é limpo, é vazio. De hora em hora moças entram, mexem aqui e ali, reconfortam meu pai com as cobertas. Uma ou outra me oferece um copo d’água, nunca aceito. Desdenho o incolor, o inodoro e o insípido; eles já são suficientes ao meu redor. O hospital sem cores, meu pai deitado sobre e sob lençóis alvos, que dão continuidade à sua palidez. Ele está por fora como está por dentro: ausente. Sua doença levou sua memória e trouxe a minha. O descolorido daqui me faz buscar a pigmentação da minha infância.

Saudade tem cor. É uma tinta misturada com o verde fraco do verão e o bege forte das secas do inverno. Torna-se turva quando junto a ela vêm reflexões presentes. O que me é estranho, pois, nessa hora, o branco não traz clareza, mas escurece. É o alvo medo de perder meu pai. O sertanejo que deixou seu coração no campo, fugiu da sede e encontrou a cidade. Dorme agora, sonha talvez, enquanto eu, acordado há dias, me lembro do que passou.

Vem sombra fresca, vem cheiro doce, vem gosto azedo. Pita–pitangueira–eira–beira-beiradinha, me dá uma mordidinha. Eu, menino, cantarolava assim para arrancar-lhe um pequeno vermelho. Papai ria de mim, enrugava a pele maltratada pelo sol do canto de seus olhos e mostrava-me seus dentes amarelos. Envergonhado pela música de rimas bobas, eu mordia logo uma pitanga e respondia sua expressões com caretas azedas. Ríamos juntos. Nossa melhor amiga.

Éramos muito unidos e, para o desespero de minha mãe, travessos. Roubávamos suas bolas de meia para jogar futebol, seus grampos de cabelo para pinçar minhocas no quintal, seus ovos recém-chegados da feira para jogar nas paredes detrás da casa. Ela nos punha de castigo. Sempre embaixo da nossa árvore. Uma delícia. Aprontávamos tudo de novo.

Aos poucos, o sabor azedo da pitanga, o cheiro seco dos dias quentes e a sonoridade da risada do meu pai desintegram-se no ar desinfetado do hospital. É tudo água novamente. Como aprendi na escola, quando viemos para a cidade, incolor, inodoro, insípido. Acorda logo, pai, colore as lembranças comigo.

Maria Luiza Benevides.

9.21.2011

SUA SOMBRA

Se você mora em uma casa com quintal, pode ter um ou mais cães de guarda, com a certeza de que todos protegerão você, sua família e seu patrimônio contra esses terríveis potenciais agressores: as plantas. Depois de muito adestramento, que incluirá um investimento em cercas, as plantas não mais serão protegidas – isto é, agredidas - pelos seus cães adestrados, os quais, por terem sido tornados destros, forçados, portanto, a deixar seus hábitos de animais canhotos, desenvolverão tiques e passarão por isso a enfeitar seu quintal com belas esculturas – ou, a depender do estilo, instalações. (Lembre-se: o contrário de destro, o vulgar canhoto, é sinistro.) Como já dizia Oscar Wilde, toda arte é inútil: suas novas obras de arte não servirão como adubo, somente como campo minado exclusivo para você, especialmente quando chegar apertado para ir ao banheiro.

Mudando-se para um apartamento, sofrendo de remorsos, você já terá doado seus pastores alemães-belgas-rottweilers e terá adquirido um poodle. Quando você chegar esbaforido, ele reagirá em seu favor, latindo esbaforido; se deprimido for o seu estado, ele murmurará Freud; se alegre se encontrar sua alma, pedindo por uma cerveja gelada, o xixi já estará à sua espera no sofá. Cães se cumprimentam pelos fundos e é com eles que deixam suas marcas; portanto, entre sempre pelos fundos do apartamento, sabendo que instalações estarão esculpidas à espera do seu caminho até a área de serviço, local onde deixar seu guarda-chuva, que pretensamente nos protege daquilo que não nos ataca, somente nos molha: a chuva, que, mesmo ácida, é melhor que o guarda-chuva, principalmente se você tiver um poodle em seu apartamento.

Você pode optar por gatos, mas sempre no plural, porque gatos de pardos não têm nada, são tigrados, brancos, pretos e marrons, e muito dóceis, desde que você goste de colecionar testículos felinos. Prefira os incertos, os fugidios, os rebeldes, que saem de noite para brigar com cães. Pode ser que assim o vitorioso seja você.

Em qualquer situação, cuide bem da sua sombra: é ela que estará pairando no piso do quintal e da área de serviço, no assento do sofá, no choramingar e no latido do cão, no ronronar e no miar do gato, no silêncio da madrugada interrompido pelo triturador do caminhão de lixo, pela campainha do despertador, ou por um interminável e invisível chiclete mascado pelo poodle - que, agora, você leva para o seu quarto, para que ele pare de latir para a sombra alheia. Admita: a sua é uma sombra egoísta.

Palavra de canhoto.

9.12.2011

VARANDAS

Eu preciso roubar alguma coisa de você, não porque não goste de você, pelo contrário, por gostar demais. Com seu consentimento, já invadi seu corpo e sua vida, e será consentido que vou roubar seu relógio e só usá-lo quando estivermos juntos. Na cozinha, percebi que sou capaz de enxergar com seus óculos. Não me caem bem, não me ficam bem, mas me cabem no bolso. Mesmo assim, melhor que eu continue usando os que são meus e carregue comigo seu olhar, seu modo de ver o mundo, as pessoas, de perceber a si. Levo seu olhar emprestado por saber que ele continuará em seus olhos. Com o relógio que roubei de você no pulso, eu só vou se você me levar pela mão.

A bailarina agora tem namorado, desejo, continua dançando quando pode e estudando muito. Pensou em mudar de rumo, engenharia química, não mais medicina. O que ela mais quer para o futuro dela, que dela é próprio, é pesquisa. Pensou, repensou, tornou a querer medicina. Dezessete anos e já é necessário tomar uma decisão do tamanho da sobrevivência e do sonho. Foi fotografada por você em um momento de dançarina, esguia, atenta, questionadora, tudo ao mesmo tempo e do tamanho do sonho, esperando por uma nova instrução da coreógrafa, com a meia rasgada na altura da coxa. A foto em preto e branco mostra o que sabemos dela, que continua cristalina, verdadeira, olhos nos olhos, com a vontade que dela é própria, com a leveza que só as bailarinas têm.

Vamos lá fora, onde bate o sol em varandas que veremos da calçada e que estarão vazias, porque frequentadas por quem estará por perto, enquanto eu falarei de outras, outras varandas.

Uma já faz um tempão que estive lá. Três semanas. Bar Urca, no Rio. Em cima, um restaurante, embaixo, um botequim, em frente, a baía de Guanabara. É preciso começar por baixo, onde o mundo é caótico, todos pedem cerveja, empadas e pastéis gritando junto o próprio nome ou o de alguém que tenha autorizado outros a fazê-lo. Meus outros são amigos de muito tempo, André e Gyzelle, Rubens e Henriette, Ramon e nosso Botafogo, Sandra e Murilo Haydt. Como o Botafogo não nos passou procuração para pedir cervejas em seu glorioso nome e sempre imprevisível campanha, que ganharia mais tarde do Atlético Mineiro e que ontem (hoje já é segunda-feira) perdeu de goleada, em terras cariocas, entre Haydts, Henriettes e Gyzelles com sobrenome húngaro, melhor que o meu fosse o nome a ser gritado, em total confiança aos muitos desconhecidos presentes. A mesa é a mureta que nos separa do mar, onde os barcos são generosos conosco: mesmo ancorados, balançam por nós, que bebemos de pé, continentes e emocionados. Fechamos sem questionamentos a primeira conta da tarde no bar e subimos. Quando subimos, sentados, comemos pescados. A imensa baía, com seus morros felinos, femininos, de lá de fora da janela, nos espiando, cuidando de nós. Quando veio a segunda conta e o Ramon estranhou a quantidade de cervejas, o garçom nos disse, Vocês beberam bem. Nada como um elogio para terminar uma tarde em uma varanda assim.

Outra parece que foi ontem. Ficava entre Araruama e Cabo Frio, onde aportamos, eu e o mesmo Rubens que estava comigo no Bar Urca há três semanas, primeiro na calçada, onde eu dormi com a cabeça sobre minha sacola de viagem e o Rubens passou a noite em claro, esperando que nossos amigos, que não sabiam que viríamos, voltassem para a casa em que estavam hospedados. Outro Murilo e que conheço há mais tempo ainda, o Drummond, e o Venâncio, que hoje mora em São Luís do Maranhão, já tinham feito dezoito anos, ao contrário de mim e do mesmo André, que estávamos com dezessete, ao contrário do Rubens, que já tinha chegado na frente de todo mundo aos dezoito e nunca quis saber de carro (aliás, nem de bicicleta). Pois o André recentemente achou uma foto dessa varanda, onde eu e Murilo estamos sentados em um barco de pescadores na areia da praia. Porque era um dia de tempo instável, ora chovia, ora era friozinho, eu e Murilo estávamos de camisas, sapatos e calças compridas, em plena praia. Por que minha filha, quando viu a foto, disse, Que horror, papai, só porque as calças eram de boca de sino, é um mistério insolúvel, que apenas se repete a cada geração, como as calças com bocas de sino se repetem a cada duas.

Outra faz um mês que visitamos. Era 13 de agosto. Nesta, você estava comigo. A bailarina e o namorado dela também. Fica numa ilha cercada de Lagoa Rodrigo de Freitas, Copacabana e Ipanema por todos os lados, onde meu irmão fez uma festa que será para sempre inesquecível. O apartamento onde ele mora, com livros e antepassados nos livros e nas fotos por todos os lados, foi tomado de parentes e amigos por todos os lados. Porque fazemos parte deles e porque somos pais da bailarina, dancei com você a noite inteira, com meus sapatos de Fred Astaire que ganhei do meu irmão, quando o aniversário era o dele, o dos cinquenta anos dele.

Outras ficam no verso de uma canção: tios na varanda. Tios do Cosme Velho, de Petrópolis, de Laranjeiras.

E toda essa história de varandas veio por causa de uma que, de tão especial, deixei no ar em um texto de quando a filha do André se casou e o irmão mais velho dele, Antônio Julio, recentemente achou esse texto e me perguntou, Quando é que você vai falar dessa varanda? (E perguntou por escrito.) Pois era uma varanda onde todo fim de Natal uma turma de loucos se reunia e cantava e conversava, enquanto Dr. André e Dona Mariana, os donos daquela varanda, nos olhavam, ora de perto, ora de longe. Os dois sabiam da nossa loucura; e gostavam dela. Gostavam tanto, tanto da nossa loucura, que fizemos como fazemos questão de continuar assim, loucos, flanando de varanda em varanda. Por isso é que assim prossigo, uma ilha cercada de livros a me proteger de mim, nossos amigos a me proteger de mim, enquanto a bailarina estuda e fala com o namorado, o Antônio Julio brinca com a neta, o André espera que a dele nasça da filha Luciana, o Murilo Drummond veio nos visitar com suas bailarinas Eliana e a filha deles Alessandra, Julio, André e Venâncio permanecem tricolores, o Rubens e o Murilo Drummond flamenguistas, o Haydt, vascaíno, eu, meu irmão e o Ramon insistentes, você, Sandra, Henriette, Eliana, Gyzelle... nos guiando em segurança.

Por isso eu permaneço com o relógio de pulso que roubei de você, esperando que você me leve pela mão até a próxima varanda.

Desde já, esteja avisada: irei com meus sapatos de Fred Astaire.

8.05.2011

VISITAS

Quem pouco abre a porta e se mostra
Quem não anda pelas ruas cumprimentando gente
Nem entra na padaria
Nem toma chope nem café

Quem não anda de ônibus
E não vê de manhã rostos esperançosos e sonolentos
E à tarde-noite não os vê exaustos e desesperados

Quem não escreve poemas
Não se expõe ao frio gelado da varanda de um bar
Quem não recebe amigos em casa
E quando os tem não os percebe
Não espia nem expia pela janela seus medos,

Não recebe visitas
Por exemplo, da Maria Beatriz
De nove anos, que faz dia 17 e quer ser médica e atriz,

Não conversa longamente com uma professora
Sobre filmes, séries, livros, aos chopes e relentos
Enquanto, lá dentro, gritos
Entusiasmados
Por um jogo de futebol,

Não recebe visitas inesperadas distantes
no tempo.

É preciso se expor
Mostrar a cara e os dentes
Sentir frio e correr outros riscos
Sentir frio

Até que depois ela chegue
A coriza
Insistindo que veio com o relento
Que melhor teria sido esperar que ela aparecesse
Quando quisesse
Do vento frio de uma fresta de uma janela
Hermeticamente
Fechada.

7.24.2011

DO QUE ELAS QUERIAM FALAR

De olhos fechados, vejo rostos que não conheço.
Como não conheço a imensa maioria das pessoas, não deveria me assustar com isso.
Mas me assusto.
Com meus olhos fechados, vejo pessoas que me mostram seus olhos, sorrisos, expressões, perfis.
Há uma negra que chora, deve ser pela morte de Amy Winehouse.
No rádio, só pelo primeiro acorde, já reconheço o toque, já adivinho a voz.
Buddy Guy.
Depois dele, Paulinho Moska e Kevin Joahnsen,
Waiting for the sun to shine.
Ao saber ontem da notícia, como todo mundo, claro, lembrei de Janis Joplin.
Janis disse uma vez que, com o tempo, queria aprender a cantar em voz baixa, como Ella Fitzgerald e Billie Holiday.
Amy disse uma vez que tinha nascido para ser mãe.
Não era de morte que elas queriam falar, era de vida.
Elas gostavam da vida, só não tinham a medida.
Alguém tem?
Abro os olhos e procuro rostos conhecidos pela casa e os há e se não os houvesse eu iria até a rua e veria rostos parecidos com os que vejo com meus olhos fechados, rostos que não me assustam mais, afinal, continuo não conhecendo a maioria das pessoas, que estão por aí, por perto, seus credos, suas rezas, suas certezas, seus medos, seu palavrório, seus silêncios, cigarros, copos, joggings, automóveis, seringas, latas de lixo, calções de banho, tubos de soro, biquínis, relógios de pulso, carteiras, bolsas, pés descalços, sorrisos com e sem dentes, as mãos estendidas, um assalto, uma esmola, um cumprimento.
Quando tiver vontade de morrer, faça que nem o cara da velha piada, que, quando tem muita vontade de trabalhar, fica quietinho num canto, até a vontade passar.
É de vida que queremos falar.
O tempo todo.

7.17.2011

COMENTÁRIOS E WOODY ALLEN

Um dos textos deste blog se chama "Para Karl Valentim". Já foi escrito há muito tempo, nem me lembro dele (claro que eu poderia ir até lá na gaveta do blog e buscá-lo, mas domingo não é dia de se mexer em gavetas). O que esse texto recebe de comentários é impressionante - apenas todos incompreensíveis, porque spam é algo incompreensível, tanto quanto aquele papel de propaganda que prendem no limpador do para-brisa do automóvel. Será que alguém pensa que de fato vamos comprar alguma coisa anunciada em um papel que se esparrama, se espana molhado, arranhando o para-brisa na hora em que começa a chover e ligamos o limpador, e este e suas borrachas, além de levarem de um lado pro outro o papel que se desfaz em tinta, ficam cantando uma triste canção, borrada, chorosa e irritante? Assim faz o spam, espanando, esparramando bobagem e porcaria na caixa de correio e na gaveta dos outros.

Hoje é domingo, dia de tirar da gaveta e da caixa porcarias e jogá-las fora, no lixo que não se recicla, apenas se renova de bobagens, e sem remexer no que mais estiver lá dentro delas, sem buscar mais nada, deixando lá dentro o que deve haver de bom, uma foto, uma carta, um bilhete, um número de telefone que já não se sabe mais de quem é.

Aqui em Floripa venta cinza, triste e ruidoso, depois de um sábado azul. As temperaturas já são mais amenas e amenas são as canções que tocam agora no rádio. Há um jazz, agora, e há o filme do Woody Allen em cartaz, Meia-noite em Paris, suas viagens geniais, Kathy Bates genial como Gertrude Stein, alguns perdoáveis clichês e estereótipos e a tentativa de explicar a mais inexplicável nostalgia, a de se viver em um tempo que não é o nosso. Há uma melindrosa das mais misteriosas e belas e há um certo sumiço que já valeria o filme. Não sirvo para crítico de cinema, não tenho pretensão maior que não a de ir de vez em quando assistir a um filme. Dessa nostalgia de que fala o filme, não sofro - ao contrário, me lembro de Oscar Niemeyer quando fez 90 anos. Ao ser perguntado pela jornalista algo relacionado à idade e à morte, respondeu: - Ah, ninguém quer deixar o espetáculo.

Nem os caras do spam, Niemeyer. Nem eles. Pena que o vento que sopra hoje seja mais ruidoso que a música suave que tocava há pouco no rádio.

7.03.2011

EU E A CAIXA DE CORREIO

Nem só de contas vive a caixa de correio - a tradicional, que já foi das cartas de amor, quando houve um dia em que “a marquesa saiu às cinco horas”. Domingo passado, eu ia saindo para me encontrar com minha mulher num restaurante, e o porteiro me veio com um envelope parrudo, “Não tinha como deixar na sua caixa de correio, Seu Mario”. Mas era para estar lá aquele envelope, se ele conseguisse passar pela fresta feita somente para os que trazem as contas e traziam as cartas, suas juras e seus ciúmes, assim o envelope queria, assim minha caixa de correio desejava. O porteiro completou, “Pode deixar aqui, o Sr. está saindo, na volta o Sr. pega”, e eu, “Não, meu amigo, isso é coisa muito especial, vou levar comigo”. No restaurante, com minha rima pobre e roubada, mostrei todo prosa à minha morena Rosa o livro que ganhei do Ronaldo Werneck, com suas deliciosas crônicas, “Há controvérsias 2”, com uma dedicatória só pra mim, e uma outra, a impressa, com vinte e dois nomes, dentre eles o do nosso amigo Carlos Sérgio Bittencourt. Outro é o do baterista Afonso Vieira, que, assim como o Ronaldo, conheci no apartamento do Leblon do Carlos Sérgio, os três de Cataguases, que então moravam no Rio. Rosa leu em voz alta o fechamento da dedicatória impressa - “22 amigos do peito, dois times mais-que-perfeitos” - e me disse, “Puxa, que coisa mais delicada”.

Tão delicada, Rosa, que me fez lembrar de quando eu e o Carlos Sérgio dividíamos a autoria de textos de teatro, de quando eu fiz parte de um elenco de uma peça dele, “Os visionários da noite”, encenada no Teatro da Praia, em Copacabana, e não faz tanto tempo assim, era um tempo em que eu trabalhava de dia e de noite em projetos de engenharia e o Carlinhos cismou de me convidar para ensaiar uma vez por semana, às 11 da noite, na Fundição Progresso, no velho centro do Rio, que aos poucos vem sendo remodelado, transformando armazéns e fundições, que estes me perdoem, em aproveitamentos bem mais interessantes, como bares, espaços culturais, antiquários com músicos e seus saxofones, assim é minha lembrança. (Ou minha imaginação?) Nos ensaios, no começo, eu não tinha texto: havia o receio de que, só ensaiando uma vez por semana, eu nunca fosse capaz de gravá-lo; mas, devagarzinho, o texto foi-se mostrando importante, foi sendo inventado, íamos inventando juntos, na hora, com sotaque gaúcho ainda por cima, porque eu contracenava com uma gaúcha, que depois se foi para Israel, e a irmã dela, como costuma fazer a vida em suas idas e vindas, veio morar aqui, em Florianópolis. (Ou eu estou errado, Rubens, André e Carlos Sérgio?)

Depois de inventado e escrito o texto, aconteceu o que se temia: todas as vezes eu o esquecia. Chegamos nos ensaios finais, com figurinos, cenário, no Teatro da Praia, e eu, errando o texto. Era engenharia demais me ocupando a cabeça. Mas... Na hora certa, com plateia no escuro, luz difusa no palco, o texto saiu inteiro, a figurinista, descrente quando me via claudicante nos ensaios, me abraçou depois da peça, o elenco todo se abraçava. Parafraseando Noel, fazer teatro é um privilégio, que não se aprende no colégio.

Ao meu amigo poeta, magistral em seus poemas concretos de “Doris by night”, meu amigo cronista, que ainda vai nos explicar porque a marquesa do Paul Valéry saiu às cinco horas, meu amigo Ronaldo Werneck: muito obrigado por me propiciar, além da leitura das suas crônicas, tantas boas lembranças, das noites no apartamento do Carlos Sérgio onde nos conhecemos e conversávamos até de madrugada, quando uma cadelinha chorava toda vez que ele perguntava, Cadê a Carla?, porque a Carla, filha do Carlinhos, havia saído.

Dona caixa de correio: as contas são suas; o livro do Ronaldo é meu; e as cartas de amor também.

6.18.2011

DIÁRIOS E COMENTÁRIOS

Embora apareça muito pouco por aqui, tenho recebido comentários muito interessantes. Resolvi destacar dois e fazer deles meu assunto:

Tai Tai disse...
“Já que estamos em um diário, podemos dizer..
Querido Mario:
Hoje eu estava divulgando artigos científicos muito interessantes no meu blog e cliquei em "próximo blog" (se é mesmo esse o nome) e dei de cara com você, diário do mario. Pois é. Não me contive. Olhei, revirei e senti inveja. Inveja da Maria Luiza que tem música, da Beatriz que tem poema e das Carolinas que tem os dois. Então, querido diário, pergunto: Porque é que ninguém fez nada com o meu nome? Nem livro, nem poema, nem nome de rua, música, tribo indígena. Nem nome de santo. E pior: não conheço ninguém com meu nome.”

Adriana de Adriano disse...
“Olá, gostei muito do teu blog e estou seguindo ele já, aproveito a ocasião e convido vc a dar uma olhadinha no meu blog, e espero que goste e se quiser seguir será um prazer ter vc me seguindo.. Bjus
http://algumascoisasqueeuescrevo.blogspot.com/”

Agora que eu descobri que há quem me siga, algo inesperado para mim, resolvi me tornar também um seguidor - eu, que nem conselhos consigo seguir. Se eu fosse um detetive e tivesse que seguir alguém pelas ruas, fracassaria na primeira esquina, bastando para isso algo que despertasse minha desatenção, distração que me segue e me desvia nas ruas, seja de carro, bicicleta ou a pé (que é a melhor maneira de se andar, principalmente nestes tempos em que a preferência é ficar preso dentro de um carro parado em um engarrafamento que, ao contrário dos rios, não desaguará no mar, apenas estancará de vez, frente à sua - perplexa - imensidão). Uma livraria, um botequim, uma mulher, especialmente a minha, me tomaria a atenção e eu teria que pedir as contas como seguidor profissional e procurar outra ocupação – por exemplo, a de admirar o mar, sua paz, sua inquietude, sua imprevisibilidade.

Se não consigo seguir ninguém nem conselhos, que dirá uma filosofia, seita ou religião. Só o Marx - e não o Karl, mas o Groucho. Como ele, eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio. No meu caso, nada muito profundo ou ideológico, nem mesmo engraçado, porque a graça é dele, tem seu carimbo e assinatura, seu charme e seu talento; apenas porque, de novo, minha distração se manifestaria, antes mesmo de chegar à porta do clube ou da instituição; se lá chegasse, me fixaria mais em um olhar que numa frase. Uma verdade que fosse revelada, uma nova teoria, tudo ficaria menor diante de um olhar humano, mais ainda se o olhar fosse o de um bicho, de um cão, especialmente o de um cão vadio, expressando o mais sincero dos sentimentos: o da fome. Um rabo canino que abana por fome, lamento se decepciono a quem me segue neste espaço, me impressiona muito mais que qualquer dialética, inclusive a negativa de Adorno.

Contrariando tudo isso, vou-me tornar um seguidor de blogs. E atento - até que uma esquina me distraia, até que uma ladeira surja diante de uma rua plana, até que uma árvore mal podada me arranhe o rosto e me arranque os óculos.

Quanto a você, Tai Tai, me dê uma pista, o endereço do seu blog de artigos científicos, para que eu possa, além de segui-lo, tentar corrigir essa tremenda injustiça da ausência de um poema com seu nome.

5.21.2011

DE LIVROS E DE FILHOS

O sorriso da foto aí ao lado é do lançamento de um livro. O sorriso de quem acaba de ser pai ou mãe é diferente deste da foto, como é diferente o de quem acaba de conhecer o filho ou a filha de alguém próximo. Um livro não é um filho, porque um filho não é um livro.

Tenho uma filha, que ontem voltou para casa com dor de cabeça. Passou com um analgésico, abraços silenciosos, luz apagada e sono. Ontem à noite era sexta-feira, como o título de um dos livros do mineiro Roberto Drummond, que morreu torcendo pelo seu time, do coração, de coração, respectiva, implosivamente. Na quinta, fui buscar minha filha no balé. Vestibulanda de Medicina, faz balé como exercício físico, emocional, Arte Dança se chama a escola. Escrevo porque preciso, ela faz balé porque precisa, e vê-la dançar me faz mais bem ao coração que escrever (que dirá que de não escrever). Fiquei do lado de fora, a alguns metros da sala de dança, sentado em uma cadeira plástica, de jardim, ao relento, sem sereno. E sereno. Era um começo de noite agradável, não ventava, não chovia, frio, um pouquinho só. Via e ouvia tudo pela porta aberta do estúdio. Um, dois, três, quatro... Um, dois, três... Mais rápido agora, meninas. Uma delas passava pela fresta da porta, minha filha passava com seus passos e seu sorriso, passava um rapaz negro e sua altivez de dançarino.

Preciso imensamente lançar um novo livro. Trabalho agora em um que é compartilhado com outros autores e autoras. Um belo projeto, que pretendemos lançar este ano. Alguns amigos, principalmente amigas, me dizem que eu deveria publicar minhas crônicas. Mando meus romances e poemas para concursos. Muitos anos atrás, eu morava no Rio, no Cosme Velho, e uma amiga, Anete, morava em Belo Horizonte. Ela conhecia o Roberto Drummond de uma agência de banco, e deu a ele um original meu, um romance que escrevo e reescrevo deste esse tempo, 1993, ano em que meu pai morreu e Rosa, meses depois, ficou grávida de Maria Luiza, nossa bailarina e futura médica. Tive a honra de conversar com Roberto pelo telefone, que, com tanta atenção e delicadeza, me disse assim, seu livro é bom, é original, lute por ele – e me aconselhou a inscrevê-lo em concursos. Só agora, dezoito anos depois, é que me interesso por eles. E escrevo e reescrevo o mesmo romance lido pelo Roberto Drummond, já tendo escrito e publicado outras coisas enquanto isso, porque esse é como se fosse...

No ano em que nossa Maria Luiza nasceu, Tom Jobim partiu. Quando parte um Tom Jobim, é uma parte do mundo inteiro que se vai, e ninguém de verdade sabe para onde. Ele e Vinicius morreram aos sessenta e sete anos: Vinicius em 1980, e o Tom, 1994. Na TV, um especial e, dentro do especial, algo ainda mais especial: o ator Paulo José disse um poema do Tom, cujo refrão dizia “Maria Luiza acordou sem febre”. Meu amigo Murilo, que também assistia ao programa, me ligou e me perguntou como ia a nossa Maria Luiza. Sem febre, eu respondi. Ele então me disse, é duro, o Tom se foi, mas a Maria Luiza está sem febre.

Hoje, Murilo, Maria Luiza acordou sem dor de cabeça.

Um livro não é um filho, porque um filho não é um livro.

4.03.2011

AÇÃO E REAÇÃO

Ninguém deixa de reagir a um ato de violência de que seja vítima. Apenas a reação poderá ser de um jeito que não o de um outro ato de violência em resposta ao primeiro. Se for impulsiva, terá sido nada mais que isto: impulso, instintivo impulso. Há bons e muitos exemplos de quando não á assim, impulsiva e nada mais, e de ampla gama: reações filosóficas, pragmáticas, racionais... Para começo, dois: Mishkin - "O idiota", de Dostoevsky -, e o pai de Will Eisner em sua (quase) autobiografia em (como sempre, magistrais) quadrinhos, "Ao coração da tempestade" ("To the heart of the storm"). Um terceiro, o mais célebre, o bíblico "Ofereça a outra face", naturalmente guarda infinitas possibilidades de interpretação e uso. Fui vítima de um ato de violência na sexta-feira passada, logo na tradicional data das pequenas mentiras, pegadinhas: 1° de abril. Este meu 1° de abril teve uma literal pegada - e deixo para contar a história em uma outra oportunidade. Fato é que minha reação pode ter sido parecida com qualquer uma das três citadas; garanto, porém, que o que mais teve de característico foi a racionalidade; a razão. Eu estava em uma audiência pública, com promotores, procuradores, advogados, líderes políticos e comunitários e muita, muita gente, em um auditório fechado, com mais gente ainda do lado de fora, e, dentre essas pessoas, alguém sabidamente violento, egoísta, imediatista, destemperado. No inesperado, poderia haver algo de esperado; e de premeditado. Minha razão, com toda calma, se traduzida em palavras, o que me disse foi: preserve-se. e aos outros. Depois, vá à Justiça. Fui agredido de surpresa e sem possibilidade de reação. Por que minha lembrança não é racional, por que ela se afasta da minha razão e mesmo do meu sentimento, é algo que acaba por desaguar em outra pergunta: quanto tempo e quantas vezes podemos suportar a diferentes agressões, quando todas têm uma mesma origem? Quem puder, que responda, filosófica, pragmática, racional ou, quem sabe, a melhor de todas as maneiras, impulsivamente.

2.27.2011

DE PASSAGEM, DE REPENTE

Os ventos mudam mais rapidamente em uma ilha, muito mais que no continente, muito mais que nossas convenções. Agora é noite de domingo, aqui nesta ilha é noite de domingo, em algum lugar já é segunda-feira, dia da lua, lá, hoje era ontem, domingo, dia do sol. Aqui na ilha e hoje, durante o dia, o sol ficou encoberto, os ventos é que mudaram o tempo todo, rapidamente, quase que furiosamente. Muita coisa tem mudado furiosamente, sempre menos que os ventos. Isso tudo ventado, carregado por aí, calma ou nervosamente, o que paira, mesmo, é a dúvida. Enquanto for assim, que bom, porque, quando ela se for, quando a dúvida se for, restará uma imbecil certeza. Aquela que nem de si mesma sabe. Aquela que não quer saber.

2.17.2011

BIA, MARIA BEATRIZ

Bia, Maria Beatriz,
nome tão bom e bonito,
convite para uma rima,
que eu não caia na tentação
de rimar seu nome em vão.

Bia, Maria Beatriz,
pega onda, surfa onde há espaço,
risca o desenho mais bonito no traço
do passo da ginga do berimbau.
(No ônibus, toca violão.)

Bia, Maria Beatriz,
é valente e sincera.
Tão suave e à vera
caminha, que deixa mais leve
a paisagem.

Bia, Maria Beatriz,
faz de si personagem
(se quiser, é atriz),
mas é na tela, na tinta,
na ponta do lápis de giz

Que deixa gravado seu nome,

Bia,
Maria
Beatriz.

Bia, Maria Beatriz,
nome tão bom e bonito,
convite para uma rima,
que eu não caia na tentação
de rimar seu nome em vão.

A PABLO NERUDA

“el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca”
(Pablo Neruda, em Oda al gato:
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca)

Ontem, no fim da tarde, vi um sujeito andando na calçada, um pouco à minha frente. Seu cabelo era todo branco, vestia uma camisa-pólo verde e uma calça jeans, seus sapatos eram pretos e de cadarço, trazia nos ombros uma bolsa a tiracolo, cansada, de couro marrom, e um assobio. Eu sempre tive muito mais sorte no amor do que no jogo, mas aposto assim mesmo que esse sujeito, se não for engenheiro, é poeta. Se fosse como eu, querendo ser poeta e tratando de imitar a mosca, traria nos ombros um peso que não se descreve, que não precisa de bolsa para se manifestar, que, para ir embora, só precisa de assobio. Pode ser o da andorinha; pode ser o do andarilho.

1.30.2011

MEU PRIMO CACÁ E O VISCONDE DE SABUGOSA

Florianópolis, 30 de janeiro de 2010.

Meu caro João Marcelo:

Vários passarinhos continuaram se reproduzindo graças a mim e ao seu pai, João Carlos Benevides e Maia, o Cacá. Quando eu e ele éramos garotos, ainda não havia o espírito de preservação de hoje em dia. Todos tínhamos um negócio que, dependendo do lugar, se chamava bodoque, estilingue ou atiradeira. Era uma forquilha, um Y de madeira, com um elástico de borracha, e a meninada punha uma pedra no elástico, puxava e atirava a pedra contra um passarinho. Graças à nossa imbatível falta de mira, eu e seu pai nunca matamos um único passarinho. Eu me lembro de uma vez que subimos o morro atrás da casa onde ele morava com os seus avós e tios, e nem chegamos a perder muito tempo com aquela maravilha da engenharia da caça aos inocentes: fomos convidados a almoçar na casa de um amigo dele, lá no morro, e eu, que era tido como um chato para comer, comi muito bem, obrigado. Tinha um camarada que morava lá que bebia água da chuva depositada em poças. Nós dizíamos a ele: “Rapaz, água parada é suja, faz mal pra saúde!” - e ele respondia, “Que nada, eu estou acostumado.”. Esse garoto jogava futebol tão bem que, adivinha qual era o seu apelido? Pelé, é claro. (Da minha parte, modestamente, sempre fui um perna de pau.)

Outra história era a bola de gude. Como a gente gostava de bola de gude! Eu ganhei uma faz uns dez anos da minha filha e minha mulher já quis me internar em um hospício umas quatro vezes, só porque eu ando com ela na minha pasta (a bola de gude, não a minha mulher). Na época do estilingue, morávamos em Laranjeiras. Eu, na rua Umari; seu pai, na Pereira da Silva, que começa no nível do mar, embora um pouco longe dele, e vai virando uma ladeira que, em algum lugar misterioso, pelo menos para mim, se une ao Parque Guinle. A rua Umari era de paralelepípedo e, mesmo assim, jogávamos bola de gude na rua. O jogo começava com a seguinte pergunta: “Bola ou búlica?”. Como eu nunca soube o que quer dizer “búlica”, sempre escolhi a bola. Uma vez eu dei um teco tão bem dado que quebrei a bola de gude do Cacá. Sabe o que ele fez? Deu uma gargalhada e me declarou campeão. Sinceramente, não me lembro de outro título mais importante que este na minha vida.

Cacá e eu tínhamos uma amigo em comum: o Alberto. Eu e minha família mudamos para o Leme e minha mãe fez uma festa para o meu aniversário de doze anos. O Cacá e o Alberto chegaram lá de terno e gravata! Uma covardia, João Marcelo. Os dois levaram todas. Pensando bem, acho que isso foi um revide à tal bola de gude que eu quebrei.

Outro tempo é o de agora, quando meu irmão faz o almoço de Natal e em todos eles o Cacá me chamava de Mariola. Ele é o único que sempre fez isso, acho que por outorga do Visconde de Sabugosa. Cacá sempre tinha histórias pra contar e perguntava, Cadê o James? O tal do James era o garçom; não importa com que cara o garçom viesse, o seu nome era sempre o mesmo: James. Quem tem outorga dada por um Visconde é assim, possui uma intimidade com súditos da rainha que nós plebeus sequer desconfiamos.

Na festa dos meus doze anos, a mesma em que seu pai e o Alberto vieram de terno, meu irmão estava com seis anos e dançou o tempo todo com uma amiga dele, a Teteca. Teve um dia em que a Teteca atravessou a rua distraída, foi atropelada por um ônibus, levantou-se, foi andando para casa e, à noite, partiu, para onde todos partem um dia, um lugar mais distante que, por exemplo, o Leme de Laranjeiras. Maria Lina, que partiu um pouco antes do seu pai, de vez em quando me escrevia, dizendo que tinha visitado o meu blog. Espero que você também me dê a honra da sua visita e não se surpreenda: esta carta estará no blog, porque quero que quem passe por ele passe também por Florianópolis, Leme, Laranjeiras...

A vida se parece um pouco com esses teatros onde se lê na entrada: “Aqui, o show começa quando você chega e termina quando você vai embora”. Se você aceitar sugestões de quem leva na pasta uma bola de gude, viva seu show retribuindo o amor que você receber e, quando ele estiver escasso, tome a iniciativa, escolha bola em vez de búlica e abra esse seu sorriso largo, que é mais do que suficiente. Se quebrarem sua bola de gude, faça como seu pai: dê uma gargalhada, declare campeão o dono do teco e depois apareça de terno na festa dele. Estude o que você puder estudar, porque estudar abre nossos horizontes, embora alguns mistérios permaneçam para sempre. Por exemplo, não se sabe se foi a Terra que não conseguiu imitar a bola de gude em sua perfeição esférica ou se foi a bola de gude que se tornou imperfeita, perfeitamente redonda, ao tentar imitar a Terra - Terra que um dia levou um teco de um meteoro para que os dinossauros cedessem o lugar para a gente. Já pensou o tamanho da mão que deu esse teco na Terra? É, meu amigo: o dono dela é que é o verdadeiro campeão.

Um grande abraço,
Do seu primo (ou tio, se você preferir),

Mario Benevides (mariobenevides.blogspot.com.)

1.11.2011

DIAGONAIS E PARALELAS

Passamos a primeira parte das férias de verão no Rio e a segunda já vamos ficando por aqui, em Florianópolis. Tem sido assim já há vários anos. A exceção foi ano passado, quando fomos à Europa com meu irmão (nos últimos anos, portanto, as nossas primeiras férias de inverno). E é na casa dele que ficamos no Rio. É sempre bom. Por exemplo, a maior parte do tempo andamos a pé, por Copacabana e Ipanema. Tudo demora demais, menos as férias: agora, o Rio está mais calmo. Nascemos lá, não vivemos diretamente nenhum trauma de violência, o Rio para nós é especialíssimo e assim sempre será. Viemos para Florianópolis por uma questão de carreira profissional minha; Florianópolis veio de brinde. Experimentamos, lá e cá, a mesma língua e o mesmo oceano, com poucas diferenças (como disse Guimarães Rosa, viver é muito perigoso, e, lá como cá, nenhum trauma direto de violência: muita sorte). Por exemplo, no Rio, caímos no mar; aqui, mergulhamos. Lá, o mar vem em ondas diagonais. Em Ipanema, caímos no Arpoador e saímos no Jardim de Alá. Entramos no mar por debaixo de cada uma das ondas e vamos entrando e entrando debaixo das ondas e acompanhando a correnteza, até sair onde der, onde for possível, felizes e saudáveis, mergulhadores, nadadores e vencedores. Se alguém é hóspede do Fasano, que fica no Arpoador, vai se apresentar no Ceasar Park, quase no Jardim de Alá, e será muito bem aceito, convidado inclusive a experimentar o teorema de Pitágoras e voltar pelo cateto de areia, que ampara as ondas diagonais da hipotenusa aquática e salgada, até chegar no seu front-desk certeiro, hospedeiro e caro. Aqui, Florianópolis, Jurerê, praticamente não temos ondas: nadamos eternamente e paralelamente à praia, até sairmos onde der, até nos vermos perdidos e disfarçando que não. Como se estivéssemos em Ipanema. Aqui como lá, sairemos andando pela areia fingindo que sabemos onde estamos ancorados - onde fica, no Rio, nossa barraca; em Florianópolis, nosso guarda-sol. Jamais saberemos, e sempre chegará uma alma salvadora a nos dizer, esqueceu? Estamos em frente ao posto salva-vidas, ora! Qual deles é que ninguém nunca nos informa, ninguém nos pendura uma placa no peito a dizer, eis aqui um ser de férias a se perguntar, Por que as férias são tão curtas e as soluções demoram tanto, tanto que levam anos, que levam tiros, que levam vidas? Uma argentina perguntou faz pouco, La sombrita, quanto custa? Cinco reales, respondeu o barraqueiro, senhor dos guarda-sóis, certeiro, hospedeiro e caro.

Em 2011, para todos nós, muita sorte.

11.13.2010

TIRIRICA E TRÊS QUESTÕES DE PROVA

Ele foi o recordista nacional de votos para a Câmara Federal. Durante sua campanha, ensaístas de peso alertavam que, eleito com expressiva soma de votos, por causa do voto proporcional de legenda, Tiririca levaria consigo muitos presumíveis, conhecidos ou potenciais picaretas para lhe fazer companhia no Congresso.

A primeira questão de prova é: aqueles que os ensaístas de peso gostariam de alertar não sabem que eles, ensaístas, existem, muito menos o que seja ou faça um ensaísta. É possível que os ensaístas quisessem que nós, que lemos seus embasados ensaios, fôssemos formadores de opinião, multiplicadores dos seus conceitos, impedindo assim que Tiririca o fosse de votos.

É quando passamos para a segunda questão.

Existe um senso comum no Brasil de que há uma grande massa de gente que precisa ser orientada, ensinada, doutrinada. Este, por exemplo, é o pensamento de quem acha que os meios de comunicação devam ser regulamentados e regulados – para que a informação chegue de forma adequada à massa de gente que precisa ser adequadamente informada. Uma boa fonte de consulta para se conhecer a arte de fazer a informação chegar de forma adequada seria a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985 - a não ser que se prefiram soluções importadas; se assim for, a Venezuela de Chaves poderá ser a fonte.

Tirirca eleito, o fizeram passar por um teste do seu grau de alfabetização. Analfabeto pode votar, mas não exercer um mandato, segundo consideram alguns – sim, há discordâncias entre magistrados a esse respeito. Se pode ou não um analfabeto votar ou exercer mandato popular, seria a verdadeira questão?

Terceira questão: pode haver analfabetos no Brasil? É admissível que os haja neste século?

Eleitores votam em candidatos com os quais se identificam. Os ensaístas costumam ter seus candidatos preferidos, assim como os magistrados, os católicos e os evangélicos. O que foi constatado é que há muitas pessoas que se identificam com alguém que diz que, segundo ele, como elas, não sabe o que acontece no Congresso, mas que, chegando lá, se compromete a contar, e que “pior do que está não pode ficar”.

Muita pretensão querer ensinar alguém a votar ou a ler notícias. Mais razoável seria que quisessem que se ensinasse a todos a ler e escrever, duas únicas ferramentas das quais precisa, por exemplo, um ensaísta. Quem sabe - de fato - ler e escrever, sabe discernir; quem discerne, se for de boa fé, sentirá nojo só de pensar na hipótese de que alguém se proponha a regulamentar e regular o que todos leremos ou assistiremos daqui em diante.

Não é o Tiririca que precisa melhorar. O que precisa melhorar é o Brasil - sua torpe mentalidade de canastrões fantasiados de sábios, a olhar os simples como inferiores, a serviço dos abutres de plantão, que se refestelam da simplicidade naquilo que ela tem de ignorante, a querer e fazer que a ignorância se perpetue e se multiplique.

10.26.2010

GOOGLE-ME

Se me perguntaram se eu queria nascer, evidentemente esqueci.
Quis ser criança e fui.
Quis escrever, escrevi.
Quis calcular, calculei.
Quis amar, amei.
Quis casar, casei.
Quis separar, separei.
Quis namorar, namorei,
Quis pagar, paguei,
Quis me embriagar, me embriaguei.
Quis beber, bebi, quis ter fome, comi, quis comer, comi mal,
Comi bem, comi.
Quis dormir, dormi.
Quis amar de novo, amei.
Quis não dormir, tive insônia,
Quis acordar, não consegui.
Quis achar graça, desgracei,
Quis fazer graça, consegui,
Quando fiquei sem graça,
Todo mundo vi.
Quis ser pai, sou.
Quis amar e amar, sou.
Irmão quando fui amigo sou.
Não quis desgraça, vivo
A própria
Dos outros
Portanto minha
Quis poesia, fiz,
Quis a morte, a minha
Foi outra que presenciei
A vida, só a minha quis
A fome, privilégio, não foi,
Ainda não é minha
A pobreza não é minha
É minha sim tudo isso
A riqueza também não.
A inutilidade
O vazio
Negado
No elevador
Oi, querido.
Fico aqui
Exposto
Quem quiser
Google-me.

10.20.2010

CÉU E INFERNO, MINEIROS E JANTARES

As imagens da TV mostraram o que havia para ser mostrado e todas as metáforas possíveis foram feitas. Eles provaram que o inferno existe, fica nas profundezas da Terra e que é possível sobreviver a ele. Provaram que andar na superfície da Terra pode ser mais emocionante até que pisar na Lua, que olhar para ela de longe dizendo sonetos à pessoa amada ainda vale a pena. Provaram e provarão da fama e seus desdobramentos, provaram que estrelas sempre usam óculos escuros e experimentaram ver as verdadeiras novamente à noite. Provaram do inferno e do renascimento a fórceps disfarçado de sonda. Provaram que, na língua de Lima Barreto, mais do que um quarto de hora, mais do que quinze minutos na de Andy Warhol, é mais do que as eleições brasileiras podem esperar. O que esperar dessas eleições, da diferença da mudança de faixa de FHC para Lula, com direito a jantar dos casais na residência oficial, para o que se acompanha agora, do que se desenrola nesses dias e do que ainda virá, só o tempo dirá. Que não será de quinze minutos digitalmente cronometrados, como não equivalerá ao quarto de hora girado no relógio de bolso de Lima Barreto. Superará aos sessenta e oito dias a setecentos metros da superfície da Terra, no inferno, longe do céu e das estrelas, vivenciados e sobrevividos pelos mineiros chilenos. Jamais em matéria de grandeza de alma e de espírito. Neste quesito, perderá até para o mais banal jantarzinho entre casais.

9.21.2010

FELICIDADE

É quando a melancolia fica doente e não vem.
Quando a tristeza levanta
De saia curta e belas pernas
Entrega a prova antes da hora
E vai embora.
Tudo tem gosto de uva no ar
Um cheiro de chuva.
Quando a janela é grande e lá fora faz sol.
Quando a gente vai quando venta,
Quando a gente entra em casa e chove,
Quando tem goteira e é assunto.
É quando a melancolia ficou na esquina.
Quando a curva deixou a tristeza no cruzamento
Da estrada de barro esquina do asfalto.
Quando é quase noite e toca o telefone
Era ela não era
Era o amigo era ele era sexta era sábado.
Quando era de manhã parecia sábado
E era sábado.
Era domingo de manhã e fazia sol e depois choveu e a cama
Virou com a gente para o outro lado e ainda era
Ainda era sábado.
Quando toda noite era véspera
Quando toda noite era beijo
Quando a notícia não veio
Quando o vento parece que arrasta que transforma
Tanto assim que nem tem carro nem freada nem buzina
Tem uma riqueza diferente e a riqueza é o mar.
É quando
Não é como
Não tem motivo
Não é conjunto
Estatística
País.
Felicidade é quando.

Momentinho caipira
Bom pra daná.

8.04.2010

BOM HUMOR, MAU HUMOR

O Freud foi antes de tudo um libertador. Gente que era isolada pela família, trancada e amarrada, passou a ser compreendida por suas neuroses, psicoses, traumas, e conquistou o direito pelo menos a um divã. Passaram-se os tempos e a humanidade chegou ao auge da autocompreensão: passamos por bons e maus momentos. Temos dois humores: o bom humor; e o mau humor. Não estamos aqui a desprezar miséria, preconceitos, rejeições, discriminações, guerras, invejas, ciúmes, complexos, túneis, medos do escuro e de baratas, doenças, campos de concentração, ignorância e a sua manipulação, a opção pela burrice, tudo de terrível que há nesta convivência entre semelhantes, dessemelhantes e para sempre diferentes. Tudo principalmente que há nesta vivência, no ato de estar vivo, especialmente a morte e o desconhecimento que dela guardamos e guardaremos sempre, por mais estudos, por mais fé que tenhamos, incluindo a combinação dos dois, nada disso aqui se esquece ou é desprezado. Mas o auge da percepção humana foi este: cada indivíduo perceber-se de bom humor ou de mau humor. De lá pra cá, a decadência. De lá pra cá, elas e a TPM; de lá pra cá, elas e nós somos bipolares, eufóricos, deprimidos, psicóticos, neuróticos, sonolentos, hiperativos, insones. Somos não mais que um diagnóstico, não mais que uma combinação de pílulas alo / homeopáticas, auto-ajuda, consultórios, igrejas, partidos, quadrilhas, grupinhos e grupões, ambições, ideologias, gurus, pilhas de livros e não mais os livros, mundos e profissionais da e de explicações, I pode e I não pode, ah, o divã, ah, o bar, ah, a TV, o ansiolítico, o antidepressivo, o anti DDA, o anti...
O Freud foi antes de tudo um libertador. Há que aparecer agora um simplificador. Bem me quer, mal me quer. Bom humor, mau humor.

8.01.2010

EU E DEGAS

(Para que não restem dúvidas, “Degá”, o artista plástico)

Eu e Degas
Nós e as bailarinas.

Ninguém jamais as perceberá
Como ele, Degas.

A mim, faltam me restam palavras.
É com elas que comemoro.

Eu e Degas
Nós e as bailarinas.

Joinville, Festival da Dança, 2010.

7.21.2010

MELHOR IDADE

Do alto deste edifício, 54 anos vos contemplam. Os meus. Pela legislação, seis me separam do estatuto do idoso e uns 112 da aposentadoria. Ainda não atingi a melhor idade, não sei se vou chegar lá e já me antecipo: melhor porque? Não questiono se de fato a chamada terceira idade é ou não a melhor, mas a forma como a retratam. A La Paralamas do Sucesso, pare e repare. Não faz muito tempo, um anúncio de seguros mostrava senhoras e senhores idosos: eles lutando espadas de madeira e elas jogando amarelinha. O anúncio saiu do ar e sorte do Gérson que desta vez não foi o locutor de uma mensagem tão ruim quanto injusta e infeliz. Claro que ninguém deve matar a criança que traz dentro de si pela vida inteira; é ela que nos mantém vivos, mas fazer idosos de idiotas não parece a melhor estratégia para vender seguros. Pare e repare mais. Vá a um aeroporto e escute a moça que trabalha na chamada de voos – que, pelo emprego que tem, conquistará estatuto e aposentadoria aos 25 anos – dizendo que pessoas da melhor idade terão preferência. No mesmo aeroporto, ao fazer o check-in você reparou: o símbolo do idoso é um corcunda de bengala. Melhor idade é isto: a mais clara demonstração de um certo talento para se desrespeitar a quem se finge conhecer. Talento que pode até existir mundo afora; mas que aqui se manifesta como um produto genuinamente nacional.

7.10.2010

NOSSO QUASE SEMPRE EQUILIBRADO MARIO

Recebi uma mensagem do meu amigo de infância Murilo, com a seguinte introdução:
“Muita injusta a eliminação da nossa seleção. Um time vencedor, com craques indiscutíveis. São coisas de uma verdadeira ‘caixinha de surpresas’. Vamos receber a nossa equipe como verdadeiros heróis, com aplausos para a seleção dos sonhos. Aí é que está o problema: estou falando da seleção de 82, comandada pelo nosso Falcão, que custou ao amigo que escrevo uma porta de Blindex quebrada, no momento daquele famigerado gol italiano. Nosso quase sempre equilibrado Mario deu um ‘bico’ em alguma coisa e acertou nada menos que a porta da sua própria varanda...”
Murilo, o referido “bico” foi de canhota em um copo de base indiscutivelmente sólida, pois o copo, ao contrário da porta, resistiu, e chutei-o e foi de canhota na hora em que o Falcão fez o segundo gol contra a Itália com a respectiva canhota, Falcão que é uma exceção a canhotos do meu naipe e merecia ser por mim especialmente homenageado, pois canhotos do meu naipe não conseguem atingir o estágio de quase sempre equilibrados e disso tenho provas, a começar pela Copa de 70, quando eu tinha 14 anos e quebrei a cama do meu irmão comemorando aos pulos sobre ela o gol de empate contra o Uruguai e por sorte meu irmão não estava deitado, senão teríamos tido grave caso de agressão familiar, absolutamente inaceitável entre irmãos que inclusive são amigos e torcem para o mesmo time, que perdeu recentemente um tetra-vice-campeonato para o Flamengo, e lembro e compartilho que em 1981 eu assistia a um jogo do Botafogo contra o São Paulo em uma casa em Poços de Caldas e no gol do Perivaldo o meu sapato foi na parede que era branca e ficou preta e nem por isso o dono da casa comemorou, acho que ele era São Paulo ou Flamengo, e contra este o Botafogo se sagrou campeão em 1989 e eu abracei e caí junto com meu já mencionado único irmão na arquibancada, e uma vez eu ganhei uma garrafa de vinho e um saca-rolhas e quando sozinho resolvi beber o vinho, o cabo do saca-rolhas saiu e a broca ficou presa na rolha e esta no gargalo e eu tinha ganho também duas chaves de fenda e um martelo e primeiro tentei com uma chave de fenda puxar a rolha e esta ficou presa na rolha, depois tentei com a outra a mesma coisa porque a primeira ficou presa e depois tentei empurrar a rolha para dentro batendo o martelo no cabo de uma das chaves de fenda na rolha e ela teimosa não entrou e eu fiquei com duas chaves de fenda e a broca tudo preso na rolha e esta ainda dentro do gargalo e aí eu fui para o banho de sandálias havaianas por precaução para quebrar e quebrei a garrafa para recuperar minhas chaves de fenda e a garrafa quebrou embaixo do gargalo e eu tive que desistir e jogar fora os restos da garrafa e o gargalo com rolha, broca e duas chaves de fenda, tudo preso, tudo junto, sem ter bebido um só gole do vinho, e na semana passada eu estava em uma usina hidrelétrica com 3 amigas especialistas em saúde e segurança que foram comigo às 2 horas da tarde a um lugar onde o rio desaparece debaixo de uma ponte de pedra para só aparecer alguns quilômetros depois e eu caí nas pedras da ponte e me levantei poucos metros depois e fui socorrido às gargalhadas por uma delas e aí voltamos para a usina e quando eu, que dirigia o carro desde a vinda, me aproximava da cancela da usina, como poucos minutos antes eu tinha perguntado ao guarda por ela responsável onde ficava a tal ponte de pedra, naturalmente que inconscientemente devo ter pensado que o guarda era bom de matemática e física e ele aliás comprovou que era e é, pois eu passei direto pela cancela e o guarda pimba, saiu da guarita e comandou a cancela com uma rapidez de Falcão e uma precisão de Einstein e estamos todos vivos e o automóvel e a cancela intactos. Murilo, de futebol não entendo nada, mas achei prudente contar essas coisas, porque, se me convidarem para futebol, copos sobre a mesa, se o jogo for de vôlei, por favor, longe de mim e, se tiver cancela, gritem, Mario, olha a cancela.

5.16.2010

O FINAL DE UM ROMANCE E A FÁBRICA DE SINCEROS

Acabo de terminar de escrever um novo romance. Nem o título vou contar aqui, embora ele já tenha estado alguns meses pairando neste espaço cibernético. Vamos à luta, agora, atrás de uma publicação; e vamos retomar outros projetos, incluindo o de, de vez em quando, deixar algo registrado por aqui.

Por aqui acho que estamos todos. Começou a temporada de criação de seres sinceros, simpáticos, educados, gentis, honestos, competentes, sorridentes, enérgicos, ternos, terninhos e gravatas: eleições, especialmente a presidencial. A "festa da democracia". Pena que o convite não nos permita ingressar nos salões de bailes e estratagemas e que frequentemente dancemos de tolos e sejamos pegos de surpresa com os tais estratagemas, sempre pagando a conta, de baile e estratagema. Claro, Churchill estava coberto de razão:a democracia é o pior regime político, à exceção de todos os outros. Só podiam parar um pouco era com esta fábrica de perfeitos que nos querem fazer engolir e fazer com que o respeito - e tudo o que ele significa - passasse a prevalecer.

Admitamos: já foi bem pior.

Sigamos. A Inglaterra voltará a ser conservadora - isto é: mais conservadora. A Grécia, bem, a Grécia e a Espanha e Portugal... De vez em quando o virtual se mostra concreto, real, assustador; aí, é hora de rearrumar a casa, fazendo a população pagar pelo que não fez, como sempre, através da história. Se não der em guerra, já será um avanço - e, por enquanto, não há indícios de que uma esteja a caminho, a não ser as terrivelmente ininterruptas, incessantes, massacrantes. Seremos os apaziiguadores do oriente médio e pediremos que o oriente médio apazigue nossas cidades; está me parecendo ser esta, a lógica do momento. Ou estou enganado e vivemos em clima de paz permanente?

Prosperamos. Temos dinheiro em caixa. Corruptos são punidos. Décadas de covardia, prepotência, sacrifício, desemprego, salários aviltados, a troca da inflação por juros cavalares é que nos fizeram chegar a este novo panorama brasileiro. Bacana. Vale a pena esperar para ver o quanto de concreto e virtual há nisso; esperemos, sim, mas atentos, olho no lance, mais no que ocorre na política e na economia do que o que acontece na Copa. Difícil, não? De 4 em 4 anos, Copa e eleições. Eis aí um dos estratagemas; eis aí um dos bailes a que fomos convidados.

Quem for vivo irá - e à vera; a rigor.

5.05.2010

GRÉCIA: 2010?

Olá, meu blogue amigo,
A Grécia, outra vez, a navegar,
Dorso estátua Vênus derramada
Sem rumo
Com ela o mundo inteiro -
Viria junto
Desta vez
Roma
Desta vez
Junto viria a Itália?
Olá, meu blogue abandonado,
Caderno virtual, exposto e escondido,
Afundaremos - ou navegaremos - neste mar
De petróleo derramado
Neste golfo México?
Não foi ele um dia pérsico?
Olá, meu blogue de poucos
Incontáveis visitantes,
Podemos fazer o seguinte:
Da terra, do horizonte, amantes;
Da história, sempre, um pouco
Antes?