9.13.2009

GUARACIABA, UM ESTADO E SEUS MUNICÍPIOS

Nós não existimos. Se você quiser continuar a nos ler assim mesmo, para nós, os inexistentes, será um prazer. Bem vindo ao Estado de Guaraciaba, cuja capital também se chama Guaraciaba. Alguns dos nossos demais municípios são o Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis. Se você duvida, basta lembrar de uma coisa: nós não existimos.

Morávamos no Rio, chamado de cidade maravilhosa porque, de qualquer lugar, se não for o mar ou a montanha, é o céu que se vê, quase sempre azul e, talvez por isso, o povo de lá é alegre até quando tem motivos para ficar triste. Lá, quando chovia muito, quando nossa casa deslizava morro abaixo, a culpa era nossa. Costumavam dizer que nós não sabíamos o que fazer do lixo e que o espalhávamos por toda parte e, por isso, nossa casa desabava. Se isso era verdade ou não, pouco importa, porque o que a gente diz não tem a menor importância – pois não existimos. Naquele tempo, nós éramos pretos e diziam que ser preto não era bom. Hoje em dia, sabemos de gente que passa por preto ou negro para entrar na faculdade. Como não sabíamos que um dia seríamos valorizados por ser pretos, viramos nordestinos e nos mudamos para São Paulo.

Em São Paulo, cada vez que chovia muito, alagava tudo e nossa casa ficava inundada até o teto e nós aparecíamos na televisão, andando com a água pela cintura, remando um barco improvisado ou chorando pelos cantos. (Nós, os inexistentes, desde quando nosso barraco lá no Rio deslizava morro abaixo, vira e mexe aparecemos na TV.) Começamos a perceber que São Paulo é um município sem limites, que se espalha para todas as direções: para os lados, para cima e também para baixo – quando é para debaixo d’água que São Paulo vai. Todo mundo um dia acaba se mudando para São Paulo porque lá é onde há muitas oportunidades, quando poucas são as que existem em outros lugares - por exemplo na parte do Nordeste onde costuma não chover, mas, quando chove, chove muito. Prova disso é que existe uma música chamada Súplica Cearense, na qual o cantor pede perdão a Deus porque reza errado e de tanto rezar errado para que chovesse, Deus entendeu que era para mandar todas as águas do céu em cima do Ceará. Os autores da música se chamam Gordurinha e Nelinho e não sabemos se eles existem, mas a canção foi gravada pelo Fagner, e o Fagner existe, embora ele também apareça na televisão. Nós éramos retirantes nordestinos sempre crescendo pro lado debaixo da água de São Paulo e por isso resolvemos nos mudar para Florianópolis.

Agora, somos descendentes de italianos, alemães, açorianos, pretos e índios; alguns de nós são chamados de bugres, outros, de manezinhos. Florianópolis é uma gracinha, de tão delicada que é, com suas montanhas, o mar por toda parte, a ponte pênsil e as outras duas de concreto, cheias de automóveis parados em cima delas. A cidade quer atrair turistas, mas não prepara para isso as pessoas que trabalham como garçons, motoristas de táxi, serventes em hotéis e outras atividades; pessoas que, como nós, não existem – portanto, se elas não existem, porque prepará-las? Percebemos também que não só as pontes começaram a ficar cheias de automóveis parados em cima: todas as ruas foram ficando assim, não sem antes os automóveis passarem a toda velocidade e se baterem uns nos outros, principalmente quando chovia e em Florianópolis também chove, parece que é assim por toda parte, e percebemos que em Florianópolis, quando chove muito, é uma mistura de Rio com São Paulo: alaga tudo e algumas casas desabam. Foi quando viramos somente descendentes de alemães e italianos e nos mudamos para a capital do nosso Estado, que, como já dissemos, tem o mesmo nome que ele: Guaraciaba.

Pois na capital Guaraciaba também chove e, por aqui, os ventos às vezes são tão fortes que se chamam tornados. Este último arrancou os telhados das casas dos ricos, arrancou do chão as casas dos pobres e arrancou dos ginásios seus telhados - os quais, por sua vez, arrastados pelo tornado, arrancaram os telhados das outras casas que ainda tinham telhados em cima delas. Aí nos mudamos para dentro de um ônibus, que está e vai continuar parado por algum tempo: ele virou a nossa casa e também a casa de muitas outras pessoas, algumas brancas como agora somos e outras bugres, manezinhas, cariocas, paulistas, nordestinas, pretas, cafuzas, mamelucas, negras, como já fomos antigamente, nós, os inexistentes do Estado e agora da cidade de Guaraciaba, que acabamos de aparecer na TV, deitados em nossos colchões, dentro do ônibus.

Depois, vimos uma porção de acontecimentos no país vizinho, o Brasil: os Jogos Panamericanos, a promessa das Olimpíadas e a Copa do Mundo que vai ter por lá e os governadores e os presidentes e... Foi na TV que também assistimos sobre vários pactos, sendo que alguns os representantes oficiais do vizinho do Estado de Guaraciaba, o Brasil, assinaram: pacto do G20, protocolo de Kyoto, Princípios do Equador, Rodada do Uruguai, Fórum Mundial de Davos, Rodada de Doha, Objetivos do Milênio...

Nós, que aparecemos toda hora na TV porque não existimos; que não somos representantes de povo nenhum, porque somos o próprio povo de Guaraciaba, sua capital e seus municípios, Rio, São Paulo, Florianópolis e outros; que não somos os que se perderam e que aparecem na TV com suas cabeças baixas e as mãos algemadas ou com os olhos vendados ou ainda dentro de um caixão pequenininho; que somos os pretos, os brancos, os cafuzos, os mamelucos, os índios e os loucos; que somos os despreparados e os doutores; nós e nossos diferentes sotaques, vistos na TV quando nossas casas desaparecem, após assistirmos sobre tantos pactos e nós mesmos deitados dentro do ônibus, pensamos o seguinte.

Por que não fazer um pacto de Guaraciaba? Do nosso Estado, o Estado de Guaraciaba, que vai lá no Rio de Janeiro, se estende ao Nordeste até o Maranhão, passa por Manaus e por Belém e por Brasília e pela Belém-Brasília, passa pelo Acre e pelo Goiás e pelo Espírito Santo e por Campos e pelo Pré-Sal, passa por Minas e inclui São Paulo, atravessa Curitiba, vai até Porto Alegre e se muda para Florianópolis e culmina pela nossa capital, a capital do Estado de Guaraciaba, tão parecido com o país vizinho, o Brasil? Por que não um protocolo onde nossos representantes oficiais e seus partidos, os de situação e oposição, assumissem compromissos igualmente oficiais de planejamento das cidades, suas moradas e moradias, suas pontes, seus morros, suas drenagens, seus automóveis, seu transporte coletivo, suas fontes de renda, seu preparo para receber turistas e novos moradores e suas defesas contra aquilo tão longe, tão acima de nós, mas que tantas vezes se repete, como os ventos, as chuvas e os tornados? Se os representantes do Brasil assinam tantos pactos internacionais, porque nós, os do Estado de Guaraciaba, não fazemos nossos governantes e candidatos firmarem, sob pena da perda do mandato se não cumprirem suas metas, compromissos para conosco, que não existimos? (Não sabemos como é no Brasil, mas, em Guaraciaba, compreendidos o Estado e seus municípios, nós, os inexistentes, é que pagamos os salários dos políticos - às vezes com nossos impostos, outras, com nossa credulidade.)
Mas, que ninguém leve nada disso a sério: afinal, somos aqueles que não existem; somos apenas e tão somente o povo do Estado de Guaraciaba.

8.07.2009

ELIANA DINIZ

Não tenho propriamente uma fé. Tive um catecismo católico muito agradável, menino de Laranjeiras, Rio de Janeiro, em um convento, com árvores, tamarindo, passarinhos e, naturalmente, freiras. Minha primeira comunhão foi franciscana, diferente das usuais naqueles anos, os mesmos quando vi, trazido pelas mãos de pai e mãe, soldados fardados e armados e os dois me dizendo, O Jango caiu e vai sair do Brasil. Meus pais não eram religiosos. Ela, de um internato de um rigor absurdo e crenças assustadoras, a ponto de ser obrigada a tomar banho vestida e dormir com a certeza de que o diabo estava embaixo da cama; ele, do Colégio Zacarias, no Catete, ao qual ia a pé, desde a Rua Umari, nas proximidades do Convento onde fui catequizado, já por falta de dinheiro – meu avô era um aristocrata, de família tradicional, talvez fino, seguramente falido – e saiu sem completar o curso, exatamente por esse motivo. Seguiram suas vidas, tinham curiosidade, liam tudo, os tempos eram outros, de uma forma um pouco diferente da de hoje, não era o diploma que fazia a diferença, a não ser para a tríade medicina-engenharia-direito. Foi assim que fui crescendo, indo às vezes à missa, já no Leme, começo de Copacabana, levando na gozação o “coração ao alto”, sentindo certo alívio quando percebia que a missa ia chegando ao fim. Depois, fui conhecendo a história, preceitos, preconceitos, dogmas, cheguei ao ponto de me sentir espécie de paria no mundo dos crentes, dos que tinham fé. Li Morris West, Nelson Rodrigues e Graham Greene, católicos de diferentes gradações, seus profundos encantamentos e desencantamentos, questionamentos, particularizações. Disso tudo, o que me restou foi uma sensação de ilógica e semelhança entre o Gênesis e o Big Bang e a esperança, mais do que crença, na transformação pós-morte, igualmente ilógica e semelhante às possíveis sucessivas transformações de ameba em quadrúpede, bípede implume, hominídeo, até o homo sapiens. Com relação à Igreja Católica, uma desconexão, uma não-aceitação de certas inflexibilidades, imposições, e a leitura de Em que crêem os que não crêem, troca de correspondências de Humberto Eco – mais um ilustre desiludido e desgarrado - com um cardeal. Ficou-me a mesma admiração dos escritores que citei, mais – muito mais - pelo humano que a instituição; mais por conhecer de perto alguns sacerdotes, sinceros, devotos, convictos e ao mesmo tempo conscientes de tanta incoerência, da defesa do tantas vezes indefensável, do distanciamento do poder do Vaticano corporativo e a dura realidade de crentes e descrentes, a maioria dos habitantes do planeta ainda excluídos, desgraçados, desesperados.

Em que crêem os que não crêem? – permanece a pergunta-título do livro já citado.

Da minha parte, passei a crer na perseverança de Eliana Diniz.

Ela cuida de um lugar que não existe, a não ser em certo gênero de filme americano. Em uma sala de mesas coloridas, há estantes, crianças lendo livros, querendo contar histórias. Noutra, meninos – meninos – tecem colchas, tapetes, panos de prato. Na terceira, meninas e meninos reaproveitam jornais velhos, lidos ou não, e fazem cestos e porta-retratos. Na quarta sala do lugar inexistente, só imaginado em filme americano sobre escolas de música, dança e teatro, três teclados, em cujas teclas se encontram escritas as notas, dó, ré, mi... abrindo o caminho para mais uma sala, onde oito jovens, de todas as misturas étnicas possíveis e sua beleza espontânea, bruta e ingênua, dos dois sexos, aprendem a tocar violino. Sete violinos para oito jovens, fazendo com que um deles fique esperando, olhando para o chão, pensando no que não queria, no mundo que deixou e o espera lá fora. Melhor esperar a vez do violino.

O maestro-professor, como os alunos, tem vida dupla. Os alunos e alunas da casa inexistente estudam em um turno e, no contra-turno, freqüentam o lugar imaginário. O maestro-professor, quando não está lá, conserta relógios.

Meninas e meninos, dos que querem ler e contar histórias aos que aprendem teclado, tecelagem, reciclagem e violino, se dividem entre os que costumam dormir debaixo da mesa da sala das casas onde moram e os que dormiam na rua e hoje vão para o abrigo municipal tentar dormir e sonhar com seus instrumentos, livros e agulhas.

Às vezes, quero desistir, diz Eliana Diniz, é miséria demais, é cada coisa que a gente vê... E dizemos a ela, mas aqui se conseguem resultados tão bons, esses meninos, essas mocinhas, estão encontrando seus caminhos, sonham, aprendem, vão querer se desenvolver, se encontrar em suas vidas, têm sua auto-estima recuperada...

Mas querem que eu tire o almoço deles, ela nos conta, tinha uma verba estadual que acabou e aí eles me disseram que eu tirasse o almoço e continuasse o projeto. Mas como eu vou tirar a refeição deles? Eles comem direitinho, todos em fila, depois eles mesmos tiram e lavam os pratos.

Este lugar de mentirinha fica em Quedas do Iguaçu, interior do Paraná. Só quem vai lá percebe que isso, o lugar que não existe, guarda ilógica e semelhança com o Gênesis, o Big Bang, Adão, Eva e o primata-ameba hermafrodita, o desaparecimento absoluto e a alma, ou seu equivalente, o espírito, partindo para outra, quiçá um paraíso.

Esta a minha falta de fé. Esta a minha crença. A insistência, a perseverança, crer no que não é crível, esperar o que não deve nem pode ser esperado. Mais que qualquer coisa espiritual, lógica ou ilógica, cética ou crédula, sábia ou pseudo-intelectual.

Eu tenho a mais absoluta certeza de que esta mulher, Eliana Diniz, a irmã Eliana, existe.

7.23.2009

UM HOMEM E SEUS CAPÍTULOS

O que há de mais interessante na vida não é a compreensão, mas o seu exato contrário. A esperança persiste porque o contrário não consegue ser tão exato quanto se esperava dele. A célebre foto do menino africano à beira da morte à beira do lixo enquanto um urubu observa a cena, que rendeu um prêmio e um suicídio ao fotógrafo, a tudo resume e explica e confunde. Há quem interprete a cena, se esquecendo de que não é uma cena e sim um fato que já deixou de ser e virou passado. Há quem use a foto, há quem explique a posição de espera do urubu, quem se prenda à engenhoca chamada urubu. Há finalmente quem sofra pelo menino. Entendimento houvesse e conversa não haveria. Engenho seria palavra jamais pronunciada. Arte é que nem o lixo entre o menino e o urubu, se revela no espaço da incompreensão, da multiplicidade de impercepções, do raso ao supostamente profundo, aquilo que poderia ser abrangente e não passa de espaçoso, que se torna sensibilidade porque esta não se manifesta. Quem levanta e anda muito provavelmente está mesmo morto. Vivo é o estático: perplexo, menino, lixo, urubu.

7.16.2009

DA ARTE POR PROFISSÃO E DE TANTAS OUTRAS COISAS

Cronistas profissionais, por exemplo. Famoso colunista afirma ter conversado com escritora irlandesa que por sua vez diz ter conversado com dois escritores brasileiros e se ter espantado com o desconhecimento deles sobre escritores. O famoso colunista citado conta que mencionada escritora disse que um dos dois escritores com quem conversou é uma fraude. Nesse quem é quem mais para fofoca que página policial fica público e notório quem de fato é fraude. Assim eu diria se colunista social fosse de modo que o leitor supusesse – não me deixei trair por ignorante perigosa rima – que de algum modo estivesse querendo me favorecer escondendo nomes extorquindo vantagens. Igualmente escondi vírgulas por profissional não ser.

Poucos dias depois, chefe da receita federal é demitida com subsequentes eloquentes desmentidos de que suposições de manipulações contábeis da estatal mor tivessem de fato provocado sua demissão e graças ao diabo há uma crise a justificar a demissão e graças a leis há leis que dizem que a receita é órgão técnico impermeável a pressões políticas profissionalismo é isso aí.

De tantas outras coisas, pelo consagrado argumento de que a medicina não é ciência exata é que fazemos exames científicos à exaustão cujos laudos são escritos por técnicos a debochar de outros técnicos autores daqueles que deram origem ao n elevado a n mais 1 somado a mais 1 exame que nada conclui e ao mesmo tempo e paradoxalmente tem definitivo laudo que é ridicularizado pelo médico que o lê enquanto examina o negativo à luz fluorescente e interpreta aquilo tudo laudo e imagem e condena o paciente à morte ou às vezes pior à vida como se poderoso fosse profissional que é.

Mais que tudo isso, acima de qualquer coisa ou laudo, vírgulas ora direis, não se chega em casa e sim a casa. E sem crase. Em casa é que se fica amador amadora assim não for meu amigo minha amiga a história acabou seu sorriso se foi sua oportunidade de afagar o cão e chutar o bidê e gritar isso doeu e o vizinho ouvir e a vizinha reclamar acaba por acabar com a carreira do síndico da síndica profissional.

Assim foi que hoje cheguei, que amanhã me vou, que um dia irei, amador sou rei.

7.08.2009

CARAS

Não no referimos à revista, mas aos rostos humanos, vulgarmente chamados de caras. Há matrizes – e isso Darwin, seus seguidores e também seus detratores poderiam afirmar com propriedade; mas, dessa verdade, sejamos apenas passageiros inquilinos.

Um rosto de uma menina atravessando uma rua de Santo Amaro da Imperatriz é o mesmo de uma outra avistada em Florianópolis, em tempo decorrido que não permitiria que ambas fossem uma só e com diferenças o bastante para sabermos que não são gêmeas e sequer foram geradas pelos mesmos pai e mãe. O mesmo ocorrerá com meninos, senhoras, homens e mulheres de meia idade e, pior, de meias puídas ou – mais grave - de meias verdades.

Claro, você já se lembrou dos sósias. Há um maestro em Florianópolis a quem só não chamamos de Getulio Vargas por óbvias razões, sendo a principal o fato de ser ele um maestro, regente de orquestras, pouco afeito a movimentações que não as das cordas e notas musicais, que transmite a meninos e meninas de pais e mães que lhes são próprios, com traços, prognatismos, sorrisos, olhares vesgos, sobrancelhas juntas, olhos separados, queixos, lóbulos e narinas que nos fazem lembrar de pessoas distantes, até de outras gerações, de Darwinianas ou Divinas originais fôrmas (o acento, neste caso, mesmo que abolido ou proscrito, é fundamental).

Agora, sim, falando de uma revista, quem folhear uma Veja de alguns meses atrás encontrará uma reportagem sobre Darwin e suas explicações, até, para o soluço – e como ele e seus estudos encontram até hoje fortes resistências. Diz o artigo que há duas correntes: a que acredita que sejamos todos tailor-made, feitos um a um, sob medida; e a Darwiniana, das tantas transformações e gerações ao passar dos milênios, séculos, dias. Esta segunda, de acordo com o artigo lido às pressas e tardiamente, acreditaria ser tudo obra do acaso.

A questão, de fato, não é como nem quando, e - ousa-se aqui afirmar – nem mesmo quem, mas... Por que?

Por que pertencemos a matrizes e, mais, muito mais, gostamos do cheiro da rosa e desgostamos de outros tantos? Este encantamento pelo mar, o vento, a escalada e a visão da montanha, se tudo isso nos veio atavicamente através de múltiplas transformações e numerosas gerações, muito bem, Darwin; se não foi assim, se de fato somos, cada um, encomenda, feitura, experimento e refeitura de Deus – que diferença isso faz, se o motivo continua escondido por trás de uma nuvem que não se vê?

Pois se soubéssemos o motivo dessa confusão toda, dessa coincidência, dessa falta de acordo e, admitamos, de assunto, ora, sem querer ofender a ninguém, poderíamos louvar a Deus ou ao Santo Acaso, sem culpa nenhuma nem a necessidade de desferir truculentos e orgulhosos socos em nossos próprios peludos ancestrais peitos.

Meninas de Santo Amaro da Imperatriz e Florianópolis, ainda se eu fosse outro Mário, o Quintana - mas não. A verdade é que seus rostos, suas caras, sua matriz amada e desconhecida causaram essa enorme confusão nesta minha cabeça, tão saudosa de cabelos, de poesia, de certezas.

6.21.2009

LEIS

Há as fáceis e as difíceis
De entender e de cumprir
Aquelas que o Poder ignora
Se esquece
Apenas impõe
Aos de fora da sua esfera.

Leis do trânsito
As do tráfego
Há
As leis do tráfico

E as da razão.

As que não pegam.

Lei a mais difícil
Nos tira objetos das mãos
Nos atira na cabeça no chão
Pedaços de marquise
Pesados frascos
De esmalte de espuma de xampu.

Lei da gravidade
Que tu nada mais severo
Nada mais grave

A nos manter presos
À prisioneira do sol
À nossa nave esfera.

Pior que os canalhas
Mesmo que a permanente ameaça da substituição destes
Por outros constitucionalmente armados

Só mesmo tu
Amada poderosa invencível gravidade
A nos derrubar na calçada
Embrulhos sacos de compras nas mãos
Agendas impossíveis na cabeça
A bunda
Humilhada
No chão.

6.12.2009

JABS À PARTE

O poeta Aldo Votto lê meus textos sobre políticos, às vezes concorda, outras, discorda, e termina dizendo:

- Jab neles.

O jab geralmente é o preparo para um direto, desse de fazer cair o queixo do adversário. Peço desculpas ao poeta, porque, hoje, não quero deixar ninguém de queixo caído.

(Poderia continuar falando de boxe, que, durante um ano e meio, treinei – meu adversário, literalmente, era um saco -, mas só poderia falar de um e somente um boxeador: Cassius Muhammad Ali Clay, que, na célebre luta contra George Foreman na África, como armas usou jabs, esquivas e o próprio rosto, até levar o Foreman à exaustão física, mental e principalmente de nervos; e, aí, jab seguido de direto na velocidade da luz, fim da luta, Muhammad Ali campeão do mundo. Mas, hoje, falemos de outro assunto, em moderadas e comportadas doses.)

Não beba vinho como se fosse cerveja nem cerveja como se fosse água.

Uísque, só se um dos três estiver de smoking: você, o garçom ou o uísque – afinal, se o melhor amigo do homem é o uísque, teu nome é Vinicius de Moraes, primeiro e único.

A reta é o menor caminho entre dois pontos. Explique isso a um bêbado.

A vodka é a bebida invisível. Explique isso à sua mulher.

O melhor amigo do homem é a mulher: o olfato feminino supera o do cão.

Se você chegar em casa cedo (de manhã) e sua empregada chegar à sua casa tarde (de manhã), um é a consciência do outro.

Melhor que Ivete Sangalo, Ronaldo e Cafu fazendo anúncio de cerveja, só o Zeca Pagodinho dançando Axé de chuteiras.

Se for se embriagar, não saia: saia justa, com Mônica Waldvogel, ou sem saia, com Luciana Gimenez.

Escrever é trabalho – para o escritor e, a depender deste, para o leitor. Seja escrevendo ou não, se for beber, não trabalhe. Se for trabalhar, não beba. Ou, pelo menos, faça uma revisão quando estiver a seco, sem ressaca e sóbrio, capaz de um belo pedido de desculpas sem usar uma só palavra. A não ser por escrito.

Encerrando este sóbrio e comportado decálogo, lembre-se: o único caipira que se deu bem de verdade é do sexo feminino - a caipirinha. Assim sendo, Garçom! Uma cerveja, por favor. E não nos deixe aqui de mãos levantadas, imitando a estátua da liberdade.

5.30.2009

AS RESPOSTAS E SEUS SILÊNCIOS

Escreva cartas
Mande e-mails
Torpedos.

Exprima-se
Expresse-se
Manifeste-se.

Quando a favor
Repercutirão.
Quando contra

À voz corrente
À linha traçada
Definida

Sempre nítida
Óbvia
Dominante

O silêncio se fará presente
Conquistado
Não portanto se frustre.

Senão a vida
Senão a morte
A arte

Muito de silêncio tem.
Mande e-mails
Torpedos

Cartas
Repostas
Perceba

Algumas
Se respondem
Silenciosamente.

5.19.2009

3 PENSADAS MAIS QUE SÚBITAS REAÇÕES

(1) À VEJA, SOBRE A ENTREVISTA DO PREFEITO DO RIO DE JANEIRO

O JEITO CARIOCA

VEJA, no último domingo, perguntou ao prefeito do Rio de Janeiro: “Esse ‘tudo pode’ é determinado também pelo jeito de ser do carioca?” Eduardo Paes respondeu: “Sem dúvida. Essa coisa do carioca, do seu jeito de ser, da malandragem cantada em prosa e verso, também acaba servindo ao ‘tudo pode’. Em nome de um certo carioquismo, cometeram-se equívocos e abusos. A cidade está maltratada tanto pelo romantismo social das autoridades como pelo que se convencionou chamar de ‘jeitão do carioca’.” [...] “Adoro samba, toco na bateria da Portela, gosto de chope, de boteco, de praia. Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem e sem perder a alegria típica da nossa cidade”. Ora. Esse tipo de consideração é o que transforma qualidade em defeito. O característico bom humor carioca – por extensão, brasileiro – não traz em si o gosto pela demagogia nem pelo que o prefeito chamou de “romantismo social”. Aliás, que romantismo é este - o da exclusão, do medo e das balas de fuzil? Curiosamente, o prefeito dá a entender que é dotado do mesmo “jeitão carioca”, pois afirma gostar de chope, de praia e batucada, mas se considera superior ao resto da população, quando faz a ressalva: “Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem...”. Caro prefeito: com ou sem jeitão carioca, a população do Rio já enfrentou de tudo e poderia parecer ufanismo tolo citar alguns nomes e feitos da sua história. Fato é que, sim, a demagogia de vários da classe que o senhor representa tem causado danos a esta cidade e ao país como um todo de difícil reversão. Entretanto, o senhor não é pago para cunhar jargões como o tal “jeitão”, perigosos a ponto de se ter até hoje o nome de um jogador de futebol para sempre associado a atitudes incorretas, por ele ter gravado há muitos anos um anúncio com um texto medíocre – o qual, evidentemente, não foi escrito por ele. Transformar bom humor em defeito é o mesmo que assistir aos filmes com Al Pacino e comentar: “Mas ele tem tanto talento para gangster, porque resolveu ser ator?”. E para que o senhor não pense ser o único capaz de ter alegria e preocupação social, sem mergulhar na desordem; se o senhor afirma que nasceu em uma cidade que não já era mais maravilhosa, ao invés de se achar melhor que o resto da população, faça parte dela, faça jus a ela e à cidade maravilhosa. É para isso que o senhor foi eleito; e é para isso que o senhor é pago.

(2) À FOLHA DE SÃO PAULO, SOBRE, ACIMA DE TUDO, PORTAS

QUANDO VAGABUNDAGEM SE TORNOU PROFISSÃO


É com estarrecimento que se lê, na FOLHA DE SÃO PAULO de domingo, 17/05/2009, que o governo federal vai passar a distribuir cestas básicas para acampados do MST. Aliás, como um representante do governo explica, ao invés das cestas básicas, existirá um cartão de compras, de modo que a economia local, isto é, próxima aos inscritos no “Bolsa Família”, deste também se beneficie. Explica a reportagem que o mesmo governo fará um mapeamento desses acampados, de modo a incluí-los dentre os que já recebiam as cestas e passarão também a receber os cartões de compra.

Quem reagiu antes de qualquer outro foi um coordenador do MST, que avistou o óbvio: esta medida não vai resolver o problema dos sem-terra.

É de se lembrar também que, no momento em que sua reeleição estava garantida, Lula, entrevistado pelo Fantástico, a respeito do “Bolsa Família”, disse que era preciso achar a porta de saída para o assistencialismo.

Ora. Se ao invés de fazer a mais que atrasada reforma agrária de maneira clara, competente e justa, o governo Lula vai ampliar o assistencialismo a acampados – os quais o que pretendem, ou deveriam pretender, é terra – e é de também se supor e desejar que seu real intento seja terra para trabalhar e, desse trabalho, sobreviver e, porque não, progredir -, esse mesmo governo não está achando, nem querendo achar, nenhuma porta de saída. Mas de entrada.

A agir dessa maneira, ainda que sofisticando a forma, o governo Lula estará criando uma nova e confortável carreira: a de vagabundagem, mantida pela parcela da população que paga impostos. Isso mesmo: uma parcela dos impostos que pagamos serve para viciar cidadãos a buscar a maneira mais fácil de ganhar o necessário e suficiente para um vida medíocre. Basta ter filhos na escola ou demonstrar que eles a freqüentam e pronto: ganha-se um cartão de crédito, que permite morar em um acampamento ou barraco ou de favor na casa de alguém e (sub-) viver sem trabalhar.

Que nenhum demagogo de plantão venha a nos lembrar que poder pagar impostos no Brasil é um privilégio. Claro que é. Em um país em que o desrespeito, a demagogia e a burrice conseguem superar históricas injustiças, nada mais conforme que aqueles que conseguiram emergir desse pântano – a maioria deles, trabalhando, e muito - sustentem vagabundos, além de alguns políticos, principalmente os que não estão nem aí para nossa opinião.

Aliás e para encerrar, sabe porque eles não estão nem aí?

Porque a maioria de nós, que paga impostos, parece demonstrar que também não está.

Mas isso é outra cesta básica.

(3) A QUEM NÃO ESTÁ NEM AÍ PARA A OPINIÃO PÚBLICA

A NOSSA E O DELES

Ser ou não ser ou estar ou não estar, na língua do Sheakspeare, são ditos (e escritos) do mesmo jeito. Na língua falada no Brasil, ainda que agora mais próxima da que se fala em Portugal e suas outras ex-colônias, os sentidos são cada vez mais distintos.

Já houve um ministro que dizia estar – e não ser – ministro. Para dizer isso em Inglês, não seria tão simples assim. Anos depois, um presidente da nossa república (nossa?) viria a dizer mais ou menos a mesma coisa, um tanto blasé, às margens do rio Sena.

Mais recentemente, certo congressista disse que não está nem aí para a opinião pública.

O que me ocorreu foi o seguinte. Quando eu encontrar com gente como ele, que não está nem aí para quem votou neles e paga os salários deles; que descaradamente se apodera do que não lhe pertence; que se aproveita da carência quase que absoluta da maioria, o que resulta em despreparo, tornando-a presa fácil desses asquerosos, já sei o que vou fazer. Vou tacar-lhe nas fuças um livro bem pesado, que não será do Sheakspeare, não: será do (deles) acadêmico José Sarney.

Quero ver se ele vai ter a coragem de revidar.

E ler.

4.29.2009

AGORA, FALANDO SÉRIO

Bandalheiras à parte - sem perdoá-las ou esquecê-las jamais -, alguns momentos da História recente não são de se jogar fora. O primeiro deles foi ter à frente da Economia um político: FHC. Depois, à frente do Banco Central, um e depois outro banqueiro. A falsa impressão de que o brasileiro não tem memória, que pode ter sido reforçada pela reaparição de indigestas figuras cheias de poder novamente, claro que acontece pela manipulação covarde da turma da bandalha, que dela se beneficia e se locupleta e se vomita. Um faminto de tudo - da comida à instrução, à mais rudimentar capacidade de discernir - acreditará em qualquer hipócrita que se apresente oferecendo migalhas, trazendo consigo santinhos com o retrato de si próprio, de seus padrinhos - as referidas indigestas figuras - e, destas, seus mais recentes pares, a permanentemente renovar o que há de pútrido na pátria amada. No meio disso tudo, dois políticos que sabem disso tudo e - impossível não reconhecer - se saem muito bem disso - e nisso - tudo: o já citado FHC e, evidentemente, Lula. Pouco provável que o próximo seja alguém capaz de destruir o que foi conseguido a duras penas pela brava gente. De resto, é fortalecer o faminto de saber e comida, para que ele saiba distinguir retrato de canalha de rosto de gente de alma grande, gente que lava o rosto na pia e faz cocô na privada. E não o contrário.

4.28.2009

LUNETAS POUCO PRECISAS PORQUE ANTIGAS

As DIRETAS JÁ ficaram nos comícios, o Tancredo, no hospital, o Collor, no impeachment, a inflação, muito acima da capacidade do estádio. Por isso é que foi substituída por juros muito acima da capacidade do estádio. Depois que fomos a pique, descobriram a pólvora e puseram um banqueiro à frente do Banco - o Central - que, depois, foi substituído por outro banqueiro. Privatizaram, não privatizaram, privatizaram de novo e estamos aí. Aqui. Firmes. Nós e o cara. A cara. E os outros. A abundância, a falta, o pingo, a torneira, a lata. Assim funcionamos: quando abundantes queremos abundar mais, quando temos falta nos viramos para matar a sede, transbordamos de vez em quando, nos vendemos por um pingo, na cabeça, a cabaça. Não foi terra o que avistaste, Cabral. Foi água.

4.19.2009

MUROS

Segundo o livro CIDADE PARTIDA, de Zuenir Ventura, do início do século XX até o seu final, a quantidade de favelas no Rio passou de uma para 500. Há que diga que, hoje, são 700 ou quase 1.000 - e que, por exemplo, em Florianópolis, com seus cerca de 400 mil habitantes, já são dezenas.

O governo do estado do Rio de Janeiro começou a construir muros nas favelas cariocas - em 13 delas -, totalizando 14,6 km lineares e o custo de 40 milhões de reais.

Há algumas questões que se levantam por si:

1. Se o número é de 500, 700 ou 1.000 favelas, enquanto construírem muros em 13 restarão 487, 687 ou 987 sem muros;
2. Mesmo quem defende a construção – por exemplo, a revista VEJA – afirma que os muros por si, sem fiscalização, serão incapazes de impedir a expansão das favelas;
3. Morros sempre são acessíveis por mais de um caminho - e o projeto não prevê, como chegaram a pensar – e temer - alguns daqui e de fora, muros poligonais coibindo ou dificultando todo e qualquer acesso às favelas;
4. A um custo unitário que, segundo especialistas, seria viável, de 20 mil reais, a quantia que dizem que custarão os 14,6 km de muros em 13 das 500, 700 ou 1.000 favelas cariocas seria a mesma para construir 2.000 (duas mil) casas populares.

Portanto, antes de qualquer juízo ético, é fácil de ser percebido que a construção desses muros é injustificável por qualquer rudimentar e simplista raciocínio prático, econômico, ou mera, pobre, tosca, minimamente lógico.

Saindo do terreno pragmático e adentrando em outro cuja subjetividade é quase nula, a dedicação brasileira à persistência e à manutenção de construções feitas pelo poder público é igualmente quase nula; é de se apostar que esses muros, se sua construção chegar ou não ao final, muito em breve serão ruínas.

Agora vamos deixar de vez a obviedade e pular o muro brasileiro da hipocrisia.

Em um país cuja sociedade achou prático e natural que em um século fossem construídas 500 ou mais favelas na cidade que, durante cerca de 60 anos do mesmo século, foi sua capital; que considerou igualmente prático e natural que em outras cidades de perfil montanhoso fossem construídos barracos e mais barracos em seus morros e, nas planas, que parte da população se espremesse em caixotes de madeira ou papelão montados à beira de estradas; que se comporta como o paciente de psicanálise que inicia seu tratamento falando da mãe e acaba por tratar da, às vezes, já falecida mãe e não de si, como aqui se faz, culpando eternamente os portugueses e suas capitanias hereditárias; que em grande parte acha bonito e natural entupir as narinas de pó e empinar as mesmas narinas a exigir segurança e direitos; que sabe que os políticos são de baixo nível porque a população em sua maior parte é facilmente manipulável, porque desesperada, encantada pelo primeiro santinho acompanhado de cesta básica, vale-combustível, torneira, escada ou proximidade à corja pútrida, - em um país assim, com uma sociedade assim, nada mais natural que se prefira construir muros à volta de pobres ao invés de pensar em alternativa que, mesmo e ainda que minimamente, se baseasse em orientação, educação, diálogo, leis, inclusão. À brasileira, é melhor construir, justificar, pichar e deixar ruir um muro.

Principalmente, ficar em cima dele. E – prático e natural - atrás da moita.

4.12.2009

CARTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Caro Senhor Presidente da República:

Talvez o Sr. não se lembre. Raymundo Faoro foi contrário ao projeto da reeleição assim que iniciada sua defesa, quando o reeleito viria a ser o seu antecessor, Sr. Fernando Henrique Cardoso. Como em tantas outras vezes, o saudoso jurista e historiador estava com a razão.

Sem recorrer aos argumentos dele, é de impressionar o quanto o Poder é mesmo capaz de transformar indivíduos e quanto maior é a transformação à medida em que o tempo passa. Difícil imaginar o corajoso líder sindical de outrora, que conduziu uma greve em plena ditadura militar, comparando obras da envergadura das do "PAC" com o corte das suas unhas ou o batom da sua candidata e ministra.

Quanto a ser ou não chique emprestar dinheiro ao FMI, duas afirmações podem ser feitas, Sr. Presidente: (1) o dinheiro não lhe pertence; e (2) não há nada que seja ou possa vir a ser chique nesta crise. Quanto a esta ser espécie de marolinha, pergunte a alguém que esteja desempregado se pensa assim - é o que se lhe pode sugerir, Sr. Presidente.

Ainda sobre o empréstimo ao FMI, adicionalmente, é de se arriscar duas suposições. A primeira: como o Brasil é membro do Fundo e, este, um órgão destinado a emprestar a países-membros em risco de insolvência, deve, sim, ter havido uma proposição de que fosse feito o empréstimo, e não, deste, uma oferta expontânea por parte dos nossos representantes. A segunda: por várias razões que poderiam ser supostas em extensão, é bem pouco provável que a proposição pudesse ser recusada pelos mesmos mencionados nossos representantes.

Voltando agora um pouco no tempo - porque é do tempo, no Poder, que se tem aqui como tema -, quando os aeroportos e vôos comerciais se tornaram um caos, é de se esclarecer, Sr. Presidente, que se a classe média nunca tomou banho frio, tampouco quente era a ela possível tomar - posto que não há chuveiros nos aeroportos, nem mesmo naquele em que o personagem do Tom Hanks fica detido. A classe que viajava, média ou não, incluía empresários, trabalhadores da iniciativa privada e estatais, religiosos, artistas, políticos, ministros...

Sr. Presidente, quando o Sr. fala da Petrobrás ou do Banco do Brasil, essas empresas têm como acionistas (a) investidores em ações da Bolsa de Valores e (b) esse conjunto difuso, pouco visível de longe, o povo.

Suas palavras são sempre poderosas, dado ao cargo que o Sr. ocupa, Sr. Presidente da República.

Sr. Presidente, o que também é certo é que o Sr. sabe disso tudo; apenas e lamentavelmente, o tempo no Poder tornou distante a imagem de bravura e coragem do líder sindical, trocada, como se fosse figurinha de álbum de criança,
pela de alguém que já não sabe mais distinguir que papel de fato desempenha, onde e quando. Principalmente quando. Raymundo Faoro estava com a razão.

4.02.2009

ORIGEM - E EVOLUÇÃO

Do mar à praia
Até as estepes

Pela relva
Até a montanha

A casa.

Depois
O cerco.

3.29.2009

DO FUTEBOL E OUTRAS AMEAÇAS

Para Lygia e José Estácio Corrêa de Sá e Benevides (ambos flamenguistas).

O sujeito assiste a um jogo ruim, é interrompido para sair para jantar com a família. Quando volta, seu time está vencendo por 1 a 0, o outro vira o placar e o jogo termina: Fluminense 2, Botafogo 1. “A culpa foi minha?”. Mesmo sabendo que isso é uma impossibilidade, ele, que não é nenhum garoto, se lembra de vários outros jogos a que assistiu e que seu time ganhou, convencendo-se do contrário. “Por que, o dia inteiro, eu sabia que o Botafogo perderia?”.

Houve um campeonato em que o Fluminense ganhou o primeiro turno, garantindo a vaga para a disputa da final, perdeu quase todas as partidas do segundo, foi à final e foi campeão. Aquilo pareceu uma estratégia, do mesmo clube que, numa outra vez, assim que acabou de ganhar o campeonato, demitiu o técnico – Paulo Amaral, que viveu grande parte da sua diversificada e vitoriosa carreira no Botafogo. Pois este acabou de ganhar a Taça Guanabara, se classificou para a final do campeonato e desandou a sofrer derrotas e empatar jogos “ganhos” - de passagem, do Vasco, ora na segunda divisão do campeonato brasileiro, tomou de 4 a 1. Nada disso é estratégia - nem síndrome de “sofredor”.

Exemplos de fracassos de Botafogo e Fluminense e desastres que a eles se sucederam são recentes. Botafogo e Juventude no Maracanã teve um resultado que deu o título ao time gaúcho - e tome anos de sofrimento, até que o clube do Rio voltasse a conquistar um título. O técnico do Botafogo não se preocupou por não terem saído gols nos treinos; ao Juventude, bastava um empate para sair com o título; e o técnico do Botafogo assistiu ao 0 x 0 até o fim, apenas sem torcer como torceram os 100 mil botafoguenses que lá estavam. Ano passado, o Fluminense perdeu a final da Libertadores da América, no mesmo mais que carioca Maracanã; e tome trauma, até que os nervos e a moral do clube, de técnico novo, o Parreira, da sofrida Copa de 94 e da nem é bom lembrar de 2006 – e isso é outra história –, vão-se recuperando. (Tá bom, flamenguistas, ontem vocês se vingaram do Resende.)

O que acontece com o Botafogo neste momento é algo muito mais que botafoguense ou restrito ao futebol. É sabido: poucos sabem lidar não só com o fracasso - mas com o sucesso. Não por outra razão algumas estrelas, do futebol como das artes, de repente se esborracham; se acabam; ou desaparecem. “Ganhamos a Taça Guanabara. Ganhamos a Taça Guanabara! Ganhamos, a Taça Guanabara?”.

Não no futebol, mas na vida, perder, para a maioria dos brasileiros, infelizmente e por várias razões, ainda é corriqueiro. Nos Estados Unidos, ser chamado de “loser” é pior do que, para nós, ter a mãe xingada ou ser derrotado em um jogo de futebol. Pelo que isto representa para eles e pelo que a História conta, é muito pouco provável que eles saiam dessa como “losers”. Se será bom ou não para nós, isso é outra história.

Hoje tem Brasil e Equador, lá em Quito, com Robinho e seu dedo na boca. Mas só se sair gol, não é, Dunga? E, antes que me culpem ou somente perguntem, não, nenhuma premonição; não, eu não vou assistir ao jogo.

3.27.2009

MANCHETES

Medicina & Estética: o aparar das unhas e o batom serão poupados por causa das obras de infra-estrutura.

Infra-estrutura: as obras de infra-estrutura serão poupadas por causa das unhas e do batom.

Futebol: os brancos de olhos azuis são os culpados pelo mau desempenho da seleção da Escócia.

Tênis: mil rifles na fronteira da Venezuela com a Rocinha.

Fórmula um: fórmula dois.

Cinema: de Zapata a Zapatero, de Bolívar a Hugo Chaves, de Evo a Morales, por favor, não perca.

Ciência: Malba Tahan se revolta, porque senador que calculava afirma que 138 = 31.

Arquitetura: casas populares tomam lugar de castelo.

Política: a situação se torna cada vez mais ucraniana.

Previsão do tempo: trevas, com brumas ao fim do período.

Obama: yes, não temos banana.

Da redação,

Excalibur.

3.08.2009

BLOGUE VELHO, MUNDO BURRO

Como vai, blogue amigo velho?
Faz tempo não nos falamos.
Aqui do lado de fora é domingo,
Está chovendo, está ventando.
Na caixa da televisão
Tem um programa em nona edição
Que aqui ignoramos
Sem qualquer solenidade.
Ainda dentro da caixa da tv
Agora temos um arcebispo
Que excomongou os médicos
E perdoou o estuprador
De uma menina de 9 anos
De uma menina de 9 anos
De uma menina de 9 anos.

O Vaticano apoiou.

Blogue velho,
O mundo é mais velho que nós
E não aprende nunca.

Ê blogue velho,
Ê mundo burro.

2.09.2009

PRAIA E ARREDORES

Para Isabel, Flávio, Isabela.
Vera.
Minha filha, minha mulher.
Meu irmão.
E outros bons amigos de uma praia inteira.


Muito se diz que a praia é democrática, tanto quanto que nela se formam guetos, turmas, tribos. Se as duas situações são simultâneas e verdadeiras, a explicação é muito simples: a praia é anárquica. Não é democrática. Nem altruísta nem ditadora. Ninguém vota e ninguém manda. Não há poder nem golpe de tomada de. Quando ocorre o arrastão, seja dos pescadores ou dos favelados, o golpe não é dado na praia nem no mar: vem de antes; dos arredores. Vem da miséria que, a essa altura, ao nível do mar, neste século vinte e um - mais tantos outros antes do início da sua contagem cristã -, que ninguém duvide, não vem da anarquia nem da democracia. Vem do desgoverno. E de toda sua conveniência a quem ele convém.

Sacos cheios fora, se há vida depois da morte, reencarnação, vida em outro planeta ou sistema ou universo paralelo ou transversal, que a minha, se me é ou for dado o direito de escolha, que seja numa praia. Que eu mergulhe vivo depois da morte e de óculos; e que eles me permitam ver o fundo do mar, sua água, sua areia, com ou sem peixes, algas, tubarões, águas-vivas ou serpentes. Conchas. Baleias. Dêem-me o mar e a areia e viverei, morto e feliz.

Solidão, desta, não faço a menor questão. Uns pescadores, umas belas, eternas e verdadeiras amizades, um grande e um pequeno amor. Um bar. Um livro. Não, não: mais de um. Uma pedra, um morrote de pedra que, se eu tiver coragem, vou escalar ou contornar, pelo mar ou pela terra em volta, para ver se há outra praia depois dele.

De resto, vamos à praia, mesmo ou principalmente se estiver chovendo, mesmo e ainda que de noite, só não vale debaixo de raio - porque, debaixo de governo, seja ele qual for, temos que conviver com ele, viver com ele, apesar ou, lamentavelmente, quem poderá dizer se verdade ou mentira, por causa dele.

Mas não na praia. Na praia, ninguém manda. Na praia, mando eu.

Em ninguém.

1.01.2009

2009

Quem foi na frente, de tão querida, nos guardará um bom lugar.

Estamos no Rio. Meu irmão, que nos hospeda, se mudou para um apartamento em frente à Praça Eugênio Jardim, onde começa e termina o Corte de Cantagalo. À frente, a Lagoa; atrás, o mar de Copacabana; à esquerda, onde Ipanema começa a se desenhar.

Todas as manhãs, temos caminhado: ida e volta ao Leme; Posto Seis, Ipanema, Lagoa, Corte de Cantagalo; ou Corte, Lagoa, Ipanema, Copacabana. Fomos a uma festa em uma cobertura, na Avenida Atlântica, convidados de um primo e convidado, Mario Oswaldo, feita a devida consulta prévia aos anfitriões - que nos receberam muito bem, obrigado.

Nunca tinha assistido ao espetáculo de fogos ao vivo. Navios atrás das balsas de onde eles partiam me olhavam de longe. Um conjunto, uma gravação de Tom Jobim, depois, do Tim Maia. A contagem regressiva, uma valsa, um samba, uma guitarra, uma cantora. Os fogos se aproximavam e se afastavam. Depois, fumaça. Lá embaixo, a multidão. Comentei que, se estivéssemos lá embaixo também, igualmente nos encantaríamos – e antes e depois, nos juntamos e nos encantamos outra vez, não podia ser diferente.

Na vinda, a pé, somente um momento de tensão, totalmente ilusória. Passado o descabido susto, tive que perguntar onde ficava uma rua, onde teríamos nosso primeiro encontro, para depois irmos à festa: Domingos Ferreira – eu, que já soube dessas ruas de Copacabana todas, de cor, mapeadas na memória; acontece que oito anos são tempo suficiente para embaçar meus mapas mentais.

Nenhum outro susto, nem na ida nem na volta, a pé, junto à multidão que voltava para casa, o metrô, ou simplesmente zanzava. Às vezes, tonto, às vezes, tonta. Já fui um deles, sei como é. E acordamos e andamos outra vez, Posto Seis, Ipanema...

Quem inventou o automóvel era ruim da cabeça ou doente do pé. Não digo o mesmo do taxi, do metrô, do trem, nem do ônibus – mas todos perdem para o melhor meio de transporte, que já nasce com a gente, que a gente calça quando quer, que a gente descalça na areia e molha no mar.

Já quem faz a guerra é de uma arrogância que parece grande – entretanto, é tão somente menor que a menor das sensibilidades.

Feliz Ano Novo.

11.13.2008

5 SENTIDOS

Que expliquem isso tudo como quiserem, mas o fato é que a maioria de nós é sensível à beleza, à lua por trás das nuvens, se entristece quando a chuva fica por tempo demais, toma banho de sol artificial no lado do globo que permanece mais tempo no escuro que no claro. Cães nos respiram. Por que seus olhos miram fundo nos nossos enquanto isso, ainda que cientistas encontrem razões químicas, magnéticas, biológicas, permanecerá outro fato: cães nos respiram e nos miram no fundo dos nossos olhos. Melhor ouvir químicos de perfumes. Fundamental será frequentar floriculturas, perguntar onde colhem suas flores vendidas pelos olhos da cara em suas lojas. Literalmente, porque são eles, os olhos da cara, que se fascinam pelas flores, antes, logo depois ou ao mesmo tempo que nossos olfatos. As cores. Leia aí Platão ou Stephen Hawking, pregue o Gênesis na sua mesa de cabeceira, acelere as partículas, beba chá ou vinho. Principalmente, explique o deslumbramento e a afinidade que você tem com o mar. A lua, o ser que não é, que somente reflete uma explosão que dizem vai durar ainda por algum tempo, está lá, visível, clara, cheia, as nuvens saíram da sua frente e ela se exibe inteira, distante, fria. Fria? Uma moça toca um trompete. Um idiota está ao lado de outro em um carro em alta velocidade e põe a cara para fora da janela do carro e grita uma imbecilidade qualquer. Uma outra moça raspa uma tigela do chocolate que sobrou do bolo que a mãe fez. Uma velha excita-se, porque amanhã é dia de ir ao centro, centro do quê, alguém saberia dizer? Existe um? Crimes passionais, armas passionais, jogadores passionais, corretores passionais, investidores frios. Neste momento, em controlado desespero; mas frios. Quentes são os executivos a seu comando, ambiciosos, incestuosos, fazendo-se de frios. Medrosos. Poderosos. Diplomáticos, serão alguns. Outros, não: raivosos. Outros, não: estrategistas. Cartas. A lua? Apenas o ser que não é, que reflete, é um espelho, uma prisioneira, a girar em torno da outra bola que gira em torno da explosão que perdurará por algum tempo. E as explicações virão da aceleração, da fusão, da fissão, e você não saberá porque ficou excitado com o que viu, cheirou, ouviu, tocou, provou. Se assim for, parabéns.

11.09.2008

O RATO. E O CURSOR.

O rato eletrônico
Fica à minha espreita.
O teclado à espera
Dos meus dedos.
Dois três deles batem nas teclas
O resto à espreita. Todos tortos.
Tanto os que batem como os que olham. Esperam.
O cursor piscando na tela
Que ele diga o que eu gostaria de dizer
Que outros gostariam de dizer e ler.
As palavras me faltam.
Não é diferente quando leio
Quando um livro uma revista uma bula
De remédio é o que eu escolho
Como não diferente é quando assisto a um filme
Um show humorístico
Um show de música
Uma peça
Um balé
Um jogo de futebol.
Em algum instante minha raiva
Minha ira incontida inconfessa
Meu humor
Meu amor sufocado
Há de respirar.
Miro o cursor piscando
Me falta o ar.
Sede tenho pela água a cerveja o vinho
Pelo corpo da amada
Pela mão da filha
Pela palavra do amigo
Pela baforada do cigarro dele
Pelo bom dia do vizinho
Do porteiro do farmacêutico.
De bairro.
De barro.
De mato.
De chão.
De mar.
Nesses tempos de GPS comprei uma bússola
Como todas
Defeituosa: aponta somente o Norte.
Não é do Norte que preciso nem do Sul
Não quero a latitude longitude.
Cursor! me traga
Meu rumo.
Garçom, por favor:
- Palavras.

10.30.2008

MARIA DO REASSENTAMENTO

Outubro de 2008, viagem ao sul do Brasil, com meu amigo Julio Pavese

Dürrenmatt, que pronúncia tenha seu nome,
Que palavras tenha usado,
Pensando em quem pensa em Deus,
Disse assim:
Tudo o que o homem sabe ouviu de outro homem,
O homem precisa do homem.

Maria concreta
Maria da catequese
Maria que já não é.
Maria do Movimento
Maria que já não se sabe se é.

Que é casada se sabe,
Que é bonita se vê,
Que fala um quase italiano se percebe.

Naquilo em que Maria crê
Só seus olhos dizem,
Mas, o que dizem os olhos de Maria?

Maria chegou da chuva
Descalçou suas botas na varanda – botas de borracha -
Entrou na casa da irmã,
Sentou, cruzou suas pernas nuas, contou:

Minha mãe se matou.
Quando viemos pra cá.
De depressão.

O que Maria não disse
Foi que a depressão tinha nome
O nome do pai de Maria.

Foi à polícia e deu queixa:
Meu pai abusa de mim.

O pai de Maria foi preso.

O pai de Maria está solto,
Longe, distante de Maria,
Longe, da irmã e do irmão de Maria.
Faz 20 anos que eles, irmão e irmã de Maria,
Toda noite, dormindo, sussurram:
Ave.
Maria.

10.28.2008

DEFUNTO, REDIVIVO E FURTADO

Eu já deveria estar na cama, pronto para dormir, mas, como interromper e, depois, deixar de comentar? Camila Pitanga, Deus do céu, o que foi que o Senhor fez, além da Perfeição? Paulo José, quantas profissões e sotaques mais você vai experimentar para se convencer de que você é ator, porque será que você não experimenta essa profissão, fica aí, tentando fabricar beliches? Fernanda Torres e Wagner Moura, por favor, me expliquem, afinal, o que é ficção? Será que o Tonico Pereira algum dia soube? Este Bruno Garcia, que não olha e olha para a câmera nas mãos do Zico do cinema de Bento Gonçalves disfarçado de Lázaro Ramos, vocês querem me fazer o favor de me explicar porque foi que a Janaina (Kremer) saiu do rio e não do mar? Ora, seu Jorge Furtado, você, seu menino com o isqueiro no bolso, a freira que sabe de seios, o papel jogado no chão para a propaganda, a lata, no rio não, mas no mato, sim, o clique, a idéia, o despertar e não a porcaria enlatada em discurso, e tudo isso lá, inclusive o discurso. A iluminada Marina, isto aqui, este fim de mundo vai atrair atenção, investimento, acho que os meninos vão gostar da deusa se parecendo com a Eva (foi o que pensou o Joaquim), a beleza vai salvar a natureza, ou sei lá. Da primeira tentativa, eu estava com sono, desisti de assistir. Meu irmão me perguntou, como, como pode? Agora, não. Sai da tumba, renasci. Saneamento Básico, seu Furtado, o senhor só por favor me devolva o sono, Furtado, o sono, que amanhã é dia de trabalho.

10.25.2008

PROTESTOS

Para começar, este blogue existe há mais de 3 anos. Só eu o visitei muito mais que 3 x 12 x 4 = 144 vezes. Portanto, não posso aceitar que, ao revisitá-lo, encontre: “1 visitas”. Pelo menos o contador poderia ter acertado no erro, informando: “1 visita”. E aí, perguntaríamos, nós, os não contados: - Quem foi?

***

Melhor que sejamos avisados, antes da próxima crise, que o dinheiro sempre esteve, está e estará à nossa disposição nos bancos centrais do mundo. Do contrário todos ficaremos outra vez perdendo o sono, tolamente, sobre nossos colchões recheados de dinheiro.

***

Todas as crises acabam. Graças a Deus, nós, não.

***

No litoral, o verão tem sido fiel: começa e termina regularmente, sempre à segundas-feiras. Já no interior fica o ano inteiro, ora com muita chuva, ora sem nenhuma. Deus é brasileiro; só não faz questão é de ir à praia.

***

Na TV, uma autoridade explicando que, nas eleições de amanhã, daremos mais um passo na consolidação da democracia. Democraticamente, desligamos a TV.

***

A História acabou. A História não acabou. Do Estado, para o Estado, pelo Estado. Do Mercado, pelo Mercado, para o Mercado. A Terceira Via. E você, que não vendeu sequer um único exemplar de livro defendendo qualquer dessas teses, ainda por cima, comprou muitos defendendo todas.

***

Caminhe pensando no futuro, se lembre do passado, analise o presente. Se não conseguir, entupa os ouvidos com fones. Ao olhar para trás para saber se a retaguarda corresponde ao front, não se esqueça dos postes, do tráfego e da vizinhança. Especialmente aquela que vê sem ser vista.

***

Ninguém é mais verdadeiro do que aquele que afirma agir de modo totalmente transparente. Ele – o transparente – é o vidro. De tão transparente, não aparece. Você não o vê, quebra a cara, e ainda pergunta ao porteiro se ele vai bem.

***

1 visitas: mariobenevides.blogspot.com.

10.21.2008

HETERÔNIMOS E INTERVALOS

Intervalo de jogo, intervalo de vida. Segundo Clarisse Lispector, a vida é isto, principalmente: a insatisfação dos intervalos. Não é racional ser torcedor. Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Meu time é bissexto e único - a deter maior história e mais histórias do que títulos. É oportuno dizer seu nome; e inconveniente.

Heterônimos não são um privilégio do Fernando Pessoa – ou dele, a eles, dar vida. Privilégio dele e seus heterônimos é ter definido o que o poeta é.

Por favor, torcedor, complete a frase:

O poeta é um fingidor. Finge...

Segunda questão. O poeta é:

a) Isso mesmo: um fingidor;
b) Um sonhador;
c) Fora da realidade;
d) O albatroz, do Baudelaire (príncipe das alturas, no chão, em meio à corja (!) impura, as asas de gigante impedem-no de andar);
e) Um mercador, em botequins;
f) Aquele que o engenheiro quer ser (todos os direitos reservados: Pablo Neruda);
g) O engenheiro, quando engenhoso;
h) Idem, quando menino de engenho (Viriato Correia, perdão pela metáfora; metáfora?);
i) Um botafoguense;
j) O que faz o laboratório da língua (João Cabral de Melo Neto);
k) Nem alegre, nem triste;
l) Uma parte, linguagem, outra, vertigem;
m) Um heterônimo.

Que o poeta Aldo Votto e seu heterônimo nos expliquem o que é um heterônimo, um poeta, um torcedor, um botafoguense.

E, principalmente, um intervalo.

E que acerte na resposta.

Que – principalmente – erre.

Arre!

mariobenevides.blogspot.com - o pseudônimo de um heterônimo.

10.11.2008

DEPOIS DESTA, EU JURO QUE EU PARO

Só mais uma. Uma só, e vamos embora, eu prometo. Depois desta, a realidade, o dia seguinte, de manhã e de tarde.

O brasileiro não tem memória. Por isso ele confunde nomes como Pelé e Garrincha, Gerson e Jairzinho, Zico e Falcão, Romário e Bebeto, Ronaldo e Ronaldinho. Por isso, confunde faces de Zezé Mota e Dina Sfat, Marília Pera e Fernanda Montenegro, Paulo José e Armando Bogus, Wagner Moura e Natchergale. Confunde Marta Rocha com Gisele Bunchen, Jorge Amado com Dorival Caymi, Chico Buarque com Caetano Veloso, Milton Nascimento com Fernando Brant, Sérgio Buarque de Holanda com Vinicius de Moraes, Tom Jobim com Villa Lobos, Darcy Ribeiro com Josué de Castro.

O brasileiro não tem memória está gravado no consciente coletivo, talvez porque Getúlio Vargas tenha voltado nos braços do povo, eleito em vários lugares ao mesmo tempo, desafiando a física e o razoável. O povo que o trouxe nos braços até o caixão é retratado por Jorge Amado em O país do carnaval, Cacau e Suor, por João Cabral de Melo Neto em Morte e vida Severina, coisa de quem confunde passado e presente, pois, se você, que não tem memória, reparar bem, esse povo continua andando por aí.

Brasileiro não tem memória a ponto de trazer de volta o Collor. Quem o trouxe de volta foi quem votou nele na primeira vez e de algum modo se deu bem, trocou de carro, foi para os Estados Unidos, se vingou intimamente de uns caras que lhe cuspiam na face teoria, cargo comissionado ou arrogância de rico ou pretendente a.

Brasileiro não tem memória a ponto de não se esquecer que o Getúlio foi um ditador, com direito a Polícia Especial, hedionda tanto quanto a tortura do regime militar. Não tem memória porque não esquece que o Collor implantou o regime da arrogância, confiscou depósitos bancários, liquidou com a liquidez e devolveu empregos perdidos em dezoito meses sem juros.

Brasileiro não sabe votar. Como se alguém no mundo soubesse. Imagine se dinamarquês soubesse votar e faria eleição assim mesmo. Imagine se houvesse um único indivíduo no mundo que todos dissessem, este, sim, sabe votar, ora, a ele delegaríamos o poder do voto único e coletivo; diríamos, vá lá, meu bom francês, inglês, americano, venezuelano, japonês ou brasileiro, vote por todos nós, porque só você sabe votar. Porque a democracia é exatamente o regime de quem NÃO sabe votar e, por isso, TODOS votam. Seu contrário - a ditadura - é definitivamente aceitar essa insuportável verdade e entregar os pontos, adorando temer e pendurando na parede um par de botas, coturnos.

Rimando coturnos com soturnos, paro por aqui, meu amor, como prometido; a saideira fica para outro dia, outra noite. Doravante, inventarei histórias ou as roubarei do cotidiano, legitimamente, eu juro. Na despedida, provo não ter exagerado e faço um quatro:

1 - O brasileiro não sabe votar;
2 - O mundo não sabe votar;
3 - Foi por isso que os gregos inventaram a democracia;
4 - O brasileiro TEM memória.

A ênfase, meu amor, fica por conta de, esta, ter sido a última desta noite. A saideira, como prometido, fica para outra. Vamos para casa; ao cotidiano; e tiremos dele o que houver de romântico, irônico, sem valor algum. Assim como essa, a última, que, na verdade, é e será sempre a penúltima.

A saideira fica pra depois.

10.07.2008

MACACOS NA PRAIA

Depoimentos de pessoal de cinema que filmou no Brasil apresentados no documentário "Olhar estrangeiro" incluem algumas pérolas, como a de quem pôs um macaco a passear entre beldades na praia de Ipanema. Questionado, o diretor retrucou: - Não há macacos em no Brasil? - e ouviu o, para nós, óbvio: na praia, não. Mas nenhum se compara ao comentário do ator Michael Cane: "Se vocês querem ser levados a sério, parem de fazer gente bonita e de ser alegres. Meu país faz um monte de gente feia, dificilmente demonstra alegria e sempre é levado muito a sério".

(Enquanto, por exemplo, uma Ana Miranda, para escrever Boca do Inferno, vai às últimas para pesquisar, narrar e recriar, o "olhar estrangeiro" sobre nós chuta, mistura lingua espanhola com a portuguesa, selva com praia, e... ganham mais dinheiro.)

Michael Cane, em seu comentário, foi, mais que qualquer outra coisa, inglês: usou do humor e da gentileza para se expressar e se desculpar por gafes cometidas por colegas seus de arte e profissão, das quais inclusive fez parte. Muito mais do que isso: tocou numa ferida exposta; num recorrente mal genuinamente brasileiro.

Não à toa a associação de alegria e sensualidade com falta de seriedade nas coisas vem de fora e associada ao Brasil - porque ela começa é aqui, no Brasil. A brincadeira do ator inglês mostra que humor pode ser muito bem associado a seriedade e, mais ainda, a deter poder, permanecer no poder, ser visto como civilizado e rico, ainda que os tempos do british empire já se tenham ido, sem sequer deixar, esquecidos, fraques, cartolas e bermudas com meias três quartos na Índia do Ghandi. A falta de seriedade, especialmente na condução da coisa pública, no Brasil, nada tem a ver com humor. Não passa de deboche, e deboche não pode ser confundido nem mesmo com humor ruim. É deboche, nada mais que deboche: desrespeito; sensação de impunidade.

Portanto, que não venham os debochados a nos roubar nosso genuíno e mundo afora admirado humor. Muito menos você, gente instruída, culta, ilustrada, a se deixar levar nessa onda debochada e desrespeitosa. Caso contrário, aguente firme - e pague para ver filme inglês com macaco passeando em Ipanema. Pague por isso mesmo: mico.

9.25.2008

O EXPLICÁVEL, O INEXPLICÁVEL E MINAS GERAIS

Cada vez mais se conhece dos dinossauros e menos de Minas Gerais. As pesquisas e escavações ainda não permitem saber se os dinossauros, seus parentes e contra parentes se reuniam ao redor de um fogão a lenha preparando um feijão e se provavam de uma cachaça do alambique do quintal do vizinho, enquanto as mulheres-dinossauros comentavam que os homens estavam bebendo demais e, por isso, bebiam licor de jenipapo, e se daí é que surgiu o conceito de Estado Nação. Também não se explica porque, no atual Estado Nação conhecido por Brasil, o maior de todos os parentes e contra parentes dos dinossauros nele encontrados o tenha sido em Uberaba, cidade que se encontrou - como se encontra -, não no divã do analista, mas em Minas Gerais.

Tudo tão inexplicável quanto o que ocorre em Varginha, que, apesar de Paris, é a preferida dos discos voadores, desde os mais espetaculares e amedrontadores aos mais carismáticos e aproximadores. É de se presumir que dentro deles também se achem fogões a lenha, meninos sujos de barro entrando de repente, derrubando leme, timão, panela e cachaça, meninas e suas bonecas de pano, senhoras e senhoritas dizendo NÓ!, rapazes e senhores de sobrancelhas juntas jogando sinuca e exclamando SÔ!.

O explicável, o compreendido, o tácita como explicitamente aceito, típico dos Estados Nações, é exibido na incontável série de dias e noites, inimagináveis até pela mais criativa das Sherazades, perdidos com crises e supostas soluções, barbáries expostas ao Estado inoperante, tudo dando a sensação de que melhor seria se o noticiário fosse exibido única e exclusivamente ao Estado; ao Império e seu desgoverno; às fronteiras invisíveis, suas crenças e ambições para e desde sempre incompatíveis; à irresponsabilidade, ora legal, ora à margem da Lei e, portanto, do seu arcabouço, que permite que indivíduos portem armas – e de fogo -, tornando-os capazes de homicídios e suicídios, da Finlândia à Flórida à Rocinha. Passando, aliás, por Paris.

Profissionais da notícia têm o dever, o direito e o ganha-pão de a nós nos denunciar as barbáries e irregularidades, para que todos delas saibamos e o Estado de Direito as coíba e as corrija; porque, se nós delas não soubéssemos, o Estado Nação de Direito não iria cumprir com seu dever, coibindo a barbárie, corrigindo as irregularidades e a ambas punindo. Somos as testemunhas fundamentais, aquelas que a tudo vêem, que a tudo escutam, que com tudo pasmam e sofrem.

Bernard Shaw diria: somos a consciência do Poder, - pois consciência é a sensação de que alguém vê o que estamos fazendo. Um novo Churchill surgiria, e afirmaria, com nova e emblemática frase, com outras palavras – in English, of course - que esta propaganda eleitoral gratuita-imposta-forçada-decorada-boçalizada está mais para anti que democracia.

Hoje, não. Hoje, pelo menos hoje, optemos por testemunhar a réplica montada no Rio de Janeiro do maior dinossauro encontrado aqui, antes que fôssemos Uberaba, Minas, Rio ou Brasil; que fôssemos fogão, barro, feijão, boneca de pano, cachaça; Nação Estado. Optemos hoje pelo próximo pouso em Varginha de uma nave de outra galáxia, carregada de compadres e contra parentes nossos e dos dinossauros; e tentemos, de uma vez por todas, explicar Minas Gerais.

9.22.2008

A CRISE

Do pré-sal ao colapso financeiro mundial, passando por Bolívia e Venezuela aqui ao lado, há um leque de opiniões e manifestações, de sábias a sabidas, sem esquecer a dos sabichões – sempre de grande impacto emocional, revestindo o mesmo conteúdo das mais sábias opiniões sobre a crise e o aquecimento global: ninguém sabe ao certo onde isso tudo vai dar. A não ser as capas de algumas revistas, cujas manchetes garantem que sabem, que mostram caminhos e soluções, a nos deixar perplexos quanto à burrice da maioria, especialmente a sabida, que ou não lê as revistas ou as lê e não as compreende.

O vendaval do crédito era mesmo feito de vento e, afinal de contas, de que são feitos os vendavais? E o que fazem os vendavais, a não ser nos dar a esperança de uma boa transformação e de verdade nos jogar areia e poeira nos olhos?

A crise de 1929 é o fantasma que arrasta suas correntes aos pés das camas dos casais e das mesas dos financistas e investidores, além de levar de roldão cama e mesa dos duros de sempre, Opa, cadê meu prato? Ih, minha casa voltou no mesmo caminhão do prêmio que a trouxe, Querida, aonde vai você, ah, aonde não importa, e sim com quem, tudo bem, mas de algemas, bem?

Somos ou não à prova de crise – é a questão do momento. Onde é que estávamos em 1929, alguém produziu um manual dela, que servisse para outras que viessem depois?

Há. Um romance de William Kennedy que virou um filme de Hector Babenco. Ironweed. No filme, Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais, dramas particulares, antigos, revividos nos anos da terrível depressão, e um magistral Tom Waits, figurante, interpreta um sujeito que, logo no começo, comemora: descobriu que tem um câncer.

A associação do pré-sal brasileiro com o câncer do personagem de Tom Waits seria de todo precipitada, ou pior: rasa - ao contrário das profundezas do óleo, não se sabe ainda se tão promissor quanto, desde já e tanto, festejado.

Mas uma coisa é certa: se as crises são dos bancos, quem sofre de medo, de dor, quem se dobra aos ventos, é arrancado e atirado às pedras pelos vendavais, somos nós.

Alguns, de algemas; outros, sem.

9.17.2008

DUAS MÃOS

Ela saiu poderosa do salão de beleza. De óculos escuros, jogou os cabelos para trás e atravessou a rua. Sem olhar para os lados. O barulho trouxe à janela cães e seus latidos, mulheres e suas rezas, senhores e seus jornais, adolescentes engolindo apressados e gordos sanduíches. Pouco movimento nas calçadas. No asfalto, sinais fechados nas duas transversais que dão início e fim à rua: momentaneamente, nenhum movimento de veículos. O motorista do táxi pôs a mão na cabeça, perguntou a ninguém, O que é que eu faço?

Em frente, um hospital de emergência, suas ambulâncias à porta. Um carro da PM estacionou atrás do carro velho do taxista com o pisca-alerta ligado. Um guarda se aproximou da mulher deitada no asfalto. Um outro dirigiu-se ao hospital. Ventou um pouco, folhas caíram das árvores. Os poucos transeuntes nas calçadas formaram pequenos grupos aqui e ali, à exceção dos que passavam com pressa ou indiferença. Carros que vinham na mão do atropelamento primeiro buzinavam indignados e, depois, ligavam o pisca-alerta e aguardavam a chance de desviar do acidente, lentos e furibundos. Na outra mão, os veículos dobravam a esquina em velocidade e, depois, a diminuíam, espiando detidamente o guarda, o taxista, a mulher no chão.

Enfermeiros portando maca e guarda-paletós metálicos, trazendo, ao invés de roupas vindas do trabalho, tubos com líquidos coloridos e incolores, atravessaram a rua e ajoelharam-se ao lado da mulher. Um deles a pegou no pulso, outros a puseram sobre a maca e a levaram para dentro do hospital. O PM que voltara com os enfermeiros de lá começou a apitar, mandando curiosos de carro ou a pé para onde bem quisessem, desde que longe dali; o outro e o motorista por profissão estacionaram seus automóveis, um à frente do outro, paralelos à calçada. E foram para o hospital.

Seis meses, três hospitais e algumas cirurgias depois, ela voltou ao mesmo salão. De beleza. Adoraram seu nariz novo. Desta vez, ao sair, não atravessou a rua. Seguiu pela calçada até a esquina mais distante e entrou na farmácia, porque estava com um pouco de coriza. De óculos escuros, jogando os cabelos para trás, saiu da drogaria e esperou sua vez de atravessar na faixa. Carros, apressados ou indiferentes, ignoravam sua presença esguia de mulher bonita e poderosa. Nas duas mãos.

9.06.2008

AINDA SOBRE A GUERRA

É gente ilustre que defende que o Brasil só progredirá se aqui houver uma guerra.

Curioso, porque gente ilustre teve – e tem - acesso à escola, à História, Geografia, Matemática...

A guerra uniria. Pense aí em supostas uniões decorrentes das guerras: a soviética; a alemã (isto é, sua desunião, só recuperada mais de 40 anos depois da Segunda Grande Guerra); tente, tente, vá em frente, você, acompanhado dessa porção de gente ilustre que quer – prega - a guerra.

A guerra desenvolveria tecnologia; ocorre que, sua ausência, também. Assim tem sido – ou não?

Mas, vamos ao Brasil, veja se o que falta ao país são mesmo as guerras: à sua história.

Foi guerra entre português e índio, português e francês, português e holandês, branco e preto; índios fuzilados nos anos sessenta e setenta do Século, qual, mesmo?, Vinte (ou agorinha mesmo, no Vinte e Um?); Guerra do Paraguai, Guerra dos Farrapos – com direito a degolas em série -, Guerra de Canudos; Revolta da Armada, Dezoito do Forte, Revolução Constitucionalista; o Brasil foi à Segunda Guerra, você sabia, gente ilustre? Sabia que morreu gente, naquela guerra? E gente brasileira, rapaz! Morre gente em guerra, ih, você nem sabia disso, - e morre violentada, decepada, sem perna, explodida, queimada. Duas ditaduras; guerrilha urbana e rural, repressão, tortura, meninas deitadas em um campo de futebol e soldados fazendo xixi em cima delas. Você sabia, gente ilustre? Se sabia...

Essa “gente ilustre” costuma dizer também que o brasileiro é passivo, que o brasileiro não tem memória; e tome estudantes pernambucanos, Tiradentes aos pedaços pendurados por aí, passeata dos cem mil, porões, edsons, vladimires enforcados, caras pintadas, tudo isso é passivo e sem memória, porque a história oficial a elimina, como elimina autores brasileiros das bibliotecas das escolas; igualmente porque há essa suposta gente ilustre que a tudo ridiculariza - mas, esta, atenção: já está devidamente catalogada nas bancas, livrarias e em laboratórios especialistas em parasitas.

A história acabou coisíssima alguma, porque a do Brasil, pelo menos, continua. Balas perdidas, balas achadas - em corpos infantis, inclusive. A guerra continua, percebe, gente ilustre? Pobreza medida a duzentos e cinqüenta reais por mês: quem ganha isso é pobre; menos que isso, miserável. Seja pobre com duzentos e cinqüenta reais por mês e grite, alto e bom som, Eu quero uma guerra!

O Brasil pode precisar de um monte de coisas para progredir; mas não é de guerra que o Brasil precisa, porque já a teve e a continua tendo. Não é de guerra, nem dessa gente que diz que a deseja, confortavelmente, em seus pufes, frente às câmeras, sorrindo, debochada, balançando-se, como a sofrer de hemorróidas ou a tentar, inutilmente, unir, sem guerra, seus dois únicos e inúteis neurônios. Não, não é de guerra, nem desse tipo de ilustre que o Brasil precisa.

8.31.2008

A GUERRA É NECESSÁRIA

A afirmativa sempre é feita por quem não está de capacete nem na linha de frente.

Pense em um verso de amor e o suponha inspirado pela separação causada pela guerra, ou mesmo com a certeza de que assim o tenha sido. Agora, pense nele novamente, eliminando da sua gênese ou essência a guerra. O verso sobreviveu - e me prenda se assim não tiver sido.

Picasso não deixaria de ser Picasso sem Guernica – nem Guernica y Luno deixaria de existir sem Picasso. Ou Franco. Nem Lorca sem este e nem a Galícia sem eles.

Pense em um ato de tortura e perceba que, da guerra, ele não depende. Em um estupro. Pense nele - você, capaz ou não de o cometer – e verá que a guerra não lhe é ingrediente indispensável.

Em uma invenção. Vale a pena investir um pouco mais, aqui. Reflita: afora tanques, bombardeiros, me responda, sem pressa, se navios, aviões, automóveis, cavalos, camelos, bicicletas, lambretas, pontes, bengalas, chapéus, uniformes, sapatos, botas, computadores, muletas, se da imaginação teriam sido esquecidos se dela a guerra não fizesse parte.

Homens sofrendo de abstenção sexual deixariam de invadir uma casa se não houvesse a guerra? Mulheres precisando de dinheiro e percebendo a chama sem fogo nas entranhas aguardariam a guerra para sua satisfação? Filhos bastardos surgem somente na guerra? O que você vê na tv, longe, bem longe do seu cotidiano, tapas, socos ingleses, cabeças vivas dentro de sacos plásticos asfixiadas até que, delas, indissociáveis bocas balbuciam o que o dono do saco quer ouvir; sacos, seios queimados por cigarros, humilhações as mais imaginosas, algo disso precisava de uma guerra?

Um tarado, um tratado, uma traição, uma conversação, uma fronteira, uma convenção, tal e qual um verso, da guerra não precisam - e me prenda se eu estiver errado (mas me prove).

Uma grande indústria fabrica armas em escala mundial. Evidentemente, não há parasita sem quem o alimente. O que seria da indústria armamentista se não fosse a guerra? Chore você por essa perspectiva, a da morte sem guerra da indústria da guerra – e perceberá que, até mesmo ela e seus produtos, tanques e bombardeiros, seus empregados, sem a guerra, todos sobreviveriam. A maldade sobreviveria, assim sua ameaça. O progresso permaneceria, tal e qual o atraso. O respeito e o desrespeito: tudo resistiria à ausência da guerra.

Quem defende a guerra como algo indispensável – ou pontualmente necessário – precisa fazê-lo com o capacete certo, adequado àquilo que lhe ocupa o cérebro.

Um pinico.

8.21.2008

MADE IN BRAZIL

Meu caro amigo Enrique:

Eu, na praia do Leme, com menos de 15 anos, como se fosse, agora, amigo de escola das nossas filhas, de peito, de cabeça, de letra ou sem querer, colocava na gaveta e afirmaria que, se Nelson Rodrigues houvesse consultado o Sobrenatural de Almeida, não teria afirmado, como afirmou, que Antônio Callado era o único inglês de verdade. Lá, onde a coruja dorme, teria deixado escrito:

- Há um segundo: ele se chama Enrique.

Fato é que você, London, London, no centro do mundo financeiro, comandante de transações transnacionais, sempre correto, sempre rigorosamente observando e respeitando as leis e as leis de mercado, como inglês de verdade e Made in Brazil, não consegue deixar de ser notorious às vistas da Scotland Yard. As a matter of fact, sequer se esforça a escondê-lo.

Você foi flagrado: um raro como legítimo botafoguense.

O agente da Scotland, de súbito revelando o secreto chapéu coco sob o arranjo de jardim que secularmente brotou na cabeça dele, sobrepondo-se ao rubro tórax cheio de dourados botões, guardiões do palácio de Buckingham, brande sobre sua brasileira e botafoguense face o britânico distintivo - que venta terríveis, tamisentos, brumosos ventos. Acintosamente, ele acusa:

- Filipão is ours, thank you very much, sir.

E você, inglês de verdade, segundo e único, altivo, seguro, afirma:

- O Botafogo está no G4 do brasileirão. Ocupa agora o 3° lugar. Hoje, quem perdeu do fogão foi o Cruzeiro; domingo passado, quem, mesmo? I bag your pardon, Mr. Policeman: I do not remember.

Mr. Scotland joga ao chão seu chapéu coco e se retira. Nelson Rodrigues entra em cena trazendo Shakespeare pelo braço, um, em tricolores, outro, em rubro-negras vestes. Uma faixa preta com uma cruz vermelha surge do nada, cheia de bigodes. Baixa o pano e, neste, se lê, preto no branco:

FIM DO PRIMEIRO ATO.

Alvinegros abraços,

Mario.

8.02.2008

SÁBADO, HOJE, AGORINHA MESMO

A previsão era chuva e de fato o dia começou com um vento Sul daqueles, chuva, frio. De repente, o Nordeste – o vento que leva seu nome porque é de lá que ele vem. Mudou tudo: um início de tarde ensolarada, quente, o apartamento se torna opressor, vamos para a rua, caminhar na Beira Mar.

Devagar, por favor. Se a caminhada tem como um dos objetivos queimar gorduras e toxinas, hoje, tudo o que menos se quer é objetivo. É dia de adjetivo, dos mais banais, batidos - lindo dia, lindo mar, puxa, que sol maravilhoso. Uma gaivota tem seus dois pés de gaivota sobre as costas de outra gaivota, um duplex de gaivotas na areia mirando o mar da Baía Norte de Florianópolis. Mais adiante, uma outra sobre a pedra admira a regata, lá fora, perto do continente; estamos na imensa Ilha de Santa Catarina.

De repente, um casal visivelmente humilde, duas crianças, seu cão, que desconhece humildade e soberba, sabe o que é bom: o mar. Poluído? Para ele, não - negro cão, pelo curto, descendente de labradores, invejável vagabundo. O pai de família, seu casaco quadriculado de descendente de lavradores, fora de lugar; a mulher, mestiça, a corrente que serve de guia ao cão quando ele precisa pertencer à outra raça – a humana – brandindo nas mãos. Ele, o pai:

- Um tarado, filho da puta, com o pinto na mão, estava no banco se exibindo para menino pequeno. Um tarado, filho da puta, desrespeitou minha família, tem que prender.

- Onde ele está?

- Foi embora, foi pra lá, tem que prender ele.

A mulher:

- Eu dei com essa corrente nas costas dele, ele saiu correndo.

Vamos embora, vamos em frente, vamos, porque já íamos, na mesma direção do tarado, que já deve ter sumido. Cadeia, para ele, será pena de morte; manicômio judiciário, o que seria? Cortar o pinto dele, seria boa sugestão? Mutilar seu cérebro?

Anos antes, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, um camarada masturbava sobre o banco da bicicleta parada. Uma moça, despachada e revoltada, disse a ele:

- Cara, vai procurar uma mulher de verdade! – e o tal cara pôs seu objeto de prazer solitário e ostensivo, invasivo, para dentro das calças e se foi, pedalando – não se sabe se para, de fato, procurar uma mulher de verdade.

Uma água de coco. Um gaúcho, muito educado, é quem conta que a manhã começou tenebrosa e depois veio o vento Nordeste, mudando sua história. Um policial passa devagar com sua moto na ciclovia; é notificado. Sobre o tarado. Sobre a família ultrajada e ameaçada, seu nobre cão vagabundo e contente, sua mais marcante referência.

É hora do almoço.

7.19.2008

LINGUAGEM CIFRADA

Pode estar certo de uma coisa. Se alguém começar uma conversa com um “Eu sou muito franco”, você não vai gostar do que vai ouvir. O que está a caminho, na seqüência, é maldade. Se o tom for de pergunta – “Posso ser franco?” – você ainda terá a oportunidade de responder: - Não. Gosto mais da sua costumeira hipocrisia.

Outra coisa. Quando você for chamado de “você” por um estranho, estranhará a intimidade. Já se for chamado de “senhor”, pedirá, Por favor, me chame de “você”.

Meu caro: quando você for chamado de “Meu caro” – pessoalmente, cara a cara, na bucha, olho no olho, na lata, ou, mais ainda, quando o olhar de quem dispara o “Meu caro” mirar o infinito ou o esgoto da vida – tenha certeza de que “caro” é o que você não é.

Uma pergunta: algum amigo seu dirigiu-se a você começando a frase com “Meu amigo...”?

“Meu amigo”, muitas vezes, começa com um “Escuta aqui” ou “Olha aqui” – e sua vontade - diga a verdade - é de perguntar, “Aqui, onde? No meu punho fechado?”. Ou não é?

Já viu mulher se dirigindo a outra com “Oi, amiga”? Pode trocar o “amiga” por “querida”, como somar “mm”, “mm”, de uma troca de dois beijos nas bochechas, e continuar à espreita, porque a troca entre elas é de flechas e está só no começo – e arcos femininos podem ter todos os defeitos, mas são os mais bem feitos da natureza.

De modo que... Posso ser franco? “Pois sim” é não e “Pois não” é sim. E você, o senhor, você, tio, que sabe disso desde sempre, ainda acredita que eles serão presos?

Ora, francamente...

7.12.2008

UMA ENTREVISTA

Aos nossos caríssimos amigos de Florianópolis e arredores,

hoje, às 21h30, com repetições tb hoje às 23h30, amanhã, domingo, às 16h15, terça às 17h30 e quinta, 00h30, será exibida uma entrevista minha para o jornalista Fernando Mansur, no programa Momento Temperado, TVCOM, canal 36, sobre meu livro "A revolução do silêncio". Será uma honra tê-los do outro lado da sala. Maiores informações sobre o programa no site www.momentotemperado.com.br.
À Adriana Prates, que me apresentou ao Fernando e agendou a entrevista, mais uma vez, muito obrigado.
Abraços,
Mario.

TRISTE FIM DE QUIDE-QUEDE-O-QUÊ

Quide, um brasileiro,
Partia para o abraço,
Percebeu a chegada aflita
Da comparsa, doce amada.

Metralharam um menino de três anos
- Ela disse a ele.
Ele, que era metáfora,
Virou realidade, assim, súbita, cruelmente.

Encerrou sua jornada,
Voltou com sua cúmplice namorada
Pacífica, estarrecidamente, para casa,

Triste casa,
Pátria
Dos apátridas.

6.17.2008

SONETO NÚMERO TRÊS DE KID, UM BRASILEIRO

(COM DIREITO A PARÊNTESES PARA UMA BREVE INTRODUÇÃO)

(Houve tempo de abandono;
Sua companheira
- Sabe quem? -
Era uma coceira.

Houve também o tempo
Da comparsa pendurada,
Bicho-preguiça
Balançando-se na árvore.

Hoje, sua cúmplice-parceira
É humana e feminina
E - portanto - valente.)

Resoluto, direto ao encontro dos que vêm,
Quide ligeiro se volta à comparsa e responde:
"Farei de tudo para almoçarmos juntos".

6.16.2008

SONETO NÚMERO DOIS DE KID, UM BRASILEIRO

No esconderijo,
Olhando pela brecha,
Enquanto Quide-quede-o-quê
Partiu pro abraço -

Quide está lá, do lado de fora,
No momento em que,
Perigosamente,
Eles se aproximam -,

Ela, sua comparsa,
Coça o ventre,
Toma um banho e se penteia,

Sai pra fora,
Enfrenta vento, calor e chuva
E pergunta, - Quide, almoçamos juntos?

6.04.2008

SONETO NÚMERO UM DE KID, UM BRASILEIRO

No esconderijo,
Olhando pela brecha,
Enquanto a comparsa,
Tranqüila, dormia,

Aflito,
No momento em que,
Perigosamente,
Eles se aproximavam,

Kid, por extenso,
Em Português,
Quide-quede-o-quê,

Saíu pra fora,
Enfrentou vento, calor e chuva
E partiu pro abraço.

5.23.2008

ESQUINAS E BARES, MEU AMIGO JOÃO

Amigo João:
As telecomunicações explodiram-se
Na razão da expansão do universo
Na proporção inversa da razão.
Os botequins e as esquinas
Afastaram-se
Na velocidade do engarrafamento.
Como você fez questão de me ensinar,
Os botequins e as esquinas ainda existem,
Meu amigo João.
A melhor inspiração
Da estátua da liberdade
- alguém erguendo a mão, dedos estrelados, chamando o garçom –
Permanece,
Meu amigo João.
Amigo João:
Da próxima vez
Que eu me aproximar de São Paulo,
Numa nave antiga ou moderna,
Cego que sou,
Necessariamente guiado por um cão,
Farei sinal a um táxi
Irei direto à questão:
Quero beber alguns chopes
Na companhia do meu amigo João.

5.20.2008

CLARICE E VANDERLÉIA



“Mas a vida humana é mais complexa: é a busca do prazer, seus temores, e, principalmente, a insatisfação dos intervalos.”
(Clarice Lispector, "Perto do coração selvagem".)
“Senhor juiz... Pare! Agora...”
(Vanderléia, nos tempos da Jovem Guarda)

Sete e meia da noite. O alarme de um estacionamento dispara. Toca repetidamente seu som insuportável de alarme. Se ladrão houve, já se foi faz tempo.

Sete e quarenta e cinco. Polícia, por favor, pare! Agora. O alarme. Aqui é da Federal, favor ligar para a Civil.

Sete e cinqüenta. Polícia, por favor, pare! Agora. Aqui é da Civil, favor ligar para a Militar.

Sete e cinqüenta e cinco, Aqui é da Militar, senhor, não podemos fazer nada, a não ser uma ronda.

Oito e cinco. Parou o alarme.

Oito e quarenta. Silêncio na casa. Ela chegou e interrompeu.

Dez. O cachorro chegou e fez uma festa danada, pulou no colo e tudo. E voltou para perto dela.

Onze. Um filme na TV, uma entrevista, tudo ao mesmo tempo. A menina com o livro nas mãos diz em voz alta o texto impressionante. Para ela.

Meia-noite é solidão e todo mundo sabe. A tal ponto que gira sozinho em torno do sol que dorme.

Quem quiser que acredite: meia-noite e quinze: o alarme voltou a tocar.

Quem quiser que acredite: no exato instante de nova chamada para a Militar, que promete tomar providências, o alarme volta. A parar.

Se ladrão houve, nos roubou a noite.
Curioso: fechada a janela, abriu-se o amanhã.

5.13.2008

UM BELO FILME

ROMA, um nome de mulher: este, o título do filme no Brasil. Na versão original, ROMA. Roma é portenha, descendente de italianos, mulher de um boêmio, de carne e osso, ela, professora de piano, mãe libertária de um futuro escritor, que se muda para a Espanha nos anos 70, ditaduras militares em curso na América do Sul. O que se conta é o passado, - a parte mais especial da vida do escritor em sua Buenos Aires, quando, já há muito radicado em Madrid, tem mais do que os seus sessenta anos, é homem difícil, rabugento - e bom. Eles existem; como existem belos filmes.

Dizer mais, não digo, porque não quero contar o filme; porque não tenho mais nada a dizer, a não ser que assisti a um belo filme, com excelente elenco, roteiro inteligente, passada sensível, espanhol bem falado, castiço e portenho, diferenças sutilmente sublinhadas.

Em DVD.

Buenas noches.

5.11.2008

DIAS DAS MÃES

Pois é, meu blog amigo,
Meu Rio antigo,
Faz tempo não nos falamos.
Permaneço aqui, nesta ilha imensa,
Onde o mar
Felizmente
Imenso
Permanece.

Anoitece.
Hoje – agora - é noite de domingo.
Por isso,
Rimo;
Remo
Contra a maré
Do frio,
Do inverno.

Quando rima é o que eu quero,
Rima é o que não me vem.

Hoje
É dia das mães.

Almoçamos fora,
Fomos a um restaurante -
Privilégio, blog amigo,
Saudades, Rio antigo.

Rio moderno
Da Rua do Lavradio
Rio
Das soluções
Tardio.
Vencido,
Rio,
Vencido?

Não pode ser,
Hoje
É domingo
É dia das mães,
Rio,
Você, Rio, minha mãe.

E meu pai.

Florianópolis,
Deus te abençoe,
Te faça percorrer caminhos
Que te levem à semelhança com o Rio
Só naquilo
Que o Rio tem de bom.

Fale mal do Rio,
Florianópolis,
Mas nos faça um favor:
Faça diferente.

Não empilhe pobre no morro,
Não seja assim tão brasileira
De mera observação.
Seja brasileira
De criatividade.
Invente-se a si,
Florianópolis,
Reinventando até o Rio,
Reinventando até o Brasil.

Rio,
Florianópolis,
Brasil,

Façam-nos o favor
Do nosso renascimento:
Afinal
Hoje
É dia das mães.

Queremos renascer
No colo amado.
No lugar da rima,
O impensável:

O mar
Moldura
Da dignidade
Individual
E coletiva.

Hoje -
É dia das mães.

5.01.2008

POEMELHO NO ESPELHO

Quem vence a inflação
A recessão
Toda porcaria
Quem fica sem emprego
E vota
Ou não vota
Quem suporta
Quem agüenta
Principalmente a hipocrisia

A demagogia

Quem vai à guerra
Morre por Deus
Ou a Democracia

As estupradas
Os violentados
Os de pernas arrancadas
Os de barriga vazia

Os que assistem à TV

Todos

Que aplaudem
Vitórias suas

Postas

Nas estatísticas,
Nos índices,
Nos discursos,

Pode ser que um dia
Bem cedo acordem
Como fazem todo dia

Se olhem no espelho e digam
- Cada um às suas próprias remelas -

Todas essas vitórias são
Foram

Minhas.

4.27.2008

CRÔNICA DE UM CASAMENTO – E DE PRIVILÉGIOS

Começa que, na casa do Luiz, almocei um estrogonofe preparado pela Beatriz, só comparável ao da Lygia, da Tereza e da Glorinha. Saber quem são essas personagens, como outras aqui citadas, é privilégio de poucos – e os que não o têm, claro que têm o de conhecer outras que nós não conhecemos; portanto, deu empate: vamos em frente. (Algo que anda esquecido por aí: personagem é feminina, como imagem, reportagem...)

A igreja foi a da Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Rio de Janeiro. É mesmo de se lamentar que o descaso das – ditas - autoridades vá a tal ponto de não perceberem que a geografia privilegiada mereça reverência, respeito e cuidado - o exato contrário de pobreza, falta de educação, crime e dengue. Mas nem de estrogonofe nem de dengue, muito menos, de malditas autoridades é do que se fala aqui – e, sim, do casamento da Luciana e do Ricardo. E de certos privilégios. Por exemplo, o da companhia da avó da noiva, Dona Mariana, e seus 80 e alguns e generosos anos - para com os outros, sempre. Na casa dela, há uma varanda onde... Fica pra outra, esta, imensa de histórias, varanda.

Chegando na Glória do Outeiro - moro em Florianópolis -, justifiquei a ausência da minha mulher e da minha filha e comentei que a primeira comprou um CD do Zeca Pagodinho e, ao invés de ouvi-lo alto e bom som no aparelho da sala, preferiu tocá-lo num desses portáteis, só encontráveis atualmente em fundos de armários e feiras suspeitas. Fui mal interpretado e fiz questão de deixar claro: eu e ela gostamos muito do Zeca Pagodinho – e eu, mais ainda do que ela, de torresmo e farofa.

Privilégios.

Antes da noiva chegar, começou aquilo que, se fosse um filme, seria chamado de trilha sonora. Eu estava ao lado do meu irmão – o Luiz – e da Gisele, a mulher do pai da noiva – que disse assim: “É Vivaldi, não?”. Eu respondi: “Sim - as 3 estações”. Meu irmão, prontamente, me corrigiu: “Mario, as estações são 4”. Eu justifiquei: “Os aparelhos lá de casa só pegam 3”.

Chegou a mãe da noiva, bonita, e eu a pensar, mas este meu amigo André, pai da noiva, é mesmo um privilegiado, de ex e atual mulher tão lindas. Não vou citar aqui tantas mais personagens e suas inconfundíveis personalidades, porque não caberiam – na crônica, sim, caberiam, mas, na minha memória, falta um pouquinho mais de espaço (o de uma varanda, mais precisamente).

A noiva chegou. Linda, sim, senhoras e senhores. Seu pai, meu amigo de quase infância, nervoso, deu duas tragadas em um cigarro e o engoliu aceso. Um padre simpático, que, segundo o Luiz me disse, ultimamente vem freqüentando tv e arredores, inclusive encontros onde ninguém entende a língua do outro e, por isso, todos se comunicam em Latim, mencionou a data da fundação da Igreja e comentou que, no apagão energético mais recente – não confundi-lo com o ainda mais recente aéreo, mesmo que este fosse, como se verá, pertinente -, disse que a luz do Redentor, naquele apagão energético, ficou parcialmente acesa por ter a estátua fincada no Corcovado se tornado, já tão cheia de significados, também uma referência para os pilotos de aviões. Depois, desculpou-se: “Eu sei que o departamento, aqui, é outro”.

Explique-se, para quem não estava lá: o noivo, Ricardo, é oficial da Marinha.

E poeta.

Quem pensa que este negócio de engenheiro se meter a escrever poesia tem alguma coisa de interessante, pode embainhar a espada: Ricardo, com seu uniforme azul-marinho, cheio de botões dourados, o sotaque devidamente usurpado da corte portuguesa e melhorado, recitou belo poema de sua autoria para sua amada, enquanto corria solto e bem servido coquetel.

Antes, porém, Billy, cunhado do André, cumprimentou, ainda no pátio da Igreja, o Rubens. Este, ligeiramente indignado, perguntou ao Billy: “Por que você não falou com a Henriette?”. Billy, prontamente, respondeu: “Rapaz, eu pensei que ela fosse uma desconhecida japonesa”. E, pensando bem, Billy estava certo: Henriette, namorada do Rubens, é, de fato, uma gueixa. Naturalmente que Sartre e Simone de Beauvoir estranhariam: “Uma gueixa francesa, como?”. Ocorre que, como bem Simone disse, todos os homens são mortais, - muitos deles, inclusive, flamenguistas - e ele, Sartre, muito gostaria de ter dito, uma gueixa que se chama Henriette é a prova máxima do existencialismo.

Assim partimos, da Igreja para a recepção, na OAB – Ordem dos Advogados do Brasil -, eu, Luiz, Rubens e sua gueixa francesa. Lá chegando, serviço de primeira, Erasmo e Fátima (irmã do André) a me cobrar, “Como você não trouxe a Rosa e a Maria Luiza?”, e eu, de novo, a tentar explicar que somos escravos de agendas, trabalho e milhagens, Luiza, mulher do Antônio Júlio (irmão do André), a fazer campanha para presidente, não me lembro se do Jóquei ou da República e, pensando bem, não faz muita diferença, já que o desta já tem seu terceiro inconstitucional mandato garantido, a depender apenas de uma inconstitucional alteração da Constituição, Lúcia (irmã do André), sem disfarçar sua expressão de mais para Santos Dumont que Congonhas, Marina (irmã – adivinha – do André) e seu marido Billy a dançar – e acho que a música era dos Beatles - Charles Aznavour – que o Billy garante ter encontrado no Rio Sul, e, mais, que não o confundiu com japonês nem japonesa -, André, pai da noiva, aproximou-se de mim, do Murilo e do Rubens, Gisele, mulher do André, nos acompanhando. O filho do Murilo veio com a namorada: ele, surfista, futuro engenheiro de produção, e ela, futura arquiteta, espaço que te quero humano, assim brindei e brinquei com eles.

Murilo bebericava seu uisque, e sua mulher, loura de olhos azuis, Eliana, depois de me dizer que eu ganhei na loteria ao me casar com a Rosa, e eu, como sempre, concordei, apenas ainda não fui buscar meu prêmio na CEF por ser um tanto distraído, Eliana disse ao marido Murilo que moderasse nas doses do Grant’s. Eu disse a ela o que já digo faz tempo à minha loteria, digo, mulher, Rosa: “Beba o necessário para não perceber o que seu marido bebe e o suficiente para depois dirigir nosso automóvel”.

Neste exato instante, Antônio Júlio, o irmão mais velho do André, fez questão de tirar uma foto nossa: de mim, André, Rubens e Murilo, amigos de mais de 40 anos – de amizade: de idade, passamos pouco mais de 10 desse número. Sentindo falta do Venâncio, que mora em São Luiz do Maranhão e não veio, eu disse: “Sou o Dartagnan dos 4 mosqueteiros”. Meu irmão, mais uma vez, me corrigiu: “Mario, os mosqueteiros eram 3”. Eu expliquei: “Lá em casa, os aparelhos pegam 4”.

Quem duvidar de tudo isso, que pergunte ao general Grant’s. Aliás, general, não: almirante. Almirante Grant’s.

Felicidades e agradecimentos por tantos privilégios aos noivos,
Mario.

4.18.2008

A HISTÓRIA DE UM PASSARINHO

Ela gritava demais, interferiu, na hora errada. Nós não estávamos nos entendendo, gritávamos um com o outro, e ela chorava, gritava, berrava. Insuportável. E aí você perdeu a cabeça, o que foi aquilo, você, suas mãos, seus pulsos retesados, sua unhas? Nunca vi você assim. Ela parou de gritar, está esquisita, o que fazer? Agora, ela ficou quietinha, finalmente. Quietinha. Um buraco, vamos, joga ela, joga lá embaixo, alguém jogou ela daqui de cima, foi ela que se jogou. Ela caiu. Alguém entrou aqui quando ninguém estava, foi isso o que aconteceu. O supermercado, alguém fez isso, não fomos nós. A mãe dela, olha a mãe dela, na tv. Um monte de gente, na tv. Não fomos nós. Não fomos. Nós.

4.17.2008

TRINCHEIRA

Quieto.
Fique
Quieto.
Permaneça
Quieto

Absoluto
Silêncio
Absoluta
Inoperância
Quieto.

A vida às vezes é uma trincheira.
O inimigo à espreita
Somente espera
Que você se mexa.

Quieto
Permaneça
Quieto.

Geralmente as granadas
São feitas de merda;

Não vá se sujar à toa.

AGORA, ANTIGAMENTE

E porque somos dois solitários
E nada sabemos um do outro

Porque me dás alívio
Só ao te perceber daqui de longe

Porque não és a lua
E com ela penso rivalizas

Porque te imagino
Imaginando a mim

Tão longe
Tendo o vento noturno como único amigo
Solitário amigo feito nós dois

Fico antigo desse jeito
Moderno tão somente
Porque te vejo de um apartamento
Casa em cima de casa

Vênus planeta feminino
Fingindo-se de estrela
Solitária estrela

Te agradeço e te venero
Boa noite
Solitária amiga
Que se finge de planeta.

4.02.2008

ENTRANDO NA POLÍTICA

Entrar na Política é fácil. Há três portas de entrada: uma à esquerda, outra à direita e uma bem no meio das duas, onde está escrito “CENTRO”.

Escolhida qualquer uma das portas, é acessado um corredor que inevitavelmente leva o ingressante a um salão oval – que não deve ser confundido com aquele que fica em Washington: estamos em Brasília.

No salão oval, há uma porta onde se lê “COZINHA”. O cheiro de pizza é inconfundível. Numa segunda e contígua porta, lê-se “BANHEIRO”. É necessária alguma atenção ao transpô-la, pois só lá dentro é que é feita a tradicional sub-divisão “MASCULINO” e “FEMININO”. Porém, não é este o maior cuidado a ser tomado: é que há uma terceira porta lá dentro, onde o cheiro de certos projetos é, tal e qual o da pizza da cozinha, inconfundível.

Retornando-se ao salão oval, a porta “CPI” apresenta invariavelmente espetáculos de comédia pastelão, onde o palhaço, também invariavelmente, é quem assiste. Ao lado, uma passagem secreta leva a um esconderijo onde somente portadores de um crachá especial podem ter acesso. Ao que tudo indica, dependerá somente de uma e somente uma característica que o pretendente ao acesso a esse ambiente deverá ter - só que esta nunca é explicitamente revelada. Assim, caso o ingressante ainda não tenha obtido antecipadamente de alguns já tradicionais freqüentadores o referido crachá e desejá-lo profundamente, convém que leia o noticiário, assista a algumas das comédias-pastelão na sala “CPI” e procure por um daqueles tradicionais mencionados que freqüentam um e outro desses espaços com bastante freqüência, quase sempre na posição de entrevistado-destaque, apresentando fortes suspeitas de portar o crachá e, principalmente, a característica que a ele dá direito. Mas, cuidado: uma vez dentro, nunca mais fora – embora, suspeite-se, exista uma ligação inevitável do esconderijo com a cozinha e, nela, apesar de algumas frituras, dizem haver uma passarela de onde se vislumbra o cartaz “RIQUEZA E PODER”, logo atrás do forno a lenha.

Onde se lê “PORTA DOS FUNDOS”, só entre se sua pretensão for subalterna, mesmo sabendo que, se quiser, poderá ter direito a um prato cujo nome se parece com um diminutivo de “mensal”. Seu criador foi muito elogiado recentemente.

Existe ainda um outro corredor, no formato de um duto, saindo de um ponto que não se sabe em que porão fica, que liga o salão oval ao Palácio do Planalto - onde, para se ter ingresso, é mais difícil: há que se ter outras habilidades. Por exemplo: falar diversos idiomas, todos em Português; dizer a mesma coisa de maneiras diferentes e coisas contraditórias como se fossem a mesma coisa; divergir como quem converge e convergir como quem diverte.

Voltando ao salão oval: onde se encontrarem 3 ou 4 gatos pingados, não dê importância ao fato de não haver uma placa na porta; fique apenas sabendo que, nela, estava escrito “IDEALISTAS”. Mas, como são só 3 ou 4...

E não desanime não: a alternativa já andou armada – e vivem nos lembrando disso, a torto e a direito.

Ou, melhor dizendo, à esquerda e à direita.