3.08.2009

BLOGUE VELHO, MUNDO BURRO

Como vai, blogue amigo velho?
Faz tempo não nos falamos.
Aqui do lado de fora é domingo,
Está chovendo, está ventando.
Na caixa da televisão
Tem um programa em nona edição
Que aqui ignoramos
Sem qualquer solenidade.
Ainda dentro da caixa da tv
Agora temos um arcebispo
Que excomongou os médicos
E perdoou o estuprador
De uma menina de 9 anos
De uma menina de 9 anos
De uma menina de 9 anos.

O Vaticano apoiou.

Blogue velho,
O mundo é mais velho que nós
E não aprende nunca.

Ê blogue velho,
Ê mundo burro.

2.09.2009

PRAIA E ARREDORES

Para Isabel, Flávio, Isabela.
Vera.
Minha filha, minha mulher.
Meu irmão.
E outros bons amigos de uma praia inteira.


Muito se diz que a praia é democrática, tanto quanto que nela se formam guetos, turmas, tribos. Se as duas situações são simultâneas e verdadeiras, a explicação é muito simples: a praia é anárquica. Não é democrática. Nem altruísta nem ditadora. Ninguém vota e ninguém manda. Não há poder nem golpe de tomada de. Quando ocorre o arrastão, seja dos pescadores ou dos favelados, o golpe não é dado na praia nem no mar: vem de antes; dos arredores. Vem da miséria que, a essa altura, ao nível do mar, neste século vinte e um - mais tantos outros antes do início da sua contagem cristã -, que ninguém duvide, não vem da anarquia nem da democracia. Vem do desgoverno. E de toda sua conveniência a quem ele convém.

Sacos cheios fora, se há vida depois da morte, reencarnação, vida em outro planeta ou sistema ou universo paralelo ou transversal, que a minha, se me é ou for dado o direito de escolha, que seja numa praia. Que eu mergulhe vivo depois da morte e de óculos; e que eles me permitam ver o fundo do mar, sua água, sua areia, com ou sem peixes, algas, tubarões, águas-vivas ou serpentes. Conchas. Baleias. Dêem-me o mar e a areia e viverei, morto e feliz.

Solidão, desta, não faço a menor questão. Uns pescadores, umas belas, eternas e verdadeiras amizades, um grande e um pequeno amor. Um bar. Um livro. Não, não: mais de um. Uma pedra, um morrote de pedra que, se eu tiver coragem, vou escalar ou contornar, pelo mar ou pela terra em volta, para ver se há outra praia depois dele.

De resto, vamos à praia, mesmo ou principalmente se estiver chovendo, mesmo e ainda que de noite, só não vale debaixo de raio - porque, debaixo de governo, seja ele qual for, temos que conviver com ele, viver com ele, apesar ou, lamentavelmente, quem poderá dizer se verdade ou mentira, por causa dele.

Mas não na praia. Na praia, ninguém manda. Na praia, mando eu.

Em ninguém.

1.01.2009

2009

Quem foi na frente, de tão querida, nos guardará um bom lugar.

Estamos no Rio. Meu irmão, que nos hospeda, se mudou para um apartamento em frente à Praça Eugênio Jardim, onde começa e termina o Corte de Cantagalo. À frente, a Lagoa; atrás, o mar de Copacabana; à esquerda, onde Ipanema começa a se desenhar.

Todas as manhãs, temos caminhado: ida e volta ao Leme; Posto Seis, Ipanema, Lagoa, Corte de Cantagalo; ou Corte, Lagoa, Ipanema, Copacabana. Fomos a uma festa em uma cobertura, na Avenida Atlântica, convidados de um primo e convidado, Mario Oswaldo, feita a devida consulta prévia aos anfitriões - que nos receberam muito bem, obrigado.

Nunca tinha assistido ao espetáculo de fogos ao vivo. Navios atrás das balsas de onde eles partiam me olhavam de longe. Um conjunto, uma gravação de Tom Jobim, depois, do Tim Maia. A contagem regressiva, uma valsa, um samba, uma guitarra, uma cantora. Os fogos se aproximavam e se afastavam. Depois, fumaça. Lá embaixo, a multidão. Comentei que, se estivéssemos lá embaixo também, igualmente nos encantaríamos – e antes e depois, nos juntamos e nos encantamos outra vez, não podia ser diferente.

Na vinda, a pé, somente um momento de tensão, totalmente ilusória. Passado o descabido susto, tive que perguntar onde ficava uma rua, onde teríamos nosso primeiro encontro, para depois irmos à festa: Domingos Ferreira – eu, que já soube dessas ruas de Copacabana todas, de cor, mapeadas na memória; acontece que oito anos são tempo suficiente para embaçar meus mapas mentais.

Nenhum outro susto, nem na ida nem na volta, a pé, junto à multidão que voltava para casa, o metrô, ou simplesmente zanzava. Às vezes, tonto, às vezes, tonta. Já fui um deles, sei como é. E acordamos e andamos outra vez, Posto Seis, Ipanema...

Quem inventou o automóvel era ruim da cabeça ou doente do pé. Não digo o mesmo do taxi, do metrô, do trem, nem do ônibus – mas todos perdem para o melhor meio de transporte, que já nasce com a gente, que a gente calça quando quer, que a gente descalça na areia e molha no mar.

Já quem faz a guerra é de uma arrogância que parece grande – entretanto, é tão somente menor que a menor das sensibilidades.

Feliz Ano Novo.

11.13.2008

5 SENTIDOS

Que expliquem isso tudo como quiserem, mas o fato é que a maioria de nós é sensível à beleza, à lua por trás das nuvens, se entristece quando a chuva fica por tempo demais, toma banho de sol artificial no lado do globo que permanece mais tempo no escuro que no claro. Cães nos respiram. Por que seus olhos miram fundo nos nossos enquanto isso, ainda que cientistas encontrem razões químicas, magnéticas, biológicas, permanecerá outro fato: cães nos respiram e nos miram no fundo dos nossos olhos. Melhor ouvir químicos de perfumes. Fundamental será frequentar floriculturas, perguntar onde colhem suas flores vendidas pelos olhos da cara em suas lojas. Literalmente, porque são eles, os olhos da cara, que se fascinam pelas flores, antes, logo depois ou ao mesmo tempo que nossos olfatos. As cores. Leia aí Platão ou Stephen Hawking, pregue o Gênesis na sua mesa de cabeceira, acelere as partículas, beba chá ou vinho. Principalmente, explique o deslumbramento e a afinidade que você tem com o mar. A lua, o ser que não é, que somente reflete uma explosão que dizem vai durar ainda por algum tempo, está lá, visível, clara, cheia, as nuvens saíram da sua frente e ela se exibe inteira, distante, fria. Fria? Uma moça toca um trompete. Um idiota está ao lado de outro em um carro em alta velocidade e põe a cara para fora da janela do carro e grita uma imbecilidade qualquer. Uma outra moça raspa uma tigela do chocolate que sobrou do bolo que a mãe fez. Uma velha excita-se, porque amanhã é dia de ir ao centro, centro do quê, alguém saberia dizer? Existe um? Crimes passionais, armas passionais, jogadores passionais, corretores passionais, investidores frios. Neste momento, em controlado desespero; mas frios. Quentes são os executivos a seu comando, ambiciosos, incestuosos, fazendo-se de frios. Medrosos. Poderosos. Diplomáticos, serão alguns. Outros, não: raivosos. Outros, não: estrategistas. Cartas. A lua? Apenas o ser que não é, que reflete, é um espelho, uma prisioneira, a girar em torno da outra bola que gira em torno da explosão que perdurará por algum tempo. E as explicações virão da aceleração, da fusão, da fissão, e você não saberá porque ficou excitado com o que viu, cheirou, ouviu, tocou, provou. Se assim for, parabéns.

11.09.2008

O RATO. E O CURSOR.

O rato eletrônico
Fica à minha espreita.
O teclado à espera
Dos meus dedos.
Dois três deles batem nas teclas
O resto à espreita. Todos tortos.
Tanto os que batem como os que olham. Esperam.
O cursor piscando na tela
Que ele diga o que eu gostaria de dizer
Que outros gostariam de dizer e ler.
As palavras me faltam.
Não é diferente quando leio
Quando um livro uma revista uma bula
De remédio é o que eu escolho
Como não diferente é quando assisto a um filme
Um show humorístico
Um show de música
Uma peça
Um balé
Um jogo de futebol.
Em algum instante minha raiva
Minha ira incontida inconfessa
Meu humor
Meu amor sufocado
Há de respirar.
Miro o cursor piscando
Me falta o ar.
Sede tenho pela água a cerveja o vinho
Pelo corpo da amada
Pela mão da filha
Pela palavra do amigo
Pela baforada do cigarro dele
Pelo bom dia do vizinho
Do porteiro do farmacêutico.
De bairro.
De barro.
De mato.
De chão.
De mar.
Nesses tempos de GPS comprei uma bússola
Como todas
Defeituosa: aponta somente o Norte.
Não é do Norte que preciso nem do Sul
Não quero a latitude longitude.
Cursor! me traga
Meu rumo.
Garçom, por favor:
- Palavras.

10.30.2008

MARIA DO REASSENTAMENTO

Outubro de 2008, viagem ao sul do Brasil, com meu amigo Julio Pavese

Dürrenmatt, que pronúncia tenha seu nome,
Que palavras tenha usado,
Pensando em quem pensa em Deus,
Disse assim:
Tudo o que o homem sabe ouviu de outro homem,
O homem precisa do homem.

Maria concreta
Maria da catequese
Maria que já não é.
Maria do Movimento
Maria que já não se sabe se é.

Que é casada se sabe,
Que é bonita se vê,
Que fala um quase italiano se percebe.

Naquilo em que Maria crê
Só seus olhos dizem,
Mas, o que dizem os olhos de Maria?

Maria chegou da chuva
Descalçou suas botas na varanda – botas de borracha -
Entrou na casa da irmã,
Sentou, cruzou suas pernas nuas, contou:

Minha mãe se matou.
Quando viemos pra cá.
De depressão.

O que Maria não disse
Foi que a depressão tinha nome
O nome do pai de Maria.

Foi à polícia e deu queixa:
Meu pai abusa de mim.

O pai de Maria foi preso.

O pai de Maria está solto,
Longe, distante de Maria,
Longe, da irmã e do irmão de Maria.
Faz 20 anos que eles, irmão e irmã de Maria,
Toda noite, dormindo, sussurram:
Ave.
Maria.

10.28.2008

DEFUNTO, REDIVIVO E FURTADO

Eu já deveria estar na cama, pronto para dormir, mas, como interromper e, depois, deixar de comentar? Camila Pitanga, Deus do céu, o que foi que o Senhor fez, além da Perfeição? Paulo José, quantas profissões e sotaques mais você vai experimentar para se convencer de que você é ator, porque será que você não experimenta essa profissão, fica aí, tentando fabricar beliches? Fernanda Torres e Wagner Moura, por favor, me expliquem, afinal, o que é ficção? Será que o Tonico Pereira algum dia soube? Este Bruno Garcia, que não olha e olha para a câmera nas mãos do Zico do cinema de Bento Gonçalves disfarçado de Lázaro Ramos, vocês querem me fazer o favor de me explicar porque foi que a Janaina (Kremer) saiu do rio e não do mar? Ora, seu Jorge Furtado, você, seu menino com o isqueiro no bolso, a freira que sabe de seios, o papel jogado no chão para a propaganda, a lata, no rio não, mas no mato, sim, o clique, a idéia, o despertar e não a porcaria enlatada em discurso, e tudo isso lá, inclusive o discurso. A iluminada Marina, isto aqui, este fim de mundo vai atrair atenção, investimento, acho que os meninos vão gostar da deusa se parecendo com a Eva (foi o que pensou o Joaquim), a beleza vai salvar a natureza, ou sei lá. Da primeira tentativa, eu estava com sono, desisti de assistir. Meu irmão me perguntou, como, como pode? Agora, não. Sai da tumba, renasci. Saneamento Básico, seu Furtado, o senhor só por favor me devolva o sono, Furtado, o sono, que amanhã é dia de trabalho.

10.25.2008

PROTESTOS

Para começar, este blogue existe há mais de 3 anos. Só eu o visitei muito mais que 3 x 12 x 4 = 144 vezes. Portanto, não posso aceitar que, ao revisitá-lo, encontre: “1 visitas”. Pelo menos o contador poderia ter acertado no erro, informando: “1 visita”. E aí, perguntaríamos, nós, os não contados: - Quem foi?

***

Melhor que sejamos avisados, antes da próxima crise, que o dinheiro sempre esteve, está e estará à nossa disposição nos bancos centrais do mundo. Do contrário todos ficaremos outra vez perdendo o sono, tolamente, sobre nossos colchões recheados de dinheiro.

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Todas as crises acabam. Graças a Deus, nós, não.

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No litoral, o verão tem sido fiel: começa e termina regularmente, sempre à segundas-feiras. Já no interior fica o ano inteiro, ora com muita chuva, ora sem nenhuma. Deus é brasileiro; só não faz questão é de ir à praia.

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Na TV, uma autoridade explicando que, nas eleições de amanhã, daremos mais um passo na consolidação da democracia. Democraticamente, desligamos a TV.

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A História acabou. A História não acabou. Do Estado, para o Estado, pelo Estado. Do Mercado, pelo Mercado, para o Mercado. A Terceira Via. E você, que não vendeu sequer um único exemplar de livro defendendo qualquer dessas teses, ainda por cima, comprou muitos defendendo todas.

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Caminhe pensando no futuro, se lembre do passado, analise o presente. Se não conseguir, entupa os ouvidos com fones. Ao olhar para trás para saber se a retaguarda corresponde ao front, não se esqueça dos postes, do tráfego e da vizinhança. Especialmente aquela que vê sem ser vista.

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Ninguém é mais verdadeiro do que aquele que afirma agir de modo totalmente transparente. Ele – o transparente – é o vidro. De tão transparente, não aparece. Você não o vê, quebra a cara, e ainda pergunta ao porteiro se ele vai bem.

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1 visitas: mariobenevides.blogspot.com.

10.21.2008

HETERÔNIMOS E INTERVALOS

Intervalo de jogo, intervalo de vida. Segundo Clarisse Lispector, a vida é isto, principalmente: a insatisfação dos intervalos. Não é racional ser torcedor. Futebol é uma doença incurável adquirida na infância. Meu time é bissexto e único - a deter maior história e mais histórias do que títulos. É oportuno dizer seu nome; e inconveniente.

Heterônimos não são um privilégio do Fernando Pessoa – ou dele, a eles, dar vida. Privilégio dele e seus heterônimos é ter definido o que o poeta é.

Por favor, torcedor, complete a frase:

O poeta é um fingidor. Finge...

Segunda questão. O poeta é:

a) Isso mesmo: um fingidor;
b) Um sonhador;
c) Fora da realidade;
d) O albatroz, do Baudelaire (príncipe das alturas, no chão, em meio à corja (!) impura, as asas de gigante impedem-no de andar);
e) Um mercador, em botequins;
f) Aquele que o engenheiro quer ser (todos os direitos reservados: Pablo Neruda);
g) O engenheiro, quando engenhoso;
h) Idem, quando menino de engenho (Viriato Correia, perdão pela metáfora; metáfora?);
i) Um botafoguense;
j) O que faz o laboratório da língua (João Cabral de Melo Neto);
k) Nem alegre, nem triste;
l) Uma parte, linguagem, outra, vertigem;
m) Um heterônimo.

Que o poeta Aldo Votto e seu heterônimo nos expliquem o que é um heterônimo, um poeta, um torcedor, um botafoguense.

E, principalmente, um intervalo.

E que acerte na resposta.

Que – principalmente – erre.

Arre!

mariobenevides.blogspot.com - o pseudônimo de um heterônimo.

10.11.2008

DEPOIS DESTA, EU JURO QUE EU PARO

Só mais uma. Uma só, e vamos embora, eu prometo. Depois desta, a realidade, o dia seguinte, de manhã e de tarde.

O brasileiro não tem memória. Por isso ele confunde nomes como Pelé e Garrincha, Gerson e Jairzinho, Zico e Falcão, Romário e Bebeto, Ronaldo e Ronaldinho. Por isso, confunde faces de Zezé Mota e Dina Sfat, Marília Pera e Fernanda Montenegro, Paulo José e Armando Bogus, Wagner Moura e Natchergale. Confunde Marta Rocha com Gisele Bunchen, Jorge Amado com Dorival Caymi, Chico Buarque com Caetano Veloso, Milton Nascimento com Fernando Brant, Sérgio Buarque de Holanda com Vinicius de Moraes, Tom Jobim com Villa Lobos, Darcy Ribeiro com Josué de Castro.

O brasileiro não tem memória está gravado no consciente coletivo, talvez porque Getúlio Vargas tenha voltado nos braços do povo, eleito em vários lugares ao mesmo tempo, desafiando a física e o razoável. O povo que o trouxe nos braços até o caixão é retratado por Jorge Amado em O país do carnaval, Cacau e Suor, por João Cabral de Melo Neto em Morte e vida Severina, coisa de quem confunde passado e presente, pois, se você, que não tem memória, reparar bem, esse povo continua andando por aí.

Brasileiro não tem memória a ponto de trazer de volta o Collor. Quem o trouxe de volta foi quem votou nele na primeira vez e de algum modo se deu bem, trocou de carro, foi para os Estados Unidos, se vingou intimamente de uns caras que lhe cuspiam na face teoria, cargo comissionado ou arrogância de rico ou pretendente a.

Brasileiro não tem memória a ponto de não se esquecer que o Getúlio foi um ditador, com direito a Polícia Especial, hedionda tanto quanto a tortura do regime militar. Não tem memória porque não esquece que o Collor implantou o regime da arrogância, confiscou depósitos bancários, liquidou com a liquidez e devolveu empregos perdidos em dezoito meses sem juros.

Brasileiro não sabe votar. Como se alguém no mundo soubesse. Imagine se dinamarquês soubesse votar e faria eleição assim mesmo. Imagine se houvesse um único indivíduo no mundo que todos dissessem, este, sim, sabe votar, ora, a ele delegaríamos o poder do voto único e coletivo; diríamos, vá lá, meu bom francês, inglês, americano, venezuelano, japonês ou brasileiro, vote por todos nós, porque só você sabe votar. Porque a democracia é exatamente o regime de quem NÃO sabe votar e, por isso, TODOS votam. Seu contrário - a ditadura - é definitivamente aceitar essa insuportável verdade e entregar os pontos, adorando temer e pendurando na parede um par de botas, coturnos.

Rimando coturnos com soturnos, paro por aqui, meu amor, como prometido; a saideira fica para outro dia, outra noite. Doravante, inventarei histórias ou as roubarei do cotidiano, legitimamente, eu juro. Na despedida, provo não ter exagerado e faço um quatro:

1 - O brasileiro não sabe votar;
2 - O mundo não sabe votar;
3 - Foi por isso que os gregos inventaram a democracia;
4 - O brasileiro TEM memória.

A ênfase, meu amor, fica por conta de, esta, ter sido a última desta noite. A saideira, como prometido, fica para outra. Vamos para casa; ao cotidiano; e tiremos dele o que houver de romântico, irônico, sem valor algum. Assim como essa, a última, que, na verdade, é e será sempre a penúltima.

A saideira fica pra depois.

10.07.2008

MACACOS NA PRAIA

Depoimentos de pessoal de cinema que filmou no Brasil apresentados no documentário "Olhar estrangeiro" incluem algumas pérolas, como a de quem pôs um macaco a passear entre beldades na praia de Ipanema. Questionado, o diretor retrucou: - Não há macacos em no Brasil? - e ouviu o, para nós, óbvio: na praia, não. Mas nenhum se compara ao comentário do ator Michael Cane: "Se vocês querem ser levados a sério, parem de fazer gente bonita e de ser alegres. Meu país faz um monte de gente feia, dificilmente demonstra alegria e sempre é levado muito a sério".

(Enquanto, por exemplo, uma Ana Miranda, para escrever Boca do Inferno, vai às últimas para pesquisar, narrar e recriar, o "olhar estrangeiro" sobre nós chuta, mistura lingua espanhola com a portuguesa, selva com praia, e... ganham mais dinheiro.)

Michael Cane, em seu comentário, foi, mais que qualquer outra coisa, inglês: usou do humor e da gentileza para se expressar e se desculpar por gafes cometidas por colegas seus de arte e profissão, das quais inclusive fez parte. Muito mais do que isso: tocou numa ferida exposta; num recorrente mal genuinamente brasileiro.

Não à toa a associação de alegria e sensualidade com falta de seriedade nas coisas vem de fora e associada ao Brasil - porque ela começa é aqui, no Brasil. A brincadeira do ator inglês mostra que humor pode ser muito bem associado a seriedade e, mais ainda, a deter poder, permanecer no poder, ser visto como civilizado e rico, ainda que os tempos do british empire já se tenham ido, sem sequer deixar, esquecidos, fraques, cartolas e bermudas com meias três quartos na Índia do Ghandi. A falta de seriedade, especialmente na condução da coisa pública, no Brasil, nada tem a ver com humor. Não passa de deboche, e deboche não pode ser confundido nem mesmo com humor ruim. É deboche, nada mais que deboche: desrespeito; sensação de impunidade.

Portanto, que não venham os debochados a nos roubar nosso genuíno e mundo afora admirado humor. Muito menos você, gente instruída, culta, ilustrada, a se deixar levar nessa onda debochada e desrespeitosa. Caso contrário, aguente firme - e pague para ver filme inglês com macaco passeando em Ipanema. Pague por isso mesmo: mico.

9.25.2008

O EXPLICÁVEL, O INEXPLICÁVEL E MINAS GERAIS

Cada vez mais se conhece dos dinossauros e menos de Minas Gerais. As pesquisas e escavações ainda não permitem saber se os dinossauros, seus parentes e contra parentes se reuniam ao redor de um fogão a lenha preparando um feijão e se provavam de uma cachaça do alambique do quintal do vizinho, enquanto as mulheres-dinossauros comentavam que os homens estavam bebendo demais e, por isso, bebiam licor de jenipapo, e se daí é que surgiu o conceito de Estado Nação. Também não se explica porque, no atual Estado Nação conhecido por Brasil, o maior de todos os parentes e contra parentes dos dinossauros nele encontrados o tenha sido em Uberaba, cidade que se encontrou - como se encontra -, não no divã do analista, mas em Minas Gerais.

Tudo tão inexplicável quanto o que ocorre em Varginha, que, apesar de Paris, é a preferida dos discos voadores, desde os mais espetaculares e amedrontadores aos mais carismáticos e aproximadores. É de se presumir que dentro deles também se achem fogões a lenha, meninos sujos de barro entrando de repente, derrubando leme, timão, panela e cachaça, meninas e suas bonecas de pano, senhoras e senhoritas dizendo NÓ!, rapazes e senhores de sobrancelhas juntas jogando sinuca e exclamando SÔ!.

O explicável, o compreendido, o tácita como explicitamente aceito, típico dos Estados Nações, é exibido na incontável série de dias e noites, inimagináveis até pela mais criativa das Sherazades, perdidos com crises e supostas soluções, barbáries expostas ao Estado inoperante, tudo dando a sensação de que melhor seria se o noticiário fosse exibido única e exclusivamente ao Estado; ao Império e seu desgoverno; às fronteiras invisíveis, suas crenças e ambições para e desde sempre incompatíveis; à irresponsabilidade, ora legal, ora à margem da Lei e, portanto, do seu arcabouço, que permite que indivíduos portem armas – e de fogo -, tornando-os capazes de homicídios e suicídios, da Finlândia à Flórida à Rocinha. Passando, aliás, por Paris.

Profissionais da notícia têm o dever, o direito e o ganha-pão de a nós nos denunciar as barbáries e irregularidades, para que todos delas saibamos e o Estado de Direito as coíba e as corrija; porque, se nós delas não soubéssemos, o Estado Nação de Direito não iria cumprir com seu dever, coibindo a barbárie, corrigindo as irregularidades e a ambas punindo. Somos as testemunhas fundamentais, aquelas que a tudo vêem, que a tudo escutam, que com tudo pasmam e sofrem.

Bernard Shaw diria: somos a consciência do Poder, - pois consciência é a sensação de que alguém vê o que estamos fazendo. Um novo Churchill surgiria, e afirmaria, com nova e emblemática frase, com outras palavras – in English, of course - que esta propaganda eleitoral gratuita-imposta-forçada-decorada-boçalizada está mais para anti que democracia.

Hoje, não. Hoje, pelo menos hoje, optemos por testemunhar a réplica montada no Rio de Janeiro do maior dinossauro encontrado aqui, antes que fôssemos Uberaba, Minas, Rio ou Brasil; que fôssemos fogão, barro, feijão, boneca de pano, cachaça; Nação Estado. Optemos hoje pelo próximo pouso em Varginha de uma nave de outra galáxia, carregada de compadres e contra parentes nossos e dos dinossauros; e tentemos, de uma vez por todas, explicar Minas Gerais.

9.22.2008

A CRISE

Do pré-sal ao colapso financeiro mundial, passando por Bolívia e Venezuela aqui ao lado, há um leque de opiniões e manifestações, de sábias a sabidas, sem esquecer a dos sabichões – sempre de grande impacto emocional, revestindo o mesmo conteúdo das mais sábias opiniões sobre a crise e o aquecimento global: ninguém sabe ao certo onde isso tudo vai dar. A não ser as capas de algumas revistas, cujas manchetes garantem que sabem, que mostram caminhos e soluções, a nos deixar perplexos quanto à burrice da maioria, especialmente a sabida, que ou não lê as revistas ou as lê e não as compreende.

O vendaval do crédito era mesmo feito de vento e, afinal de contas, de que são feitos os vendavais? E o que fazem os vendavais, a não ser nos dar a esperança de uma boa transformação e de verdade nos jogar areia e poeira nos olhos?

A crise de 1929 é o fantasma que arrasta suas correntes aos pés das camas dos casais e das mesas dos financistas e investidores, além de levar de roldão cama e mesa dos duros de sempre, Opa, cadê meu prato? Ih, minha casa voltou no mesmo caminhão do prêmio que a trouxe, Querida, aonde vai você, ah, aonde não importa, e sim com quem, tudo bem, mas de algemas, bem?

Somos ou não à prova de crise – é a questão do momento. Onde é que estávamos em 1929, alguém produziu um manual dela, que servisse para outras que viessem depois?

Há. Um romance de William Kennedy que virou um filme de Hector Babenco. Ironweed. No filme, Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais, dramas particulares, antigos, revividos nos anos da terrível depressão, e um magistral Tom Waits, figurante, interpreta um sujeito que, logo no começo, comemora: descobriu que tem um câncer.

A associação do pré-sal brasileiro com o câncer do personagem de Tom Waits seria de todo precipitada, ou pior: rasa - ao contrário das profundezas do óleo, não se sabe ainda se tão promissor quanto, desde já e tanto, festejado.

Mas uma coisa é certa: se as crises são dos bancos, quem sofre de medo, de dor, quem se dobra aos ventos, é arrancado e atirado às pedras pelos vendavais, somos nós.

Alguns, de algemas; outros, sem.

9.17.2008

DUAS MÃOS

Ela saiu poderosa do salão de beleza. De óculos escuros, jogou os cabelos para trás e atravessou a rua. Sem olhar para os lados. O barulho trouxe à janela cães e seus latidos, mulheres e suas rezas, senhores e seus jornais, adolescentes engolindo apressados e gordos sanduíches. Pouco movimento nas calçadas. No asfalto, sinais fechados nas duas transversais que dão início e fim à rua: momentaneamente, nenhum movimento de veículos. O motorista do táxi pôs a mão na cabeça, perguntou a ninguém, O que é que eu faço?

Em frente, um hospital de emergência, suas ambulâncias à porta. Um carro da PM estacionou atrás do carro velho do taxista com o pisca-alerta ligado. Um guarda se aproximou da mulher deitada no asfalto. Um outro dirigiu-se ao hospital. Ventou um pouco, folhas caíram das árvores. Os poucos transeuntes nas calçadas formaram pequenos grupos aqui e ali, à exceção dos que passavam com pressa ou indiferença. Carros que vinham na mão do atropelamento primeiro buzinavam indignados e, depois, ligavam o pisca-alerta e aguardavam a chance de desviar do acidente, lentos e furibundos. Na outra mão, os veículos dobravam a esquina em velocidade e, depois, a diminuíam, espiando detidamente o guarda, o taxista, a mulher no chão.

Enfermeiros portando maca e guarda-paletós metálicos, trazendo, ao invés de roupas vindas do trabalho, tubos com líquidos coloridos e incolores, atravessaram a rua e ajoelharam-se ao lado da mulher. Um deles a pegou no pulso, outros a puseram sobre a maca e a levaram para dentro do hospital. O PM que voltara com os enfermeiros de lá começou a apitar, mandando curiosos de carro ou a pé para onde bem quisessem, desde que longe dali; o outro e o motorista por profissão estacionaram seus automóveis, um à frente do outro, paralelos à calçada. E foram para o hospital.

Seis meses, três hospitais e algumas cirurgias depois, ela voltou ao mesmo salão. De beleza. Adoraram seu nariz novo. Desta vez, ao sair, não atravessou a rua. Seguiu pela calçada até a esquina mais distante e entrou na farmácia, porque estava com um pouco de coriza. De óculos escuros, jogando os cabelos para trás, saiu da drogaria e esperou sua vez de atravessar na faixa. Carros, apressados ou indiferentes, ignoravam sua presença esguia de mulher bonita e poderosa. Nas duas mãos.

9.06.2008

AINDA SOBRE A GUERRA

É gente ilustre que defende que o Brasil só progredirá se aqui houver uma guerra.

Curioso, porque gente ilustre teve – e tem - acesso à escola, à História, Geografia, Matemática...

A guerra uniria. Pense aí em supostas uniões decorrentes das guerras: a soviética; a alemã (isto é, sua desunião, só recuperada mais de 40 anos depois da Segunda Grande Guerra); tente, tente, vá em frente, você, acompanhado dessa porção de gente ilustre que quer – prega - a guerra.

A guerra desenvolveria tecnologia; ocorre que, sua ausência, também. Assim tem sido – ou não?

Mas, vamos ao Brasil, veja se o que falta ao país são mesmo as guerras: à sua história.

Foi guerra entre português e índio, português e francês, português e holandês, branco e preto; índios fuzilados nos anos sessenta e setenta do Século, qual, mesmo?, Vinte (ou agorinha mesmo, no Vinte e Um?); Guerra do Paraguai, Guerra dos Farrapos – com direito a degolas em série -, Guerra de Canudos; Revolta da Armada, Dezoito do Forte, Revolução Constitucionalista; o Brasil foi à Segunda Guerra, você sabia, gente ilustre? Sabia que morreu gente, naquela guerra? E gente brasileira, rapaz! Morre gente em guerra, ih, você nem sabia disso, - e morre violentada, decepada, sem perna, explodida, queimada. Duas ditaduras; guerrilha urbana e rural, repressão, tortura, meninas deitadas em um campo de futebol e soldados fazendo xixi em cima delas. Você sabia, gente ilustre? Se sabia...

Essa “gente ilustre” costuma dizer também que o brasileiro é passivo, que o brasileiro não tem memória; e tome estudantes pernambucanos, Tiradentes aos pedaços pendurados por aí, passeata dos cem mil, porões, edsons, vladimires enforcados, caras pintadas, tudo isso é passivo e sem memória, porque a história oficial a elimina, como elimina autores brasileiros das bibliotecas das escolas; igualmente porque há essa suposta gente ilustre que a tudo ridiculariza - mas, esta, atenção: já está devidamente catalogada nas bancas, livrarias e em laboratórios especialistas em parasitas.

A história acabou coisíssima alguma, porque a do Brasil, pelo menos, continua. Balas perdidas, balas achadas - em corpos infantis, inclusive. A guerra continua, percebe, gente ilustre? Pobreza medida a duzentos e cinqüenta reais por mês: quem ganha isso é pobre; menos que isso, miserável. Seja pobre com duzentos e cinqüenta reais por mês e grite, alto e bom som, Eu quero uma guerra!

O Brasil pode precisar de um monte de coisas para progredir; mas não é de guerra que o Brasil precisa, porque já a teve e a continua tendo. Não é de guerra, nem dessa gente que diz que a deseja, confortavelmente, em seus pufes, frente às câmeras, sorrindo, debochada, balançando-se, como a sofrer de hemorróidas ou a tentar, inutilmente, unir, sem guerra, seus dois únicos e inúteis neurônios. Não, não é de guerra, nem desse tipo de ilustre que o Brasil precisa.

8.31.2008

A GUERRA É NECESSÁRIA

A afirmativa sempre é feita por quem não está de capacete nem na linha de frente.

Pense em um verso de amor e o suponha inspirado pela separação causada pela guerra, ou mesmo com a certeza de que assim o tenha sido. Agora, pense nele novamente, eliminando da sua gênese ou essência a guerra. O verso sobreviveu - e me prenda se assim não tiver sido.

Picasso não deixaria de ser Picasso sem Guernica – nem Guernica y Luno deixaria de existir sem Picasso. Ou Franco. Nem Lorca sem este e nem a Galícia sem eles.

Pense em um ato de tortura e perceba que, da guerra, ele não depende. Em um estupro. Pense nele - você, capaz ou não de o cometer – e verá que a guerra não lhe é ingrediente indispensável.

Em uma invenção. Vale a pena investir um pouco mais, aqui. Reflita: afora tanques, bombardeiros, me responda, sem pressa, se navios, aviões, automóveis, cavalos, camelos, bicicletas, lambretas, pontes, bengalas, chapéus, uniformes, sapatos, botas, computadores, muletas, se da imaginação teriam sido esquecidos se dela a guerra não fizesse parte.

Homens sofrendo de abstenção sexual deixariam de invadir uma casa se não houvesse a guerra? Mulheres precisando de dinheiro e percebendo a chama sem fogo nas entranhas aguardariam a guerra para sua satisfação? Filhos bastardos surgem somente na guerra? O que você vê na tv, longe, bem longe do seu cotidiano, tapas, socos ingleses, cabeças vivas dentro de sacos plásticos asfixiadas até que, delas, indissociáveis bocas balbuciam o que o dono do saco quer ouvir; sacos, seios queimados por cigarros, humilhações as mais imaginosas, algo disso precisava de uma guerra?

Um tarado, um tratado, uma traição, uma conversação, uma fronteira, uma convenção, tal e qual um verso, da guerra não precisam - e me prenda se eu estiver errado (mas me prove).

Uma grande indústria fabrica armas em escala mundial. Evidentemente, não há parasita sem quem o alimente. O que seria da indústria armamentista se não fosse a guerra? Chore você por essa perspectiva, a da morte sem guerra da indústria da guerra – e perceberá que, até mesmo ela e seus produtos, tanques e bombardeiros, seus empregados, sem a guerra, todos sobreviveriam. A maldade sobreviveria, assim sua ameaça. O progresso permaneceria, tal e qual o atraso. O respeito e o desrespeito: tudo resistiria à ausência da guerra.

Quem defende a guerra como algo indispensável – ou pontualmente necessário – precisa fazê-lo com o capacete certo, adequado àquilo que lhe ocupa o cérebro.

Um pinico.

8.21.2008

MADE IN BRAZIL

Meu caro amigo Enrique:

Eu, na praia do Leme, com menos de 15 anos, como se fosse, agora, amigo de escola das nossas filhas, de peito, de cabeça, de letra ou sem querer, colocava na gaveta e afirmaria que, se Nelson Rodrigues houvesse consultado o Sobrenatural de Almeida, não teria afirmado, como afirmou, que Antônio Callado era o único inglês de verdade. Lá, onde a coruja dorme, teria deixado escrito:

- Há um segundo: ele se chama Enrique.

Fato é que você, London, London, no centro do mundo financeiro, comandante de transações transnacionais, sempre correto, sempre rigorosamente observando e respeitando as leis e as leis de mercado, como inglês de verdade e Made in Brazil, não consegue deixar de ser notorious às vistas da Scotland Yard. As a matter of fact, sequer se esforça a escondê-lo.

Você foi flagrado: um raro como legítimo botafoguense.

O agente da Scotland, de súbito revelando o secreto chapéu coco sob o arranjo de jardim que secularmente brotou na cabeça dele, sobrepondo-se ao rubro tórax cheio de dourados botões, guardiões do palácio de Buckingham, brande sobre sua brasileira e botafoguense face o britânico distintivo - que venta terríveis, tamisentos, brumosos ventos. Acintosamente, ele acusa:

- Filipão is ours, thank you very much, sir.

E você, inglês de verdade, segundo e único, altivo, seguro, afirma:

- O Botafogo está no G4 do brasileirão. Ocupa agora o 3° lugar. Hoje, quem perdeu do fogão foi o Cruzeiro; domingo passado, quem, mesmo? I bag your pardon, Mr. Policeman: I do not remember.

Mr. Scotland joga ao chão seu chapéu coco e se retira. Nelson Rodrigues entra em cena trazendo Shakespeare pelo braço, um, em tricolores, outro, em rubro-negras vestes. Uma faixa preta com uma cruz vermelha surge do nada, cheia de bigodes. Baixa o pano e, neste, se lê, preto no branco:

FIM DO PRIMEIRO ATO.

Alvinegros abraços,

Mario.

8.02.2008

SÁBADO, HOJE, AGORINHA MESMO

A previsão era chuva e de fato o dia começou com um vento Sul daqueles, chuva, frio. De repente, o Nordeste – o vento que leva seu nome porque é de lá que ele vem. Mudou tudo: um início de tarde ensolarada, quente, o apartamento se torna opressor, vamos para a rua, caminhar na Beira Mar.

Devagar, por favor. Se a caminhada tem como um dos objetivos queimar gorduras e toxinas, hoje, tudo o que menos se quer é objetivo. É dia de adjetivo, dos mais banais, batidos - lindo dia, lindo mar, puxa, que sol maravilhoso. Uma gaivota tem seus dois pés de gaivota sobre as costas de outra gaivota, um duplex de gaivotas na areia mirando o mar da Baía Norte de Florianópolis. Mais adiante, uma outra sobre a pedra admira a regata, lá fora, perto do continente; estamos na imensa Ilha de Santa Catarina.

De repente, um casal visivelmente humilde, duas crianças, seu cão, que desconhece humildade e soberba, sabe o que é bom: o mar. Poluído? Para ele, não - negro cão, pelo curto, descendente de labradores, invejável vagabundo. O pai de família, seu casaco quadriculado de descendente de lavradores, fora de lugar; a mulher, mestiça, a corrente que serve de guia ao cão quando ele precisa pertencer à outra raça – a humana – brandindo nas mãos. Ele, o pai:

- Um tarado, filho da puta, com o pinto na mão, estava no banco se exibindo para menino pequeno. Um tarado, filho da puta, desrespeitou minha família, tem que prender.

- Onde ele está?

- Foi embora, foi pra lá, tem que prender ele.

A mulher:

- Eu dei com essa corrente nas costas dele, ele saiu correndo.

Vamos embora, vamos em frente, vamos, porque já íamos, na mesma direção do tarado, que já deve ter sumido. Cadeia, para ele, será pena de morte; manicômio judiciário, o que seria? Cortar o pinto dele, seria boa sugestão? Mutilar seu cérebro?

Anos antes, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, um camarada masturbava sobre o banco da bicicleta parada. Uma moça, despachada e revoltada, disse a ele:

- Cara, vai procurar uma mulher de verdade! – e o tal cara pôs seu objeto de prazer solitário e ostensivo, invasivo, para dentro das calças e se foi, pedalando – não se sabe se para, de fato, procurar uma mulher de verdade.

Uma água de coco. Um gaúcho, muito educado, é quem conta que a manhã começou tenebrosa e depois veio o vento Nordeste, mudando sua história. Um policial passa devagar com sua moto na ciclovia; é notificado. Sobre o tarado. Sobre a família ultrajada e ameaçada, seu nobre cão vagabundo e contente, sua mais marcante referência.

É hora do almoço.

7.19.2008

LINGUAGEM CIFRADA

Pode estar certo de uma coisa. Se alguém começar uma conversa com um “Eu sou muito franco”, você não vai gostar do que vai ouvir. O que está a caminho, na seqüência, é maldade. Se o tom for de pergunta – “Posso ser franco?” – você ainda terá a oportunidade de responder: - Não. Gosto mais da sua costumeira hipocrisia.

Outra coisa. Quando você for chamado de “você” por um estranho, estranhará a intimidade. Já se for chamado de “senhor”, pedirá, Por favor, me chame de “você”.

Meu caro: quando você for chamado de “Meu caro” – pessoalmente, cara a cara, na bucha, olho no olho, na lata, ou, mais ainda, quando o olhar de quem dispara o “Meu caro” mirar o infinito ou o esgoto da vida – tenha certeza de que “caro” é o que você não é.

Uma pergunta: algum amigo seu dirigiu-se a você começando a frase com “Meu amigo...”?

“Meu amigo”, muitas vezes, começa com um “Escuta aqui” ou “Olha aqui” – e sua vontade - diga a verdade - é de perguntar, “Aqui, onde? No meu punho fechado?”. Ou não é?

Já viu mulher se dirigindo a outra com “Oi, amiga”? Pode trocar o “amiga” por “querida”, como somar “mm”, “mm”, de uma troca de dois beijos nas bochechas, e continuar à espreita, porque a troca entre elas é de flechas e está só no começo – e arcos femininos podem ter todos os defeitos, mas são os mais bem feitos da natureza.

De modo que... Posso ser franco? “Pois sim” é não e “Pois não” é sim. E você, o senhor, você, tio, que sabe disso desde sempre, ainda acredita que eles serão presos?

Ora, francamente...

7.12.2008

UMA ENTREVISTA

Aos nossos caríssimos amigos de Florianópolis e arredores,

hoje, às 21h30, com repetições tb hoje às 23h30, amanhã, domingo, às 16h15, terça às 17h30 e quinta, 00h30, será exibida uma entrevista minha para o jornalista Fernando Mansur, no programa Momento Temperado, TVCOM, canal 36, sobre meu livro "A revolução do silêncio". Será uma honra tê-los do outro lado da sala. Maiores informações sobre o programa no site www.momentotemperado.com.br.
À Adriana Prates, que me apresentou ao Fernando e agendou a entrevista, mais uma vez, muito obrigado.
Abraços,
Mario.

TRISTE FIM DE QUIDE-QUEDE-O-QUÊ

Quide, um brasileiro,
Partia para o abraço,
Percebeu a chegada aflita
Da comparsa, doce amada.

Metralharam um menino de três anos
- Ela disse a ele.
Ele, que era metáfora,
Virou realidade, assim, súbita, cruelmente.

Encerrou sua jornada,
Voltou com sua cúmplice namorada
Pacífica, estarrecidamente, para casa,

Triste casa,
Pátria
Dos apátridas.

6.17.2008

SONETO NÚMERO TRÊS DE KID, UM BRASILEIRO

(COM DIREITO A PARÊNTESES PARA UMA BREVE INTRODUÇÃO)

(Houve tempo de abandono;
Sua companheira
- Sabe quem? -
Era uma coceira.

Houve também o tempo
Da comparsa pendurada,
Bicho-preguiça
Balançando-se na árvore.

Hoje, sua cúmplice-parceira
É humana e feminina
E - portanto - valente.)

Resoluto, direto ao encontro dos que vêm,
Quide ligeiro se volta à comparsa e responde:
"Farei de tudo para almoçarmos juntos".

6.16.2008

SONETO NÚMERO DOIS DE KID, UM BRASILEIRO

No esconderijo,
Olhando pela brecha,
Enquanto Quide-quede-o-quê
Partiu pro abraço -

Quide está lá, do lado de fora,
No momento em que,
Perigosamente,
Eles se aproximam -,

Ela, sua comparsa,
Coça o ventre,
Toma um banho e se penteia,

Sai pra fora,
Enfrenta vento, calor e chuva
E pergunta, - Quide, almoçamos juntos?

6.04.2008

SONETO NÚMERO UM DE KID, UM BRASILEIRO

No esconderijo,
Olhando pela brecha,
Enquanto a comparsa,
Tranqüila, dormia,

Aflito,
No momento em que,
Perigosamente,
Eles se aproximavam,

Kid, por extenso,
Em Português,
Quide-quede-o-quê,

Saíu pra fora,
Enfrentou vento, calor e chuva
E partiu pro abraço.

5.23.2008

ESQUINAS E BARES, MEU AMIGO JOÃO

Amigo João:
As telecomunicações explodiram-se
Na razão da expansão do universo
Na proporção inversa da razão.
Os botequins e as esquinas
Afastaram-se
Na velocidade do engarrafamento.
Como você fez questão de me ensinar,
Os botequins e as esquinas ainda existem,
Meu amigo João.
A melhor inspiração
Da estátua da liberdade
- alguém erguendo a mão, dedos estrelados, chamando o garçom –
Permanece,
Meu amigo João.
Amigo João:
Da próxima vez
Que eu me aproximar de São Paulo,
Numa nave antiga ou moderna,
Cego que sou,
Necessariamente guiado por um cão,
Farei sinal a um táxi
Irei direto à questão:
Quero beber alguns chopes
Na companhia do meu amigo João.

5.20.2008

CLARICE E VANDERLÉIA



“Mas a vida humana é mais complexa: é a busca do prazer, seus temores, e, principalmente, a insatisfação dos intervalos.”
(Clarice Lispector, "Perto do coração selvagem".)
“Senhor juiz... Pare! Agora...”
(Vanderléia, nos tempos da Jovem Guarda)

Sete e meia da noite. O alarme de um estacionamento dispara. Toca repetidamente seu som insuportável de alarme. Se ladrão houve, já se foi faz tempo.

Sete e quarenta e cinco. Polícia, por favor, pare! Agora. O alarme. Aqui é da Federal, favor ligar para a Civil.

Sete e cinqüenta. Polícia, por favor, pare! Agora. Aqui é da Civil, favor ligar para a Militar.

Sete e cinqüenta e cinco, Aqui é da Militar, senhor, não podemos fazer nada, a não ser uma ronda.

Oito e cinco. Parou o alarme.

Oito e quarenta. Silêncio na casa. Ela chegou e interrompeu.

Dez. O cachorro chegou e fez uma festa danada, pulou no colo e tudo. E voltou para perto dela.

Onze. Um filme na TV, uma entrevista, tudo ao mesmo tempo. A menina com o livro nas mãos diz em voz alta o texto impressionante. Para ela.

Meia-noite é solidão e todo mundo sabe. A tal ponto que gira sozinho em torno do sol que dorme.

Quem quiser que acredite: meia-noite e quinze: o alarme voltou a tocar.

Quem quiser que acredite: no exato instante de nova chamada para a Militar, que promete tomar providências, o alarme volta. A parar.

Se ladrão houve, nos roubou a noite.
Curioso: fechada a janela, abriu-se o amanhã.

5.13.2008

UM BELO FILME

ROMA, um nome de mulher: este, o título do filme no Brasil. Na versão original, ROMA. Roma é portenha, descendente de italianos, mulher de um boêmio, de carne e osso, ela, professora de piano, mãe libertária de um futuro escritor, que se muda para a Espanha nos anos 70, ditaduras militares em curso na América do Sul. O que se conta é o passado, - a parte mais especial da vida do escritor em sua Buenos Aires, quando, já há muito radicado em Madrid, tem mais do que os seus sessenta anos, é homem difícil, rabugento - e bom. Eles existem; como existem belos filmes.

Dizer mais, não digo, porque não quero contar o filme; porque não tenho mais nada a dizer, a não ser que assisti a um belo filme, com excelente elenco, roteiro inteligente, passada sensível, espanhol bem falado, castiço e portenho, diferenças sutilmente sublinhadas.

Em DVD.

Buenas noches.

5.11.2008

DIAS DAS MÃES

Pois é, meu blog amigo,
Meu Rio antigo,
Faz tempo não nos falamos.
Permaneço aqui, nesta ilha imensa,
Onde o mar
Felizmente
Imenso
Permanece.

Anoitece.
Hoje – agora - é noite de domingo.
Por isso,
Rimo;
Remo
Contra a maré
Do frio,
Do inverno.

Quando rima é o que eu quero,
Rima é o que não me vem.

Hoje
É dia das mães.

Almoçamos fora,
Fomos a um restaurante -
Privilégio, blog amigo,
Saudades, Rio antigo.

Rio moderno
Da Rua do Lavradio
Rio
Das soluções
Tardio.
Vencido,
Rio,
Vencido?

Não pode ser,
Hoje
É domingo
É dia das mães,
Rio,
Você, Rio, minha mãe.

E meu pai.

Florianópolis,
Deus te abençoe,
Te faça percorrer caminhos
Que te levem à semelhança com o Rio
Só naquilo
Que o Rio tem de bom.

Fale mal do Rio,
Florianópolis,
Mas nos faça um favor:
Faça diferente.

Não empilhe pobre no morro,
Não seja assim tão brasileira
De mera observação.
Seja brasileira
De criatividade.
Invente-se a si,
Florianópolis,
Reinventando até o Rio,
Reinventando até o Brasil.

Rio,
Florianópolis,
Brasil,

Façam-nos o favor
Do nosso renascimento:
Afinal
Hoje
É dia das mães.

Queremos renascer
No colo amado.
No lugar da rima,
O impensável:

O mar
Moldura
Da dignidade
Individual
E coletiva.

Hoje -
É dia das mães.

5.01.2008

POEMELHO NO ESPELHO

Quem vence a inflação
A recessão
Toda porcaria
Quem fica sem emprego
E vota
Ou não vota
Quem suporta
Quem agüenta
Principalmente a hipocrisia

A demagogia

Quem vai à guerra
Morre por Deus
Ou a Democracia

As estupradas
Os violentados
Os de pernas arrancadas
Os de barriga vazia

Os que assistem à TV

Todos

Que aplaudem
Vitórias suas

Postas

Nas estatísticas,
Nos índices,
Nos discursos,

Pode ser que um dia
Bem cedo acordem
Como fazem todo dia

Se olhem no espelho e digam
- Cada um às suas próprias remelas -

Todas essas vitórias são
Foram

Minhas.

4.27.2008

CRÔNICA DE UM CASAMENTO – E DE PRIVILÉGIOS

Começa que, na casa do Luiz, almocei um estrogonofe preparado pela Beatriz, só comparável ao da Lygia, da Tereza e da Glorinha. Saber quem são essas personagens, como outras aqui citadas, é privilégio de poucos – e os que não o têm, claro que têm o de conhecer outras que nós não conhecemos; portanto, deu empate: vamos em frente. (Algo que anda esquecido por aí: personagem é feminina, como imagem, reportagem...)

A igreja foi a da Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Rio de Janeiro. É mesmo de se lamentar que o descaso das – ditas - autoridades vá a tal ponto de não perceberem que a geografia privilegiada mereça reverência, respeito e cuidado - o exato contrário de pobreza, falta de educação, crime e dengue. Mas nem de estrogonofe nem de dengue, muito menos, de malditas autoridades é do que se fala aqui – e, sim, do casamento da Luciana e do Ricardo. E de certos privilégios. Por exemplo, o da companhia da avó da noiva, Dona Mariana, e seus 80 e alguns e generosos anos - para com os outros, sempre. Na casa dela, há uma varanda onde... Fica pra outra, esta, imensa de histórias, varanda.

Chegando na Glória do Outeiro - moro em Florianópolis -, justifiquei a ausência da minha mulher e da minha filha e comentei que a primeira comprou um CD do Zeca Pagodinho e, ao invés de ouvi-lo alto e bom som no aparelho da sala, preferiu tocá-lo num desses portáteis, só encontráveis atualmente em fundos de armários e feiras suspeitas. Fui mal interpretado e fiz questão de deixar claro: eu e ela gostamos muito do Zeca Pagodinho – e eu, mais ainda do que ela, de torresmo e farofa.

Privilégios.

Antes da noiva chegar, começou aquilo que, se fosse um filme, seria chamado de trilha sonora. Eu estava ao lado do meu irmão – o Luiz – e da Gisele, a mulher do pai da noiva – que disse assim: “É Vivaldi, não?”. Eu respondi: “Sim - as 3 estações”. Meu irmão, prontamente, me corrigiu: “Mario, as estações são 4”. Eu justifiquei: “Os aparelhos lá de casa só pegam 3”.

Chegou a mãe da noiva, bonita, e eu a pensar, mas este meu amigo André, pai da noiva, é mesmo um privilegiado, de ex e atual mulher tão lindas. Não vou citar aqui tantas mais personagens e suas inconfundíveis personalidades, porque não caberiam – na crônica, sim, caberiam, mas, na minha memória, falta um pouquinho mais de espaço (o de uma varanda, mais precisamente).

A noiva chegou. Linda, sim, senhoras e senhores. Seu pai, meu amigo de quase infância, nervoso, deu duas tragadas em um cigarro e o engoliu aceso. Um padre simpático, que, segundo o Luiz me disse, ultimamente vem freqüentando tv e arredores, inclusive encontros onde ninguém entende a língua do outro e, por isso, todos se comunicam em Latim, mencionou a data da fundação da Igreja e comentou que, no apagão energético mais recente – não confundi-lo com o ainda mais recente aéreo, mesmo que este fosse, como se verá, pertinente -, disse que a luz do Redentor, naquele apagão energético, ficou parcialmente acesa por ter a estátua fincada no Corcovado se tornado, já tão cheia de significados, também uma referência para os pilotos de aviões. Depois, desculpou-se: “Eu sei que o departamento, aqui, é outro”.

Explique-se, para quem não estava lá: o noivo, Ricardo, é oficial da Marinha.

E poeta.

Quem pensa que este negócio de engenheiro se meter a escrever poesia tem alguma coisa de interessante, pode embainhar a espada: Ricardo, com seu uniforme azul-marinho, cheio de botões dourados, o sotaque devidamente usurpado da corte portuguesa e melhorado, recitou belo poema de sua autoria para sua amada, enquanto corria solto e bem servido coquetel.

Antes, porém, Billy, cunhado do André, cumprimentou, ainda no pátio da Igreja, o Rubens. Este, ligeiramente indignado, perguntou ao Billy: “Por que você não falou com a Henriette?”. Billy, prontamente, respondeu: “Rapaz, eu pensei que ela fosse uma desconhecida japonesa”. E, pensando bem, Billy estava certo: Henriette, namorada do Rubens, é, de fato, uma gueixa. Naturalmente que Sartre e Simone de Beauvoir estranhariam: “Uma gueixa francesa, como?”. Ocorre que, como bem Simone disse, todos os homens são mortais, - muitos deles, inclusive, flamenguistas - e ele, Sartre, muito gostaria de ter dito, uma gueixa que se chama Henriette é a prova máxima do existencialismo.

Assim partimos, da Igreja para a recepção, na OAB – Ordem dos Advogados do Brasil -, eu, Luiz, Rubens e sua gueixa francesa. Lá chegando, serviço de primeira, Erasmo e Fátima (irmã do André) a me cobrar, “Como você não trouxe a Rosa e a Maria Luiza?”, e eu, de novo, a tentar explicar que somos escravos de agendas, trabalho e milhagens, Luiza, mulher do Antônio Júlio (irmão do André), a fazer campanha para presidente, não me lembro se do Jóquei ou da República e, pensando bem, não faz muita diferença, já que o desta já tem seu terceiro inconstitucional mandato garantido, a depender apenas de uma inconstitucional alteração da Constituição, Lúcia (irmã do André), sem disfarçar sua expressão de mais para Santos Dumont que Congonhas, Marina (irmã – adivinha – do André) e seu marido Billy a dançar – e acho que a música era dos Beatles - Charles Aznavour – que o Billy garante ter encontrado no Rio Sul, e, mais, que não o confundiu com japonês nem japonesa -, André, pai da noiva, aproximou-se de mim, do Murilo e do Rubens, Gisele, mulher do André, nos acompanhando. O filho do Murilo veio com a namorada: ele, surfista, futuro engenheiro de produção, e ela, futura arquiteta, espaço que te quero humano, assim brindei e brinquei com eles.

Murilo bebericava seu uisque, e sua mulher, loura de olhos azuis, Eliana, depois de me dizer que eu ganhei na loteria ao me casar com a Rosa, e eu, como sempre, concordei, apenas ainda não fui buscar meu prêmio na CEF por ser um tanto distraído, Eliana disse ao marido Murilo que moderasse nas doses do Grant’s. Eu disse a ela o que já digo faz tempo à minha loteria, digo, mulher, Rosa: “Beba o necessário para não perceber o que seu marido bebe e o suficiente para depois dirigir nosso automóvel”.

Neste exato instante, Antônio Júlio, o irmão mais velho do André, fez questão de tirar uma foto nossa: de mim, André, Rubens e Murilo, amigos de mais de 40 anos – de amizade: de idade, passamos pouco mais de 10 desse número. Sentindo falta do Venâncio, que mora em São Luiz do Maranhão e não veio, eu disse: “Sou o Dartagnan dos 4 mosqueteiros”. Meu irmão, mais uma vez, me corrigiu: “Mario, os mosqueteiros eram 3”. Eu expliquei: “Lá em casa, os aparelhos pegam 4”.

Quem duvidar de tudo isso, que pergunte ao general Grant’s. Aliás, general, não: almirante. Almirante Grant’s.

Felicidades e agradecimentos por tantos privilégios aos noivos,
Mario.

4.18.2008

A HISTÓRIA DE UM PASSARINHO

Ela gritava demais, interferiu, na hora errada. Nós não estávamos nos entendendo, gritávamos um com o outro, e ela chorava, gritava, berrava. Insuportável. E aí você perdeu a cabeça, o que foi aquilo, você, suas mãos, seus pulsos retesados, sua unhas? Nunca vi você assim. Ela parou de gritar, está esquisita, o que fazer? Agora, ela ficou quietinha, finalmente. Quietinha. Um buraco, vamos, joga ela, joga lá embaixo, alguém jogou ela daqui de cima, foi ela que se jogou. Ela caiu. Alguém entrou aqui quando ninguém estava, foi isso o que aconteceu. O supermercado, alguém fez isso, não fomos nós. A mãe dela, olha a mãe dela, na tv. Um monte de gente, na tv. Não fomos nós. Não fomos. Nós.

4.17.2008

TRINCHEIRA

Quieto.
Fique
Quieto.
Permaneça
Quieto

Absoluto
Silêncio
Absoluta
Inoperância
Quieto.

A vida às vezes é uma trincheira.
O inimigo à espreita
Somente espera
Que você se mexa.

Quieto
Permaneça
Quieto.

Geralmente as granadas
São feitas de merda;

Não vá se sujar à toa.

AGORA, ANTIGAMENTE

E porque somos dois solitários
E nada sabemos um do outro

Porque me dás alívio
Só ao te perceber daqui de longe

Porque não és a lua
E com ela penso rivalizas

Porque te imagino
Imaginando a mim

Tão longe
Tendo o vento noturno como único amigo
Solitário amigo feito nós dois

Fico antigo desse jeito
Moderno tão somente
Porque te vejo de um apartamento
Casa em cima de casa

Vênus planeta feminino
Fingindo-se de estrela
Solitária estrela

Te agradeço e te venero
Boa noite
Solitária amiga
Que se finge de planeta.

4.02.2008

ENTRANDO NA POLÍTICA

Entrar na Política é fácil. Há três portas de entrada: uma à esquerda, outra à direita e uma bem no meio das duas, onde está escrito “CENTRO”.

Escolhida qualquer uma das portas, é acessado um corredor que inevitavelmente leva o ingressante a um salão oval – que não deve ser confundido com aquele que fica em Washington: estamos em Brasília.

No salão oval, há uma porta onde se lê “COZINHA”. O cheiro de pizza é inconfundível. Numa segunda e contígua porta, lê-se “BANHEIRO”. É necessária alguma atenção ao transpô-la, pois só lá dentro é que é feita a tradicional sub-divisão “MASCULINO” e “FEMININO”. Porém, não é este o maior cuidado a ser tomado: é que há uma terceira porta lá dentro, onde o cheiro de certos projetos é, tal e qual o da pizza da cozinha, inconfundível.

Retornando-se ao salão oval, a porta “CPI” apresenta invariavelmente espetáculos de comédia pastelão, onde o palhaço, também invariavelmente, é quem assiste. Ao lado, uma passagem secreta leva a um esconderijo onde somente portadores de um crachá especial podem ter acesso. Ao que tudo indica, dependerá somente de uma e somente uma característica que o pretendente ao acesso a esse ambiente deverá ter - só que esta nunca é explicitamente revelada. Assim, caso o ingressante ainda não tenha obtido antecipadamente de alguns já tradicionais freqüentadores o referido crachá e desejá-lo profundamente, convém que leia o noticiário, assista a algumas das comédias-pastelão na sala “CPI” e procure por um daqueles tradicionais mencionados que freqüentam um e outro desses espaços com bastante freqüência, quase sempre na posição de entrevistado-destaque, apresentando fortes suspeitas de portar o crachá e, principalmente, a característica que a ele dá direito. Mas, cuidado: uma vez dentro, nunca mais fora – embora, suspeite-se, exista uma ligação inevitável do esconderijo com a cozinha e, nela, apesar de algumas frituras, dizem haver uma passarela de onde se vislumbra o cartaz “RIQUEZA E PODER”, logo atrás do forno a lenha.

Onde se lê “PORTA DOS FUNDOS”, só entre se sua pretensão for subalterna, mesmo sabendo que, se quiser, poderá ter direito a um prato cujo nome se parece com um diminutivo de “mensal”. Seu criador foi muito elogiado recentemente.

Existe ainda um outro corredor, no formato de um duto, saindo de um ponto que não se sabe em que porão fica, que liga o salão oval ao Palácio do Planalto - onde, para se ter ingresso, é mais difícil: há que se ter outras habilidades. Por exemplo: falar diversos idiomas, todos em Português; dizer a mesma coisa de maneiras diferentes e coisas contraditórias como se fossem a mesma coisa; divergir como quem converge e convergir como quem diverte.

Voltando ao salão oval: onde se encontrarem 3 ou 4 gatos pingados, não dê importância ao fato de não haver uma placa na porta; fique apenas sabendo que, nela, estava escrito “IDEALISTAS”. Mas, como são só 3 ou 4...

E não desanime não: a alternativa já andou armada – e vivem nos lembrando disso, a torto e a direito.

Ou, melhor dizendo, à esquerda e à direita.

3.31.2008

PAS DE DEUX

Da platéia, o que se vê é a leveza, a destreza, o treino, a habilidade, o talento. A música, o cenário, a iluminação, o figurino, o pano, tudo é o pano de fundo. Inclusive o erro. Ninguém respira o suor, ninguém sente a aflição no ventre, a conta que vence amanhã, uma vontade de ir ao banheiro súbita e autoritária, premente, urgente, a inveja, o ciúme, a carência, a dor do preconceituado, o tersol, a sinusite, a verruga, a rinite, a vagina, o pênis, o saco oprimido, o calo, a ponta mal feita, a roupa apertada, o desejo reprimido. Ninguém na platéia sabe o que é percebê-la na testa de cada espectador, nunca o olhar, porque, no olhar, bate a luz do iluminador. Como saber se o aplauso foi pela descoberta, a técnica, o malabarismo, o sofrimento ou o erro? O salário é bom, o salário é ruim, atrasado ou adiantado, quanto ele importa? Tanto quanto saber que amanhã é outro dia, que virá ou não. O palco vazio, para a platéia, pode ser tão ou mais bonito, instigante, que a nossa presença. Eles olham o relógio, perguntam-se, Quanto tempo falta para acabar? A dor no joelho, a ponta mal feita, o suor, a vagina e o pênis, seus líquidos, a premência, a urgência adiada do banheiro e da pizza, só nós dois, pas de deux, sabemos. Pas de deux. Os aplausos foram ótimos. Sua ausência, também.

3.25.2008

SONETOS CONCORRENTES

(1)

Minha filha fez catorze anos
Concorrendo com a Páscoa.
Aprendi tardiamente:
Páscoa é passagem.

Do que já foi infância
Pelo que agora é dúvida,
Quinta de trevas,
Sexta da paixão,

Sábado, Aleluia,
Grave, profano, inculto, garanto,
Não há só endoenças,

Filha.
Há enremédios;
Há encuras.

(2)

Caminhadas à beira mar,
Pedras,
Areia fofa, areia dura,
Asfalto.

Nuvens no céu ora presentes-ausentes,
Asas de todo jeito, tempestades, vento,
Automóveis, pedestres, cães,
Bicicletas,

Atletas,
Moças bonitas,
Senhoras, senhores,

Onde anda minha cabeça
Que nada percebo, nada disso
Nada?

3.07.2008

NOTÍCIAS DA DINAMARCA

O clima tem andado instável. A bolsa, estável. O dólar, até o fim do ano, estará valendo menos que nossa moeda. Renato Machado continua provando vinho, inclusive pondo o nariz dentro da taça. O programa Saia Justa ainda não passa na estação Maria, Maria, que não vive, apenas agüenta, mas essa é uma canção antiga e, depois, Maria, Maria não mora na Dinamarca. Diogo Maynardi continuará morando na antiga capital da Dinamarca, vai votar no John McCain e lutar no Iraque, morando em Veneza.

O programa Big Brother está novamente no ar e muitos dinamarqueses assistem, com grande preferência pelo paredão. Fidel Castro saiu de cena; por isso, alguns ficaram alegres, outros, tristes. Isso prova que nós, dinamarqueses, somos pessoas com opinião própria, muito embora existam veículos de comunicação que são chamados Formadores de Opinião – e, de fato, necessário admitir que, dentre nós, há os que portem antenas de tv nas respectivas testas, outros, cabos fazendo as vezes de rabos, e outros ainda que, quando abrem suas bocas, nos mostrem, ao invés de dentes e palavras, a capa e a contra-capa de uma revista. Isso sem esquecer os que tomam café com nosso rei-presidente, geralmente em lugares longínquos ou montanhosos dessa nossa imensa Dinamarca.

Os filmes Tropa de Elite e Meu nome não é Johnny contam um monte de mentiras e essa história de bombas em jogos de futebol no sul-maravilha da Dinamarca evidentemente que não é verdadeira. Se nossa tv estatal já estivesse no ar, nada disso seria divulgado, porque, nela, só a verdade será transmitida.

A tv aberta mostra umas barbaridades de vez em quando, mas, logo em seguida, transmite um pronunciamento do nosso rei-presidente nos tranqüilizando, pondo a culpa em quem de fato a tem: a ignorância do povo, a classe média e as elites (não confundir com a da supra referida Tropa) - verdadeiros anacronismos deste nosso país.

Dona Marisa é que está certa: em boca fechada, não entra mosquito – embora, como se saiba, na Dinamarca não haja mosquitos. É que – Dona Marisa sabe muito bem - prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Já o marido dela, nosso rei-presidente, que antes não sabia de nada, agora sabe de tudo e diz com todas as letras que a porrada – sic – come solta nos presídios deste país. Há algo de podre no reino da Dinamarca? É claro que não: Sheakspeare nem dinamarquês era.

Aquele senador continua no Senado, pois lugar de senador é no Senado, embora o padrinho dele, ex-presidente, tenha se retirado para escrever suas memórias, as quais, se a nossa não falhar como de praxe, deverá trazer atos de grandeza - algumas, inflacionárias, outras, inflamatórias; pois, por exemplo, seu genro talvez não se tenha lembrado de esterilizar aquele dinheiro que apareceu dentro de um cofre e que depois desapareceu, já que nossa mídia, competente e dinamarquesa que é, nunca mais falou a respeito.

Na longínqua América do Sul há uma ameaça de guerra, mas nosso rei-presidente – que talvez permaneça no cargo por mais alguns anos, a depender do que for noticiado na tv aberta e na estatal e do que ele disser durante seu café da manhã - intermediou o diálogo entre as nações em conflito; por causa desta intermediação é que já está garantido que não haverá guerra nenhuma. Um pouco de se estranhar é que aquele amigo dele de boina vermelha que fala pelos cotovelos tenha mandado umas tropas para a fronteira daquele outro país, como é mesmo o nome?, que fica tão longe da Dinamarca que a gente nem se lembra. Aquele continente é muito complicado, tem FARCS, traficantes, ih, nem é bom falar. Os indicadores econômicos e o índice de aprovação do nosso rei-presidente bem demonstram: tudo vai bem na nossa Dinamarca. O clima é que tem andado instável.

3.06.2008

EU, JOGADOR

Ao som da Spok Frevo Orquestra, mariobenevides.blogspot.com, 6 de março de 2008.

Eu jogo.
Pelo empate
Pela continuidade
Da ilusão.

Sei lá o que é vitória,
O que é derrotar alguém ou perder,
Nada disso me interessa.

Não me interessa mesmo competir.
Jogo pela existência
Pelo prazer de permanecer
Vivo.

Espero o computador se ajustar
Como esperam ator e platéia pelo terceiro toque.
Admiro
Profundamente
Músicos
De orquestras.
Sua disciplina
Seu prazer
De dividir com tantos
O palco
De não ter um nome
De não mesmo ter
Dinheiro.

Sou um jogador.
Quem joga não o faz pelo dinheiro
O faz pela embriaguez da ilusão
Nem prazer isso é
Somente é um jogo.
O meu, de continuar vivo,
O de deixar lembranças
O de levar lembranças
Para o travesseiro.

E criar novas.
Novas lembranças.

Amanhã
Nem quero saber
Do que vai ser.
Que apenas seja.
Esse é o jogo que eu jogo.
E que compartilho.
Eu jogo
Pelo empate:

Continuar

Vivo.

2.10.2008

ACHADO, ROUBADO E DEVOLVIDO

Foi no sábado. Ela deixou seu telefone celular cair no gramado em frente ao prédio do casal de amigos que visitara e não percebeu. Muito distraída, tinha certeza de que o aparelho estava em casa ou então no carro. Somente na segunda-feira à noite é que se convenceu de tê-lo mesmo perdido e foi na operadora providenciar o bloqueio e a substituição por um novo - mais moderno, até -, que saiu de graça - isto é: pago pelos pontos acumulados pelo uso freqüente da linha. Claro, deveria ter providenciado o bloqueio assim que deu pela falta do aparelho e, se depois o achasse, reabilitaria a linha - o que também não renderia nenhuma história.

Na quarta-feira de manhã, um desconhecido, que sabia seu nome, telefona para seu novo celular, que teve mantido o número do perdido, e informa a ela que este fora achado por ele, no tal gramado. Ela anota o número do sujeito e fica de ligar depois.

No sábado seguinte, ela pede ao marido que ligue para o sujeito - que diz que dentro de meia hora estará em casa, “depois de deixar meu serviço”, e dá seu endereço. O marido vai com ela ao encontro do indivíduo, residente na mesma rua onde fica o prédio que visitaram havia uma semana. Olham bem em volta antes de parar o carro, para ver se não seriam surpreendidos por uma armadilha (“Isto é um assalto!”). Um rapaz sobre uma bicicleta a chama pelo nome.

- Como é que você sabe meu nome?
- Estava na tela do aparelho, junto com tua foto – o rapaz explica. – A memória do telefone celular tem também o número da linha, por isso te liguei. Peço desculpas, mas eu apaguei tua agenda.
- Por quê você apagou minha agenda?
- Porque eu pretendia ficar com o celular para mim. Mas, aí, me arrependi, eu pensei, afinal, o celular é dela, ela vai precisar dele. Peço desculpas também por ter apagado a foto.
- Você usou o celular? Fez alguma ligação?
- Não – ele responde. Depois: - Só duas vezes. No sábado mesmo.
- Você ligou para o exterior? – o marido dela pergunta ao rapaz. Rindo, o rapaz diz que não, claro que não. Foi para aqui mesmo, só duas ligações. Peço desculpas por isso também.

E vai embora, na bicicleta, que se supõe seja dele, que a ele pertença.

Marido e mulher entram no carro e perguntam-se: - Terá sido mesmo arrependimento? Ou o pai ou a mãe dele foi quem ordenou a devolução, com ameaças de polícia e outros castigos? Devolveu só porque - e depois que - percebeu que o aparelho havia sido bloqueado? Mas, se assim tinha sido, devolver porque? Por que não deixá-lo perdido em algum outro lugar, ou mesmo no mesmo gramado onde fora encontrado? Minha foto na tela – ela continuou a conjeturar – era ao seu lado, era uma foto de nós dois, um casal; ele esperava por alguma recompensa, ou uma perspectiva de mais um furto, se dar bem; e – ela constata e conclui - não foi nada disso.

Mas houve uma recompensa – que quase não aconteceu, depois da confissão do roubo e do arrependimento. Se é que um livro (com dedicatória e autógrafo) possa ser considerado uma recompensa. Livro que o rapaz saiu lendo, seguro por uma das mãos; com a outra, manejava a bicicleta.

2.03.2008

CAVALOS

Em Petrópolis, a charrete percorre as ruas entre automóveis esparsos. O condutor também é guia, mostra a casa de Santos Dumont, a do príncipe recém falecido, aquela onde Fernando Henrique se hospedava, “Lula nunca veio aqui”. Mostra a estátua do arquiteto e, atrás, a Catedral. De quando em quando, dá uma chicotada nos cavalos da parelha, que apressam o trote preguiçoso e servil. Submissos, os olhos, tampados nas laterais. Sacos amarrados nos seus lombos recolhem seus rejeitos alimentares transformados nas suas tripas em dejetos. O guia pronuncia “coêler” ao invés de “quéler”. No término do passeio, ele, novamente condutor, puxa as rédeas e pára no sinal fechado. Um dos cavalos torna a cabeça na direção do seu par e parece dizer alguma coisa a ele. Provavelmente, algo como “De noite, a gente pára e descansa”, ou “Um dia, isso acaba”.

Em Florianópolis, chove demais. Uma catástrofe, ruas inundadas, casas inundadas, pessoas jogadas na lama, em abrigos, o aeroporto, fechado. No caminho dessa descoberta, uma pastagem; por trás, a baía. O cavalo, amarrado a um toco no chão, a cabeça baixa, o dorso sob a chuva, debaixo do temporal, a céu aberto, céu cinzento, chuva, chuva, chuva, no lombo do cavalo. “Uma hora, isso passa”.

No apartamento, um vento, para ela, é tufão; uma chuvinha fina, temporal; um espirro do filho, pneumonia. Tudo é pretexto para dar uma desculpa no trabalho e faltar e ficar em casa. A tempestade é tão verdadeira e intensa que dispensa a desculpa. “Uma hora, isso passa”.

1.26.2008

RETRATO 3 POR 4

Reenquadre-se
De corpo inteiro
Dentro de um retrato
3 por 4.

Perceba-se
Tristeza e alegria
Tudo e nada que lhe pertence
Cabe no retrato 3 por 4.

A moldura são os outros
Seu ganha-pão
Seu perde e ganha
Nesta vida 3 por 4.

Dentro da foto
Dentro das paredes
Sob teto e chão
Do retrato 3 por 4

É você.
É aquilo de que você realmente gosta
O que você venera e admira
Quem você realmente quer - e quer bem.

A profundidade -
Suas múltiplas dimensões
Sem frente nem verso
Nem pra frente nem pra trás

O espaço em que você transita
Sem começo nem fim
Sem finalidade
Sem rumo -

É você.
Saindo pra fora da moldura
Que envolve seu corpo
Numa foto 3 por 4.

Reinvente-se
E caia fora
Para frente ou para trás
Do retrato de corpo inteiro

Da moldura
Dos limites
Desta vida 3 por 4.

1.22.2008

O ESCRITOR AMÓS OZ E UMA SÓ PERGUNTA

Parati, julho, 2007,
Programa Roda Viva,
Uma entrevista e suas perguntas.

O escritor israelita Amós Oz
Irresistível
Seu humor irresistível
E suas respostas.

Não gosta de computador
Escreve com duas canetas.
Com a primeira opina
Com a segunda, conta histórias.
Ao contar uma história
Tem mais imaginação que memória
Sem saber quanto desta vem naquela.
Ao opinar
Se dedica à História.
Ao contar histórias
Não é sua vontade que prevalece:
Querem, nelas, perceber fatos.

Caro Amós Oz:

Quando se escreve um romance
- Romance?
Uma novela
- Novela?
O que se conta é lembrança
- Lembrança?
Uma história
- Uma história?
Uma ficção
- Ficção?
Que se distingue da História
- História?
Por não contar fatos?

Não a vontade
Mas é a pergunta
Uma só pergunta
Que permanece:

- O que são fatos?

1.16.2008

AGENDA CARIOCA - UMA ANACRÔNICA

Um camelô vendendo agendas na Rua da Quitanda, Rio de Janeiro, sim, janeiro de 2008. Quem as compraria? Quem precisaria de hora e dia marcados em uma agenda de camelô? Alguém como ele, camelô, certamente que não; seus horários são poucos: o de acordar e o de fugir do rapa. Não difere ele dos outros comerciantes, que não consomem aquilo que vendem. Donos de bares não são bebedores, os de papelaria, se viciados em lapiseiras, a quem as venderia?, um hipocondríaco farmacêutico, ora, falência seria sua morte e não a anorexia. Comprará uma agenda do camelô não alguém igual a ele, mas alguém tão marginal quanto ele, especialmente nos horários, marcados na margem da agenda e não nos impressos – porque, nestes, apenas registrará aquilo que nada descreverá da sua vida: o crediário, o dia do salário, o aniversário, o nome do credor e do devedor, além do próprio, de esperto, de otário. Seu endereço e o tipo sanguíneo que mereceu e merece de nascença constarão, para que, no caso de perda da agenda – sua própria vida –, esta possa lhe ser devolvida; e no da súbita e sempre inesperada fuga daquela que corre debaixo do relógio de pulso - comprado de um camelô – sua própria vida -, para que apareça um outro portador de agenda comprada de um camelô, que se torne, da noite para o dia, da vida, um doador.

Eu comprei uma; você não compraria?

1.01.2008

ÁRVORES

Árvores. Há uma, no quintal do prédio onde mora meu irmão
Que parece um bicho esticando o pescoço,
O tronco, inclinado,
Duas raízes que são como pernas,

A cabeça – o cabelo revolto de uma árvore –
Procurando, lutando para encontrar
O sol. Ou a chuva. O céu.
Seu chapéu.

Árvores perdidas nas calçadas do Rio de Janeiro,
Ruas, suas ruas são indiscutivelmente arborizadas,
Suas ruas são metralhadas,

Em algum momento era tudo óbvio e não quiseram perceber.
Uma árvore permaneceu árvore.
Árvore de Natal.

12.23.2007

CERVANTES, O BAR, OU LAPAS-BRASIS

No lançamento do meu romance “A revolução do silêncio”, na Livraria Argumento do Leblon, Rio, 20 deste dezembro, ganhei de presente a visita e um livro de autoria do poeta Ronaldo Werneck, carinhosamente autografado por ele. Na orelha, Geraldo Carneiro o chama de poeta do bas fond. Inevitavelmente, me lembrei de uma canção que fiz há uns vinte anos (letra e música), a qual chamei de “Cervantes, o bar” e, alguns anos depois, inseri na peça “Lapas Brasis”, que escrevi a quatro mãos com Carlos Sérgio Bittencourt. Reproduzo a seguir a letra da canção, deixando meu abraço para alguns poetas amigos meus, especialmente o Ronaldo, pela gentileza, pela re-inspiração:

À porta, três atores
Do diretor, dizendo horrores
Balcão, sanduíche, salpicão,
Schmidt, schinit, uisque, Nietzche,
Fredericos no balcão

Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo

Na esquina, moças-vagalumes
Meninas-bolsas com perfumes
Salão, cerveja, salsichão
Magros e godos, visi-gordos
Sincretismos no salão

Olhando no fundo do copo
Olhando no fundo do copo

- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz

Todas as tardes, quarto andar
Faço um doente caminhar
Depois, de noite, eu vou dançar
O funk da galeria
C’os negros da galeria
Na boate, finjo alegria
C’os brancos sem companhia

- Que o mundo morra sem saber que eu fui poeta
- Que o mundo morra sem saber que eu fui atriz

E de manhã, quantos amores
Quantas saudades de manhã
Jornal, cigarro, macarrão,
Ministro arisco, tão malquisto
Desligo a televisão.

Que o mundo morra sem saber
Que eu fui poeta olhando
Eu
Olhando no fundo do copo
Eu...

12.13.2007

O QUE FICARÁ DE NÓS

(De uma triste constatação de Rosamaria)

Ficarão reportagens sobre gente que a gente detesta
Corruptos, bandidos, prepotentes, mentirosos
Catástrofes
Muito futebol
Alguma coisa parecida com música
Mulheres nuas
Aberrações
Big Brother -

Mas verdadeiramente de nós
Não ficará nada.

Nossas fotos
Nossos textos
Nossas mensagens cifradas
- TXT, ABÇ, BJS -
Tudo será lixo digital.

HDs, será que alguém guarda os seus?,
Disquetes já são coisa do passado
CDs também já são
Nada ficará.

Nem no provedor; nem na CIA.

Nem as florestas
Com as quais nos preocupamos tanto
E por isso deixamos de imprimir
Nossas fotos
Nossos textos
Ficarão: todas serão torradas
Para nos empanturrarmos de carne bovina
Alface e etanol
Enquanto muitos de nós continuarão passando fome
Alguns poucos, andando a pé.

Ficarão fotos esmaecidas
Cartas amareladas
Dos nossos avós.

Nada de nós.

Nada.

11.16.2007

HOJE FOI ASSIM:

Pode não ter feito sol onde você mora e você não foi à praia nem à cachoeira, mas dormiu até o sono acabar. Não tocou o despertador. Bem verdade que o vizinho resolveu recolocar o telhado, arrancado pelo vendaval da noite passada, e você acordou antes e diferente do que gostaria; mas teve um dia inteiro para fazer o que bem quis, a ponto de se esquecer de que, para tudo, há uma moeda – redundante dizer “de troca”.

Você ficou na moita. O tiroteio vai ficar para amanhã – ou, se você não for banqueiro nem bancário, comerciante ou comerciário, para segunda-feira.

Você ficou em casa. Aparou a grama, fez ginástica, amor, alongamento, consertou o encanamento, pegou um filme, uma onda, namorou, telefonou, escreveu, se esqueceu.

Você foi ao cabeleireiro, fez as unhas, pintou-se, acomodou-se, foi ao cinema, inclusive e principalmente se trabalha na bilheteria.

Viu tv. E viu tv. E desligou a tv.

É que hoje é quinta-feira, você mora no Brasil e – em 1889 – um marechal de pijamas foi informado de ter ele mesmo proclamado a República. Um imperador foi embora com sua coroa e sua família e você não compreende porque, afinal, isso, essa partida, causa em você essa tristezazinha. Simpático, aquele sujeito, de barba branca, andam falando muito bem, dele. Do marechal, sabe que nem tanto? Da República, também não, da Monarquia, também não, da Ditadura e da Ditadura, também não.

Fato é que você acordou quase no mesmo momento em que seu sono acordou e virou dia e você se deu conta de que a vida não deve mesmo ser levada muito a sério não. Porque aqui é o Brasil. Mesmo essa tristezazinha - com vários outros maiores motivos que a partida do velhinho de barba branca - não é capaz de desfazer a certeza de que a vida não pode ser levada a sério e a de que o lugar da sua celebração é aqui: o Brasil. E a do privilégio que isso significa.

O que não significa que você esteja realmente convencido de que devesse ter deixado de reclamar com a polícia que seu vizinho desrespeitou a Lei, martelando o telhado neste feriado nacional, interrompendo seu sono de feriado, sono de feriado nacional.

10.27.2007

A MULHER NUA QUE EU VI

Ela se apresentou de repente
Imensa de beleza e luz
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.
Continuou me fitando de longe
Nua
Depois cobriu-se de panos
Me dizendo,
Calma, coração,
A vida é um dia de cada vez.
Era uma banal,
Com uma bandeira fincada no colo
Meramente material.
Banal é quem pensa
Que a lua é somente uma banal
Com uma bandeira fincada no colo
Somente
Passivamente
Refletindo a luz do sol.

Ela se apresentou de repente
Imensa em sua beleza e luminosidade
Saí de casa, voltei
Ela estava mais contida.

Florianópolis, tarde-noite de sexta-feira, 26/10/2007.

10.24.2007

QUE TÍTULO VOCÊ DARIA?

Uma canção será berço do meu verso. Uma prosa será verso do entendimento. Meu idealismo será dito sem palavras. Rasgos imensos desses desde sempre feitos por mãos e ferramentas calarão vozes milionárias e as parasitas. Rasgos deixarão de ser feridas, deles brotarão botos, peixes, baleias, árvores as mais frondosas, crias - ricas crias. Livros. Será o dia da minha morte, a noite do meu dia. Minha mulher dirá, Que triste!

Eu direi:

- Não, mulher.

Poesia.

BARATAS E LAGARTOS

Houve uma noite em que minha filha estava com amigas lá em casa. Enquanto eu já estava dormindo, todas se preparavam para dormir. De repente, gritos, agudos e carregados de decibéis, muito mais que os usuais dentre as mulheres de 13 a 130 anos, mais ainda que os aceitos pela Organização Mundial de Saúde, Organização das Nações Unidas e a Organização do Tratado do Atlântico Norte - todas organizadas demais para aceitar tudo que não sejam guerras. E não era uma guerra e os gritos não eram nada organizados: eram histéricos. Sonâmbulo como de meu direito, levantei-me da cama preparado para um sermão. Não sou bom de sermões, nunca quis ser padre nem juiz, nem mesmo de futebol; mas fui lá.

Claro: era uma barata – e voadora.

Já morei sozinho e deixei uma barata dormir na minha casa enquanto me dirigi ao hotel mais próximo, para não incomodá-la. No mesmo período, houve uma que chegou pela janela, de asa delta e prancha de surfe debaixo da asa; aniquilei-a a doses cavalares de spray venenoso e, resoluto, dirigi-me, primeiro, ao necrotério, para me certificar da morte da invasora e, depois, ao hospital, para me certificar da minha própria.

Ocorre que pai de adolescente é outra pessoa; cheguei a pensar em mudar de nome, Alfredo, Pessoa, Eustáquio; mas não: uma vez Mario, sempre Mario (e não me perguntem “Que Mario”, por favor). Adentrei o quarto da minha filha munido de vassoura – como já disse, era outra voadora, Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, impressionante – e matei-a. Engano: caída ao chão, ela ressuscitou – e foi batizada, por uma das presentes, de Barata Jesus.

Heresias à parte, eis que uma amiga advogada me conta de seu embate com um lagarto, no morro atrás do quintal da sua casa. Florianópolis e Rio têm tudo a ver, cara, é impressionante, praia, morro, só muda de assaltante pra lagarto (pelo menos, por enquanto). Por um lagarto! Aquele ser pré-histórico, jurássico, inspirador do dragão, com suas papas laterais, cor de lagarto quando ataca, língua de sogra, digo, cobra, soltando fogo pelas ventas. Me disse a amiga – minha, não do lagarto – que ele, o lagarto, foi para um lado e, ela, para o outro. A troca de olhares foi tão fulminante que acarretou uma de pernas, e minha amiga rolou morro abaixo, ralando-se como se fosse criança, uma alegria só – para não dizer o contrário, claro. Escoriações na perna, nos braços, no corpo todo – e o lagarto, tranqüilo, na dele, passeando pelo morro da casa dela, até agora. “Lá em casa, a gente não mata nada”. Pois, na minha, eu mato. Desde sempre. Aula, por exemplo; quem nunca matou uma aulinha na vida, hein?

Minha filha não mata aula.

Alfredo, Pessoa, Eustáquio...
Vou pensar.

10.04.2007

CRÔNICA SENTIMENTAL

Na TV
Reportagem
Arquivo N
Pelé.
Copa de 70
Meus pais vivos.
Meu pai assistia comigo Brasil contra Inglaterra
E minha mãe também.
Este o inusitado:
Minha mãe também,
Numa poltrona perto da TV,
Chutando,
Soltando a perna e o pé no tapete da sala,
Querendo acertar o gol que não saía.
Tostão-Pélé-Jairzinho,
Gol do Brasil.
Antes, uma cabeçada do Pelé nas profundezas do Inferno
E Gordon Banks pegou.
Eu tinha 14 para 15 anos.
Meu irmão por perto.
O melhor jogo de futebol a que assisti.
Jamais assistirei a outro tão bom.

Nem minha mãe.

***

Peter O'Toole,
Venus,
A morte chegando,
A delicadeza cúmplice
Do desejo explícito
Impudico
Depravado
Defasado
Anos de diferença
Filme imperdível.

Ela: "Você acredita em alguma coisa?"
Ele: "No prazer.".

***

Pelé a Lucas Mendes
(cheio de cabelos pretos):
No Brasil, o racismo não é racial. É social.
Preto rico entra em qualquer lugar.
Branco pobre não entra em lugar nenhum.
Lucas Mendes: Mohamed Ali,
Há quem cobre de você uma postura equivalente,
Defendendo o negro no Brasil.
Pelé: - Eles devem ter suas razões.
Cassius Clay teve uma infância discriminada,
Preto de um lado, branco de outro.
Eu, não. Vivi minha infância no meio de pretos e brancos.
Minha primeira namorada foi uma japonesa.

Julguem Pelé
Pelos seus atos,
Seu futebol,
Suas palavras.

Julguem Peter O'Toole
Mais ainda, a personagem vivida por ele
Em Venus.

Julguem: sejam juízes.

Sabendo que eles
Continuarão o jogo.

Eles fazem.
Eles são.

O jogo.

9.14.2007

ÀS MÚSICAS E AOS MUSICAIS

Acabo de assistir a um show de Ney Matogrosso e Pedro Luiz e a Parede, com direito a alguns músicos convidados. Na TV. (Canal Brasil, 66, da Net. De vez em quando, Ariano Suassuna e sua amizade com Chico Science.) Percussionistas, um violonista de outro planeta, um guitarrista, um baixista, instrumentistas de sopro, todos verdadeira origem do big-bang são a Parede. Um deles corre o palco devagarzinho, Pedro Luiz toca uma guitarra cortadinha na ponta, uma verdadeira atriz, que só se afina escondida pelo braço da guitarra, seu camarim. Ney Matogrosso e um figurino que não pode ser pirata, porque legítimo, como seu gingado único, sua voz de dezesseis anos, seu dom de descobrir maravilhas, Rafaéis Rabellos, Pedros Luizes e suas Paredes e por aí vai. No intervalo do programa, Zeca Baleiro é a próxima atração.

No rádio do carro, ouço assim: “Tranqüila / eu levo a vida tranqüila / não tenho medo do mundo / não tenho medo do mundo / a inveja que me passe / o olho grande que me passe...” – não consegui saber quem era, na hora; depois, na loja, me disseram Thalma... Thalma de quê? Não baixo músicas da Internet, quero o CD com capa, aquela de plástico, que quebra logo da primeira vez que a gente vai tirar ou guardar o disco. Não tem. Na loja.

Nem só de Chega de Saudade vivemos, como se vê. Ou se ouve. Nem só de Beatles – aliás, ouvir Sergeant Peppers fazendo quarenta anos e prestar atenção em todos seus sons e letras é nascer de novo. Rita Lee cantando I want to hold your hand com uma sanfoninha ao fundo, que bonitinho, que contrário do Renan Calheiros, da Ideli Salvatti, do falso argumento em-cima-do-muro do Mercadante (ou será Mercante?).

Pedro Luiz, Parede e Ney Matogrosso cantam de tudo, de Faca Amolada, passando por Martinho da Vila, chegando à maravilha “O mundo tá muito doente, o homem que mata, o homem que mente”. (Impossível não perceber que a mistura de ritmo brasileiro com guitarra, ora, ora, nasceu foi mesmo com a Tropicália. Ariano Suassuna e sua amizade com Chico Science, também. Nem só de Ministério vive Gilberto Gil nem só de fala empolada ele e Caetano Veloso vivem.)

Jack Johnson. Bom também o anúncio do cara que teve as roupas roubadas por uma garota que usava sandálias havaianas (“Quer uma aguinha coma açúcar?”). O que é que isso tem de música? As garotas – é claro. E o humor – que é musical.

Assim deveriam ser homens e mulheres: eles, musicais; elas, músicas.

O que acaba de acontecer no Senado nada tem nem de homem, nem de mulher.

Por isso é que não temos medo do mundo; durmamos tranqüilos.

9.01.2007

UMA QUESTÃO DE TEMPO

A calçada ou o atropelamento.
O parto interminável ou a cesariana.
As escaras ou a cura.
A janela ou o dia seguinte.
A maca ou o lençol.
O tiro; ou a persuasão.
O insulto e o auto-controle.
O arremeter ou o aterrissar.
O parar na hora certa ou avançar, arriscar, bater. No cruzamento.
Umazinha a mais. Só umazinha. Ou ir embora ou dormir.
Apertar o cinto ou afrouxar a gravata.
Ir de tonta, com. Ou sem. Camisinha.
Remoer uma vingança e alimentar um câncer.
Enfrentar um câncer
Vindo ou não da vingança remoída
Vindo sabe-se lá da pureza
De tão pura que não suporta a si e a si tenta destruir -
Ou se deixar levar.

A morte não é uma questão de tempo.
A morte é escolha.
Apenas nunca somente sua.

8.17.2007

O AEROPORTO NOSSO DE CADA DIA

A INFRAERO informa: cama redonda é boa para quem se movimenta dormindo que nem ponteiro de relógio; no chão do aeroporto, você vira para o lado que quiser e sintoniza na rádio oficial a canção Tô nem aí, tô nem aí.

A INFRAERO informa: seu vôo sairá a qualquer hora ou em edição extraordinária.

A INFRAERO informa: o vencedor da licitação para o trem bala brasileiro foi o modelo AR-15.

A INFRAERO informa: a duplicação do aeroporto de Congonhas duplicará também a marginal Tietê, a marginal Pinheiros, a marginalidade será toda duplicada.

A INFRAERO informa: se acabar a bebida em Cumbica, dirija-se a Viracopos.

A INFRAERO informa: respeito é bom e a gente não gosta.

A INFRAERO informa: não seja comunista, socialista, capitalista nem anarquista: seja um ANAQUISTA, desgraças a Deus.

A INFRAERO informa: o que restava de respeito foi esquecido no Raio X.

A INFRAERO informa: a classe média não sabe o que é tomar banho frio. Nem quente, porque no aeroporto não tem chuveiro.

A INFRAERO informa: Na voz de Tom – desculpem - Nelson Jobim, Dentro de mais umas horas talvez sairemos no Galeão.

A INFRAERO informa: seu vôo está previsto para está previsto para está previsto para...

A INFRAERO informa: é proibido deixar este aeroporto.

7.06.2007

Meu Rio

O Rio que passa na TV é o da bala perdida, do PAN, da bunda, do Cristo Redentor, da Baía de Guanabara, do Pão de Açúcar, da Garota de Ipanema. É Copacabana. É o Funk, o Rap, o Tom Jobim, o Chico Buarque, o Cartola. É a Ana Maria Botafogo de atriz de novela. É um Rio de grã-finos, de novos ricos, de Barra da Tijuca, de pobretões, de uma mulher chorando a filha morta quando ela ia para a escola que fica na favela ou então no sinal, uma bala achada e não perdida, numa cabeça adolescente.

Um dia vou dizer do meu Brasil. Hoje eu quero é dizer do meu Rio, que não é o da TV. Não é o do Vinicius de Moraes nem o do Carlinhos Niemeyer, do Paulo ou do Oscar Niemeyer. Meu Rio é tão pessoal que não é nem Leila Diniz. Não é Fernanda Montenegro nem Banda de Ipanema nem Ponte Rio-Niterói. Não é Zezé Mota, como não é Sérgio Porto nem Nelson Rodrigues. Paulinho da Viola meu Rio não é, do mesmo jeito que não é torcida do Flamengo nem do Botafogo. Nem regata nem camisa de regata. Nem pivete nem garoto lavando o pára-brisa sem a gente pedir, nem sujeito vendendo amendoim de paletó e gravata, nem o rifle apontado para a minha cabeça. Não é Luma de Oliveira, não é Camila Pitanga, não é a sede do Jóquei Clube nem a serra de Petrópolis. A rua do Lavradio fica lá, o beco do Manoel Bandeira é perto, o gasômetro; nada disso é meu Rio.

Porque meu Rio é a cidade onde eu nasci. É um cheiro de peixe misturado com cheiro de asfalto. É um par de pés femininos caminhando à minha frente descalços. É uma areia de praia fazendo um barulhinho que deixou de fazer faz tempo, quando fazia um frio danado às sete da manhã dentro do mar e eu esperando onda pra descer de jacaré para ir pro colégio depois. De noite, uma bola de meia na calçada. Um pedaço de pizza no Beco da Fome, que em tempos que eu não vivi foi o das Garrafas, onde uma nata musical se formou. Lá, só fui capaz de comer pizza e puta. (Graças a Deus e graças às putas.) Meu Rio é meu pai serrando qualquer coisa, minha mãe fazendo sanduíche domingo à noite, uma mulher no prédio em frente trocando a roupa, loura, menos onde ela está sem roupa. Um par de seios e seus bicos. Uma barriga e seu umbigo. Um cão. Um doente que morde minha prancha de isopor e meu pai pergunta a ele, Você gostou? Meu irmão de tênis rasgado no bico; foi tropeção ou porta de elevador?

O câncer da minha mãe é meu Rio. E sua morte. A formatura do meu irmão, o nascimento da minha filha, meus tropeços nos cadarços dos meus sapatos. Escadas de uma casa no Cosme Velho e um sótão na Rua Umari. Bares proibidos, manhãs de dores de cabeça colossais, amigos e sua incomensurável tolerância para com meus vôos sem nave, minhas presenças ausentes. Meus amigos a não me ouvir porque miram uma face, uma bunda, um sorriso, uma possibilidade. Garçom, mais um chope, por favor. Meu primeiro casamento, seu desfecho sem morte, meus namoros. Uma inimaginável Florianópolis. Ou Minaçu. Ou Nova Iorque. São Salvador de El Salvador - ou do Tocantins. Poços de Caldas, Salvador, Bahia.

Minha mulher eterna.

O Rio não passa na televisão e nenhuma cidade passa e nenhuma vida passa. O que passa é o que fica. A cidade onde se nasce. O cheiro, o peixe, o cão, a mulher. A filha, o filho, os filhos. A opção: solidão ou companhia. Deus é a cidade onde se nasce.

6.18.2007

O OUTRO

Nada de teorias psicanalíticas ou filosóficas será abordado aqui. E agora. Porque, agora, o outro é aquele tão popular quanto desconhecido. Aquele que diz tudo, principalmente ditados populares. O popular outro da expressão “É como diz o outro”.

Quem será esse outro, que tanto diz? Vira e mexe e alguém o cita: “É como diz o outro: mais vale um pássaro na mão que um caixa dois voando.”. Geralmente – preste atenção – o outro embaralha ditados, cria novos, um danado de imaginativo – inovador – é esse tal de outro.

Por um tempo acreditou-se que outro era nome próprio: - Prazer; eu sou o Outro. De quê? Ele – que, de tão especial, é o Outro – não responderia; omitiria o sobrenome de família – que é outra família, por ser a família do Outro.

A entrevista com o ser que, de tão espetacular, é Outro, continuaria:

- Outro, o que você diria hoje, hein?

- Sobre o quê?

- Sobre esse – sabe como é, esse que, como diz o outro...

- Outro sou eu.

- Pois é: o que você tem a dizer sobre esse outro, esse aí, que...

Entretanto, lamentamos informar que a identidade do Outro acaba de ser revelada. No interior do Tocantins, existe um indivíduo muito popular, que vamos fingir que se chama Fulano de Tal. Alguém o encontrou e exclamou: - Ah! Então, o senhor é que é o Fulano de Tal! Pois que, para surpresa do alguém citado, Seu Fulano respondeu:

- Eu não sou esse que você está pensando, não: eu sou o outro.

O que dizem é que o espanto do alguém que foi apresentado ao outro - mais famoso até que o tal fulano, o Fulano de Tal -, passou a se apresentar, mais modesto que qualquer outro, da seguinte maneira:

- Muito prazer: Ninguém.

Enfim, para ser ninguém, basta ser alguém. É como diz o outro.

6.04.2007

PAULO JOSÉ, FALCÃO E QUANDO MENOS VALE MAIS: QUANDO?

O ator Paulo José, administrando bem os sobre-movimentos que lhe são exigidos (mal de Parkinson), com a mente e o caráter tão caracteristicamente seus – brilhantes - a lhe saírem pelas palavras e silenciosas e rápidas e fulminantes pausas, com seus jovialíssimos setenta anos de vida, é entrevistado no Programa Roda Viva. Às tantas descreve uma cena do filme adaptado e homônimo do romance de Fernando Sabino, “Faca de dois gumes” - ainda que não exatamente com essas palavras:

“Eu fazia o pai de um jovem seqüestrado que acabava de receber um estojo com o pedaço do dedo do filho dentro. Como reagir? Como fazer a cena?”.

O ator, então, faz umas duas ou três tentativas de uma possível dramatização do choque de um pai vivendo tamanha tragédia, repetindo a mesma frase com diferentes entonações (todas dignas do grande ator que é): “MEU FILHO.”. “MEU FILHO!”. “MEU... FILHO...”.

E conclui por dizer o seguinte:

“Em certas horas, o melhor é não fazer nada.”.

Agora – dirá você, para este narrador de entrevistas alheias -, lá vem você falar de futebol e – pior - de mais de vinte anos atrás.

Brasil contra Rússia, Copa de 1982. Um jogador brasileiro dispara um chutão, da intermediária, de frente para o gol. Falcão está na meia-lua, esperando pela bola. O que ele faz? Não faz; abre as pernas e a bola passa, ligeira, implacável, reta: gol do Brasil.

Na mesma Copa, em um outro fatídico e inesquecível jogo, o Brasil precisa de um empate, contra a Itália. Está 2 a 1 para a que viria se sagrar campeã; só que, naquele momento, ninguém sabe disso (a não ser o Sobrenatural de Almeida - não é, Nelson Rodrigues?). Da mesma meia-lua, o mesmo Falcão dispara, de canhota, um chute mortal: gol do Brasil.

Era hora de fazer - e não de não fazer.

Depois, como se sabe, o time deixou de fazer quando deveria ter feito e Paolo Rossi marcou o terceiro gol da Itália, que tirou o Brasil da Copa, com uma das suas melhores seleções de todos os tempos.

Voltando à entrevista do Paulo José: em outro momento, ele comenta sobre o desejo de muitos da presença de soldados do Exército nas ruas, para combater a violência; e pergunta:

“E se eles gostarem de ficar nas ruas?”.

Pois é, Sheakspeare: há momentos em que ser ou não ser vira fazer ou deixar de fazer. E a questão passa a ser: - Quando?

NU

NU

Era muito especializado

Vivia de bico de boca do que desse e viesse
Namorava quem se desse
Não tinha nome não tinha cara
Nem cara de pau ele tinha
Cara nenhuma
Parecia disfarce topete chapéu capa guarda-chuva

Não era moleque nem bandido
Marginal no sentido literal
Vivendo à margem
Do rio
Da linha do trem
Da sala de visitas
Do anfiteatro
Da pista
De alta velocidade

Ia lento
Ritmo
De quem passa a vida observando e deixando
Não mais que a própria sombra
Na lembrança de quem fosse
Que tivesse encontrado
Beijado
Esbarrado

Ninguém sabe se deixou filhos mulheres amantes viúvas
Diplomas

Deixou sapatos sua capa e o guarda-chuva
Sumiu de repente
Ninguém sabe se morreu
Ou se foi embora nu
Pela porta dos fundos

Da vida.