1.14.2017

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - CINCO

ASSASSINAS

Da casa no sul da ilha

Aqui muito já se falou, muito já se viu, muito já se ouviu.

Quando a faca rasgou seu nariz, sua mão esquerda em concha jogou para longe o sangue que escorria; a direita afastou o agressor com um jab e a esquerda disparou um direto no queixo dele, que desabou de costas no chão de terra, a faca, largada no chão. Como se a perna fosse uma estaca e o homem caído um vampiro, pisou-lhe entre as pernas com o salto da bota do pé esquerdo. O homem no chão urrou de dor, pediu socorro, implorou perdão. Quem estava em volta e assistira à briga não fez nenhuma questão de intervir. Um homem velho sacou do bolso interno do paletó surrado uma pistola e meteu uma bala na testa do que já não tinha mais a faca. Os que assistiam deram um ou dois passos para trás, incluindo o rapaz do nariz cortado.

Que foi isso, pai? Tu tá maluco? Não precisava matar!
Teu nariz tá sangrando muito e os grito dele tava muito alto. Vambora que eu te faço um curativo em casa.

Um dos presentes disse, Tá certo, seu Raimundo, nóis some com ele, ninguém fica sabendo. Um outro puxou um aplauso, seguido pelos demais com moderação e medo.

O sotaque do velho é típico daquela região de Bagé, que às vezes se mistura ao espanhol. Gente acostumada a mugido, temporal e estiagem. O filho, nascido no sul da Ilha de Santa Catarina, absorveu o mesmo sotaque. Ser chamado de gaúcho em sua terra natal, como às vezes ocorre, costuma deixá-lo, mais que confuso, em crise de identidade, principalmente se levado em conta certo bairrismo entre alguns locais e imigrantes do estado vizinho ao sul. O tiro que há poucas madrugadas disparou na têmpora do advogado lembrou aquele outro, o do pai, na testa do homem já indefeso que lhe arrancara do rosto sangue e pele. Não foi um assoar de nariz o gesto que Flávia assistiu da janela do apartamento na Beira Mar onde  mora, e sim um atirar para longe um sangue há muito escorrido, seco e limpo. O velho está apenas mais velho, mas é como se sempre tivesse sido assim, velho, o velho Raimundo, que se casou depois de viúvo de um primeiro casamento. Aos quarenta e cinco anos, com Dorinha, que na época tinha dezoito. Foi pai aos quarenta e seis; chifrado - expressão que ele mesmo usa para o ocorrido - aos quarenta e nove. Dorinha apaixonou-se por João Bebé, pescador de braços fortes como os do velho, o mesmo vigor do velho, mas o velho era o velho. João Bebé era o moço do sorriso largo, envolvente, sedutor. Raimundo sempre foi sisudo demais, rígido demais. Características que a principio transmitiam segurança à órfã desde menina, que depois enjoaram, perderam qualquer graça, que ela só reencontrou em João Bebé. Raimundo vingou-se vendendo tudo o que tinha em Florianópolis, deixando Dorinha para trás, que nunca mais veria o filho. Antônio. “O misterioso assassino da Beira Mar”, como tem sido chamado na mídia. Nada ainda se sabe dele e possíveis motivos para o crime, nem mesmo Flávia, testemunha do alto de um prédio, quieta e amedrontada a respeito. A última vez que Dorinha o viu foi quando contou pro velho o que tinha acontecido, pedindo perdão, mas que o que estava sentindo era mais forte que ela, que não queria nada, somente ir embora e de vez em quando ver o filho, cuidar do filho, era só isso o que Dorinha pedia. João Bebé estava junto, por causa da fama de violento do velho. Foram na hora que sabiam que ia ser difícil para ele pegar a pistola, guardada na gaveta da mesa de cabeceira no quarto no andar de cima, e foram em companhia do Beto, amigo do João Bebé, com sua farda da Polícia Militar. Dorinha disse aquilo tudo e saiu, deixando o filho de três anos brincando no chão, depois de pegá-lo no colo e dar-lhe um beijo no rosto, de mãos dadas com Bebé, Beto um pouco atrás, a mão no cabo da sua arma de PM. Se Raimundo não podia matar os dois, como era o que achava que deveria fazer, sua vingança seria esta: iria embora com o filho, desapareceria dali. Marcenaria e emprestar dinheiro a juros têm serventia em qualquer lugar e dólar é dinheiro em qualquer lugar. Foi com o filho primeiro para o Uruguai. Ficaram três anos por lá; depois, quatro no Chile, a convite de um fabricante de adegas artesanais, cujo artesão falecera e o velho Raimundo mostrou-se exímio substituto; e muitos outros anos em Bagé, para matar saudades de Raimundo da região onde nasceu. Só voltaram para Florianópolis quando um outro velho, de nome Cristóvão, amigo de Raimundo, contou a ele em uma carta mais uma tragédia: numa tarde de domingo, o mar virou de repente, Dorinha e João Bebé desapareceram para sempre dentro do mar. Já fazia duas semanas e as buscas haviam sido suspensas; não havia mais esperança de encontrá-los com vida e nem mesmo sem ela. Afastaram-se demais da costa, o barco de João Bebé não era para tanto, muito menos com o mar virado, grosso, bravio, sôfrego, voraz. Voltar para Florianópolis foi como um pedido de desculpas ao filho. Se o tirara de perto e para sempre da mãe, queria devolver a ele pelo menos o lugar de nascimento. 

Raimundo está com setenta e seis anos. A marcenaria ainda o mantém forte e lúcido, já não é mais agiota. Antônio, seu filho de nariz cortado, trinta.

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