10.16.2016

EM TEMPO REAL – PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - TRÊS


ESTOICAS

Do apartamento da vítima, em Florianópolis

Livros. E mais livros. Estantes abarrotadas, já sem o devido cuidado. Livros de Direito Administrativo, Econômico, Societário, Internacional. De Sociologia, Filosofia, Psicologia, História. História das nações, guerras, dinastias. Livros em português, inglês, francês, espanhol, italiano e latim. Um em particular chama a atenção da visitante: uma versão bilíngue, russo e francês, de  “Journal d'exil”, de Léon Trotsky. Nosso ex-morador, assassinado perto daqui, era conhecido por suas opiniões contrárias ao comunismo. Os de sua autoria encontram-se reunidos em alguns volumes de capa dura, todas de cor verde, menos ou mais desbotadas a depender do tempo de exposição à claridade. A observadora não se dá ao trabalho de contá-los, nem de ao menos folhear algum. De certo sabe que contêm ensaios, artigos publicados em jornais e alguns dos discursos do falecido jurista e tribuno. Há também romances, poemas e ensaios de variados autores, além de mais de uma edição da Bíblia, e também da Torá, do Corão e do Darmapada.

Arquivos. Armários. Gavetas. Canetas. Cartas, muitas cartas, diários, anotações, escrituras de imóveis. O testamento toma a atenção e alguns minutos da atenta visitante. Ambientes imensos para um solitário, poucos móveis, poucos quadros nas paredes, poucas e desbotadas fotografias - de um avô, duas avós, o filho, a mulher, ele próprio. Agora, todos mortos.

Armários com as roupas da mulher, armários com as roupas do filho, armários com suas roupas: ternos, calças finas, jeans, camisas sociais, muitos cintos, pretos, marrons, brancos. Camisas-polo, camisetas com e sem manga, cuecas, bermudas brancas. Gravatas. Sapatos sociais pretos e marrons, três pares de tênis brancos. Meias finas, pretas, azuis, marrons, brancas; meias de esporte. Quepes brancos. Três. Fotos de barco, uma delas com ele em um veleiro, solitário, de quepe, bermuda, tênis e meias brancos, camisa-polo branca, cinto de couro branco. Dois aparelhos de TV, um no quarto e outro no escritório, ambos de frente para poltronas reclináveis puídas pelo tempo e uso. No quarto, uma estante com filmes, principalmente documentários, sobre guerras, sobre a África, a Europa e o Egito antigo. Nos pisos, tapetes persas envelhecidos. A empregada vinha diariamente, mas já está velha, cansada e preguiçosa; não se esforçava mais como antigamente, quando a família inteira residia aqui, de frente para a Beira Mar, um quarteirão inteiro, área total de 400 metros quadrados, o outro lado de frente para a Bocaiúva. Quatro quartos, um escritório, dependências, três salas. Uma imensa varanda de frente para a baía.

Quem vê isso fotografa com a câmera de um telefone celular, principalmente os livros sobre estoicos e sua escola. A empregada apenas olha, sonolenta; limita-se a responder uma ou outra pergunta.

Não sei quem vai me pagar. Ele não tinha mais ninguém.
Teu nome está no testamento. Vais ficar muito bem de vida. Deves procurar um advogado, alguém de confiança. Talvez o doutor...

A velha empregada olha para a outra mulher com desconfiança.

Pouco antes de ir embora, a visitante mira quase que zombateiramente a quantidade e dimensão dos espelhos em quase todos os ambientes. Entra no lavabo e fecha a porta. Depois de urinar, mais uma vez fotografa o que lhe parece importante. Dessa vez, a capa de um exemplar de uma versão em inglês de “De brevitate vitae”, de Sêneca.

“On the Shortness of Life”. 

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