9.18.2016

EM TEMPO REAL - PAREDES TÊM OUVIDOS, OLHOS, BOCAS - UM

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Segredo é pra quatro paredes.
(“Segredo”, canção popular brasileira de Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947.)
O único segredo que as mulheres sabem guardar é aqueles que ignoram.
(Sêneca, Córdoba 4 a.C. - Roma, 65.)
Bonita cidade, quero menos velocidade.
(Frase de uma menina de oito anos.)

TESTEMUNHAS

Do Coliseu, Roma, Itália 
                                                                                                                                                                
A humanidade pensa que conta sua história. Engana-se. Sabemos tudo sobre cada pessoa: pensamentos, memória, descobertas e futilidade; silêncios, palavras, fúrias e baixezas; feitos, medos, desesperos e desilusões. Em um deserto, nas águas, na selva, somos a pedra, somos o chão. A humanidade nos escava, nos aterra, nos corta, nos explode, nos permeia, nos constrói e destrói, mas quem conta sua história somos nós. Aqui, no passado, imponentes, assistíamos a espetáculos sangrentos. Agora, em ruínas, nos visitam turistas e batedores de carteiras. Algumas de nós assumem outros nomes e formas, como nos veículos que as pessoas usam para se locomover. Nós, as paredes, contamos a história. Esta, em tempo real. 

Do apartamento de Flávia, Avenida Beira Mar Norte, Florianópolis, Brasil

A carioca de 30 anos dorme nua. Sempre dorme nua, mesmo no inverno. Sonha com uma figura de bata e capuz brancos, que pensa ser a morte. Sem palavras, pergunta à figura encapuzada com os olhos atrás de dois rasgos se é ela, Flávia, quem vai morrer. A cabeça de capuz faz que não. Flávia acorda e vai à sala. Nunca foi mística ou religiosa, nunca acreditou em premonições, mas está assustada com o sonho. Se dá conta de que a figura estava mais para um canalha da Klu Klux Klan que propriamente a morte, popularmente imaginada de preto, embora um e outra sejam afinal a mesma coisa. Da janela aberta da varanda olha para o mar, que reflete a luz da lua. Volta a passar pela momentânea confusão de quando caminha e corre na calçada junto à baía. Na direção norte, o mar fica à sua esquerda; na volta, na direção sul, à direita. Flávia  não tem carro e evita sempre que pode os aviões. Nas vezes em que viaja de ônibus para o Rio, com o litoral à sua direita, é como se recuperasse uma bússola que tivesse perdido. Ela mora na parte da cidade que fica na ilha, que tem o mesmo nome do Estado, de Santa Catarina. Agora o que chama sua atenção é um homem de cabelos negros encaracolados, vestindo uma jaqueta de couro preta. Ele atravessa a avenida na direção da baía como se os carros não existissem, ou como se os desafiasse. Um som de buzina, e o homem chega ao canteiro central da avenida e ali permanece, parado, de pé, olhando para o movimento de carros na direção das pontes, que dividem a baía em sul e norte. O sujeito faz um gesto que para ela sempre foi nojento e grosseiro, o de quem assoa o nariz sem lenço com o dedo indicador – ela notou, da mão esquerda - pressionando uma das narinas, a cabeça inclinada em diagonal. Um sedã de luxo para na pista junto ao canteiro, como se tivesse vindo buscar o indivíduo. Depois de alguns instantes, o homem de cabelos encaracolados entra no automóvel pela porta do motorista. O carro permanece parado com o pisca-alerta aceso, enquanto outros passam em disparada nos dois sentidos. Um ou outro motorista buzina, expressando indignação por causa do carro parado. O sujeito da jaqueta salta do carro, bate a porta, atravessa a pista em direção à baía e caminha pela calçada tendo o mar à sua direita. O sedã permanece parado, com o pisca-alerta ligado. Flávia percebe que já está amanhecendo e resolve tomar um banho. Depois volta à varanda e vê um carro de polícia e uma ambulância junto ao mesmo sedã. Uma fila de carros está formada, o trânsito parado nas duas vias. Há um tumulto de pessoas à volta do sedã e dos outros dois veículos. Um corpo é retirado do carro, posto sobre uma padiola no chão, é coberto com um lençol e levado sobre a maca para dentro da ambulância. Flávia se lembra do seu sonho, não sabe o que fazer. Ouve o interfone da cozinha tocar. Hesita, põe o rosto nas mãos, corre para o quarto, põe um travesseiro sobre a cabeça. O interfone cessa de tocar na cozinha e agora outro soa mais distante, o do vizinho do lado. Flávia corre para debaixo do chuveiro novamente. Com a água molhando seu corpo, canta uma canção de Billie Holiday.



Um comentário:

fmgonzaga disse...

Pronto, já viciei. Agora tenho que esperar a semana toda. Ou seja, gostei. Abç.