37 - O BAR NA PRAIA
Depois de ensimesmar-se para saber com quem se parecia a jornalista participante da inusitada – e subversiva - reunião a que assistira em filme; de finalmente descobrir longínquas mas sutis semelhanças entre ela e Flávia; de comentar com esta a respeito – sem, naturalmente, mencionar a reunião, inventando que a vira em uma reportagem de TV - e ouvir, embasbacado, da boca em permanente sincronismo com o olhar que com ela convive no mesmo belo rosto, “Eu tenho uma irmã jornalista, Maria Eduarda; aliás, ela está aqui, em Florianópolis”, Bernardo veio parar aqui. Ele, Flávia, Maria Eduarda e o poeta Rogério Bravo estão aqui, à beira mar: Rogério está de calção, Maria Eduarda de biquíni, Flávia, de calça de pescadora, sandália baixa e camiseta sem mangas, e Bernardo, de calça e camisa e sapatos e meias, neste lugar que se chamava antigamente de Recanto dos Milionários. (Estão aqui por sugestão de Flávia, após passarem coisa de meia hora no El Divino Beach, em Jurerê Internacional, onde a música e os corpos, esparramados uns, em movimento outros, impossibilitaram qualquer conversa entre eles – que diria sobre o assassinato do advogado.) Assim se dá a conversa entre eles:
Maria Eduarda, exaltada, visivelmente aborrecida; indignada:
- Senhor Bernardo, o senhor pode ser polícia federal e coisa e tal, o senhor pode ser tudo, tem poder para me prender, mas me tirar da praia que eu estava e me acompanhar até aqui para me fazer perguntas sobre uma “certa reunião em Brasília”... Ora, francamente!.
Bernardo (com um certo olhar de linguado na direção dos olhos e do corpo de Maria Eduarda):
- Maria Eduarda – se você me permite lhe chamar pelo seu nome -, eu sei que tudo isso é um incômodo, uma invasão de privacidade. Ocorre que sua irmã, Flávia, que não me deixará mentir, nos confessou ter assistido ao assassinato do advogado, bem aqui em Florianópolis, mais precisamente na Avenida Beira Mar, bem na frente do apartamento dela.
Maria Eduarda:
- Ela PENSA ter visto isso que o senhor diz que ela disse que viu. Minha irmã é extremamente criativa – se não, não teria aberto essa loucura de bares e livrarias aqui, nesta província de Florianópolis – quer ver? O senhor vê alguém lendo algum livro aqui em volta? Só querem saber de beber cerveja, de ir à praia, surfar... Ninguém lê, por aqui. Também não seria cantora, nem teria vivido em boa parte do mundo, geralmente em PÉSSIMAS companhias, uns... duros, uns... malucos...
Bernardo envolve com a mão esquerda o braço direito de Flávia, o que a faz estremecer e retirar bruscamente seu braço de dentro da mão do investigador federal, sob um olhar de acentuada ironia da irmã mais velha. Bernardo diz assim:
- Antes que sua irmã reaja, devo interrompê-la: estou aqui a trabalho, trabalho sério, uma investigação de abrangência nacional, política, muito séria e intrigante, que transcende em muito a simples morte por assassinato de um advogado. (Bernardo fala sempre em voz baixa, mostrando que não quer que a conversa seja ouvida por mais ninguém, a não ser pelos presentes em torno da mesa 1.)
Bernardo continua:
- Eu já me desculpei pela intromissão, pela perturbação de seu fim de semana, etc. Ocorre que a vi, vi a senhora, Dona Maria Eduarda, participando de uma reunião em uma sala fechada, na qual estava presente o advogado assassinado e, muito mais que isso, como se isso por si só não bastasse, ali se tramou um golpe, ali se conversou a respeito de soluções nada ortodoxas para graves problemas nacionais, desde as drogas, passando pela miséria, a criminalidade, etc.
Maria Eduarda interrompe Bernardo com uma exclamação - mais que irônica – debochada, jogando os cabelos junto com a cabeça para trás, e uma risada entre o natural e o forçado, para dizer:
- Já sei do que o senhor está falando. Uns malucos! Uns tolos, uns idiotas, todos eles. Me chamaram porque eu me especializei em Economia, porque conheço economistas do mundo inteiro, como conheço modistas, conheço o mundo da moda, de desfiles, e por isso conheço ricos, muitos e muito ricos. E conheço poetas, também (Rogério Bravo, mudo e espantado, agradece a menção a si com um movimento da cabeça, entre o modesto e o amedrontado). - Por isso –Maria Eduarda continua – eu estava ali. Eu fiz parte daquela bobagem, dessa reunião que o senhor afirma ter visto em filme – e eu acredito, porque os “gênios” queriam documentar todas as etapas do golpe que planejavam. Mas jamais voltei a me encontrar com aqueles doidos, aquele ex-ministro da Justiça, a excrescência de se por à frente do Ministério da Justiça um engenheiro, ora, francamente...
Bernardo percebe que conseguiu o que queria: fazer Maria Eduarda falar. É o que ela continua a fazer:
- Se embarafustaram depois para o norte, Pará, Maranhão, sei lá. O advogado deixou todos na mão – e se o senhor quiser saber como foi que ele morreu, estude a vida e a morte de Zenon de Cítio.
- Zenon? – pergunta Bernardo.
- De Cítio – diz Rogério Bravo, abrindo a boca pela primeira vez, desde o El Divino Beach.
- Papai falava muito dele – diz Flávia, com o rosto lívido, enquanto Rogério Bravo bebe de um gole só quase toda a cerveja da tulipa, que segura trêmulo, com seus dedos magros.
- Zenon de Cítio foi um filósofo grego, que fundou o estoicismo; a escola dos estóicos.
- Estóicos – Bernardo repete, sem nenhum sentido. Maria Eduarda explica:
- Isso mesmo: estóicos. “O governo da razão, a destruição e o renascimento cíclico do universo, a plena aceitação da vida e da morte”, blá-blá-blá. O senhor nunca ouviu falar disso, senhor investigador federal? Meu pai era um estóico por convicção. E um chato! De galochas! Não me faz essa cara não, Flávia, papai era ou não era um chato? Hein?
Maria Eduarda faz uma pausa. O desconforto meio que se dissemina pelas mesas vizinhas, mas as palavras, não: estão sob o rígido controle do olhar e dos ouvidos de Bernardo. Maria Eduarda continua, de enxurrada:
- O advogado? Outro, da mesma escola. Zenon deve ter nascido uns trezentos anos antes de Cristo, e até hoje tem gente que segue sua doutrina, como se fosse uma religião. Não é só Jesus Cristo que conseguiu esse tipo de fenômeno, como não é só Maomé, ou Moisés, blá-blá-blá. Estóicos. Quer saber do que morreu o advogado? Estude a vida e a morte de Zenon de Cítio - nascido no Chipre e morto em Atenas.
- Como foi que Zenon morreu? Quem matou Zenon? – quer saber Bernardo.
- Zenon morreu de suicídio – é Rogério Bravo quem responde.
- O advogado foi assassinado – simplesmente faz constar e constatar Bernardo.
- Aposto que ele mesmo encomendou sua própria morte. Aquele advogado, além de estóico, sofria de TOC e de bipolaridade. Eu sei disso tudo porque, durante o tempo em que me interessei por aquela trama boboca, exercitei um pouco do meu jornalismo investigativo, do comecinho da minha carreira. O TOC – transtorno obsessivo-compulsivo – provocava nele o perfeccionismo dos seus atos, a persistência doentia com a higiene, a disciplina, ultrapassando até o que o mais estóico dos estóicos pudesse exigir de si mesmo em matéria de disciplina. E a bipolaridade o levava da euforia à depressão de um momento para o outro. Eu conheci de perto aquele sujeito, ele deve ter planejado sua própria morte em um momento de euforia; e deve ter morrido deprimido.
Flávia está balançando a cabeça, em visível indignação. Acusa a irmã mais velha:
- Você nunca me disse nada disso, e eu contei pra você que vi esse sujeito ser assassinado da minha janela!...
- E desde quando você para em algum lugar pra que eu possa contar alguma coisa pra você? Mesmo quando você parou de viajar, de trocar de cidade, quando é que você está na Terra? Sempre sonhando, desligada, pensando em si mesma o tempo todo, aérea...
Flávia levanta-se e vai ao banheiro, os olhos cheios de lágrimas. Rogério Bravo também se retira – e vai mergulhar no mar. Depois de alguns momentos, Bernardo, só, com Maria Eduarda, na mesa 1, pergunta:
- Devo prendê-la, Dona Maria Eduarda?
- Se o quiser, que me prenda; mas não matei ninguém. E posso ajudar o senhor a desvendar esse crime, muito embora eu não faça a menor idéia de quem tenha sido – e seja - o assassino. (Faz uma pausa, olhando para longe, sem se saber para onde.) Mas eu conheço aquela gente toda. Posso ajudar muito mais de fora da cadeia do que de dentro; e o senhor teria que explicar PRO MUNDO porque foi que me prendeu.
Bernardo fica em silêncio. Já sabe do pior: quando olhava os olhos e a boca de Flávia e se deixava levar por uma platônica e absurda paixão por ela, eram os olhos e a boca de sua então desconhecida, irmã mais velha de Flávia, Maria Eduarda, que via. Bernardo está nas mãos da jornalista. Bernardo se apaixonou por essa branca.