O DIÁRIO DE UM MARIO

1.27.2007

PAREDES QUE FALAM - CAPÍTULO 36

36 – O QUE FOI VISTO NO APARTAMENTO DA DRA. TELMA

Não foi só um documento, como não foi só um punhado deles. O que foi visto naquela noite na tela grande da TV de plasma da Dra. Telma foi principalmente um filme, composto de duas partes. A primeira exibiu uma reunião, de homens e mulheres em torno de uma grande mesa retangular. A segunda, uma série de tomadas em regiões rurais do centro-oeste e do norte do Brasil.

Enquanto Nildo tentava vencer, muito mais que a bebedeira, a culpa de ter se sentido livre e à vontade para exercer sua desmedida vaidade, exibindo-se para a esposa e Flávia e Rita de uma vez só como suposto grande garanhão, senhor de haréns, como se imaginou, na dúvida se o traje certo seria uma vestimenta árabe ou indiana para o tipo que queria ter incorporado entre um uísque e outro, todos ficaram pasmos com o que viram.

Aliás, Nildo também ficou pasmo. A reunião gravada mostrava claramente três deputados estaduais – respectivamente do Pará, do Amapá e do Maranhão; um senador da República, pelo Rio Grande do Sul; o advogado catarinense, único de paletó e gravata; um desconhecido, de pé, que viria a ser mais tarde identificado como o presidente da Câmara de Lojistas de Blumenau; o presidente da ONG Quilombos Venceremos; uma jornalista, de nome Maria Eduarda; uma freira; de pé como o lojista, dois líderes sindicais - um ruralista, do Acre, e outro, da indústria farmacêutica; o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Civil; e o Ministro da Justiça.

A gravação mostrou uma discussão desordenada, frequentemente interrompida por batidas de punho na mesa por parte do Ministro e às vezes do advogado, além de momentos de pesado silêncio. Os presentes na sala da Dra. Telma se detiveram muito especialmente no seguinte trecho da conversa:

O ADVOGADO:
O que vocês chamam mesmo de neo-guerrilha, hein?

A FREIRA:
Não apoiaremos nenhuma ação armada.

O RURALISTA:
Sem armas não chegaremos a lugar nenhum.

O CONSTRUTOR:
O que precisamos é tomar as rédeas, nada de armas. Com o poder da construção civil, podemos por a peonada a construir bunkers, prisões privadas, mostrar que a sociedade não depende mais da velha política. Vocês, políticos aqui presentes, têm um papel fundamental nessa história toda. Vocês vão nos ajudar a demonstrar que política não se faz com troca de favores, corrupção e pusilanimidade; vocês e nós vamos demonstrar que somos capazes de fazer política séria e transformadora.

MARIA EDUARDA (causando visível desconforto):
Vocês não estão sendo muito românticos, não?

O DEPUTADO PARAENSE:
O que queremos é acabar com as drogas, dona. Queremos acabar com as drogas, a criminalidade e a pobreza.

O SENADOR GAÚCHO:
Tudo começa com essa história de favela. No Brasil, a começar pelo Rio de Janeiro, historicamente foi tido como natural que pobres e miseráveis se dependurassem nos morros cariocas, nos seus casebres.

O FARMACÊUTICO:
Em São Paulo e outras cidades há as periferias, não muda grande coisa.

O SENADOR GAÚCHO:
Isso mesmo – só da vertical para a horizontal. Continuando meu um tanto óbvio raciocínio, fato é que os ricos sempre despacharam os pobres para lugares de vida desumana e indigna; e são os ricos que compram drogas.

O CONSTRUTOR:
Os ricos e a classe média.

O SENADOR GAÚCHO:
A classe média imita os ricos. Portanto o que resta aos pobres, como sempre e em qualquer tempo da história, o que resta aos pobres é servir aos ricos. Ora, se é droga que os ricos querem, é droga que eles vão vender. Ocorre que drogas precisam de ser importadas – e quem é capaz de operações de importação e exportação? Os ricos.

O RURALISTA:
Os pobres nunca tiveram culpa de nada e são eles que são presos e são uns idiotas que querem enricar de repente que viram verdadeiras lendas.

A FREIRA:
Verdadeiros monstros.

O RURALISTA:
Temos que pegar em armas, sem armas não vamos é conseguir nada.

O MINISTRO (depois de um curto silêncio):
Do que precisamos é de um arcabouço de leis. É disso que precisamos – antes de qualquer outra coisa. O ilustre doutor advogado é que nos dará a perspectiva de iniciarmos nosso movimento.

Neste momento é um longo silêncio que se forma, durante o qual todos olham para o advogado, que viria a ser assassinado na Avenida Beira Mar Norte, em Florianópolis, às vistas de Flávia, como por ela narrado a Nildo, na tarde daquele dia.

Diante do silêncio interminável do advogado, o ruralista acaba por tomar novamente a palavra, na reunião gravada e exibida no telão da Dra. Telma:

- Queria pedir ao meu amigo farmacêutico que nos mostrasse as filmagens muito bem produzidas por ele, aqui perto, no cerrado, e nos estados aqui representados pelos nossos deputados da região do norte do Brasil. E há também uma tomada muito interessante num quilombo do interior de Goiás, mais precisamente em Cavalcante, realizada com a prestimosa ajuda do nosso líder negro, o Senhor K.

1.16.2007

MICO

A partir dos 12 anos, atenção: é proibido pagar mico. Por exemplo, andar de mãos dadas com o pai e a mãe. Aqueles beijos e abraços apertados, só em casa. E olhe lá – porque o vizinho pode estar olhando e, se ele tiver 13 anos...

Do lado de cá, de quem carregava o filho ou a filha pela mão – depois de muito tempo no colo -, não se deixe emocionar em comédia romântica na companhia dela. Na dele, sequer proponha uma. Desandar de dar risada e gargalhada em desenho animado, esteja certo: vão chamar a ambulância.

Tio. Esse é o seu nome – a não ser que seu sexo seja o feminino; nesse caso, oi, Tia, muito prazer.

Prazer inclusive de ver sua sala abarrotada deles e delas, sentados no chão, encostados na parede, chão e parede recheados de bolo para todo o sempre. Antes fosse: esse paraíso acabará e você vai se tornar o maior religioso de todos os tempos. Seu colar – você usará um – trará um crucifixo entre a estrela de David e uma figa, assim que o passeio de quem você trocou as fraldas passar a ser com João ou Maria. Maria tem carteira de motorista; João rouba o carro do pai. Há os gêmeos, também: Rafael e Gabriel, cada qual com sua moto. Lucas não tem dinheiro, mas bicicleta, sim. Primeiro, ele tirou a camisa enquanto pedalava e a danada cismou de enrolar na roda dianteira e ele foi de cara no chão; depois, Matheus, que tem menos dinheiro ainda e casa não tem, mas revolver, sim, levou a bicicleta de Lucas – agora, com uma bicicleta e 3 dentes a menos. Onde anda Salomão?

Melhor parar o relógio e perguntar, sem ofender: quem inventou o mico terá sido alguém com inveja de quem anda de mãos dadas com a filha ou o filho?

Pode até ter sido. Mas isso não lhe dava o direito de ter gritado LINDÃOOOOOOO quando ele fez aquele gol de placa. Menos ainda de ter socado o juiz porque o gol de placa foi com a mão e, consequentemente, anulado. Está ouvindo, agora? A sirene é a mesma da ambulância; mudou foi a cor do carro.

Mico.

1.13.2007

PAREDES QUE FALAM - CAPÍTULO 35

35 – A LIVRARIA

Flávia e a arquiteta vão percorrendo nossos corredores entre as prateleiras. Teve a idéia de convidá-la para uma renovação do leiaute porque sua natureza á assim: inovar sempre ou, no mínimo, renovar. O que é muito útil para nosso negócio.

Flávia odeia a expressão “auto-ajuda”, mais até que tudo o que ela representa: um imenso contingente procurando ajudar cada qual a si próprio - a ficar rico, a ser um líder e não um chefe - e um líder não respeitado: adorado -, melhor mãe, melhor pai, melhor filho, a fazer amigos, a fazer amigos para ficar rico, a planejar sonhos, a pensar na vida profundamente e em detalhe, a não pensar. A lista é interminável. Recusava-se, quando ainda discutia com as sócias o nosso projeto, a incluir a categoria entre nossos livros. Queria clássicos e contemporâneos; romances, contos, poesia; brasileiros, portugueses, latino-americanos, norte-americanos, europeus, asiáticos, africanos; técnicos, científicos e de ficção. Auto-ajuda?

- Vende muito – foi Cláudia quem disse e assim ficou. Sem ligação com o resto – o que, às vezes, é um consolo para ela, Flávia, que, plácida mas enérgica, vai com seu dedo indicador branco e fino em demasia tocando a ponta do próprio nariz e apontando livros, temas, prateleiras, enquanto a arquiteta sugere rearranjos, cujas orquestração e temática de cores despertem uma curiosidade adormecida na memória de cada visitante e esta, por sua vez, sintonize o cérebro que a contiver a ter despertada uma outra e mais importante: pelos temas, títulos e autores expostos.

Rita aproxima-se; quer sugerir “regionais” dentre as categorias dos brasileiros, mais pela influência do pai. Depois de visível dificuldade, consegue vencer o respeito que sente por Flávia – que frequentemente confunde com medo – e ficou, de modo geral, mais medrosa, depois do estupro – e propõe sua subcategoria. Que é aceita; e Rita sai feliz, como uma menininha, a fazer dançar nos dedos suas tranças mestiças.

Dentro de “científicos”, psicanálise. Como e por quais categorias poderiam ser dispersos os “auto-ajuda”? Seria esta uma boa estratégia?

Flávia estanca, sem que a arquiteta perceba: esta segue em frente, falando sozinha. Flávia abre “CHE”, de Paul J. Dosal, que narra as estratégias militares de Ernesto Che Guevara, na edição traduzida por Marcos Maffei, editora GLOBO. Em Cuba, no Congo e na Bolívia. Lê a epígrafe, extraída de Che Guevara, “MENSAGEM À TRICONTINENTAL”, 1967:

“Temos de levar a guerra até onde o inimigo a leve: a sua casa, aos seus lugares de diversão ... fazê-lo se sentir como fera acossada em cada lugar que transite.”

Em poucas palavras, a melhor definição para a guerra de guerrilha. Flávia não sabe, mas em um apartamento não muito distante daqui, ontem à noite, alguns poucos aprenderam um novo conceito.

Neo-guerrilha.

1.11.2007

O MAIS FORTE

Escondia-se. Exibia-se. Aparecia porque grande era sua cabeleira. Claro, era ela que lhe mantinha protegido; escondido. Veio um corte de cabelo indesejado e o que ele gostava de esconder ficou à mostra; aquilo que exibia fora embora. Veio uma mudança. Era da casa antiga o seu aconchego. Foi ficando triste. Vieram umas férias, uma viagem – ele gostou. Foi quando o mais forte sentiu-se incomodado e partiu pra cima dele e ele quase morreu. Poderia ter acontecido com qualquer um: o mais forte se incomoda e o mais fraco é que se muda – ou morre. Hoje ele anda jururu, mascando seus bigodes, impedido de coçar a mandíbula, temporariamente reforçada por uma prótese, por um anteparo. Espécie de noviço rebelde, assim ficou o poodle depois de atacado pelo pit-bull. Este, por sua vez, ninguém sabe como ficou. Apenas se sabe que continua sendo o mais forte.

1.09.2007

VIVAS E MANIFESTOS

A visita de um poeta é sempre bem vinda. O poeta Aldo Votto ainda nos visita; mais: manifesta-se - a nós. E a nós ultramarinos. Vivas a ele, que, como bom poeta, nos mantêm vivos, interessados, ativos. Em resposta nos manifestamos nós (plural e, portanto, covardemente):

Fui ator não vou ao teatro.
Escrevo poemas não leio poetas.
Que pretensão será esta
Egoísmo será este
Fazer e não querer saber
Do que fazem os outros – os de verdade?
Leio Equador
De autor português contemporâneo
A narrar fios e meadas de dom Carlos
Rei
Que viria a ser morto por revoltosos
Idos de 1905-8
São Tomé e Príncipe
Ilhas
Colônias portuguesas
Equatoriais.

Descubro-me navegador
Ansioso por aventura
Engenharia e poesia incapazes dela.
Novas e naufragadas Friburgos
Encharcados Rios geralmente praianos
Metralhados e incendiados inocentes
Respondei:
Há lugar
Longe do naufrágio
A salvo do incêndio
Perto da aventura?
Haverá lugar a inda
Para sonhadores
Que sonham tão somente transformar? Sem o saber?
Sigamos.
Vendas nos olhos
Vendavais nos ouvidos
Chuvas torrenciais
Sóis cegadores
Preconceitos e medos e seus desastrosos consertos
Sigamos.
A fazer e pouco ler poesia.
Mais a representar que assistir a intérpretes.
A nos alimentar de manifestos
Mais que nos manifestar.
Vivas a eles manifestos.
Vivamos.

1.05.2007

PAREDES QUE FALAM - CAPÍTULO 34

34 – SATCHMO E O APARTAMENTO DA DOUTORA TELMA

Flávia propôs que voltassem aqui. O clima acabou ficando insuportável em seu apartamento. Nildo pediu que Sue Zana retornasse para casa; ela, desconfiada, foi assim mesmo. Para casa. Nildo quer saber detalhes do estupro de Rita. Ela e ele, aos goles de uísque, vão conversando; ela, enojando-se da lembrança do infame acontecimento; ele, incorporando alguém até por ele mesmo desconhecido: capaz de ouvir uma história e sofrer por ela. Emocionar-se, mas sem o demonstrar. Ter raiva e contê-la; remorsos, e não os revelar. Nildo sente-se imenso; e inútil. Quando Renata se junta a eles, Rita fica um pouco e se afasta. Nildo quer saber como e por que Renata afirmou ter visto o assassino do advogado. Renata vai ao encontro de Flávia, que se prepara para cantar, acompanhada pelo quarteto de Angus, e lhe pede perdão e ajuda. Flávia interrompe a maquiagem e vem à mesa onde Nildo se encontra, agora, só. E Flávia diz a ele:

- Sem querer e sem entender o que se passava, assisti à cena da janela do meu apartamento. Tive medo e não disse nada, a não ser às pessoas mais chegadas, minhas confidentes. O gesto dele de assuar ou alisar o nariz e sua postura arrogante é que marcaram minha lembrança, e Renata meio que se encantou pela figura que eu descrevi e passou a idealizar essa figura.

Nildo permanece em silêncio, encantado com sua capacidade de permanecer sóbrio, dose após dose do Balantines 12 anos. Flávia pede licença e dirige-se ao camarim. Retorna em instantes, pronta pra cantar. E canta. O celular de Nildo vibra em seu bolso. No visor, ele vê que quem o chama é Bernardo. Vai até a varanda do nosso complexo e ouve o que Bernardo lhe diz, entre atordoado e aborrecido pela interrupção.

- Acabo de marcar uma reunião na casa da Doutora Telma. É urgente.

- Agora? – Nildo quer saber.

- Já.

Bernardo desliga e deixa Nildo furioso. “Nego metido à besta”. Agora, amedrontado, reconsidera: “Bebi demais”. Volta ao bar. Quer pagar a conta; Renata diz que não: foi cortesia da casa. Nildo vai ao banheiro, esvazia a bexiga, lava o rosto com água em abundância. Volta ao bar e pede:

- Preciso de um balde de café.

Aqui, na sala da doutora Telma, estão a dona da casa, Bernardo e Fábio. Nildo chega e toma acento, controlando a respiração e mascando um chiclete. Bernardo, andando no meio da sala, informa aos demais:

- Alguém planeja uma ação armada. Um grupo. Chamam a ação de neo-guerrilha. Contra o crime e contra governo – pela sua inépcia em combatê-lo. Contra a pobreza e a miséria. Etc., etc.. O que temos em mãos é uma bomba. Não posso preparar cópias. Mas Doutora Telma nos vai permitir uma leitura simultânea, na tela da sua TV, plugada ao seu computador.

Nildo pede um minuto, licença, e vai ao banheiro. Põe o dedo na garganta, expulsando de vez o personagem que supostamente havia incorporado, embalado pelos uísques que ingeriu. Lava o rosto compulsiva e repetidamente outra vez. Passa a pasta de dentes da Doutora Telma nos dentes e nas gengivas. Bochecha com o higienizador bucal, cheio de Flúor. Bebe um pouco do higienizador, tem uma súbita dor de barriga. Vai ao vaso e alivia-se. Dá a descarga. Lava as mãos e o rosto, outra vez. Benze-se. E volta à sala.

IRREGULAR

Eis aqui um lugar
Freqüentado por poucos
Todos de idoneidade assegurada
Ainda que freqüentadores
Deste lugar
Que,
De tão pouco freqüentado,
Mal dá o que falar.
Serve este espaço
Muito mais para organizar
Aquilo que não pode:
A obra errática, anti-sistemática
De seu ocupante-anfitrião.
Que não se exija dele portanto nada
Que não a mais completa irregularidade.
Tudo que sai na capa só foi verdade por indeterminado tempo:
Hoje é dia de crônica
Amanhã ou quem sabe quando,
Um capítulo.
Que dia é hoje?
Por aqui, não se sabe.
Se, ainda assim, você, de idoneidade assegurada ou não,
Quiser visitar este lugar,
Será um prazer.
Deixe sua queixa, por favor:
Será sempre bem-vinda.
Queixe-se do assunto e da sua falta; da forma; do des-conteúdo.
Mas venha sempre – até que uma multidão nos separe,
Uma frente fria,
Um crime hediondo,
Uma roubalheira infame
Nos separe.
Ou nos una.
Irregularmente.
Como deve ser.