PAREDES QUE FALAM - CAPÍTULO 36
36 – O QUE FOI VISTO NO APARTAMENTO DA DRA. TELMA
Não foi só um documento, como não foi só um punhado deles. O que foi visto naquela noite na tela grande da TV de plasma da Dra. Telma foi principalmente um filme, composto de duas partes. A primeira exibiu uma reunião, de homens e mulheres em torno de uma grande mesa retangular. A segunda, uma série de tomadas em regiões rurais do centro-oeste e do norte do Brasil.
Enquanto Nildo tentava vencer, muito mais que a bebedeira, a culpa de ter se sentido livre e à vontade para exercer sua desmedida vaidade, exibindo-se para a esposa e Flávia e Rita de uma vez só como suposto grande garanhão, senhor de haréns, como se imaginou, na dúvida se o traje certo seria uma vestimenta árabe ou indiana para o tipo que queria ter incorporado entre um uísque e outro, todos ficaram pasmos com o que viram.
Aliás, Nildo também ficou pasmo. A reunião gravada mostrava claramente três deputados estaduais – respectivamente do Pará, do Amapá e do Maranhão; um senador da República, pelo Rio Grande do Sul; o advogado catarinense, único de paletó e gravata; um desconhecido, de pé, que viria a ser mais tarde identificado como o presidente da Câmara de Lojistas de Blumenau; o presidente da ONG Quilombos Venceremos; uma jornalista, de nome Maria Eduarda; uma freira; de pé como o lojista, dois líderes sindicais - um ruralista, do Acre, e outro, da indústria farmacêutica; o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Civil; e o Ministro da Justiça.
A gravação mostrou uma discussão desordenada, frequentemente interrompida por batidas de punho na mesa por parte do Ministro e às vezes do advogado, além de momentos de pesado silêncio. Os presentes na sala da Dra. Telma se detiveram muito especialmente no seguinte trecho da conversa:
O ADVOGADO:
O que vocês chamam mesmo de neo-guerrilha, hein?
A FREIRA:
Não apoiaremos nenhuma ação armada.
O RURALISTA:
Sem armas não chegaremos a lugar nenhum.
O CONSTRUTOR:
O que precisamos é tomar as rédeas, nada de armas. Com o poder da construção civil, podemos por a peonada a construir bunkers, prisões privadas, mostrar que a sociedade não depende mais da velha política. Vocês, políticos aqui presentes, têm um papel fundamental nessa história toda. Vocês vão nos ajudar a demonstrar que política não se faz com troca de favores, corrupção e pusilanimidade; vocês e nós vamos demonstrar que somos capazes de fazer política séria e transformadora.
MARIA EDUARDA (causando visível desconforto):
Vocês não estão sendo muito românticos, não?
O DEPUTADO PARAENSE:
O que queremos é acabar com as drogas, dona. Queremos acabar com as drogas, a criminalidade e a pobreza.
O SENADOR GAÚCHO:
Tudo começa com essa história de favela. No Brasil, a começar pelo Rio de Janeiro, historicamente foi tido como natural que pobres e miseráveis se dependurassem nos morros cariocas, nos seus casebres.
O FARMACÊUTICO:
Em São Paulo e outras cidades há as periferias, não muda grande coisa.
O SENADOR GAÚCHO:
Isso mesmo – só da vertical para a horizontal. Continuando meu um tanto óbvio raciocínio, fato é que os ricos sempre despacharam os pobres para lugares de vida desumana e indigna; e são os ricos que compram drogas.
O CONSTRUTOR:
Os ricos e a classe média.
O SENADOR GAÚCHO:
A classe média imita os ricos. Portanto o que resta aos pobres, como sempre e em qualquer tempo da história, o que resta aos pobres é servir aos ricos. Ora, se é droga que os ricos querem, é droga que eles vão vender. Ocorre que drogas precisam de ser importadas – e quem é capaz de operações de importação e exportação? Os ricos.
O RURALISTA:
Os pobres nunca tiveram culpa de nada e são eles que são presos e são uns idiotas que querem enricar de repente que viram verdadeiras lendas.
A FREIRA:
Verdadeiros monstros.
O RURALISTA:
Temos que pegar em armas, sem armas não vamos é conseguir nada.
O MINISTRO (depois de um curto silêncio):
Do que precisamos é de um arcabouço de leis. É disso que precisamos – antes de qualquer outra coisa. O ilustre doutor advogado é que nos dará a perspectiva de iniciarmos nosso movimento.
Neste momento é um longo silêncio que se forma, durante o qual todos olham para o advogado, que viria a ser assassinado na Avenida Beira Mar Norte, em Florianópolis, às vistas de Flávia, como por ela narrado a Nildo, na tarde daquele dia.
Diante do silêncio interminável do advogado, o ruralista acaba por tomar novamente a palavra, na reunião gravada e exibida no telão da Dra. Telma:
- Queria pedir ao meu amigo farmacêutico que nos mostrasse as filmagens muito bem produzidas por ele, aqui perto, no cerrado, e nos estados aqui representados pelos nossos deputados da região do norte do Brasil. E há também uma tomada muito interessante num quilombo do interior de Goiás, mais precisamente em Cavalcante, realizada com a prestimosa ajuda do nosso líder negro, o Senhor K.

