O DIÁRIO DE UM MARIO

9.30.2006

PAREDES QUE FALAM ; NOVELA DE MARIO BENEVIDES

23 - DIRETORIA ESTADUAL DE INVESTIGAÇÕES; E A NOITE E DIA

Depois que passou a investigar o assassinato do advogado, Nildo foi transferido para cá. Nossa rotina mudou. Depoimentos desta natureza não costumavam acontecer aqui, na DEIC - DIRETORIA ESTADUAL DE INVESTIGAÇÕES CRIMINAIS DA POLÍCIA CIVIL DE SANTA CATARINA. Mas, dado à importância do caso e ao renascimento das manchetes a seu respeito, de uma hora para outra, começaram a surgir auto-proclamadas testemunhas; e é aqui que elas estão vindo dar seus depoimentos ao próprio Nildo – que saiu na foto da manchete da primeira página do “Diário” de ontem:

“ASSASSINATO DO ADVOGADO ENVOLVE POLÍCIAS CIVIL E FEDERAL”

Ao lado de Nildo, na foto, como explicava sua legenda de rodapé, estavam a Superintendente Regional do Departamento de Polícia Federal, Telma Bahauchën, e sua sobrinha Sílvia, de mesmo sobrenome.

Uma senhora que mora em São Paulo conta a Nildo que, na data do crime, estava hospedada em um dos hotéis que dão de frente para as pontes, e que voltava, naquela madrugada, de uma festa da High Life Society & Communities. Ela explica que a “High Life” é uma instituição sem fins lucrativos em prol de ações positivas, esclarecedoras e educativas contra a marginalização do lucro. Depõe a senhora que a referida festa foi na casa de uma das sócias da HLS&C, em Jurerê Internacional; e que, quando voltava para o hotel, viu o carro da vítima parado na Avenida Beira Mar e, poucos metros adiante, na calçada, viu um sujeito vestindo jogging de moletom cinza, cabeludo, e que ele estava assoando o nariz em um lenço de seda vermelha. A senhora conclui dizendo que só permanecerá na cidade até amanhã; que aqui retornou para mais uma “reuniãozinha” da High Life; mas que, se Nildo quiser ou precisar, poderá ficar até quando ele recomendar. Nildo anota o número do celular da senhora e diz que não há necessidade de que ela retarde seu retorno para São Paulo. Ela então responde, Tudo bem, mas estou à disposição, viu?, e sai, dando uns retoques no cabelo. Nildo anota em um papel um número bem diferente do celular que lhe foi dado a anotar: 662.157.080-00.

Um corredor notívago-madrugador garante que, na noite do crime, passou por um careca magro, vestido de preto, olhando para trás na direção de um carro parado na avenida, com um dos dedos no nariz.

Um porteiro começa contando que, naquela madrugada inesquecível – segundo ele -, se aborrecera profundamente com um indivíduo que passeava com um pit-bull com focinheira pela calçada dos prédios da Beira Mar e que deixou que o cão sujasse a calçada bem na frente do seu prédio - ainda que, segundo o mesmo porteiro, o portador do cachorro tivesse retirado com um lenço de papel o dejeto do animal para livrar-se dele em seguida em uma lixeira plástica presa num poste - e afirma que, do outro lado, avistou um sujeito calçando botas – o porteiro diz que se abaixou para apontar para o cocô do pit-bull –, jogando os cabelos para trás – o porteiro explica que se levantou em seguida, porque o dono do cão se abaixara também e olhara nos olhos dele de cara feia – e alisando o nariz com dedos muito finos, longos e brancos.

Uma morena com cara de braba trouxe o jornal com a foto de Nildo, Doutora Telma e Sílvia, e garante que era ela, Sílvia, “esta galega nariguda”, que estava vestindo uma jaqueta preta, de couro, na madrugada do crime, naquela boate que fica nas proximidades das pontes. A moça ia dizer o nome da boate, mas Nildo a interrompe e afirma: - É aquela que todo mundo chama de “um e noventa e nove”. Nildo anota o número do celular da morena, seu nome e um outro número: 362.199.030-00.

Enquanto isso, um ex-colega de DP de Nildo, o detetive Adalberto “pastor” - como passou a ser conhecido depois de ter sido nomeado pastor da igreja evangélica Vinde a mim as criancinhas – está aqui, na Noite e Dia, Livro e Fantasia. Com um dos cotovelos sobre o balcão, o investigador Adalberto exibe para Renata a etiqueta da loja que achou ao lado do cadáver do idoso encontrado com as calças arriadas nas proximidades da Praça XV. De Renata, Adalberto ouve que o complexo bares-livraria é muito freqüentado, e que possivelmente um cliente da loja deixou cair a etiqueta sem querer, no tal beco mencionado pelo policial. Adalberto lhe mostra três fotos: uma a cores, envelhecida, com a imagem de uma mulher muito bonita e sorridente, portando nos braços um bebê; uma outra em branco e preto, com o rosto de um rapaz de uns dezoito anos, os cabelos, curtos, o nariz, adunco, e as orelhas, de abano; e uma outra três por quatro, com a face do sujeito encontrado morto com as calças arriadas, aparentando, na foto, uns sessenta e alguns anos. Renata afirma que nunca viu nenhum dos três por aqui, como de resto, em nenhuma outra parte. Adalberto vai embora, não sem antes deixar um cartão seu com Renata.

Depois que o policial civil se retira, Renata pede que uma das empregadas assuma o posto da gerência e vai ao encontro de Flávia no camarim do Satchmo e Pixinguinha. Flávia, hoje, cantará, por sugestão de Rita, canções de Adriana Calcanhoto e Arnaldo Antunes. Incluiu, no repertório ensaiado com o quarteto de Angus, por sua conta, canções de Tom e Vinicius. Das gravadas por Billie Holiday, só uma – ela garantiu para Rita. Uma do repertório da Maysa, também. E só. Flávia bebe um pouco de água e, depois, muito pouco de vinho do Porto. Engasga-se, quando a sócia e amiga diz a ela: - Não é nada bom para nós que passemos a ser visitadas por policiais. Rita, que mexia com suas tranças frente ao espelho e ao lado de Flávia, olha através do seu reflexo para ela, que, depois de tossir um pouco, responde a Renata: - Só estão dizendo bobagem nos jornais e eu me recuso a comparecer na delegacia. Renata murmura, Fala baixo, amiga, e explica, Dessa vez o assunto era outro, o do velho encontrado morto de calças arriadas perto da Praça XV, entendesse?, ao lado do desgraçado estava uma etiqueta das nossas, aquela pequeninha, sabes qual que estou falando? Renata estranha que Rita levante-se depressa e saia correndo do camarim. Flávia desconversa, Pena que a Cláudia não veio, disse que está menstruada, e dirige-se ao palco. Altiva - ainda que transpire um pouco além do que lhe exige o medo de cantar em público.

9.26.2006

POR FAVOR, DISCORDE

De tanta auto-ajuda, finalmente a humanidade vai se tornar o conjunto de seres que se ajudam.

Sociedade fraterna é aquela fundada por Caim e Abel.

Amor conjugal: quem saberá conjugar esse verbo?

Amor filial é aquele que se expressa pela transferência de lucros para a matriz.

Dois pares de tapas nas costas: dois amigos se encontrando depois de longo tempo. Quando fazem ruído: dois políticos que passaram a tarde juntos.

Jantar à Americana é buffet. Sair à Francesa é deixar o jantar à Americana sem que ninguém perceba.

Os Estados Unidos, depois de acabarem com o Segundo Mundo, claramente mostram que estão descambando para o Terceiro. Tanto assim que eu vi um filme americano onde a atriz aparece sem sutiã e fazendo sexo. Ao mesmo tempo.

Filme francês de suspense agora é thriller. Globalização.

Estamos na reta final das eleições. Há eleitores de rádio de pilha no ombro e há outros de paletó e gravata e outros ainda de smoking. No universo feminino, enquanto umas ficaram em casa de pano na cabeça, outras se fizeram presentes; no lugar de panos, chapelões. Os candidatos usam tapa-olhos.

No ano em que o Brasil perdeu, inteligente mesmo é propor ao eleitor que tenha a mesma empolgação que teve na Copa. Mas, faz sentido: fazer o que na cozinha?

O avanço tecnológico vertiginoso que se configura no mundo de hoje é a introdução preferida de artigos que retratam algo que já se passou. Especialmente nos anais.

Anais: palavra sem singular.

Fazer frases não é monopólio de ninguém. E se alguém patenteou, foi o Barão de Itararé, que, quando vivo, queria mesmo era cair no domínio público.

Generosamente.

9.23.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

22 – DPF - SUPERINTENDÊNCIA REGIONAL DE SANTA CATARINA

A Superintendente olha no fundo dos olhos de Bernardo. O olhar da nossa chefe pode ser de fúria ou desprezo; nada de amistoso. Nenhuma explicação lhe satisfaz: “ordens superiores”, “necessidade de análise técnico-científica”...

Bernardo trabalha na DITEC – Diretoria técnico-científica - do DPF – Departamento de Polícia Federal. Em Brasília. Tenta justificar-se, como se coubesse a ele a justificativa de que tivesse sido ele o designado para investigar a morte do advogado catarinense, sem que nunca lhe tivessem dito para procurar a Superintendência de Santa Catarina.

Além desta sede, temos a Delegacia de Dionísio Cerqueira, na Rua Argentina, no Centro – sem falar nas de Joinvile, Itajaí e Chapecó. Por que Brasília e não nós? Desrespeito, petulância e prepotência são as palavras que passeiam pela cabeça da Doutora Telma - nossa Superintendente de Santa Catarina.

Doutora Telma permanece uns bons dois minutos em silêncio. Aperta os lábios, passa a língua por eles, olha mais profundamente ainda para Bernardo, disca um ramal e ordena:

- Mais água, Edgard.

Disca um outro ramal e determina:

- Fábio, venha à minha sala.

Fábio entra, com seus cabelos pintados de amarelo. A Superintendente faz as apresentações friamente, sem deixar oportunidade para mais nada que a simples estranheza mútua – Bernardo, com os cabelos do colega, que mais se parecem com uma peruca; Fábio, por simplesmente não saber o que faz um investigador de Brasília dentro da sala da Superintendente.

- Fábio, a partir de hoje você vai acompanhar as investigações do assassinato do advogado, que estão sendo conduzidas pelo Doutor Bernardo, da DITEC – comunica a Superintendente. É quando entra Edgard, trazendo uma bandeja com uma garrafa plástica, com água, e dois copos. Bernardo oferece o que seria o seu para Fábio, que sorve o líquido avidamente. Doutora Telma faz um gesto para que Edgard deixe a bandeja sobre a mesa. Edgard obedece e deixa a sala da Doutora. Fábio faz um convite a Bernardo:

- Vamos até a minha sala, por favor?

- Sim – responde Bernardo. Ambos se despedem da Doutora Telma, que acende um cigarro e sopra a fumaça pela nossa janela aberta, de frente para a baía.

Na sala ao lado da de Fábio, Cláudia, acompanhada de Angus, tratava da renovação do seu passaporte: pretendem visitar parentes de Angus, daqui a duas semanas. Agora vão saindo daqui, Cláudia contando ao marido o sonho que lhe narrou uma menina de doze anos que freqüenta a Noite e Dia, Livro e Fantasia:

- No sonho dela, o lago na frente daquele hotel na Beira Mar era imenso, e vários moradores da favela do morro dali de trás tomavam banho, de biquíni e calção, bem no lago do hotel. E os seguranças lá, como sempre, de terno, sem fazer nada, só olhando pro banho do povo da favela, bem no lago do hotel.

Na sala de Fábio, encontra-se uma loira, de nome Sílvia, que, minutos antes da chamada da Doutora Telma à sua sala, falava do sumiço de um ex-namorado. Bernardo se apresenta a ela, deixando Fábio ainda mais desconsertado, se sentindo dentro de um outro sonho, no qual todos sabem seus papéis, menos ele:

- Prazer, Bernardo. Sílvia, não é?

- Sim. Prazer – ela diz, apertando firmemente a mão de Bernardo, que lhe explica, quase que ignorando a presença do dono da sala:

- A Doutora Telma fez contato com meu chefe em Brasília, pedindo que eu me apresentasse a você, aqui, na Superintendência de Santa Catarina do DPF. Eu já estava aqui, em Florianópolis.

- Eu sei – disse-lhe Sílvia.

Fábio oferece uma cadeira para Bernardo e toma assento na sua, de direito e posse, fortalecendo-se um pouco mais, por ocupar a cadeira do dono da mesa e da sala, ainda que permaneça absolutamente ignorante do que, afinal, está se passando à sua frente. Sílvia retorna ao assunto que estava tratando com Fábio:

- Eu contava ao Doutor Fábio que esta notícia no Diário me fez telefonar para minha tia, a Doutora Telma, irmã de meu pai, a Superintendente da Polícia Federal de Santa Catarina.

Sílvia passa o jornal de hoje às mãos de Bernardo. De manhã, quando pensava em telefonar para o seu chefe com um bom motivo para que permanecesse em Florianópolis – finalmente, Nildo ficara sabendo de um suspeito, por meio de um vendedor de drogas da Avenida Beira Mar -, Bernardo fora surpreendido pelo telefonema dele, seu chefe, ordenando-lhe que fizesse exatamente isto: permanecesse em Florianópolis – e que marcasse um encontro aqui, com a Doutora Telma, e com Sílvia, ambas suas desconhecidas. A manchete do jornal diz assim:

“FINALMENTE UM SUSPEITO PARA O ASSASSINATO DO ADVOGADO”

Bernardo lê a reportagem:

“O detetive Nildo Resende afirmou à nossa reportagem, na tarde de ontem, que o suspeito seria um homem de cerca de trinta anos, branco, de cabelos negros e longos, alto, magro, de bom físico, vestindo uma jaqueta de couro preta no momento do crime, que teria se afastado do automóvel da sua vítima a pé, passando constantemente a mão no nariz”.

Bernardo pensa e não diz, o idiota do Nildo deu com a língua nos dentes. Sílvia diz a ambos, Fábio e Bernardo:

- Namorei um homem assim, que constantemente alisava o nariz, e que fugiu da cidade, não sei para onde.

9.19.2006

DISCIPLINA

Não existe mendigo
Assaltante
Artista
Estuprador
Sem disciplina -
A arte de dormir e acordar
Bem.

Seus antepassados
Espreguiçavam-se;
E você?

Alongue-se
Prolongue-se
Depois e
Principalmente
Antes
De dormir.

Respire
Repare
O assaltante
Minutos antes
De lhe ceifar as orelhas
Estica o braço

Alonga-se
Como o mendigo
Antes de fazer a barba
Sem espuma
Com a lâmina
Catada no lixo.

Você pianista
Lutador de boxe
Cantora
Lutadora de judô

Antes do bemol
Do direto
Da dissonância perseguida
Do bum! No tatame

Tal como o executivo
Se alonga –

Nunca por disciplina.

Para suportá-la.

Se os crucificados
Fossem antes alongados
Teriam sido suas cruzes
Mais leves?

9.16.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

21 – O SHOPPING CENTER

Bernardo e Berta, o casal BB – e sem bebê. Provavelmente a mais sofrível das graças que o chefe de Bernardo gosta de fazer, e que sempre faz quando encontra com o casal, cismou de martelar na cabeça de Bernardo como se fosse uma música insuportável, ouvida sem querer em um lugar qualquer. O pior é que a frase se repete dentro da sua cabeça com a voz e a imagem do chefe, que, para Bernardo, é muito mais insuportável que qualquer música - incluindo jingles de campanha eleitoral.

Bernardo acordou com uma lista de possíveis coisas a fazer nesta manhã de Sábado, quando ainda se encontram aqui, em Florianópolis, apesar dos protestos do chefe, que não consegue entender porque Bernardo está tão envolvido no caso do advogado catarinense, dentro dos tantos cuja investigação lhe cabe, e menos ainda porque Bernardo tem que permanecer tanto tempo na cidade onde o crime ocorreu, se a Polícia Civil local já está investigando e, segundo o próprio Bernardo, com alguma competência.

A primeira opção que lhe ocorreu foi internar-se mais uns dois dias no apartamento do advogado assassinado. Não conseguira encontrar nenhum arquivo, em papel ou meio magnético, que acrescentasse pistas a uma possível trama de exercício de poder paralelo por parte de determinado e desconhecido grupo de pessoas, como dá a entender o relatório que lhe chegou às mãos na sede da Polícia Federal em Brasília, e, menos ainda, qualquer evidência de uma possível participação do advogado na trama.

Mas hoje é Sábado; o que fazer com Berta?

Pensou em beber com ela uns chopes em um dos bares da Noite e Dia, Livro e Fantasia, ou, alternativamente, no Box 32 ou no Empório Bocaiúva. A Noite e Dia, Livro e Fantasia lhe traria a vantagem de ficar fuçando livros e discos e, possivelmente, a de um encontro casual com Flávia – a quem apresentaria Berta, e muito vaidoso: Bernardo vê em Berta muitos atrativos, inclusive intelectuais, e, por outro lado, deixaria Berta ainda mais enciumada por causa da beleza e do charme de Flávia, realimentando sua vaidade, masculina, humana e, portanto, idiota.

Quis ir à praia; mas bate um vento Nordeste dos mais cinzentos e ruidosos, descartando a opção.

Bernardo propôs que comessem ostras em um bar de beira de praia, mas - alegou Berta -, Esse vento vai arruinar de vez com meus cabelos.

Bernardo queria também se encontrar com Nildo, o Policial Civil corrupto e politicamente correto, que, ontem à noite, pelo telefone, lhe disse que, por intermédio de um flanelinha que trafica pó na Beira Mar, do qual livrou a cara pela informação que lhe passou, soubera de um possível suspeito do tiro fatal no advogado, cabeludo e que fungava muito, passando freqüentemente o dedo no nariz, sendo que o mencionado e reles traficante de esquinas garantiu que o sujeito, além de usar um casaco de couro, nunca fora seu cliente, sendo para ambos, Nildo e o fornecedor de tirinhos, desconhecida a razão para tanta fungação e esfregação de dedo no nariz. “Possivelmente um passageiro resfriado” - arriscou Nildo a Bernardo, no telefonema de ontem, noite de Sexta-feira.

Ainda nesta semana, Bernardo e Berta passaram três exaustivos dias em Blumenau, ela, entediada, ele, pesquisando, entrevistando parentes e conhecidos do advogado morto, obtendo nada mais que informações e dados que já eram do conhecimento deste investigador da Polícia Federal encarregado do caso, sem que, mais uma vez, conseguisse algo mais relacionado a envolvimentos políticos, que não os publicamente conhecidos, principalmente no caso em que a vítima livrara um senador e dois deputados de uma suspeita de tráfico de informações para a Venezuela e a Bolívia, a qual, afinal, se mostrara totalmente fantasiosa, ainda que muito bem tramada por um jornalista da Capital Federal, um venal a serviço de desafetos dos três legisladores da nação.

Mas o vento, o Nordeste, cheio de maresia, deixando o cabelo de Berta muito mais arredio do que ela suporta, os momentos de considerável erotismo entre os dois, strictu e lato sensu, e a vontade de comprar mais um canivete para sua secreta coleção terminaram por fazê-lo desistir das opções que pretendia e aceitar a proposta de Berta:

- Vamos ao Shopping?

É aqui que eles estão. Nenhum dos canivetes disponíveis nas tabacarias é novidade para a coleção de Bernardo, Berta já entrou em seis ou sete lojas, comprou uma estatueta de sessenta centímetros com a figura de um pescador que Bernardo vai carregando dentro de um desconfortável embrulho, experimentou incontáveis saias, calças e blusas sem comprar nenhuma, e a frase e a voz e a imagem do chefe vão-se repetindo na cabeça de Bernardo, Bernardo e Berta, o casal BB – e sem bebê.

Ah, vento Nordeste, só quem te conhece há muito é que te suporta e vence, por te saber de pouca persistência. Vento que é vento mesmo é o Sul - que empurra o frio contra o calor, deixa as gentes estranhas de tanto calor e depois de frio e depois de chuva. A diferença é que, para as que possuem cabelos, eles ficam macios. Berta soubesse disso e torceria para que o Sul vencesse o Nordeste. (Atenção: é de ventos que se fala. Que nenhuma precipitada conclusão se tire – pois que Berta, que nada sabe de ventos, não poderia contar com o advogado que era capaz de desfazer intrigas.)

9.11.2006

DE PALAVRAS E BARES

Alguém do século passado – o XXI, lembra? – pesquisou em um dicionário da época palavras que não existem mais (como dicionários também são coisas do passado). Empolgou-se, viajou mais ainda no tempo - o passado -, e descobriu personagens e coisas que eles andaram dizendo ou cantando, lá, no tempo deles. Dizem que depois ficou louco, a tentar desenvolver idéias próprias a partir das que havia visitado, viajando no tempo. Contam que desapareceu; mas deixou no chão do bar, num obsoleto guardanapo, escritos que, atualizados, diriam mais ou menos assim:

***

Oscar Wilde recomendou que se deve resistir a tudo; menos às tentações.

Ora, o que deve então fazer um prudente?

Evitá-las.

***

Segredo é pra quatro paredes; já o adultério é pra oito.

***

Casal transformou-se em duplamente adúltero – só não se sabe quem começou, ele ou ela.

Um outro casal seguiu os passos do primeiro. E assim, um terceiro, um quarto, um quinto...

Logo:

Segredo é pra quatro paredes; adultério é pra 8, 16, 32, 64...

***

Até os impotentes sabem: adultério é uma potência. De dois.

***

Stanislaw Ponte Preta, sobre passageiros em pé nas “lotações” – pequenos ônibus do tempo dele -, contou que a lei permitia um máximo de 8 passageiros de pé, dentro daquele meio de transporte coletivo; e que, depois, a lei do 8 caiu - e, como 8 deitado é infinito...

Portanto:

Segredo é pra quatro paredes; adultério é pra oito. Deitado.

***

Se cometer adultério for assunto de lei, cometa. Se for “de lei”, não cometa.

***

Adultério: melhor não comentar.

***

Não é à toa que você lê essas frases soltas, de palavras e atos antigos, na parede deste banheiro de bar – para que você se pergunte, afinal, o que resiste mais ao tempo: as palavras? As pesquisas? Ou são os bares e seus guardanapos?

9.09.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

20 - PAREDES-CASCOS EM CARNE VIVA

Aqui no manguezal, neste pântano, ora nos afundamos na terra-areia, ora nos mostramos pra eles, que ficam nos olhando com seus corpos imensos e ameaçadores de cima da ponte de madeira. Neste momento, há duas moças. As duas são morenas, mas de diferentes tons de pele. Uma tem olhos azuis e suas pálpebras têm uma espécie de ritmo; os olhos da outra, a de cabelos de trança, estão cheios de lágrimas. Já dos nossos olhos, a das pálpebras ritmadas diz para a que chora que se parecem com feijões. A que estava chorando dá uma risada quando a amiga nos imita, andando de lado. As duas se afastam, vão para a beira da baía, na ponta do trapiche mambembe; sem que elas saibam, vamos atrás, aqui pela terra-areia, fazendo-lhes companhia.

Na ponta do trapiche, as duas olham os prédios ao longe e depois se fixam na areia escura e em três gaivotas desamparadas. A maré baixou demais. Falam do silêncio bom que existe aqui, de costas e afastadas para a avenida larga e seus automóveis. A que chorava comenta que seus exames deram todos “negativo”; a outra a abraça e responde, Que bom. Tudo indica que a morena de cor de árvore na muda e cabelos trançadinhos sente uma dor dentro de algum lugar do casco da cabeça dela, que faz a bomba que ela guarda dentro das grades por debaixo dos seios apertar-se com mais força do que deveria. A outra ainda a abraça, forte, e desanda a cantar baixinho, na mesma língua que estavam conversando, o Português. Faz a voz ficar diferente; a que chorava para de chorar novamente e pergunta, Flávia, você canta tão bem, porque fica imitando Billie Holiday, Maysa e outras cantoras, que nem do nosso tempo são? A outra responde, É que eu gosto, ué, e abraça o próprio corpo, como fazem quando sentem frio, e propõe, Vamos embora, Rita?

Longe, muito longe para quem tem nosso tamanho, lá no sul da ilha, semelhantes nossos miram outra mulher chorando. Eles é que passam a narrar o que acontece neste instante por lá.

O camarada do lado da loira tem a cabeça raspada e um nariz pequeno demais para o rosto dele e diz para a mulher - que chora - que sempre foi um solitário, que perdeu a identidade com este lugar onde nasceu, que soube que o pai dele acabou de morrer de forma estranha, a ponto de estar em um necrotério à espera dele, que ele não vai lá de jeito nenhum, que odiava o pai e que, por culpa desse pai que morreu de forma estranha - que ele não conta qual foi -, desde criança não tem mãe, que mal se lembra da mãe, Sou um “sem-mãe” - ele diz para a mulher que chora sem parar, e explica que por isso tudo vai embora. Pra onde?, ela quer saber. Qualquer lugar longe daqui, ele responde. Por que não posso ir contigo?, e ele responde, Não tenho dinheiro pra nós dois, guria. Eu não preciso do teu dinheiro, ela afirma, Também tenho minhas economias e minha profissão e posso trabalhar em qualquer lugar, e aí o sujeito fica possesso, Bá, não me enche o saco, guria, te mete com tua vida, larga do meu pé, não te agüento mais, ele grita, e sai andando depressa e a loira sai atrás dele, Seu estúpido, babaca, medroso, tu tens medo da vida, és um frouxo, um frou-xo! Ela estanca de repente, resoluta, cara de brava, e ele continua, cabisbaixo, sem olhar para trás, e vai para o asfalto, não temos mais como saber do paradeiro do homem de cabeça raspada. A mulher arranca dos pés suas sandálias e tira o casaco e a calça e a blusa e entra no mar quase gelado com sua calcinha rendada e os seios de fora e mergulha e mergulha e volta para a areia e veste as calças e a blusa e o casaco, molhada, observada por uns pescadores rindo maroto e desejosos e ela sai andando depressa, decidida, vai para o asfalto, entra em um carro e sai com ele em disparada.

Mais, muito mais longe desta ilha, quem nos transmite o que se passa é um outro dos nossos semelhantes, que vagueia pela areia de uma praia enquanto um outro ainda é comido, dentro de um casco que sequer lhe pertenceu, por uma mulher que fala sem parar sobre moda, economia e política a um sujeito à sua frente, que também se delicia com a carne de mais um semelhante nosso, dentro de um outro casco, que há muito tempo pertenceu a um outro. O homem conta que conseguiu escrever novamente, que a inspiração voltou, que está muito animado, que seu agente aceitou buscar outra vez uma editora que se disponha a publicar um inédito dele e, Quem sabe? - ele sonha acordado e em voz audível -, Até um adiantamento. A mulher se anima e fala, Puxa, amor, fico muito contente por você, tenho certeza de que você vai conseguir. E aí ela pergunta, chupando a ponta de um dos dedos dela, Sabe aquele vendedor de amendoim que fica no sinal de terno e gravata?, e o homem responde, depois de beber um pouco de cerveja, Sei. Você soube que ele abriu uma franquia? – a mulher pergunta. O homem responde perguntando, Uma franquia de amendoim? Sim senhor, ela afiança e vai em frente, Presta atenção, que, de agora em diante, você vai passar a ver um monte de gente vendendo amendoim de terno nos sinais. Aí o homem fala, Bom, melhor que assaltante, equilibrista, vendedor de bala que larga o saquinho no retrovisor... E a mulher, desta vez, mais enfática e afetada:

- Vai ter umas lojinhas também. Sempre de amendoim, só que com produtos de amendoim, entendeu? Receitas africanas, indianas, e com todos os vendedores – e ven-de-do-ras – de paletó e gravata. Uma graça! Você acredita numa coisa dessas? Eu vi no Jô Soares, sabia? Sabe que foi o próprio cara que vende amendoim de terno que teve a idéia da franquia? E que ele é bem despachado, articulado e tudo?

9.05.2006

O BRASIL E O UNIVERSO EM EXPANSÃO

UAI nem sempre é interjeição mineira, como não se pode acusá-la de inconfidência, pelo menos sem provas. Mas, se nem interjeição nem inconfidência, insurreição, sim: a UAI - União Astronômica Internacional – rebaixou Plutão a planeta anão. Mas será possível arbitrária e autoritariamente uma UAI qualquer retirar um planeta de sua órbita, reduzindo-o a uma sub-órbita – assim, de um ano-luz para o outro? Isso já causa revoltosos protestos de apaixonados e estudiosos astrônomos - sem que, no entanto, sejam esperados enforcamentos seguidos de esquartejamentos por conta disso. Disso que, diga-se, nem é novidade mais.

Da mesma forma, faz tempo que se comenta, em centros de pesquisa e botequins, que o universo vive em expansão. Se o big-bang foi ou não seu começo, aí o buraco, além de negro, é muito mais profundo; cientistas e curiosos embriagados ainda não conseguiram chegar a um consenso. Mas todos garantem: que o bang foi big, ah, isso foi – e, vá lá, reduzam Plutão a plutinho – mas que ninguém se meta a falar em fim do universo.

O universo vai-se expandindo espaço infinito afora, só pra ver quem é mais infinito no fim das contas: ele, universo infinito, ou o próprio infinito. E o fim das contas não existe, qualquer endividado sabe disso muito bem.

O que talvez também não seja novidade é que o Brasil segue a mesma trajetória da cósmica expansão.

Professores são seres capazes de transmitir conhecimento e provocar reflexões e modificações. Por isso, no Brasil, são tão desprezados e mal pagos. Formam então os professores uma galáxia à parte, que sai a protestar nas ruas contra a degradação da sua profissão, o tanto que deles já tiraram, a destruição da escola e do acervo científico-educacional-cultural público, assim por diante. Pelas demais organizações sociais brasileiras – ou galáxias -, são vistos como vagabundos que reclamam de barriga cheia, alimentada pelo povo.

E povo é outra galáxia, totalmente desconhecida pelas demais.

Estudantes, que fazem parte da mesma galáxia dos professores, deles se afastam.

Elites sócio-econômicas se queixam da carga tributária, dos juros altos, dos gastos públicos e, ainda que empreguem parte – planetas, anões ou não – da galáxia denominada Povo, e que parte dessa parte venha das escolas e universidades - que compartilham da órbita dos Professores -, a galáxia Elites se afasta das demais.

Políticos – ah, os políticos! - sabem de tudo, tudo propõem, prometem muito mais. Ouvem pouco. Muitos deles, percebendo espaços que se agigantam na camada de Ozônio, é na luz crepuscular que bem se adaptam à inescrupulosa. Rapidamente se libertam da gravidade e de todas as demais leis. Têm na galáxia Povo seu alvo predileto: eis a inspiração de Guerra nas Estrelas.

O Governo, ainda que majoritariamente orbitado por políticos, é uma outra galáxia. Aumenta impostos e diminui custos, sim senhor – senão, os professores não estariam reclamando.

Galáxias como a dos traficantes vão-se expandindo à velocidade da luz, na razão direta das massas e na inversa do quadrado da razão.

No lugar da razão, galáxias distintas, estranhas, planetas a desaparecer da órbita, a se violentar e a se perder no éter, a se plutanizar – expressão que, ninguém duvide, brevemente será cunhada – e não parente, do desprezado e simultaneamente temido, porque desconhecido, vernáculo.

A razão provavelmente preferiria professores bem preparados e pagos, universidades aparelhadas, concorrência saudável entre escolas públicas e privadas, empresas públicas e privadas eficientes e competitivas oferecendo o melhor, de empregos a produtos, comungando com cidadãos de emprego e vida dignos o pagamento dos impostos necessários e suficientes para o Estado-servidor.

Quereria presumivelmente a razão cidades menos tensas, com melhor distribuição de renda e demografia, transporte público de qualidade, paisagem em harmonia com a população, progresso social e desenvolvimento no ritmo que lhes fosse adequado, a elas e eles, cidades e cidadãos. Seu contrário são as mega-cidades, com sua mega-miséria, mega-violência, mega-engarrafamentos, mega-corrupção, mega-demagogia, mega-poluição...

Mas, que mega, hein?

Dizem que é assim por culpa da história, dos Estados Unidos e dos portugueses; por culpa do povo, do governo, das elites; a culpa é do clima, a culpa...

O Brasil se expande para fora de si, por meio de suas distintas galáxias distantes umas das outras, afastando-se, indo-se, cada qual por si.

Ao contrário do universo, o começo do Brasil é conhecido.

Bem como seu fim, tudo indica, o será em breve.

9.02.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

19 – UM AVIÃO, SUAS PORTAS E JANELAS

Bernardo conseguiu convencer a quem tinha de convencer da necessidade da sua segunda viagem a Florianópolis de maneira gentil, simpática e inteligente: convidou Berta – a esposa – para ir junto.

Ela, claro, adorou a idéia: sair da rotina e conhecer uma nova cidade, que ainda por cima está na moda entre brasileiros e alguns estrangeiros; conhecer a tal Flávia, que lhe desperta ciúme e desconfiança do marido; e sentir-se cortejada, podendo namorar o marido e proteger-se de uma possível invasora, potencial usurpadora do seu, por assim dizer, patrimônio – conjugal -, tudo ao mesmo tempo - puxa vida, isso sim é que é felicidade. (Se alguém perguntasse a Flávia o que ela achava de Bernardo, primeiramente ela perguntaria: “Quem?”. E depois: “Ah, sim. Educado, ele, não?”)

O chefe, de cara, perdeu o argumento mais cretino: se Bernardo levaria a esposa, adeus suposta “alemoa”. Bernardo não deixou margem para dúvidas de que as passagens de Berta seriam pagas por ele, Bernardo; e a menção de possíveis envolvimentos da vítima – foco da investigação para a qual a Polícia Federal fora instada, dado à projeção nacional daquele advogado de Santa Catarina – com a política, além de elevar os sobrolhos do chefe deixou-o sem alternativa: “Oquei, Seu Bernardo, oquei. Mas vai numa perna e volta na outra, hein? Precisamos de você por aqui”.

Berta já viajou de avião, mas sempre tem medo. Influi, neste momento, o fato de uma das minhas portas se ter largado em outro vôo recente, quase levando uma aeromoça junto, alturas a fora, a uma glacial temperatura, o ar, rarefeito, a desabar de volta à Terra antes do nosso pouso. Bernardo, não. O que o aflige é que, para que Berta pudesse ficar junto à janela, ele teve que sentar-se na poltrona do meio, comendo nosso intragável sanduíche como se fosse um dinossauro: as mãos como se fossem patinhas desproporcionais ao seu corpo, espremidas entre a esposa e o gordo flatulento que sentou-se do seu lado esquerdo. A aeromoça pergunta-lhe, “Mais uma bebida, senhor?”, e Bernardo responde, “Sim, mais uma cerveja, por favor”.

A voz grave do nosso comandante irrompe ouvidos a dentro, sem pedir licença, com seus ultra-característicos chiados cariocas e suas graças costumeiras: “Boa noite a todos, aqui quem fala é o comandante Chico Xavier da Silva, psicografando a si próprio, assessorado pelo nosso bravo co-piloto Roberto Myke Tyson Pereira, dando-lhes as boas vindas a bordo deste Focker 100 da empresa que se orgulha em ser brasileira, em companhia de nossas lindas e eficientes comissárias Jennifer da Silva Aniston e Sheyla Courtney Cox Arquette Moura, lideradas por nossa não menos bela e competente supervisora Lisa Keyla Kudrow”, terminando por informar que “Nosso estimado de pouso em Florianópolis é para as vinte e duas horas e cinqüenta e nove minutos, pedindo desculpas a todos e uma vez mais pelo nosso involuntário atraso da decolagem, que foi devido ao tráfego do aeroporto de Brasília, tão costumeiramente intenso às Quintas-feiras. Por que será, aguém saberia me dizer? Boa noite a todos e enjoy Floripa, my friends.”.

Lá embaixo, em Florianópolis, para os humanos que carrego aqui dentro, não é possível enxergar; mas Flávia finalmente ousou subir ao palco do Satchmo e Pixinguinha e cantar “In my solitude”, acompanhada pelo marido da sua sócia Cláudia na bateria e seus três parceiros, respectivamente no baixo, piano e sax. Após os aplausos e gritinhos de “uouh uouh”, foi a vez de “Some day he’ll come along, the man I love...” ... “He looks at me and smile, I understand...”. Mais aplausos e ela sai do palco de rostinho lindo e vermelhinho de timidez e pisca os olhos junto com um sorrisinho de quem está quase chorando de alegria.

Também ninguém do lado de dentro das minhas janelas consegue ver Maria Eduarda chorando de tristeza porque não suporta mais a falta de atitude do namorado e poeta Rogério Bravo, as saudades do marido morto já faz tempo, a indiferença que o filho demonstra por ela, a vagabunda da namorada dele, a tal Mimi, e o tipo de vida e seus horrorosos apelidos que dois seres sensíveis como são Punzinho e Deposinho adotaram, mendigando à porta do Edifício Lineu de Paula Machado, Rua Almirante Barroso, centro do Rio de Janeiro.

E que, numa casa próxima ao aeroporto Hercílio Luz, quando em breve pousaremos, o órfão do Velho, Antônio, que matou, sem que ainda saibam, o advogado catarinense, ama delicadamente sua namorada, na cama que era do Velho. Já não tem nenhuma cicatriz no nariz, que agora é ligeiramente arrebitado. Sílvia o acha lindo; ele o detesta – mas vai se conformar aos poucos.

Tampouco que, na delegacia onde Nildo trabalha, seu detestado colega, que se diz puro e virtuoso, conta que encontrou um selinho de uma livraria junto ao corpo do estuprador encontrado morto, já idoso, de calças arriadas e revolver por baixo de uma das suas mãos cadavéricas, no beco próximo à Praça XV, Florianópolis (o Rio, como se sabe, também tem uma Praça XV). E que, no barzinho “À Vera”, a própria, Vera Fisher, que visita Florianópolis por conta de um desfile no qual será apresentadora no Costão do Santinho, toma um cafezinho em companhia de Rita, que, desse jeito, se distrai do trauma do estupro que sofreu.

Somente aviões e suas fuselagens que lhes servem de paredes conseguem a tudo ver, do seu lado de dentro e de todos os seus lados de fora. Somente os aviões e as divindades que lhes cercam e lhes guiam, ora aos previsíveis aeroportos, ora às suas quedas imprevistas, - a acolher as vidas que se foram dentro deles, a levá-las para lugares que nem nós, os aviões e nossas paredes-fuselagens, conhecemos.

É hora de pousarmos; pousamos bem. E com nossas portas.