PAREDES QUE FALAM ; NOVELA DE MARIO BENEVIDES
23 - DIRETORIA ESTADUAL DE INVESTIGAÇÕES; E A NOITE E DIA
Depois que passou a investigar o assassinato do advogado, Nildo foi transferido para cá. Nossa rotina mudou. Depoimentos desta natureza não costumavam acontecer aqui, na DEIC - DIRETORIA ESTADUAL DE INVESTIGAÇÕES CRIMINAIS DA POLÍCIA CIVIL DE SANTA CATARINA. Mas, dado à importância do caso e ao renascimento das manchetes a seu respeito, de uma hora para outra, começaram a surgir auto-proclamadas testemunhas; e é aqui que elas estão vindo dar seus depoimentos ao próprio Nildo – que saiu na foto da manchete da primeira página do “Diário” de ontem:
“ASSASSINATO DO ADVOGADO ENVOLVE POLÍCIAS CIVIL E FEDERAL”
Ao lado de Nildo, na foto, como explicava sua legenda de rodapé, estavam a Superintendente Regional do Departamento de Polícia Federal, Telma Bahauchën, e sua sobrinha Sílvia, de mesmo sobrenome.
Uma senhora que mora em São Paulo conta a Nildo que, na data do crime, estava hospedada em um dos hotéis que dão de frente para as pontes, e que voltava, naquela madrugada, de uma festa da High Life Society & Communities. Ela explica que a “High Life” é uma instituição sem fins lucrativos em prol de ações positivas, esclarecedoras e educativas contra a marginalização do lucro. Depõe a senhora que a referida festa foi na casa de uma das sócias da HLS&C, em Jurerê Internacional; e que, quando voltava para o hotel, viu o carro da vítima parado na Avenida Beira Mar e, poucos metros adiante, na calçada, viu um sujeito vestindo jogging de moletom cinza, cabeludo, e que ele estava assoando o nariz em um lenço de seda vermelha. A senhora conclui dizendo que só permanecerá na cidade até amanhã; que aqui retornou para mais uma “reuniãozinha” da High Life; mas que, se Nildo quiser ou precisar, poderá ficar até quando ele recomendar. Nildo anota o número do celular da senhora e diz que não há necessidade de que ela retarde seu retorno para São Paulo. Ela então responde, Tudo bem, mas estou à disposição, viu?, e sai, dando uns retoques no cabelo. Nildo anota em um papel um número bem diferente do celular que lhe foi dado a anotar: 662.157.080-00.
Um corredor notívago-madrugador garante que, na noite do crime, passou por um careca magro, vestido de preto, olhando para trás na direção de um carro parado na avenida, com um dos dedos no nariz.
Um porteiro começa contando que, naquela madrugada inesquecível – segundo ele -, se aborrecera profundamente com um indivíduo que passeava com um pit-bull com focinheira pela calçada dos prédios da Beira Mar e que deixou que o cão sujasse a calçada bem na frente do seu prédio - ainda que, segundo o mesmo porteiro, o portador do cachorro tivesse retirado com um lenço de papel o dejeto do animal para livrar-se dele em seguida em uma lixeira plástica presa num poste - e afirma que, do outro lado, avistou um sujeito calçando botas – o porteiro diz que se abaixou para apontar para o cocô do pit-bull –, jogando os cabelos para trás – o porteiro explica que se levantou em seguida, porque o dono do cão se abaixara também e olhara nos olhos dele de cara feia – e alisando o nariz com dedos muito finos, longos e brancos.
Uma morena com cara de braba trouxe o jornal com a foto de Nildo, Doutora Telma e Sílvia, e garante que era ela, Sílvia, “esta galega nariguda”, que estava vestindo uma jaqueta preta, de couro, na madrugada do crime, naquela boate que fica nas proximidades das pontes. A moça ia dizer o nome da boate, mas Nildo a interrompe e afirma: - É aquela que todo mundo chama de “um e noventa e nove”. Nildo anota o número do celular da morena, seu nome e um outro número: 362.199.030-00.
Enquanto isso, um ex-colega de DP de Nildo, o detetive Adalberto “pastor” - como passou a ser conhecido depois de ter sido nomeado pastor da igreja evangélica Vinde a mim as criancinhas – está aqui, na Noite e Dia, Livro e Fantasia. Com um dos cotovelos sobre o balcão, o investigador Adalberto exibe para Renata a etiqueta da loja que achou ao lado do cadáver do idoso encontrado com as calças arriadas nas proximidades da Praça XV. De Renata, Adalberto ouve que o complexo bares-livraria é muito freqüentado, e que possivelmente um cliente da loja deixou cair a etiqueta sem querer, no tal beco mencionado pelo policial. Adalberto lhe mostra três fotos: uma a cores, envelhecida, com a imagem de uma mulher muito bonita e sorridente, portando nos braços um bebê; uma outra em branco e preto, com o rosto de um rapaz de uns dezoito anos, os cabelos, curtos, o nariz, adunco, e as orelhas, de abano; e uma outra três por quatro, com a face do sujeito encontrado morto com as calças arriadas, aparentando, na foto, uns sessenta e alguns anos. Renata afirma que nunca viu nenhum dos três por aqui, como de resto, em nenhuma outra parte. Adalberto vai embora, não sem antes deixar um cartão seu com Renata.
Depois que o policial civil se retira, Renata pede que uma das empregadas assuma o posto da gerência e vai ao encontro de Flávia no camarim do Satchmo e Pixinguinha. Flávia, hoje, cantará, por sugestão de Rita, canções de Adriana Calcanhoto e Arnaldo Antunes. Incluiu, no repertório ensaiado com o quarteto de Angus, por sua conta, canções de Tom e Vinicius. Das gravadas por Billie Holiday, só uma – ela garantiu para Rita. Uma do repertório da Maysa, também. E só. Flávia bebe um pouco de água e, depois, muito pouco de vinho do Porto. Engasga-se, quando a sócia e amiga diz a ela: - Não é nada bom para nós que passemos a ser visitadas por policiais. Rita, que mexia com suas tranças frente ao espelho e ao lado de Flávia, olha através do seu reflexo para ela, que, depois de tossir um pouco, responde a Renata: - Só estão dizendo bobagem nos jornais e eu me recuso a comparecer na delegacia. Renata murmura, Fala baixo, amiga, e explica, Dessa vez o assunto era outro, o do velho encontrado morto de calças arriadas perto da Praça XV, entendesse?, ao lado do desgraçado estava uma etiqueta das nossas, aquela pequeninha, sabes qual que estou falando? Renata estranha que Rita levante-se depressa e saia correndo do camarim. Flávia desconversa, Pena que a Cláudia não veio, disse que está menstruada, e dirige-se ao palco. Altiva - ainda que transpire um pouco além do que lhe exige o medo de cantar em público.

