17 – BRASÍLIA, SEDE DA POLÍCIA FEDERAL
Diz-se muita coisa de Bernardo por aqui. Nada com fundamento. Tudo indica que ele é um honesto. O racismo aflora: “Negro besta; crioulo metido a branco.”. Uma dupla e pejorativa segregação às vezes acontece: Nego viado.”. Tudo pelas costas. Bernardo ora mete medo, ora respeito; quem fica pelos cantos falando mal não sabe distinguir.
Sem ligar pra nada disso, frustra-se por não conseguir convencer nem o chefe nem a mulher – esposa, como ele se refere a ela - de que deveria retornar a Florianópolis para ir fundo na investigação do assassinato do advogado. A polícia local sozinha não vai dar conta, ele tem certeza disso, embora venha se dando bem com o detetive encarregado, Nildo, com quem fala por telefone pelo menos uma vez por dia – mas sabe que ele tem que se envolver e perder tempo com a raia miúda, roubinhos, assaltos, traficantes de esquina e seus chefetes do morro. Pelo menos, o vandalismo em que se tornou o protesto contra o aumento das passagens em Florianópolis ficou por conta da PM, deixando Nildo fora disso, ao menos isso. Por sua vez, Bernardo conseguiu delegar ou pelo menos compartilhar boa parte dos seus assuntos de rotina – colarinho branco, investigadores corruptos, médio escalão do tráfico –, aos seus dois melhores subordinados. Pelo menos dois são bons, ao menos isso. A mídia meio que já esqueceu da morte do advogado catarinense, apesar da projeção nacional que tinha seu nome. Já o chefe de Bernardo diz achar que ele arranjou um outro motivo para insistir na necessidade de voltar a Florianópolis: “uma alemõa”. Depois, explica melhor porque não quer que ele se afaste: “Fuce daqui o que puder fuçar, sem se afastar dos pepinos nossos de cada dia. Preciso de você aqui, Bernardo. A coisa tá pegando, a imprensa tá em cima, toda hora uma denúncia, você tá sabendo, sabe como é.”. Já a esposa faz ares tristes, de fazer dó, quando ele fala de uma livraria misturada com bar e música e, pior, de uma tal de Flávia, “Tipo interessante, esquisitinha, diferente, muito simpática”.
Mais que digam e desconfiem, fato é que Bernardo sabe conquistar confianças. Bernardo, por olhar sempre nos olhos, ir sempre a fundo, não ter limites para trabalhar, se controlar diante de vedetismos e inseguranças de seus superiores, suportar razoavelmente bem o disparate de desconformidade e heterogeneidade da equipe com que pode contar, buscar sempre o equilíbrio e preparo, praticar esportes, de vez em quando embriagar-se, às vezes consultar uma psiquiatra que lhe prescreva calmantes e antidepressivos que jamais chega a tomar, Bernardo acaba por conseguir ouvir coisinhas, coisonas, até chegar ao que mais gosta: documentos.
Por exemplo, este:
“O advogado nos veio com uma história estapafúrdia. Disse-nos que se encontra em marcha um levante social de centro. Explicou-nos que da Direita não era, da Esquerda tampouco e, por isso, classificou dito e suposto movimento como centrista. Contou-nos que não se prega o nacional-socialismo nem a manipulação da mídia em prol dos economicamente poderosos, como não pretende rompimentos nem com o capital internacional nem com o nacional, nada de re-estatizações, reformas agrárias na marra, lei da mordaça para a mídia, levante das massas ou corrupção da oposição para uma perpetração. ‘O que poderia querer tal movimento?’ – perguntamos ao advogado. ‘Fazer fazer’ – ele nos respondeu. ‘Fazer fazer o quê?’ – insistimos. ‘Fazer com que os políticos façam o que tem que ser feito’. ‘Exatamente o quê?’ – quisemos saber. ‘Reformas do judiciário e do legislativo, educação, combate ao narcotráfico, transporte coletivo para todos os níveis de poder aquisitivo contra essa paranóia egoísta de um ou dois carros por cidadão de posses ou classe média e latas de sardinha mofentas para o populacho, polícia no lugar de bandidos e corruptos, juizes e não venais, políticos no lugar de gananciosos falastrões, demagogos e enganadores. Infra-estrutura e não falsas inaugurações. Arte e cultura e não embuste. Esporte no lugar da roubalheira. Informação e não distorção de fatos. E assim por diante’ – nos enumerou o advogado, aliás, muito empolgado. ‘Querem muito, esses do movimento, hein?’ – provocamos. ‘Sim’ – ele, placidamente, concordou. Depois completou: ‘Querem o justo, o correto; será muito?’. Perguntamos, então: ‘O senhor faz parte desse movimento, doutor?’. ‘Não’ – ele garantiu-nos; mas não sem certo rubor nas faces.”
Bernardo estranha o estilo da redação do documento, sem nenhuma assinatura. Seria de um antiquado? Um regionalista? Sem querer ou de propósito? Digita os algarismos do número do celular do irmão vendedor de amendoins nos sinais do Rio de Janeiro sempre vestido de terno, um criativo por natureza e excelência, um inventivo sempre pode sugerir algo impensável pelos puramente racionais – mas acaba telefonando para a mulher, a quem chama de esposa, que não atende. Coça-se, onde e de um jeito universalmente considerado como de extrema falta de educação. Continua sua leitura:
“Afirmou o advogado de Santa Catarina, em sua tipicamente articulada, empolgada e prolixa fala, que dito movimento apregoa a tomada das rédeas do poder pela sociedade civil, em sua parcela realmente disposta a serrar de vez o ciclo miséria – frustração – vício – ignorância – tráfico – violência – exploração da infância – abandono da infância - burguesia alienada – classe média desesperada ou conformada – deseducação – desinformação – assistencialismo torpe - abutres a se alimentar e desfrutar disso tudo, a ruminar e arrotar isso tudo, a cuspir na cara da população seus perdigotos nojentos junto com seus discursos vazios, seus sorrisos porcos, sua expressões de falsos bons e virtuosos. Garante o advogado - que traiu certo estoicismo que gosta de demonstrar, ao pintar os cabelos – que determinadas empresas e cidadãos já estabeleceram um plano de ação, suas diretrizes basilares, que vão desde a construção de cadeias por conta dos integrantes do movimento até a liberação da maconha. Neste ponto interrompemos seu já inflamado discurso: ‘Liberação da maconha! O que diabos a maconha teria a contribuir para tal movimento? Que espécie de basbaques é essa?’ – perguntamos. E ele: ‘Ainda não consegui descobrir nem quem eles são nem porque exatamente gostariam de liberar o comércio da maconha e muito menos por quais meios pretendem fazer tudo que apregoam.’. ‘E como foi que o senhor chegou a saber o que eles querem se nem sabem quem eles são?’ – argüimos. ‘Encontrei documentos’. ‘Onde?’. ‘Em Florianópolis’. ‘O senhor ainda os tem?’ ‘Sim, os tenho comigo, em meu apartamento de Florianópolis’. ‘O senhor pode nos trazer aqui, esses documentos?’. ‘Posso’. E ele retornou a Florianópolis e ficou de nos trazer tais documentos na próxima semana. Como tendemos a crer mais em provável estado alucinatório do advogado, deixamos que fosse só e assim retornasse. Nenhuma questão fizemos de acompanhá-lo a Florianópolis ou aonde quer que fosse. Maconha e justiça social! Uma Farc? Francamente.”.
Bernardo não achara documento algum no apartamento do morto. Precisava voltar a Florianópolis. Precisava antes descobrir em que computador fora digitado aquele relato, de quem seria aquele relato. Precisava falar com seu chefe, sem mostrar a ele o que encontrara; já não sabia em quem confiar. Foi para casa, atônito, pensando em tomar um calmante, dessa vez. Ou então um avião. Para Florianópolis. Claro.