O DIÁRIO DE UM MARIO

8.28.2006

VOCÊ, LEITOR

No caso deste blog, o título aí em cima é de um realismo acachapante. Eis aqui um blog de um leitor só – não necessariamente solitário, mas muito provavelmente sempre o mesmo. Pode, aliás, ser uma leitora, a incrementar o contador de visitantes sempre de 1 – lembrando uma torcida, a gritar depois de um gol: “mais um”.

Injustiça da minha parte com você, este outro ou outra você, que também ajuda a incrementar o contador, eu sei. Um é pouco, dois é bom, três, então, nem se fala. Sem demagogia – não se vive neste espaço de votos, vive-se aqui até sem salário, que dirá de mensalão -, quantidade não é o que se deseja por aqui. Melhor - aqui - é essa qualidade que é própria de você, leitor, nesta sua condição ímpar; esse intimismo, com S, de nem próximo nem distante. Intimismo do mesmo diâmetro de uma mesa de bar e com a profundidade e a poesia que lhe são peculiares e, principalmente, a conversa fora e a perspectiva de chamar um táxi e deixar o carro próprio no lugar que lhe é próprio: o estacionamento. Até a noite seguinte.

Temos planos. A começar por leitura especializada – e você, leitor, se enquadra nessa categoria. Quer se candidatar a crítico dessa obra fragmentada entre Terças e Sábados?

Buscamos concursos – e aceitamos sugestões.

Pensamos em organizar esta bagunça – esta com T, de tocante de tão próxima – e criar desvios do blog para seções: “A DINASTIA”, “PAREDES QUE FALAM”, “POEMAS”, “CRÔNICAS”, e outras pretensões. Ficará mais fácil e engenheirístico – face que este autor fará sempre questão de mostrar. Oferecer, não: nem no boxe, onde o adversário é como deve ser um adversário: um saco.

Ficará, de certo, mais bonito, embora desconsertar deva ser - às vezes, pelo menos - o papel da arte. Se não, Nelson Rodrigues não teria afirmado que toda mulher gosta de apanhar nem que ninguém gosta de preto porque nem o preto gosta de preto. Desconsertos assim provocam o que a arte mais gosta de provocar: reação. Do gênero “Eu, não”. E aí a perspectiva de grandes mudanças para melhor, mudando o que e quem – principalmente – deve ser mudado. Grande Nelson. Quem somos nós?

Vez por outra algo que pretende ousar um pouco mais, explorar o belo idioma que nos coube um pouco mais, descobrir suas veias, suas coxas, seu sexo, nuances e buços. Outras vezes a tentar provocar um risinho de canto de boca, uma careta, uma ruga passageira de desconfiança ou curiosidade. Em todas elas, uma cumplicidade.

Com você, leitor. Ou leitora. Você vai bem? Volte sempre, hein?

Por favor.

E obrigado.

8.26.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

18 - PAREDES VASCULARES

O sangue de Rita é um rio de nascente desconhecida. Melhor dizendo, este é um rio de muitas nascentes. A Itália é uma delas, a Alemanha, outra, e não se sabe ao certo quando foi que ele passou pelos m´biguaçu, a lhes fazer os cabelos negros e lisos desse jeito, como, por mais que se esforce o pai dela, nas suas pesquisas de fim de noite, a uma luz muito precária em livros que consegue adquirir em sebos, lá, na sua Porto Alegre, não se conhece ainda quando exatamente toda essa mistura foi ainda açorianada.

A sua cor mulata, que nada tem de mula, ou parda, incapaz de remota parecença com um envelope, cor ainda sem nome que lhe corresponda em beleza e singularidade, conseguiu descobrir seu pai, pesquisador noturno e sem método, ter sido originada por uma paixão de um italiano, aportado para trabalhar em lavoura do Paraná de tempos idos, por uma então recentemente alforriada.

O sangue dela, Rita, que nasceu em Porto Alegre, se manifesta frequentemente por um fenômeno que seu angiologista chama de “flush”, e sua psicóloga, da vitória da espontaneidade sobre a timidez.

Este sangue nos percorre, paredes de seus vasos sanguíneos, sempre ligeiro. Algumas vezes, sobre-pressionado - como agora. Como ela é muito moça, nada de remédios – mas, no futuro, tudo indica que eles serão necessários. (Isso se ela tiver um futuro, porque, neste momento, estamos correndo risco de vida.)

O sangue de Rita ferveu aqui dentro às nove da manhã, por causa da falta de sensibilidade do atendente novato com um curioso por dicionários de bolso; e ao meio-dia, porque Renata implicou com seu sotaque de gaúcha. Rita detesta bairrismos de qualquer espécie, detesta a postura de alguns de seus conterrâneos que vêm para cá e desandam a desdenhar de tudo que há por aqui e considera de uma idiotia patológica essa rixa infindável entre os nativos da Ilha e arredores e a gauchada, - ainda mais que, agora, a enxurrada é muito mais pra paulista e carioca que pra gaúcho e argentino. O que fez seu sangue esquentar a nós e a seu rosto foi exatamente a implicância ter partido da amiga e sócia Renata; mas logo passou.

E ferveu de novo às quatro da tarde. Rita, por um mecanismo que não se enquadra nem na definição do angiologista nem na da psicóloga, percebeu seu sangue em excesso de velocidade, temperatura e pressão depois de ter passado um tempo conversando com Angus. A lateral da sua boca revelou um sorrisinho de dançarina de canções árabes – aliás, seu pai descobriu uma ascendência árabe-judaica na árvore genealógica da mãe dela –, imperceptível para quem não a conhece muito bem. Não nos agrada termos que resistir a fluxos e pressões tipicamente provocados por paixões proibidas e de todo inexplicáveis; como é que o sangue dessa menina pode arder e disparar por causa de um outro tão distinto e distante, celta de origem, escocês de nascimento, a correr nas veias de um baterista grisalho e casado com Cláudia, outra sua amiga e sócia? Há quem veja em situações assim prenúncio de poesia; outros, de traição, ciúme, zanga, cizânia, separação, quebra de amizade, tempestade; nós, paredes sanguíneas, hipertensão.

Só que agora, às nove da noite, o sangue de Rita está mais pra gelado. Dentro de sua cabecinha de tranças, ele lateja, violentamente. Nosso coração está sob forte sobrecarga.

Aqui do nosso lado, nós, vasos do sangue do Velho, desconhecemos se ele andou tomando algum vaso-dilatador, mas de fato estamos mais delatados; e, com a idade que está, com a vida que leva, com o rancor permanente que nos obriga a carregar aqui dentro, são raras as vezes em que seu fluxo sanguíneo se dirige em quantidade suficiente para lhe provocar uma ereção deste tamanho. Como ele não é ninguém de pedir licença, ao se deparar com essa moça de cabelos muitos lisos debruçada no chão, apoiada nos joelhos, apanhando suas coisas que caíram da sua bolsa quando procurava pelas chaves do carro, neste beco escuro e ermo, o Velho preferiu tirar o revolver do bolso da calça, encostá-lo na nuca da moça e ordenar a ela:

- Não fala nada, levanta a saia e arreia as calça.

Rita obedece. O Velho é mais rápido que gostaria e inunda as paredes uterinas de Rita de seu líquido ralo e, para ela, daquele jeito, nada mais que nojento. Quando imagina que vai levar um tiro a queima-roupa, sente um corpo pesado cair sobre o seu. Percebe que seu estuprador está morto. Rita livra-se do incômodo que lhe causa aquele cadáver sobre suas costas virando-se de lado no chão; levanta-se, tira a suéter fina que veste e limpa-se do líquido que lhe enoja. Joga no chão a suéter, acha finalmente as chaves, joga tudo que é seu e estava no chão dentro da sua bolsa, abre a porta do carro e sai em disparada. Arrepende-se de ter deixado o casaco junto ao cadáver do estuprador e retorna; pega o casaco às pressas e volta para o carro, que deixara ligado, com a chave na ignição. Torna a sair em disparada com seu carrinho compacto; já seu sangue, vai aos poucos diminuindo de velocidade.

Em casa, corta com a tesoura sua suéter em tiras e as joga na lixeira do prédio, dentro de um saco de lixo, amarrado como nenhum jamais foi. Agora, toma um longo banho de água muito, muito quente. O calmante que ingeriu sem água, assim que entrou em casa, já está fazendo efeito. Logo estará dormindo. Esperamos que sem nenhum sonho ruim.

8.21.2006

TÉDIO

(1)

E se você fosse um grande entediado
Na estréia de uma Segunda-feira
Uma temperatura extrema
Frio ou calor, tanto faz

E saísse a caminhar na hora do almoço
Tanto faz se frio ou quente o ar lá fora sopra
Sob um sol que só deixou de fora raios
Rajando seu corpo e a calçada

E o céu ficou azul e sem vergonha
E o ar e o sol e o céu levantaram
Mais que saias
Humores

Continuaria assim entediado
Ou faria como eu fiz
– e era frio que fazia –
E jogaria o tédio precipício abaixo?

(2)

Se o problema é esse noticiário
Pior ainda saber que o que está acontecendo
É bem pior do que isso que eles contam
Pode ficar tranqüilo
Isso não é tédio não
É revolta
Não cura com o sol não
Mas o tédio passa
Fica somente a revolta.

Coisa pouca.

8.19.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

17 – BRASÍLIA, SEDE DA POLÍCIA FEDERAL

Diz-se muita coisa de Bernardo por aqui. Nada com fundamento. Tudo indica que ele é um honesto. O racismo aflora: “Negro besta; crioulo metido a branco.”. Uma dupla e pejorativa segregação às vezes acontece: Nego viado.”. Tudo pelas costas. Bernardo ora mete medo, ora respeito; quem fica pelos cantos falando mal não sabe distinguir.

Sem ligar pra nada disso, frustra-se por não conseguir convencer nem o chefe nem a mulher – esposa, como ele se refere a ela - de que deveria retornar a Florianópolis para ir fundo na investigação do assassinato do advogado. A polícia local sozinha não vai dar conta, ele tem certeza disso, embora venha se dando bem com o detetive encarregado, Nildo, com quem fala por telefone pelo menos uma vez por dia – mas sabe que ele tem que se envolver e perder tempo com a raia miúda, roubinhos, assaltos, traficantes de esquina e seus chefetes do morro. Pelo menos, o vandalismo em que se tornou o protesto contra o aumento das passagens em Florianópolis ficou por conta da PM, deixando Nildo fora disso, ao menos isso. Por sua vez, Bernardo conseguiu delegar ou pelo menos compartilhar boa parte dos seus assuntos de rotina – colarinho branco, investigadores corruptos, médio escalão do tráfico –, aos seus dois melhores subordinados. Pelo menos dois são bons, ao menos isso. A mídia meio que já esqueceu da morte do advogado catarinense, apesar da projeção nacional que tinha seu nome. Já o chefe de Bernardo diz achar que ele arranjou um outro motivo para insistir na necessidade de voltar a Florianópolis: “uma alemõa”. Depois, explica melhor porque não quer que ele se afaste: “Fuce daqui o que puder fuçar, sem se afastar dos pepinos nossos de cada dia. Preciso de você aqui, Bernardo. A coisa tá pegando, a imprensa tá em cima, toda hora uma denúncia, você tá sabendo, sabe como é.”. Já a esposa faz ares tristes, de fazer dó, quando ele fala de uma livraria misturada com bar e música e, pior, de uma tal de Flávia, “Tipo interessante, esquisitinha, diferente, muito simpática”.

Mais que digam e desconfiem, fato é que Bernardo sabe conquistar confianças. Bernardo, por olhar sempre nos olhos, ir sempre a fundo, não ter limites para trabalhar, se controlar diante de vedetismos e inseguranças de seus superiores, suportar razoavelmente bem o disparate de desconformidade e heterogeneidade da equipe com que pode contar, buscar sempre o equilíbrio e preparo, praticar esportes, de vez em quando embriagar-se, às vezes consultar uma psiquiatra que lhe prescreva calmantes e antidepressivos que jamais chega a tomar, Bernardo acaba por conseguir ouvir coisinhas, coisonas, até chegar ao que mais gosta: documentos.

Por exemplo, este:

“O advogado nos veio com uma história estapafúrdia. Disse-nos que se encontra em marcha um levante social de centro. Explicou-nos que da Direita não era, da Esquerda tampouco e, por isso, classificou dito e suposto movimento como centrista. Contou-nos que não se prega o nacional-socialismo nem a manipulação da mídia em prol dos economicamente poderosos, como não pretende rompimentos nem com o capital internacional nem com o nacional, nada de re-estatizações, reformas agrárias na marra, lei da mordaça para a mídia, levante das massas ou corrupção da oposição para uma perpetração. ‘O que poderia querer tal movimento?’ – perguntamos ao advogado. ‘Fazer fazer’ – ele nos respondeu. ‘Fazer fazer o quê?’ – insistimos. ‘Fazer com que os políticos façam o que tem que ser feito’. ‘Exatamente o quê?’ – quisemos saber. ‘Reformas do judiciário e do legislativo, educação, combate ao narcotráfico, transporte coletivo para todos os níveis de poder aquisitivo contra essa paranóia egoísta de um ou dois carros por cidadão de posses ou classe média e latas de sardinha mofentas para o populacho, polícia no lugar de bandidos e corruptos, juizes e não venais, políticos no lugar de gananciosos falastrões, demagogos e enganadores. Infra-estrutura e não falsas inaugurações. Arte e cultura e não embuste. Esporte no lugar da roubalheira. Informação e não distorção de fatos. E assim por diante’ – nos enumerou o advogado, aliás, muito empolgado. ‘Querem muito, esses do movimento, hein?’ – provocamos. ‘Sim’ – ele, placidamente, concordou. Depois completou: ‘Querem o justo, o correto; será muito?’. Perguntamos, então: ‘O senhor faz parte desse movimento, doutor?’. ‘Não’ – ele garantiu-nos; mas não sem certo rubor nas faces.”

Bernardo estranha o estilo da redação do documento, sem nenhuma assinatura. Seria de um antiquado? Um regionalista? Sem querer ou de propósito? Digita os algarismos do número do celular do irmão vendedor de amendoins nos sinais do Rio de Janeiro sempre vestido de terno, um criativo por natureza e excelência, um inventivo sempre pode sugerir algo impensável pelos puramente racionais – mas acaba telefonando para a mulher, a quem chama de esposa, que não atende. Coça-se, onde e de um jeito universalmente considerado como de extrema falta de educação. Continua sua leitura:

“Afirmou o advogado de Santa Catarina, em sua tipicamente articulada, empolgada e prolixa fala, que dito movimento apregoa a tomada das rédeas do poder pela sociedade civil, em sua parcela realmente disposta a serrar de vez o ciclo miséria – frustração – vício – ignorância – tráfico – violência – exploração da infância – abandono da infância - burguesia alienada – classe média desesperada ou conformada – deseducação – desinformação – assistencialismo torpe - abutres a se alimentar e desfrutar disso tudo, a ruminar e arrotar isso tudo, a cuspir na cara da população seus perdigotos nojentos junto com seus discursos vazios, seus sorrisos porcos, sua expressões de falsos bons e virtuosos. Garante o advogado - que traiu certo estoicismo que gosta de demonstrar, ao pintar os cabelos – que determinadas empresas e cidadãos já estabeleceram um plano de ação, suas diretrizes basilares, que vão desde a construção de cadeias por conta dos integrantes do movimento até a liberação da maconha. Neste ponto interrompemos seu já inflamado discurso: ‘Liberação da maconha! O que diabos a maconha teria a contribuir para tal movimento? Que espécie de basbaques é essa?’ – perguntamos. E ele: ‘Ainda não consegui descobrir nem quem eles são nem porque exatamente gostariam de liberar o comércio da maconha e muito menos por quais meios pretendem fazer tudo que apregoam.’. ‘E como foi que o senhor chegou a saber o que eles querem se nem sabem quem eles são?’ – argüimos. ‘Encontrei documentos’. ‘Onde?’. ‘Em Florianópolis’. ‘O senhor ainda os tem?’ ‘Sim, os tenho comigo, em meu apartamento de Florianópolis’. ‘O senhor pode nos trazer aqui, esses documentos?’. ‘Posso’. E ele retornou a Florianópolis e ficou de nos trazer tais documentos na próxima semana. Como tendemos a crer mais em provável estado alucinatório do advogado, deixamos que fosse só e assim retornasse. Nenhuma questão fizemos de acompanhá-lo a Florianópolis ou aonde quer que fosse. Maconha e justiça social! Uma Farc? Francamente.”.

Bernardo não achara documento algum no apartamento do morto. Precisava voltar a Florianópolis. Precisava antes descobrir em que computador fora digitado aquele relato, de quem seria aquele relato. Precisava falar com seu chefe, sem mostrar a ele o que encontrara; já não sabia em quem confiar. Foi para casa, atônito, pensando em tomar um calmante, dessa vez. Ou então um avião. Para Florianópolis. Claro.

8.15.2006

SOCIEDADE ANÔNIMA

Era só o começo. Era antes.

Os órgãos de comunicação atuantes no país foram advertidos de que qualquer tentativa de manipulação da opinião pública, omissão, divulgação irresponsável e/ou falsa de notícias seria respondida por ampla divulgação via organismos paralelos independentes e um boicote generalizado. A iniciativa privada acabou por acatar o convite para que provesse os recursos para o combate ao crime organizado e seus derivados, parcialmente como investimento, parcialmente como substituição de impostos – primeiro, unilateralmente decidida; depois, divulgada e negociada com o poder público. O repasse de verbas foi através de um fundo gerido por particulares e publicamente auditado por vários dos mesmos anteriormente advertidos veículos de comunicação.

Enquanto o poder público continuava a abarrotar as já hiper-lotadas cadeias, parte daqueles recursos da iniciativa privada possibilitou contratar a construção de maiores e melhores presídios. Sua expansão era planejada por meio de estatísticas, continuamente aferidas no decorrer dos fatos. Nas novas prisões, à exceção de desbalanceamentos momentâneos, só toleráveis por um ou dois dias, nunca uma cela seria habitada por mais nem menos que três presos – porque um, mais que pouco, seria caro; dois, uma fórmula boa demais para a cumplicidade revoltosa; a partir de quatro foi considerado superpopulação; e a infância mostrava que dois geralmente se aliam e alijam um terceiro, que passa a se defender, minando os planos dos outros dois. Foi instituído o trabalho remunerado para presidiários. Parte da remuneração ia para as famílias dos presos e parte era depositada para uso deles, depois do cumprimento de suas penas. Nos presídios, toda e qualquer conversa telefônica passou a ser ouvida e automaticamente gravada, em tempo real, local e remotamente, sempre com o conhecimento prévio de quem conversava. Posteriormente, essas práticas incorporaram-se à legislação. Apesar do veemente protesto de alguns setores da sociedade informada e instruída – “Assim, todo mundo vai querer ir pra cadeia” -, insistiram em programas de educação e re-enquadramento social. “Sangue bão” foi uma das expressões que desapareceram. A reclusão e reorientação de menores de 16 anos infratores baseou-se em substancial assistência médica, psicológica e educacional. Casos tidos como patológicos e sem retorno foram encaminhados para centros de reclusão especiais, onde o exercício de atividades produtivas era incentivado. Do lado de fora, por meio da gestão de instituições religiosas previamente analisadas, investigadas e qualificadas, desenvolveram-se programas de assistência a viciados para maximizar a cura e minimizar a dependência. Agências de propaganda e marketing realizaram, por conta própria e sem remuneração, campanhas de educação e alerta contra o uso de drogas pesadas. A maconha foi liberada. A exploração de pontos para a sua venda foi concedida a ex-traficantes cumprindo penas em regime semi-aberto, compatíveis com seus atos praticados no período do tráfico, desde que estes não incluíssem crimes de morte, tortura ou seqüestro. Todas as demais drogas traficadas foram mantidas na ilegalidade e assim combatidas, até que índices do nível de educação e qualidade de vida da grande maioria da população alcançassem padrões mundialmente tidos como satisfatórios. Já com o envolvimento do poder público, para combater o tráfico remanescente, o armamento, preparo e remuneração das forças armadas federais e das polícias federal e estaduais teve incremento expressivo, simultaneamente a estratégias de aceleração de substituição, julgamento e punição dos corruptos. Diminuição da pena, programas de reabilitação e re-enquadramento social, proteção e troca de identidade foram concedidos a alguns criminosos, em troca de confissão e delação. As fontes de renda foram ainda suplementadas por meio do reingresso incentivado e condicional de dinheiro anterior e ilicitamente expatriado, perdão parcial e condicional à sonegação e aporte voluntário de pessoas naturais do país e exterior. Para inibir a continuada proliferação do vício, organizações não-governamentais passaram a prover assistência psico-social a famílias ou pessoas de baixa renda e/ou de desempregados e também àquelas que se candidatassem ao programa em troca de trabalho voluntário ou a contribuir com recursos, financeiros ou não.

Tudo em meio a tenebrosos atos de terror. Em resposta, persistência.

Nomes de candidatos corruptos circulavam em listas, na mídia e boca-a-boca, especialmente nas regiões mais ermas e/ou de analfabetismo pronunciado. Eles ocupam hoje algumas das celas das novas prisões. Sempre em número de três.

Grandes fornecedoras de obras e serviços públicos foram convencidas a firmar de público um pacto que liquidou com velhos esquemas de corrupção e acerto prévio do resultado de concorrências. Inibiu novos. Funcionários públicos de histórico honrado foram prestigiados com homenagens e aumento de salários. Agências supra-partidárias foram encarregadas da gestão da carreira do funcionalismo público, que passou a competir em perspectivas de ascensão por mérito e resultados com as típicas do setor privado. A demissão de funcionários públicos incompetentes e não dispostos a progredir e colaborar passou a ser praticada. Empresas estatais e privadas concordaram com a criação de um fundo para desempregados, preparando os dispostos ao reingresso no mercado produtivo e suportando-os minimamente até que ele ocorresse.

Para a remodelagem estrutural do país, com o poder público já devidamente ciente de suas atribuições e responsabilidades e com uma visibilidade jamais vivida de seus atos, com verbas da parcial ou integral concessão à iniciativa privada da exploração de empresas públicas por prazo determinado, regulada por agências supra-partidárias fortalecidas, além da proveniente de uma racional reforma tributária, foi implantado um amplo programa de valorização do magistério, com ênfase nos salários e no preparo. A complementação educacional a domicílio foi oferecida a famílias e pessoas de baixa renda e/ou sem acesso a expressões artístico-culturais. Banidos foram os exames de avaliação de cursos por meio das provas a que se submetiam seus alunos e ex-alunos. As cotas para minorias foram substituídas por cursos de preparação para o vestibular para os estudantes em escolas públicas, até que estas atingissem o devido grau de competitividade com as particulares.

A verdadeira droga foi finalmente banida: a ignorância.

Antes era só o começo. Antes era 2006.

8.11.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

16 – NÓS E OS ESTÓICOS

(I) A CASA, TEMPOS ATRÁS, RIO DE JANEIRO

As meninas brincavam na sala íntima do segundo andar da casa. Uma porta entreaberta lhes fez ouvir parte de uma conversa dos pais. De palavras como caterva, estróinas, proxenetas, aleivosos, canalhas, somente uma foi compreendida pela mais velha: abutres. E acabou por explicar para a mais nova o que era, afinal, um abutre, e a inventar significados para as demais que sequer entendeu ou, então, decretar, Ah, Flávia, você não tem idade para entender essas coisas. Foi neste instante que a irmã mais velha de Flávia, Maria Eduarda, percebeu que a caçula e a amiguinha um pouco mais velha andaram escutando o que o pai dizia para a mãe no quarto deles. Sem a menor cerimônia, foi até a porta do quarto deles e a fechou.

(II) UMA VIATURA POLICIAL, FLORIANÓPOLIS

Nildo se irrita com o colega, fazendo loas à moral e aos bons costumes, à ética, à honestidade. Sabe que o sujeito é corrupto e nada politicamente correto como ele, Nildo, que prende todo e qualquer traficante de êxtase, cocaína, heroína, só livra a cara e fica com um pouquinho da receita de aviãozinho besta, que oferece fuminho para baseado. Bola, sim; tirinho, nunca. Mais de uma vez já se encrencou por causa dessa postura; anda, inclusive, jurado de morte por um grandão do tráfico. O que mais lhe irrita, na verdade, é saber que aquele sujeito foi esperto o bastante para se tornar pastor da Igreja Vinde a mim as criancinhas. De cara, no final de semana, Nildo já deu com ele de carro novo, zerinho. Nenhum BMW, um carro pequeno de quatro portas, mas com ar e direção. Safado! – Nildo pensa e não diz. Se fosse Bernardo em seu lugar, classificaria o desafeto de Nildo como um moralista metido a estóico. Nildo prefere mesmo é “safado”.

(III) A CASA DE NILDO

Nildo lê em voz alta uma cópia da lista de características da vítima de Antônio, que Bernardo deixou com ele antes de ir para Brasília, avisando-o que voltaria em breve e pedindo que Nildo o mantivesse informado sobre qualquer pista que pudesse levá-los ao criminoso:
§ Lavava as mãos e o rosto várias vezes por dia;
§ Não suportava apertar a mão de ninguém, especialmente as suadas;
§ Nunca se casou, nem se sabe de casos amorosos em sua vida inteira;
§ Freqüentava bordéis em qualquer cidade em que se encontrasse, inclusive nas onde residiu;
§ Pescava;
§ Era católico fervoroso, embora angustiado por dúvidas filosóficas e estruturais extremamente complexas (Nildo, neste ponto da lista, faz uma pausa e olha para a mulher, que também está nua, deitada e descoberta na cama. Ele faz uma expressão de não ter compreendido aquilo muito bem – o que será que o Federal quis dizer com “dúvidas filosóficas e estruturais extremamente complexas”? Nildo benze-se. Sue Zana sorri e levanta as pernas em V e depois as põe de volta sobre a cama. Ele balança a lista com a mão, faz um ar de quem diz Assim não vale, e retorna à lista onde parou:)
§ Tomava três banhos por dia, fosse inverno ou verão;
§ Pouquíssimos amigos;
§ Trajes formais - ternos, sempre pretos;
§ Grande clientela, que o tinha como extremamente correto, simpático e competente;
§ Empregados fiéis e temerosos de seu ar sempre sisudo;
§ Fazia ginástica em casa e seu físico e sua saúde estavam em grande forma;
§ Ouvia ópera;
§ Fazia suas refeições só, comia pouco e com equilíbrio e, sempre que possível, em casa;
§ Bebia vinhos alemães ou italianos, diária mas moderadamente;
§ Viajava de primeira classe ou, no mínimo, classe executiva;
§ Teve infância modesta;
§ Antes, durante e após a faculdade, leu Marx, Engels, Mao Tse Tung, Churchill e Hitler, como extensa obra biográfica dessas personagens da História. A tudo leu – à exceção do chinês – em seus respectivos idiomas;
§ Na faculdade, isolou-se de seus colegas que protestavam contra a ditadura – e tudo indica que sempre viveu em regime de quase absoluto isolamento;
§ Nenhuma evidência – nem mesmo suspeita – de que tenha participado de qualquer movimento ou iniciativa que fosse – de conspiração, delação, boicote, terror, guerrilha urbana ou rural – a favor ou contra a ditadura militar;
§ Viciado em Antônio Vieira, Machiavel, Tolstoi, Sheakspeare e Ezra Pound (volumes repetidos, às vezes, a mesma edição);
§ Considerável biblioteca de Direito (cerca de 1.500 obras);
§ Livros empilhados na mesa de cabeceira do quarto do morto com marcações de páginas recentes e anotações às margens dão a entender que, pouco antes de morrer, (re?) lia Keynes, biografias de Adam Smith e Ricardo e, novamente, Marx;
§ Só usava canetas-tinteiro;
§ Usava abotoaduras;
§ Suas camisas eram abotoadas até o colarinho, mesmo nos finais de semana e mesmo em suas pescarias – quando usava um chapéu de palha e botas de camurça;
§ Bíblias em todos os ambientes das suas residências, incluindo cozinhas e banheiros;
§ No banheiro do apartamento de Florianópolis, além da indefectível Bíblia, uma antologia de Bocage;
§ Costumava jogar no lixo seus lençóis - freqüentemente, com menos de uma semana de uso -, molhados;
§ O mesmo fazia com suas cuecas.

Nildo balança a mão com a lista, sai pelado porta e corredor afora. Sue Zana levanta-se e veste um roupão. Vai a janela e grita:

- Nil-do! Vai chover!

8.08.2006

DE CABRITOS E CANIVETES

“Bom cabrito é o que não berra” - será verdade?

Aquela viagem pelo interior, que incluiu estradas rurais ou coisa parecida – mais pra coisa parecida -, trilhas a pé, rios, percurso de barco - tudo a trabalho, nada de eco-turismo -, iniciou-se por sugerir uma prosa sobre cabritos (lembrando que bodes são muito espaçosos).

Antes do almoço, corcoveando dentro de uma camionete que era pra ser confortável, proseou-se sobre a provável reeleição do executivo-mor. Constatou-se que o excesso de sua exposição na mídia é que lhe esgota a inspiração para tiradas de efeito. Já do lado de quem as ouve, a paciência é que vai agonizando. Essa experiência já foi vivida com o mandatário anterior; tudo indica que a viveremos outra vez. Do lado do mandatário, portanto, constatou-se que bom cabrito é o que não fala.

Enquanto almoçavam em acampamento de obras bem no meio daquilo tudo, mata, rios, um calor seco sob nuvens a ensaiar uma chuvinha que não viria, falaram do barco no qual pretendiam navegar dali a algumas poucas horas:

- O motor anda bebendo demais.
- Não vai dar pra ir e voltar.
- Claro que dá.
- Ce tá louco, sô; não dá, não.
- Dá.
- Não dá.

E continuou aquela discussão de cabritos roucos, absolutamente inaudíveis, nenhum capaz de convencer ao outro. Aliás, ninguém ali era cabrito, eram pessoas vividas, experientes. Sem ofensa, estavam mais pra bodes. Se havia algum cabrito, era justamente o barqueiro, cuja opinião sequer era ouvida, que dirá considerada. Pra convencer bode, cabrito tem que ser muito bom de berro.

Depois de novas trilhas a pé e quase-estradas na referida camionete que era pra ser confortável, fizeram seu trajeto no referido barco. Na ausência de coletes salva-vidas, a tranqüilizar a todos, um par de remos. E um homem não é muito mais que um par de remos.

As águas, a paisagem, tudo aquilo foi ressuscitando corpos e mentes cansados do poder e da falta dele. E homens não são muito mais que sua ressurreição.

Que bode ou cabrito foi que venceu a discussão, ninguém sabe - mas a gasolina do barco acabou, no meio do percurso de retorno.

Quem pratica boxe conclui, precipitadamente, que um homem não é muito mais que suas luvas de boxe. Já quem anda de bicicleta entende que um homem não é muito mais que sua bicicleta – tanto assim que sempre se pergunta: casar ou comprar uma?

Porém, nem luvas de boxe nem bicicleta as havia.

O barqueiro revelou:

- Tem um pouco de gasolina no tanque e um pouco mais nesta vasilha – e perguntou:

- Alguém tem um canivete?

Sem ter a menor idéia da utilidade que poderia ter um canivete naquele instante, o mais peixe fora d’água de todos, nascido e criado em beira de praia de cidade grande, respondeu:

- Sim. Eu tenho um canivete.

E aí lhe foi dada a divina graça da revelação: seu canivete serviria para cortar o fundo de uma garrafa plástica de água mineral; esta, depois de cortada, se prestaria como funil entre a vasilha avulsa com gasolina e o tanque do barco, a fazer o motor à explosão explodir à vontade outra vez, pondo o barco a navegar de novo e de volta à terra, prometida e quase-firme.

Foi assim que ficou provado que – sem entrar no mérito da ressurreição -, um homem não só não é muito mais que seus remos, luvas de boxe e bicicleta, como, definitivamente, um homem nada mais é que seu canivete.

Portanto, minha amiga, da próxima vez que seu namorado lhe convidar a um motel, antes que alguma coisa deixe de funcionar, pergunte a ele:

- O canivete veio?

Ou fique a ouvir bodes e cabritos.

8.05.2006

PAREDES QUE FALAM - NOVELA DE MARIO BENEVIDES

15 - A CASA DE NILDO E SUE ZANA; NOSSA AUSÊNCIA; NOSSA DISTÂNCIA

Nildo acorda querendo um dia de vitória. O começo é frustrante, pois Sue Zana já não está ao seu lado: prepara o café da manhã na cozinha.

Nildo sente ligeira dor de cabeça, possível remorso pelo excesso de cerveja da véspera e certeiro cansaço da semana inteira, que incluiu um plantão, uma perseguição, uma escuta, várias dúvidas e inseguranças.

Levanta-se, vai ao banheiro. Retorna ao quarto, onde apanha seus pesos de ginástica. Exercita bíceps, tríceps, alonga-se, faz frenéticos abdominais. Toma café na copa com a mulher, que lhe diz ter tido insônia, sonhou com o pai, pedindo que fosse ao encontro dele.

Nildo, de calção, tênis sem meia e sem camisa, vai só até a rua e corre veloz, aflito, desatento, até aproximar-se da baía, quando diminui o ritmo, respira a maresia, tem adoração pelo mar.

Pensa na vida, na carreira. Ama desesperadamente em pensamento a mulher, Sue Zana. Arrepende-se das amantes que teve – mas não muito, porque lembra da aventura e do prazer experimentados; e do medo experimentado e do desconforto e desgosto experimentados – respectivamente, do medo de que fosse descoberto por Sue Zana ou pelo marido da amante ou pelos dois, em pelo menos um dos casos com mulheres casadas que manteve; desconforto, da insistência de uma das amantes recentes, mulher fina e bem de vida em seus sessenta anos, tanto da presença dele quanto de que ele se esforçasse para realizar seu projeto de progresso pessoal, que confessara a ela, de fazer uma especialização em INVESTE – Investigação Tecnológica -, oferecida por uma instituição internacional de origem venezuelano-cubana, com a qual o MST mantém laços (Nildo tem amigos informantes e infiltrados no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, desde que passou a fazer um extra, pago pelo seu chefe delegado, que enriqueceu e comprou umas terras em Goiás); desgosto – o sentimento mais freqüente – de perceber que dificilmente mulher diferente de Sue Zana terá, com ele, tamanha identificação, para com ele, cuidado e carinho, para ele, maior satisfação, principalmente sexual. (Naturalmente que isso tudo são palavras a tentar traduzir a mente confusa de uma pessoa; pouco provável que alguém pense de forma organizada.) Ao notar que está só, chora, com o rosto entre as mãos, de remorso doído, de todas as vezes que foi grosseiro e rude com a mulher. Distrai-se, respira a maresia novamente, volta a casa devagar – e se admira com o casal de gordos na motocicleta que passa lenta, rente à calçada onde ele caminha.

Na absoluta ausência de paredes, Angus e Cláudia passeiam beirando a baía, sem saber que aquele sujeito caminhando lento e cabisbaixo, sem camisa e sem aparentar sentir frio, é o policial civil Nildo, já freqüentador da livraria e bares dos quais Cláudia é sócia, bares onde Angus é baterista de uma banda de ótima qualidade. Sabem menos ainda que o que vai agora pela mente daquele homem simples, cheio de vida, vícios e virtudes é uma lista que agora ele tira do bolso do calção e lhe foi fornecida pelo policial federal Bernardo – outro que andou freqüentando bares e livraria de propriedade parcial de Cláudia –, com características e fatos garimpados da vida do advogado assassinado recentemente do lado peninsular da cidade, igualmente à beira-mar, pertinho desta mesma baía. Bernardo retornou temporariamente a Brasília e quer que Nildo investigue possíveis suspeitos com base naquela lista. Nildo está acostumado a perseguir suspeitos e não a descobri-los, baseado em dados das suas vítimas. Tudo é confuso para Nildo; e é seu dia de folga.

Todos os três desconhecem completamente que uma das sócias de Cláudia presenciou a morte sob investigação – e que a mesma sócia, Flávia, sonha agora em realizar algo que está perfeitamente ao alcance dela: Flávia quer cantar nos bares dos quais é uma das proprietárias; quer por fim à timidez de anos, de que sofre em silêncio, que não a permite revelar sua voz, sua parecença de timbre com a de uma das mais célebres cantoras de todos os tempos: Billie Holiday.

Nenhum deles sabe que, de mãos dadas, nas proximidades do local em que cometeu o crime, Antônio e sua recentíssima paixão, Sílvia, passeiam, do outro lado da mesma baía, nessa tarde iluminada pelo sol de julho.

E que, cerca de 1.200 km ao norte, a irmã de Flávia, Maria Eduarda, dorme de bruços, ao lado de Rogério Bravo, poeta em crise de inspiração, seu namorado. Mas, se lhe anda faltando inspiração para escrever, para amar, não. A irmã de Flávia dorme feliz; Rogério contempla o sono da amada.

8.01.2006

A ESCOLHA É SUA

Se você pudesse escolher, claro, passaria a vida de bom humor. Aquele estado de espírito que mantém você bem disposto, uma alegria pertinho da superfície, pronta para aflorar à mais fraquinha das piadas. Você, aliás, hoje, está um ótimo contador de piadas. Contador, que nada: inventor. Você – com este seu bom humor – está afiadíssimo, criativo, tudo é oportunidade para uma grande tirada. Seus amigos percebem, ficam olhando pra você com um ar de O que foi que deu nele? - já percebeu? Você já acordou assim, de bom humor. Foi carinhoso com a mulher, brincou com o cachorro, nem se importou de ter pisado no cocô que ele fez no tapete novo da sala. E olha que você estava descalço. Foi pro trabalho a pé, de tão bem disposto, e não houve nada de novo, não. Nem hoje, nem ontem: nenhum aumento, promoção, nova oportunidade, nem mesmo uma insinuação da gostozona que voltou de férias. Nada disso, pura rotina, pura, rasa, medíocre mesmice; e você não é medíocre pra gostar da mediocridade nem da mesmice - tanto assim que, vira e mexe, se irrita com essas duas, quer mudar tudo, fazer tudo diferente. Fica até de mau humor. Mas hoje, não: nada abalou este sorriso envolvente. O papo da mesa é que está ficando um pouco chato, engraçado, todos estavam de bom humor, você – especialmente - estava tão bem humorado, o que foi que fez você mudar de humor assim de repente?

Podendo escolher, não perderia seu tempo procurando um livro interessante quando as livrarias só oferecem Como manter a calma, Como vencer na vida, Como vencer o stress, Como ter sempre bom humor, Como ser líder em vez de chefe, Como chefiar seu chefe, Como comer e emagrecer, como, como, como, o quê, o quê, o quê... Quem? Você? Quando?

Aquela revista já traz pergunta e resposta na capa: “COMO ACABAR COM O CRIME ORGANIZADO? SEIS PASSOS INFALÍVEIS, BASEADOS NA EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL E NA LÓGICA DE ESPECIALISTAS”.

Se você pudesse escolher, iría pra casa agora, amaria sua mulher perdidamente, deixaria a TV ligada no programa que fosse o mais imbecil de todos – sem perder tempo com essa terrível escolha -, comeria batatas fritas e dormiria sobre a cerveja derramada, um pé com a meia, o outro, sem. Sua mulher está, de fato, ao seu lado, mas algo rodeia você, sai de dentro da sua cabeça e passeia à volta da sua cabeça, lhe expõe cenários de vida e de morte, dos caminhos de poder - poder subir, parar, desaparecer, meter a porrada no primeiro que se atrevesse. Sua mulher se queixa de um cansaço que afirma nunca ter sentido, um vazio, uma vontade de chorar, ela não sabe expressar bem o que está sentindo. Perguntar se não é TPM seria reduzi-la a alguém sem escolha; você não faz isso e, se pudesse, daria um abraço nela, diria a ela, amanhã é outro dia, você vai ver, isso passa, tudo se resolve, é só ter calma, já passamos por tanta...

Na TV, um exército dizimou trinta e sete crianças.